quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FIM DE ANO: UM ANO QUE PASSOU E O ANO QUE VEM!

"Adeus ano velho, feliz ano-novo..."! Na minha compulsiva mania de escrever, ao olhar para este blog e verificar mais de setenta postagens, envolvendo artigos dos mais variados, cheguei a seguinte constatação para mim mesmo: "É, cara, você é um desocupado criativo, mesmo! Como é que conseguiu escrever tantas besteiras no decorrer do ano e ainda ter o talento de fazer com que algumas pessoas leiam?". Entendo que a experiência dos blogs começa como uma terapia ocupacional: inicialmente a pessoa escreve pra si mesma, talvez como forma de ocupar o tempo, ou pra simplesmente extravasar o stress de sentimentos inauditos, de barulhos interiores, fantasmas ou monstrinhos que podem ser exorcizados por meio de palavras: versos, poemas, canções, relatos ou simplesmente comentários toscos sobre se vai chover ou fazer frio numa ensolarada ou gélida Porto Alegre, ou não. Aprendi com este blog o exercício do autorrelato associado à reflexão que pude compartilhar, nem que seja de forma oblíqua,com todos aqueles que leram meus escritos, e puseram comentários ou não.

Posso dizer que na atividade estreante de blogueiro, desde o começo de 2009, pude desnudar a mim mesmo, tornar-me acessível para alguns ou mais ainda misterioso para outros. Fiz amigos, encontrei respeitáveis oponentes, reencontrei pessoas que há tempos não me viam e pude exercitar algo que me foi ensinado por meu pai na tenra infância: o prazer pela leitura e pela escrita. Louvo o meu velho, Antonio William Alves, que não vejo há tempos, em função da distância geográfica, pioneiro na família na comunicação blogueira, já que foi ele (bem antes do que eu) que iniciou a vereda virtual de difundir seus deliciosos escritos pela internet, mediante o blog "Reminiscência do William" (http://www.reminiscenciadowilliam.blogspot.com/). A ele devo tudo: minha formação, caráter, intelecto, pois foi ele quem me introduziu ao mundo das letras quando me deu de presente o meu primeiro gibi quando criança, onde realmente iniciei minha alfabetização. Depois vieram mais gibis, livros, dicionários, enciclopédias, almanaques, revistas, que eu devorara avidamente, com minha sede de conhecimento e informação. Creio que mais do que os tradicionais brinquedos de Natal que recebiam as crianças de seus pais ou quando estes voltavam de viagem (caso do meu pai, que trabalhava embarcado), o maior legado de meu velho pai trazido a mim foi a leitura, e a vontade de escrever sobre tudo e sobre todos. É, meu velho! Posso não ter virado uma autêntica "autoridade" no nosso belo quadro social de juízes, empresários, engenheiros, médicos e empreendedores, mas me tornei o que eu sou, e do que mais gosto: um cara curioso, que gosta de ler, escrever e compartilhar de sua escrita. Posso ter me tornado um poeta, um filósofo, um professor; ou, tão e simplesmente uma besta quadrada ou doido varrido. Porém, sou feliz na minha condição.

2009 agora termina ao som dos fogos, que para alguns acaba virando caso de polícia, em virtude dos acidentes e de danos produzidos pela ação dos mais incautos no uso dessas substâncias explosivas. Por outro lado, 2009 termina ou assistindo solitariamente na TV mais um insosso Programa do Faustão, anunciando a virada do ano, ou na alegria dos mais afortunados (como eu, u-lá-lá) que podem presenciar coletivamente a apoteótica queima de fogos, anunciando o novo ano, às margens de alguma praia do litoral nacional (seja em Copacabana, Boa Viagem, Porto Seguro, Ponta Negra, na Usina do Gasômetro ou na Avenida Paulista). De qualquer forma, para os endinheirados a bordo de seus cruzeiros que estouram seus champagnes, para os trabalhadores à beira-mar que depositam suas flores e esperanças nas águas em tributo a Iemanjá, para as famílias de classe média em torno de sua ceia de ano-novo, para a dona-de-casa que tão e simplesmente ora ao pé da cama, e dorme sonhando com um ano melhor e que seus filhos não sejam vítimas de uma bala perdida, ou para o sem-teto, bêbado, de dentro de sua caixa de papelão, 2009 pode ser apenas mais um ano, um ano que passou, enquanto 2010 é apenas um número que sucede outro. Para os vencedores, a glória de comemorar as vitórias no ano vencido, para os perdedores, a crença da volta por cima no ano vindouro.


Parodio aqui a frase de uma inteligente e encantadora criatura que tive o prazer de conhecer este ano que passa, que postou uma mensagem interessante, que tomo a liberdade de transcrever aqui em meu blog: "que em 2010 sejamos capazes de virar páginas e chutar baldes". É isso aí! Nada mais lapidar, direto e genial! Uma verdadeira apologia do espírito do ano-novo. Nada tão e simplesmente de roupas brancas, novinhas, de barrigas empaturradas de galináceos ou do porre sugestivo de champagnhe, cerveja ou vinho. O futuro sempre se apresenta como desafio, como um recado ao passado, ou como um obstáculo a ser transposto. A vida é assim! "Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender". Sim, mas só se conseguirmos efetivamente entender o recado de nossa amiga, levantar, sacodir a poeira do ano que se despede e encarar com os olhos voltados para a frente o ano que vem chegando, sem nunca olharmos para trás com pesar, as vitórias e derrotas passadas, pois estas já foram deletadas na tecla "backspace" do tempo. Um ano novo que se aproxima, para os que ainda tem fé e acreditam, não é apenas mais um ano que ficamos mais velhinhos, mas sim uma vida nova que se apresenta, sempre como uma novidade, sempre como um mistério, sempre como o inesperado, sempre como um desafio. Que bom que possamos sempre aguardar a expectativa de no ano seguinte conhecermos novos lugares, experiências, sentimentos e pessoas. Que bom que, apesar de tudo, o mundo siga o seu rumo! Que bom que seja assim!



Portanto, nessa mensagem de fim de ano, desejo, do fundo do coração, a todos os leitores do meu blog, para os leitores crônicos ou para os transeuntes, um feliz 2010 carregado de significados, carregado de esperança, e, sobretudo, carregado de atitudes. Que em 2010 tenhamos sempre a atitude de afugentar o baixo-astral, sacodir a mesmice, reinventar a roda, nem que seja tão e simplesmente escrevendo um novo artigo, sobre novos assuntos, num obscuro blog de um desconhecido escritor semi-quarentão. Enquanto isso, vou aqui, na virada do ano, escutando no meu I-Pod, a bela e sensível canção da banda norte-americana Kings of Leon, intitulada Revelry (Reveillon em inglês), curtindo em meu coração as minhas paixões. FELIZ ANOOOO NOOOOOVOOOOOO!!!!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

DIREITO: Caso Sean-Parte II: A vitória do Direito Internacional Privado sobre o Direito Internacional Público(ou sobre o Direito Constitucional)

O drama do menino Sean Goldman, de dupla nacionalidade (norte-americana e brasileira), já comentado aqui durante o ano neste blog, parece que mereceu as tintas de capítulo final, ao menos em solo brasileiro, visto a recente decisão do STF. Parece que David Goldman, pai da criança, assim como a mídia e o governo americano obtiveram sua derradeira vitória, com a iminente partida do garoto para a terra do tio Sam.

Vou evitar aqui ao máximo ser contaminado pela parcialidade, pelas impressões do senso comum e por meus próprios sentimentos pessoais quanto à emoção que me produziu o caso, tentando superar minha antipatia em relação à cultura yankee e contra o próprio pai de Sean, pela forma como ele conduziu todo o processo de busca do filho no Brasil, movendo um verdadeiro circo midiático para obter seu tão sonhado interesse de pai ( com direito à pitadas demagógicas de um sentimento de vitimização, captado pelas câmeras de televisão, bem como com ruidosos comentários preconceituosos e xenófobos praticados pela mídia norte-americana, em relação aos brasileiros).

Como sabemos, David Goldman vinha durante anos tentando recuperar a guarda de seu filho, outrora subitamente retirado dos Estados Unidos (terra onde nasceu) por sua mãe, a brasileira Bruna Bianchi, e agora recentemente falecida após o parto de sua filha, tida de seu novo relacionamento com um advogado brasileiro. Sei que, aparentemente para os que estão de fora, e acompanharam pela TV esse drama familiar, ambas as partes erraram (tanto o pai de Sean quanto à falecida Bruna e sua família) quanto à condução de um caso que irá gerar sequelas morais e feridas sentimentais durante anos, entre todos os envolvidos, principalmente para o menino Sean. Fico realmente com pena do garoto, muita pena mesmo, até porque deve ser duro para uma criança de dez anos ter perdido a mãe precocemente, sair do anonimato para então se tornar, contra sua vontade, uma estrela midiática, e ainda por cima ter agora que superar uma ruptura abrupta de sua vida, ao ter que voltar ao território americano, abandonando os primeiros referenciais familiares e sociais que desenvolveu em vida, separando-se de parentes, amigos e do país que o acolheu e foi responsável pelos primeiros traços de sua personalidade e formação moral.

Sou filho de militar, e nessa condição, senti o quanto às mudanças abruptas de uma rotina pessoal podem ter um impacto significativo da formação da personalidade e no desenvolvimento moral de um pessoa. Passei praticamente minha infância inteira e metade da adolescência mudando-me de cidade para cidade, totalmente desenraizado, em função da profissão de meu pai, e todas as vezes em que eu começava a patinar socialmente, construindo minhas pontes com o mundo, com cenários familiares, amigos e um senso de identidade local, repentinamente tinha que partir, mais uma vez tornando-me incapaz de estabelecer vínculos duradouros com as pessoas que me rodeavam, e sei o quanto isso me afetou! Para o bem e para o mal essas mudanças contribuíram para o que sou hoje, e se sou capaz de refletir aqui, em meu blog, sobre assuntos tão díspares quanto minhas experiências pessoais e sentimentos, tanto quanto a relação que eles mantém com um assunto de relevância jurídica nacional, é porque meu intelecto e a capacidade de escrever estas linhas acerca desse polêmico tema se derem à custa de muita superação e sofrimento.

Tornei-me, na minha rotina de ser desenraizado (que não se sintam culpados meus pais), um sujeito inicialmente tímido e desapegado, incapaz de estabelecer relações mais sérias com as pessoas ( o que trouxe grande repercussão na minha vida afetiva, no futuro), justamente por ter construído em meu inconsciente, um cenário em que defesas internas eram criadas quanto ao sofrimento da perda e da saudade, uma vez qu pensava não ser mais possível gostar de uma pessoa e tê-la como meu próximo, meu amigo, porque eu sabia que há qualquer momento eu poderia partir e nunca mais ver tal pessoa. Então, pensava: "pra que ter amigos se eles logo vão desaparecer da minha vida, já que tenho que me mudar?". Isso foi ruim, muito ruim, e vivi um longo tempo solitário e sem fazer amigos, justamente porque preferia a companhia solitária de meus livros, discos, revistas, fitas, filmes, que até hoje povoam minhas estantes repletas, acompanhando-me por todo lugar onde vou, e que contribuíram, ao menos positivamente, para transformar aquele menino arredio, num homem intelectualizado, sensível, que exprime hoje suas emoções e reflexões teóricas através da palavra escrita. Tendo, ao menos, uma válvula de escape que me livrou da solidão. Quem diria: virei escritor!

Agora, voltando ao assunto de Sean, fico imaginando da mesma forma, em escala superaumentada, como é que esse menino vai conseguir superar o rompimento que agora foi estabelecido oficialmente pela Justiça Brasileira, do mundo que até então vivia e conhecia, voltando para um país que na verdade é seu de origem, mas que psicologicamente e socialmente já não construiu mais nenhum vínculo com ele. Imagino o garoto, sorumbático, embarcando num voo em direção a New Jersey, mimado pelo pai, na tentativa de animá-lo, simplesmente atônito em acordar no outro dia numa cidade e num país diferente, tendo que arcar com o difícil processo de readaptação num país que já foi seu. E olha que de readaptação eu conheço, e é um saco!! Se eu sinto isso agora como adulto, imagina quando eu era criança.

Logo que começou a balbúrdia midiática acerca desse caso, tive uma conversa animada com dois amigos, colegas professores: ele, psicólogo; ela, advogada. Perdi no 2 x 1 em relação a eles, no sentido da tomada de posições quanto ao polêmico caso. Ouvi todo tipo de argumento: seja ele jurídico, psicológico ou não. Disseram-me que era direto inalienável do pai ter de volta o filho, já que foi ele quem gerou (ué: filho agora é gerido pelo direito de propriedade? Voltamos ao direito romano?), e não competiria ao padrasto o direito à "guarda sentimental" ,como se refere a jurisprudência, justamente porque não foi ele quem gerou (disseram-me, inclusive, que se o padrasto de Sean quisesse um filho, que fizesse um!). Fora o argumento simplista, apesar de eu estar afirmando a mesma coisa que escrevi há pouco, dizendo do quanto que é dolorosa uma ruptura abrupta de uma vida afetiva e familiar, retirando-se o menino de seu lar brasileiro, desenraizando-o violentamente de sua antiga vida, fui surpreendido com o argumento de que "criança não entende nada porque ainda não tem personalidade formada", e que não caberia à Justiça ouvir o menino, pois toda criança se acostuma com mudança de vida. Então, tá!! Criança não opina nada. Mesmo numa sociedade de informação onde cada vez mais nossos meninos e meninas estão mais precoces intelectualmente. Não sou educador infantil e nem filhos tenho! Mas, pô, faça-me o favor, crianças não são idiotas!

É justamente por defender os interesses da criança, na órbita dos chamados interesses difusos protegidos por garantias fundamentais, segundo o novo constitucionalismo, e não por entender ser o caso de Sean uma mera querela individual de direito privado, que me insurjo teoricamente contra a velha visão liberal-burguesa do direito formal-individualista, herdada do direito privado de linha positivista (até rimou, quanto ao uso de jargão jurídico, mas, pra quem não é da área, não se preocupe, explico). Em primeiro lugar, as Constituições vieram a ter uma relevância recente no debate jurídico nacional, sobretudo quando os países da América Latina se viram livres das ditaduras e passaram a adotar um Estado Democrático de Direito, onde preceitos constitucionais teriam que ser preservados. No embate entre leis ordinárias e normas constitucionais, prevaleceu no nosso ordenamento o controle da constitucionaliade, e a adesão dos nossos legisladores e juízes a princípios constitucionais, toda vez que uma lei é publicada ou um sentença é proferida nesse país. Deixou de haver o apego ao velho direito positivo tradicional, entendido como mera legislação, que deveria assegurar, dentre outros direitos: a propriedade. Foi assim, que, por exemplo, a função social da propriedade foi instituída pela Constituição e hoje ninguém pode alegar apenas seu direito individual de propriedade, para protegê-la em caráter absoluto (em detrimento do interesse social). O direito hoje é recheado de princípios, previstos constitucionalmente, que modelam a legislação e a jurisprudência, e se eles promoveram alterações no direito de propriedade, porque não dizer também no tradicional direito de família. E é em nome desses princípios que me apego à Constituição para debater o caso Sean.

Ora, não é no artigo 227 da Constituição que se diz que é dever da família, da sociedade e do Estado, dentre outros, assegurar, com absoluta prioridade, à criança e ao adolescente, o direito à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, além de pô-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração e violência?

Creio que essa norma constitucional que se constitui em garantia fundamental positiva ( a imposição de uma obrigação de fazer ao Estado e sociedade) e em garantia negativa (a vedação de qualquer forma de tolhimento de direito) para a criança e o adolescente, deriva do principio da dignidade humana, este sim um dos princípios constitucionais basilares do texto constitucional; e que, sem ele, poria abaixo todo o edifício constitucional e o Estado de Direito no Brasil iria para as cucuias!!! No caso de Sean tínhamos um caso claro de conflito entre normas, pois, havia de um lado: a lei internacional, que diz que pelo fato do Brasil ser signatário de tratados internacionais, compete às nações proteger a guarda de pais estrangeiros de filhos no exterior, cujo direito foi comprometido por uma situação de sequestro ou porque a saída dos filhos do território estrangeiro não foi autorizada pelos pais; do outro: a lei brasileira: que garante o direito à guarda dos filhos menores por seus familiares próximos, na ausência de seus pais biológicos.

O quiprocó jurídico do caso do menino Sean foi todo resolvido fazendo-se uma mera ponderação entre normas, discutindo se cabia o Direito Internacional Público (porque o Brasil assinou um tratado) ou o Direito Internacional Privado(cuidando dos interesses do estrangeiro em solo nacional), descuidando-se dos princípios que deveriam nortear o caso, e que devem, obrigatoriamente serem invocados, conforme a própria previsão constitucional. No velho conflito entre regras e princípios, deverão prevalecer os princípios, segundo afirma o jurista norte-americano Ronald Dworkin ( o mesmo da terra de David Goldman), e nesse caso, a pergunta que faço é a seguinte: será que o princípio da dignidade humana enxertado no artigo 227 da Constituição foi seguido, quanto ao caso envolvendo o menino Sean? Pra facilitar, eu faço uma pergunta mais simples: será que o menino teve o direito de ser ouvido?

Enquanto que nessa fuzarca processual toda o garoto foi disputado como um troféu, aos olhos das mídias brasileira e norte-americana, ninguém se preocupou, fora os advogados do padrasto de Sean, em ouvir a criança em juízo, para que esta dissesse, afinal, com quem queria ficar e para onde queria ir. E o pior, a meu ver, o artigo 227 foi constantemente violado. Senão, vejamos por uma análise rápida do dispositivo constitucional. Em primeiro lugar: se garantiu a dignidade o respeito ao garoto com tanta exposição midiática de um problema que começou lá nos Estados Unidos, mas repercutiu no Brasil, com o pai de Sean e a família da finada mãe dele ocupando maciçamente grandes espaços nos meios de comunicação, numa "lavagem de roupa suja" familiara que ganhou destaque da CNN até o Notícias Populares, transformando o menino em estrela involuntária do dia para a noite? Segundo: foi garantida a liberdade, o direito à convivência familiar e comunitária, se o menino (não obstante a existência de seu pai biológico) não teve assegurada a liberdade de ficar onde quer, com quem quer, visto que, comprovadamente, o moleque prefere a companhia dos avós maternos, do padrasto, da irmã pequena, e dos amigos de escola e de bairro, uma vez que perdeu sua mãe; e essas pessoas foram a que estiveram mais próximas e lhe deram suporte num momento mais complicado e sensível de dor? Tá! Alguns podem me dizer que o menino não pode optar em nada, e que, na verdade, o depoimento de uma criança em juízo é comprovadamente inválido, uma vez que uma criança pode muito bem ser facilmente influenciada a dizer aquilo que os adultos querem que ela diga. Quer dizer que criança não tem sentimento, criança não tem livre-arbítrio, criança não pode falar de seus sentimentos, e isso não pode ser levado em conta em juízo?

Ou eu penso muito torto das ideias (vai ver é isso), querendo, de jeito megalomaníaco, revolucionar o direito brasileiro, ou então tem um pingo de racionalidade meus argumentos aqui apresentados neste blog, e fico muito satisfeito, ao menos, de ouvir a opinião de quem quer seja, mesmo que seja pra meter o pau em tudo o que eu disse. Isso sim é salutar! Só peço que não me façam engulir argumentos prosaicos, sem um mínimo embasamento jurídico, filosófico, sociológico ou psicológico que derrube tudo o que escrevi. Não sou dono da verdade, mas também tenho direito (assim como acho que Sean tem) de dizer o que pensa e o que sente. Pra mim, até que se prove em contrário, Sean é brasileiro, e como um jovem brasileiro ele deveria ter o direito de opinar sobre uma questão difícil que irá repercutir por toda sua vida. Porque parece que nós, adultos, somos tão insensíveis, porque não conseguimos ouvir o outro, sobretudo quando ele é mais frágil ou jovem do que nós. Respeitemos as crianças, ora essa!


Que David fizesse o eterno sacrifício de pai e viesse morar no Brasil, ao menos para se ambientar com o filho durante alguns meses, para depois decidir voltar para os EUA. Que ambas as famílias se entendessem, no sentido de purgar mágoas passadas em prol da criança, evitando seu sofrimento, partindo para uma real conciliação (já que estamos no Natal), no sentido não de romper; mas, sim, ao contrário, de restabelecer pontes, para que a cota de responsabilidade de cada um fosse compartilhada, para que o menino não deixasse ou não percebesse que estava perdendo seus vínculos, mas, ao contrário, preservando-os, construindo nesse mundo globalizado um verdadeiro ethos de cidadão do mundo, nem brasileiro, nem americano, mas tão e simplesmente humano, sábio no reconhecimento das diferenças entre nações, mas também na construção de identidades compartilhadas entre povos. Sem querer bancar o nacionalista, fico pensando: será que com tudo que viveu nos últimos anos, seria possível para David Goldman ver o Brasil não apenas como um lugar desagradável, de corredores de aeroportos, consulados e tribunais, mas sim como a terra onde seu filho desenvolveu amor? Será possível renunciarmos ao nosso próprio sentimento de homem ferido, deixado pela mulher, e em prol do amor para um terceiro, nosso próprio filho, não poderíamos renunciar a nossa própria felicidade, para vermos nosso ente querido feliz?

Entendam, não estou aqui fazendo uma defesa apaixonada da família Bianchi ou do padrasto de Sean, adversários processuais de Sean Goldman, mas sim fazendo uma apologia do bom senso, que muito falta nas partes envolvidas em pendengas judiciais de direito de família. Já fui advogado nesse ramo e sei como uma boa conversa ou atendimento psicológico é bem melhor do que simplesmente colocar o ex-marido ou a ex-mulher na Justiça. Somos seres litigantes por natureza, mas também temos capacidade de conciliar, até porque isso faz parte da estrutura do próprio direito, e não me venham aqui com argumentos positivistas. Como disse, meu papo é de princípios, e não de regras fechadas, mesmo que, luhmannianamente falando, o sistema do direito seja fechado. Entendo que vai ser uma barra para o Sean ter que sustentar toda essa mudança de vida, que a Justiça brasileira agora fez o favor de começar, sobretudo nos primeiros meses, mas oro por seu bem-estar, assim como de qualquer criança ou adolescente que viva situação semelhante. Mudança é fogo, e nunca estamos cem por cento prontos pra elas, principalmente quando elas não são fruto de nossas escolhas. Será que quando crescer Sean vai virar escritor? Um grande abraço a todos os leitores do blog!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

CINEMA: "O SOLISTA" é uma sinfonia acerca de nossos sentimentos de solidariedade.

Fazia tempo que eu não saía do cinema com as lágrimas escorrendo pelos olhos. Não chorei de raiva, por ter visto um filme tão ruim, ou pela decepção de ter gasto uns bons trocados na sala de cinema que já me valeriam uma janta, mas sim pela profusão de sentimentos que a película do diretor Joe Wright, me fez sentir. De fato, o filme "O Solista" revelou-se uma grata surpresa, nessa véspera de festejos natalinos, sobretudo após dois artigos extremamente profundos que escrevi aqui neste blog, acerca de dois atributos igualmente comuns ao gênero humano, tão díspares entre si, a que me referi várias vezes ( e não canso de repetir), que traduzem a história da humanidade: o amor e a maldade.

Lembram os meus leitores, que acerca do singelo e comovente relato do jornalista Paulo Sant'Ana, comentei sobre o amor em textos anteriores deste mês, assim como, paradoxalmente, falei da maldade do homem, ao retratar o dantesco caso envolvendo uma pobre criança na Bahia, cujo corpo foi perfurado impiedosamente por agulhas várias vezes, por outras pessoas, entre elas, por seu próprio padrasto. Posso ser acusado de contraditório, ao louvar o amor, como característica sublime do gênero humano, e ao mesmo tempo acusar as maldades dessa condição, dizendo que os homens são todos maus, como criaturas imperfeitas criadas à imagem e semelhança de Deus (mas nunca sendo iguais a Ele), ou de ser um gênio recalcado, obliterado por minhas pieguices religiosas, à custa de um Deus imaginário que nunca vem; ou que, conforme o entendimento de nossos letrados e racionais intelectuais "humanistas", não pode, enfim, ser comprovado.

Mas se a época é de Natal, não deixo de comentar ( e festejar) a sensível película de Joe Wright, lançada este ano, que conta com o talento extraordinário de dois atores já oscarizados. Dentre eles: o principal, Robert Downey Jr. (já eletrizado como super-herói para as novas gerações como o Homem de Ferro) e o fantástico Jamie Fox (ganhador da estatueta ao interpretar o mítico músico Ray Charles), ator da nova safra de artistas negros consagrados pela crítica e indústria do cinema americanos (assim como Denzel Washington e Morgan Freeman).



Os dois, no filme, fazem um singelo duelo de interpretação, digno dos melhores cenas dos clássicos do cinema, em papéis difíceis (ambos), num roteiro adaptado deliciosamente escrito, narrando uma história real, que ocorreu no começo deste século, acerca da amizade entre um jornalista branco consagrado, e um músico sem-teto negro, acometido do mal da esquizofrenia. Downey Jr. interpreta Robert Lopez, um conhecido articulista do L.A. Times (assim como no aqui no sul, seria nosso célebre Paulo Sant'Ana), que em sua coluna de jornal trata das crônicas urbanas do dia a dia, tão banais quanto seu acidente de bicicleta, no asfalto impiedoso de Los Angeles, ou tão profundas, quanto ao tratar da miséria, da violência das gangues, do caos urbano e dos sem-teto, de uma metrópole remediada, sobre o governo republicano do "ex-terminator" Schwarzenneger.

É nessa meca do capitalismo e do consumismo desenfreado que um ambicioso Lopez ( papel de Downey Jr), mais interessado em transformar notícia em prestígio, reconhecimento social e prêmios no jornalismo, nas cafonas cerimônias de fim de ano no setor, depara-se num belo dia com a realidade de Nathaniel Ayers Jr., um músico negro de rua, lelé da cuca, que do meio de sua loucura consegue extrair de sua vareta as mais belas sinfonias de Beethoven, desde a praça onde se ergue o monumento ao músico germânico, até as fétidas ruas de periferia, viadutos e túneis do cenário urbano de Los Angeles. O que inicialmente parecia ser apenas uma matéria jornalística, torna-se o pano de fundo para uma extraordinária estória de amor fraterno, conquista, solidariedade e reconhecimento do outro, na medida em que o abonado e cool Lopez vai se deparando com a realidade antes dantesca, porém muito bem explicada racionalmente, de seu inusitado novo amigo Ayers.
Logo, vemos o custo e a lógica do absurdo dentre as incontáveis consequências irracionais da amizade incomum entre opostos. Desde um homem branco com um negro numa América profunda que ainda não deglutiu suficientemente a eleição de um Obama para a presidência, até o relacionamento sincero e meigo entre um abonado e um excluído do sistema; ou pior: entre um dito "normal" e aquele considerado louco. Na verdade, a maior lição de "O Solista" não está apenas na decantada equação politicamente correta, entre os que estão "por cima da carne seca" e os que estão na pior, ou de um branco que se socializa com um negro, na sublime aspiração do american dream na resolução compartilhada e visão liberal-democrática de um amanhã melhor (bem ao gosto dos dramalhões estrelados por Will Smith, faça-me o favor!). Na verdade, o filme de Wright cativa por motivos bem menos simbólicos, mas que impressionam os olhos, na medida em que é natural fecharmos os olhos para um mundo imcompreensível a nossa visão racional: o mundo da loucura.

A loucura é a inimiga do racionalismo. Assim como o Antigo Regime é a pá opressora que impede o surgimento do progresso, segundo a crítica de Foucault ao pensamento de Descartes, ao se ler "História da Loucura". A loucura ficou associada ao sonho ou ao erro. Louco é aquele que sonha, que não pensa ou encara a realidade, e por isso erra. No filme, vemos que o personagem de Jamie Fox, Nathaniel Ayers, sonha acordado no momento em que tem que se ver sozinho, diante de uma plateia imensa, com seus risos, tosses e engasgos, sufocado por suas vozes interiores, que o impossibilitam de fazer o que mais gosta ao dedilhar os dedos num cello ou num violino, ao se comunicar com suas vozes sublimes mais interiores, ao se comunicar com Deus. Lopez vai percebendo cada vez mais isso, e é chamado a tomar profundas decisões, quanto a ser somente um jornalista boa-praça, que, num gesto de caridade, superinflacionado pela audiência, auxiliou um sem-teto, ou, se, na verdade, sabe cultivar o significado real da amizade, não entre semelhantes, mas até mesmo entre aqueles que não tem a mínima sensação da realidade ( ao menos no que temos cultivado em nossas racionais relações pessoais). Amizade não implica apenas em compartilhar, mas tambem em sacrifício. Um sacrifício que envolve desistir de corrigir o diferente, como condição para que ele se torne seu semelhante; e, ao contrário, permitir que a diferença permaneça, reconhecendo a alteridade, mesmo que seja àquela relacionada com aqueles que, segundo o jargão legal da medicina ou da política pública, "necessitam ser corrigidos".

O personagem de Jamie Fox, assemelha-se, em alguns aspectos, ao tipo festejado pelo público, na figura do ex-guardador de carros Zina, esquizofrênico reconhecido, que ao obter a sorte grande, sendo reconhecido pelo "Programa Pânico na TV", acabou ganhando notoriedade, muito menos em relação a seus dotes intelectuais, mas tão somente a sua personagem espontânea, natural, quase pueril, que revelou um homem que precisava de ajuda, mas, ao mesmo tempo,alguém feliz com sua recreativa vida de guardador de carros, morador da Xurupita e hipnotizado fã do Corintians. Hipnose essa que parece tomar conta de Nathaniel Ayers, toda vez que toca seu violino ou escuta uma sinfonia de Bach, em paz no seu mundo de desvalidos, loucos, sem-tetos, excluídos e párias sociais, no meio das caóticas, sujas e frenéticas ruas de uma metrópole.

Entendo que loucos como Ayers, no fundo de sua esquizofrenia, acabam por viver num mundo paralelo, livre das amarras da disciplina e do Estado. Creio que a loucura inaugura uma nova moralidade, a exemplo da clássica separação que faz Hegel entre uma moralidade subjetiva e outra objetiva, para definir os seus conceitos de liberdade e de direito. Afirma ele: "O que é moral não se define, antes de tudo, como o oposto do que é imoral, nem o direito como o que imediatamente se opõe ao injusto, mas todo o domínio do moral e também do imoral se funda na subjetividade da vontade".

Vontade, ahh, a vontade! Quando o jornalista Robert Lopez descobre que respeitar a vontade de seu amigo esquizofrênico é muito mais superior que a vontade de querer curá-lo, ele imediatamente descobre uma esfera nova de moralidade que até então estava reservada à manutenção da diferença, do controle e da subordinação, na relação entre os ditos normais e os loucos. Lopez passa a descobrir que não é mais tão importante querer que Ayers (na juventude um brilhante estudante de música da renomada Escola Juilliard, de Nova York, que desistiu no segundo ano em virtude da doença), volte a participar de recitais, voltando a velha vida de um velho homem que tanto o aterrorizara, contribuindo para sua enfermidade; mas sim para uma nova dimensão da vida que aceita, inclusive, levar a tiracolo um louco desvalido, com seu carrinho de compras recheado de bugigangas, com suas roupas extravagantes, e que prefere dormir no chão de um abrigo para sem-tetos e loucos como ele, do que descansar num confortável apartamento à prova de som, para que ele possa realizar seus estupendos ensaios de cello e violino.



De fato, "O Solista" é um bom filme para se ver na véspera de Natal, resgatando, a meu ver, bem mais o espírito natalino de fraternidade, amor e reconciliação, do que as cansativas películas de Papai Noel, com seu "ho-ho-ho-ho", que já encheu o saco aos meus ouvidos (que me perdoem as crianças). Foram lágrimas bem vertidas aquelas no cinema, ao assistir este belo filme, pois me fizeram acreditar que, apesar de tanta maldade, sim, nós humanos, tão contraditórios, também somos esplêndidos em impressionar uns aos outros com nossos gestos de nobreza; inclusive percebendo a mudança interior que isso nos faz durante o processo. Por isso, para todos os amigos e leitores deste blog: UM FELIZ NATAL!!!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CRIME:Barbárie na Bahia-o menino com agulhas enfiadas no seu corpo(a genealogia da maldade).

Como adultos, e ditos seres racionais, todos nós sabemos das fraquezas do homem e até onde pode ir a maldade humana. Acostumamo-nos a ver massacres e guerras pelas câmeras de televisão ou na internet. Nos comovemos com os mortos em Gaza, com a fome e as sangrentas lutas tribais no Sudão, no Quênia e na Etiópia, assim como presenciamos cenas de brutalidade entre policias, bandidos e moradores da periferia praticamente todos os dias, quando assistimos o noticiário. Mas, mesmo assim, certas crueldades nunca deixam de nos impressionar.

Foi o que ocorreu recentemente com o rumoroso caso propagado pela mídia ( e a mídia, naturalmente, adora casos rumorosos), sobre uma pobre criança de 2 anos encontrada na Bahia, com mais de 30 agulhas enfiadas em seu corpo. Inicialmente, pensava-se que a quantidade era maior, mas é só dar uma olhada na radiografia do menino mostrada acima e divulgada à exaustão nos meios de comunicação, para ver a imensa barbaridade e sofrimento a que ficou sujeita essa criança; e o pior ainda, com a maléfica participação de seu padrasto.

Ahh, padrastos e madrastas! Lá vem eles novamente, a exemplo dos contos de Cinderela e Branca de Neve, onde aparecem como os grandes vilões, assim como a vilã do ano passado, Ana Jatobá, uma das suspeitas de ter assassinado, junto com o marido, a enteada Isabela Nardoni. Desta vez, entretanto, não foi na urbana classe média paulista que se presenciou um bárbaro crime, mas sim na ensolarada Bahia, terra de Caetano e Gil, do axé, do Olodum, da alegria dos trios-elétricos e tantas fanfarras, que agora presenciam tambores emudecidos pelo horror! "O horror!O horror!" na clássica frase de Marlon Brando no filme Apocalipse Now, agora parece ressoar na cidade de Ibotirama, onde vive o garoto vítima das agulhas, perplexa como até que ponto pode chegar a selvageria humana. Ou será que, segundo Hobbes, não deixamos nossa condição de lobos? E apenas saímos da casinha de cachorros, momentaneamente, para revelar a verdadeira fera irracional que nós somos. O mal existe, de verdade, e a maldade penetrou junto com as agulhas que perfuraram o frágil corpo de uma criança inocente.

Suspeita-se de ritual de magia negra, ou tão e simplesmente de vingança. O padastro do menino, Roberto Carlos Magalhães Lopes, disse em cadeia nacional no Fantástico da Globo, que teria cometido a vilania para se vingar da mãe do garoto, uma pobre empregada doméstica. O sujeito mulato, esquálido, cabelos crespos desalinhados, retratando um tipo lombrosiano bem ao gosto dos criminólogos positivistas da tradição, parecia ter sido tirado do elenco do clássico do terror-trash: "O massacre da Serra Elétrica". Poderíamos dizer em uníssono, com a chancela da escritora Ilana Casoy, que estaríamos diante de um psicopata, um maníaco, um pervertido, um endemoniado, um monstro; mas eu só consegui ver ali um homem, um simples homem, com toda a fraqueza, vilania e perversidade que poderia ter um burocrata do serviço público que maltrata seus funcionários ou um político corrupto que está pouco se lixando para os seus eleitores. Tá bom! Vão dizer que estou tratando de lugares-comuns toda vez que se fala de crime no Brasil, que estou querendo voltar aquele papo esquerdista da criminologia crítica, de que crime bárbaro de rico não aparece na televisão, que o cara só fez isso porque é pobre, bla,bla,bla,bla. Mas não é nada disso. Minha análise é bem mais complexa.

Como complexos são os seres humanos em toda sua ambiguidade de se encontrarem humanos. Os mesmos seres que são capazes de maravilhas, como uma sinfonia de Beetoven, a caridade e a fraternidade do Natal, a sensibilidade de entregar a uma pessoa amada poemas e flores, são capazes de matar ou ferir por pura mesquinhez, por egoísmo, por prazer; e foi isso o que, de antemão, nos apressamos em justificar, ao analisar o tétrico crime praticado por Lopes e suas comparsas(pela ordem: uma suposta amante do suspeito, além de uma mãe-de-santo, cuja prisão já foi decretada pela Justiça). Seja ou não mediante um ritual macabro de origem africana (para uns a quimbanda, mas que, para os estudiosos da temática afro-religiosa, seria reducionismo atribuir a esta expressão religiosa o caráter de diabólico), a maldade com nosso semelhante mais fraco(crianças, idosos ou enfermos) não nos causa apenas repulsa, mas também ódio e sentimento de vingança. Argumentos sobre a suposta humanidade da espécie humana, que nos diferenciaria das feras, não é suficiente para nos afastar da maldade e da mesquinhez de nossos próprios atos, e, nesse sentido, fico me perguntando se não havia contradição na bondade pregada pelos gregos (bom=belo), no momento em que bons eram apenas os mais bonitos e mais inteligentes na sociedade ateniense, enquanto que os "feios" escravos, estrangeiros e jovens não podiam participar da tomada de decisões da polis. Ou então me pergunto dos bons e belos espartanos, com suas práticas eugênicas, onde crianças, como a da idade do menino baiano, eram simplesmente descartadas e jogadas de penhascos, quando não se adequavam ao perfil de perfeição e "bondade" espartana. Definitivamente, a meu ver, maldade não se explica recorrendo-se ao humanismo. Maldade é assunto pra ser debatido pela teologia!

Para uns, dá vontade de chamar um dos personagens de "Bastados Inglórios", do filme de Tarantino, para dar uma sova com taco de beisebol no infeliz padrasto, suposto autor do crime contra a criança, ou então poderia ser o caso de chamar o Capitão Nascimento, de "Tropa de Elite". Tudo para satisfazer nosso ódio contra o vilão do noticiário, para mostrar a ele que a "justiça" se resolve através de uma cadeira elétrica, uma forca, uma câmara de gás ou simplesmente um tiro. Imagino o que já está preparado para Roberto Lopes e sua turma quando chegarem no presídio. Existe uma certa ética na bandidagem encarcerada, em que estupradores, assassinos de crianças ou aqueles que mataram a própria mãe, tem seu destino selado, à revelia de qualquer pena ou medida de segurança aplicada por nossos tribunais. O mal povoa corações e mentes quando tratamos de crimes bárbaros. O ódio contra os criminosos tidos como vis acende nossas próprias maldades. Mas cabe a nós perguntar de qual barbárie estamos nos apegando mais: se a do padrasto, por sua torpeza em torturar uma pequena criança, que aos gritos e choros, dopada por vinho e amordaçada, deve ter passado por um sofrimento inominável enquanto agulhas perfuravam o seu corpo; ou se estamos nos referindo a nossos mais primitivos instintos de vingança, quando, ao presenciar o noticiário num restaurante, onde todos acompanhavam boquiabertos a entrevista com o padrasto da criança, logo em uníssono pude ouvir em coro declarações inflamadas de pais e mães indignados, que queriam tão somente que aquele infeliz fosse linchado, destroçado em praça pública. É a volta do martírio, a volta do castigo infamante e lancinante, retratado por Foucault na abertura de "Vigiar e Punir". É a sombra da maldade, meu povo, muita maldade! Como na música de Clara Nunes: "É o juízo final"!
Assim como na música, também quero ver a vitória do bem sobre a mal, pois quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer. Chamem-me de demagogo se quiserem, mas, de fato, não senti ódio ou repulsa ao ver a entrevista daquele homem na TV, contando em detalhes como supliciou seu enteado, em prol de interesses absurdamente egoísticos. Senti, na verdade, tristeza, uma profunda tristeza, pois vejo a contaminação que o mal produz, e isso me faz ficar triste, muito triste. Se eu parasse para fazer uma breve leitura teológica, diria que ali o Diabo estava presente enquanto influência ou entidade, e meus amigos ateus ou agnósticos se apresssariam em enjoar do texto e dizer que, agora, eu estaria iniciando meu velho papo de crente. Na verdade, creio que o caso havido na Bahia podia ser explicado teologicamente bem, ao se ler um pequeno tratado de Demonologia, capítulo da Teologia Sistemática que trata do estudo das referências bíblicas a Satanás e aos demônios. Porém, diferentemente daqueles que pensam que se trata de estudar a influência de um certo carinha tinhoso, com chifres na cabeça, patas de bode e tridente, esse estudo pretende analisar até que ponto determinados casos de manifestação da maldade podem ser tido como possessões ou são mera influência demoníaca.
A figura do demônio (ou demônios) está associada a nossa própria fraqueza, as nossas falhas, a nossa capacidade enquanto seres finitos e limitados de cometermos coisas horríveis, que contrariam um espírito positivo de racionalidade, que alguns preferem chamar de "bem", em contraposição a um "mal". O demônio interior de seres caídos como os humanos, equivale a seu correlato mítico na figura de Lúcifer, ele também um ser caído que, ao não admitir suas limitações e querer comparar-se a Deus no paraíso, acabou por ser expulso e cair no infermo, assim como Adão e sua companheira Eva caíram, ao serem expulsos do Jardim do Éden. Nesse sentido, o mal está associado à queda, ao resultado desagradável de nossos erros, de nossas próprias ações equivocadas. O mal pode vir de diversas formas, desde uma conduta que consideramos errônea ou repulsiva, como mutilar crianças, por exemplo, até o parricídio de nossos ancestrais idosos, deixando-os abandonados, simplesmente ao relento, entregues a sua própria sorte. Entretanto, sabemos que culturalmente, povos díspares, espalhados por esse planeta Terra globalizado, adotam diferentes condutas, que na realidade de suas tradições, não são de forma alguma consideradas práticas maléficas ou erradas, pois são até mesmo recomendáveis, como a extirpação do clitóris de meninas, na tenra idade, no norte da África, ou a tradição hindu na zona rural da Índia de abandonar seus velhos que não conseguem mais ser úteis, largando-os na floresta, para que morram de inanição ou sejam devorados por outros animais. No relativismo de nosso conceito racional-ocidental de bondade, que tem haver com o princípio da dignidade humana e da universalidade dos direitos do homem, não tem vez considerar nossa própria maldade,mas sim sempre a maldade dos outros. A maldade que surge de uma consciência negativa ou pessimista sobre a alteridade às vezes nos faz cair na armadilha sofista-dicotômica de que se eles são os maus, nós somos os bonzinhos; e, no caso da criança da Bahia, padrasto, amante e mãe-de-santo são os verdadeiros malvados. O humanismo também cai no erro de separar selvagens de civilizados, quando Hans Staden, por exemplo, ao escapar de seu cativeiro e voltar para a Europa, deixava a imagem tenebrosa para o conquistador português, de que os índios tupinambás eram malvados canibais, que matavam em rituais seu semelhante pelo prazer da gula, e isso só poderia ser a expresssão do puro mal, em detrimento da racional bondade européia, de matriz aristotélico-tomista, monopolizada pela Igreja Católica.

Crime e religiosidade sempre foram temáticas intensas em nosso meio jurídico, revelando as interfaces entre direito e religião, uma vez que a base de nossa legislação, por séculos teve forte influência do direito canônico. Recordo-me da passagem envolvendo uma história real, de um crime horroroso havido num pequeno povoado norte-americano do Kansas, nos anos cinquenta do século passado, onde dois ladrões de residência provocaram uma chacina, dizimando uma família inteira, no célebre livro "A Sangue Frio", do jornalista e dramaturgo Truman Capote; onde, revendo a cena do julgamento dos acusados: de um lado, sustentava a promotoria pela condenação dos réus à forca, citando as passagens bíblicas do Antigo Testamento, onde se pregava a pena de morte prevista em Levítico, para aqueles que matassem seus semelhantes; enquanto que, por outro lado a defesa sustentava trechos do Novo Testamento,onde Cristo trata de perdão e reconciliação. Os dois lados da Justiça Penal, que balançam entre a condenação e o perdão, refletem muito bem a influênca religiosa dos textos jurídicos, que nem com todo o peso da racionalidade positivista, conseguiu-se modificar, sob o pretexto de que argumentos de fé não podem ser considerados juridicamente, por não serem racionais, quando acontece justamente o contrário! O poder hermenêutico das escrituras sagradas, somado à força impulsionada do discurso e das prédicas dos sacerdotes, são um verdadeiro estímulo ao espírito do legislador, e foram responsáveis por grandes e extensos textos normativos, por sua vez embasados, mesmo que subliminarmente, em textos religiosos. Para o bem ou para o mal (já que estamos falando, afinal, sobre maldade), o homem sempre necessitou de uma justificativa transcendente para analisar a crueza de atos tidos como os mais pérfidos e irracionais, e por debaixo de nossas falhas, pesa para alguns sempre o argumento de que o mal só pode ser fruto de forças diabólicas, transcendentais, que escapam ao nosso domínio e que só podem ser explicadas como possessão, como uma ação exterior de seres mais malignos do que nós próprios.
Fico imaginando, diante deste aterrador caso retratado na sincrética Bahia, quantos ministros religiosos pentecostais, desavisadamente, vão iniciar seus sermões raivosos, pregando sobre o caráter diabólico dos cultos africanos, reduzindo tudo, numa retórica reducionista, à "coisa do Diabo". Imagino a mídia, preocupada com audiência, em seu noticiário sensacionalista, reportar o caso, de acordo com a repercussão bombástica da entrevista do padrasto preso pela polícia, apressando-se em dizer o quanto aquele homem é perverso e não minimamente perturbado, a fim de que seu defensor público (já que o cara é pobre de marré-marré) não utilize do expediente processual do incidente de insanidade mental, para livrar a barra de seu cliente. Para mim, tudo é maldade, quando banalizamos, por exemplo, o sofrimento de milhares de crianças pobres, meninos de rua, que desgraçadamente pululam em nossas ruas, nos semáforos das grandes cidades, ou são expulsas por seguranças de lojas de conveniência, como presenciei ontem, em determinado posto de gasolina de Porto Alegre, onde a maldade também se materializa pelo descaso ou pela pouca ou má vontade com seu semelhante. Lamento profundamente o ocorrido em Ibotirama, e assim como qualquer pessoa sensata nesse país, não passo a mão na cabeça dos culpados, assim que julgados e condenados, e quero simplesmente justiça, dentro das limitações do Judiciário brasileiro. Só não posso ficar cego para as maldades de nosso próprio cotidiano, e da maldade de nosso sistema educacional, que não conseguiu tirar das trevas da ignorância certos infelizes, que, a pretexto de exercer uma opção religiosa, rendem-se a esdrúxulos rituais, onde a vida humana é objeto de sacrifício, a pretexto de satisfazer egoísticos interesses pessoais. Isso pra mim é que é barra-pesada!! E uma péssima notícia nos meus festejos natalinos.

Por falar em Natal, que belo banho de água fria o crime de Ibotirama proporcionou ao nosso espírito natalino, vocês não acham? Enquanto saudamos a abençoada vinda de uma criança, personificada pelo Menino Jesus, vemos outra criança passar por sofrimentos tão lancinantes que nos fazem pensar se Deus existe mesmo, por ser capaz de deixar que terrores como esse aconteçam ou se Ele simplesmente contempla nossa risível condição de seres caídos, inertes em nossa fraqueza, perdidos em nossos pecados, fazendo-nos ser incapazes de perdoar o imperdoável ou de redimir aqueles que necessitam de redenção. Somos serzinhos bastante complicados, realmente, nós, seres humanos, tão complicados que não sabemos sequer lidar com a maldade, não apenas à alheia, mas principalmente àquela que é nossa. Perdoem-me aqueles que tem muita fé e aqueles que não tem alguma que seja: mas nós somos maus pra caramba! Talvez o grande passo em direção ao bem seja a consciência da maldade, o reconhecimento de nossas fraquezas, pois isso se constitui numa das primeiras portas abertas, com destino a reconciliação. E se é reconciliação, nada mais nobre do que pensá-la numa data que nos faz recordar disso, que é o Natal. Então, como presente impossível que peço a Papai Noel, em minha imaginação, peço o fim da maldade, afogada pelo bem que pode imergir de nossos corações, não mais sedentos de ódio ou de vingança, mas sim contemplados por nobres sentimentos de justiça, paz e reconciliação.Que Deus nos ajude!! FELIZ NATAL PARA TODOS!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

CINEMA E FILOSOFIA:"Polícia-adjetivo":gramática e repressão numa reflexão filosófica.

Assisti nesse final de semana o filme romeno do diretor Corneliu Porumboiu (que nome!!), chamado "Polícia-Adjetivo"(Politist,adjetif), que está fazendo a alegria dos cineclubistas de nosso Brasil varonil. Apesar do título, não se trata de um filme policial, e muito longe do gênero, parece-se mais com o bom filme europeu de cinema de autor. A película é uma obra existencial (seja pelas longas e até tediosas tomadas de câmera), sobre a simplicidade de acompanhar a rotina modorrenta do protagonista, na sua atividade de perseguição e vigilância, numa bucólica Bucareste pré-inverno. O filme foi indicado pela Romênia para concorrer ao Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro.

Na estória, o personagem, Cristi, é um policial que participa de uma investigação em um colégio, para determinar se alguém está traficando drogas na instituição. Ele encontra três adolescentes suspeitos, dois garotos e uma menina, que fumam haxixe num descampado, ao sair da escola, mas, à medida que vai investigando os garotos, Cristi percebe que não se tratam de traficantes, mas sim de jovens estudantes de classe média, cuja única infração visível é gostar de fumar um baseado. O policial passa, a partir daí, a questionar seus atos e as ordens de seus superiores, pois, apesar de saber que a legislação romena é uma das mais repressivas da Europa acerca do consumo de drogas, ele sabe que em breve, a exemplo de outros países, a lei vai mudar. Cristi sente o peso da consciência de saber que pode estragar a vida de um menino, colocando-o por sete anos na cadeia (mesmo que seus colegas de trabalho digam que o jovem sairá em condicional em três anos e meio).

Consciência, essa é a palavra-chave do filme, juntamente com outras, como lei e moral. É justamente no jogo de palavras no dicionário, sua semântica e por interpretações gramaticais, que o filme trata na verdade de linguagem, e não necessariamente de polícia. Uma obra-prima para aqueles que estudam o direito ou se debruçam na filosofia. Na verdade, é uma película de filosofia do direito.

O filme é lento sim, muito lento, e para os desavisados, pode parecer até uma chatice(vi poucos casais que assistiram o filme saindo da sala de cinema, reclamando o quanto o filme parecia ser chato pra c...). Mas, na verdade,a película de Porumboiu (como esses romenos tem o nome feio) tem o propósito de ser propositalmente lenta. Pela lentidão da conduta de Cristi, necessária para não se fazer percebido pelos seus investigados, acompanhamos também o drama de sua consciência, lenta em tentar entender como é que um sistema considera eficaz combater o tráfico de drogas e a drogadição, colocando moleques que somente fumam um baseado na cadeia. No filme de Porumboiu podemos ver como dois sistemas filosóficos fundamentais foram se desenvolvendo na relação entre indivíduo e norma: de um lado, a filosofia do sujeito, dando lugar à razão prática (Kant); de outro, a filosofia da linguagem, com sua razão comunicativa (Habermas). Calma, vou explicar!!

Para Kant, nas relações entre os homens, a razão está voltada para uma máxima moral universal, que obriga a todos os homens, e por isso mesmo se transforma em mandamento fundamental ( o imperativo categórico). O problema é que ao reduzir o universo multifacetado de condutas à obediência a uma norma moral de valor universal Kant dá vazão à correntes teóricas e doutrinas ideológicas na ciência, como o positivismo, que tendem a compreender que esse imperativo moral encontra-se inserido na lei. Daí não existir mais uma lei moral reconhecida que oriente as condutas (e suas consciências), mas sim uma lei pública que seria a exteriorização real da razão prática tão defendida por Kant. Obedecer a lei, portanto, é também agir moralmente, pois não seria racionalmente viável descumprir uma norma, no momento em que conforme a máxima universal não é razoável querer que todos descumpram a lei, só porque eu quero descumpri-la(Fundamentação da Metafísica dos Costumes).

Já para Habermas, a discussão sobre seguir ou não a lei não está no sujeito que se apega ao imperativo moral, mas sim ao discurso. A razão encontra sua lógica no discurso, no agir comunicativo entre os homens e não no sujeito autossuficiente e racional pensado por Kant. Seguindo a tradução da Escola de Frankfurt, Habermas dará espaço à comunicação, como uma condição ideal do discurso onde os diversos sujeitos entre si debatem qual a melhor solução a ser seguida, cada um carregando, naturalmente , seus esquemas morais, mas cada um contribui para uma resolução normativa que agradará a todos, que é a lei. A lei, nesse aspecto, é vista como uma expressão de condições democráticas do discurso, onde os diversos participantes do discurso atuam mediante um amplo debate, proporcionando o surgimento da regra (Direito & Democracia).

É nesses dois ambientes filosóficos que Cristi irá se deparar, quando começa a construir na sua consciência uma nova semântica acerca da lei, que afinal, enquadra-se bem no discurso habermasiano. Pra que seguir uma lei retrógada se a sociedade já discute democraticamente a possibilidade de revê-la? O grande problema para ele, e para qualquer agente de Estado, não só na Romênia, mas no mundo inteiro, desde a América profunda de Bush até a ação do BOPE, aqui no Brasil, é que, apesar de tudo, no jargão positivista lei é lei, e como policial você tem duas opções bem definidas pelos seus superiores: ou segue a lei ou deixa de ser policial. É justamente no dicionário que gravita o filme que chegamos a definição do que é ser policial. Policial se trata de um substantivo ou de um adjetivo? É uma profissão, um cargo público, ou um modo de vida? Polícia se torna adjetivo no momento em que aquele que se transforma num agente de Estado (seja um juiz, um promotor ou um delegado) não apenas está na ocupação de um cargo ou tem um emprego diferente dos demais. O sujeito é policial, seu ethos é de policial, e dessa opção de vida aquele que assume essa árdua função adota uma nova perspectiva (eu poderia dizer heideggeriana) de se tornar um "ser-aí" como diria o filósofo da Floresta Negra, um dasein. Resta saber se no mundo que passa a ser visto como um mundo policial, aquele que reprime pode questionar sua própria condição, no momento em que repensa sua relação com a lei; pois como policial, ele não apenas reprime, mas também é reprimido pela norma, e talvez por isso esteja mais preso a ela do que os outros pobres mortais, e, em função disso, por vezes, é obrigado a fazer difíceis escolhas. E estas escolhas serão difíceis para Cristi.
Pra quem for assistir o filme ( e aguentar sua lentidão) digo que a melhor parte está reservada para o final. É no diálogo ímpar e longuíssimo entre Cristi e seu chefe, o comandante da polícia romena, que poderemos ver até que ponto surge a encruzilhada de deixar de ser polícia ou cumprir a lei, e, se na verdade, isso não passa por meras questões semântico-gramaticais. Com certeza, ao menos, ao sair do cinema, você terá na cabeça uma nova concepção sobre a palavra "consciência" e vai entender porque ela pode pesar ou não, na vida de um policial. No meu caso, a minha já pesou por muito tempo, e do adjetivo policial só me restou um substantivo: tristeza.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

FILOSOFIA: AMORES PERROS: Sobre a cadelinha do Paulo Sant''Ana e os amores entre homens e bichos.

Costumo ler a interessante coluna do jornalista Paulo Sant'Ana no jornal gaúcho Zero Hora, assim como os textos de David Coimbra, e, apesar de Santana ser gremista e eu, aqui no sul, colorado( e um apaixonado botafoguense), compartilho de algumas de suas reflexões e sentimentos, especialmente na última edição da Zero do dia 9 de dezembro, onde ao final do jornal, o articulista escreveu de seu lamento, sobre a perda de Pink, sua cadelinha de 13 anos de idade.





Também tenho um animal de estimação: meu gato persa Fontaine (assim como já tive um cachorro chamado Bonifácio), e sei bem da dor da perda de um animalzinho que se personificou, deixou de ser apenas um bichinho de estimação, um mascote, para se tornar um ente querido.

A perda faz parte das sensações e sentimentos que temos não só por pessoas, mas também na nossa relação com os animais, quando em nossos momentos de solidão temos nossos peludos, alados ou aquáticos companheiros, e também concordo com Sant'ana quando ele diz que os cães devem ter alma. "Se ela não tivesse alma, não teria deixado tamanha saudade". E a saudade é um dos sentimentos que decorre de, talvez, o nosso maior atributo enquanto seres humanos: a capacidade de amar.



Acerca do amor, o filósofo francês André Conte-Spomville, em sua obra Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (Martins Fontes, 2004), trata dessa sagrada virtude através de uma releitura dos gregos, trazendo um conceito de amor que envolve o emprego dos dois termos eros e philia, analisando o discurso de Sócrates, no Banquete de Platão. Lá, pode-se ver que às vezes o amor se reveste da dimensão do desejo, da paixão, do consumo ardente do amante incompleto que necessita ser completado por sua outra metade, o objeto amado, o ser desejado, mas nunca acessível, que alimenta a paixão pela iminência da perda ( o amor-eros). Por outro lado, o amor também pode ser visto enquanto cuidado, o zelo e a proteção do ser amado, daquele que se contenta em amar, mesmo não sendo amado, por lhe ser suficiente, tão somente, a existência do ser amado e a possibilidade de cuidá-lo, deixá-lo perto, senti-lo próximo, mesmo que ele se encontre distante ( o amor-philia). Talvez seja desse cuidado, desse zelo e desse contentamento com a possibilidade da guarda, que nos faz tão próximos de outros animais, que em sua bruta irracionalidade, tornam-se dóceis e queridos aos nossos afagos, ao nosso círculo protetor afetivo em busca de cuidar de nossos entes amados.

Gosto de pessoas e de animais e um dos primeiros pré-requisitos para eu me sentir atraído por uma mulher é ao menos ela gostar de bichos. Pode até não gostar de pessoas, mas amor pelos animais tem que ter ao menos um pouquinho. Não digo que precisa ser vegetariana, mas que também não cometa a sandice de sair correndo apavorada e histérica, toda vez que um animal peludo (e não é o Tony Ramos) se aproxime dela, roçando suas pernas ou tentando lamber os seus pés. É dessa dimensão da amor enquanto philia que nos revestimos e sentimos saudade, como disse Sant'ana, quando vemos em definitivo aquele ser amado partir, desvelando o nosso sonho de algum dia poder reencontrar aquele nosso ente querido (um pai, uma mãe, um irmão ou um animalzinho), nem que seja no além, em outra dimensão. Esse amor está revestido de uma aura de religiosidade, pois assim como a religião, nos ligamos ao ser amado por uma dimensão de afetividade pura, sem mesquizenhas, em toda pureza de nossas imperfeições e nossas fraquezas, entregando-nos ao ser amado, como quem se entrega a uma sublime divindade. Para Sponville, é a dimensão amorosa onde reside a fé, pois o amor vivenciado sob a ética da companhia ( o amor-companheiro, podemos dizer assim) nos traz e renova a fé de sempre estar presente junto ao ser amado, mesmo com a angústia e a dor da partida, o que faz com que vivamos as nossas lembranças, e as tornemos efetivas, numa perspectiva heideggeriana, já que, segundo Heidegger: a consciência também é um ente. O ser amado deixa de ser lembrança para tornar-se um ser existente exatamente porque existe enquanto lembrança! É por isso que a mãe ou o pai que guarda o leito do filho ausente (como diz a música de Chico Buarque) guarda não um fantasma,uma ilusão, mas sim a existência fática de um ente vivo, mesmo que vivo apenas em pensamento. Foi por isso que ao morrer seu passarinho, minha mãe construiu para ele um pequeno jardim, onde ele foi enterrado abaixo da janela de seu apartamento, para que as flores ali regadas permanecessem sempre vivas, assim como o cantarolar do saudoso "loro". Isso é obra do amor, e não um ato da tragédia, pois, assim como para os gregos, para nós, em nossa modernidade, comédia e tragédia podem ser as duas facetas da mesma moeda da condição humana. E nossa melhor condição é na condição de amar.

A paixão, esse ávido sentimento, tão peculiar aos poetas, talvez seja, na visão de Sponville um "pré-amor", ou um produto das armadilhas afetivas que só a busca do amor traz. A paixão circula em torno do desejo, se autoresolve autopoieticamente pelo desejo do consumo do objeto dessa paixão, que se autorreproduz pelo sentimento de perda. O apaixonado só assim é porque sabe que nunca terá por inteiro o ser amado, pois esse continuamente se desgarra de suas mãos, torna-se inacessível, distante. O motor das paixões é a ausência, a perda, pois, segundo a leitura de Platão, o homem não consegue se relacionar por completo com o outro, e tende a ver o outro narcisicamente como parte de si próprio. Por isso é comum o sentimento dos apaixonados de se sentir fraturado, de sentir que parte de si foi retirada, ou que permaneceu incompleto, pois aquele que o completava agora partiu. Uma parte na verdade que nunca foi sua, uma partícula de ser que nunca existiu. Construímos no objeto da paixão todo nosso referencial, pois, como Narciso, nos olhamos nos olhos do ser amado e vemos apenas nosso próprio reflexo, e não a real aparência do ser amado. No desejo desenfreado de nossa paixão queremos que o ser amado corresponda a todos os ditames autoritários de nossa paixão. Não desejamos que esse ser viva, que tenha existência própria, instrumentalizado que está na rede sufocante da paixão. Quantos crimes, quantas vilanias, quantos vilipêndios, quantas sandices sanguinárias não foram promovidas em prol da paixão?

Entretanto, a paixão tem também seu viés motivador que a conduz pelo oceano interno dos amantes quando amadurece, e ao invés de se consumir em si própria, evolui, e se torna amor. O amor verdadeiro não é aquele que prescinde da paixão, mas aquele que a doma, que a educa, que age como um zeloso pai numa loja de doces, não deixando que sua filha tão inquieta ( a paixão), no frêmito de seus desejos se consuma, incendeie ou se destrua, impelida por suas pulsões, por seus impulsos, pela fome devoradora que quer consumir a todo custo seu objeto desejado. O amor lida com uma paixão educada pela perda, convencida da necessidade do reconhecimento da ausência, da transformação da dor em lembrança, e é isso que faz com que tantos seres apaixonados tornem-se eternos enamorados, resistindo, sobrevivendo à vida, prosseguindo, repletos e propensos a distribuir amor.

O que sentimos pelos animais pode-se traduzir em autêntico amor-philia quando depositamos neles os atributos de responsabilidade e solidariedade depositados em pessoas para seres irracionais. Isso ocorre, na adversidade, pelo nosso sentimento de sempre contar com o outro, com o companheiro, quando as coisas se tornam difíceis. O ser amado é o que, mesmo distante, está sempre disponível, nos escuta, nos ouve, está a postos diante de qualquer sinal nosso de dor. Seja uma fúria, um choro, um lamento, uma risada, temos a nossa disposição nossos eternos mascotes, que não racionalizam (ao menos, no que sabemos) as razões de nossas condutas, e estão sempre ali prestes ( e prontos) a serem amados, como protagonistas de nossos romances pessoais. Foi assim na literatura com a cadela Baleia, do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos (alagoano de nascença, como eu), e foi assim com Jack London, em seu clássico romance O chamado da floresta (Call of the wild), contando a triste história do cachorro Buck, na época da "corrida do ouro", numa gélida América do Norte.



Partiu Pink, e com ela toda uma alegria de viver que o velho jornalista via nos olhos ávidos e carinhosos de um animalzinho que entre latidos e lambidas, só queria dar amor e se sentir amado. Parte o ser amado, reacendendo nossa paixão, mas fica, permanece esse mesmo ser, na lembrança, na saudade, pois é aí onde reside o amor. Sei bem o que se passa com Sant'ana, pois também sinto, choro, suplico e tenho os olhos tristes, ao pensar no dia que também terei que me despedir do meu querido Fontaine e só escutar os seus miados nos meus sonhos e lembranças. Imagino a dor de minha mãe, quando partir seu querido cão Leopoldo, hoje velho e doente. A mim, sobrarão as lembranças e a alegria da presença companheira de meu felino, testemunha de minhas noites incontáveis de sofrimento e êxtase ao vivenciar minhas paixões, assim como de tantas pessoas e animais, que já tive a capacidade e a benção de amar. Quanto ao amor, junto-me a ti, Paulo Sant'ana na quantidade quieta de lágrimas, compartilhando amorosamente a tua dor. Adeus, Pink!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

AMÉRICA LATINA:Eleições: E dá-lhe Mujica!!

A cada ano e a cada escândalo no cenário político nacional, muitos se apressam em dizer que desacreditam da política, que é tudo "farinha no mesmo saco", que os nossos representantes no poder público são todos uns corruptos e que não vota nunca mais, por causa disso e daquilo, e bla,bla,bla,bla. Ora, quando ocorreu a primeira versão do "mensalão" ainda no primeira gestão do governo Lula, admito que ficou superdecepcionado com o PT e com a política em geral, mas logo minha decepção foi dissipada pelos números. É muito bom sim em termos de justiça social termos um governo de esquerda. E, parodiando meus amigos anarquistas: Se hay gobierno, si popular de esquierda: a favor, si de derecha: soy contra!


Sou assumidamente parcial e esquerdista em matéria de política, mas muito longe das bitolações marxóides ou stalinistas. Ser de esquerda, já dizia finado Norberto Bobbio, pode ter um significado totalmente diferente na América Latina, na Europa ou nos Estados Unidos. Lá, por exemplo, na terra dos yankes, Obama é considerado de esquerda! E aqui, por mais que digam que o governo Lula deu uma guinada em direção ao centro-direita, com o apoio do PMDB, não podemos nos esquecer da matriz ideológica que pariu todo esse povo. Para ódio dos neoliberais, para aborrecimento da redação da Veja, para acinte aos tucanos ("sociais-democratas" de araque), e para a lástima da corja conservadora dos Democratas: Sou de esquerda sim, com muito orgulho, sim senhor!

Ser de esquerda significa ser comprometido com bandeiras que não passam só pela igualdade social, pela distribuição de renda, num governo mais sensível às reivindicações populares e menos pragmático no aspecto econômico. Ser de esquerda significa estar aberto sempre a processos de transformação social, a aceitar ( e até defender) a quebra de paradigmas (dentro da própria esquerda), com vistas à construção de um futuro dialético onde as contradições de hoje podem ser a solução de amanhã (olha o Hegel aí aparecendo no meu papo!). Ser de esquerda pode ser tanto defender o perdão da dívida dos países mais pobres para os mais ricos, saúde e educação pública pra todo mundo, fim das privatizações, como também defender o naturismo nas praias do nordeste brasileiro, a liberação da mulher com o fim do patriarcalismo e do machismo dominante, reconhecer o aborto nos casos indicados em lei, garantir os direitos civis dos homossexuais, combater o racismo e toda forma de discriminação, e, sobretudo, aceitar as formas mais diferenciadas de liberdade de expressão e associação.
E como homem de esquerda, saúdo com mucho gusto a eleição de José "Pepe" Mujica para a presidência do Uruguai, sucedendo o presidente que o apoiou, Tabaré Vasquez. Para quem não sabe, Mujica é o primeiro ex-guerrilheiro eleito presidente na história da América Latina, e para quem recentemente viu as duas películas que tratavam da vida de Che Guevara ( com o excelente Benicio del Toro), não deixa de ser motivo de comemoração ver que, após um Che ter sido morto covardemente nas florestas da Bolívia, e um Salvador Allende ter sido tirado morto do Palácio de La Moneda, num sangrento golpe no Chile, ainda é possível constatar que a democracia, pois mais imperfeita que seja, ainda é o melhor regime político do planeta, pois, às vezes, pelo menos às vezes, a esquerda sabe transmitir o seu recado e o povo consagra nas urnas, aquele que foi o melhor.

O novo presidente do Uruguai é um senhor idoso e narigudo, de 75 anos, cabelos e bigodes brancos, barriga saliente, filho de agricultores, que cultiva hábitos modestos, como viver numa chácara fora da cidade, plantar flores, guardar um Fusca na garagem e passear pela rua com seu animal de estimação:uma cadelinha velha que não tem uma perna. Porém, por baixo da fachada desse simpático "tiozinho" de campanha de cerveja, está um homem que já foi crivado de balas pelos militares, nos sangrentos anos de ditadura uruguaia, nos anos setenta. Participou de assaltos a bancos, sequestros, empunhou e disparou balas de metralhadora contra soldados, foi torturado e passou 12 anos na cadeia, como inimigo de Estado. Mujica foi dos Tupamaros, um dos mais violentos, ruidosos e eficientes grupos guerrilheiros do século passado, de orientação maoísta. Na verdade, Mujica ainda é tupamaro, uma vez que após ter sido dissolvida a guerrilha, seus remanescentes foram aceitos pela democracia e passaram a se organizar como partido político, integrando a Frente Ampla de esquerda que acabou por eleger seu antecessor, Tabaré Vasquez, um simpático advogado social-democrata, como o primeiro representante popular de esquerda a ser eleito presidente, num Uruguai dominado há mais de 100 anos por dois partidos oligárquicos rivais: os blancos e os colorados.

Como se sabe, o Uruguai é uma pequena margem de terra, localizada ao sul do Brasil, na fronteira com o Rio Grande do Sul. Um pampa, com apenas três milhões e meio de pessoas no país inteiro, sendo que a maior parte da população (mais de um milhão) está concentrada na capital em Montevidéu. Passando por sucessivas dominações portuguesas e espanholas (chegou a fazer parte do Brasil após a Independência de Portugal, como a antiga província da Cisplatina), ao se tornar, enfim, uma nação independente, em 1828, o Uruguai tornou-se um país precário, com uma tímida indústria, uma economia quase inteiramente agrário-exportadora e uma das maiores linhas de pobreza do continente, uma vez que o salário mínimo na região é incapaz sequer de arcar com as despesas com alimentação. O Uruguai é um país de desvalidos, a maior parte de ascendência indígena e europeia, que rodeia Montevideú, em busca de subempregos ou então, de trabalhar no verão, no comércio e do turismo de magnatas, que frequentam as badaladas praias de Punta del Este. Durante praticamente toda a sua história política, o país foi governado pelas elites locais, reunidas em torno de projetos oligárquicos e latifundiários, dependentes do capital externo e submissos ao imperalismo ianque. Nascia o Partido Blanco e o Partido Colorado, que, mediante esquemas de poder, revezam-se no parlamento e na presidência do país, quase que como uma cópia rudimentar da antiga "república do café com leite", que se viveu no Brasil nas primeiras décadas do século XX, quando o poder político se revezava entre as oligarquais cafeeiras paulistas e mineiras, sem muitas alternâncias de interesses aristocráticos de uma minoria privilegiada.

É nesse contexto que durante os anos 60, com a efervescência política no mundo inteiro, com o êxito de Fidel Castro na Revolução Cubana, a guerra do Vietnam, a Primavera de Praga e as mobilizações estudantis na europa, que surgiram os Tupamaros, além de dezenas de grupos de esquerda. Extremamente radicais, os Tupamaros defendiam a luta armada como forma de chegar ao socialismo, e suas práticas traduziam-se em assaltos a banco, sequestros e tráfico de armas. Funcionando como uma espécie de Robin Hood platino, o grupo costuma distribuir dinheiro entre os pobres, como forma de conseguir adesão para sua causa. Não demorou para que o governo autoritário agisse, mobilizando uma sangrenta reação do exército, que passou a cassar como animais os militantes de esquerda. Foi nos anos setenta que se tornou famosa a "Operação Condor", uma aliança político-militar dos governos ditatorias da Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Chile, no sentido de combater a subversão promovida pelos grupos clandestinos de esquerda. Chegou-se aos "anos de chumbo", uma "era das trevas" na política latino-americana, onde torturas, assassinatos, atentados, prisões e todo o tipo de repressão, típica dos regimes de exceção, rasgou as constituições democráticas e cuspiu nos direitos humanos, com um movimento revolucionário cada vez mais radicalizado.

Eis que com o retorno da democracia em 1985, os tupamaros foram lentamente saindo das sombras, para então se reorganizar na vida pública enquanto partido político. A vitória eleitoral de Tabaré Vasquez em 2004, pela Frente Ampla, contando com o apoio dos tupamaros, encerrou de vez mais de um século de domínio olígárquico blanco e colorado, estabelecendo uma nítida separação no país entre conservadores e socialistas. José Mujica e Nora Castro, como líderes do movimento, acabaram tornando-se, respectivamente, parlamentares líderes das duas casas do congresso, e o primeiro, por fim, tornou-se Ministro da Agropecuária e da Pesca na gestão de Vasquez, até ser eleito presidente.

Apesar de integrante da Frente Ampla, é notório o posicionamento mais à esquerda do presidente eleito em relação a seu antecessor, que deixa o cargo com mais de 70% de aprovação popular. Mas também é claro para as elites, que a eleição de Mujica não representará uma alteração muito grande nos rumos da política uruguaia, tendo em vista os inéditos indíces de progresso social e econômico promovido no governo de Tabaré Vasquez. A esquerda de origem revolucionária que chega ao poder encontra-se tão preenchida pelo pragmatismo, que Mujica prefere se comparar ao nosso presidente Lula, no Brasil, do que aproximar-se das posturas radicais, belicosas e fanfarronas de Hugo Chavez, na Venezuela. Os problemas maiores dos uruguaios hoje não são o da luta de classes, para espanto dos marxistas, mas sim questões que aguçam mais o nacionalismo, tendo em vista as constantes disputas econômicas e regionais por fábricas de papel e celulose com seus desafetos argentinos. Além disso, a recente inclusão da seleção uruguaia na Copa do Mundo, no apagar das luzes, na repescagem das eliminatórias da competição, também serviu de alento para um povo que adora dormir e acordar mais tarde, alimenta-se de churrasco e chimarrão, e no rígido inverno platense sonha em curtir as praias do Rio de Janeiro.

Apesar de não acreditar em mudanças mirabolantes, comemoro a eleição de Mujica e lamento não ter podido participar da festa dos hermanos. De qualquer forma, faço aqui meu grito de guerra, como bom militante de esquerda, transcrevendo as palavras finais do discurso emocionado, feito pelo escritor Eduardo Galeano (As Veias Abertas da América Latina), no comício de encerramento da campanha de Mujica: "Caminhantes da justiça,portadores do fogo sagrado: Abracadabra, companheiros!"
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