quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

FILOSOFIA & RELAÇÕES HUMANAS:Sobre Spinoza, o afeto e relações familiares.

Não me considero um gênio. Pelo contrário, até me acho muito burro (sobretudo em muitas escolhas que fiz, mas, afinal, foram minhas escolhas), mas o fato é que talvez por ter sido muito mimado ou superprotegido, fui um garoto tímido que se refugiava em histórias em quadrinhos, livros e amigos imaginários, com seus brinquedos largados pelo quarto, enquanto as demais crianças penduravam-se em árvores e se divertiam pelo meio da rua.


Recordo que uma vez meu pai me deu de presente um forte apache. Ótimo! Eu era fã de filmes de faroeste que assistia junto com o velho, e lia as estórias em quadrinhos do Zorro, do Cavaleiro Solitário, do Tex e Ken Parker. O negócio é que, já fanático por leitura, podem acreditar (minha mãe pode confirmar), com 8 anos de idade li um livro inteiro, cheio de gravuras sobre a Guerra da Secessão Americana, pra organizar os bonequinhos do meu forte entre yankees e confederados. Eu pintava os uniformes dos bonecos de acordo com as gravuras dos soldados inimigos que eu via no livro; ou seja, desde essa época, os referenciais teóricos serviam pra minha diversão!

Pois é! Gênio não sou, mas desde pequeno fiquei com pecha de intelectual por conta dessas bizarrices. Continuo usando de artifícios teóricos, valendo-me de diversos pensadores, artistas e intelectuais para expressar meus pensamentos e sentimentos. Talvez, para muitos terapeutas, seja um mecanismo de defesa. Para mim não deixa de ser diversão, pois me divirto escrevendo, divirto-me em criar, em refletir, elucubrar. Pensar é minha diversão!

Não deixo de empregar os filósofos, poetas e literatos para explicar minhas agruras internas, minhas relações com o mundo, meus amores e desilusões. Recentemente, um tema que me veio à mente e tocou meu coração foi a relação com a família. Pois é, apesar de ser um “cabra” solitário, tenho família. Quer dizer, tenho parentes, já que na fase adulta, segundo as convenções sociais, família pra um homem da minha idade seria mulher, filhos e sobrinhos. Não tenho nenhum deles. De minha linhagem familiar, parece que, ao menos por enquanto, a geração parou por aqui.

Tenho ainda um pai vivo (apesar de já idoso e meio doente), uma mãe cronicamente preocupada e duas irmãs, que já não vejo há um bom tempo. Tirando minha mãe que não larga do meu pé e vem me visitar pelo menos uma vez ao ano, mesmo que eu esteja em Marte, para o restante da parentela, estou devendo uma visita. Amo a todos e tenho uma boa relação com eles, não só por que eles são sangue do meu sangue, mas porque cada um de sua forma fez ou faz parte de meu trajeto de vida. Entretanto, sou um cara meio esquisito, até antissocial para alguns, pois hoje não faço a menor questão de ficar perto deles. Por favor! Não me tachem de cruel ou insensível pela franqueza!

Na verdade ficar longe de meus familiares tem haver com abafar a tristeza. Ué, como é isso? Explico. Saudade para mim é um sentimento extremamente válido, valioso e que tem características altamente positivas, porque nós só temos saudade de quem nos importa. O problema não é saudade de quem está longe, mas sim a tristeza. Sim, porque se relacionar com quem amamos (em especial nossos pais) pode nos causar, sim, muita tristeza.

Quem vai explicar isso de forma notável é Baruch Spinoza (1632-1677), filósofo holandês do século XVII, que junto com Descartes e Leibniz fundou um movimento teórico chamado de racionalismo. Muitos pensam que Spinoza foi apenas um teórico do Estado e da Política, tendo em vista que sua obra foi popularizada no Brasil, em parte pelos comentários de Marilena Chauí. Mas quando se vê os comentários de Delleuze à obra deste autor, vê-se que a filosofia spinozista é bem mais profunda, e pode ser empregada, inclusive, para entender o jogo intricado das relações humanas.

Spinoza morreu jovem, com apenas quarenta e quatro anos de idade, vítima da tuberculose, e sua família, assim como ele, eram religiosos. De origem judaica, ele mudou seu nome hebraico de Baruch, para Benedictus, assim que sua família foi perseguida pela Inquisição Espanhola. Não chegou propriamente a exercer a fé cristã, mas seus escritos sobre Deus e a Natureza são marcados por uma forte religiosidade, que revelam a inspiração familiar. Tanto é que para explicar diversos elementos complexos, como a natureza do homem, o Estado e a sociedade, Spinoza valia-se de alegorias religiosas. Seu pensamento, no entanto, transcende a religiosidade, mas através dela podemos ver que ele escrevia sobre diversos sentimentos e inquietações humanas: como a solidão, a tristeza, a paixão e o amor familiar.

Posso empregar Spinoza, por exemplo, para explicar a família, o vínculo familiar cujo substrato se encontra no afeto. Se Spinoza estudava o poder, veremos que dentro do ambiente familiar (núcleo social primário), o poder será o primeiro que irá se manifestar através do respeito filial à figura paterna e materna. No interior da família acendem-se as paixões. É em seu Tratado Teológico Político que Spinoza irá definir que o afeto transita entre dois pólos: alegria e tristeza (a essência da paixão). A tristeza é a paixão que diminui a potência de agir, reduz o indivíduo, torna-o impotente, faz que com ele se torne submisso, subjugado, renda-se à submissão. Já a alegria é a paixão que caminha em sentido contrário, em direção à liberdade, à independência, ao fim do jugo de dominação da tristeza, o aumento da potência de agir.

Segundo Deleuze, a partir dessa reflexão sobre o afeto, Spinoza irá explicar porque é que aqueles que exercem o poder nos deixam tão tristes. O detentor do poder familiar (um pai ou uma mãe) depende da tristeza para poder subjugar, para poder obter o respeito e a submissão dos filhos. Entendam que a tristeza aqui não é tão somente um sentimento ruim, nem nossos pais ou nossas mães tem a vontade deliberada de nos fazer mal (longe disso), mas, ao contrário, não tenho dúvida que nos amam e nos querem bem; porém, para entender a tristeza no sentido spinozista é importante ressaltar a dimensão dela enquanto uma “redução da potência de agir”.

Pois é! Nossos pais e nossas mães podem nos causar tristeza tão e simplesmente para nos subjugar, reduzindo nossa independência, querendo que com isso estejamos cada vez mais subjugados, cada vez mais vinculados a eles numa relação de poder afetivo, para que reconheçamos nossa eterna condição de filhos, de destinatários desse poder parental. É por isso que fico triste ao estar próximo de meus pais, e, ao contrário, nutro e desenvolvo alegria quando estou longe, porque a alegria, no sentido que Spinoza quer dar ao termo, significa “potência de agir”, autonomia, independência, poder sobre si próprio, liberdade da subjugação familiar. É por isso que nos afastamos de nossos pais. É por isso que queremos ter vida própria. É por isso que saímos de casa. Queremos ser alegres!!

Como pássaros que na vida adulta, deixam de ser filhotes e alçam voo, também queremos desfrutar da alegria da liberdade, queremos pagar o preço por obter essa alegria, mesmo que ela traga uma nova tristeza (causada pelo poder do Estado, pelo poder do outro sobre nós, pelo poder da natureza que mostra nossas limitações). Spinoza defende a alegria, porque nela encontramos a inteligência, porque a tristeza, ao contrário, reduz à inteligência. Quando mais os súditos são tristes, menos inteligentes eles são, e mais suscetíveis de dominação. O Estado autoritário produz tristeza, pois a tristeza leva à ignorância. Ou nos conformamos em ser autômatos tristes, ou ganhamos independência como alegres desbravadores.

É por isso que, como intelectual, não compactuo com a tristeza, não quero ceder a ela, para não perder somente minha identidade, mas também meu cérebro. No momento em que não cedo ao poder familiar, afasto-me de meus parentes; mas, ao contrário, na medida em que um deles adoece, morre ou me chantageia com a necessidade da minha proximidade, aí a tristeza vem, e abalam-me os pensamentos. Prefiro ser um ser alegre, daqueles que vê alegria na penúria da solidão, do que me ver triste ao ser subjugado, num esquema de afeto que não me traz ganhos, mas só dominação. Amo meus pais mais ainda porque eles não me dominam, porque tenho alegria para compartilhar meu amor com eles, e não a tristeza de tê-los perto, apenas para ser dominado novamente pelo poder familiar. Segundo Spinoza: “a única coisa que conta são as maneiras de viver”.

Está na hora de eu fazer o convite a outros que se sintam dominados de ler Spinoza se quiserem, ou mesmo não lendo, serem spinozistas, ao darem seus voos próprios. Boa sorte!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FUTEBOL: Por que todo esse amor pelo Botafogo? Essa Estrela Solitária me conduz.

Sei que alguns leitores deste blog tem aversão a futebol. Tenho um amigo cineasta que não pode nem ouvir falar em jogo, apesar de sua esposa ser torcedora fanática, e, para alguns, este espaço deveria ser dedicado somente a temas mais profundos, complexos, angustiantes, como nos momentos em que tive a oportunidade de ser bem intimista, sofisticando minha escrita.

Ocorre que o futebol é sim uma das minhas muitas paixões, assim como é a literatura, a filosofia, o cinema, a música, histórias em quadrinhos, o gosto por ensinar na área jurídica e a prática esportiva de gostar de correr. Gosto de futebol por "n" razões, mas nenhuma delas deve ser aqui enumerada, senão para justificar meu apreço por um time especial: o Botafogo Futebol e Regatas, time carioca de General Severiano, cujo bairro homônimo tenho muita vontade de trabalhar.

Toda criança começa a gostar de futebol por influência familiar (principalmente paterna) e no meu caso não foi diferente. Entretanto, não me aficcionei num primeiro momento numa equipe em especial, mas sim em um jogador: Garrincha, o "gênio das pernas tortas". Eu cansava de ouvir meu pai dizendo que Mané Garrincha era muito melhor que Pelé (e o próprio "rei" reconhecia isso) e se não fosse o álcool que estragou a vida do rapaz, seria o maior jogador de todos os tempos. Eu assistia impressionado os documentários retratando as jogadas do cara e vibrava com os dribles inesquecíveis daquele cafuzo que era alagoano de nascimento, como eu e meu pai, mas que tinha uma vida e alma de carioca. Era bonito de se ver o Mané pegando os adversários de "João"(bobo), sobretudo nos torneios internacionais, e na antológica Copa de 58, deixando boquiaberta não só a torcida, mas também os próprios jogadores, que não entendiam como um proletário baixinho, de pernas tortas, conseguia ser tão raçudo em campo, e fazer jogadas e gols tão extraordinários. Durante sua fase áurea, Garrincha sempre vestiu a camisa do Botafogo, e por ela conquistou quatro títulos nacionais, além de, praticamente, todos os títulos cariocas na década de 50, e começo da década de 60. Além dele, outros craques vestiam a camisa do time, como Nilton Santos (até hoje, um verdadeiro "patrimônio moral" do clube), Vavá, Didi, Gerson, Carlos Alberto Torres e o próprio Zagallo. Sim, Mário Jorge Lobo Zagallo, técnico tricampeão de 70, foi zagueiro do time, e até hoje, devotado botafoguense. O Botafogo chegou a ser responsável por mais de 60% do efetivo da seleção brasileira nas Copas de 58 e 62. E se me chamam de saudosista, digo que até hoje, o futebol brasileiro deve demais a esse clube.

Mas foi somente na vida adulta que assumi de vez meu botafoguismo. Pra ser mais preciso em junho de 1989, data do campeonato estadual no Rio de Janeiro, onde um Botafogo invicto, além de ganhar todos os jogos, impressionou a arquibancada ao derrotar o rival Flamengo, do imortal Zico e de um já famoso Bebeto, na final do campeonato. Havia um sofrível jejum de vinte e um anos, em que o time alvinegro não conseguia um título e o Flamengo era franco favorito. O que parecia favas contadas com o favoritismo rubro-negro foi pro brejo, nas pernas do jogador Maurício,  na vitória de 1 x 0. Aquela disputa de David contra Golias me cativou, ao assistir na televisão aquele jogo, e, a partir daquele dia, vesti a camisa alvinegra da estrela solitária.O processo foi irreversível. Sempre tive simpatia pelos injustiçados. Não sei se é por conta do meu cristianismo, de minha índole revoltada ou por influência familiar mesmo. Sei que nunca simpatizei com o Flamengo, e isso, claro, é um caso a parte. Porém, quando vi o Botafogo ganhar de um time que já me era desafeto, aí sim pude vestir a camisa de um time que, a meu ver, representava os injustiçados do esporte no país inteiro.

É, o Botafogo é um time de sofredores, e deve ser por isso que gosto tanto dele. Digo, brincando, que o Botafogo não é recomendável para cardiopatas. Como diria o escritor Paulo Mendes Campos (ele mesmo, um botafoguense doente): "o Botafogo é paixão, é Brasil, é confusão". Tá duvidando de mim? Vá ver um jogo do Botafogo pra você ver! O Botafogo é um time de intelectuais, tendo como seus maiores representantes, além de Mendes Campos, nomes como Olavo Bilac, o saudoso João Saldanha (jornalista e técnico da seleção pré-70),Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Clarice Lispector (sim, ela era botafoguense), Glauber Rocha, Luis Fernando Veríssimo, Ivan Lessa e Antonio Candido, dentre outros. Era o time preferido de um entre cada um jornalista, boêmio e intelectual carioca dos anos 20 até a década de sessenta. O Botafogo é o time da torcida mais romântica do futebol brasileiro, representando na sua insígnia a belle epoche de um Rio de Janeiro que não existe mais. Na pureza de sua desorganização, nos resultados inacreditáveis, seja na derrota, seja na vitória, o Botafogo é esse séquito de loucos, a que eu tenho tanto orgulho de fazer parte, que agora vibram enlouquecidamente diante das jogadas de um El Loco Abreu. Sim, o Botafogo é um time para lunáticos!

Só sendo doido pra torcer por um time que quase foi rebaixado no ano passado no campeonato brasileiro, ou que já desperdiçou tantas chances de ser campeão, como nas últimas finais do Estadual com o Flamengo (arrgggghhh, o Flamengo, sempre o Flamengo!), ou mesmo no campeonato nacional de 2008, onde, apesar de apresentar durante todo o primeiro semestre um futebol tão vistoso, acabou por amargar uma classificação em nono lugar, não chegando sequer a participar da Libertadores. É, o Botafogo não tem ainda em sua sala de troféus títulos mundiais como o Flamengo, o Grêmio ou o Internacional, mas nem por isso se rebaixa e nem deixa de tentar. O Botafogo é o time dos "heróis trágicos" como Mané Garrincha ou Heleno de Freitas. O que faz um torcedor amar um time que lhe faz tanto sofrer, e cujos principais expoentes históricos ou morreram de alcoolismo ou foram para o hospício? A resposta está em outro atributo moral tipicamente humano: somos seres que cultivamos a esperança!

Segundo o cineasta João Moreira Salles (o irmão do Walter), se o Botafogo fosse um capítulo da Bíblia provavelmente seria o Livro de Jó, não pela perseverança em resistir ao sofrimento, mas sim por que ao final dele encontra-se o Cântico dos Cânticos. Nenhum time nesse país tem tanto uma mixórdia de alegria, glória, tragédia, queda, tristeza, retorno e redenção que esse time carioca. É só ver o impressionante resultado do atual campeonato carioca de 2010. No começo do campeonato vi um acabrunhado Botafogo perder numa humilhante goleada para o Vasco de 6 x 0 e ter seu técnico sumariamente demitido. Nuvens negras sempre pairavam sobre o Botafogo, mas conhecedor da capacidade de resiliência do time, não me resignei, porque antes de tudo, torcer pelo Botafogo é um gesto de fé, um ato de devoção quase religiosa. O cara pode ser até ateu, mas o mais empedernido agnóstico acaba acreditando em Deus, quando vê os "milagres" que esse time consegue fazer. Nâo é que aconteceu de novo? Sob a batuta de um velho conhecido dos botafoguenses, o técnico Joel Santana (o "rei do Rio", por ter sido campeão como técnico pelos quatro grandes times cariocas), o Botafogo não só recuperou a autoestima, como também o respeito da torcida adversária, ao derrotar o Flamengo (ahhhh, que coisa boa!!!) na semifinal do primeiro turno do Estadual, de virada, por 2 x 1 (eu estava lá no Maracanã, "meninos, eu vi!!"). Onde estava o "Império do Amor" flamenguista, liderado pelos atacantes estrelares Adriano e Vagnér Love? Nesse caso, a estrela é solitária e mudou de lado: a estrela é botafoguense, e o império ruiu diante da loucura solitária de 11 jogadores alvinegros. Diante desse resultado a equipe ganhou fôlego para fornecer a revanche contra o Vasco, na final do campeonato, arrebatando mais uma vez a Taça Guanabara. Sim, o Botafogo é campeão novamente! Por sua tradição, ganhar a Taça Guanabara no Rio de Janeiro é tão ou mais importante que ganhar o Estadual ou o Campeonato Brasileiro. O Rio de Janeiro pôde sorrir novamente!

Essa vitória e o jogo da semifinal que assisti teve um gosto especial, pois além de ter derrotado o eterno adversário Flamengo (nossa "nêmesis" botafoguense), nos abençoados pés do jogador novato Caio, pude ver o quanto a dedicação, o foco, a persistência e o sentimento de unidade de uma equipe foram fundamentais para sufocar a empáfia flamenguista. No Maracanã a torcida era majoritariamente flamenguista (claro! o Flamengo se gaba de ter a maior torcida do país), mas do outro lado das arquibancadas podia-se ver a ruidosa torcida botafoguense, minoritária, mas crédula e confiante no seu time. Antes do jogo, minutos antes, pude presenciar um ato de sacrilégio futebolístico, quando vi atrevidos torcedores flamenguistas, mais jovens, dando cascudos no busto de Garrincha, no pátio interno do estádio, na entrada de acesso ao campo. Pai! Perdoai! Eles não sabem o que fazem!! Não deu outra, aqueles mesmos desrespeitosos flamenguistas tiveram que engolir  a vitória botafoguense e a consequente desclassificação do primeiro turno do campeonato. Ahhh! Como foi bom poder ver isso! Como é bom ver o meu Botafogo jogar (e vencer é ainda melhor!) ! Obrigado, Deus!!

Ao final do jogo contra o Flamengo pude ver um amigo meu flamenguista rendendo-se ao resultado e exclamando que tinha que reconhecer que assistir o Botafogo ganhar, quando todos achavam que seria derrotado, realmente era um evento emocionante. Imagine assistir um jogo junto comigo da arquibancada. Sou escandalosamente um torcedor devotado, e por muitas vezes saio afônico do estádio, simplesmente pela emoção de torcer pelo meu time, de sofrer por suas angústias e vibrar com suas vitórias. O Botafogo é meu "ser poético" em campo, e para onde eu levo minha torcida, acabo por arranjar discípulos nas torcidas mais distantes. Foi assim que eu conquistei os colorados no Rio Grande do Sul, quando, anos atrás, o mesmo título foi conquistado, num bar, diante de uma torcida do Internacional que vibrava com o campeonato conquistado por seu time, enquanto eu atônito acompanhava pela TV o jogo do Botafogo que ainda não tinha terminado. Minha vibração de "estrela solitária" era tão grande, como único botafoguense no local, que a torcida gaúcha parou de comemorar por um momento a vitória do Inter, e se juntaram todos a mim em frente a TV, torcendo também pelo Botafogo, e comemorando o resultado junto comigo. Por conta desse gesto elegante de solidariedade esportiva, comuniquei à comunidade gaúcha que um dia, ao vir para o Rio Grande do Sul, por camaradagem eu torceria pelo Internacional (para tristeza de meus amigos gremistas). Pois é! Sou botafoguense de coração e colorado por ética. Perdoem-me gremistas! É bem verdade que uma ex-mulher gaúcha e também colorada deu um empurrãozinho pra que isso acontecesse!

Eis que o Botafogo é esse universo de sentimentos e pertencimentos para mim. Em meu blog, como amante do futebol, e, sobretudo, apaixonado pelo Botafogo, não poderia deixar de passar aqui o quanto venero esse sentimento e o quanto admiro esse clube carioca. Como disse o poeta Vinicius de Moraes: o Botafogo "não se trata de uma paixão, mas de uma senha para a cidadania". Termino aqui minha elegia de torcedor, como não poderia deixar de ser, entoando o hino do clube, composto por Lamartine Babo, que encerra com chave de ouro minha homenagem. Podem cantar botafoguenses!!

Botafogo, Botafogo! Campeão, desde 1910!
Foste herói em cada jogo,
Botafogo,
Por isso é que tu és
E hás de ser
Nosso imenso prazer
Tradições,
Aos milhões tens também
Tu és o Glorioso
Não podes perder,
Perder pra ninguém
Noutros Esportes
Tu fibra está presente
Honrando as cores
do Brasil de nossa gente.
À estrada dos louros,
Um facho de luz,
Tua Estrela Solitária
Te conduz!

Botafooooogooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

LITERATURA: As angústias de Hemingway

"A felicidade em pessoas inteligentes é uma das coisas mais raras que conheço". Essa é só uma das máximas de um singular escritor norte-americano, que viveu intensamente a primeira metade do século XX. Ernest Hemingway (1899-1961) foi um dos primeiros escritores que tive a oportunidade de ler ainda adolescente. Recordo que meu pai era sócio do Clube do Livro e todo mês recebia pelo correio coleções da literatura universal, e uma das que chamou a atenção foi O Sol também se Levanta. Aquela figura do toureiro na capa do livro me impressionou e não me saiu mais da cabeça. Depois vieram outros livros, Paris é uma Festa, Por quem os Sinos Dobram e, na minha opinião a mais antológica obra desse escritor: O Velho e o Mar.


Sou filho de marinheiro, e, portanto, natural que o périplo do personagem do livro, o pescador Santiago, tenha me emocionado tanto. Ficava imaginando o protagonista lá, à deriva, só ele e seu pequeno barco, no imenso oceano, tendo conseguido pescar um gigantesco peixe impossível de ser pescado. Suas dificuldades de retorno à terra, os perigos, os obstáculos, os tubarões pelo meio do caminho, as tempestades. A meu ver, O Velho e o Mar é uma alegoria de nossas angústias modernas, perdidos que estamos nós no nosso oceano de preocupações, em meio a tantos obstáculos ao tentar "pescar o peixe", sendo obrigados a passar por tormentas e tempestades até chegar à calmaria e buscar a terra firme, não sem antes ter de enfrentar os tubarões.

Talvez como Hemingway eu tenha tido os meus dias lupanares, que ele retrata autobiograficamente em Paris é uma Festa. No meu caso, minha Paris é o Rio de Janeiro, uma cidade esplendorosa, assim como foi a Paris dos anos 30 vivenciada por Hemingway. Porém, não presenciei guerras, como esse escritor presenciou ao relatar a Guerra Civil Espanhola, em Por quem os Sinos Dobram, ou a II Guerra Mundial, onde ele serviu como correspondente, resultando em Adeus às Armas; mas compartilho com ele da aversão à monotonia, de uma certa ojeriza pela mesmice, pela vontade de conhecer outros povos, culturas, ambientes diversos. Hemingway tinha uma alma poética desbravadora, e, confesso, sem medo de parecer arrogante, creio que tenho a mesma physique du rôle.

O problema todo é que esse medo do imobilismo acabou custando a própria vida desse escritor tão magnético. Hemingway tinha sofrido com o suicídio do pai, no período da Grande Depressão Americana, por problema de dívidas, e somando-se a isso uma mãe dominadora e problemas de saúde que o acometeram na velhice (inclusive a perda de memória por demência precoce, uma sentença de morte para um escritor), Hemingway não conseguiu se safar de seus fantasmas internos, e quando percebeu que já se encontrava imprestável, decidiu se matar explodindo a cabeça com um tiro de seu próprio rifle de caça.

Não tenho medo da morte, tenho sim medo do que posso fazer com a minha vida. Todos os atos praticados por Hemingway em vida foram consequências de suas escolhas, e graças a elas a humanidade pôde ter em mãos algumas das mais sublimes obras da literatura. Hemingway é conhecido como o "escritor da solidão e da morte", pois seus personagens, via de regra, são todos solitários e carregam consigo o fantasma da morte solitária a lhe acolher todo momento. Seus tipos humanos geralmente são complexos, como o personagem Jake, de O Sol também se Levanta, um repórter (mesma profissão do escritor durante anos) em Paris que, ao viajar para a Espanha para elaborar uma reportagem sobre as touradas, acaba se apaixonando pela fútil e vazia Lady Ashley, amante de um toureiro. O problema é que Jake sofreu um acidente durante a I Guerra que o mutilou, impossibilitando-o de manter relações sexuais. Mais do que a impotência física, Hemingway enfatiza a impotência da alma, apresentando o seu personagem pela metáfora do touro ferido na arena. Jake e seus amigos beberrões vão para a Espanha ver as touradas e lá, mais do que, para muitos, seja uma diversão popular sádica de se ver um animal ser perfurado até a morte, vemos o quanto a imagem do touro simboliza pessoas como o próprio Hemingway: um ser forte, vigoroso, furioso, intenso, porém ferido, mutilado por suas angústias internas, e assim como o personagem Jake, impossibilitado de fazer sua própria fiesta, tornando-se apenas aquele touro ferido, cansado, esgotado, incapaz de fugir a seu destino, prestes a ser abatido pelo toureiro.

O Sol também se Levanta trata de pessoas maduras, livres e abastadas que pagam o preço da liberdade ao se envolver num hedonismo que acaba por deixar profundas marcas. Trata de uma geração e de um conjunto de pessoas que, como pelo próprio título do livro, vê após cada noite boêmia, por fim o sol se levantar, e como na música do Barão Vermelho, na voz de Cazuza, ficam se perguntando o que fazer “pro dia nascer feliz”. O preço da liberdade é o preço da solidão, algo que acomete em muito a todos os solteirões de hoje em dia que, como eu, já passaram da casa dos trinta e se aproximam da dos quarenta. O touro é livre para manifestar toda sua fúria ao ser solto na arena, mas acaba por descobrir que as estocadas do toureiro chamado destino um dia acabarão por esgotá-lo. Hemingway demonstra que somos produto de nossas escolhas, mesmo que elas resultem na produção de novas feridas, que um dia, podem nos levar.
Hemingway tornou-se Nobel da Literatura em 1954 não porque sua vida de angústias dentre tantas viagens resultasse numa obra que difundisse tristeza. Muito pelo contrário, o encanto de seus livros se deve pela profunda sabedoria que ele consegue extrair na solidão de seus personagens, como do exausto pescador Santiago, retratado em O velho e o mar. “A sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes”. Arrisco-me a dizer que existem duas fases na obra de Hemingway: a primeira associada à juventude, onde seus livros tratam de uma geração de trintões e quarentões, no período entre-guerras, a chamada “geração perdida”; e outra fase reflete seu período de envelhecimento e amadurecimento, pontuado pelas crises psicológicas, cada vez mais agudas. Hemingway acabou encontrando na paisagem tropical de Cuba seu último lar como escritor. Como um eremita moderno, ele acabou tendo a morte solitária que acompanhava tanto os personagens que escreveu. Não se pode dizer que tenha sido um homem que não tenha amado, mas sim de como ele amou, e de como isso resultou também numa gama de escolhas, que tanto podemos criticar de forma negativa, quanto positiva.

Sim, Hemingway teve várias mulheres. Dizia ele: “se duas pessoas se amam uma a outra, não pode haver final feliz”. Dos vários casamentos (ao menos quatro) e várias amantes, somente uma ficou com ele até seus últimos anos de vida, Mary Welsh, também jornalista de profissão, como Hemingway. Essa instabilidade amorosa pode também ser identificada na obra desse escritor, não porque ele nunca tivesse aprendido a amar, mas acredito, compartilhando com ele de algumas sensações transmitidas em seu texto, que Hemingway na verdade era um tipo narcísico. Ele via em cada mulher por quem se apaixonava um pouco dele próprio, e quando isso passava e ele era obrigado a identificar o outro por detrás da máscara de si próprio, acabava por desistir daquela pessoa. Ora, mas fico me perguntando, todo escritor é um pouco narcísico, portanto, será que os intelectuais ou escritores nunca aprenderão a amar? Essa pergunta enigmática não consigo responder, apenas escrevo.

De qualquer forma, vai aqui minha homenagem a um dos vários escritores que li e me marcou tanto, em diversos momentos de vida, e que, vira-e-mexe, voltam a me inspirar, como anjos caídos resgatados no limbo de minhas lembranças. Onde quer que você esteja: um abraço, Ernest!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

REFLEXÃO: Afinal, por que sempre o "porquê"?

No recente Carnaval tive a grata oportunidade de ter a companhia de amigos queridos e pude presenciar a folia dos blocos de rua, nas tradicionais ruas e bairros cariocas. Foi uma boa farra e uma experiência antropológica interessante, e uma das coisas que me chamou a atenção foi bem o propósito descompromissado da festa, entre beijos, abraços e comemorações de pessoas que se encontraram ali, festejaram ali, mas muitas vezes sequer sabem o nome uma da outra, e muito provavelmente jamais irão se encontrar de novo.

Um belo relance pelo Carnaval, vendo o quão propositadamente diáfanas são as relações entre as pessoas (afinal: é Carnaval!), fez-me pensar o comportamento de alguns durante a festa, os quais, acidentalmente, acabei por me deparar. Digo diáfanas pois, ao mesmo tempo em que as pessoas estão ali para saborear uma festa, com a proposta do descompromisso bem sinalizada em suas testas, por outro lado você consegue ver clara e transparentemente que são apenas foliões em busca de alegria; mas que você jamais conhecerá em profundidade tais pessoas, cobertas por suas fantasias e máscaras. Por isso não entendo como alguns ainda questionam os outros durante esse período de festas. Vi, por exemplo, um jovem ao telefone esbravejando, supostamente com a namorada, esposa, ou ficante, numa discussão braba, enquanto eu observava de lado, e eu só escutava lancinantes questionamentos dele ao telefone, gritando: "mas, por que? por que? por que? ".

Em pleno Carnaval alguém se pergunta os porquês. Desde a tenra idade, nós, curiosos, em sala de aula, perguntamos à professora o porquê das coisas. Queremos saber porque o céu é azul, porque os bebês nascem ou porque as pessoas morrem, porque a terra é redonda e uma série de outras coisas que passa por nossas dúvidas e mistérios assombrosos que queremos descobrir. Em nossa racionalidade, somos seres questionadores por natureza e em nosso questionamento, quando deixamos de ser crianças, não deixamos de perguntar o porquê das coisas, insistimos, queremos continuar sabendo porque as coisas acontecem e porque elas nos afetam tanto, e nessa ciranda de questionamentos, nesse círculo vicioso de perguntas e respostas, chegamos à inevitável constatação: não existe resposta para tudo!

Fico me perguntando se aquele jovem berrando ao telefone, como uma criança mimada que não entende porque não lhe foi entregue o algodão doce ou o pirulito, está preparado como muita gente (inclusive eu) para simplesmente esquecer os porquês, mudar o disco, e saber que menos que perguntar os porquês, na verdade talvez devamos estar preparados para entender, que, ao contrário, não existem porquês. Por que? Porque simplesmente não há o porquê, não há resposta exata (e talvez nunca terá) para aquilo que perguntamos, Existem equações insondáveis dentro do espírito humano.

Para Kant, a dimensão insólita do "não-porquê" estaria no noumeno, ou "coisa em si". Não existe o porquê das coisas em si simplesmente porque elas não se perguntam porque existem, mas simplesmente existem. Alguns sentimentos humanos, como o amor, o ódio ou a tristeza muitas vezes não pedem uma explicação, não são algo a explicar categoricamente, além de sua superfície; pois, para um psicólogo tais estados podem ser explicados através de alterações do aparelho psíquico, de transtornos de ordem interna que tem haver com a memória, a percepção e o sistema cerebral, chegando finalmente   ao porquê desses sentimentos. Entretanto, aquilo que é "algo em si", aquilo mais que ainda permanece inexplicável, inexorável, que lá se situa como inquestionável, existente, não é suscetível de explicação, ou de resolução dos "porquês" tão e facilmente com o uso de pílulas ou uma boa sessão de terapia.

Creio que devemos conviver com os porquês contribuindo para sua extinção e, em consequência, anulando a angústia que as respostas não resolvidas nos trazem, transformando "porquês" em "o quês".Na verdade a pergunta sobre o porquê, deveria ser substituída por: "o que?". Quando deixamos de querer saber a explicação das coisas do mundo através de uma justificação, e nos atemos ao que é, ao que existe, creio que damos um grande passo para resolver um dilema fenomênico que assola desde os mais prestigiados cientistas, até o mais singelo enamorado. Não se trata mais de saber os porquês, simplesmente porque algumas coisas não tem porque, elas simplesmente são. E, diante disso, não me perguntaria mais porque esse ou aquele emprego, essa ou aquela pessoa para amar, odiar ou esquecer, esse ou aquele aparelho que não mais funciona, aquele pai ou mãe que vive ou não vive mais; enfim, não me interessariam mais os porquês, mas sim dizer o que é, o que existe, o que realmente importa.

Portanto, eu responderia, se me fosse permitido, ao rapaz no celular: "não se preocupe, amigo, não existe porque, a coisa simplesmente é, cara, ou, resumindo: é carnaval!! Da mesma forma num velório eu poderia dizer à viúva (sob a pecha de ser qualificado de insensível) de uma forma respeitosa e franca: não existe porque, o falecido apenas morreu, não existe mais (ao menos nesse plano, para quem acredita).

Creio ser essa uma das filosofias de vida que venho adotando há algum tempo, e que se não me fez bem, ao menos mal não fez, e talvez tenha me tornado, ao menos, um pouco mais maduro para as vicissitudes da vida. Logo, não me venha com a pergunta: "por que estás triste?", pois não saberei responder, ou posso não ter, sequer, interesse na resposta. Agora, se me perguntares: "o que é a felicidade?". Bom! Aí, meu amigo, minha amiga, creio que a resposta pode ser bem mais interessante. Dá motivo até pra escrever um bom artigo. Uma boa semana a todos!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CONFISSÕES: Antes de tudo: "Cartas a Milena" é meu pretexto pra explicar um bocado de coisas.

Milena Jesénska foi uma mulher que o escritor Franz Kafka conheceu e se apaixonou desesperadamente. Do período de 1920 a 1923 ele escreveu cartas para essa mulher, falando desse amor, com o seguinte detalhe: Milena era casada, e nunca teve a coragem ( ou o desejo) de romper seu matrimônio para se juntar com o escritor radicado em Praga. Em verdade, eles nunca se tocaram. De qualquer forma, seus escritos serviram como mais uma obra da literatura e de como o amor pode amar o impossível.

Vivo situação semelhante, inadvertidamente! Para meus leitores do blog, conhecedores de minha escrita, resvala aqui o estranhamento do tom cada vez mais confessional, intimista, e mesmo particular das linhas que escrevo, mas lhe adianto: para aqueles que me conhecem, logo, logo estarei voltando ao meu velho estilo: franco, ágil e feroz como me convém, muito mais objetivo e sem rodeios ou sentimentalistmos infantis. Mas, perdoem o momento, e deixem que eu use a literatura apenas como pretexto para falar do que sinto.

Na verdade há muito tempo, para quem pode perceber,utilizo de minha escrita e de minhas referências teóricas como pretexto para falar de mim mesmo. Acredito que seja esse o propósito verdadeiro de um blog. E como suposto intelectual, mas verdadeiro blogueiro, não poderia faltar a essa coerência. Ora, em nossa cultura pós-moderna, e tai os psicólogos que não me deixam mentir, os blogs servem para muitos como um estímulo de exercício mental, que, na verdade, serve para elucubrar fantasmas internos, soltar os bichos, botar os pingos nos iss, ou, tão e simplesmente, revelar quem nós somos mesmos. A teoria psicanalítica ortodoxa de Freud incentivava a fala, o falar de si; eu estimulo a escrita, um outro tipo de fala, onde também exorcizo os meus fantasmas, e consigo, compartilhando com meus interlocutores, botar pra fora meus "sapos", meus barulhos interiores, dialogando com um pequeno segmento da rede que também compartilha, ou ao menos escuta o que tenho a falar, e com isso enriquece o meu diálogo, já enriquecido pela simples possibilidade de falar.

Dito isso, e usando Kafka e sua Milena como pretexto, afirmo: estou apaixonado. Apaixonado na perspectiva mais platônica do termo, já que a pessoa que sabe de meu sentimento é incapaz de compartilhar comigo tais sensações, tendo em vista que está apaixonada por outro. Sei, sei, o quanto uma merda isso pode ser, e o quanto jocosos amigos podem já estar duelando quais piadas mais duras vão estabelecer a respeito disso. Porém, repito e assumo: estou apaixonado. Talvez isso sirva como justificativa para meus últimos textos, o tom um tanto quanto lancinante, emocionalmente expressivo ou até mesmo agressivo de alguns de meus textos, que, num primeiro olhar de quem não me conhece direito, parece que serve apenas como espaço para eu manifestar minha desilusão interna. Entretanto, assevero, como propósito inicial e ideia a que me vinculo até hoje neste blog, uso este espaço realmente como um pólo para o debate de ideias, um ponto de partida ou ponto inicial para se iniciar boas discussões, que não se exaurem nessa página de internet, mas, a contrário, se enriquecem em outros ambientes: seja pessoalmente ou através de comentários particulares de amigos que me mandam e-mails, ou tão e simplesmente correspondem as minhas expectativas mandando mensagens de MSN. É essa hoje minha realidade diante da tecnologia global, e o que quero trabalhar.

Sem querer cansar meus interlocutores, ou perder a crediblidade teórica do blog, digo que estou apaixonado tão somente para unir a sabedoria e invocação que esta página me levou, a escrever tantas coisas, sobre tantos vários assuntos no decorrer de todos esses meses, como também para revelar um pouco de quem propriamente sou. E, nsse sentido,o blog me funciona como testemunho. Testemunho sobre o que me passou, e o que assolou Kafka, igualmente, e que agora precisa ser exorcizado a fim de que não fiquem fantasmas.

Na primeira metade de 2007 encerrei um relacionamento (um noivado) com uma determinada figura sob a qual (tanto eu como ela), estabelecemos grandes expectativas amorosas em relação a um e outro. Foi um fim de relacionamento conturbado, turbulento, e confesso que até hoje tenho dificuldades reais de estabelecer um contato efetivo com esta pessoa. Apesar de saber (e ficar feliz com isso) que hoje ela está plenamente realizada afetivamente, com seu novo esposo, enteado, e, inclusive, esperando uma nova criança (louvado seja Deus por isso!). O problema é que tínhamos diferenças demais, conflitos demais, e o que parecia um encontro ideal revelou-se um verdadeiro pesadelo, no momento em que nossas ideossincrasias, modos de ver a vida, juízos de valor, opiniões e critérios para avaliar o mundo, distanciavam-se intensamente. Paradoxalmente, e aqui tomo a liberdade de escrever, o sexo era muito bom, e talvez nesse sentido eu tenha ficado tão "puto da cara" quando percebi que ela não queria mais nada comigo. Eu precisava de um autoexílio, um lugar onde pudesse curar as feridas, e o Rio Grande do Sul demonstrou ser o lugar ideal para tal propósito. Afinal, tinha recém sido aprovado numa difícil seleção de doutorado, e pelo que eu já conhecia, os valores, teorias e referenciais bibliográficos dos autores do sul, mostravam-se bem mais consentâneos ao que eu vinha escrevendo, do que as próprias referências do Nordeste.

Vim, portanto, para o Sul, apesar de licenciado, com uma mão na frente e outra atrás. Ainda assolado pelo fantasma de uma união recém-desfeita que me gerava sequelas até nos sonhos. O tempo, mais uma vez, foi o melhor dos remédios, pois pude, através de meu trajeto, lidar com esses fantasmas a partir da supressão de uma saudade que só me fazia mal, ao invés de fazer bem. Vi-me por meses na condiçao de um mero zumbi, tão somente a serviço de meu sofrimento interno, que não me ajudava em nada, mas apenas contribuía para minha autocomiseração e para uma série de empreitadas afetivas em solo gaúcho que só redundaram sofrimento para mais gente, que, porventura, na época se apaixonou por mim.


É, não sou um coitado, mas sim um sacana! Alguém que no exercício da carência manipulou pessoas e as magoou. Daí faço meu exercício de autocrítica. Na carência vã de tão somente repetir a existência de uma companhia no final da noite ao pé da cama, magooei pessoas que não deveria magoar, e, em função disso, passei a repensar minha forma de me relacionar afetivamente com as pessoas e a questionar os ditames da sociedade machista onde convivia. Eu não estava mais lá como um amante de fim de noite, um ficante, mas sim como alguém que resolvido com sua solidão, procurava algo mais significativo. E como foi difícil esse processo, ó, como foi dificil.

Eis que no ano de 2009 deparo-me com uma certa guria, uma menina, uma jovem senhorita que desde a primeira vez que a vi me impressionou muitíssimo. Seu jeito de falar, suas formas de intervir em minhas aulas, contrapostas ao seu modo doce, porém enérgico de ser, com toda sua pulsão de vida e energia juvenil de crescer, em muito me cativaram, e, a partir daquele momento pensei: "c'est une jeunne fille trés interessant!". Interessei-me de imediato em conhecer essa garota, em decifrar o enigma de meu sentimento recém-despertado, em conhecê-la, em saber que pessoa era aquela, qual seu histórico de vida, quais suas preocupações, ambições e interesses; e, sendo assim, acabei me envolvendo.

Entendo em minha racionalidade que não foi nada premeditado, nada articulado, nada pronto. Simplesmente aconteceu! Numa sucessão de fatos tive a oportunidade (e a grata receptividade) de conhecer melhor aquela garota tão interessante que dizia não ter mais um namorado. Eu me perguntava: "mas como, uma gata tão interessante como essa não tem quem a queira? É quase como contrariar uma lei da natureza!".Discretamente,como um predador que estuda o alvo, fiquei tão somente sabedor de seus hábitos e seus gostos. Identifiquei-me plenamente com eles, e como um Narciso refletido naqueles lindos olhos verdes logo me vi refletido naqueles olhos: encontrei alguém tão parecido comigo. Na verdade, à primeira vista, parecia-me uma xérox minha numa versão feminina de todos os meus sentimentos de juventude: a mesma ambição, a mesma energia militante, a mesma vontade de querer se superar, a mesma paixão. Foi na paíxão que "ziquei" meu lado, pois pude perceber que a dita linda figura, tão parecida quanto eu, levava a sério e se devotava a suas paixões: desde a possibilidade de ingressar definitivamente numa pós-graduação até o êxito de encontrar o amor de sua vida. Foi nisso que me quebrei, foi nisso que me tornei apenas um amigo, um professor , um mentor, alguém próximo e muito querido, mas só isso! Porque essa bendita figura já havia traçado seu script próprio!!

Sabedor disso procurei não mais ser uma presa do destino e adotei uma postura cautelosa, complacente, ou mesmo dei uma desencanada de todo o volumoso processo afetivo que estava se construindo em meu coração e procurei abandoná-la,seguir meu rumo, negar sua existência. Entretanto, tal propósito restou impossível. A sinceridade real dessa pessoa, seu carinho, respeito, consideração e afeto tornaram-se inigualáveis, até então aos que já havia vivenciado. Cada vez mais sua amizade sincera e carinho tornavam-me mais próximo, mais solidário, mais desejoso de sua felicidade, e, quando me vi, coloquei-me num elo inevitável de fazer parte do universo de uma pessoa, e ela fazer parte do meu, como nem meus parentes conseguem fazer parte. Construi o amor-philia a que já me referi em meus textos anteriores e que foi tão saboroso, tão importante, tão significativo, tão marcante, tão valioso para minha vida!

O grande problema disso tudo ( e aí me recordo do amor de Kafka por Milena) é que existe um sentimento recôndito, sorrateiro,  que acaba por construir suas bases diante de um universo de tanta afetividade.Chama-se de paixão esse sentimento, e cujas armadilhas acabei por não conseguir evitar. Através de Freud entendemos que a paixão humana pode se mover, tanto de um sentimento de criação chamado de eros, quanto para um inverso, de autodestruição, denominado tanatos, e todos nós estamos sujeitos a passar por processos cíclicos que podem envolver essas duas dimensões. Confesso que durante muito tempo, após cada paixão mal resolvida, conduzi-me a processos autodestrutivos, que quase me custaram a vida, mas, agora, em minha maturidade, penso de forma totalmente diferente, tanto que em meu blog, enfatizo tanto o poder positivo da paixão.

A paixão tanto pode nos destruir quanto pode contribuir para nosso crescimento. E, nesse sentido, dentro de minha experiência recente só posso dizer que a paixão fez-me muito bem. Através dela pude expulsar fantasmas do passado, deixar de sonhar com minha última ex-mulher e a passar a sonhar com outra pessoa, remocei e passei a cuidar mais de minha saúde, meu corpo passou por transformações positivas, a partir de um rápido emagrecimento e ganho de massa muscular,e meus textos e minhas leituras se tornaram mais profícuos e mais extensos. Sou testemunha viva do quanto essa guria fez bem a minha vida, e não tenho, repito, motivo algum, para ter qualquer sentimento de raiva ou mágoa, qualquer que seja, em virtude dessa jovem não corresponder ao belo sentimento que hoje nutro por ela. Como posso ter raiva de uma criaturinha tão linda, que pelo seu jeito simples de ser, tão somente me cativou e com sua energia fez-me sentir tão bem, como me sinto hoje? A partir dessa paixão tornei-me um ser humano melhor e deixei de ser um mero zumbi sorumbático, sofrendo pelo meu fantasma anterior de um relacionamento fracassado. Em minha religiosidade e fé creio piamente que essa menina surgiu em minha vida como um anjo libertador, uma benção que me fez esquecer por completo mágoas passadas. Ela nem sabe o quanto me fez bem. Essa garota me ressuscitou! Salvou-me da morte certa em minha tristeza! Injetou-me uma carga de energia que eu achava então perdida, e com ela voltei a viver plenamente, satisfeito com minha condição. Chego a pensar que pareço o Kevin Spacey numa cena de Beleza Americana, só tomara que não morra, feliz da vida, com um tiro na cabeça!!

Entendo que a iniciativa de ter me declarado a ela, já sabedor de sua resposta, foi tão somente a alternativa ética que tomei de não querer magoar, e nem comprometer a felicidade de quem descobri que amo tanto. Estar ao lado dela, carregando a mentira como um amigo não se coaduna com o verdadeiro propósito da amizade, que é a franqueza, a honestidade, o respeito, e sobretudo, a torcida pela felicidade do outro, mesmo que não seja conosco. Mantenho-me afastado dela tão somente por que não querer vê-la sofrer, e não eu, pelo fato dela saber que tem a seu lado não apenas um amigo, mas um homem apaixonado, que a ama acima de tudo, e que gostaria de estar a seu lado muito mais que um simples amigo, e daí ela viver a impotência de não poder compartilhar um sentimento que realmente não tem. A vida é assim! Deus sabe o que faz e não tenho do que reclamar, após a benção de ter feito com que eu a tivesse conhecido.Sei que se ao menos jamais sejamos companheiros de cama, ao menos sempre seremos parceiros de vida, e sei que mesmo à distância ela torce pelas minhas conquistas e vitórias, assim como eu torço por ela, e jamais, repito, jamais gostaria de vê-la sofrer. Para mim sofrimento maior não é tê-la ao meu lado, mas saber, de alguma forma, que ela não está feliz ou que a tristeza tomou conta, como um fantasma que a assombra, pois isso não quero sequer para meu pior inimigo.Para mim isto é que é o verdadeiro amor, de que trato inclusive em meus textos anteriores do blog sobre amor-eros e amor-philia, pois amor é cuidar, sobretudo do ser amado mesmo que esteja à distância, e, confesso, acredito piamente em tudo que escrevo, sem medo de parecer contraditório, mesmo quando eu digo que idiotas somos ao nos apaixonar.

É importante que se diga! Quando eu disse em meus textos anteriores que eu era um idiota, não era para culpar a mulher pela qual sinto um sentimento apaixonado ou para maldizer, de qualquer forma, a ausência de sentimento que ela pudesse ter por mim, mas tão somente para reportar o quanto podemos ser idiotas ao perder uma amizade, ao sabor do ritmo frenético de nossas paíxões. Sou um idiota por te me apaixonado por quem eu não poderia, ou por ter desejado a pessoa certa na hora errada, mas ao mesmo tempo reconhecer resignadamente essa condição e conviver, da melhor forma com isso; pois, como disse, essa paixão me fez bem. Talvez nos meus quase quarenta anos de vida eu me torne um homem solitário, que nunca terá ninguém e nunca constituirá família, mas sempre carregarei em coração, reveladas pelos meus pés, durante as minhas caminhadas, as maravilhosas criaturas que tive a oportunidade de conhecer e amar, e que foram tão significativas na minha vida.

Deixo para o meu amor que não me ama como eu desejo meus beijos apaixonados, sabendo que eles não serão retribuídos na mesma intensidade, mas, ao menos, com certeza, serão muito bem recebidos, pois a saudade já é grande, mas o desejo de sua felicidade é maior ainda. Como Kafka, cá estou aqui com minha inacessível Milena. Que seja assim! Sou feliz de qualquer forma.Continuo ágil, gentil, mas feroz, como todos vocês me conhecem. Até o próximo artigo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CONTO: Minha solidão!

Minha solidão é minha brava companheira. Aguenta e resiste a tudo, suporta-me, acorda com meu mau-humor sem se preocupar com meu hálito, minha ressaca ou meus olhos esbugalhados. Minha solidão assiste-me escovar os dentes, lavar meu rosto, e contempla comigo junto ao espelho um rosto que já sente as marcas do tempo.

Minha solidão saí comigo para onde eu queira. Fica calada, ao meu lado, enquanto sento-me nos cafés, fazendo-me companhia, lendo junto comigo. Ela também escuta minhas canções ouvidas no I-pod, e não  fica ciumenta se surge no local a companhia de um bom amigo ou amiga. Minha solidão apenas fica de lado, cede lugar à companhia da ocasião, e escuta nossa conversa.

Minha solidão acompanha-me nos sebos, nas livrarias, nas bibliotecas. Ela aprecia os livros que leio e se desejo,sai comigo do local e vamos até um jogo de futebol. Sim, minha solidão acompanha-me nos estádios. Torce junto comigo, apieda-se quando me entristeço quando meu time não está bem no marcador. Minha solidão vai comigo à praia, coloca o bronzeador nas minhas costas, assiste-me ou joga-se comigo ao mar, deixando que as ondas batam em meu corpo. Minha solidão vai comigo ao cinema, ri e chora junto comigo dependendo se a cena do filme é engraçada ou comovente. Minha solidão saí junto comigo quando estou com fome, faz-me companhia nos restaurantes, lê o jornal ao meu lado, acompanhando as notícias.

Minha solidão corre pelo parque comigo, acompanhando minha jornada por entre as árvores, carros e pessoas. Ela escuta a batida acelerada de meu coração, a respiração ofegante, o suor derramado em minha camisa, e minha solidão é cúmplice da sensação libertadora que sinto após cada corrida. Ao partilhar de minha energia, minha solidão assim como eu quer correr cada vez mais, para lugares e pistas distantes. Minha solidão compartilha de minhas ambições, de meus sonhos, de minhas vitórias e se compadece de minha derrota ou sofrimento.

Minha solidão é minha parceira da noite. Vai junto comigo aos bares, shows e festas. Vibra ao meu lado, ao som da pista de dança e me toma para dançar. Ela gosta do perfume que coloquei horas antes no pescoço, ri junto comigo de minhas peraltices no meio da noite. Minha solidão ri de minhas piadas, acompanha-me como um anjo calmo ao pé do computador, enquanto escrevo essas linhas. Minha solidão é minha parceira, minha amiga, minha amante.

Minha solidão vai comigo à cama, deita-se comigo, encostando seu rosto junto ao meu, deixando seus braços repousando sobre meu peito, acalmando minha respiração. Se desejo, minha solidão faz amor comigo, deita-se sobre mim, beija meu rosto, afaga meus cabelos, faz-me sentir amado.

Minha solidão é minha querida companheira. Minha solidão jamais me deixa!!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

REFLEXÃO: Por que sou um grandíssimo idiota?

Meus caros, nestes festejos pré-carnavalescos, antes de caírmos na folia do momo, gostaria de compartilhar com os queridos leitores deste blog a seguinte reflexão: a enorme possibilidade de sermos traídos por nós próprios. Aristóteles já exortava a prudência como uma das mais altas virtudes, porém, insistimos em nos deixar levar por nossos instintos mais primitivos. Isso ocorre porque antes de sermos racionais, somos humanos, e nessa condição somos passíveis de errar ("errar é humano", eu sei), podemos cometer gafes e estabelecer juízos equivocados, e, sobretudo, podemos nos tornar uns grandíssímos idiotas.

Na literatura médica a idiotia está associada a um estado de retardamento mental, porém na obra O idiota de Dostoiévski, escrito em 1869, este estado está associado a um erro de juízo de valores, a um equívoco provocado por uma má avaliação, ou seja: uma merda, uma cagada, uma bola fora!!

Pois é, meus caros, cada um seu histórico de vida está sujeito a idiotices, uma delas é se apaixonar, mesmo sabendo que não vai dar em nada. É, o cérebro pensa de uma forma, mas o coração rebelde nos conduz de outra forma. Teimamos em ser guiados pelo coração, e não por nossas mentes, e acabamos por pagar o preço da escolha: dor, mágoa, desilusão, ressentimento. Infelizmente é natural que seja assim, e, por vezes, inevitável, pois faz parte de nossa experiência enquanto humanos, mas que é FODA!! É! Meus caros! Eu sei! É mesmo!!!

Passei por isso recentemente e digo: não lamento, não me arrependo, pois já tinha mais ou menos o script do roteiro traçado antes de participar da peça. Talvez o que teria que lamentar era não ter sido mais escroto, não ter me valido de algum subterfúgio comum a nosso gênero masculino e que somos tão hábeis no ato de conquistar, ter mentido, ter ludibriado, ter me valido do jogo de olhares e sedução tão somente para obter o botim da vitória final ao pé da cama. Não, apenas fui eu mesmo. Na paixonite pueril de um verso de Pessoa apenas desvelei o que sou: um cara bom (eu ao menos acho), com  seu histórico e todas as suas imperfeições.

Fazemos isso porque o coração acaba sendo o timoneiro de  nossa paixão e não a razão recatada, que aprisionada pela prudência nos leva a ficar mudos, enclausurados em nossas reflexões, pois o medo nos impede de avançar, de ir adiante, porque sabemos o quanto iremos sofrer; mas não adianta, lá vem o coração de novo palpitante empurrando-nos em direção ao abismo do confronto amoroso. Cair no poço é bom? Não, é uma grande merda, eu sei! Mas de queda em queda conquistamos a sabedoria que faz com que o ato de amar se transforme numa arte. Fazemos isso porque, apesar de tudo, vale à pena compartilhar nem que seja de alguns minutos na companhia do ser amado, mesmo sabendo que ele nos vê tão somente com a piedade de um amigo, e que o fogo de sua paixão destina-se a outra pessoa. Idiota de pensar que a companhia da pessoa amada num feriado de carnaval seria o suficiente para alimentar o fogo de uma paixão. Bueno, faz parte do jogo, é nossa novela mexicana própria!! João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria e por aí vai, taí Drummond que não me deixa mentir.

Informo que no meu surto de idiotia não tenho o que lamentar, mas somente o que celebrar. Celebrar o momento em que pude, intensamente,sentir-me um idiota, e sentir as pulsações típicas de quem está apaixonado, podendo assim renovar a mim mesmo e expulsar fantasmas do passado. Ser idiota, paradoxalmente, fez-me bem! A partir de minha idiotia consegui ser mais humano, redescobri a mim mesmo como um ser que sente, alguém que ri e chora com os mais singulares sentimentos humanos, e não um frio "rato de academia", um intelectual desumano, refugiado no cálculo. Entendo que minha maturidade faz-se desses pequenos "deslizes" (será que são mesmo?!), de alguns acidentes de percurso, de cascas de banana colocadas pelo destino, mas cujo tombo sabíamos que poderia ocorrer, mas mesmo assim achamos tão bom.

Que eu possa ainda me dar ao luxo de ser um idiota completo, agarrado na arapuca do jogo amoroso. Começo a entender que esses mecanismos são necessários para seguir em frente, sacudindo a poeira, dando mais uma volta por cima, como no samba de Paulo Vanzolini. Por falar em samba, já elegi meus dois enredos para este carnaval, o primeiro "Volta por Cima" do citado sambista paulista, o outro "Sentimentos" do Paulinho da Viola. Saio para o Carnaval cantarolando os dois hinos de nós, todos os idiotas amorosos:
"Daqui onde eu chorei, qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava!"
"Sentimentos, em meu peito eu tenho demais. Alegria que eu tinha nunca mais. Depois daquele dia, em que fui sabedor, que a mulher que eu mais amava nunca me teve amor!!"

E viva o Carnaval!! Mais um idiota que se junta na folia!!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

COMPORTAMENTO HUMANO: Pernas pra que te quero! (sobre o comentário de Paulo Sant'ana acerca das pernas femininas)

A edição do jornal gaúcho Zero Hora, da última semana de janeiro, deu o que falar, e rendeu uma divertida reportagem no dia 27 de janeiro(quarta-feira), sobre texto publicado na coluna do jornalista Paulo Sant'ana. Em síntese, Sant'ana questionava um dos mais clássicos atributos físicos femininos: as pernas. Sob pretexto de comentar a grossura das pernas da atriz Juliana Paes, numa apresentação do Domingão do Faustão, o nobre articulista traçou um pequeno tratado sobre os membros inferiores do gênero diverso do masculino, começando a comentar criticamente a partir da citada atriz, até as participantes do Big Brother,de como nossas mulheres estão deixando as pernas engrossarem demais. Sobrou até para a apresentadora do Fantástico, a gaúcha Patrícia Poeta. Pô, Sant'ana, mas até a Patrícia Poeta??!! Peraí, vamos com calma!! Choveu um calhamaço de e-mails de leitoras indignadas na redação da Zero Hora, e uma simpática família de três gerações de Capão Novo fez uma brincadeira saborosa, quando avó, filhas e netas tiraram um close de suas belíssimas pernas grossas, mostrando o quanto a natureza foi generosa com aquelas mulheres, transmitindo hereditariamente uma verdadeira "jóia da família".

Todo homem tem sua predileção, a parte do corpo feminino que mais gosta. Eu, particularmente, tenho uma queda por boca e costas. Pois é! Prefiro e observo as bocas e as costas femininas, mas também não dispenso (logicamente) o atrativo das pernas. Na verdade, tem de fato mulheres que me fascinam por um simples cruzar de pernas (vide a antológica cruzada de pernas de Sharon Stone, no filme "Instinto Selvagem", há mais de duas décadas atras). E imaginem, pra quem é professor, de nunca ter se deparado com esse mais genuíno gesto de sensualidade feminina em sala de aula, sobretudo nos meses de verão. Creio que, tanto para os hetero quanto para os homossexuais, existe uma certa unanimidade: perna de mulher é uma coisa linda, e creio que inexistem argumentos para refutar. Desde Balzac, em sua Mulher dos Trinta Anos, existem menções elogiosas aos pés e  pernas femininas, tais como no começo do livro, ao se ler a seguinte passagem: "Os movimentos do andar erguiam por instantes a saia da jovem e deixavam ver acima das botinas a forma de uma perna finamente modelada por uma meia de seda transparente". Até na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, você poderá encontrar referências, no capítulo 7, versículo 1: "como são lindos os seus pés calçados com sandálias, ó filha do príncipe. As curvas das suas coxas são como jóias".

Mas por que esse fascínio todo pelas pernas, não obstante o velho apetite sexual do macho, por vezes deslizar seus olhos para outras carnes, um pouco mais polpudas da fisionomia feminina? Levanto aqui uma tese, de autoria própria, sem recorrer a malabarismos teóricos, sendo apenas intuitivo. Desde a Antiguidade, as mulheres são estupendamente vaidosas, em detrimento dos homens, sempre mais relaxados no seu fogo viril de brutamontes desejosos tão somente de possuir sexualmente pela força de seus músculos, do que necessariamente pela aparência. É bem verdade que hoje, com a revolução cosmética dos novos costumes, a fetichização do corpo, o advento da pornografia de massa com revistas, vídeos, internet e o que mais lascivo você imaginar, os homens também se tornaram mais vaidosos, merecendo hoje as alcunhas fashion de uber ou metrosexual (é só ver as caras e bocas de David Beckham ou de outro jogador de futebol que faz a fantasia de muitos mulheres, Cristiano Ronaldo). Eu mesmo, um "rato de academia"(não só de universidade, mas também de musculação), hoje acabo por seduzir não somente pelo meu intelecto ou pelo meio jeito hilariante para algumas moçoilas, mas também pelos meus músculos. Porém, no quesito aparência, as mulheres batem de goleada nos homens, e por mais que eu tenha amigos que preferem o lúdico estilo hiponga de algumas universitárias, aindo cedo ao irresístivel charme pequeno-burguês das mulheres maquiadas, bem penteadas, formosas e esculturais, com seus cremes, hidratantes, perfuminhos e todos aqueles parangolés de bolsa de madame, que achamos que de tão cheios podem acomodar até uma bazuca. Nesse sentido, as mulheres também cuidam de suas pernas, as depilam, passam cremes, exercitam-se em academias de musculação e ginástica, a fim de dar mais tonificação as suas já maravilhosas rótulas, tíbias e panturrilhas. Mulher quer exalar feminilidade,e uma correia de transmissão disso pode vir pelas pernas.

O problema detectado por Sant'ana foi justamente por uma visão clássica e até tradicional da fisionomia feminina, associando grossura de perna com masculinidade. Para Sant'ana, as mulheres hoje estão exagerando tanto em trabalhar o formato da perna, que estão começando a parecer jogadores de futebol (cruz-credo, Sant'ana!). Em primeiro lugar, com todo respeito aos meus amigos gays, afirmo que fora as minhas pernas, para exercitar meu narcisismo involuntário, perna cabeluda não entra no meu campo visual, sobretudo se tais pêlos forem encontrados em mulher, pois se eu fosse zoófilo, provavelmente não sentiria atração sexual por gorilas (desculpa aí, mulheres que não depilam as pernas, tá?!). Pô, o que o velho Sant'ana deveria entender é que o problema não está na grossura ou fibreza muscular das pernas da mulher, mas sim na existência ou não dos incômodos pêlos. Tirando quem possui alguma tara ou parafilia, eu acredito que a ausência de depilação das pernas na mulher é a morte do instinto sexual masculino. Portanto, que malhem muito nas academias, que a modelo Gracyanne Barbosa desfile no Carnaval com seus 65cm de coxa (pôxa, que coxa!), mas que não me venha com as pernas de um Tony Ramos. Se tiverem que adotar pernas cavalares, que não me venham então com as coxas de um pangaré!!

Bueno! Em primeiro lugar, não vamos ceder espaço aos caniços. Apesar de que, perdoem-me minhas queridas amigas com manequim de modelo, ou as meio anoréxicas, que a natureza não foi tão assim generosa, conferindo pernas volumosas; pois, como eu disse, gosto de perna de mulher de qualquer jeito, desde que seja bem torneada, ou melhor, bem cuidada. Apenas sei dar valor aquilo que a gritante maioria de meus compatriotas do sexo masculino curte, que é uma perna de parar o trânsito. Fui na Argentina e vi algumas das mais belas mulheres da face da terra, top model mesmo, na figura de lindas garçonetes em Buenos Aires, que do alto de sua simpatia, lindo sorriso e elegância desfilavam pernas graciosas, porém, modestas. Perna não é tudo, mas que completa o conjunto, fechando com chave de ouro, isso sim é inquestionável. Ainda fico com as  brasileiras, permaneço na preferência nacional!

Até entendo a sensibilidade de quem apura a beleza feminina através da sensualidade clássica de maravilhosas divas do cinema, como Rita Hayworth ou Audrey Hepburn, mas ainda fico com as pernas da Betty Paige ou da Ava Gardner, ou mesmo com as estrepitosas coxas de uma Marilyn Monroe. Eu sei, eu sei, gosto não se discute, mas vocês tem que convir que assim como as mulheres, por vezes, entregam-se a um homem em definitivo a partir da "pegada", nós, homens, também queremos ter onde pegar, e as pernas são alguns daqueles lugares lúdicos e erógenos onde podemos exercer toda nossa excitação. Não me culpem por essa opinião, culpem a natureza, ou os hormônios. Nesse Carnaval, quero ver sim muita perna bonita, seja grossa ou não, ao ver as lindas passistas ou foliãs exercerem toda sua sensualidade, naquele ritmo louco e trépido do samba, que incendeia corações e almas. Viva o Carnaval! Viva a mulher brasileira! Viva as pernas!! Desencana, Sant'ana!!!
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