segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ELEIÇÕES e MÍDIA: Minhas impressas impressões sobre a imprensa brasileira.

Temos no Brasil uma imprensa livre, graças a Deus! Desde os empastelamentos de jornais no tempo do Império ao  Estado Novo de Vargas, ou do agressivo controle da censura aos meios de comunicação nos tempos da ditadura militar, "nunca antes na história desse país", como diz o companheiro Lula, tivemos um período tão extenso de liberdade de expressão, onde a mídia e os diversos serviços de jornalismo e informação no país, tiveram a oportunidade de expor suas ideias, de forma boa ou equivocada.

Agora, com o final do pleito eleitoral para presidente da república que se aproxima, resta-nos colher os cacos do que ficou dos escombros da mídia, após a brutal polarização que se viu entre as duas candidaturas (a da situação e da oposição), onde jornais se transformaram em partidos políticos e a guerra entre redações, o bate e boca editoral, pôde ser visto nas manchetes das bancas de jornais.

Adoro ler, amo a leitura, sou um viciado em papel (livros, revistas, jornais e gibis) e um de meus maiores prazeres, seja no Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Recife, Porto Alegre, Buenos Aires, Santiago do Chile ou Punta del Este, é estar defronte a uma banca de jornal ou livraria, vendo as capas de revistas, as manchetes e matérias de primeira página dos jornais locais ou de grande circulação do país. Parodiando meus antigos professores de filosofia: informação não é conhecimento, mas é informação! Pode ser verdadeira ou falsa, certa ou errada, mas a informação veiculada pelos meios de comunicação é um bom termômetro social e político.

Percebo isso ao observar como a imprensa brasileira se manifestou nessas eleições de 2010 para presidente da república. A imprensa é o que sempre foi no aspecto político: panfletária, partidária, imediatista, parcial, oportunista,defensora dos interesses próprios dos grupos que estão por trás de suas redações. É uma imprensa de classe ou a que melhor reproduz uma luta de classes num regime democrático, onde é possível ver publicadas as mais diversas opiniões. Sob o jargão proferido à exaustão da liberdade de imprensa, reputações são maculadas, calúnias são proferidas, mentiras são propagadas, disputas ficam acirradas, tudo com o fiel intuito de influenciar o eleitor, de formar sua opinião, de manipular seu pensamento ou de acirrar ânimos, dogmas e preconceitos que o leitor já possuía. Faz parte do jogo democrático, mas também não deixa de ser um jogo sujo, muitas vezes!

Hoje, no Brasil, podemos ver a clássica polarização esquerda X direita, que tenta ser apagada por alguns sociólogos pagos a toque de caixa pelo interesse financeiro do capital, tentando nos engabelar com o papo de que ser neoliberal ou socialista é demodê, coisa do passado. O mundo não seria mais dividido entre reaçonários, conservadores e progressistas, mas tão somente em burros ou inteligentes. Inteligente seria defender o capital, a abertura do mercado, a livre concorrência; e burro seria insistir no papel social do Estado, no intervencionismo satânico da mão estatal em prol do interesse público. Burrice é coisa de comunista!Poderia nos fazer pensar os editoriais de algumas revistas e jornais. Mas, na verdade, a distinção de classes, o fosso entre ricos e pobres ainda é muito grande no Brasil, apesar dos bolsa-família, primeiro emprego e programas de habitação popular da vida. Basta ler os jornais pra ver que não estou mentindo.

Sou um consumista, seduzido pela ideologia do consumo desta sociedade capitalista, confesso. Talvez eu seja um pequeno-burguês emergente, oriundo de classes populares, que, ao prosperar, integrando uma classe média sem culpa, gaste meus reaizinhos comprando livros e revistas, gastando minha grana com leitura. Isso é verdade! Mas também, através desse gasto fútil com papel, consigo ao menos trabalhar a minha cachola observando e anotando a briga ideológica na imprensa brasileira, e através dela,  posiciono-me politicamente como leitor e cidadão. Vejo, por exemplo, o quanto o campo das candidaturas está dividido entre os meios de comunicação que apoíam o governo e aqueles que são contra; além daqueles que, fingidamente, falseiam sua posição ideológica, simulando estar em cima do muro. De um lado, por exemplo, temos como veículos de comunicação assumidamente partidários do governo: as revistas Carta Capital e Istó É, além da rede Record e Band de televisão; de outro, temos verdadeiras oligarquias jornalísticas, simbolizadas por grandes jornais e redes de TV pertencentes a grandes famílias: publicações como a Folha de São Paulo, Estadão e O Globo e a revista Veja, escancaradamente favoráveis ao candidato da oposição (só falta pedir votos abertamente pra ele), além de publicações mais independentes como a Caros Amigos, que bem poderia passar como um periódico do P-SOL, com seus artigos inflamados com um pensamento de esquerda, a la Plinio de Arruda Sampaio, "contra tudo o que está aí". Não digo que isso seja bom ou ruim; apenas é curioso!

Creio  que todo veículo de informação que se queira sério deve ter a boa função de bem informar. Por boa informação entendo aquela que dá a notícia como ela é, sem retoques, sem manipulação. O que considero quase impossível, debaixo de tantos interesses escusos e subliminares que podemos encontrar na imprensa brasileira. Entretanto, manifesto  meu respeito pelas publicações que, assumidamente, declaram estar a favor desse ou daquele candidato, esposar esse ou aquele entendimento ideológico ou posicionamento político. Isso é bom para a democracia. É bom para o país e demonstra a honestidade dos meios de comunicação para com seus leitores.

Em algumas democracias amadurecidas, como na Europa ou na América do Norte, jornais se declaram abertamente partidários e simpáticos a esse ou aquele candidato ou partido político. Na Inglaterra, jornais como o Daily Mirror ou o The Post, Washington Post ou New York Times nos EUA, além do Le Monde, na França, na época de campanhas políticas, abrem seus editoriais e são francamente abertos a um ou outro candidato. No Brasil, pelo que eu saiba, apenas a revista Carta Capital, através de seu editor-chefe, Mino Carta, e o Estado de São Paulo, tiveram a dignidade de se assumir publicamente favoráveis à candidata Dilma Roussef e ao candidato José Serra, respectivamente; e por conta dessa posição democrática, ao menos no caso da Carta, o periódico acabou sendo perseguido vorazmente pela vice-procuradora eleitoral ,Sandra Cureau, que confundiu adesão democrática de um jornal a um governo ou candidatura, com crime eleitoral.

Enquanto isso, sob o rótulo de "imprensa democrática" ou "defensores da liberdade de imprensa", periódicos e jornais como a Veja, Folha de São Paulo e o Globo fazem campanha contra o governo com a maior cara de pau, chamando de petistas raivosos todos aqueles que acusam seus repórteres e editorialistas de fazerem campanha descarada para José Serra. Os críticos dessas publicações são acusados de estarem empobrecendo a discussão sobre a liberdade de imprensa no país, já que qualquer um é livre para postar o que bem lhe interessa nos meios de comu!icação que lhe pertence. Tá! Só não vou fechar os olhos para o disparate da demissão da excelente intelectual, psicanalista e articulista Maria Rita Kelh do Estado de São Paulo, tão e simplesmente por ter escrito um artigo favorável ao governo. Fico mesmo triste é quando vejo outrora excelentes e sensíveis escritoras, com Lya Luft, saíram do aprazível semblante zen de seus escritos, para honrar o contracheque e os trocados que lhes são pagos por revistas como a Veja, para além de meter o pau no governo e na sua candidata, ainda aparecem na propaganda eleitoral da TV, pedindo votos para Serra. É muita cara de pau, ou necessidade de grana, mesmo?!?

As pessoas são livres para ser o que quiserem, mas só não podem induzir a erro os outros, numa espécie de estelionato jornalístico, querendo esconder posições políticas sob o manto de uma fajuta imparcialidade. É querer chamar de idiota o leitor, ao invés de querer democraticamente expor o outro lado, a outra versão dos fatos. Sempre li a Veja, apesar de achar horrorosos, atualmente, os vínculos ideológicos de seus articulistas, por entender ser salutar à democracia sempre ouvir o outro lado, inclusive o lado de seus adversários no espectro político. Acredito que muitas dessas publicações realizaram um serviço sério ao país e contribuíram para a civilidade e moralidade pública, quando denunciaram "mensalões", esquemas de corrupção, fraudes, nepotismo, fisiologismo e todo tipo de bandalheira, seja em qualquer governo que fôsse. Entretanto, na atual campanha eleitoral, o nível das paixões, acirramento de posições, mentiras, acusações falsas ou não provadas e tentativas de manipulação das intenções de voto do eleitorado, fizeram-me desistir de comprar e ler tais revistas .Boicotei geral, e não quero mais ter na minha estante panfletos, ao invés de uma autêntica fonte de informação que possa me esclarecer melhor sobre meu país e meu governo.

Recordo-me de quando era criança e via na mesa do meu pai revistas como a Realidade, da editora Abril, depois substituída pela Veja. Nos anos 80, a publicação da família Civita teve um papel importante no processo de redemocratização, quando Veja estampava em suas capas o apoio à campanha das Diretas Já, as informações sobre o movimento democrático e passeatas que aconteciam em todo país, favoráveis à emenda Dante de Oliveira, e as denúncias quanto à farsa montada pela ditadura, no episódio da bomba no Riocentro. Enquanto que os canais de televisão (principalmente a Globo), silenciavam sobre esses fatos, sob pesada censura, essas publicações foram pioneiras, contribuindo no processo democrático para atingirmos a verdadeira liberdade de expressão que possuímos até hoje, e isso foi muito louvável. Parabéns a Veja, Isto É e outras publicações por isso.

Infelizmente, parece que hoje, com tanta democracia nas redações, algumas publicações resolveram vestir a carapuça ideológica do conservadorismo ou do neoliberalismo, incorporando uma "nova direita" que gosta de esconder a cara. Por que isso? Por que não se assumir de uma vez por todas como amante de um projeto político que não corresponde ao do governo, mas sim ao do outro candidato, até como forma de fazer com que seus simpáticos leitores também se assumam como de direita. Ser direitista e defensor do capitalismo não é infamante e nem dói, minha gente! Assumam-se!!

Creio que na última semana desta campanha, somente posso levantar meu brado contra os mentirosos, caluniadores, hipócritas e farsantes de boa parcela da imprensa brasileira. É contra a perfídia, a deslealdade, a safadeza e a falta de compromisso com a verdade para o leitor, que me manifesto contra muitos dos meios de comunicação deste país, e não contra a liberdade de imprensa. Acho que com uma eventual vitória de Dilma nessa eleição (queira Deus, isso, pois me assumo petista e dilmista), essas publicações continuarão com sua caminhada golpista, no sentido de desqualificar, desmerecer e ofender seus desafetos do governo, procurando produzir todo tipo de informação desabonadora ou negativa sobre esse ou aquele governante. Pois é! Faz parte da democracia! Mas sempre estarei a postos pra denunciar a mentira, pois uma coisa é ser do contra, outra é ser do contra se valendo do expediente malicioso da mentira. O leitor e eleitor brasileiro não merece isso, e como consumidor reivindico meus direitos, a fim de que os trocados gastos nessas revistas sejam pagos, ao menos com a divulgação honesta dos fatos e o compromisso com a verdade. Senão, processo judicial neles! Chega de tanta mentira e sacanagem! Ou então, vamos deixar de ler esses caras, gente!!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Essas eleições e a religiosidade-o voto é por fé ou por consciência política?

"Anda com fé eu vou, que a fé não costuma faiarrrr....".É embalado na canção de Gilberto Gil que inicio minha escrita de hoje, meio sob a forma de um manifesto de como vejo o desenrolar desta campanha eleitoral de segundo turno para presidente, questionando o que está verdadeiramente em jogo. Está comprovado que o segundo turno é outra eleição,e, diferentemente do que pensavam os analistas em política, demonstrou-se que o candidato da oposição, José Serra, renasceu das cinzas do primeiro turno com força total, ameaçando uma "onda tucana" nas últimas pesquisas de opinião sobre o voto do eleitorado brasileiro, ameaçando a candidata da situação e do presidente Lula, a petista Dilma Roussef.

Enquanto que no primeiro turno a campanha dos candidatos estava centrada na discussão sobre os grandes temais nacionais: desenvolvimento, educação, saúde, segurança e manutenção de políticas públicas destinadas ao povo trabalhador, o segundo turno desta eleição, até o momento, parece estar quase que inteiramente voltado para a discussão sobre valores: valores que passam por uma identidade religiosa-cristã como a defesa da vida e da família, e valores laicos, dentre eles, aqueles que sinalizam para a liberdade de expressão, a liberdade sobre o próprio corpo e a liberdade de se escolher com quem quer se estar, seja fisicamente ou emocionalmente (leia-se a polêmica sobre o casamento gay e as uniões homoafetivas).

Em primeiro lugar, é importante notar na biografia, discursos e posicionamento político-ideológico dos candidatos Dilma e Serra, que ambos possuem posições semelhantes quanto a temas polêmicos como o aborto e a união civil de pessoas do mesmo sexo. Na verdade, o que aconteceu foi que o candidato do PSDB, José Serra, aproveitou-se oportunisticamente do resultado das eleições do primeiro turno, que deram um caminhão de votos com quase 20% do eleitorado para a candidata Marina Silva, do PV (evangélica da Assembléia de Deus, além de ambientalista), para, por meio de uma campanha eticamente questionável de desqualificação da candidata adversária, querer impor a imagem construída pelos marqueteiros de que o "Serra do bem" seria o defensor da vida, enquanto a maquiavélica Dilma seria a "matadora de criancinhas". O que mais abala uma pessoa, com alguns neurônios a mais funcionando, é de como esse tipo de campanha surtiu efeito em setores mais conservadores e menos esclarecidos do eleitorado, fazendo com que algumas pessoas vinculadas à igrejas estejam convencidas mesmo de que Dilma é uma candidata que representa as "forças demoníacas das trevas", ao defender o aborto e o casamento gay, enquanto que o carola Serra é o "santinho", homem sério, dedicado, honesto e bom gestor, que simplesmente denunciou a artimanha petista de querer transformar o país num rendez vous de homossexuais enlouquecidos e feministas endiabradas, que querem dar fim aquela gravidez indesejada, obtida num fim de noite pecaminoso, uma vez que nossa sociedade estaria perdida, lançada no pecado da carne, da licenciosidade, da pederastia e do sexo pago, como se isso fôsse culpa do governo.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar o que eu já escrevi em outro artigo deste blog sobre simpatias e antipatias por candidatos. O partido da candidata Marina Silva (o PV) também desfralda as bandeiras do aborto e da união homoafetiva como todos os outros candidatos, talvez mais intensamente ainda, tendo em vista que durante a campanha de Marina, era possível ver militantes do movimento gay, filiados ao partido, desfraldando a famosa bandeirinha do arco-íris, enquanto acompanhavam a candidata Marina em suas caminhadas. Apesar da candidata "verde" ser evangélica, e ter uma biografia admirável pelas causas sócio-ambientais, ela atualmente pertence a um partido que, em seu nascedouro, aliou-se a muitas bandeiras do PT pela busca da democracia e da liberdade, integrando em seus quadros militantes do movimento feminista pró-aborto e integrantes da causa gay. Por isso que, quando questionada sobre temas polêmicos e difíceis no âmbito dos valores, como a descriminalização da maconha, o aborto e o casamento gay, oportunamente a candidata Marina lavou as mãos, dizendo ser em princípio contra, mas que democraticamente levaria o assunto para plebiscito. Claro! É a alternativa mais inteligente num país plural como o Brasil, de dimensões continentais, culturas e valores distintos, numa multiplicidade de pessoas com formações pessoais e opiniões diferentes, que muito poderiam debater, no caso de estar sujeita à aprovação popular medidas que mexessem com esses temas. Questões sobre valores devem ser decididas democraticamente pelo povo e não por uma medida unilateral de um governante ou legislador.Marina Silva surgiu nessa campanha com uma agenda bem clara, honesta, voltada para questões do meio-ambiente, desenvolvimento sustentável e qualidade de vida, e não como uma candidata evangélica, candidata das igrejas. Em nenhum momento Marina se apresentou como a "candidata de Deus" e isso agora,  o epíteto de candidato cristão, está sendo instrumentalizado de maneira totalmente desonesta, oportunista e demagógica pelo candidato José Serra!

No texto anterior, onde escrevi sobre antipatias, revela-se muito bem o zeitgeist do eleitorado brasileiro, o espírito do eleitor que os candidatos estão querendo desvendar agora. Muitos dos eleitores que votaram em Marina no primeiro turno e que agora migram para o candidato Serra, são aqueles que não compõem o eleitorado natural e originário do Partido Verde (artistas, intelectuais, estudantes universitários, desbundados e ambientalistas), mas sim eleitores que antipatizaram com a figura humana, pouco simpática de Dilma Roussef. Muitos desses eleitores são antipetistas de carteirinha, alguns eram eleitores do governo, mas por conta dos escândalos,  decepcionaram-se com o governo Lula, votando em Marina como forma de protesto; e outros votam no Serra, são partidários do PSDB ou dos Democratas porque são reaconários mesmo!Em nenhum desses segmentos a religiosidade é fator dominante, e, na verdade, o voto de católicos e evangélicos neste segundo turno está sendo manipulado abertamente: seja pelo candidato tucano, que começou com essa palhaçada de "voto cristão", usurpando o bem intencionado voto de apoio que Marina recebeu de eleitores que se identificaram com ela, por conta de sua vinculação a uma igreja; seja pela candidata petista, que na tentativa de desarmar o ardil tucano de querer indispô-la junto ao eleitorado religioso, acabou por assumir uma vestimenta que não é a sua; até porque não precisava, tendo em vista que Dilma se apresentou desde o primeiro momento como a candidata do continuísmo governamental, de uma continuidade que deu certo, fez o Brasil prosperar, e somente disso que o Brasil precisa nesse momento.

É interessante como a figura de Lula, onipresente no primeiro turno, desapareceu no atual estágio da campanha eleitoral, fazendo com que Dilma tivesse que enfrentar sozinha o candidato da oposição e verdadeiramente mostrar sua cara para o eleitorado. Por um lado, isso é bom. É salutar que no segundo turno o eleitor conheça melhor seus candidatos pela propaganda eleitoral e pelos debates, e o acirramento com polarização de ideias também é válido em uma democracia. Só  que o que eu considero errôneo nesta campanha de segundo turno é manipular a intenção do eleitor desavisado, lidar com temas que verdadeiramente não são da  agenda do candidato, e somente como forma de cabular votos, emprega-se maliciosamente ardis com o aproveitamento da fé alheia, para conquistar um projeto de poder.

Voto em Dilma desde o primeiro turno não somente porque seja eu um simples militante ou simpatizante petista, ou pela minha adesão de longa data às teses da esquerda.Voto em Dilma como um antídoto a um projeto nefasto de poder representado pelo PSDB e Democratas, e pelo senhor José Serra, que simboliza a mais antiga, anacrônica, e atrasada forma de fazer política. Serra não é só o candidato da "nova direita", mas também é o candidato do capital, dos interesses mesquinhos de setores de nosso empresariado menos comprometidos com o desenvolvimento nacional e sim com seus próprios bolsos. Voto contra um projeto neoliberal que de social não tem  nada, e que enquanto o governo FHC enfatizava a quebra dos monopólios e privatização, celebrando o progresso tecnológico de entregar aparelhos celulares a garis, ao mesmo tempo no Nordeste crianças ainda morriam de fome, sem um prato de comida, hoje fornecido graças a um bolsa-família, bem diferente das migalhas que a população recebia nos tempos de bolsa-escola de FHC. Para vocês terem uma ideia do eleitorado tucano, basta verificar que um dia desses muitos dos eleitores paulistas de José Serra metiam o pau no governo, chamando as bolsas assistenciais do governo de "bolsas-vagabundo" e criticavam iniciativas tipicamente petistas como o programa "minha casa, minha vida" de habitações populares. Serra e sua trupe representam o velho pensamento liberal-capitalista de nossas elites, que de liberal não tem nada, mas de direita tem muito, pois representa o capitalismo selvagem que tanto açoitou a sociedade brasileira durante tantos anos.

Como cristão voto contra Serra porque voto contra a mentira, a falácia, o falso profetismo, o lobismo em pele de cordeiro e a usurpação criminosa e pecaminosa da palavra de Deus, manipulando covardemente pessoas íntegras, honestas e fiéis a Deus de coração, através de mentiras disseminadas inescrupulosamente pela internet e na propaganda eleitoral. Como cidadão, voto contra Serra para não querer a volta das privatizações insanas que só servem para engordar as contas bancárias do capital privado, gerando contrapartida nenhuma para o trabalhador assalariado. Voto contra Serra para não assistir ao desmantelamento da universidade pública, tocado a toque de caixa nos tempos de FHC, com o retorno de figuras assustadoras, como o ex-ministro da educação Paulo Renato, inimigo da universidade e da pesquisa científica, voltado a um projeto de subordinação do ensino brasileiro a um projeto gerencial, empresarial, de proliferação de instituições privadas que priorizam muito mais o lucro, do que a qualidade de ensino. Basta ver a multiplicação de instituições escolares privadas e faculdades de fundo de quintal, com altíssimo nível de reprovação nos exames de ordem da OAB, após a reforma do ensino de 1994, quando os cursos de direito viraram balcões de negócio, a sustentar por mensalidades os interesses de ex-professores que se tornaram empresários. Voto contra Serra porque não quero ver os sindicatos voltando para a oposição, uma vez que pacificados no governo Lula, correm o risco agora de se voltar contra um eventual governo tucano (que por tradição, não costuma dialogar com os sindicatos), e ver o país se transformar numa França de Sarkosy (no pior sentido), com paralisações nas ruas, trabalhadores insatisfeitos, greves gerais e serviços inteiros parados, por conta de um governo tucano que defenda a redução dos direitos trabalhistas em prol dos lucros do empresariado, ao invés de estabelecer uma política  fiscal de taxação dos mais ricos.

Voto contra Serra porque não quero a volta dos conflitos no campo com a colocação do MST na ilegalidade( primeira das medidas certamente a serem adotadas por um governo tucano-democratas), onde as questões sociais como moradia, trabalho e miséria voltem a ser tratadas como caso de polícia. Voto contra Serra porque não quero ver o Brasil ser rebaixado à condição de ator de segunda categoria na política externa, coadjuvante nos processos internacionais e mais uma vez subordinado aos interesses norte-americanos, tendo em vista o protagonismo e o reconhecimento que passou a ter o Estado brasileiro nos fóruns internacionais e sobretudo na ONU, após a passagem de Lula pela presidência. Voto contra Serra porque não quero que a segurança pública no Brasil passe pela mesma realidade que passou o estado de São Paulo, governado pelo PSDB, onde a incompetência, descaso e ignorância tucana fez com que a polícia paulista fôsse a mais mal remunerada e criticada do país, onde as rebeliões em presídios, chacinas, corrupção policial e irregularidades administrativas proliferaram, e num autismo absoluto sobre projetos de parceria entre governo e sociedade, governadores como Serra ficaram surdos diante das reivindicações sociais por uma democratização do aparato policial, preferindo o ex-governador tucano jogar cães e bombas de gás lacrimogênio nas manifestações de professores. Voto contra Serra porque não quero a volta de políticos de uma legenda herdeira da ditadura e em extinção como o Democratas, representado por velhos títeres da direita brasileira e sublimes representantes do neocoronelismo e do populismo demagógico nacional, como José Agripino Maia no Nordeste ou César Maia, no Rio de Janeiro. Voto contra Serra porque não quero ver meu país voltar pra trás. Afinal, não somos caranguejos (apesar desses bichos andarem de lado)!

VOTO DILMA, E DIGO: SERRA NÃO!Ao contrário de meus amigos serristas ou tucanos que utilizam slogan diferente para ridicularizar e difamar minha candidata via internet, das formas mais torpes e mentirosas possíveis. Voto pela verdade! Voto com fé, mas com consciência política! Voto porque acredito em Deus e sei que se o milagre da redistribuição de renda e minoria das desigualdades sociais foi obtido com esse governo, pode-se muito mais com um governo apoiado pelo presidente que atualmente temos. E quero uma mulher na presidência, pela primeira vez na história desse país. SE DEUS QUISER!!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Antipatias

Mais uma eleição disputada, mais quebra-quebras ideológicos e mais uma disputa acirrada onde o recrudescimento das paixões transforma o cenário eleitoral num "Fla-Flu de Maracanã lotado". Nada ruim nisso, que na verdade transmite a ideia da "festa da democracia" que tanto o marketing eleitoral quer impor no imaginário coletivo, pois é justamente nesses momentos que a população se politiza, debate francamente, com parco ou reconhecido conhecimento de causa, os problemas nacionais e o debate amadurece. Podemos ver todo tipo de argumentos: dos mais justos aos mais pífios, ignorantes, alienados e desarrazoados; mas também podemos ver e escutar verdadeiras lições cívicas, aulas de civilidade, patriotismo, compromisso ideológico e vinculação sincera e preocupada com os dilemas que realmente assolam nossa nação. E isso é muito bom! Viva a democracia!

Entretanto, não deixo de notar que vira e mexe, saí eleição, entra eleição, percebo nos argumentos e justificativas fajutas pra se votar nesse ou naquele candidato, mais uma vez a expressão genuína da ingenuidade e ignorância que traduzem o pensamento de certos eleitores. Alguns votos são baseados no comprometimento ideológico, seja pelo fato do candidato pertencer a um partido, grupo ou sigla que corresponde aos interesses e ideais de seu eleitores, seja porque outros votam naquele que já lhe prestou algum favor pessoal. Ainda tem aqueles que votam no candidato cujo carisma lhe despertou os sentimentos mais primitivos de adoração messiânica ou simplesmente paixão. O voto, da forma como é manifestado na democracia moderna, é um exercício dos três diferentes tipos de poder e dominação legítima tratados por Max Weber: tradicional, carismático ou legal-racional. Pode-se votar num candidato conforme a disposição de sua imagem numa coletividade, incorporando a figura do "senhor", do "doutor", do "pai", que fez muito por uma região, povo ou cidade (artifícios típicos do tradicional "coronelismo" no Nordeste, do "populismo" nas grandes cidades, ou do "caudilhismo" no Sul do país); ou se vota naquele candidato bonito, carismático, eloquente, empolgante, que só com sua presença física faz multidões se curvarem ante sua oratória brilhante e discursos emocionados (a eleição de artistas, comunicadores de televisão e inúmeros radialistas não me deixa mentir). Ainda temos o voto por força da legislação eleitoral, obrigados a votar naquele que pelas disposições legais ingressou no lugar do outro, tendo que votar porque é obrigatório por lei ou porque a lei diz que tem que se votar nele, por conta de uma determinação legal ( o voto nulo, como forma de protesto, ou o voto na Weslian Roriz, no lugar de seu marido impugnado no DF, são prova cabal de como funciona isso). Mas, fora a categorização weberiana, percebo um voto mais singelo, que em todas as eleições chama a minha atenção.

Trato não do voto, mas do não-voto por antipatia, por rejeição, por nojo. Creio que existem ainda poucos estudos acadêmicos para analisar os motivos que levam alguém não a votar, mas a não votar em um candidato. Sabemos que diveros motivos podem levar uma pessoa a gostar ou não gostar de outra, que são, em sua grande maioria, motivos éticos (não gosto de alguém se esse alguém me sacaneia). Entretanto, existe uma principal forma de antipatia que se vê na política, num pleito eleitoral, que diz respeito aquele eleitor que nunca teve contato direto (e nunca terá) com esse ou aquele candidato; e por uma frase dita por ele num  certo contexto, num lugar, num determinado período de tempo, sua aparência, o tom de sua voz, a forma como sorri, deixa de sorrir ou se expressa, pode produzir em alguns verdadeira aversão, uma ojeriza, uma franca rejeição, como se aquele indivíduo que se candidatou a algum cargo fôsse incapaz de conquistar aquele eleitor. É como se um camarada feio ou desengoçado jamais conseguisse conquistar o beijo de uma bela mulher. Por que será assim?

Acompanho pela internet, caminhando pelas ruas, conversando com amigos ou mesmo vendo entrevistas com populares na televisão, como determinados candidatos (por mais consagrados nas urnas ou na opinião pública que sejam) conseguem promover uma antipatia flagrante em certos eleitores. No orkut, por exemplo, vejo algumas campanhas difamatórias, ou simplesmente a pregação do não-voto em Dilma (o que é legítimo numa democracia), fundados tão somente na biografia da candidata, ou no jeito supostamente arrogante, sério ou desprovido de carisma que ela apresenta, como se Dilma fosse apenas um "bibelô do Lula". Não adianta a candidata demonstrar nos debates de TV que não é apenas um "poste de Lula", que tem ideias próprias (por mais que se discorde delas), que chora, ri, enerva-se e se emociona como qualquer reles mortal, e que apesar da inexperiência em campanhas tem um passado respeitável e um currículo de préstimos ao país que revelam uma boa experiência administrativa. Parte desses eleitores que repudiam Dilma, não depositam seu voto nela não porque ela seja de esquerda, de um partido que simboliza o anticapitalismo ou seja adversário dos tucanos, ou porque ela represente um governo contrário aos interesses de uma elite dominante atroz que governou por séculos o Brasil, mas sim porque Dilma é Dilma. Dilma é um candidata que gera antipatias, porque ela não tem a cara de uma mulher que encante esse ou aquele eleitor ou eleitora. Não se vota em Dilma porque Dilma é chata, ou porque ela é séria demais, tem uma postura arrogante; ou seja, não se vota numa candidata porque ela se antipatizou junto a alguns eleitores.

Um exemplo maior de como é questionável e irrisória essa antipatia é o fervor quase religioso que alguns detratores de Lula tem em relação à imagem do antigo "sapo barbudo". Mesmo do alto de seus quase 80% de popularidade nacional e consagrado como um dos maiores governantes da história da república, Lula ainda é antipatizado por milhares de eleiitores de perfil mais conservador ou alienados mesmo, que não deglutiu ainda a imagem de um "operário no poder". Pertencem essas pessoas aos mais diversos segmentos e classes sociais. Podem ser empresários, jornalistas, donas de casa, trabalhadores rurais, religiosos, profissionais liberais, servidores públicos, militares, pessoas do meio artístico, intelectuais de universidades. Mas todos revelam no seu voto e nas suas motivações parte do preconceito que envolve uma imagem da qual antipatizaram. Afinal, quem vê cara não vê coração! E como uma imagem vale por mil palavras, por vezes basta a imagem de alguém que me desagrada para que essa imagem fique marcada para sempre. Vá entender o espírito humano!?

Desde mais jovem, desde a primeira campanha eleitoral para presidente de que participei até hoje, ainda encontro velhos militares, senhores aposentados do tempo de Forças Armadas do meu pai, que detém uma verdadeira ojeriza a Lula. Para esses senhores de pijama, ainda ficou marcada em suas retinas idosas a imagem daquele sindicalista barbudo, raivoso, inimigo da ditadura, promotor de greves, passeatas e paralisações, que marcou sua passagem na história ainda naquele comício da Vila Euclides, desafiando os militares, com helicópteros sobrevoando um estádio repleto de grevistas, produzindo baderna, segundo eles, desrespeitando a ordem e a paz pública. Para esses eleitores, Lula será sempre aquele torneiro mecânico semianalfabeto, oportunista, demagogo, que conseguiu passar a perna em milhões de brasileiros elegendo-se presidente, com sua pregação comunista, mesmo com seus erros de português. No meio artístico, célebre foram as declarações de Caetano Veloso contra Lula, ano passado, que acabou por fazer com que o músico baiano fôsse obrigado a se retratar publicamente, quando disse que antipatizava com Lula por ele não ter aquela cara simpática e barbeada de doutor, e de ser um cara chato, grosso e que ainda por cima falava mal o português. É uma antipatia rasa, anacrônica, autista, demente, senil, baseada numa total cegueira quanto à evolução histórica e a capacidade das pessoas de mudar e se transformar. Mas mesmo assim é uma imagem, e, repito, mesmo assim, pela democracia e pelo direito constitucional, é uma antipatia válida. 

Agora, vejo a antipatia de certos setores da comunidade religiosa, de católicos a evangélicos, retribuir com o voto no primeiro turno da eleição, como manifestação de simpatia à candidata Marina, simpatia essa que condiz com a mesma antipatia que sentiram pela candidata Dilma, por não incorporar ela a imagem do semblante zen, contemplativo, cristão, quase filosófico da candidata do PV. Dilma com sua cara feia de ministra-chefe da Casa Civil e defensora do PNDH 3(Plano Nacional de Direitos Humanos, que dentro de suas cláusulas, previa a descriminalização do aborto), não conseguiu no primeiro turno, mesmo com toda a parafernália dos marqueteiros, encantar o eleitorado religioso com a imagem de boa moça, boa cristã, que encarna simpatia e assim evita a antipatia daqueles que separam a humanidade entre os salvos e os perdidos, os "do mundo" e os "de Deus". No cúmulo da confusão imagética de símbolos e sentidos é fácil ser antipatizado por segmentos religiosos mais conservadores, se você não se apresenta de todo barbeado, se a mulher usa maquiagem ou batom chamativos demais ou se o homem carrega um brinco na orelha ou um leão tatuado no braço. Dilma ou Lula talvez possam não incorporar para alguns a imagem daqueles que geram simpatia, seja por Lula aparentar com sua barba ser operário ou pobre demais, ou Dilma se apresentar como atéia de muito e religiosa de menos. O não-voto por antipatia é uma das mais intrigantes armadilhas da política para quem quer se destacar nesse cenário e o mais puro exercício de imaginação e criatividade a ser superado pelos marqueteiros, mas é sobretudo efeito de uma das expressões mais sérias e mais desejáveis para um e um milhão de eleitores que querem votar certo: a autencidade.

Ao ser autêntico, você corre o risco de ser antipatizado. Nem Jesus agradou a todo mundo, que o digam os fariseus, e na política, a arma para se combater a antipatia é a coerência. Não tenho medo de ser antipatizado por alguns alunos meus, leitores ou ouvintes, pela forma como me apresento, o que escrevo ou que falo, pois o que importa é ser autêntico e  coerente com tudo o que penso e defendo. O maior trunfo do candidato numa eleição é não esconder sua cara, não adotar a política das "mil caras" como denunciou Dilma contra seu adversário Serra, no último debate eleitoral, mas sim mostrar a sua face como ela é, mesmo que ela não conquiste a adesão de todos. O importante para combater a rejeição antipática é se mostrar por completo, mostrar que apesar de não ter o sorriso dos sonhos de alguém, é possível possuir propostas, ideias e projetos que realmente seduzem o eleitor que lhe antipatizou, mesmo que sua imagem não lhe seja das mais agradáveis. Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo, é conhecida por sua notória arrogância, seu jeito meio "perua" de origem quatrocentona e sua impiedosa rispidez com jornalistas e humoristas, o que lhe leva a perder votos com boa parte do eleitorado feminino paulista; mas, ao mesmo tempo, foi ela quem conseguiu uma votação abonadora para o senado por ter realizado grandes obras na metrópole paulista, ter criado os CEUs que são responsáveis pelo atendimento educacional de boa parte da juventude da periferia e por ter realizado uma reurbanização de espaços públicos degradados, que contribuíram para o turismo e reduziram a criminalidade. Se em Sampa já prevalecia o lema do "rouba, mas faz", agora o jargão que deve vigorar é o do "é antipático, mas faz"!

Nesses tempos de eleição que possamos ser capazes de votar segundo nossas consciências, não se deixando levar pela primeira impressão da antipatia, mas sim conhecendo melhor as propostas de alguém, mesmo sem ir muito com a cara dele ou dela. Ao insistir em escrever isso e repassar estas linhas para minha lista de contatos na internet, às vezes posso ser antipatizado como aquele cara chato que escreve demais e que quer obrigar todos a ler o que escreve, enchendo sua caixa de e-mails. Por favor, não me antipatize! Mas se for assim, paciência! A causa é justa!!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: O eleitorado de Marina -" esse obscuro objeto do desejo".

No ano passado, quando Marina Silva saiu do PT e ingressou no Partido Verde, eu já tinha comentado que ela iria dar trabalho ao Palácio do Planalto, investindo numa candidatura própria a presidente. Contra todas as expectativas e institutos de pesquisa, no resultado final do primeiro turno da eleição presidencial, Marina saiu dos tímidos 10% do eleitorado que ela já tinha como eleitorado cativo, fiel (artistas, intelectuais desencanados, ecologistas, estudantes universitários) e elevou seu capitall eleitoral para o patamar de quase 20% dos votos válidos contabilizados nesta eleição. Foi um resultado e tanto, o que credenciou a candidata "verde" à projeção como liderança nacional e candidatíssima nas próximas eleições de 2014 (ano da Copa do Mundo).

Em diversos períódicos publicados na última semana e em comentários de especialistas em política, vejo as avaliações, teorias e justificativas para a arrancada final de Marina, que impossibilitou a vitória da candidata do governo Lula no primeiro turno. Certamente, e isto já está comprovado, Dilma não perdeu votos de seu eleitorado para Serra, mas sim para Marina. Foi o voto conservador, de eleitores cristãos e vinculados a igrejas evangélicas, que já constituem cerca de 17% do eleitorado nacional que deixou Dilma Rosseuf e seu padrinho Lula a ver navios, garfando valiosos 5% dos votos que a candidata petista precisava pra se eleger. Não foi Serra quem cresceu, mas sim Marina, e o comitê tucano, que já dava favas contadas essa eleição, fechando a bodega e indo chorar as mágoas com seu candidato, respirou aliviado do limbo de um fracasso eleitoral que se avizinhava, e ganhou força, sobretudo se apoiando não numa suposta "onda verde" da candidata do PV, mas sim numa "onda cristã".

Temas como o aborto e casamento gay pesaram na agenda da candidata do PT, quando uma boataria pela internet, movida a puro preconceito e oportunismo, a partir de um vídeo preparado e divulgado por um pastor da Igreja Batista no Paraná, além de declarações raivosas de um bispo católico contra os petistas,foi o estopim para uma midiática munição pesada que foi direcionada contra Dilma Roussef nos últimos dias do pleito eleitoral. Medo, ignorância, desinformação, contrainformação, fanatismo religioso e fundamentalismo foram usados contra a candidata do governo, numa cruzada antipetista que lembrava as Marchas por Deus e pela Liberdade, lideradas pela TFP (Tradição, Família e Propriedade), nos meses que antecederam o golpe militar que derrubou João Goulart e instaurou uma ditadura nos anos sessenta do século passado. Fascismo e direita religiosa fundamentalista andam de mãos dadas, e, por debaixo de uma agenda moralista calcada no tema da defesa da vida e da família, interesses escusos de setores antidemocráticos da sociedade passaram a tomar vulto, como fantasmas de tempos passados, intolerantes e autoritários, que já tínhamos esquecido, ou que os mais jovens só conheciam nos livros de história. Utilizar o nome de Deus para perpetrar atos violentos, discursos preconceituosos, mentirosos e outras barbaridades, não são novidade na nossa história. O fato novo é como isso se deu com tamanha força no processo eleitoral atual, tendo em vista que desde a eleição de 1989, a primeira depois da redemocratização do país, nunca o voto conservador tinha sido tão disputado, e o discurso para o eleitorado cristão colocado na ordem do dia das candidaturas presidenciais. Afinal de contas, não somos um país laico?

Como crente, sigo a lição do Evangelho: "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Para um intérprete dos textos religiosos esta passagem bíblica ensina que não se deve misturar questões de fé com política, e se fé é assunto de Deus e não dos homens, que os homens cuidem de sua vida em sociedade através da política, em suas mais variadas formas, enquanto que na fé seja permitida a liberdade de crença, confissão religiosa e pensamento. Acredito que esse seja um dos principais ensinamentos da Bíblia que não foi levado em conta por alguns sacerdotes e líderes evangélicos no decorrer dessa campanha, quando precipitadamente condenaram a candidatura de Dilma como sendo a "candidata de Satã", por defender a discussão de temas como a descriminalização do aborto, a união homoafetiva ou mesmo a discussão sobre células-tronco.

Ora, descriminalizar o aborto não significa concordar com ele, mas sim adotar uma série de politicas de saúde pública que impeçam que mães jovens, pobres e totalmente desassistidas deixem de lotar clínicas abortivas clandestinas, arriscando suas próprias vidas e a de seus bebês, sem nenhum incentivo moral, material e psicológico para manterem sua gravidez e educarem suas crianças. A solução conservadora mais fácil não é apenas a de condenar o aborto, mas de punir a abortante, como uma verdadeira assassina, uma criminosa ao invés de ser vítima de uma sociedade excludente, patriarcal,intolerante e desumana com as mulheres. Desta forma, com o aborto sendo crime, milhares e milhares de mulheres vão continuar nas sombras, escondendo sua vergonha e seu sofrimento, pelo medo absoluto de serem presas, pelo fato de serem hostilizadas e intimidadas por uma legislação draconiana e equivocada. Não sou defensor do aborto, muito pelo contrário, assim como não esmoreço nas minhas convicções cristãs de tolerância e amor ao próximo; mas tenho bom senso! Algo que, a meu ver, desapareceu por completo nas mentes bitoladas de muito crente de carteirinha, que do alto de seu dízimo, acha-se o dono da verdade e acredita que quem discorda de seus pontos de vista é uma cria de Satanás!

Entendo piamente que aqueles que embarcaram no discurso alienante de lideranças religiosas retrógadas e oportunistas, apenas assim o fizeram pela completa desinformação que foi seguida durante os últimos dias da campanha eleiitoral, e pela ineficiência da candidatura governista de perceber os efeitos devastadores da difamação disseminada pela internet. Não demorou para que setores mais esclarecidos do segmento religioso no Brasil se pronunciassem repudiando as mensagens fundamentalistas e intolerantes contra a candidata do PT. Em e-mail recebido por mim, contendo pronunciamento proferido oficalmente pela Aliança de Batistas do Brasil, por exemplo, vi comunicado desse grupo religioso informando que não concordava com a estratégia político-religiosa de demonização do Partido dos Trabalhadores, e que primava em seu documento por  "reafirmar o compromisso histórico dos batistas, em todo o mundo, com a liberdade de consciência em matéria de religião, política e cidadania".

A introdução de assuntos de fé no segundo turno de uma eleição presidencial trata-se de uma medievalização da política, como se o país voltasse no tempo e, ao sabor do fundamentalismo religioso (seja católico ou evangélico), retornássemos aos tempos do Brasil Colônia, quando o direito canônico português vigorava por aqui e quaisquer questões de natureza civil eram resolvidas consultando não um juiz, mas sim um padre da paróquia. Ao invés de discutirem os candidatos os grandes temas nacionais tais como: emprego, geração de renda, segurança, estabilidade econômica, políticas públicas, saúde, educaçaõ, progresso e desenvolvimento, o que se viu nos últimos dias foi a tentativa de Dilma de bancar a carola e de Serra o bom moço conservador, defensor da vida e da família brasileira. Ha,ha,ha,ha,,ha,ha,ha! Não sei o que é mais ridículo!! Pra piorar veio à tona a frase infeliz de dona Mônica Serra, esposa do candidato oposicionista, dizendo a um camelô numa caminhada de campanha no Rio de Janeiro que Dilma era " a favor de matar criancinhas!". Pelo amor de Deus! Quanto bobagem! Quanto ignorância! Quanta sujeira! Quanta difamação!Quanto desinformação! Que deserviço grande ao povo brasileiro está fazendo o candidato tucano e sua trupe investindo no obscurantismo! Vamos parar com isso, minha gente!!! Deus, acuda-nos!!!!

Em tempo: para aqueles que, equivocadamente, deixaram-se levar pelo discurso abortista pregado em algumas igrejas, como forma de antipatizar o PT e sua candidata, optando pela votação na evangélica Marina, é bom saber que o estatuto do partido de Marina, o PV, também consta entre suas normas a defesa explícita do aborto, algo que não foi notado nos momentos finais do primeiro turno pelos assessores da campanha de Dilma. Acordem irmãos!!! O pior pecado é se deixar levar pela mentira!
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