quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CULTURA: Tatuagem. Por que tatuagem??

De mudança pro novo apartamento, comecei a me mexer para revirar as quinquilharias, na árdua e infeliz tarefa de decidir o que manter e o que jogar fora de casa. Acreditem, meus amigos, na minha casa tem papel, mas muiiitoooo papel. Entre livros, revistas, gibis, posters, CDs, DVDs e agora Blu-Rays, também tenho a curiosa mania de colecionar........cartões de visita. Isso mesmo, existe todo tipo de colecionador, desde os colecionadores de selos aos colecionadores de cartões, e eu me encaixo no segundo grupo; pois revirando entre os cartões que mereciam ser jogados no lixo, deparei-me com um bonito cartão, da cor azul, com gravuras tribais em alto-relevo, que me lembrava um ateliê de tatuadores localizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No verso do cartão tinha uma data e um horário: 20 de janeiro de 2010, uma quarta-feira, às 16:30 horas. Era o horário em que fiz a minha primeira tatuagem: um leão, desenhado no braço esquerdo, de aspecto tribal.


Personagens como Kat Von D tornaram
a tatuagem uma arte ainda mais popular.
 O curioso é que eu nunca tinha reparado na data em que fiz minha primeira tatuagem, até ter encontrado este cartão com o lembrete no verso, na mesma semana em que me preparo para fazer minha segunda tatuagem: agora no braço direito. Antes de decidir me tatuar pela primeira vez, refleti muito, passei meses pensando, e agora ao fazer uma nova tatuagem, mais uma vez, fico me perguntando até que ponto a arte de pintar o próprio corpo não exerce um fascínio quase irresístivel que, para alguns pode se tornar um vício, ou até mesmo uma doença. Analisando os prós e contras, de quem é a favor ou contra as tatuagens, podemos encontrar ínúmeros argumentos de cunho social, religioso, político, psicológico, antropológico e até filosófico. Tatuagens são uma produção humana, assim como são todos os bens culturais, mas os símbolos que são desenhados na pele por alguém ganham uma característica mística, que leva muito em conta a relação do homem com os símbolos, desenhos e cores. É importante sacar também, de como a tatuagem saiu das tribos primitivas, deixou de ser parte de um gueto social e se transformou efetivamente em arte, independente das belíssimas curvas do corpo todo tatuado da linda tatuadora, Kat Von D, em seu programa de TV semanal, L. A. Ink.

Historicamente, a tatuagem remonta à Pré-História, sendo encontrada há mais de 3.000 anos em gravuras de antigas cavernas e em desenhos de arte rupestre, demonstrando que, já naquela época, os homens cobriam a pele com desenhos. Uma das principais características da tatuagem que não mudou até hoje foi o emprego de agulhas com tinta para perfurar a pele, e assim deixar marcados definitivamente no corpo da pessoa, os traços de desenhos e símbolos representados pela tatuagem. No Egito foram encontradas múmias, datadas de 2.400 anos, que possuíam vestígios de terem sido tatuadas nos ombros e abdome, com a imagem de animais ou criaturas mitológicas. Na Roma antiga, os cidadãos romanos diferenciavam-se de plebeus e escravos através das tatuagens, assim como os membros do exército, integrantes da Legião Romana, tinham tatuado no braço o símbolo do senado romano, identificando-os como soldados.


As tatuagens são quase que obrigatórias
entre integranes da Yakuza.
 Todos os períodos da história humana foram acompanhados de gente tatuada. Os guerreiros pictos, povos bárbaros, inimigos dos romanos, tatuavam o corpo por acreditar que as imagens lhes traziam força e equilíbrio para combater os inimigos, e seria mais fácil serem reconhecidos no além, através dos desenhos que carregavam no corpo, pois acreditavam que as gravuras eram gravadas na alma, e não apenas na pele de quem era tatuado. Entre os habitantes de Samoa, para os samoanos a arte de pintar o corpo significava a passagem da infância para a vida adulta, simbolizando um certo status social dentro do grupo, enquanto que em diversas ilhas, os nativos da Polinésia, Indonésia, Nova Zelândia e Filipinas, também traziam tatuagens tribais gravadas no corpo. Tornaram-se famosas as tatuagens dos maoris, habitantes da Oceania, cuja beleza dos traços tribais de suas tatuagens são reproduzidas hoje no mundo inteiro. Também na Europa, durante a Alta Idade Média, celtas e vikings tinham suas próprias tatuagens, diferenciando-se entre si as gravuras empregadas por dinamarqueses, normandos e saxões. No Novo Mundo, os colonizadores encontraram diversas tribos indígenas, tanto na América do Sul, quanto na América do Norte, que usavam tatuagens, em sua maioria associadas aos deuses, com reprodução de animais que simbolizavam eventos sobrenaturais que marcavam a fé anímica desses povos.


Na era moderna, as tatuagens eram populares,
inicialmente entre os marinheiros.
 Durante muito tempo, no decorrer dos últimos séculos, no ocidente,  nos ambientes urbanos, a tatuagem foi associada a um estilo de vida marginal, muito mais relacionado a guetos específicos da sociedade, como presidiários ou marinheiros. No Japão, por exemplo, com o fim da era dos samurais e a modernização do arquipélago japonês, surgiu o crime organizado, e com ele a máfia japonesa, conhecida como Yakuza, caracterizada por seus integrantes tatuados. A máfia russa é caracterizada em sua escala hierárquica pela quantidade de tatuagens que um integrante possui, para subir na organização. Com a popularização da tatuagem a partir da contracultura norte-americana, nos anos sessenta, a arte de desenhar o próprio corpo acabou adquirindo cada vez mais adeptos, popularizando-se na comunidade de surfistas a partir dessa época até hoje, surgindo grandes estúdios de tatuagem e muitos tatuadores ficaram famosos por seu estilo, tornando-se verdadeiros astros pop. Nos Estados Unidos, a partir dos anos setenta do século passado, multiplicaram-se os estúdios para a difusão da arte, com a proliferação de pessoas tatuadas que queriam marcar no corpo a imagem de seus ídolos, com referências à estrelas pop como James Dean, Marilyn Monroe e Jimmy Hendrix. Na década de oitenta, tornou-se lugar comum as tatuagens de animais, dentre eles o tigre e águia, levando em conta o início da globalização e o contato com outras culturas, especialmente com a tradição oriental, relativa ao horóscopo chinês e às divindades do taoísmo e do hinduísmo.


Durante um bom tempo as tatuagens em
mulheres eram consideradas um tabu, no
começo do século passado, até se populariza-
rem de uma forma que, hoje em dia
é mais difícil encontrar
uma mulher não tatuada na praia do que
o contrário. 
 Biblicamente falando, ainda existe uma certa controvérsia no meio religioso (principalmente nos ambientes mais conservadores) acerca da possibilidade de um cristão ou crente de alguma religião, poder ser tatuado. Intérpretes das escrituras e alguns estudiosos consideram a prática proibida em virtude das lições contidas no Antigo Testamento, especialmente em Levítico 19:29 ( “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o Senhor”). Porém, pelo fato de não haver expressamente nenhuma proibição da prática no Novo Testamento, alguns teólogos com visão mais crítica tendem a levar em consideração o caráter histórico do texto bíblico nessas passagens, e identificar a aversão do povo de Israel às tatuagens, pela sua identificação com povos que, na época, eram seus inimigos, como os filisteus, que andavam tatuados.


Tatuagem tradicional samoana, com sua
riqueza de detalhes.
Alguns segmentos mais radicais das igrejas pentecostais chegam a identificar a tatuagem com símbolos do demônio, enquanto que outros simplesmente repugnam a presença de pessoas tatuadas dentro de cultos ou missas ou chegam a destituir fiéis que são descobertos com tatuagens, de cargos honoríficos na igreja. Muitos esquecem, que nas primeiras décadas da igreja cristã, na época da perseguição dos romanos, muitos cristãos se faziam identificar uns aos outros mediante símbolos tatuados no corpo, carregando na pele as letras IHS (Iesus Hominibus Salvatorem), que representavam, tais como sinais identificados com a cruz ou com o peixe, símbolos da fé cristã (o significado traduzido da sigla é "Jesus, Salvador dos Homens"). Em 798 d.C. o papa Adriano I chegou a banir a prática das tatuagens, dizendo que aquilo que se tratava de coisa do demônio, e quem fosse encontrado e identificado com sinais de desenhos em tinta pintados na pela, deveria ser queimado na fogueira. Entretanto, durante as Cruzadas, há relatos de cavaleiros que tatuavam a cruz na pele, como forma de não serem obrigados a se converter à fè muçulmana, orando para Alá. Hoje em dia, é comum também encontrar igrejas neopentecostais, com pregações mais alternativas e includentes, permitindo a frequência nos cultos de fiéis tatuados e tendo até mesmo pastores que possuem tais gravuras estampadas no corpo, como na Igreja Bola de Neve.

Na II Guerra Mundial, nos campos de concentração nazistas, a  tatuagem tinha um significado mais infamante, no momento em que eram tatuados às força os judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais que fossem feitos como prisioneiros, sendo que muitos dos sobreviventes daquela época mantém tatuada nos braços e punhos a numeração que era marcada em seus corpos, como forma de homenagear os mortos do holocausto e nunca deixar de esquecer, principalmente aos mais jovens, dos horrores que não podem mais voltar, com o surgimento do totalitarismo nazista.


Típica pin up tatuada, relevando o glamour de uma
arte antes tida como banida.
 Hoje em dia, a tatuagem praticamente foi assimilada socialmente. Lembro-me quando morava em Porto Alegre, cidade onde fiz minha primeira tatuagem, da quantidade de pessoas tatuadas que pude encontrar, pois antes de me tatuar eu andava pelas ruas, olhando curiosamente quem possuía tatuagem, percebendo que naquela época, no verão, era possível ver que de cada grupo de 4 pessoas que eu avistava, uma era tatuada. Eram homens e mulheres de diversas idades, estilos e etnias, que não tinham medo de mostrar desenhos no corpo, porque tais gravuras já faziam parte de sua identidade pessoal e cultural.

Identidade. Talvez, ao menos no meu caso, pessoas buscam se tatuar como forma de afirmar identidade ou para gravar no corpo momentos expressivos que passaram na vida. Quaando decidi me tatuar encontrei num sonho a figura de um leão, e a partir dali os sonhos foram identificadores de como e do quê eu queria me tatuar, guiando minhas opções, que, a meu ver, tem muito mais de influência do subsconciente, mas também de alguns aspectos de intervenção divina. Escolhi o leão, porque além de ser prosaicamente o animal correspondente ao meu signo, era uma figura que simbolizava força, determinação, bravura, mas também simbolizava a figura de Jesus, a partir da leitura de um escritor cristão reconhecido por sua obra, C.S. Lewis, que com suas Crônicas de Nárnia conseguiu colocar aspectos da fé cristã em sua obra literária antológica, colecionando milhões de leitores em todo mundo e gerando uma rentável e famosa franquia cinematográfica. O Leão Aslam de Lewis era a imagem simbólica que acabei por me interessar em tatuar no corpo, estilizado numa gravura tribal; pois, para quem leu a obra de Lewis, não se trata só de um Leão, mas sim de uma releitura do Leão de Judá que se encontra na Bíblia, personificado biblicamente na figura de Jesus.

Já o desenho da coruja, outro animal que também escolhi fazer, para marcar minha segunda tatuagem, simboliza para mim experiência, sabedoria, e, sobretudo, cautela a partir da observação, virtudes que passei a desenvolver com o decorrer da idade e que ainda venho aprimorando, com a chegada da maturidade. Sei que a opção de fazer uma tatuagem não é tão fácil, e só deve ser feita após muita reflexão e escolha adequada de um tatuador conhecido e respeitado por sua seriedade e higiene, para que depois eu não me arrependa amargamente depois. Afinal, por mais que existam, hoje, aparelhos desenvolvidos e caros para a retirada de tatuagens, o processo ainda é muito doloroso, não há garantia alguma de que a pessoa que se tatuou possa voltar atrás, apagando sua tatuagem e as marcas e manchas na pele permanecem para sempre, ou só podem ser removidas mediante uma cirurgia plástica. Tatuagem não deve ser vista como uma brincadeira ou modismo, e a pesoa tem que ter a completa consciência da alteração definitiva que poderá fazer em seu corpo. Sempre me tatuo com um misto de fascínio e medo, mas sei que, em minha fé, independente de como estiver meu corpo, para onde eu for depois de morrer, sei que terei um Deus que amo, que irá me receber da forma como eu me encontro, com meus pecados e virtudes, por acreditar que Ele está entre nós!

Portanto, por favor, peço aqueles que não gostam da tatuagem que não recrimem tanto por eu ser um homem tatuado; mas, se não concordam, que ao menos respeitem-me do jeito que sou, com minhas virtudes e defeitos, com meu corpo imperfeito, na perfeição de espírito que busco e sei que nunca alcancarei pela minha condição limitada de ser humano; mas um ser um que crê, que tem fé em Deus e acho que a salvação da alma só se encontra Nele, cabendo a Ele recriminar minhas escolhas e me criticar por ser tatuado, e mais ninguém. Afinal, como bom luterano tatuado, acredito que só a fé me justifica e me salva, e só através dela sei que poderá haver um céu tanto para tatuados, quanto para não tatuados. Tchau, gente! O ateliê do tatuador me espera!!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SÓCRATES(1954-2011): Um Brasileiro!

Mais uma vez, aproveito o blog para escrever sobre obituários de gente famosa, mas de gente que, sempre de alguma forma, marcou minha trajetória de vida, como a de outras pessoas. Não sou corintiano, mas sou amante de futebol (e de muitas outras coisas, como meus bons amigos e leitores do blog bem sabem) e após um bocado de dias sem escrever (um mês, pra ser exato), decidi colocar na web minhas impressões sobre esse fantástico ex-jogador, articulista de jornais e revistas, militante político e personalidade  do esporte brasileiro, que agora se foi. Com vocês, minha homenagem ao Doutor Sócrates!!


(retirado de cafecomnoticias.blogspot.br)
 Sócrates  Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, já tinha no nome uma equipe de futebol de salão montada. Nascido em Belém do Pará, há 57 anos, Sócrates veio de uma Belém que eu conheci na minha infância, pois como filho de um militar, vivi com minha familia num conjunto residencial da Marinha, próximo ao aeroporto, no começo dos anos oitenta, época em que comecei a me encantar com a mágica seleção brasileira da Copa de 1982, na Espanha. Torneio que teria como um dos craques a figura do doutor, um Sócrates no auge do vigor físico, habilidade e da fama, que junto com Zico e Falcão formou uma das melhores equipes de futebol da seleção canarinho da história. Uma equipe campeã moral, que no final não levou nada, mas encantou o Brasil e o mundo com os passes mágicos desses craques eternos, e com o antológico passe de calcanhar, marca registrada de Sócrates, que com sua criatividade fez ou ajudou a fazer muitos gols. Pena que a Itália de Paolo Rossi nos fez chorar! Pena que uma seleção tão brilhante, de futebol tão bonito, não conseguiu emplacar e levar para casa o título mundial. Aquele tempo se foi, mas Sócrates ainda permanceu por muito tempo no imaginário popular e na vida cultural e política nacional, até falecer este mês por distúrbios de saúde associados ao alcoolismo (mazela de tantas craques, que já vitimou Garrincha no passado), e ter deixado uma legião de leitores, da revista Carta Capital, orfãos do seus textos (dentre eles, eu). Que pena que Sócrates foi embora tão cedo. Cedo, porque 57 anos não é nada para a eternidade, e não é nada para quem se eternizou no coração e no orgulho nacional, com a alegria de  quem brincava com a bola, fazendo a alegria da torcida nos seus tempos de jogador. Um tipo magro, alto, imenso, mas de pés tão pequeninos e um jeito tão desengoçado, que fazia tremer a zaga do time adversário, toda vez que se aproximava da grande área. Sócrates permanecerá eterno. O doutor sempre será eterno!!

Doutor da bola, doutor na vida. Já no final dos anos setenta, Sócrates era uma exceção à regra, diante de tantos jogadores oriundos de famílias pobres, de baixa escolaridade ou nenhuma instrução, que tinham aversão a uma sala de aula, ao ter uma dedicação ao esporte inversamente proporcional ao estudo. Sócrates era estudante universitário, quando começou a jogar no interior de São Paulo, no Botafogo de Ribeirão Preto, cidade onde sua família,egressa do Pará, viria a residir e se radicar, revezando os treinos no clube com as aulas de medicina, na faculdade de medicina local, pertencente a USP. A dedicação aos estudos era semelhante à dedicação ao futebol,e já despontando como um craque mais talentoso nos gramados, do que nas mesas de cirurgia, não demorou para que Sócrates ingressasse no time que o consagraria, tornando-se um dos ídolos eternos do Corintians Futebol Clube. Foi no Timão que Sócrates, acompanhado de seus companheiros Palhinha e Casagrande, revolucionaram o futebol brasileiro com a criação do movimento chamado Democracia Corintiana, onde os jogadores, organizados politicamente como se fossem um partido político, reuniam-se em assembleía, ditavam as regras para a direção do clube, tiravam ou escolhiam treinadores, encerraram as autoritárias "concentrações", onde os jogadores ficavam enclausurados, impedidos de sair dos treinos, e definiam até horários dos jogos e treinamentos, numa forma de mobilização que lembrava a ebulição política da época, com a ocupação de praças e ruas, pelos movimentos sociais, exigindo o fim da ditadura e a realização de eleições diretas para presidente.


(retirado de abril.veja.com.br)
 Foi no movimento das Diretas-Já, que Sócrates mais se notabilizou como cidadão e ator político, e não apenas como jogador. Filiado ao PT, partido com quem sempre se identificou, e ídolo de Lula, então sindicalista, fundador do partido e futuro presidente da república (um corintiano fanático), o famoso jogador fez história com seu emocionado discurso no comício das  Diretas, dizendo em alto e bom som que se a Emenda Dante de Oliveira, que previa eleição diretas para presidente da república, em 1984, fosse aprovada, ele não iria mais para o exterior, saindo do Brasil a convite de um clube italiano, uma vez que queria permanecer para ajudar a reconstruir a democracia no país. Que pena que as coisas deram errado. A emenda não passou e o Brasil teve que esperar mais um ano pelo fim da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves para o colégio eleitoral, e, nesse ínterim, um experimentado Sócrates tentaria a sorte na Europa, defendendo, por um  curto tempo, a camisa da Fiorentina, para depois retornar ao Brasil e ainda jogar pelo Flamengo, pelo Santos, até encerrar  a carreira no mesmo Botafogo de Ribeirão Preto, onde começou a dar os primeiros chutes, em sua histórica trajetória futebolística. Sócrates ainda jogou a Copa de 1986, no México, onde mais uma vez sentimos o gosto da decepção, ao perder para a França (Ahh! A França, sempre a França!), na disputa de pênaltis, nas quartas de final do Mundial.  Naquela época, um Sócrates contundido, exausto, mais ainda talentoso, viu se perderem as chances do Brasil conquistar mais um titulo, ao perder um pênalti decisivo, que levaria à seleção canarinho para as semifinais. Mas é de alegria e tristeza que se vive o futebol. É de momentos de glória e também de profunda dor que se forja um torcedor. Senão, não teria graça o futebol, não é mesmo?!


(retirado de webnode.com.br)
 Nos últimos anos, além de trabalhar como técnico de futebol, Sócrates se valeu de sua persona pública para trabalhar em projetos sociais, participar de eventos políticos (com direito até a elogios ao presidente venezuelano Hugo Chavez) e a escrever artigos na imprensa nacional, principalmente na revista Carta Capital, donde se tornou articulista, revelando um senso crítico que nunca o abandonou, além das garrafas de cerveja, cigarros e samba que sempre o acompanharam; pois afinal, acima de tudo, Sócrates era um brasileiro!



(retirado de vocedeolhoemtudo.com.br)
 Brasileiro de origem humilde, desapegado dos bens materiais e mais adepto de uma boa conversa de mesa de bar, entre comentários críticos à política e o futebol, do que frequentar os grandes salões do jetset do capitalismo da bola. Além de jogador, eu estimava o Sócrates que se fez enquanto pessoa, angariando mais amigos do que desafetos, apesar do seu jeito às vezes turrão de dizer as coisas "na lata" para seus interlocutores, sem se preocupar com eufemismos. Sócrates poderia se tornar uma fera para jornalistas, como também poderia ser uma doçura de afeto, reconhecendo com mansidão na imprensa nacional os seus vícios e o alcoolismo que acabou levando-o à morte. Desde o começo do ano, com suas idas e vindas ao hospital, Sócrates despertou a comoção pública e o afeto indivisível de todo o país, calando até mesmo seus antagonistas na CBF, irritados com a forma sempre crítica com que Sócrates denunciava a cartolagem no futebol. Afinal, Sócrates era um ícone, não um "zé-mané" pago a preço de ouro para ficar calado, ou promover cartolas investigados pela Justiça, acusados de corrupção. O drama de Sócrates serviu para denunciar os riscos do consumo excessivo de álcool, mas também serviu para demonstrar que uma pessoa vale pelas opções que adere e pelas suas escolhas. E Sócrates escolheu viver da forma como queria, sendo brasileiramente um cara simples, com todas suas qualidades e defeitos, tomando sua cervejinha no final do dia, na esperada mesa de bar. Por seu passado de atleta, Sócrates não teve como vilão doenças de coração ou de pulmão,  males que afetam os beberrões e fumantes, mas sim  uma doença do fígado, castigado por tantos anos de excesso e de birita. Na sua última refeição, o doutor passou mal, e antes que fizesse seu último diagnóstico, foi direto para o hospital, não mais voltando de lá vivo, mas escrevendo sua página na história, e nos corações de todos os torcedores de futebol.


(retirado de esporteuol.com.br)
 Sócrates simbolizava um tipo de futebol arte e um estilo de atleta ético, engajado políticamente que marcou época, mas que será muito difícil de encontrar nos dias de hoje, devido à mercantilização do futebol e uma indústria de fabricação de craques, que hoje transforma ex-atletas em homens de negócio (vide o que aconteceu com Ronaldo). Nada contra, mas também nada a favor, para quem tem um pensamento minimamente crítico, como tinha Sócrates. De qualquer forma, Sócrates deixa uma lacuna, mas também deixa uma lição de vida e ser humano na história do futebol e da política nacional. Definitivamente, é alguém que vai deixar saudade! Adeus, Sócrates!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

INTOLERÂNCIA: O discurso do ódio e toda maldade de classe subjacente às mensagens de internet, acerca do câncer do ex-presidente Lula.


Na alegria e na doença o apoio indisfarçável de sua
pupila, a presidenta Dilma Roussef, ao seu mentor,
um Lula acamado no hospital (fonte:foto retirada de
agência Brasil-R7 notícias).
 A verdade dói, mas tem muita gente reaçonária nesse mundo, principalmente no Brasil. Gente esdrúxula, psicologicamente reprimida, esnobe e elitista, fascista e altamente preconceituosa. Já faz duas semanas que sabemos pelos meios de comunicação que o ex-presidente Lula foi acometido de um maligno câncer de laringe, de gravidade considerável, e que já matou outros de seus familiares, inclusive a mãe dele. Mesmo acometido de uma doença grave, que mereceria toda a consideração e respeito do mundo, até por razões humanitárias, pulularam junto com as mensagens de solidariedade na internet, outras mensagens descabidas e medonhas, com pérolas do preconceito, da ignorância e da falta de respeito com a condição humana, sempre garantidas pelo anonimato de seus covardes agressores, responsáveis pelas mensagens. A última que escutei, de um de meus colegas de trabalho que viu isso numa página na internet, foi a seguinte mensagem de um leitor não identificado, em um site de notícias: "nunca fiquei tão amigo do câncer. Espero que ele desintegre o sapo barbudo!". Pode uma coisa dessas?

As mensagens enviadas por esses facínoras, disfarçados de leitores, começaram com irônicos comentários nos sites de jornais, redes sociais e outros meios de comunicação sobre o câncer de Lula, dizendo que, agora, ele seria obrigado a se tratar pelo SUS. Revelando sua completa ignorância quanto à saúde pública no Brasil, como se o SUS se restringisse a um péssimo atendimento médico e a falta de leitos hospitalares, os comentários maldosos acerca da saúde de Lula revelam apenas a faceta negra de dois Brasis: um identificado com a democracia, com a justiça social e com o livre debate de ideais na rede, através da manifestação pública de opiniões diferentes; o outro Brasil é marcado por gente hipócrita, escondida por detrás de avatares, pseudônimos ou simplesmente anônimas na internet, que além de preconceituosas quanto a um presidente de origem operária, ainda manifestam o quanto são burras, desconhecendo o serviço de saúde pública neste país. Quando infartou, há quase dez anos atrás, meu pai precisou do SUS, foi atendido por um dos hospitais da rede pública, e só está vivo até hoje porque teve um pronto atendimento, da equipe de cardiologistas que trabalhava na emergência do hospital. Golpe da sorte? Destino? Obra de Deus? Talvez e tudo um pouco, mas a verdade é que o SUS está distante de um modelo ideal de atendimento médico, mas também não está a calamidade que os babaquíssimos representantes do eleitorado tucano ou neoreaçonários tentam mostrar em seus insultos contra Lula e comentários na rede.Tais comentários revelam o mesmo setor da classe média burra, urbanizada, com pretensões de riqueza e ascensão social, eleitora de José Serra na última eleição e aficcionada pela revista Veja, que do alto de sua ignorância e pagamento de privados planos de saúde caros, são incapazes de saber que a saúde pública não é somente o destino fatal dos pobres ou necessitados; ou não toleram que um ex-presidente que já foi torneiro mecânico possa ter condições financeiras suficientes para utilizar um plano de saúde, ao invés de procurar um hospital público, simplesmente porque tem recursos materiais para isso.

Não precisava tanto, Gilbertão. Simancol pra vc!
(fonte:retirado
de anaispoliticos.blogspot)
Comentários infelizes, como o do jornalista Gilberto Dimenstein, na Folha de São Paulo, supostamente fazendo um alerta acerca dos riscos do tabagismo (uma vez que é sabidamente público, que o ex-presidente petista era tabagista crônico, antes de largar a presidência), mas na verdade despontando para o comentário político, serviram de munição para que alguns idiotas na rede, antilulistas, desfilassem todo seu ódio de classe e rancor numa eleição presidencial perdida pelos tucanos e ainda mal digerida, de um grupo de eleitores tucanos ou simplesmente alienados e altamente reaçonários, que remeteram desaforos disfarçados de mensagens pela internet, desejando o pior dos piores para uma personalidade pública como Lula. Os homens públicos sofrem por conta de sua exposição na mídia, mas "nunca antes na história desse país" um ex-presidente foi tão sacaneado por contrair uma doença quanto Lula. Será que todas as pessoas públicas estão sujeitas a isso? Cadê o bom senso?

Por exemplo, o mago da computação e empresário norte-americano, Steve Jobs, recentemente falecido, também vítima de câncer, apesar de gênio teve em vida uma trajetória polêmica, colecionando desafetos em quantidade proporcional a de fãs, uma vez que era visto no local de trabalho como um chefe intolerante, autoritário e por vezes ditatorial, devido ao grau de perfeccionismo que exigia de suas criações; além das críticas formuladas por seus concorrentes, como Bill Gates, patrono da Microsoft. Nem por isso, com a morte do CEO da Apple, viu-se na internet comentários tão baixos ou ignorantes, em relação a uma pessoa que está morrendo de uma doença terrível, como agora se viu na divulgação do câncer que assolou o ex-presidente da república brasileiro.



Na mídia, a descrição da doença
terrível que acomete o ex-presidente (fonte:retirado de
correiodobrasil.com.br).
 Não é preciso ser de esquerda, simpatizante do PT ou socialista para repudiar a estupidez das mensagens que ainda enlameam a internet, transformando o ambiente virtual num chiqueiro de ideias. Mesmo na grande imprensa golpista, em seus editoriais, os magnatas da imprensa se apressaram em, nas entrelinhas, dizer que não tinham nada a ver com isso, permitindo que seus articulistas criticassem abertamente o tom agressivo de certas mensagens dirigidas à doença de Lula e divulgadas na internet. Até o ex-presidente tucano Fernando Henrique saiu na mídia em apoio ao seu sucessor e desafeto político, dizendo que ninguém tinha direito de esculachar uma pessoa doente pela internet, mesmo que por motivações políticas. Eu mesmo tenho verdadeira ojeriza por determinadas personalidades da vida pública que já morreram ou que ainda estão por aí, como Paulo Maluf, por exemplo. Mas nem por isso eu desejo que Maluf morra de uma doença terrível num leito de hospital, ou saía por aí destilando pérolas do mau gosto, como a desgraça que se abateu sobre a família do político baiano, Antônio Carlos Magalhães, logo que ele morreu numa disputada briga por sua herança; ou me aprazer com o sofrimento do casal de bispos Sônia e Estevam Hernandez, da Igreja Renascer em Cristo, que além de ver o fechamento de suas igrejas e a perda de fiéis, por conta de suas picaretagens, ainda vêem tristemente o calvário do filho comatoso, herdeiro natural dos religiosos, acometido de uma doença rara. No Rio Grande do Norte, mais precisamente na capital do estado, Natal, a atual prefeita Micarla de Sousa, amarga um percentual de 90% de rejeição popular após uma administração desastrosa, marcada pela demagogia e pelas promessas falsas e "incumpríveis", mas nem assim foi detonada na internet por conta de uma séria doença cardíaca que a acometeu (talvez pelo stress de ser tanto cobrada na cidade), resultando numa viagem às pressas da prefeita até um procedimento cirúrgico, num hospital em São Paulo. Castigo divino? Praga? Compete tão somente a Deus o julgamento final. A mim, cabem as críticas, mas críticas civilizadas, dentro de um processo democrático.


FORÇA, LULA!! (fonte: brasilia247.com.br)
 Fico me perguntando se em relação a outros líderes políticos, celebridades ou estadistas, se o grau de violência é dosado nos ataques, como foi com o caso de Lula. Sei que Lula não é um santo, iniciou seu governo debaixo de uma biografia que é, em si, uma epopeia, e teve um mandato presidencial de erros e acertos, dentre eles o crescimento econômico, a distribuição de renda, a ascensão de uma nova classe média, mas também escândalos políticos como o "Mensalão", o apoio e nomeação de políticos com caráter duvidoso em ministérios e em estatais, teve a adesão ao governo de um partido ultrafisiológico como o PMDB, e houve a guinada mais à direita dada pelo partido do ex-presidente, o PT, que de partido de massas e popular, tornou-se mais uma legenda pragmática, de centro-esquerda, vinculada a real politik. Tudo isso pode ser atribuído ao governo Lula, com seu misto de assistencialismo e demagogia, de um hábil líder populista (assim como Vargas, mas diferente deste, pela origem popular) que conseguiu em sua trajetória reunir um contingente de milhares de fãs, como também de desafetos, distribuídos principalmente no eleitorado urbano, das regiões sul e sudeste do Brasil, de posição social mais elevada, centrado mais no perfil de uma classe média escolarizada, leitora de jornais, mas altamente preconceituosa. Se é legítimo numa democracia que os opositores de um governo manifestem sua liberdade de expressão, também é certo que a Constituição Federal exige a revelação da autoria da fonte, vedando o anonimato. Pessoas públicas como os políticos recebem o ônus de ser criticados, mas também tem o direito de ser respeitados, principalmente em momentos pessoais ruins, quando da descoberta e do acometimento de uma grave doença. Simancol pra vocês aí, anônimos da internet! Vão procurar o que fazer. Corja de reaçonários!

sábado, 15 de outubro de 2011

DATA: Dia do professor-ensinar o que? Pra que Professor?

Lembro-me da primeira vez que entrei oficialmente para dar aula como professor. Eu tinha acabado de terminar a Especialização, tinha meus 27 anos e um completo medo de sala de aula. Antes, eu já tinha tentado dar aula na universidade como monitor (o que não é a mesma coisa que lecionar), e num cursinho preparatório para concursos, onde a experiência foi uma das mais mal sucedidas possíveis. Na época, eu não tinha propriamente um traquejo e o pensamento rápido de responder a uma indagação repentina de um aluno, e meu plano de aula era filosofal demais, inadequado para uma turma de bancários e funcionários públicos subalternos que só queriam fechar um gabarito e acertar  marcar o "x" em provas objetivas.

 Mas, no dia em que fui como professor de fato e de direito dar aulas, gelou-me a espinha. Comecei a gaguejar logo no começo da aula, e pra tentar quebrar o gelo comecei a perguntar o nome dos alunos e o que cada um estava fazendo ali naquela sala, pra explicar o porquê de fazer um curso preparatório na Escola do Ministério Público. Lembro-me que uma das alunas foi bem mal educada de início, respondendo tão somente que estava ali porque sim e que eu já tinha feito a mesma pergunta, e logo vi sorrisos e gargalhadas zombeteiras de alguns alunos, o que me deixou mais nervoso. Resolvi abrir o jogo, pedindo que a classe me respeitasse, ou ao menos tivesse piedade de mim, pois era minha primeira aula, o desafio era grande e eu queria, realmente, saber expor tudo o que eu sabia para aquela turma de alunos, mas  o nervosismo não me deixava. Preferi ser sincero, e naquele momento, como num passe de mágica, conquistei a turma, pois um dos alunos, um senhor mais velho respondeu para mim, diante de seus colegas:"É! Professor! O senhor não se preocupe, pois ao menos no quesito sinceridade, o senhor já tirou nota dez!". A partir dali parei de gaguejar, passei a me sentir confiante, as ideias começam a fluir com naturalidade e agilidade, e ao final do semestre fui bem avaliado como um dos melhores professores do curso. Lição de superação? Manual de autoajuda? Não! Simplesmente ocorreu-me algo que me marcaria para o restante da vida e definiria minha opção profissional: descobri que sou professor!

No dia 15 de outubro comemora-se no Brasil o Dia do Professor. A data diz respeito a um decreto do imperador Dom Pedro I, em 1827, decretando a criação das primeiras escolas primárias do país. A partir dali seria criada a profissão de professor, através das "Escolas de Primeiras Letras" e ali, desenvolvia-se uma carreira até hoje considerada nobre, mas progressivamente mal valorizada, resultando nos grevistas professores da rede pública, que conhecemos hoje. Mas o belo e sofrido ofício de ensinar já remonta há muito mais tempo.

Os professores já remontam uma profissão bem mais antiga, que vinha ainda do tempo dos filósofos gregos. Talvez Sócrates tenha sido o primeiro grande professor, dando suas aulas particulares, de graça, pra quem quisesse ouvi-lo, sendo recepcionado e "pago" através de comida, bebida ou um lugar para dormir, ao passar pela casa de cada um de seus discípulos ou admiradores, com suas lições filosóficas sobre a vida ou a existência. Depois viria Aristóteles, o preceptor de Alexandre, o Grande, o primeiro filósofo a instituir o ensino através da sala de aula,com a criação do Liceu, o local em formato de anfiteatro, onde seus alunos enfileirados em bancadas, podiam escutar as lições de seu mestre. O método de ensino de Aristóteles consistia em conhecimentos práticos úteis para a vida, nos diversos ramos de conhecimento, mas também levavam em conta o ensino da virtude moral e do bom caráter, pois para Aristóteles o homem era "um rio sem leito" e como não nascia com uma disposição moral inata, ele devia adquirir isso através da escola. Portanto, na visão aristotélica o ofício de ensinar não consistia apenas em dar lições sobre uma matéria específica do conhecimento, mas sim em educar, educar para a vida.

Existem muitos professores, mas poucos são educadores. Acredito no professor-educador, pois nesse tipo de profissional você encontra a fusão entre conhecimento e virtude de que falava Aristóteles. Não basta para que alguém se intitule professor somente "dar umas aulinhas" para equilibrar o orçamento doméstico, ou somente por status social, como se dá para quem se dedica ao ensino na área jurídica. Em áreas nobres e tradicionais do ensino superior, como o direito, a medicina ou a engenharia, é comum o profissional do ensino ter dois empregos: um relacionado diretamente a sua área prática, outro dedicado ao ensino. Costumo ser surpreendido com a pergunda formulada por alguns de meus alunos, logo no começo do semestre, nas primeiras aulas, com a curiosidade manifestada na singela pergunta:"Professor, além de dar aula o senhor também trabalha?".

É por trabalhar (e muito) no ensino, que o professor deve ser educador, e não só professor. Educar significa não apenas deter conhecimento, mas também estar preenchido de um estado de espírito onde seu caráter, sua experiência de vida e as lições morais que genuinamente você quer passar, atravessem os muros da escola e cheguem na sala de aula, pois você gostaria, de coração, que aquelas lições fossem ensinadas a outros, como se fossem seus filhos, parentes ou melhores amigos os destinatários daquelas lições. Digo que o professor que tem o ato de educar como ofício e vocação, vê a escola e seus alunos como sua segunda família. E é assim que vejo os lugares onde ensino ou ensinei. Em alguns você tem famílias problemáticas, em outros famílias mais harmoniosas, mas em todos persiste a função de educar, pois como um Dom Quixote do ensino, você crê nos moinhos de vento do sistema educacional, achando que, com sua atuação profissional, ética e dedicação, você conseguirá transformar pessoas. Ledo engano, muitos poderão dizer, ou ingenuidade sua. Porém, de qualquer forma, você persiste e continua a ensinar, contra tudo e contra todos.

O professor é um herói, dentro do atual contexto de crise da educação moderna, e diante das sucessivas decepções e atropelos que ele possa vislumbrar, diante de modelos educacionais fracassados ou perante uma total falta de estrutura ou apoio governamental para o ensino brasileiro. Em  edição deste mês da Revista Piauí, é traçado um interessante perfil do atual Ministro da Educação, Fernando Haddad (pretenso candidato do PT e preferido do ex-presidente Lula à prefeitura de São Paulo), onde se vê uma briga de cifras e estatísticas, entre os apoiadores e adversários do ministro, acerca do desenvolvimento ou do atraso da educação no Brasil, entre os governos de FHC e Lula. O certo é que independente do orçamento do Ministério da Educação ter dobrado nos últimos anos, o país ter evoluído na educação básica e hoje metade dos que ingressam na escola terminar o ensino médio (em comparação aos 36% da década anterior), e pela contratação recente de quarenta e oito mil docentes, ainda temos 10% da população totalmente analfabeta. Além disso,  de 65 países avaliados no ranking do Programa Internacional deAvaliação de Alunos (o PISA), o Brasil está entre os 15 piores em leitura, matemática e ciências. No país, quase 60% dos alunos que concluem o ensino fundamental, tem dificuldade em calcular o troco e ver as horas, enquanto que 44% dos alunos que concluem o ensino médio tem dificuldade com leitura e escrita. Percebo isso no ensino superior, grande reservatório da defasagem nacional no ensino, quando, nas faculdades privadas percebo alunos que tem imensa dificuldade de escrever (mesmo num curso de Direito, onde o domínio da escrita é obrigatório), e, em muitos casos, não escrevem praticamente nada. E os professores? Como devem atuar diante dessa alarmante situação?

Lembro-me aqui de uma jovem e combativa professora potiguar, Amanda Gurgel, militante do PSTU, que ganhou notoriedade e seus minutos de fama repentina, quando um pronunciamento seu, feito numa audiência pública na Assembléia Legislativa do RN, repercutiu nacionalmente através do Youtube, sendo chamada a professora a participar de programas de televisão. Tudo está dito ali, em grossas linhas, nas simples mas tocantes palavras da professora da rede estadual, acerca da situação de penúria pela qual tem passado o ensino brasileiro e os profissionais da educação, e da caracterização dos professores como mártires, em uma data que deve servir de alerta e lamento, e não como celebração. Ao invés de sermos reconhecidos com mensagens de congratulação, no dia 15 de outubro, deveríamos ser presenciados com salários dignos, condições de trabalho decentes, e agraciados com uma estrutura educacional que permitisse, efetivamente, educar.

Recordo também do personagem do ator Sidney Poitier, no clássico fime Ao Mestre, com Carinho, de 1966, reprisado à exaustão na Sessão da Tarde, em que ele interpreta um professor negro, numa escola secundária de subúrbio, na periferia norte-americana, na ebulição cultural dos anos sessenta. Vemos a tortuosa tarefa de um professor de escola pública, mal remunerado, diante de uma turma de alunos rebeldes, desajustados socialmente e organizados em gangues, numa função em que o professor tem que incorporar a própria autoridade do Estado, para evitar o caos, e ao mesmo tempo tem que conquistar os alunos, colocando-se no lugar de uma figura paterna, já que muitos daqueles jovens pobres tinham ausência da presença do pai. Em síntese, é assim que penso a profissão de professor, em que homens e mulheres todos os dias acabam assumindo a função de segundos pais e mães, para muita gente. O personagem de Poitier simboliza a missão de muitos (senão de todos) os professores até os dias atuais, em diversos lugares e países, tendo uma dificuldade enorme de lidar com a avalanche de ignorância que predomina sobre a sociedade, procurando abrir cabeças, despertar consciências, através da difusão do conhecimento. E não é tarefa fácil, não!

Portanto, nesse dia 15 de outubro, pense se esse dia fosse um Dia dos Pais ou Dia das Mães, e, ao invés de me congratular pelo meu dia de professor, congratule-me pelo meu dia de ser humano, e diante das nossas lutas, junta-se a nós, professores, na cruzada por uma dia melhor na educação nacional, mesmo que isso seja à custa de muito trabalho, sangue, suor e desapontamento, para quem acredita que apesar de todo o sofrimento, SER PROFESSOR AINDA VALE MUITO À PENA! Vamos à luta, companheiros professores! FELIZ DIA DO PROFESSOR, mesmo com muitas lágrimas, revolta e tristeza nesse dia!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MEMÓRIA: Steve Jobs - morre o gênio, fica a obra.

Fica difícil imaginar aqui o que escrever levando em conta tudo o que já se escreveu, durante toda a semana, sobre a morte do fundador da Apple, Steve Jobs, considerando as homenagens, a cobertura midiática durante um dia inteiro em canais como a Fox e a Globo News, debates e entrevistas falando da contribuição do gênio irriquieto de Jobs para a humanidade, a romaria de fãs, admiradores, viciados em informática e consumidores, que lotaram as lojas dos produtos da Apple em todo o mundo, apontando os seus tablets em sinal de respeito, com a imagem de uma vela acesa no monitor. Parecia que tinha morrido um mártir, um santo, uma estrela de rock, um governante, um ídolo pop. Por trás do fascínio que o homenzinho alto e magro, de óculos de aro fino, nascido em San Francisco, California, exercia, estava um simples homem, mas um homem que mudaria para sempre a face do final de um século e do começo de outro.

Como todo blogueiro oportunista, que escreve de tudo, sobre todos os assuntos, os obituários de gente famosa ou importante são sempre o momento certo pra "tirar uma casquinha" e arrumar o que escrever pra preencher espaço. Confesso! Mas, para que a minha narrativa seja, ao menos, original, creio que devo legar neste texto minhas impressões pessoais sobre Jobs, a admiração que eu poderia ter (e milhares tem por ele) e fazer o honesto reconhecimento de sua contribuição para o capitalismo e para o avanço tecnológico. Sim, porque a tecnologia só se desenvolve no capitalismo (perdoem-me os companheiros socialistas). É preciso que exista algo para vender, algo decente, acessível, disponível para o mercado, para que conglomerados, holdings e empresas liberem financiamento para que pesquisas se desenvolvam, novos artefatos sejam inventados e testados, e assim o bonde da história continue sua caminhada, da evolução da roda até o software, sob o vaticínio do lucro e patrocínio do interesse econômico.


Foi numa das revistas símbolo do capitalismo que vi, pela primeira vez, nos anos oitenta, Steve Jobs, numa entrevista feita à revista Playboy (antes das gozações, afirmo, para quem acredita ou não, que mesmo na minha adolescência eu folheava a revista não só para ver belas mulheres nuas, mas também para ler as entrevistas). Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que seria a gigante que se tornou a Apple, de como uma dupla de jovens programadores (Jobs e seu xará Steve Wozniak) tinha revolucionado a tecnologia, criando o computador pessoal, e fazendo com que aquelas enormes geringonças dos filmes de ficção científica e do seriado Star Trek, deixassem de ser usadas apenas por militares e passassem a ser encontradas em qualquer escritório ou casa, na forma do tosco Apple II .Naquela época, o que vi foi mais um jovem com cara de cantor de rock, de banda new wave dos anos oitenta, com uma simpática gravatinha borboleta e um ar triunfante, de quem havia conseguido faturar milhões, a partir do desenvolvimento de uma engenhoca, que seria o primeiro computador pessoal: surgia a era do Macintosh.

Digo que é mentira aqui, se qualquer um dos leitores deste blog que viveu no Brasil nas décadas de oitenta e noventa, disser que passou a vida usando Macintosh. Na verdade, no Brasil e em muitos países da América Latina vivemos uma colonização da Microsoft, impulsionada pelas vendas do Windows, sistema operacional desenvolvido por Bill Gates e que passou a ocupar, gradativamente, todas as mesas das empresas e lares brasileiros, no decorrer dos anos, e que até hoje é o único software disponível em muitas lojas de computadores. O período de esquecimento de Jobs e de seus computadores (muito mais bonitos, modernos e velozes que as máquinas de Gates), tem haver com o período de declínio da Apple, e da saída de seu principal fundador, que, brigado com seus ex-sócios, decidiu sair da empresa que ajudou a fundar, tentando se aventurar (durante um tempo, sem sucesso) na criação da empresa NeXT, até comprar sua "galinha dos ovos de ouro" e mostrar a capacidade de se reinventar como empresário, comprando e revolucionando uma pequena empresa de animação que já se encontrava falida, a Pixar, transformada por ele num gigante  da animação, com direito a filmes concorrentes ao Oscar e o sucesso do desenho Toy Story (quem é que não se lembra?), até ser comprada pela Disney por uma soma bilionária. Foi o suficiente para a Apple chamar seu antigo dono de volta.

Aqui vai minha segunda lembrança de Steve Jobs, agora já nos derradeiros anos da década de noventa, com uma aparência bem diferente daquele moleque cabeludo de 15 anos atrás, agora revelando um senhor maduro, meio calvo, ainda sóbrio e elegante, mas agora vestindo uma camiseta de gola mais informal, uma transada calça jeans, um par de tênis e os indefectíveis óculos. Agora, Jobs passava da imagem de cantor de rock para  a de professor universitário, mostrando com didatismo seus novos inventos, revelando ao mundo aquela que seria, talvez uma de suas maiores criações, após ter criado o primeiro computador pessoal, ainda na década de setenta. Surgia o I-Pod, uma máquininha pitoresca, que mais parecia um telefone celular sem teclas, que revolucionou o consumo de música para sempre, a partir da criação do compartilhamento de músicas em arquivos de MP3. A contribuição de Jobs foi aproveitar o avanço dessa tecnologia, a necessidade de um novo mercado consumidor na internet, ávido por consumir música através de downloads, e sua criação praticamente aposentou o CD, como também fez com que artistas, gravadoras e donas de lojas de discos revissem suas estratégias de mercado, para continuar sobrevivendo. Como se não bastasse, Jobs aproveitou o I- Pod para criar o I-Phone, agora mexendo diretamente nas telecomunicações, revolucionando também, de forma semelhante, a comunicação telefônica, no momento em que no lugar do celular ele desenvolveu os smartphones, aparelhos que combinavam as funções de telefone, com o de tocador de MP3, gravação de áudio e video; ou seja, um I-Pod misturado com telefone. Sucesso arrebatador!

Mas a grande criação de Jobs ainda estava por vir, na terceira vez que eu vislumbrei o genial criador da Apple. Agora muito mais magro, abatido e sem o visual viril da juventude. Um Jobs já doente, mesmo corroído pelo câncer, anunciava ao mundo seu retorno ao jogo por cima da  computação, através da criação do I-Pad; inaugurando a era dos tablets, que viriam a substituir os formais notebooks, assim como esses substituiram na vida doméstica, acadêmica e empresarial os antigos computadores de mesas, chamados de desktops. Através de uma dessas engenhocas, tão fina quanto a folha de um caderno, podiam ser unidas as funções de computador, comunicador e entretenimento multmídia. Foi o canto do cisne de um inventor que, num comovente discurso na Universidade de Stanford, em 2005, reprisado à exaustão nos canais de televisão após a morte do palestrante, demonstrou que distante da aura de gênio divino, estava um homem com todos os conflitos e inseguranças de uma pessoa comum,  filho de pais adotivos e que largou a faculdade seis meses depois de ter entrado, e que, num momento tão delicado da vida ao descobrir a doença que o mataria, sabia da efemeridade de nossa passagem pelo tempo, e do fim de uma etapa convertida num ciclo vital de tantos êxitos, poucos fracassos e muitos sucessos. Não seria a fama, a fortuna ou a avalanche de bilhões de dólares que conseguiu com suas invenções, que Jobs driblaria a morte, evitando o fim iminente. Pelo contrário, o inventor do Apple II e do I-Pad, num raro momento de humildade, reconheceu a trajetória inteira de uma vida como errante e enigmática, e ao invés de glorificar a si próprio, percebeu o quanto a vida é passageira, enquanto que as obras que deixamos para trás podem durar uma eternidade. Assim se deu com outros grandes inventores, desde Arquimedes, passando por Tomas Edison e Santos Dumont. E assim se deu com Steve Jobs.

Jobs era programador de profissão, mas um artista por vocação. Sua grande contribuição para a tecnologia passa longe da simples criação de máquinas eficientíssimas e modernas, mas sim pelo design inspirado que reservou a todas elas. Foi isto que o tornou um ícone pop, transmutando as viagens lisérgicas da juventude, com a experiência com LSD e a adesão ao budismo, às suas obras tecnológicas. Não interessava apenas a Jobs o bom funcionamento de seus produtos, mas também a beleza de seus formatos, o requinte, e o conforto das formas, como que passando tranquilidade para seus usuários. Foi assim com o monitor de seus primeiros Macintoshs, foi assim com seus I-Pods, I-Phones e I-Pads, revelando os traços de alguém que mesclava ciência com arte. Se, como executivo, Jobs tinha a fama de chefe durão e quase insuportável, cobrando horas intensas de trabalho de seus pupilos, acompanhando rigidamente cada etapa do processo de criação de seus aparelhos, tal conduta pode ser justificada pelo perfeccionismo do artista que não se preocupava apenas em vender um bom produto no mercado, mas também encantar seus consumidores com verdadeiras obras de arte. E nesse sentido, o norte-americano teve sucesso absoluto.

Com a morte de Steve Jobs, ele passa de ídolo para lenda, recebendo homenagens até de seus concorrentes, como um aposentado Bill Gates, que outrora idolatrado pela mídia (até a Microsoft ser acionada na Justiça por acusação de monopólio), também reconheceu a genialidade do colega. Ou, afinal, o Windows seria ou não seria uma cópia simplificada do Macintosh? Polêmicas a parte, dificilmente aparecerá um gênio da computação com a versatilidade de Steve Jobs, mas também sabemos que os gênios, assim como as pessoas comuns, não são eternos. Felizmente, o que sobra para nós, pobres mortais, é a contribuição que esses grandes homens deram para a humanidade, e não foi pouco. Para os que acreditam, talvez Steve Jobs esteja num plano espiritual melhor, em outra dimensão ou então se converteu em alguma nova fonte de energia vital, que além da eletricidade, anima seus computadores. Quem sabe? A única coisa que sei é que cada vez que ligo um desses aparelhinhos não me esqueço de seu criador, aquele homenzinho de camisa preta, calça jeans, tênis e óculos de aro, que agora ficarão para posteridade, até o próximo "Click"!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SÉRIE:OS ANJOS CAÍDOS DO ROCK (Músicos que já foram astros e agora estão em decadência)-PARTE I- GUNS N'ROSES

Um símbolo que já foi campeão, mas
agora virou peça de Museu do Rock.
Quando o Guns N' Roses estourou, na segunda metade da década de oitenta, eu já tinha percorrido boa parte da adolescência e o final da década coincidia com o início de minha vida adulta. Lembro-me, morando em Natal, da verdadeira comoção nacional que era escutar as músicas da banda do cantor Axel Rose, do guitar solo Slash, dos guitarristas Izzy Stradlin e Gilby Clark, do baixista Duffy McKagan e do batera Matt Sorum. O clipe da canção Sweet Child O' Mine marcou época, tornou-se um verdadeiro hino da banda, tocado à exaustão até hoje nas FMs. Mas nessa época, a banda norte-americana trouxe um verdadeiro carrossel de sucessos: Paradise City (uma das mais pedidas nos shows ao vivo), a balada Patience, Night Train, Welcome to the Jungle, She coud be Mine (trilha sonora do filme O Exterminador do Futuro 2), November Rain e muitas outras.

Muitas águas (e rosas) rolaram desde então, e o Guns N'Roses sofreu dois impactos grandes, que refundaram sua história: um, foi o advento do grunge, e o lançamento do disco Nevermind, do Nirvana, no começo da década de noventa (que agora completa 20 anos, lançado numa edição comemorativa), que redefiniu a história do rock e tornou o hard rock dos anos oitenta praticamente obsoleto; outro, foi a dispersão dos integrantes da banda no decorrer daquela década, devido às brigas internas e conflitos com o ego exaltado de Axel Rose, além de suas confusões com bebida, mulheres e drogas. Houve até quem redigisse o obituário do cantor norte-americano, ou mesmo que pensasse que  ele teria passado uma temporada na cadeia, pelos sucessivos processos que sofreu de roadies, groupies, ex-empresários, ex-colegas ou ex-amigos, donos de bares ou hotéis e desafetos de toda monta na imprensa ou no meio musical, apesar do carismático vocalista continuar tendo um séquito frenético de seguidores no mundo todo, mas, principalmente, na América Latina.


Olha o rôdo aí, gente! Acho que Axel Rose carrega tantas
tempestades na sua carreira errante que sobrou pro funcionário
do Rock in Rio, enxugar tanta água de chuva no palco
(foto:agência News).

 Por falar em América Latina, para mim a devoção quase religiosa que alguns fãs manifestaram no último (e chuvoso) show da banda, na edição nº 4 do Rock in Rio, encerrando o festival na data de ontem, parece-me quase como a predileção que os mexicanos tem pelo carro Fusca: só existe peça igual naquele lugar. Digo isso com um medo danado de ser atacado por alguns dos fãs fanáticos da banda no meio da rua, tendo em vista que só no Brasil, eu vi um público que tinha a mesma idade que eu quando o Guns N' Roses começou a ter sucesso, invadindo o espaço da Cidade do Rock, e cantando em coro os antigos singles da banda. O problema é que esse mesmo público abandonou mais cedo o Rock in Rio, nas últimas horas da madrugada extremamente chuvosa da metrópole carioca, quando um envelhecido Axel Rose começou a tocar faixas de sua obra mais recente e totalmente desconhecida em terra brasilis. Resultado: se eu fosse explicar o porquê de tanta comoção com uma banda que praticamente deixou de existir, mas não avisaram ainda ao seu frontman, eu diria: pura nostalgia!


É o Zé do Caixão versão yellow?
Após mais de duas décadas de drogas,
sexo e rock'n roll, quanta diferença!
(foto:agência News).
 É de nostalgia que os fãs mais antigos ou os mais novos procuram escutar e assistir os shows do Guns N' Roses, além da intensa massificação que o som dos caras produziu na cultura pop nacional, quando de sua primeira vinda ao Brasil, no antológico show no Maracanã, no longínquo Rock in Rio 2, em 1991. Após aquela que seria a derradeira apresentação da formação original da banda, nunca mais o sucesso seria o mesmo para Axel Rose. Parece-me que a saída do principal músico e co-fundador da banda, Slash, saindo de cena com sua guitarra e chapéu debaixo do braço, apenas abreviou uma morte anunciada, uma decadência que estava por vir após o soporífero album de covers, The Spaguetti Incident, e um hiato de 15 anos sem apresentar um disco novo. Axel chegou a enrolar a imprensa mundial por mais de uma década, acerca da chegada de um novo disco do Guns N' Roses, o já lendário Chinese Democracy, que só chegou as lojas em 2008, quando o mundo já tinha se convertido ao MP3, aos downloads de música pela internet, e um disco novo de um artista não causava mais o frisson de minha juventude, quando filas de ouvintes se amontoavam no começo da manhã nas lojas de discos, aguardando a chegada do tão sonhado álbum novo de seu ídolo.

Mesmo o oportunismo e o silêncio sabático que marcou a carreira de uma banda em extinção, não impediu que a organização do Rock in Rio 3 chamasse o Guns N' Roses para se apresentar após o show do Oasis, numa reerguida cidade do rock, em 2001. Eu também participei daquela edição do festival, e tive que ir embora logo após o encerramento da banda que antecedera Axel e seus asseclas, devido ao voo de retorno para casa. Mas, na verdade, eu poderia ter atrasado o meu voo, remarcado a passagem e ficado mais algumas horas no Rio de Janeiro, naquela ocasião. Não fiquei por uma simples razão: aquilo para mim não era mais Guns N' Roses. Era Axel Rose tentando viver do passado ou então uma tentativa bem oportunista de lograr uns trocados enganando o público, fazendo com que as pessoas pensassem que a mágica banda que tocou no Maracanã em 91 estivesse ali. Ledo engano!


A banda com sua formação clássica, quando estava no auge.
Tempos que não voltam mais!
 Acredito que quando um ouvinte escuta Sweet Child O' Mine, ele está ali não apenas ouvindo Axel Rose, com seus clássicos falsetes guturais, mas também a guitarra melódica de Slash (para muitos, um deus da guitarra), a bateria hard rock de Sorum, bem como o baixo de Mckagan e a parede sonora de Stradlin. Ouvir o Guns N' Roses sem a sua formação clássica é como ouvir os Beatles tão somente formados por Paul McCartney e sua banda de apoio. Não tem graça nenhuma! Perdoem-me se sou purista, mas sou fã de música, adoro rock  e gosto sim de música, mas de boa música; e um dos ingredientes de um bom som é o completo entrosamento e dedicação de um grupo, que assim como uma seleção de futebol, sabe que seus integrantes são insubstituíveis se são bons e se entendem, e se a equipe quer ser campeã. Não vejo isso na versão 2011 do Guns N'Roses.


Pelo menos mudanças de chapéu e óculos
escuros em duas décadas. Mas a voz,
não é a mesma!
(foto:AP)
 Axel Rose era uma estrela. Um músico que se tornou astro e que agora, beira a autoparódia. O problema não se trata de o músico não ser mais jovem, de estar longe, hoje, de ser aquele Apolo ruivo, dos anos oitenta, que tirava o folêgo das garotas, cada vez que se apresentava sem camisa no palco, e que agora se mostra apenas como um cinquentão gordo e meio careca, que não tira o chapéu nem com uma arma apontada na sua cabeça. Digo que não vejo problema sequer em ver Axel Rose, hoje, sem voz. Afinal, foram anos de excesso, álcool, drogas, cigarros, além de forçadas de garganta, para um cantor que, originalmente barítono, atrevia-se a destruir suas cordas vocais com falsetes arranhados, que faria correr para o acasalamento o mais assanhado felino. Não! O problema está na falta de autenticidade, na perda de criatividade, na incapacidade de se reinventar como músico, e da necessidade de se apoiar tropegamente no palco, baseado numa reputação construída no passado, mas que não se vê mais no tempo presente. Para um amigo que avistei recentemente na cidade, e perguntei sobre a  vontade dele de assistir a um show do Guns N' Roses, ele me respondeu com uma pérola de sabedoria, sobre o que muitos pensam e não tem coragem de falar aos simpáticos fãs da banda de Axel Rose: "só se for por curiosidade mórbida"!.

Assim, penso que a organização do Rock in Rio, na pessoa da empresária Roberta Medina (a "filha do homem"), chamou o Guns N' Roses para mais uma edição do festival, apenas pra fechar a programação, por falta de contratado, ou porque sabia, através de pesquisa quantitativa, que muitos fãs saudosistas ainda iriam ao local assistir ao seu ídolo do passado. Valeu pela sessão nostalgia, mas não pela boa música. Eu não vi na imprensa musical do país, através de seus dois principais meios de comunicação, as revistas Rolling Stone e Billboard Brasil, qualquer menção à passagem pelo Brasil da banda de Axel Rose, e isso é um sintoma de como o segmento crítico, mais voltado profissionalmente pra música, vê que o Guns N' Roses é somente uma marca, do que uma banda de verdade. Pena! Deveria haver músicos com a dignidade de encerrar os trabalhos com altivez, pendurando as chuteiras enquanto estão no auge, ao invés de perpetuarem o que antes era divino e que agora se tornou esdrúxulo. Será que tenho que chamar os fãs do R. E. M. pra explicar isso? Após esse extenso artigo, peço apenas uma coisa aos dedicados fãs do Guns N' Roses: por favor! Não me linchem quando me verem na rua! All you need is just a litte patience! Sacou?!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

TELEVISÃO: Quando o humor deixa de ser humor para virar mera grosseria.

O humor moderno, na língua portuguesa, é oriundo do trovadorismo. Tratava-se de um movimento literário baseado em cantigas, que podiam ter conteúdo lírico ou satírico. Nessas últimas, geralmente o trovador produzia um escárnio, uma gozação contra alguma personalidade pública da sociedade, usando e abusando de uma linguagem popular, chula, quando não obscena. Trava-se através da trova satírica de se efetuar uma crítica social, num momento em que era permitida a expressão do artista, dirigindo-se para o seu público de forma até rude ou grosseira, como forma de liberar uma expressão artística. Era o momento da arte, de uma manifestação estética, apreciada pelos fidalgos e pelas pessoas de fina educação das cortes portuguesas, pois era uma diversão dos nobres ouvir as piadas e os comentários jocosos de seus trovadores.

Em um filme francês que já não me recordo o nome (ajudem-me quem souber), e que assisti ainda no videocassete em VHS (imagina o quanto é antigo), o protagonista tenta sobreviver na França pré-revolucionária, valendo-se de um talento incomum para contar piadas. Ele passa a ser aceito na corte francesa, animando aristocratas em jantares e nos seus saraus ociosos, e enquanto lá fora a plebe morre de fome e urge por transformações sociais radicais, o herói de nosso filme começa a ascender socialmente, enquanto consegue arrancar riso da plateia, sofrendo a forte competição de outros piadistas como ele, até o derradeiro dia em que acabará por contar alguma piada que não tenha graça, culminando na sua expulsão sumária do palácio ou até mesmo em prisão.

Quando eu penso na frase infeliz (de muitas) do comediante gaúcho Rafinha  Bastos, no programa de televisão CQC da rede Band, na última segunda-feira, fico me perguntando se Bastos não se encontra na mesma situação do comediante do filme francês, expulso do salão por ordem do rei, quando, até então querido pela plateia, comete a infelicidade de contar uma piada sem graça, ofendendo alguém. No caso do brasileiro, a piada sem graça veio num comentário sarcástico, quando numa passagem do programa, Rafinha faz um comentário sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo, exprimindo a seguinte frase: "eu comeria ela e o bebê". Foi o suficiente para que um ar de constrangimento se abatesse na tela da TV, com um visível ar envergonhado do líder do CQC, o apresentador Marcelo Tas, que rapidamente tentou corrigir a gafe do comediante, como também a postura de seu colega de auditório, o também comediante Marco Luqui, que preferiu colocar as mãos nos olhos, constrangido, do que esboçar outra reação.

Rafael Bastos já responde a um inquérito policial  em São Paulo,  instaurado a pedido do Ministério Público para apurar se em uma de suas apresentações no teatro, onde o artista tem um show de comédia stand up, ele teria feito apologia ao crime, ao fazer uma piada com as mulheres feias, dizendo que "o homem que estupra mulher feia não merecia cadeia, mas sim um abraço". Dentro de determinado contexto machista, a piada arrancaria risos, mas numa realidade social de violência contra a mulher, a piada soou de muito mal gosto. Eu soube do caso, inclusive, de um comediante francês, que foi obrigado a pagar 10.000 euros de indenização, por conta de piadas antissemitas, em  um de seus shows. Comediante francês é obrigado a pagar 10.000 euros por insultos antissemitas em piada.

O caso de Bastos faz retomar a discussão sobre o tema da liberdade de expressão, que eu já havia desenvolvido aqui no blog. O problema no caso do comediante, é de que até que ponto a manifestação artística da comédia saí do engraçado e beira o grotesco. No caso de Bastos, o que mais ele está sendo acusado é de ter ofendido pessoas, ao invés de fazer rir, criando, inclusive, desafetos e inimizades, dentro do próprio meio artístico ou diante de pessoas públicas como o ex-jogador Ronaldo "Fenômeno", muito amigo de Tas e sua equipe, que já manifestou publicamente que estava se afastando dos integrantes do programa, uma vez que é sócio, em um empreendimento, do marido da cantora Wanessa Camargo, e que ficou profundamente constrangido com a piada desnecessariamente sem graça feita pelo comediante gaúcho.

Sobrou para a opinião pública a condenação sumária de Rafael Bastos através dos meios de comunicação e da internet, com a publicação de alguns posts de populares furiosos contra o apresentador do CQC, revelando o quanto, para alguns, Bastos representa um típo antipático, arrogante, prepotente, e que acha que na condição de artista pode esculachar e acabar com a reputação de quem ele bem entenda. Trata-se de uma questão eminentemente ética, antes de ser jurídica: a discussão sobre os limites da liberdade de expressão e a manifestação de uma arte, uma vez que a honra, a dignidade, e a credibilidade das pessoas passa a ser atingida por piadas maldosas. Ou será que toda piada é maldosa?

Se estivermos falando de uma democracia e de um Estado de Direito, que segue princípios constitucionais, entendo que, assim como diz a Constituição, todo mundo é livre para fazer ou deixar de fazer o que bem quiser, senão em virtude de lei. A lei deve servir para proteger as pessoas e não sumariamente puní-las, por isso considero precipitadas algumas acusações contra o comediante Rafael Bastos, dizendo que com suas piadas o rapaz faz alusão à criminalidade ou violência, pois muito do que se encontra hoje nos meios de comunicação, em novelas ou programas de televisão, é uma carga de violência, preconceito e apresentação de um grotesco estado de arte que, por si só, não correspondem a fatos criminosos.

Creio sim, que o referido comediante deve ser defenestrado ou advertido pelo seu próprio público, quando cair a audiência do CQC, quando alguns fãs do programa (assim como eu), em protesto, enviarem uma carta ou e-mails à direção do programa na rede Band, explicando que irão decidir por boicotar o programa, caso o artista não se retrate, ou ao menos seja transferido para outro programa da grade de programação da emissora. Sei que além de um talentoso comediante, nosso "Ricky Gervais" brazuca, Rafinha Bastos é também um ótimo jornalista, realizando o elogiadíssimo programa de reportagens A Liga, nas noites de terça-feira, no mesmo canal. Será que não seria o caso de transferi-lo do CQC, até mesmo para poupá-lo de um desgaste maior, por conta de seus comentários infelizes? Creio que, de qualquer forma, cabe ao próprio artista uma reflexão sobre sua forma de trabalhar, a ponderação racional sobre seus erros e acertos, até porque estamos falando de um ser humano talentoso, carismático e que tem uma das maiores quantidades de seguidores no Twitter; mas que também merece um puxão de orelhas ou calçar as já famosas "sandálias da humildade", quando comete suas besteiras em rede nacional. Rafinha Bastos não será o primeiro e nem o último comediante a cometer deslizes, a sair fora do tom em seus comentários e a falar bobagens, até porque faz parte de sua profissão de artista produzir gafes para arrebatar a audiência. Mas também é importante que esses artistas saibam que brincadeira tem hora, e a hora certa é a de fazer rir e não a de machucar os outros. Se liga, Rafael! Se for o caso, fica na Liga!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: Regular é preciso! Viver não é preciso!!

Fico me perguntando como o apelidado PIG (Partido da Imprensa Golpista) reage com a maior cara de pau, através dos meios de comunicação que compõem essa sigla imaginária, acerca das revelações bombásticas sobre as atividades criminosas, de tudo o que o centenário jornal britânico, News of The World, fazia para garantir manchetes em seus tablóides, mostrando toda a sujeira de que é capaz um órgão de comunicação. O velho magnata Rupert Murdoch, toda sua turma e até sua belíssima esposa chinesa (mistura de femme fatale e guarda-costas do marido) estão enrolados até o pescoço com denúncias que fizeram o chefe fechar um jornal com mais de 150 anos de existência. E no Brasil?

Quando alguns veículos de comunicação, não vinculados aos interesses do grande capital ou do Antigo Regime tucano, como a CAROS AMIGOS ou  CARTA CAPITAL,  denunciam os abusos de seus colegas de imprensa, parece que a casa caiu e corremos o risco de se ter uma fujimorização do país, como aconteceu há alguns anos atrás com o país vizinho, o Peru; ou melhor, uma allendecização, uma vez que os atuais governos de esquerda que governaram o país, estão muito mais identificados com Salvador Allende, o lendário presidente chileno, assassinado pelo ditador Pinochet,  do que com os representantes da Velha Direita que ainda assombram o país, disfarçados sob uma roupagem social-democrata ou neoliberazante. De acordo com o cerco produzido por algumas raposas da velha imprensa, que gostam mais é de ver o circo pegar fogo, pululam notícias em jornais e na imprensa tucana, querendo desestabilizar o governo petista de Dilma Roussef, enquanto que no espectro adversário, seu principal intelectual, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, preocupa-se mais em incrementar sua biografia, no final da vida, pregando a defesa da legalização da maconha, do que lançar petardos contra o petismo, enquanto que um José Serra furimbudo, amarga o ostracismo, ao menos até a próxima eleição para o governo paulista.

Veículos da grande imprensa, como a revista VEJA e a FOLHA DE SÃO PAULO, vira e mexe metem o pau no governo, nos seus editoriais, tecendo a teoria conspiratória da trama suprema, em que stalinistas enrustidos de dentro do governo tentariam a ferro e fogo destruir a liberdade de expressão, estabelecendo uma lei da mordaça para imprensa, que ressuscitaria a famigerada censura, do tempo da ditadura militar. Os expedientes demagógicos da grande mídia recalcada dizem respeito às tentativas de aprovação por setores do governo do controle social da mídia, ou, se preferirem (segundo seus detratores), da ameaça à democracia, como falam os representantes intelectuais da "nova direita", como o filósofo Denis Rosenfield ou o sociólogo Demétrio Magnoli.

Na verdade, falar de um controle da mídia através de uma regulação por expedientes democráticos e transparentes previstos em lei, com participação popular, coibindo os abusos, parece ser inconcebível para os que concebem como "clásula pétrea" o cânone liberal da ausência completa do Estado na fiscalização das atividades da mídia. Para os detentores dos meios de comunicação, a imprensa deve funcionar como o mercado, onde somente uma "mão invisível" deve atuar, num laissez faire em o que vale-tudo implica, inclusive, em praticar crimes através dos meios de comunicação, como Murdoch e sua turma parecem agora ter sido acusados.

Um caso recente de dúvida acerca dos limites do direito à informação e a ética jornalística se deu no caso da  tentativa de invasão do quarto de hotel, em Brasília, do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, por repórteres da VEJA, sob o pretexto do furo jornalístico; onde, numa manchete de qualidade duvidosa, a revista  publicou matéria sobre o suposto "governo paralelo" montado por Dirceu, sob as barbas do governo, como uma forma de desestabilizar o governo de Dilma Roussef. Dirceu é apresentado como " O poderoso Chefão", um don corleone da esquerda nacional que, apesar de ter seus direitos políticos cassados pelo processo do "mensalão", continua dando as cartas nos jogos de poder em Brasília, através de uma bem sucedida atividade de consultoria, onde todos os cardeais do governo, de diversos escalões, vem a ele se consultar; além do ex-ministro ter cadeira cativa na direção do PT, e ainda ser responsável pela articulação política dentro do partido. Resumindo:Dilma seria uma ingênua, colocada convenientemente por Lula em seu lugar, enquanto que seu principal braço direito continuaria governando de fato, à revelia da atual presidente. Enfim, uma baita teoria da conspiração!

Não questiono aqui se Dirceu é mensaleiro ou não (seu julgamento pelo STF é que definirá seu destino). Até considero o cara bem antipático. Mas independente da pessoa, fico me perguntando até onde vai a fome de Veja em querer vender tablóides, à custa de informações baseadas em vídeos capturados ilegalmente dos corredores de um hotel em Brasilia, mostrando diversas personalidades da República, entre ministros, deputados e representantes de estatais, vindo se consultar com o suposto "oráculo Dirceu", como uma espécie de pai de santo por onde os orixás conduziriam os caminhos do governo. Parece risível, se não fosse preocupante.

O golpismo de parte da imprensa, na manipulação de informações, querendo a fórceps forjar uma opinião pública contrária ao governo, ou, ao menos, contrária a determinadas personalidades da política, faz parte da ânsia dos meios de comunicação de lidar com a notícia como se fosse um espetáculo, e nesse sentido, o livro de Luhmann (  A realidade dos meios de comunicação. Editora Paulus) é emblemático a respeito. Não interessa à mídia informar, mas sim veicular notícias como se elas fossem informação, e assim, por ausência de um controle externo, todas as atividades dos órgãos de imprensa destinados a produzir notícia, violam quaisquer disposições legais, ultrapassam os limites ou barreiras da ética, prejudicam ou distorcem à realidade acerca dos noticiados, pois, diferente do que prega o jargão dos telejornais, o compromisso da mídia não é com a verdade, mas sim com a notícia.

Por isso que me pergunto:se para o petróleo, para as telecomunicações, para a energia, para a aviação e para diversos setores de atividade pública no Brasil, existem agências reguladoras dos serviços prestados por cada um dos órgãos ou empresas vinculados a cada área, por que é que a imprensa não pode ter uma agência reguladora? A vida de milhares de pessoas é exposta todos os dias à sanha de notícias dos paparazzi da imprensa de plantão, invadindo privacidades, violando imagens, cotidianos e vidas pessoais, tudo em busca da notícia. Não adianta de nada dizer que a imagem, assim como a honra, a intimidade e vida privada são invioláveis, porque se tratam de direitos fundamentais, consagrados no art. 5º, inciso X da Constituição Federal, uma vez que os repórteres da VEJA acham que isso de nada vale, quando se trata de, segundo eles, "prestar um serviço à sociedade, garantindo o direito à informação". Afinal, o leitor merece saber, mesmo que seja de forma enviesada, invadindo os corredores de um hotel, grampeando as câmeras do local, tão somente para captar (sem autorização) a imagem de políticos e pessoas públicas que se encontravam no local, sob o pretexto de se produzir notícia. O limite entre o bom jornalismo e a canalhice parece manter uma relação difícil na redação da revista.

Por isso, fico me perguntando se as estripulias dos jornalistas do News of The World é só punição para "inglês ver", apenas como coisa da imprensa estrangeira que saiu do tom, e se aqui no Brasil não temos também os nossos Murdochs, com seus impérios de comunicação, que não dão à mínima para a legalidade ou para o Estado de Direito, pois a única coisa que lhes interessa é o lucro. Hoje em dia, o pior capitalismo é aquele em que os meios de produção se encontram na acumulação de um capital de ideias, mais do que um capital de riquezas materiais, e nesse sentido, periódicos como a Veja só aumentam o jogo do disse me disse de informações desencontradas e fraudulentas, que não contribuem em nada para informar ou conscientizar a sociedade. Na busca de seus vilões, alguns órgãos de imprensa acabam por se confundir com seus principais inimigos, alvos de suas denúncias. Para mim, é tudo farinha do mesmo saco!
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