terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MÚSICA E LIVROS: "Eu sou Ozzy" é leitura e rock'n roll de primeira!

Fazia algum tempo que eu não tinha tempo de ler, num curto espaço, textos bacanas por pura diversão. Sempre atarefado com o trabalho ou com a produção acadêmica, acabei relaxando num dos hábitos mais deliciosos da minha vida: a leitura de livros. Gosto de contos policiais, crônicas, poesias, estórias de ficção científica, literatura beatnick, alguns clássicos e, especialmente, biografias. Minhas biografias prediletas são as dos ídolos do rock, e ainda me pesa na memória a excelente biografia de Jim Morrison, da banda The Doors, escrita pelos jornalistas Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, intitulada Daqui Ninguém saí Vivo (Ed. Almedina). Li o livro no começo dos anos noventa, e recordo que logo após a leitura, estreou o filme de Oliver Stone, contando a estória do grupo liderado por Morrison, com Val Kilmer interpretando o vocalista, e  recordo como fiquei impressionado com um texto tão bom, fluido, de uma história tão fascinante quanto a do cantor norte-americano, morto precocemente aos 28 anos, no começo dos anos setenta.


Passados vários anos, depois de ter lido de tudo um pouco, eis que me surge às mãos, no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, uma obra-prima de nonsense e puro estilo rock'n roll: a biografia de Ozzy Osbourne, intitulada Eu sou Ozzy (Ed. Benvirá). Voltando do Rio Grande do Sul, em direção a Natal,  meu voo fez uma escala em Belo Horizonte e durante o período de conexão, fiquei no saguão de embarque folheando o livro na livraria do aeroporto, e, seduzido pelo texto, acabei comprando o livro (assim como a biografia de Keith Richards, do Rolling Stones) e saboreei minha leitura durante todo o tempo de espera no aeroporto, assim como durante o voo.

Nas três horas seguintes que levaram até Natal, não consegui despregar os olhos do livro e de como a estória de um dos ídolos do rock e figura representativa do heavy metal era tão fascinante. A estória do menino nascido num bairro inglês pobre da cidade de Aston, nas proximidades de Birmigham, revelou-se ao mesmo tempo hilária, trágica e alucinante. É o próprio Ozzy quem destila suas memórias, em verdade muito prejudicadas pelo uso abusivo de álcool e drogas durante tantos anos, que ainda intriga muitos profissionais da medicina de como esse velho roqueiro inglês ainda permanece vivo. Pois eis que o hoje sexagenário John Michael Osbourne conseguiu sobreviver e se tornar não apenas um ícone da música mundial, como também um atabalhoado, mas arrependido pai de família, que fez, sim, muitas presepadas; inclusive arrancar a cabeça de um morcego, vivinho da silva, durante um show! (o que lhe rendeu meses de tratamento e injeções contra raiva e outros distúrbios colaterais).

Mas fora o mundinho de vivências centrado na tríade drugs, sex and rock'n roll, o que se pode tirar de lição do mundo de Ozzy é de como um grande artista surgiu, superou as adversidades, reinventou-se e se tornou, hoje,  uma referência na cultura pop global. Ozzy fez parte da mitológica banda Black Sabbath, e em seu livro, para os fãs, encontramos toda a história do grupo e das aventuras desses rapazes cabeludos fora dos palcos, durante os inventivos anos setenta; além de saber um pouco da história daquele gênero musical que até hoje seduz milhares de ouvintes em todo o mundo:o heavy metal. Sabemos um pouco da religiosidade e do misticismo de alguns componentes da banda, e de que Ozzy, com seu jeitão caipira de garoto do interior, de origem operária, que já trabalhou em fábricas e matadouros e que já tinha sido até preso em reformatórios juvenis por diversos furtos, na verdade fugia muito da figura de um líder satanista, interessado em pregar feitiços no palco ou invocar o diabo em cada show do Sabbath. Na verdade, descobrimos o que os menos incautos já sabiam há muito tempo: tudo não passava de jogo de cena. É hilariante a descrição que Ozzy faz dos fãs alienados, interessados em magia negra, que cercavam a banda e chegavam a ensair cultos satânicos nos lobbys de hotel, após cada show do grupo, e que para Osbourne não passavam de motivo de piada. É de extremo humor o episódio em que Ozzy cita, que cada vez que vinham aquelas pessoas esquisitas, vestidas de preto, com a cara pintada de branco, convidando-o para uma missa negra no cemitério, o vocalista do Black Sabbath respondia: "os únicos espíritos do mal que eu quero ter contato após o final do show são whisky, gim e vodka!", ou quando finalmente sentou ao lado deles, fazendo parte daquele circo patético, quando surpreendeu a todos, pulando no meio do círculo e cantando em cima de um pentagrama: parabéns pra você.

O álcool foi exatamente o maior demônio de Ozzy Osbourne. Substância que quase destruiu sua carreira (quando não sua vida), dizimou seus casamentos  e que o levou novamente para a cadeia. Ozzy ressente-se disso, e nesse momento vemos como o texto do livro ganha ares emocionantes e os contornos dramáticos de uma novela, quando o cantor fala da saudade de seus velhos pais, do apego à família e de como o suporte dado por sua segunda esposa, Sharon, foi fundamental para a superação dos traumas, e de como um garoto que sofria de dislexia pôde enfrentar a vida de cabeça erguida, ao chegar ao mundo da fama, da decadência física e moral, e do renascimento profissional, após ser expulso do Sabbath e ter conseguido engatar uma carreira solo (muito obtida através da esposa, fiel escudeira e empresária, Sharon, que acreditou no potencial do cantor, quando todos pareciam lhe fechar as portas).


Dentre os dramas do "principe das trevas",
 o que merece destaque e é um dos fatos trágicos que mais marcou a biografia de Ozzy, que foi a morte do guitarrista Randy Rhoads. Rhoads, um virtuose da guitarra e ex-estudante de música clássica, filho de uma concertista, sem dúvida fui um dos responsáveis pela ascensão de Osbourne na sua carreira solo, colaborador e autor dos riffs de guitarra, dos dois primeiros e até hoje melhores álbuns do cantor: Blizzard of Ozz e Diary of a Mad Man. O jovem guitarrista magricelo, baixinho e com cara de moleque não incorporava em nada os cacoetes dos músicos de rock da época (não consumia álcool e nem drogas, era religioso, gostava de fazer trabalhos sociais, era avesso à badalações e totalmente devotado à música) e a forma trágica como morreu, num estúpido acidente de avião, com apenas 25 anos, marcou indelevelmente a carreira do artista e ser humano Ozzy Osbourne, talvez tanto quanto a perda de seus outros entes queridos.

O bom de Eu sou Ozzy é mostrar sem retoques a visão de um artista sobre si próprio, desmistificado de toda sua aura de celebridade, demonstrado como um homem comum. As agruras de Ozzy são fatos corriqueiros de qualquer pessoa, que vive seus altos e baixos durante a vida, como eu vivi, poderei ainda viver e como todos nós vivemos ou viveremos um dia. Mas sua história de vida também serve como lição e advertência para os malefícios do abuso de substâncias lícitas ou ilícitas (afinal, o cara lutou contra a balança também!), e de como uma segunda chance pode ser dada para indivíduos abençoados. Acredito piamente, em minha religiosidade, que Deus foi muito misericordioso e condescendente com Ozzy Osbourne, dando-lhe a oportunidade de se redimir das mancadas passadas e se reinventar como músico e pai de família. Não deixa de ser notável perceber que o cantor de rock pesado da Grã-Bretanha só conquistou, definitivamente, a fama global que tem, por ter participado de um reality show onde mostrava o cotidiano de toda a sua família, e que se tornou um novo gênero de seriado, inaugurado com a MTV. Lá, foi possível ver e conhecer, além da rotina de Ozzy com a mulher, os filhos e os bichos de estimação, como a sua luta contra o álcool ainda estava presente, e de como ele quase morreu (das diversas mortes que experimentou) ao fraturar praticamente todos os ossos após um acidente de motocicleta. Porém, como um gato com mais de nove vidas ou simplesmente por ser o sujeito abençoado que é, Ozzy Osbourne mais uma vez ressuscitou.

Atualmente, Ozzy assina no jornal britânico The Sunday Times uma coluna médica (isso mesmo, pasmem!), onde dá dicas de saúde, inclusive falando dos riscos de medicação excessiva, uma vez que todo o tipo de remédio que já usou na vida (inclusive pra se livrar do álcool e das drogas), serviu para montar o tipo lesado que se viu nos programas de televisão. Ozzy diz claramente que a voz enrolada e o tipo tosco que por vezes aparecia nas câmeras, não era uma estratégia de marketing para montar a imagem do "vovô piradão"; mas sim demonstrar a realidade de que, realmente, devemos ter cuidado com a saúde e que meter o nariz (olha o ato falho!) onde não é chamado, não é lá boa coisa. Assim, até no meio médico o "Dr. Ozzy" acabou ganhando suas páginas de destaque.

Sei que muitos leitores do meu blog podem não gostar do gênero heavy metal ou torcer o nariz diante da figura errática de um assumido bebum e chapado músico como Ozzy Osbourne. Mas, além do preconceito e da crítica musical, é so escutar canções como Changes ou Mama, I'm coming Home, para mudar um pouco a opinião sobre o eterno ex-vocalista do Black Sabbath. Bueno! Pois saibam que, com certeza, em 2011 estarei em algum dos cinco shows que estão programados no Brasil, para ver o bom e velho Ozzy. Gostando ou não, vou aqui escutando Mr. Crowley, esperando nessa dura vida o que ainda está por vir, No More Tears, pois estou fora de qualquer Suicide Solution, e prefiro saudar a vida, Bark on The Monn! God bless you, Ozzy!!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

TRAGÉDIA REDIVIVA: Passou 2010, passa 2011, virá 2012, 2013,2014....e muita gente vai continuar morrendo nas chuvas de começo do ano.

No começo do ano passado escrevi sobre a trágica realidade das chuvas no Rio de Janeiro, que trouxe a tragédia do reveillon em Angra, que ainda está fresca na memória de muita gente que acompanha minimamente o noticiário. Além das chuvas do mês de janeiro e do desastre completo em Angra dos Reis, em maio foi a vez de Niterói, o morro de Santa Tereza e outras adjacências; e, agora, no começo de 2011, o pesadelo retorna novamente. Basta chover pra ter gente já especulando quantos cadávares vão ser recolhidos no intervalo das chuvas, porque morrem muitas pessoas mesmo.


Pessoas. Será que o conceito jurídico de ser humano pode ser empregado em sua totalidade diante de uma situação de desespero e desamparo que vitima tantas famílias no começo de todo ano, nas grandes metrópoles brasileiras? Em especial no Rio de Janeiro e São Paulo penso que a cada ano vale novamente minha frase registrada: a de que pobre, se não morre de fome ou de tiro, morre soterrado. Vocês podem perceber,que nas imagens de TV e nas dramáticas fotos dos jornais, todos vemos, ano após ano, centenas de pessoas chorando, com suas casas soterradas, parentes mortos em desabamentos, gente aos prantos molhada de chuva, repórteres alvoroçados e políticos indignados, cada um querendo responsabilizar a um e outro, empurrando a conta da tragédia para as prefeituras, os governos estaduais ou para o governo federal. Teve repórter que até insinou que a culpa foi do Lula (Ah,tá! A culpa não é mais de São Pedro, mas do ex-presidente barbudo, que se foi). Não importa quem são os culpados, não interessa o quanto a natureza castiga os morros, vales e restingas desse meu Brasil varonil. O que importa é que a cada chuva torrencial, além de lama, pedra e areia, o que vemos desabar junto com a água corrida dos penhascos e encostas, são os pobres que vem junto, numa chuva de corpos afogados, esmagados ou soterrados por incompetência, ganância imobiliária e falta de planejamento urbano. Chove não apenas água, mas falta de dignidade! É! Vamos ao velho jargão: a culpa é do sistema!


Dessa vez o palco da tragédia foi Teresópolis, Nova Friburgo  e Petrópolis, na região serrana do Rio. Parece que a cada ano a natureza ou a fúria divina escolhem a dedo um lugar, no mapa da região fluminense, para castigar mais incautos com pesadas chuvas. Mas não é nada disso. As razões de 2011 já ter começado com uma cifra de mortos maior que 2010, com as chuvas do começo do ano passado, não tem nada de sobrenatural. Pelo contrário, o problema é bem humano, previsível. Não adianta aqui eu repetir à exaustão minha crítica sociológica, dizendo que os males produzidos pelas chuvas são resultados dos males da economia capitalista, que gera uma exploração imobiliária gananciosa e facista, tíica do mais selvagem dos capitalismos. Não adianta insistir nas teses dos especialistas em Políticas Públicas e Planejanemto Urbano da USP, que, ao contar a história do desenvolvimmento urbano de metrópoles como São Paulo, já esclarciam que desde o começo do século passado, os ricos ocupavam as áreas mais seguras e altas da cidade, a salvo dos alagamentos; enquanto aos pobres só restava morar nos vales ou na beira de precipícios, à espera de que a próxima chuva não destruísse seus barracos ou moradias tão sofregamente construídas.

No Rio de Janeiro a situação é bem pior, pois com a existência de morros, serras e florestas repletas de montanhas, é natural que os mais frágeis economicamente, ou simplesmente aqueles que queriam construir sua casinha de campo à longe da exploração imobiliária e do IPTU alto, cravassem suas residências em áreas de risco, continuamente à mercê da erosão provocada pelas chuvas. Ora, sabemos que comunidades inteiras na periferia da Grande Rio vivem sob lixõees aterrados, e é comum encontrar a placa de imobiliárias de fundo de quintal, de escritórios de vendedores de terreno espertalhões, que com a maior cara de pau, oferecem domicílios à preço de banana, para aqueles que sempre mantiveram o sonho da casa própria. É, a vida é dura meus companheiros! Mais dura ainda quando você se vê soterrado por todos os lados!

Não sou candidato a prefeito, nem a vereador e nem faço parte de nenhuma ONG ou equipe de políticas públicas, que possa dar soluções para tragédias como essa do Rio de Janeiro. Amo o Rio, de coração e alma, e sei que a cada Carnaval, no mês subsequente, o carioca parece querer enxugar suas lágrimas de tanta tragédia, vestindo-se de folião e enchendo a cara, para esquecer durante quatro dias, das mazelas de sua realidade tão caótica diante da fragilidade do homem, perante às forças da natureza ou vítima da inoperância do poder público. Os norte-americanos tiveram seu furacão Katrina, enquanto que os asiáticos seu tsunami e os haitianos e chilenos seus terremotos; para dar vontade aos  seus sobreviventes de começar de novo.Agora, aqui no Brasil, pergunto-me pra que recomeçar, se todo recomeço na verdade é uma história de voltar para trás, negando os problemas, mantendo o que está errado, quando na verdade um novo governo e uma nova presidente devem se preocupar em pressionar o governador e o prefeito cariocas de revolucionar todo o cenário urbano do Rio de Janeiro, criando imensos lotes residenciais a salvo das chuvas, e uma complexa e dinâmica rede de drenagem e recepção de águas pluviais, a fim de que as tragédias de 2010 e 2011 se tornem coisa do passado. É, parece que estou sonhando! Mas o pior, é que meus sonhos são sempre pesadelos. Até quando??

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

TURISMO: Relatos de uma Lua de Mel:-Em Punta existem Hostels e Horrorestels.

Saudades de mim, meus queridos camaradas, leitores e leitoras? Se não; estou aqui de qualquer jeito (afinal, o blog é meu e lê quem quer!). Se, ao contrário, a recíproca é verdadeira, afirmo que tenho, também, saudades de quem lê meus escritos e de escrever neste espaço, abrindo 2011 com estado civil diferente. Pois é, casei! Acabei me enredando nos complexos, nem sempre fáceis (mas deliciosos) laços do matrimônio. Casei com uma figura bem legal! Pode-se dizer que o "C" de casado pode servir também para o “C” de minha cônjuge como um "C" de Companheira Certa pra Caralho. Bueno, até o presente momento, não tenho do que reclamar, e, afinal, se eu reclamasse na minha lua de mel seria o mais bronco dos caras, vocês não acham?
Pois é, mas falando de lua de mel, na verdade o quero escrever hoje é sobre turismo e relatar para os meus queridos leitores minha experiência em Punta del Este. Não!Não sou nenhum magnata ou sheik árabe e nem tenho milhões de dólares em conta corrente pra estourar nos cassinos uruguaios; mas com os poucos trocados que recebi no final do ano, uma vez recém-casado, resolvi dar de presente a mim mesmo e a minha esposa alguns dias de sol e mar fora do Brasil, num roteiro turístico na terra dos hermanos, bem conhecido da população brazuca ( e, principalmente, da população gaúcha, visto a quantidade de placas de carro vindos de Pelotas, Porto Alegre ou Rio Grande; a multidão tomando mate com suas cuias de chimarrão e a quantidade de "Bahhhsss" e "Tchêsss" que escutei pelo meio do caminho). Peguei a mulher e fomos de mala, cuia e......., claro, chimarrão para Montevideo, e de lá seguimos para Punta del Este: o paraíso de verão do cone sul, o ponto de encontro de chicos e chicas bronzeadas, bem nascidos e com seus carrões; que diante de prédios majestosos à beira-mar, numa estonteantemente bela península, tomam seus mojitos e fazem suas compras diante do sol caliente do verão platense. Fui com minha amada esposa à praia de Punta, empolgado como um pinto num galinheiro dentro de uma chuva de milho, crente de que receberia os melhores atendimentos gastronômicos, hoteleiros e turísticos da cidade. Porém, é de percalços que se faz uma boa aventura, não é mesmo?


Na minha epopéia de final de 2010 e início de 2011 tive do melhor e do pior em termos de viagem e tratamento, ao menos que no tange ao atendimento em minha empreitada turística. É necessário, antes de prosseguir no meu relato turístico (que poderá servir de exemplo a novos aventureiros), traçar algumas ilações acerca do Uruguai e de seus principais pontos turísticos.
Em primeiro lugar, eu já disse algumas vezes e continuo a considerar: para mim, o Uruguai é uma Paraíba que fala espanhol! E antes que os dignos cidadãos paraibanos da terra de Zé Ramalho e João Pessoa me atirem pedras, explico. A República Oriental do Uruguai é um país com aproximadamente 3,3 milhões de pessoas,sendo que 1,8 milhões vivem na capital, Montevideo. É uma região do tamanho mais ou menos do estado do Sergipe e como tem uma população pequena e concentrada na capital, pode-se dizer que o país se resume a um extenso pampa, com fronteiras com o Brasil e com a Argentina. Historicamente, o Uruguai tem relações de identidade e conflito profundas com os dois países vizinhos, e, antes de ser, provisoriamente, parte do Brasil ( a antiga província Cisplatina, disputada por portugueses e espanhóis desde o Tratado das Tordesilhas), desde o século retrasado, uruguaios e argentinos mantém uma relação de aproximação e distanciamento. Em relação a brasileiros e argentinos posso dizer que os uruguaios tem uma relação dúbia, tendo em vista que no verão é esse contingente de povos estrangeiros que vive a perambular pelas praias e shoppings uruguaios, consumindo nos bares,  comprando nos restaurantes e lojas, consistindo numa das maiores fontes de renda do país: o turismo. Percebi que os brasileiros são melhor vistos que os argentinos pelos uruguaios (ao menos nessa época do ano), tendo em vista que nos jornais locais (El País é o principal deles) é comum encontrar nas reportagens expressões referentes ao Brasil como um "gigante sul-americano". Já os argentinos, seja pela rivalidade esportiva ou cultural (os uruguaios culpam os argentinos por terem lhe roubado dois símbolos nacionais: o futebol e o tango), ou pelas disputas comerciais com os vizinhos de fronteira ( por conta da instalação de fábricas de papel), parecem ser objeto de certos comentários jocosos ou de piadas de mesa de bar. De qualquer forma, é em Montevideo e Punta del Este que gravitam a maior quantidade de brasileiros e argentinos, e foi pra lá que eu me fui, juntamente com minha companheira, neste final de ano.


Ao passar o reveillon em Montevideo, percebi que a queima de fogos de artifício, na passagem do ano, nem de longe lembra o glamour e a imponência da festa de ano-novo no Rio de Janeiro. Mas, é claro, o Rio é uma das melhores festas do planeta. Entretanto, não deixa de ter sensível beleza e euforia saber que os uruguaios sabem comemorar com entusiasmo a passagem de ano, e pude ver uma orla marítima repleta de fogos, com uma boa duração do foguetório por mais de vinte minutos. Foi realmente muito bonito poder ver e filmar com minha querida esposa a festa do reveillon uruguaio, apesar dos tropeços para chegar no local da festa. Acontece que no Uruguai, o povo local leva a sério a palavra feriado, e nem sequer táxis havia disponível para poder transitar. É isso mesmo, ao chegar em Montevideo me deparei com um comunicado do sindicato dos taxistas dizendo que na data festiva, era dia de folga para os taxistas. Mas como pode ser isso? Taxista de folga no dia do reveillon? Mas e quanto aos passageiros? Transporte não é serviço fundamental? Pois é, nem ônibus, nem metrô, nem táxi, nossa sorte foi ter encontrado um táxi perdido no meio da noite, que queria ganhar uns extras (como um bocado de trabalhadores autônomos, que não queria saber das determinações do sindicato), e através de um simpático e falante taxista, que era a cara do Fito Paez, pudemos, enfim, chegar ao nosso itinerário.

Montevideo não se compara a outras grandes e turísticas capitais sul-americanas: como Buenos Aires, Santiago do Chile ou Bogotá, mas tem seus atrativos. O centro da cidade no dia do feriado é intensamente sujo, com milhares de pedaços de papel espalhados pelo asfalto, além do contato na calçada com fezes humanas ou animais (a depender do dia, pois os animais de estimação caminham com seus donos durante o dia, e pela noite, a sujeira encontrada no dia seguinte é proveniente dos moradores de rua, que perambulam pela cidade); mas a parte histórica da cidade, a partir da avenida 18 de Julio, com seus monumentos históricos, praças e prédios antigos, é um passeio turístico-cultural bem interessante e divertido. É possível ver o quanto a influência brasileira ainda está presente, ao ver o Palacio Brasil, ou ver a quantidade de postos de combustível da Petrobrás, Banco Itaú e cervejas ou produtos brasileiros que são facilmente comercializadas no país. Também é curioso ver a bonita homenagem que os uruguaios fazem a Los Treinta e Tres, e como a palavra é nome de praça, rua e demais logradouros na metrópole uruguaia, tendo em vista que o nome corresponde aos pioneiros das lutas de independência do pais. Vale uma sacada na praça Artigas, onde fica o monumento desse importante personagem histórico, em frente ao prédio da presidência; que, diferente da Casa Rosada ou da Plaza de Mayo em Buenos Aires, tem uma estrutura arquitetônica bem moderna, ao invés de clássica. No mesmo lugar tem o imponente Teatro Solis, e logo abaixo, descendo por qualquer das ruas, chega-se à orla marítima de Montevideo: uma mistura das praias urbanas de João Pessoa com Boa Viagem, com seu lado mais bucólico e pouco movimentado, entre docas e trapiches, e outro mais movimentado e freqüentado, com banhistas locais que se deliciam com as águas frias do Atlântico Sul, pulando das pedras em direção à água, ou simplesmente se bronzeiam na areia meio avermelhada do local.

Depois de passar 3 dias em Montevideo segui para Punta del Este, ou melhor, a cidade que é seu alter ego menos famoso e de onde Punta se torna distrito: Maldonado. É em Maldonado que existe, de fato, a vida comum do cidadão uruguaio da região, longe da badalação da península, onde fica o centro de Punta del Este. Digamos que se os magnatas e ricaços descansam em Punta, o povão labuta em Maldonado. Confesso que gostei da cidade, cujo centro, pequeno e pitoresco, e a praça central, lembra-me a zona comercial de cidades como São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Lá fiquei hospedado no hotel San Fernando, em frente à praça central da cidade. Um hotel quatro estrelas, de somente dois andares, mas muito simpático, que, apesar do preço meio salgado para o período, demonstrou-se ser uma opção bem mais legal do que a roubada que eu e minha companheira nos metemos anteriormente, e que serve de título para esta matéria.

É isso, meus amigos e amigas! Quando procurei, no final de outubro, uma lista de possibilidades de hospedagem para minha viagem vindoura ao Uruguai, consegui facilmente a indicação do Day Inn Hotel, em Montevideo, atrás do terminal rodoviário de Tres Cruces, no centro da capital uruguaia e que é muito bom. Já quando me reportei às opções de hospedagem barata em Punta del Este, deparei-me de imediato com a dificuldade de encontrar lugares vagos, tendo em vista que já em outubro todos os hotéis e albergues da península já estavam lotados, sem qualquer opção de compra pela internet. Depois de muito chafurdar pela rede, encontrei uma opção que, pelas fotos, parecia-me inicialmente bem agradável: o Hostel del Patio, próximo ao centro de Maldonado, há cerca de 7 km do centro de Punta del Este. Que grande roubada me meti!

Pra começo de conversar, o preço cobrado pelos camaradas do hostel não perde em nada para os valores que são cobrados num bom hotel quatro estrelas. Além de caro, ao chegar no local, diferentemente do que me ocorreu no hotel em Montevideo, os jovenzinhos que me atenderam não conseguiram encontrar minha reserva, pois não me foi fornecido qualquer código de confirmação, tendo sido eu obrigado a vasculhar na internet deles um perdido e-mail de confirmação do próprio hostel, indicando que eu realmente tinha reservado um quarto para duas pessoas, no período que antecedeu a minha chegada. Mas o pior estava por vir.
Ora, eu sei que nos hostels a rotina é mais simples e diferente do que se vê na hotelaria tradicional, desde os mais modestos ao mais sofisticados hotéis, porque o espírito do albergue é outro daquele vivido pelo ambiente hoteleiro, mas cada um tem seus limites. Há mais de dez anos freqüento continuamente diversos hostels e alojamentos durante minhas viagens, seja dentro do Brasil ou no exterior, e já dormi em beliche, rede, quarto próprio ou coletivo. Frequentei albergues da juventude estilosíssimos em Buenos Aires e Santiago, e não tive maiores problemas na minha primeira estadia no Uruguai, quando também fiquei hospedado num albergue, bem no centro de Punta del Este. Agora, os apuros que passei no tal Hostel del Patio são dignos de um filme: de terror!

Pôxa! Tudo bem que o quarto que eu tinha com a minha esposa, apesar de modesto, não tivesse ar-condicionado e nem frigobar, mas como ficar num quarto que não tem sequer cortina na janela? Cadê a privacidade? O estado do colchão e da cama lembravam o tempo que os colonizadores espanhóis caminhavam sobre a região, e a quantidade de ácaros que se encontrava no meu travesseiro dava pra chamar uma equipe de entomologistas. Pra completar o martírio, numa área em que a temperatura ambiente era de 25 graus, mas que com os ventos litorâneos a sensação térmica caía pra 10, ir pra um banheiro coletivo sem chuveiro quente era o fim da picada. É normal ( e até regra) que nos hostels não se ofereça toalhas ou sabonetes, já que isso é por conta do cliente, mas geralmente, até por uma visão de mercado, esses estabelecimentos mantém um bazar, à disposição do cliente, onde é oferecido o aluguel de alguns utensílios de banho ou cozinha, e onde se pode comprar mercadorias, como refrigerantes e sabão. Pois é, lá não tinha! Ao contrário, além de ser convidado, em plena onze da noite, a visitar o supermercado local que acabara de fechar, após um dia inteiro caminhando ao sol por Punta del Este, fui obrigado a cumprir com o compromisso chato de ter de pagar 6 mangos pelo aluguel de uma toalha a uma funcionária do hostel igualmente chata. Cadê os direitos do consumidor? Cadê os direitos humanos? Não se trata de babaquice pequeno-burguesa querer tomar banho quente à noite. Pra quem vive na região sul do Brasil ou já experimentou o clima frio austral, banho quente é uma questão de sobrevivência. Ninguém quer pegar uma pneumonia!

Pois, restando-me no prejuízo, quando, enfim, consegui um hotel civilizado no dia seguinte para mim e minha esposa, ainda tive que amargar o prejuízo de não ver restituído o valor pago antecipadamente por três dias de hospedagem. Alegaram que como eu tinha feito uma reserva, o quarto já tinha sido separado para mim anteriormente, e assim o estabelecimento não poderia amargar prejuízo, já que tinham perdido a oportunidade de lucrar com a minha reserva. Porca miséria! Maldito espírito capitalista do direito contratual! Puto da vida, indignado, mas resignado, aceitei a rasgada de dinheiro que me foi imputada, restando a mim e minha atordoada companheira seguirmos em direção a uma cama e chuveiro quentinhos que nos esperava, há menos de dois quarteirões onde nosso inferno astral tinha começado. Parecia-me a noite de horrores tinha terminado.

Que nada! No retorno para casa ainda tive que pagar uma horripilante taxa de embarque, em dólares, que não me havia sido avisada pela companhia aérea quando comprei a passagem no site, e tive que desembolsar o valor de quase duas passagens aéreas Porto Alegre/São Paulo, para não ter que ficar preso na terra dos hermanos. Isso sem contar que em alguns lugares, os lojistas se recusavam a receber uma nota de 100 dólares que eu havia acabado de sacar do caixa eletrônico, por que estava rasgada na ponta. Pô! Tem transeuntes que caminham na praça que ao ver uma nota de cem dólares no chão podem até brigar e rolar no chão entre si pra pegar a grana, e as pedantes lojistas uruguaias não queriam receber o dinheiro que eu havia acabado de sacar em um de seus próprios bancos. Aí, haja paciência!!!

De qualquer forma, tenho um retrospecto mais do que positivo em minha lua de mel uruguaia e a esposa parece ter ficado mais do que satisfeita. Ótimo! Fiz a minha parte! Porque em casamento a gente aprende, meu amigo! É melhor satisfazer o outro a fim de obter a satisfação própria do que se prender no egoísmo do seu próprio prejuízo! No final das contas, quem lucra é o amor! Vocês não acham?? Até breve, meus camaradas queridos!
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