terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LIVROS: O incêndio no Cata Livros não transforma nossa memória em cinzas.

Cheguei para morar na cidade de Natal em 1987, e desde então oscilei minhas moradias num curto período em outras cidades (São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro), mas sempre, nesses intervalos, voltei a "Cidade do Sol". Recordo que em 87 eu era apenas um adolescente secundarista, vindo de Brasília, com seus primeiros discos do Legião Urbana debaixo do braço, totalmente deslocado na nova cidade, que achava (e ainda considero) extremamente provinciana. Tinha poucos amigos, passei meses morando numa cidade de interior, vindo para Natal pra estudar, e nas tentativas de um garoto tímido, de se ambientar na cidade, meu achado foram os sebos.

A palavra "sebo", apesar da denotação grosseira, faz referência aos primeiros estabelecimentos de livros usados, surgidos na Europa do Renascimento e fundados no Rio de Janeiro, no final do século XIX. Para alguns, o termo foi empregado para designar lugares que ainda não tinham luz elétrica, e a cêra das velas acesas para leitura acabava engordurando as páginas dos livros. Outros, consideram que sebo é um termo empregado para definir um livro velho, que já passou por várias mãos. De qualquer forma, sempre gostei desses lugares simples, meio empoeirados, onde a passagem do tempo congelou, entre livros, discos, revistas, gibis e coleções antigas. Até me lembro de um personagem dos livros do escritor Garcia Rosa, o delegado Espinoza, o qual me identifico, que em suas estórias, gostava de sair da delegacia e perambular pelos sebos. Depois das bibliotecas, os sebos para mim são os verdadeiros templos da cultura.

Eu já frequentava sebos atrás de estórias em quadrinhos que eu colecionava, no antigo Mercado de São Brás, em Belém do Pará, uma das cidades que residi na infância. Quando cheguei em Natal, nos meus momentos de solidão após o colégio, e, como disse, tentando me acostumar com a nova realidade e a nova cidade, descobri no bairro do Alecrim um simpático e pequeno sebo, ocupado então por um rapaz fortão e barbudo, chamado Jácio Torres. A memória já falha e não me lembro do nome do sebo na época; mas recordo que logo fiz amizade com aquele sujeito simpático, meio bonachão, com seus óculos de grau e jeito meio hippie, que com extrema simplicidade e simpatia atendia seus clientes, que logo percebi ser formada por uma fauna o mais diversificada de indivíduos de todas as partes da cidade; desde intelectuais, jornalistas, estudantes, até funcionários públicos, passando por artistas, donas de casa proletarizadas, que procuravam livros didáticos mais baratos, para atender à demanda de material escolar para seus filhos, assim como estudantes de cursinhos vestibulares ou concursos, procurando material para estudos.

Foi no sebo de Jácio que conheci desde coleções completas de obras de gênios da música, de composições clássicas de Bach a Mozart, até discos de Jimmy Hendrix, Bob Dylan e Janis Joplin. Vi e adquiri livros raríssimos, como uma edição encadernada, dos anos quarenta, em dois volumes, de Crime e Castigo, de Dostoievski, com sua capa dura velha e páginas amareladas, que ainda guardo na minha estante, sob os protestos de minha esposa, que não gosta que eu guarde coisas velhas (vá entender as mulheres!). De qualquer forma, com o passar dos anos, acompanhei a evolução de Jácio, junto com seus familiares, no negócio de sebos, e à medida que eles foram desenvolvendo seu trabalho, também fui me afastando. A última boa recordação que tenho daquele período, foi quando Jácio, acompanhado da esposa Vera, migraram para a Cidade Alta, e montaram um sebo cujo nome viria a se tornar antológico na cena cultural natalense: o Cata Livros.

Percebi que com os sebos, Jácio e seus familiares demonstravam não apenas um tino comercial para a venda de livros usados, mas sim uma verdadeira paixão pela cultura, e pelo resgate da memória intelectual, através da gostosa tarefa de viver entre amontoados de livros, discos e vídeos. Além de sua amável esposa, Vera, conheci e fiz amizade com os irmãos de Jácio (Janilson e Jailton, se não me falha a memória, que durante anos, mantiveram juntos um sebo no campus da UFRN), conheci o patriarca, Seu Torres, com seu sebo simpático montado no Camelódromo da Cidade Alta, assim como a irmã de Jácio, Jane. Fiz amizade de forma cordial e espontânea com todos, e os guardo na memória assim como guardo os livros, e os bons momentos que eles me fizeram recordar da juventude, passeando por entre os sebos, folheandos livros e revistas. Fazia um bom tempo que eu não tinha notícias deles.



Eis que nessa semana, enquanto eu arrumava minhas caixas de livros, ainda não retirados de minhas viagens, escuto minha mãe falando de um sebo que havia pegado fogo, num triste fato comunicado pela imprensa e cujo dono estava aceitando doações. Num primeiro momento, não me dei conta que se tratava do sebo do Jácio, até ler uma reportagem do jornal Tribuna do Norte. Fiquei pasmo e entristecido com o infortúnio que acometeu o antigo amigo da epopéia sebista, e antes de me dirigir até o local onde ele se encontra, decidi escrever esta homenagem. Diante das cinzas e da ruína que parte os corações, vendo tantos livros, obras raras e manuscritos destruídos, escrevendo neste blog, resolvi fazer o meu tributo ao Cata Livros e ao legado da família Torres.

Entendo que o Rio Grande do Norte (assim como todos os estados e regiões do Brasil) tem sua riqueza e diversidade cultural preservadas não por iniciativa do poder público (que, por sinal, nesse quesito é medíocre), mas sim pelo empenho carinhoso e pela dedicação de pessoas verdadeiramente devotadas à preservação da memória artística e intelectual de nosso povo, como são sujeitos do perfil de Jácio Torres. Estou inteiramente solidário a Jácio e sua família quanto à tragédia que se acometeu sobre sua maior paixão: os livros. Como também sou um apaixonado por livros, sinto na pele e no coração a tristeza de ver tanto trabalho desperdiçado sob as chamas de um trágico acidente, mas esse coração também se comove com as centenas de pessoas que estão indo ao encontro do sebista potiguar, doando livros, vindos de todas as regiões do país, refazendo o acervo do Cata Livros, numa campanha belíssima que faz meus olhos marejarem. Sei do bom humor, do otimismo e da disposição para o trabalho de Jácio e de sua esposa Vera, e tenho certeza de que, logo, em bem curto espaço de tempo, se o irrecuperável não pode mais ser resgatado, ao menos obras belíssimas Deus irá operar na vida desse simpático casal, montando um acervo de livros e discos muito melhor e maior, e de mais beleza ainda, pois aquilo que é construído com paixão não morre nunca. Convido nesse momento a todos, que leem este blog ou que tiverem notícia do que aconteceu com o sebo Cata Livros, que, se desejarem, efetuem também suas contribuições, doando livros, discos, filmes e o que acharem de mais interessante, para renovar esse importante espaço cultural de Natal. É só pegar o número dos telefones que tem na foto acima (lembre-se que o DDD de Natal é 84).Acredito que não é apenas um homem trabalhador como Jácio que merece isso, mas todo o povo potiguar.

Em relação ao sentimento pessoal que tenho pela perda do amigo Jácio, parodio aqui o eterno Raul Seixas, um dos músicos preferidos do sebista, cantando junto com ele que não desanime, e bola pra frente, pois: sonho que se sonha só, é apenas um sonho que sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade. Um grande abraço, Jácio e Vera!!! Boa sorte e que Deus os abençoe!!!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

REALITY SHOW: "Rupaul e a Corrida das Loucas" é a introdução do gay politicamente correto na TV.

Rupaul Andre Charles é um ator, cantor e transformista californiano que fez muito sucesso na comunidade gay nos anos 90, com o disco Supermodel of the World. Hoje em dia, o cinquentão Rupaul não saí da ribalta e permanece ativo na TV, enchendo as noites de cada semana, com  muito glitter, purpurina, lantejoulas e música para boates. Como dragqueen-mor de um programa de TV, Rupaul conseguiu se manter em evidência através de seu divertido "Corrida das Loucas" (Rupaul's Drag Race), apresentado na TV por assinatura, pelo canal VH1. No programa, o astro transformista seleciona 12 dragqueens norte-americanos, para disputar o primeiro lugar da corrida e obter o prêmio maior de U$ 25 mil, um fornecimento vitalício de cosméticos, além de contratos publicitários milionários (dentre eles, o de representar nas propagandas, a famosa marca de  vodka Absolut). Em síntese, na competição, os candidatos a maior dragqueen da América tem que saber se maquiar, produzir sua própria roupa transformando cortinas e tapetes em vestidos de noite, dançar, posar para fotos, sair pelas ruas fazendo perfomances, participar de comerciais e, sobretudo, fazer o que toda dragqueen de respeito sabe fazer, para honrar o nome: dublar. É através de uma pesquisa em boates, clubes, casas de espetáculos e festas da comunidade gay, que Rupaul recruta e seleciona seus pupilos, num programa que se tornou um grande sucesso de audiência nos Estados Unidos, e que já está na sua segunda temporada no Brasil, aguardando uma terceira.

O que parece, à primeira vista, um festival de besteiras e futilidades pra quem aprecia um pouco de cultura (será que tem mesmo?) na televisão, tendo em vista que os reality show, hoje, na nossa realidade, não são mais novidade (vide o tosco Pedro Bial e seu enjoativo Big Brother Brazil, na rede Globo), o bom de "Corrida das Loucas" não são as provas da competição em si (apesar de que todas, na verdade, são bem divertidas), mas sim seus bastidores, quando são observados os competidores sem maquiagem, e é analisado, pelos espectadores, o perfil de cada participante. Para os meus amigos da psicologia e da sociologia, interessante é notar o quanto o programa dá boas teses acerca de comportamento humano e convívio social, quando quem assiste o programa é convidado a conhecer mais de perto o universo gay, e os dramas e peripércias por quem vive neste mundo. Logo se percebe que os jovens rapazes que concorrem ao prêmio máximo de estrela drag, foram todos pessoas que, em 99% dos casos, descobriram-se homossexuais ainda na adolescência, tiveram uma série de dificuldades emocionais e sociais por conta disso, e se valeram da arte, do potencial artístico de se vestir de mulher, saber dançar e cantar, para driblar o preconceito, o desprezo familiar e a prostituição. No discurso de todos é possível notar menções recorrentes à figura materna, como acolhedora ou principal fonte de influência, e zero de comentários à figura do pai, num contraste que revela seu drama pessoal. Na verdade, o que o programa de Rupaul faz é humanizar a figura da dragqueen, mostrando realmente quem são aquelas pessoas debaixo de toneladas de perucas, enchimentos e maquiagem, revelando garotos que só querem sobreviver, vencer na vida e provar para o mundo que são capazes e podem se firmar como artistas.

Em Rupaul's Drag Race temos tipos altamente pitorescos: a gordinha Mystique; a latina Jessica Wild (um portoriquenho com problemas de idioma); a ensimesmada Sonique, a altiva Tyra (que desperta a antipatia das colegas); a ambiciosa Raven (com seu porte atlético e tatuagens); a pueril  Tattiana(um rapazote com cara de nerd, que ao se transformar, revela uma beleza de extrema feminilidade), a sempre alegre (mas nem sempre elegante) Pandora, a asiática e intelectualizada Jujubee, a desengonçada Nicole, a dedicada Morgan e a sem noção Sahara . O que esses garotos tem em comum, além do talento nos palcos, é a habilidade de superar todas as críticas que possam ser feitas acerca da condição deles. Naturalmente, numa visão chauvinista, tudo é "pura viadagem" ; mas para quem curte (principalmente mulheres) moda, maquiagem, música dançante ou simplesmente quer dar umas boas risadas, o programa de Rupaul é altamente divertido, por conta de sua excentricidade.

Temos uma paixão pelo burlesco, pelo kitsch, pelo exagero, caricato, carnavalesco ou algo que explora uma dimensão menos séria e mais lúdica de nossas personalidades. O universo das dragqueens é assim, circense, performático, como algo que não vem propriamente para chocar (como era, outrora, para horror do tradicionalismo, um homem se vestir de mulher), mas sim para animar a festa, como uma "ode a Dionísio", como uma celebração da alegria, em tempos de pesado preconceito, intolerância e cultura do ódio. As dragqueens celebram a alegria, dançando e cantando, dublando os seus ídolos, exibindo um glamour fake, de homens que sabem que não são mulheres, mas que exploram toda a feminilidade como uma via de expressão estética. Quem acha que curtir um programa de TV que mostra dragqueens é uma forma de apelação ou falta do que fazer, então digo que os japoneses também deveriam ser recriminados, por durante séculos apreciarem o teatro kabuki, onde não há a participação de mulheres, e alguns atores se vestem de mulher, maquiando-se, para interpretar seus personagens.

 Não me envergonho e não tenho o menor pudor de dizer que assisto ao programa de Rupaul, acompanhado de minha esposa (que não perde um episódio); pois meu olhar sobre um reality show envolvendo dragqueens é completamente assexuado, bem diferente da baixaria protagonizada por Pedro Bial e seu programa similar na Rede Globo, ao forçar a barra colocando uma travesti para competir (e dar em cima), dos incautos competidores homens do Big Brother. Na Corrida das Loucas, apesar do nome, o que vemos é menos um discurso sexista ou pró-gay, do que um grupo de meninos que se vestem como garotas, como parte de uma perfomance artística, que querem ser reconhecidos pelo seu trabalho e que estão pouco se lixando para os olhares conservadores e preconceituosos, que veem o Diabo em tudo, principalmente na opção alheia. Ou vocês vão me dizer que ninguém achou legal ou já assistiu na Sessão da Tarde, o filme australiano dos anos noventa, Priscila-a Rainha do Deserto, e não achou o maior barato?Nos dizeres de Rupaul, sempre ao final de seus programas,  ao som de Jealous of my Boogie (canção-tema do programa, de autoria do próprio apresentador), a Corrida das Loucas na verdade é um programa sobre amor-próprio, sobre como amar a si mesmo, apesar das adversidades e fazer valer suas opções, mesmo que os outros não as respeitem ou concordem com elas, para conquistar sua dignidade. Por isso, digo junto com Rupaul ao final de cada episódio: "Amém!".

EGITO: Revoluções por minuto-na tela do seu celular,no twitter ou olhando pela TV!

Hosni Mubarack é um tirano! Até pela cara feia dele, olhando pela TV, podemos reparar nisso (apesar de que quem vê cara, não vê coração). Durante 18 dias, o Egito e o noticiário do mundo todo foram sacudidos por um gigantesco levante popular, que cobrou democracia e a saída do velhor ditador, de 82 anos, do poder. Parece que 30 anos foi tempo suficiente para que toda uma juventude, crescida e educada conhecendo apenas um governante, enchesse o saco, e quisesse botar o velho faraó para correr. Mubarack já vai tarde! Mas quem vai ficar no poder?


Um dos maiores estudiosos da causa árabe, do pan-arabismo e da história das lutas anticoloniais do povo islâmico foi o finado pensador e ativista político palestino, Edward Said. Tenho em casa um de seus livros, o clássico Orientalismo, um livro que trata da história e da religião do povo árabe, feito por um palestino de uma família que abandonou o islamismo, tornou-se cristão (anglicano), e foi residir nos Estados Unidos; mas nunca renunciou as suas origens árabes e nem à defesa do povo palestino. Said tinha uma visão aguçada sobre a vida e a cultura do povo árabe, conhecia as ideosincrasias de pessoas acostumadas ao sol do deserto e aos cânticos do islamismo. O oriente tem sua sensibilidade, características próprias, um modo de vida singular, e para muitos de nós, ocidentais, é uma sociedade totalmente estranha e nova. A cultura árabe não se resume aos tabules, esfihas e quibes que comemos nas lanchonetes, graças à influência da imigração em nosso país e da presença de simpáticos senhores bigodudos ou senhoras de véu nas capitais do sudeste, e nem apenas na dança das  belas odaliscas, retratadas na caricatura de traços culturais de uma sociedade, apresentada nas novelas de Glória Perez. Os árabes são, até certo ponto, uns verdadeiros "ETs" para a nossa "civilizada" e Iluminista cultura ocidental. Uma sociedade altamente machista, conservadora, patriarcal, mas também com um forte sentimento de coletividade. É com esse sentimento que o povo egípcio ocupou as ruas do Cairo, querendo a renúncia de seu presidente.

Em certo sentido, utilizando-se o jargão sociológico, pode-se dizer que o mundo árabe vive uma revolução (em termos). Em primeiro lugar, deu-se no mês anterior a queda do ditador da Tunísia, Zein al Abidine Ben Ali, e, após, vive-se a conturbada cena política no Egito, que culminou com a queda de Mubarak.  Enquanto isso, em outras nações árabes, processos semelhantes começam a se agigantar. Se isso irá resultar em sucesso a longo prazo, só a história dirá.

Hegel, filósofo alemão do século XVIII, dizia que a razão conduz à história, e por debaixo desse conceito racional existe um espírito coletivo, que pode ser traduzido, no jargão popular, como a força do povo. Não é à toa que seduzido pela filosofia de Hegel, Karl Marx acabou por desenvolver sua teoria do materialismo histórico-dialético, trabalhando o conceito de luta de classes e revolução como fundamento básico. Hegel tornou-se um filósofo conhecido por subordinar o direito à política, e esta às peculiaridades culturais de cada povo, no seu processo revolucionário. Nesse sentido, para um hegeliano ou marxista desavisado, parece que o processo político no Egito assemelha-se a outros processos revolucionários que conduziram a humanidade no século passado, como a revolução soviética, chinesa e cubana. Ledo engano!

Vive-se hoje no mundo uma realidade globalizada distinta da primeira metade do século passado. Fora o aspecto econômico, com a situação de desemprego, miséria e preços altos por que vive o Egito, o processo político que parece se delinear naquele país árabe apresenta tinturas que envolve menos dimensões culturais e diferenças de classe do que aspectos superficiais da política. Apesar de quase metade da população egípcia hoje ter menos de 30 anos, e ter vivido toda uma existência com a figura de somente um presidente, é difícil para uma cultura fortemente enraizada no islamismo, pensar uma democracia em termos estritamente ocidentais. Os manifestantes nas ruas do Cairo pediram muito mais a saída de Mubarack do que uma transformação radical no sistem ou alteração abrupta de seu modo de vida. Afinal, com toda a crise econômica e política, o Egito ainda é tido como um dos roteiros turísticos mais visitados do planeta, com uma universidade bem desenvolvida, um comércio exterior nada desprezível e uma forte sociedade capitalista e de consumo, que convive ao largo da tradição. A melhor saída política para o Egito, se quer mesmo sair de uma ditadura e não chegar a se tornar uma teocracia, como se dá hoje no Irã (após uma conturbada revolução política há mais de 30 anos atrás), seria tornar-se um modelo de democracia islâmica, como hoje é na Turquia, e tenta ser (de forma mais turbulenta) o Líbano, após sucessivas crises internacionais.

E os Estados Unidos com isso?! É importante salientar que a manutenção de Mubarack no poder foi de interesse dos norte-americanos, pela sua clara guinada favorável ao poderio yankee e sua submissão ao acordo de paz com Israel, firmado por seu antecessor, Sadat, que pagou com a vida por isso. É de fundamental relevância para os americanos, que permaneça no poder um regime títere de seus interesses, como fiel da balança e motivo principal de equilíbrio na região, face à relação conturbada de Israel com seus vizinhos. A chegada ao poder de grupos religiosos radicais, no estilo do palestino Hamas ou do libanês Hesbollah, a partir de segmentos mais extremistas da Irmandade Muçulmana egípcia, seria um verdadeiro desastre na promoção das políticas de paz (e de submissão político-econômica aos EUA, leia-se: petróleo) nos países da região.

Além da Irmandade Muçulmana, único grupo político extremamente organizado dentre os fragmentados grupos de oposição ao governo, no Egito, algo que se tem a temer é a influência dos militares, como estamento dominante na política egipcia desde a sua independência da dominação britânica (todos os ex-presidentes do país eram militares ou tiveram apoio da caserna). É verdade que o processo político no Egito tem suas semelhanças e extremas diferenças com os processos ditatoriais que ocorreram na América Latina, no século passado. Mas também é verdade que a Junta Militar, que assumiu o governo após a saída de Mubarak, já disse que não tolerará mais distúrbios, e alertou a população de que os manifestantes deveriam voltar para casa, abandonando as ruas, aguardando o desdobramento do processo político, com novas eleições livres e democráticas, no mês de setembro vindouro. Poucos analistas acreditam que os militares, através do general Mohamed Tantawi, cumprirão a palavra, caso o processo eleitoral não seja acompanhado de perto pelo povo e por observadores internacionais. É muito cedo para se dizer o que acontecerá com o Egito nos próximos meses e nos próximos anos, para um povo que recém descobriu (ou ainda não descobriu de fato) o que é uma democracia, após tantos e tantos de dominação poderosa e submissão pelas armas, num governo extremamente corrupto e que fazia valer sua força pelo uso de eleições fraudadas, simulacros de um real processo democrático, ou por meio de regimes de exceção. A antiga terra dos faraós ainda parece temer o poderio magnético de suas esfinges, e ter meio que uma organização monárquica de viver, cultivada numa política baseada num extremo personalismo de seus líderes.

De qualquer forma, saúdo a iniciativa de milhares de jovens, homens e mulheres, que através das redes sociais na internet, organizaram-se em movimentos militantes, ocuparam as ruas, e por meio de celulares ou frases no twitter conseguiram impulsionar toda uma sociedade, para mudanças mais do que necessárias. Anseio que a juventude do Egito possa encontrar o seu caminho, ter a oportunidade de, ao menos, ser chamada para os processos decisórios e participar do debate democrático, construindo líderes e elegendo representantes. É tudo o que nós queremos em nossa mentalidade racionalista e ocidentalizada. Espera-se saber se isso que querem também os nossos parceiros árabes, sem que percam sua necessária e essencial identidade enquanto povo e nação. Que Alá os proteja!!
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