quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CULTURA: Tatuagem. Por que tatuagem??

De mudança pro novo apartamento, comecei a me mexer para revirar as quinquilharias, na árdua e infeliz tarefa de decidir o que manter e o que jogar fora de casa. Acreditem, meus amigos, na minha casa tem papel, mas muiiitoooo papel. Entre livros, revistas, gibis, posters, CDs, DVDs e agora Blu-Rays, também tenho a curiosa mania de colecionar........cartões de visita. Isso mesmo, existe todo tipo de colecionador, desde os colecionadores de selos aos colecionadores de cartões, e eu me encaixo no segundo grupo; pois revirando entre os cartões que mereciam ser jogados no lixo, deparei-me com um bonito cartão, da cor azul, com gravuras tribais em alto-relevo, que me lembrava um ateliê de tatuadores localizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No verso do cartão tinha uma data e um horário: 20 de janeiro de 2010, uma quarta-feira, às 16:30 horas. Era o horário em que fiz a minha primeira tatuagem: um leão, desenhado no braço esquerdo, de aspecto tribal.


Personagens como Kat Von D tornaram
a tatuagem uma arte ainda mais popular.
 O curioso é que eu nunca tinha reparado na data em que fiz minha primeira tatuagem, até ter encontrado este cartão com o lembrete no verso, na mesma semana em que me preparo para fazer minha segunda tatuagem: agora no braço direito. Antes de decidir me tatuar pela primeira vez, refleti muito, passei meses pensando, e agora ao fazer uma nova tatuagem, mais uma vez, fico me perguntando até que ponto a arte de pintar o próprio corpo não exerce um fascínio quase irresístivel que, para alguns pode se tornar um vício, ou até mesmo uma doença. Analisando os prós e contras, de quem é a favor ou contra as tatuagens, podemos encontrar ínúmeros argumentos de cunho social, religioso, político, psicológico, antropológico e até filosófico. Tatuagens são uma produção humana, assim como são todos os bens culturais, mas os símbolos que são desenhados na pele por alguém ganham uma característica mística, que leva muito em conta a relação do homem com os símbolos, desenhos e cores. É importante sacar também, de como a tatuagem saiu das tribos primitivas, deixou de ser parte de um gueto social e se transformou efetivamente em arte, independente das belíssimas curvas do corpo todo tatuado da linda tatuadora, Kat Von D, em seu programa de TV semanal, L. A. Ink.

Historicamente, a tatuagem remonta à Pré-História, sendo encontrada há mais de 3.000 anos em gravuras de antigas cavernas e em desenhos de arte rupestre, demonstrando que, já naquela época, os homens cobriam a pele com desenhos. Uma das principais características da tatuagem que não mudou até hoje foi o emprego de agulhas com tinta para perfurar a pele, e assim deixar marcados definitivamente no corpo da pessoa, os traços de desenhos e símbolos representados pela tatuagem. No Egito foram encontradas múmias, datadas de 2.400 anos, que possuíam vestígios de terem sido tatuadas nos ombros e abdome, com a imagem de animais ou criaturas mitológicas. Na Roma antiga, os cidadãos romanos diferenciavam-se de plebeus e escravos através das tatuagens, assim como os membros do exército, integrantes da Legião Romana, tinham tatuado no braço o símbolo do senado romano, identificando-os como soldados.


As tatuagens são quase que obrigatórias
entre integranes da Yakuza.
 Todos os períodos da história humana foram acompanhados de gente tatuada. Os guerreiros pictos, povos bárbaros, inimigos dos romanos, tatuavam o corpo por acreditar que as imagens lhes traziam força e equilíbrio para combater os inimigos, e seria mais fácil serem reconhecidos no além, através dos desenhos que carregavam no corpo, pois acreditavam que as gravuras eram gravadas na alma, e não apenas na pele de quem era tatuado. Entre os habitantes de Samoa, para os samoanos a arte de pintar o corpo significava a passagem da infância para a vida adulta, simbolizando um certo status social dentro do grupo, enquanto que em diversas ilhas, os nativos da Polinésia, Indonésia, Nova Zelândia e Filipinas, também traziam tatuagens tribais gravadas no corpo. Tornaram-se famosas as tatuagens dos maoris, habitantes da Oceania, cuja beleza dos traços tribais de suas tatuagens são reproduzidas hoje no mundo inteiro. Também na Europa, durante a Alta Idade Média, celtas e vikings tinham suas próprias tatuagens, diferenciando-se entre si as gravuras empregadas por dinamarqueses, normandos e saxões. No Novo Mundo, os colonizadores encontraram diversas tribos indígenas, tanto na América do Sul, quanto na América do Norte, que usavam tatuagens, em sua maioria associadas aos deuses, com reprodução de animais que simbolizavam eventos sobrenaturais que marcavam a fé anímica desses povos.


Na era moderna, as tatuagens eram populares,
inicialmente entre os marinheiros.
 Durante muito tempo, no decorrer dos últimos séculos, no ocidente,  nos ambientes urbanos, a tatuagem foi associada a um estilo de vida marginal, muito mais relacionado a guetos específicos da sociedade, como presidiários ou marinheiros. No Japão, por exemplo, com o fim da era dos samurais e a modernização do arquipélago japonês, surgiu o crime organizado, e com ele a máfia japonesa, conhecida como Yakuza, caracterizada por seus integrantes tatuados. A máfia russa é caracterizada em sua escala hierárquica pela quantidade de tatuagens que um integrante possui, para subir na organização. Com a popularização da tatuagem a partir da contracultura norte-americana, nos anos sessenta, a arte de desenhar o próprio corpo acabou adquirindo cada vez mais adeptos, popularizando-se na comunidade de surfistas a partir dessa época até hoje, surgindo grandes estúdios de tatuagem e muitos tatuadores ficaram famosos por seu estilo, tornando-se verdadeiros astros pop. Nos Estados Unidos, a partir dos anos setenta do século passado, multiplicaram-se os estúdios para a difusão da arte, com a proliferação de pessoas tatuadas que queriam marcar no corpo a imagem de seus ídolos, com referências à estrelas pop como James Dean, Marilyn Monroe e Jimmy Hendrix. Na década de oitenta, tornou-se lugar comum as tatuagens de animais, dentre eles o tigre e águia, levando em conta o início da globalização e o contato com outras culturas, especialmente com a tradição oriental, relativa ao horóscopo chinês e às divindades do taoísmo e do hinduísmo.


Durante um bom tempo as tatuagens em
mulheres eram consideradas um tabu, no
começo do século passado, até se populariza-
rem de uma forma que, hoje em dia
é mais difícil encontrar
uma mulher não tatuada na praia do que
o contrário. 
 Biblicamente falando, ainda existe uma certa controvérsia no meio religioso (principalmente nos ambientes mais conservadores) acerca da possibilidade de um cristão ou crente de alguma religião, poder ser tatuado. Intérpretes das escrituras e alguns estudiosos consideram a prática proibida em virtude das lições contidas no Antigo Testamento, especialmente em Levítico 19:29 ( “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o Senhor”). Porém, pelo fato de não haver expressamente nenhuma proibição da prática no Novo Testamento, alguns teólogos com visão mais crítica tendem a levar em consideração o caráter histórico do texto bíblico nessas passagens, e identificar a aversão do povo de Israel às tatuagens, pela sua identificação com povos que, na época, eram seus inimigos, como os filisteus, que andavam tatuados.


Tatuagem tradicional samoana, com sua
riqueza de detalhes.
Alguns segmentos mais radicais das igrejas pentecostais chegam a identificar a tatuagem com símbolos do demônio, enquanto que outros simplesmente repugnam a presença de pessoas tatuadas dentro de cultos ou missas ou chegam a destituir fiéis que são descobertos com tatuagens, de cargos honoríficos na igreja. Muitos esquecem, que nas primeiras décadas da igreja cristã, na época da perseguição dos romanos, muitos cristãos se faziam identificar uns aos outros mediante símbolos tatuados no corpo, carregando na pele as letras IHS (Iesus Hominibus Salvatorem), que representavam, tais como sinais identificados com a cruz ou com o peixe, símbolos da fé cristã (o significado traduzido da sigla é "Jesus, Salvador dos Homens"). Em 798 d.C. o papa Adriano I chegou a banir a prática das tatuagens, dizendo que aquilo que se tratava de coisa do demônio, e quem fosse encontrado e identificado com sinais de desenhos em tinta pintados na pela, deveria ser queimado na fogueira. Entretanto, durante as Cruzadas, há relatos de cavaleiros que tatuavam a cruz na pele, como forma de não serem obrigados a se converter à fè muçulmana, orando para Alá. Hoje em dia, é comum também encontrar igrejas neopentecostais, com pregações mais alternativas e includentes, permitindo a frequência nos cultos de fiéis tatuados e tendo até mesmo pastores que possuem tais gravuras estampadas no corpo, como na Igreja Bola de Neve.

Na II Guerra Mundial, nos campos de concentração nazistas, a  tatuagem tinha um significado mais infamante, no momento em que eram tatuados às força os judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais que fossem feitos como prisioneiros, sendo que muitos dos sobreviventes daquela época mantém tatuada nos braços e punhos a numeração que era marcada em seus corpos, como forma de homenagear os mortos do holocausto e nunca deixar de esquecer, principalmente aos mais jovens, dos horrores que não podem mais voltar, com o surgimento do totalitarismo nazista.


Típica pin up tatuada, relevando o glamour de uma
arte antes tida como banida.
 Hoje em dia, a tatuagem praticamente foi assimilada socialmente. Lembro-me quando morava em Porto Alegre, cidade onde fiz minha primeira tatuagem, da quantidade de pessoas tatuadas que pude encontrar, pois antes de me tatuar eu andava pelas ruas, olhando curiosamente quem possuía tatuagem, percebendo que naquela época, no verão, era possível ver que de cada grupo de 4 pessoas que eu avistava, uma era tatuada. Eram homens e mulheres de diversas idades, estilos e etnias, que não tinham medo de mostrar desenhos no corpo, porque tais gravuras já faziam parte de sua identidade pessoal e cultural.

Identidade. Talvez, ao menos no meu caso, pessoas buscam se tatuar como forma de afirmar identidade ou para gravar no corpo momentos expressivos que passaram na vida. Quaando decidi me tatuar encontrei num sonho a figura de um leão, e a partir dali os sonhos foram identificadores de como e do quê eu queria me tatuar, guiando minhas opções, que, a meu ver, tem muito mais de influência do subsconciente, mas também de alguns aspectos de intervenção divina. Escolhi o leão, porque além de ser prosaicamente o animal correspondente ao meu signo, era uma figura que simbolizava força, determinação, bravura, mas também simbolizava a figura de Jesus, a partir da leitura de um escritor cristão reconhecido por sua obra, C.S. Lewis, que com suas Crônicas de Nárnia conseguiu colocar aspectos da fé cristã em sua obra literária antológica, colecionando milhões de leitores em todo mundo e gerando uma rentável e famosa franquia cinematográfica. O Leão Aslam de Lewis era a imagem simbólica que acabei por me interessar em tatuar no corpo, estilizado numa gravura tribal; pois, para quem leu a obra de Lewis, não se trata só de um Leão, mas sim de uma releitura do Leão de Judá que se encontra na Bíblia, personificado biblicamente na figura de Jesus.

Já o desenho da coruja, outro animal que também escolhi fazer, para marcar minha segunda tatuagem, simboliza para mim experiência, sabedoria, e, sobretudo, cautela a partir da observação, virtudes que passei a desenvolver com o decorrer da idade e que ainda venho aprimorando, com a chegada da maturidade. Sei que a opção de fazer uma tatuagem não é tão fácil, e só deve ser feita após muita reflexão e escolha adequada de um tatuador conhecido e respeitado por sua seriedade e higiene, para que depois eu não me arrependa amargamente depois. Afinal, por mais que existam, hoje, aparelhos desenvolvidos e caros para a retirada de tatuagens, o processo ainda é muito doloroso, não há garantia alguma de que a pessoa que se tatuou possa voltar atrás, apagando sua tatuagem e as marcas e manchas na pele permanecem para sempre, ou só podem ser removidas mediante uma cirurgia plástica. Tatuagem não deve ser vista como uma brincadeira ou modismo, e a pesoa tem que ter a completa consciência da alteração definitiva que poderá fazer em seu corpo. Sempre me tatuo com um misto de fascínio e medo, mas sei que, em minha fé, independente de como estiver meu corpo, para onde eu for depois de morrer, sei que terei um Deus que amo, que irá me receber da forma como eu me encontro, com meus pecados e virtudes, por acreditar que Ele está entre nós!

Portanto, por favor, peço aqueles que não gostam da tatuagem que não recrimem tanto por eu ser um homem tatuado; mas, se não concordam, que ao menos respeitem-me do jeito que sou, com minhas virtudes e defeitos, com meu corpo imperfeito, na perfeição de espírito que busco e sei que nunca alcancarei pela minha condição limitada de ser humano; mas um ser um que crê, que tem fé em Deus e acho que a salvação da alma só se encontra Nele, cabendo a Ele recriminar minhas escolhas e me criticar por ser tatuado, e mais ninguém. Afinal, como bom luterano tatuado, acredito que só a fé me justifica e me salva, e só através dela sei que poderá haver um céu tanto para tatuados, quanto para não tatuados. Tchau, gente! O ateliê do tatuador me espera!!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SÓCRATES(1954-2011): Um Brasileiro!

Mais uma vez, aproveito o blog para escrever sobre obituários de gente famosa, mas de gente que, sempre de alguma forma, marcou minha trajetória de vida, como a de outras pessoas. Não sou corintiano, mas sou amante de futebol (e de muitas outras coisas, como meus bons amigos e leitores do blog bem sabem) e após um bocado de dias sem escrever (um mês, pra ser exato), decidi colocar na web minhas impressões sobre esse fantástico ex-jogador, articulista de jornais e revistas, militante político e personalidade  do esporte brasileiro, que agora se foi. Com vocês, minha homenagem ao Doutor Sócrates!!


(retirado de cafecomnoticias.blogspot.br)
 Sócrates  Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, já tinha no nome uma equipe de futebol de salão montada. Nascido em Belém do Pará, há 57 anos, Sócrates veio de uma Belém que eu conheci na minha infância, pois como filho de um militar, vivi com minha familia num conjunto residencial da Marinha, próximo ao aeroporto, no começo dos anos oitenta, época em que comecei a me encantar com a mágica seleção brasileira da Copa de 1982, na Espanha. Torneio que teria como um dos craques a figura do doutor, um Sócrates no auge do vigor físico, habilidade e da fama, que junto com Zico e Falcão formou uma das melhores equipes de futebol da seleção canarinho da história. Uma equipe campeã moral, que no final não levou nada, mas encantou o Brasil e o mundo com os passes mágicos desses craques eternos, e com o antológico passe de calcanhar, marca registrada de Sócrates, que com sua criatividade fez ou ajudou a fazer muitos gols. Pena que a Itália de Paolo Rossi nos fez chorar! Pena que uma seleção tão brilhante, de futebol tão bonito, não conseguiu emplacar e levar para casa o título mundial. Aquele tempo se foi, mas Sócrates ainda permanceu por muito tempo no imaginário popular e na vida cultural e política nacional, até falecer este mês por distúrbios de saúde associados ao alcoolismo (mazela de tantas craques, que já vitimou Garrincha no passado), e ter deixado uma legião de leitores, da revista Carta Capital, orfãos do seus textos (dentre eles, eu). Que pena que Sócrates foi embora tão cedo. Cedo, porque 57 anos não é nada para a eternidade, e não é nada para quem se eternizou no coração e no orgulho nacional, com a alegria de  quem brincava com a bola, fazendo a alegria da torcida nos seus tempos de jogador. Um tipo magro, alto, imenso, mas de pés tão pequeninos e um jeito tão desengoçado, que fazia tremer a zaga do time adversário, toda vez que se aproximava da grande área. Sócrates permanecerá eterno. O doutor sempre será eterno!!

Doutor da bola, doutor na vida. Já no final dos anos setenta, Sócrates era uma exceção à regra, diante de tantos jogadores oriundos de famílias pobres, de baixa escolaridade ou nenhuma instrução, que tinham aversão a uma sala de aula, ao ter uma dedicação ao esporte inversamente proporcional ao estudo. Sócrates era estudante universitário, quando começou a jogar no interior de São Paulo, no Botafogo de Ribeirão Preto, cidade onde sua família,egressa do Pará, viria a residir e se radicar, revezando os treinos no clube com as aulas de medicina, na faculdade de medicina local, pertencente a USP. A dedicação aos estudos era semelhante à dedicação ao futebol,e já despontando como um craque mais talentoso nos gramados, do que nas mesas de cirurgia, não demorou para que Sócrates ingressasse no time que o consagraria, tornando-se um dos ídolos eternos do Corintians Futebol Clube. Foi no Timão que Sócrates, acompanhado de seus companheiros Palhinha e Casagrande, revolucionaram o futebol brasileiro com a criação do movimento chamado Democracia Corintiana, onde os jogadores, organizados politicamente como se fossem um partido político, reuniam-se em assembleía, ditavam as regras para a direção do clube, tiravam ou escolhiam treinadores, encerraram as autoritárias "concentrações", onde os jogadores ficavam enclausurados, impedidos de sair dos treinos, e definiam até horários dos jogos e treinamentos, numa forma de mobilização que lembrava a ebulição política da época, com a ocupação de praças e ruas, pelos movimentos sociais, exigindo o fim da ditadura e a realização de eleições diretas para presidente.


(retirado de abril.veja.com.br)
 Foi no movimento das Diretas-Já, que Sócrates mais se notabilizou como cidadão e ator político, e não apenas como jogador. Filiado ao PT, partido com quem sempre se identificou, e ídolo de Lula, então sindicalista, fundador do partido e futuro presidente da república (um corintiano fanático), o famoso jogador fez história com seu emocionado discurso no comício das  Diretas, dizendo em alto e bom som que se a Emenda Dante de Oliveira, que previa eleição diretas para presidente da república, em 1984, fosse aprovada, ele não iria mais para o exterior, saindo do Brasil a convite de um clube italiano, uma vez que queria permanecer para ajudar a reconstruir a democracia no país. Que pena que as coisas deram errado. A emenda não passou e o Brasil teve que esperar mais um ano pelo fim da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves para o colégio eleitoral, e, nesse ínterim, um experimentado Sócrates tentaria a sorte na Europa, defendendo, por um  curto tempo, a camisa da Fiorentina, para depois retornar ao Brasil e ainda jogar pelo Flamengo, pelo Santos, até encerrar  a carreira no mesmo Botafogo de Ribeirão Preto, onde começou a dar os primeiros chutes, em sua histórica trajetória futebolística. Sócrates ainda jogou a Copa de 1986, no México, onde mais uma vez sentimos o gosto da decepção, ao perder para a França (Ahh! A França, sempre a França!), na disputa de pênaltis, nas quartas de final do Mundial.  Naquela época, um Sócrates contundido, exausto, mais ainda talentoso, viu se perderem as chances do Brasil conquistar mais um titulo, ao perder um pênalti decisivo, que levaria à seleção canarinho para as semifinais. Mas é de alegria e tristeza que se vive o futebol. É de momentos de glória e também de profunda dor que se forja um torcedor. Senão, não teria graça o futebol, não é mesmo?!


(retirado de webnode.com.br)
 Nos últimos anos, além de trabalhar como técnico de futebol, Sócrates se valeu de sua persona pública para trabalhar em projetos sociais, participar de eventos políticos (com direito até a elogios ao presidente venezuelano Hugo Chavez) e a escrever artigos na imprensa nacional, principalmente na revista Carta Capital, donde se tornou articulista, revelando um senso crítico que nunca o abandonou, além das garrafas de cerveja, cigarros e samba que sempre o acompanharam; pois afinal, acima de tudo, Sócrates era um brasileiro!



(retirado de vocedeolhoemtudo.com.br)
 Brasileiro de origem humilde, desapegado dos bens materiais e mais adepto de uma boa conversa de mesa de bar, entre comentários críticos à política e o futebol, do que frequentar os grandes salões do jetset do capitalismo da bola. Além de jogador, eu estimava o Sócrates que se fez enquanto pessoa, angariando mais amigos do que desafetos, apesar do seu jeito às vezes turrão de dizer as coisas "na lata" para seus interlocutores, sem se preocupar com eufemismos. Sócrates poderia se tornar uma fera para jornalistas, como também poderia ser uma doçura de afeto, reconhecendo com mansidão na imprensa nacional os seus vícios e o alcoolismo que acabou levando-o à morte. Desde o começo do ano, com suas idas e vindas ao hospital, Sócrates despertou a comoção pública e o afeto indivisível de todo o país, calando até mesmo seus antagonistas na CBF, irritados com a forma sempre crítica com que Sócrates denunciava a cartolagem no futebol. Afinal, Sócrates era um ícone, não um "zé-mané" pago a preço de ouro para ficar calado, ou promover cartolas investigados pela Justiça, acusados de corrupção. O drama de Sócrates serviu para denunciar os riscos do consumo excessivo de álcool, mas também serviu para demonstrar que uma pessoa vale pelas opções que adere e pelas suas escolhas. E Sócrates escolheu viver da forma como queria, sendo brasileiramente um cara simples, com todas suas qualidades e defeitos, tomando sua cervejinha no final do dia, na esperada mesa de bar. Por seu passado de atleta, Sócrates não teve como vilão doenças de coração ou de pulmão,  males que afetam os beberrões e fumantes, mas sim  uma doença do fígado, castigado por tantos anos de excesso e de birita. Na sua última refeição, o doutor passou mal, e antes que fizesse seu último diagnóstico, foi direto para o hospital, não mais voltando de lá vivo, mas escrevendo sua página na história, e nos corações de todos os torcedores de futebol.


(retirado de esporteuol.com.br)
 Sócrates simbolizava um tipo de futebol arte e um estilo de atleta ético, engajado políticamente que marcou época, mas que será muito difícil de encontrar nos dias de hoje, devido à mercantilização do futebol e uma indústria de fabricação de craques, que hoje transforma ex-atletas em homens de negócio (vide o que aconteceu com Ronaldo). Nada contra, mas também nada a favor, para quem tem um pensamento minimamente crítico, como tinha Sócrates. De qualquer forma, Sócrates deixa uma lacuna, mas também deixa uma lição de vida e ser humano na história do futebol e da política nacional. Definitivamente, é alguém que vai deixar saudade! Adeus, Sócrates!
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