quarta-feira, 16 de maio de 2012

DVD: Por que Drive, para muitos, é uma obra-prima?

O filme Drive, do diretor Nicholas Winding Refn, injustamente exibido nos cinemas brasileiros tardiamente, e somente em algumas cidades (o eixo sul-sudeste que o diga), tendo o prolífico ator Ryan Gosling como protagonista, foi considerado uma mistura de Taxi Driver com Cães de Aluguel. Quanta injustiça! Quanta precipitação! Na verdade, Drive está mais perto do cinema europeu e dos velhos filmes de perseguição a carros dos anos setenta, com pitadas de romance de Antonioni e um pouco de Bertolucci. Em relação a este último cineasta, o filme rende até algumas homenagens a filmes como O Último Tango em Paris, não pelas cenas de sexo ou diálogos revolucionários (que não tem em profusão), mas sim pela interpretação do personagem de Gosling, cujo jeito taciturno lembra-me muito a atuação de Marlon Brando.

Em Drive podemos ver uma série de referências. Sim! Até porque cinema moderno, nos dias de hoje, é um baú de referências. Um pouco como é a vida acadêmica dos universitários com seus textos, artigos, dissertações e teses que contém mais referências do que pura originalidade. Desde o Nascimento de uma Nação de Grifith, desafio qualquer cinéfilo a me dizer que existe filme sem referências ou homenagens. No caso de Drive vemos como estradas e carros são apenas o pano de fundo do drama existencial de quem percorre essas ruas, em busca de dinheiro e perigo. O personagem é um piloto profissional que trabalha como dublê de filmes de perseguição e mecânico de carros durante o dia, e faz bicos servindo como motorista em fugas de assaltos pela noite. Em sua vida solitária de poucas palavras, sempre ajustada no relógio a cada fuga espetacular, o protagonista conhece uma moça que vive com o filho num apartamento vizinho, e diante da ameaça de criminosos contra o marido da moça, recém saído da prisão, nosso herói se vê obrigado a ajudá-los num pacto ético de honra e amor.

A estória do filme é contada de forma serena, apesar da explosão de violência que está por vir e nos choca, de tão estilizadamente sangrenta, pois foi feita pra chocar! O motorista sem nome interpretado por Gosling parece ter sido retirado de um livro de Albert Camus. É um herói existencialista, sorumbático, quieto, mas cujo charme, através de sua serenidade ao guiar um carro de fugas após um assalto durante a noite, tanto como trabalhar como dublê durante o dia, completa-se com o indefectível palitinho nos dentes.  Entretanto, assim como parece quase um monge budista na direção de um veloz veículo, o motorista errante pode também ser uma máquina de violência, cujo catalisador é ativado a partir de qualquer ameaça à vida e segurança de seus novos entes queridos ( a cena do martelo dentro de um bordel já ficou antológica e quando você assistir ao filme vai perceber isso). Drive começa a remover os clichês ou ao menos reposicioná-los, quando em sua primeira parte sai da seara do filme policial e se transforma num romance. No caso, no comovente e platônico romance do protagonista com Irene, a personagem de Carey Mulligan, que faz a contraparte do filme. É ela que completa a estória, que seria inverossímil se não tivesse a sua participação. Assim, Drive conta uma história de amor, como toda fábula moderna, mas fala mais uma vez daqueles amores impossíveis (ou até que poderiam existir com muito esforço), em que um personagem solitário conduz a narrativa, seja pelos atos ou pelas curtas palavras que já traduzem uma bomba de sentimentos.

As palavras, diferentemente dos filmes de Tarantino, não são usadas à exaustão, mas, ao contrário, são usadas economicamente, como as do personagem de Gosling, cuja quietude esconde um paiol de pólvora prestes a explodir. O motorista errante de Gosling pode dizer que vai arrebentar os dentes de um incauto se ele continuar falando ao seu lado, dentro de um Café, com uma polidez tão grande quanto alguém que pede somente mais um pouco de açúçar. São desses personagens introvertidos, mas significativos (como foi, outrora, Clint Eastwood nos faroestes de Sérgio Leone), que o cinema constrói seus heróis.E é da atuação de bons atores como Gosling que se constroem bons filmes.

Drive é vibrante pois foi construído sem esforço para ser um filme cool. E bota cool nisso! A começar pela fotografia, trilha sonora com direito a um lounge eletrônicamente bem transado, cenas bem coreografadas e a jaqueta com desenho de escorpião nas costas, que deverá ficar para a história do cinema. Ryan Gosling é definitivamente um dos grandes e talentosíssimos atores da nova geração, sem os estrelismos de seus colegas trintões, como seu xarás, Ryan Reynolds ou Ryan Phillipe. Todos sabem que Gosling é bonito, o arquétipo do galã, e acima de tudo bom ator, mas ele não precisa ser másculo como Brad Pitt,  elegante como George Clooney, ou tentar salvar o mundo como Tom Cruise; pois, diferente dos galãs veteranos, o jovem ator canadense já consegue imprimir sua própria marca. É um achado a sua composição do motorista errante e sem nome, que encontra a redenção ao conhecer e se apaixonar pela fragilizada, mas encantadora vizinha, esposa de um presidiário, que tem um filho pequeno tão apaixonante e frágil quanto.

O filme ainda tem um par de vilões respeitosamente representado pelos veteranos Albert Brooks e pelo eterno "Hellboy", Ron Pearlman, que não fazem feio como gângsters judeus, integrantes da máfia local, que matam e aleijam tão trivialmente como quem corta um pedaço de bife no almoço. É bem verdade que o universo da vilania é modestamente aproveitado no filme (até pelo possível medo do diretor de recorrer aos clichês do gênero), mas a atuação econômica dos vilões não estraga a beleza de Drive, que foi candidatíssimo a filme cult do ano passado. Tive a oportunidade de observar isso ao viajar a Paris, em 2011, e ter visto o filme estrear por lá, nos cinemas parisienses. Tem coisa mais cult do que ver um filme estrear em Paris?? Infelizmente, como eu disse, no nosso caso, nós, brasileiros, recebemos com imenso atraso uma pequena obra-prima, que ainda por cima ficou relegada às locadoras de video ou à pirataria correlata no Nordeste, onde há pouquíssimos entendidos em cinema que sabem orientar a clientela na hora de encontrar um bom filme. Fazer o quê?! De qualquer forma, assistir Drive é uma grata experiência para quem gosta de cinema, e ainda acredita em vida inteligente dentro da telona. Se for assistir na telinha, feche as cortinas, apague a luz do quarto ou da sala e viaje no carro do protagonista, dirigindo pela highway de uma Los Angeles pós-moderna, sem destino certo, mas rumando para o horizonte. Como diria a música do Smiths: Driving in your car, I never, never, want to go home.... Bom filme, pessoal!!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

QUESTÕES RACIAIS: Cotas raciais nas universidades, finalmente reconhecidas!!

(retirado de ujs.org.br)
Gostei muito de uma recente mensagem publicada pelo apresentador Marcelo Tas, líder da equipe do programa CQC da Band, no twitter, que dizia assim: "Sou a favor das cotas raciais com uma condição:se em breve a gente se envergonhar de um dia ter precisado delas". O twett de Tas repercutiu na internet com muitas mensagens favoráveis e contrárias às cotas, como deveria ser, numa discussão com ares apaixonados que vira e mexe acontece no Brasil sobre temas polêmicos. É comum encontrar pessoas discutindo abertamente os  prós e os contras das cotas em mesas de bar, no ambiente familiar, nas salas de aula ou em redes sociais na web, questionando a adoção do modelo baseado em uma forma de discriminação positiva, por motivos de raça; principalmente quando são realizados exames para o ingresso em universidades públicas.

Em recente decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal, através de seus ministros, votou de forma unânime sobre a constitucionalidade das cotas raciais, através do julgamento de uma ação de ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) movida pelo Partido Democratas, que considerava inconstitucional a adoção do regime de cotas na Universidade de Brasília (UNB) por afrontar o princípio constitucional da igualdade. A base do argumento da parte autora no processo contra as cotas foi a de que num país de mestiços, estabelecer regras discriminatórias, privilegiando uma determinada etnia ou cor em prejuízo de outra, afrontaria o princípio de que "todos são iguais perante a lei", celebrado pelo art. 5º da Constituição, tão defendido pelo pensamento liberal clássico, ou pelos conservadores de linha tradicional.

O professor Demétrio Magnoli é um dos célebres
adversários do regime de cotas raciais nas universidades.
(retirado de g1.com.br)
É importante salientar como o argumento da igualdade formal, prevista em lei, superior à igualdade de raça, tem suas bases no pensamento liberal, no Brasil defendido tão ardentemente pela Nova Direita, que tinha nos partidos políticos a figura de, um agora defenestrado,  deputado Demóstenes Torres (um dos autores da ação judicial que tramitou no STF) e na intelectualidade, representado o neoliberalismo anticotas na academia, por pensadores como o professor e geógrafo Demétrio Magnoli. Este último, inclusive, é autor de um interessante, mas polêmico livro: O Mundo em Desordem: Liberdade X Igualdade, em que, baseado em seus fundamentos neoliberais, contraria os defensores das políticas de cotas raciais, reforçando Magnoli a cartilha do liberalismo acerca do direito à liberdade e o culto à iniciativa própria como forma de obter ascensão social. Magnoli reedita Gilberto Freyre, para quem a intensa mestiçagem de nosso povo faz desaparecer as diferenças de raça, passando todos os que residem no território nacional a serem chamados simplesmente de.... brasileiros!

Contrariamente ao que pensa Magnoli, Ronald Dworkin, célebre filósofo do direito norte-americano, já falava das características do sistema de cotas no direito dos Estados Unidos, em seu livro Levando os Direitos a Sério (Ed. Martins Fontes), onde ele discorre sobre o fundamento jurídico das políticas compensatórias, também chamadas de "ações afirmativas", de caráter transitório, que visam equilibrar o que se encontra desequilibrado. O atual presidente Barack Obama, afrodescendente, é um autêntico representante desse sistema, que teve seus primórdios na década  de sessenta, com os imensos movimentos dos direitos civis nos EUA, liderados por Martin Luther King e várias outras personalidades da política, da cultura e do direito.

(retirado de rogatavenia.blogspot.com)
O sistema de cotas não serve para cristalizar uma situação de desigualdade, onde negros assumem o lugar dos brancos indefinidamente, devido ao tempo histórico de escravidão negra e supremacia branca que relegou aos negros séculos de subordinação. Na verdade a medida serve apenas para equilibrar a balança de direitos, garantindo o acesso daqueles que tiveram seu acesso negado por tanto tempo, justamente por motivos de discriminação racial. Quem discordar de mim é só verificar dados levantados pelas Nações Unidas e não pelo governo brasileiro ou pelos movimentos defensores das cotas, afirmando que somente no Brasil, cerca de 70% da população mais pobre é comprovadamente da cor negra, enquanto que de cada quatro brasileiros pertencentes aos 10% mais ricos do pais, três são brancos. É só se verificar na presidência das grandes empresas nacionais quantos negros existem nos postos de comando, ou mesmo na propaganda dos bancos privados, quantos modelos da cor negra são utilizados em suas propagandas. A Caixa Econômica Federal chegou a dar a mancada histórica de exibir um vídeo comercial do banco (rapidamente tirado de circulação) em comemoração ao aniversário da instituição, apresentando um Machado de Assis branco, quando todo estudante do ensino médio, hoje, sabe que o célebre fundador da Academia Brasileira de Letras era mulato. Além de nota zero em história, os dirigentes da CEF também manifestaram sua ignorãncia em questões raciais. Cotas neles!!


(retirado de feraaa001.blogspot.com)
As cotas são uma necessidade devido a uma injustiça histórica cometida contra os afrodescendentes no Brasil, relegados a tarefas braçais ou funções secundárias na sociedade brasileira pós-escravatura, que, estigmatizados, passaram a se acostumar à situação de subalternos, longe do ideal liberal defendido atualmente pelos defensores da Nova Direita, baseado tão somente no sucesso do mérito individual. É muito fácil para um teórico ou político neoliberal dizer que um jovem morador da periferia, da cor negra, pode conseguir melhores oportunidades de vida, trabalho e estudo tão somente por seu esforço pessoal, diante de uma avalanche de preconceitos que vão desde sua contratação em empresas privadas, até o fato de sofrer o risco diuturno de ser abordado na rua pela polícia. É bem verdade que muitos colegas queridos, que moram no sul do país, podem me dizer que, por conta da intensa imigração europeia para a região (principalmente de alemães e poloneses) é comum ver na zona rural ou mesmo na periferia dos centros urbanos, muitas pessoas assumidamente pobres  vivendo com precárias condições de vida. Entretanto, apesar de saber que no campo encontramos muita gente simples e pobre de pele alva, vivendo com míseros trocados no bolso, também desafio a encontrar qualquer loiro de olhos azuis chafurdando comida dentro de lixões, como a legião gigantesca de excluídos, negros e pardos, que lotam a periferia urbana deste país.


As cotas raciais são uma realidade no Brasil e por mais que seus críticos elejam a meritocracia e torçam o nariz para elas, tentando convencer Deus e o mundo o quanto é injusto ou irracional deixar que um negro ocupe um lugar de um branco num processo seletivo, tão somente por sua cor de pele (como se isso fosse possível), a verdade é que o racismo na sociedade brasileira existe, e é mesquinhamente velado, a todo momento em que os poucos negros e pardos que ascendem socialmente "embranquecem" num passe de mágica, quando passam a ser tratados como doutores.

(retirado de umhistoriador.wordpress.com)
É muito comum nas regiões do Norte e Nordeste do país, cidadãos negros de certo status social preferirem ser chamados de "morenos", do que ser reconhecidos como pretos ou mulatos. O emprego do adjetivo "nêgo" ou "nêga", ainda é visto em seu tom pejorativo e é muito usado nessas regiões como forma de zombaria ou parte do anedotário nacional. Quem não se lembra das referências raciais de Monteiro Lobato, com sua personagem Tia Anastácia nas estórias do Sítio do Pica-pau Amarelo, ou da música do ex-comediante (agora deputado) Tiririca, na música que foi tirada das rádios mediante ação judicial, em que numa de suas singelas estrofes dizia "Essa nêga fede...."?! Ir de encontro às cotas raciais e ir contra um Brasil que se assume, reconhecidamente omisso em seu passado no tocante à inclusão racial, mas que agora procura retomar o bonde da história, agregando aqueles que merecem (e devem) ser incluídos, em respeito à tonalidade de sua pele, não porque sejam melhores ou superiores, mas sim porque são reconhecidos dessa forma como detentores de direitos, tão reconhecidos que asseguram, inclusive, vagas nas universidades por força de lei (e agora, por decisão dos tribunais). Sou plenamente favorável às cotas, como acadêmico, professor e cidadão afrodescendente, mas também por louvar a trajetória histórica de mitos como Zumbi dos Palmares, que na época dos quilombos queria tão e simplesmente que seu povo tivesse paz e uma terra para viver. Como diz a música do Caetano, se for para contestar intelectuais como Magnoli e todo um séquito leitor da revista Veja que é contrário às cotas, canto com um sorriso aberto o refrão: "Eu  sou neguinha..........!!!".
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