segunda-feira, 25 de junho de 2012

POLÍTICA: Não é só o whisky, mas no Paraguai, até a democracia é falsificada!

Um sorumbático ex-presidente, retirado à força do
poder, num processo de impeachment que não durou
nem 24 horas.
Fiquei atônito ao saber da deposição do presidente paraguaio, Fernando Lugo, nos últimos dias, não obstante acreditar que o ex-bispo católico e líder dos movimentos sociais perdeu em parte sua credibilidade, logo no início de seu governo, ao ser descoberto que ele tinha sido acusado de assédio sexual a fiéis de sua igreja, e de ter filhos clandestinamente com várias mulheres, revelando todo o seu lado de latin lover.

Mas o fato  de ter sido pego em estripulias sexuais logo no começo do mandato, não era motivo para apeá-lo do poder. Ainda mais no final do mandato, nos nove meses restantes de seu governo, abruptamente encerrado por um ato unilateral do Congresso, num ruidoso (e suspeito) processo de impeachment. Lugo teve menos de vinte e quatro horas para se defender, e mais rápido do que uma concessão de liminar na Justiça brasileira, o presidente paraguaio foi destituído do poder, assumindo em seu lugar um deputado da oposição, um sorridente e elitista Federico Franco, representante do Partido Liberal. Não adiantou sequer ao ex-presidente recorrer a Suprema Corte paraguaia, que numa falta de boa vontade incrível, sequer recebeu seu pedido de decretação da ilegalidade do ato golpista que o retirou atabalhoadamente da presidência. Certamente, um fato muito triste para a democracia latino-americana!

Sabe-se que o agora ex-presidente Lugo chegou ao poder dentro de um movimento maciço que tomou conta da América do Sul, com a eleição de candidatos progressistas, identificados com um discurso de esquerda e com o forte apoio de sindicatos e dos movimentos sociais (assim como se deu no Brasil, com Lula no começo deste século e com Evo Morales na Bolívia). Por quase o século passado inteiro, o Paraguai viveu sob o jugo oligárquico de dois grandes partidos direitistas nacionais: o Liberal (também chamado de Blanco)) e o Colorado. Na jogatina do poder, o espaço para a sociedade civil e os movimentos democráticos naquele país era quase nulo, quando não, inexistente, num país que se acostumou a ser uma republiqueta de bananas, dominado em toda sua história por ditaduras (a última, do general Alfredo Stroessner, exilado no Brasil há vinte anos atrás, e que governou o país com mão de ferro por décadas) ou por governos de direita totalmente dependentes das diretrizes econômicas norte-americanas. A ascensão de Lugo, e de seu partido de centro-esquerda ao poder, marcou uma nova era para a sociedade paraguaia, tão massacrada por sua economia dependente do capital externo, suas diferenças sociais abissais e níveis de pobreza e miséria altíssimos, e, sobretudo, tendo uma população no campo revoltada, cada vez mais agitada em conflitos agrários, sobretudo nas áreas de fronteira, tendo como adversários, inclusive, fazendereiros brasileiros.

Foi por conta dos conflitos agrários, movidos pelo movimento dos sem-terra local, que Lugo caiu. Ficou notório o amplo apoio que o ex-presidente paraguaio teve desses movimentos sociais, já que sua carreira eclesiátisca foi toda definida em torno da obediência às interpretações da Teologia da Libertação e do apoio clerical aos trabalhadores do campo. Lugo foi taxado pela imprensa golpista de inábil, e subserviente aos interesses dos camponeses por conta de sue programa radical (e, para muitos, inexequível) de reforma agrária, e sua derrota final foi anunciada quando, na última semana, em um dos vários conflitos ocorridos entre lavradores sem-terra e a polícia, num mandato conturbado por ocupações de terra em todo o país, o saldo negativo do último confronto foi o de 17 trabalhadores e 6 policiais mortos, num episódio que chocou a nação.

Foi aqui, no Senado paraguaio, que a democracia do
país vizinho revelou ser mais frágil do que se imaginava.
Instaurado um mais do que rapidíssimo processo de impeachment no Congresso Nacional paraguaio, sob a alegação de que o presidente havia descumprido artigos da Constituição (foi acusado de negligência no exercício do cargo), em menos de um dia Fernando Lugo foi deposto, sem ter direito ao menos a um amplo processo legal e ao contraditório, retirado do poder pela mesma elite latifundiária, presente no Legislativo, que o ex-presidente insistia em atacar nos seus discursos políticos. Agora, só resta a Lugar espernear, jogando para a plateia, atiçando seus apoiadores e convocando os instrumentos da mídia latino-americana, para afirmar que não reconhece o governo recém-instalado após a sua veloz queda, montando um imaginário governo paralelo, a fim de comover a opinião pública mundial.

Não demorou para que os movimentos sociais e progressistas
do Paraguai tomasses as ruas de Assunção, reclamando da
deposição do presidente democraticamente eleito, para
exercer seu mandato até o final.
Até o momento, das grandes nações, apenas os Estados Unidos (como convencionaria ser), reconheceu o novo governo paraguaio, tão rápido quanto os inimigos políticos de Lugo o retiraram do poder. Enquanto isso, a UNASUL, entidade representativa dos países que compõem o continente, representada, entre outros, pelos governos do Brasil, Argentina, Equador e Venezuela, não reconheceu o governo sob a presidência de Federico Franco, e ameaça estabelecer sançoes externas, retirando o nome do Paraguai da lista de membros integrantes do Mercosul, aprofundando-lhe os problemas econômicos, numa tentativa de punir a oposição política rebelde, que de forma golpista, derrubou um presidente legitimamente eleito pelo povo,  num processo democrático de eleição; pois um presidente eleito teria o direito de ser retirado pela força das urnas, não pelas baionetas ou pelas canetadas de parlamentares descontentes com o governo. 

Ao presidente deposto, só resta o apoio popular.
O processo político no Paraguai preocupa, porque outras nações, como a Bolívia, já sentem os reflexos da crise paraguaia pela imprensa local, que alerta para os riscos da persistente greve dos policiais no país andino, que já dura meses na terra do presidente Evo Morales, e que, caso se aprofunde, também pode lhe custar o mandato. O maior risco é de que surja um verdadeiro efeito dominó, iniciado agora não mais pelo exército, mas pela própria classe política oposicionista e pela imprensa elitista com ímpetos golpistas (qualquer semelhança com a editora Abril, aqui no Brasil, e a revista VEJA, não é mera coincidência), que se aproveitando oportunisticamente de uma crise institucional, opte pelo caminho do impeachment de seus governantes, tão somente para satisfazer o apetite das velhas, podres e antiquadas elites econômicas locais, que ao perderem anteriormente o poder nas urnas, tentam ao menos não perder sua capacidade autoritária de querer subjugar uma sociedade inteira aos seus interesses de classe.

No Brasil, com uma democracia, instituições e partidos políticos mais consolidados, ao menos, por enquanto, não se vê nem sequer quaisquer respingos de que drama semelhante possa acontecer por aqui, a exemplo do Paraguai. De qualquer forma, é bom ficar de olho nas tentativas inconsequentes de certos golpistas de plantão, representantes de uma certa classe política retrógrada, que já passou o bastão, a contragosto, a governos mais progressistas, por conta de suas derrotas eleitorais.  Senão, correremos o risco de, um belo dia, sermos surpreendidos, pegos de surpresa, com a ação intolerante de uma classe política inconsequente e reaçonária, que assim como no filme dos Transformers, emplaque as manchetes do noticiário político com o triste título: A Vingança dos Derrotados. Xô, espírito golpista! Xô!!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

POLÍTICA: Diga-me com quem andas.............!!

Para alguns, uma imagem vale mais do que mil palavras.
O noticiário político dessa semana bombou com a imagem de um constrangido Lula, mediado por um sorridente Haddad, a cumprimentar um animado Paulo Maluf, numa foto que, com certeza, vai ser exaustivamente explorada na campanha eleitoral deste ano. Sabe-se que com a adesão do PP de Maluf à candidatura a prefeito de Haddad, do PT, em São Paulo, vai aumentar sensivelmente o tempo do candidato petista na TV, numa candidatura que necessita, sobretudo, de tempo para se firmar, tornar-se conhecida e se mostrar ao eleitorado paulistano. Mas será que, realmente, valeu a pena??

O intenso pragmatismo de nossos políticos, que chega a corroer de ódio os eleitores mais éticos, não é característica somente do ex-presidente Lula. Na verdade, não é característica nem só do PT, mas de toda a esquerda brasileira. Quem leu os livros de história ou leu o livro Olga (ou a adaptação para o cinema) do jornalista Fernando Moraes, sabe que na década de trinta, o presidente e ditador Getúlio Vargas enviou a mulher do líder comunista Luis Carlos Prestes, uma judia alemã e comunista,  para um campo de concentração na Alemanha nazista, onde esta veio a morrer na câmara de gás. Isso não impediu que uma década após, em 1945, Prestes apoiasse Vargas, na tentativa de redemocratização do país, elegendo-se senador numa aliança com o partido de seu ex-rival e inimigo, assassino de sua mulher. Não é curioso??

Em seu ótimo livro Teoria Geral da Política,  o saudoso filósofo italiano Norberto Bobbio, faria a distinção entre ação moral e ação política, ao estudar Maquiavel. Na primeira, a ação humana teria um fim em si mesma, pois a moralidade já está intrinsicamente ligada ao ato; ou seja, a ação já é moral em si mesma, independente do resultado (ex: ajudar uma velhinha a atravessar a rua, pela simples condição de achar correto ajudar alguém em condições de necessidade). Já na ação política não existe moralidade alguma na ação praticada, e o que se objetiva, na verdade, é a obtenção de um resultado, pois a ação é movida a resultados, só existe por causa deles, seja com fins morais ou não (ex: ajudar essa mesma velhinha, do exemplo anterior, na esperança  de ser gratificado por ela com alguns trocados, por conta da boa ação). O universo da política, portanto, é povoado por resultados e não por ética, e segundo teóricos do utilitarismo, como John Stuart Mill (muito cultuado pelo também ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso), o que vale na política não é satisfazer a todos, obtendo a felicidade geral (um imperativo da ética), mas sim satisfazer a um número maior possível de pessoas, a fim de obter maiorias que se sintam minimamente realizadas (a realidade da política). Desta forma, não vejo com grandes sobressaltos o escandâlo que a mídia nativa vê com a adesão de Maluf ao candidato do PT, apoiado por Lula. Pode ser incoerente, mas não é nada imprevisível ou fora do comum.

O Partido dos Trabalhadores de Lula peca pela incoerência, e arrisca-se a pagar o preço de perder seus fiéis eleitores mais éticos, por conta de alianças que, para muitos, podem parecer totalmente espúrias (ou safadeza mesmo). Não tiro a razão de quem pensa desse jeito! Afinal, assim como eu, toda uma geração viu um PT nascer nos anos oitenta, embalado pelo discurso da ética, da defesa intransigente dos trabalhadores, "contra tudo o que está aí", como dizia o jargão dos panfletos da época. Há vinte anos atrás, nos meus tempos de movimento estudantil, o PT era um dos principais partidos que criticava o pragmatismo dos outros, o aliancismo, denunciado à exaustão nas portas de fábrica e sala de aula como sinônimo de capitulação ao inimigo, de rendição ou de degenaração política. Passou-se o tempo, e assim como muda a política, mudam os homens, e ao se tornar poder, o PT apressou-se a modificar o discurso, a estabelecer novos modelos de aliança e a financiar suas campanhas com Caixa 2, assim como faziam todos os outros partidos; tornando-se, afinal, apenas mais um, uma legenda política igual a qualquer outra. Apesar de seu enorme capital eleitoral, baseado em parte na liderança emblemática de uma figura quase mítica, do metalúrgico que chegou ao poder, o PT não escapou das armadilhas do poder, dentre elas, daquelas tão decantadas por Maquiavel, que se traduzem nas ações necessárias de todo governante: o poder de barganhar e negociar com o próprio inimigo. 

Enganam-se aqueles que acham que a criticável aliança com Maluf, a antítese de tudo que o PT defendeu em São Paulo (com duas eleições ganhas contra  o mesmo candidato, seja com Erundina, em1988, ou com Marta Suplicy, em 2000), seria resultado de um fenômeno que se observa somente agora: o pragmatismo exacerbado de um partido e de um líder partidário em torno de alianças políticas. O PT nasceu como uma colcha de retalhos, reunindo o mais extenso leque político de opções ideológicas, desde o trotskismo mais radical até o mais contemporadizador do moderadismo de linha católica ou social-democrata. A corrente majoritária a qual pertence Lula, por exemplo, é formada por ex-sindicalistas, que durante o período de lutas sindicais na ditadura, já trabalhavam com a linha de negociação ao invés de confronto, e de uma aliança possível com seus adversários dentro da fábrica, com o objetivo de obter êxito numa luta política maior. Era assim que pensavam os sindicalistas daquela época, e é assim que pensa até hoje Lula, em seu perfil agregador de conciliador nato, cuja liderança foi construída na base de muito carisma, mas também de muita negociação, adotando opções políticas, que por vezes, pareciam ser altamente incoerentes. É o preço que se paga pelo poder.

Quando redigiu a "Carta ao Povo Brasileiro", em 2002, Lula já anunciava a mudança de rumo na campanha presidencial que o elegeu, diferente das tentativas anteriores, mal sucedidas, de se chegar ao poder, optando pelo aliancismo com os liberais nacionalistas, numa verdadeira união do capital e trabalho, tendo o metalúrgico um vice empresário, na figura de José Alencar. Era o sonho de qualquer conciliador: o operário da fábrica e o dono da fábrica  unidos em prol do Brasil. Não é bonito? Ao menos para os marqueteiros Lula soube jogar para a plateia, e por meio de uma aliança, para muitos, difícil de engolir (como bem salientou a ex-senadora e ex-petista Heloísa Helena), Lula e o PT acabaram chegando ao poder, conquistando a presidência da república. Assim como, hoje, um Lula agora, ex-presidente,  tenta novamente chegar ao poder, ao fazer emplacar seu candidato, na maior metrópole da América Latina, e uma das maiores do mundo, tentando desbancar a hegemenonia de seus oposiotres na metrópole paulista, impondo mais uma amarga derrota à nêmesis do partido de Lula, o candidato tucano José  Serra.

Não sei se Lula sairá mais uma vez vitorioso, demonstrando seu acerto político nas suas apostas eleitorais, em candidatos escolhidos por ele a dedo, em detrimento da democracia partidária e de outros nomes que poderiam ser viabilizados pelo partido. Lula já demonstrou sucesso na indicação e formidável vitória de sua pupila, Dilma Roussef, até então inexperiente em campanhas eleitorais. Resta saber se ele obterá sucesso também com as fichas apostadas em seu novo escolhido, o ex-ministro da educação Fernando Haddad, também um neófito em campanhas, que confia somente na extraordinária competência de seu líder, enorme puxador de votos, para que se obtenha uma nova vitória eleitoral do petismo, com ou sem Maluf a dar apoio. Para uma raposa da política como Lula, ter a indesejável companhia de um político consagradamente corrupto como  Maluf, se não serve para angariar votos mais à esquerda, ao menos serve para neutralizar o eleitorado mais conservador, tradicionalmente avesso ao petismo. É pagar pra ver dentro do pragmatismo eleitoral brasileiro. Quanto à ética?? Ahh, a ética!!! Que vá pras cucuias!!!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CULTURA: Odeio filme dublado.

Dentre em breve, numa sala dessas, só se ouvirá
filme dublado (retirado de analycia.blogs.sapo.pt)
Recentemente li numa revista que cada vez mais filmes dublados estão sendo exibidos nos cinemas nacionais, e que, dentro em breve,  será possível até mesmo desaparecem os filmes legendados, perdendo-se para sempre as vozes originais de atores e atrizes, a ecoar por dentro da sala do cinema, em prol das tendências do mercado. Afinal, num país de emergentes, onde na última década a Classe C expandiu-se de tal forma que aumentou a frequência de espectadores nos cinemas, sobretudo nos finais de semana, percebe-se que os novos frequentadores das salas podem até ter grana pra comprar ingressos, mas não tem o hábito e nem mesmo disposição para assistir um filme legendado.

Recordo-me quando era criança,  morando em Belém do Pará, do dia em que meu pai levou-me ao cinema, pela primeira vez para assitir um filme legendado. Passava no extinto Cine Palácio a saga Star Wars de George Lucas, no segundo filme da série: O Império Contra Ataca. Eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, e meu pai ficou receoso de que eu não conseguisse ver o filme, por conta das legendas, mas logo ficou animado quando viu que eu conseguia ler com a devida rapidez todas as letrinhas que apareciam na tela, sem o menor desconforto. Abriu-se para mim, a partir dali, todo um horizonte cinematográfico; pois pude assistir grandes filmes, infanto-juvenis ou não, com seu audio original, como Et-O Extraterrestre, Superman: o Filme, Os Caça-Fantasmas, e toda uma coleção de ótimos e maravilhosos filmes que marcaram a minha juventude e a de todos que frequentavam as grandes salas de cinema, que existiram no fim dos anos setenta e na década de oitenta, até sucumbirem na década seguinte ao avanço dos cinemas de shopping: os minúsculos Multiplex.

Lembro que quando cheguei em Natal há alguns anos atrás, ainda assisti muitos filmes legendados nos extintos cinemas Rio Grande e Nordeste, que funcionavam no centro da cidade. Não havia incômodo algum em ler as legendas porque as telas dos cinemas eram enormes, as legendas faziam parte  do contexto do filme,e enquanto lia, conseguia saborear ao mesmo tempo a emoção das cenas, o ruído estrondoso nos momentos de ação, o mosaico de cores na tela, conforme a fotografia do filme vinha se apresentando, e, principalmente, a expressão dos artistas.

Daí é que vem a minha crítica aos filmes dublados, sem faltar com o respeito à digna profissão dos dubladores. Sabe-se que quem trabalha com dublagem profissional, geralmente também é ator, mas mesmo sendo o dublador alguém possuídor de altos dotes dramáticos, determinadas estórias e determinados artistas no cinema são difíceis de dublar. Já pensou o que é dublar o cantor e ator Tom Waits, com sua voz rouca inconfundível, ou dublar a rouquidão sensual de atrizes como Demi Moore?? Como uma dubladora conseguiria dublar com mesma maestria e talento a voz camaleônica da oscarizada Merryl Streep, que tem como parte de seu talento espantoso a capacidade de falar em seu idioma com vários sotaques diferentes? Alia-se a isso o problema de que, em determinados filmes, principalmente aqueles produzidos para o público infantil, chamam-se não dubladores de verdade, mas sim atores da televisão, principalmente estrelas da Rede Globo, para fazer a dublagem de personagens que, em alguns casos dá certo, em outros dá muito errado (vide o exemplo da bem sucedida dublagem do desenho Madagascar, em comparação com a péssima dublagem encontrada em filmes como Procurando Nemo, Shrek ou Toy Story). Entendo que os filmes infantis são em sua maioria dublados, até porque a maioria de seu público preferencial ainda não se alfabetizou plenamente, a ponto de ler legendas, por conta da idade. Agora, estabelecer a dublagem de filmes adultos, ou corromper a voz icônica de astros do cinema de voz inconfundível como Al Pacino, Robert de Niro ou George Clooney: Aí, peraí!! É muita sacanagem!!!

Nas dublagens mal feitas, ou até mesmo ruins pela falta de mais dubladores, vemos muitos filmes com personagens diferentes serem dublados pelos mesmos profissionais. Assim, podemos vez a voz que dubla o Arnold Schwarzenegger, por exemplo, na mesma boca de atores como Hugh  Jackman ou Russel Crowe, ou ver a voz que dubla o Tom Cruise ser a mesma do Eddy Murphy. Por décadas, na TV, acostumamo-nos a ouvir a simpática voz do dublador que dublava Bruce Willis, na antiga série A Gata e o Rato, ou nos filmes dele, dublados, que passavam na TV; mas achamos muito estranho a mesma voz ser usada, repetidas vezes, em atores diferentes. Na série de TV 24 horas, por exemplo, vimos o estranho caso de um mesmo personagem ter vozes diferentes em temporadas distintas. Foi o que aconteceu com a versão dublada da voz do ator Kiefer Sutherland, astro principal da série.

As dublagens já ocuparam todo o espaço na programação da TV por assinatura, algo que era antes apenas primazia da TV aberta. Sem acesso à tecla SAP, ou não tendo disponibilizado o som original, fãs de séries famosas, já extintas, como Friends ou Seinfield, ou mesmo aqueles que estão assistindo séries novas (como eu), tais como Walking Dead, são obrigados a esperar a temporada inteira sair em DVD, para poder curtir o som original do filme, com a voz verdadeira de seus personagens. A FOX foi um dos canais que, oportunisticamente, aproveitando-se das tendências do mercado, passou a ter todas as suas  séries e filmes dubladas, pois havia aumentado o número de consumidores de canais pagos que não gostavam de ver filmes legendados. Não vou chamar essas pessoas de analfabetas ou ignorantes, porque é uma questão de gosto e não de capacidade intelectual, mas critico a falta de opções, pois a TV por assinatura deveria ser mais democrática, dando a opção para seus espectadores, entre aqueles que gostam de ver filmes dublados, e os que optam pelo som original. O que acontece hoje é que a tendência que se opera na TV, está paulatinamente migrando para os cinemas, e isso será horrível!!

Na reportagem  a que me referi no começo deste texto, tem-se um comentário ao final, dizendo que, num futuro próximo, o consumo de filmes legendados no cinema será destinado apenas a um gueto específico, em salas especiais, como  se dá hoje nas sessões dos chamados "filmes de arte" ou cineclubistas, onde uma pequena e segmentada comunidade cinéfila e nerd, poderá assistir seus filmes preferidos com o som original, ouvindo, por exemplo, o mandarim arcaico, falado em filmes como O Tigre e o Dragão, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002, ou escutar a voz original do ator Gene Hackman, no ótimo Operação França, na década de 70, além de escutar o francês com sotaque parisiense de Gerard Depardiéu, em seus filmes  europeus. Vai virar coisa de museu, ouvir a divertida versão original da voz do personagem Jack Sparrow, interpretado pelo ator Johnny Deep, da série Piratas do Caribe, com sua peculiar imitação do rockeiro Keith Richards, uma vez que os filmes legendados vão acabar, e mesmo a célebre voz desses personagens, que marcou filmes como Rango, Kung-Fu Panda ou Rei Leão não vai mais ser exibida nos cinemas brazucas, apesar da voz desses atores e atrizes ter sido escolhida a dedo pelos diretores  de cinema, porque fazem parte do contexto de seus personagens.

Enfim, temo o predomínio de uma ignorância geral quanto aos filmes legendados, e ao devido valor cinematográfico que devemos dar valor à obras produzidas com sua sonoridade original. Parece-me muito fake, e aí posso ser taxado de conservador ou tradicionalista, ouvir um filme com o som dublado no cinema, se pago meu ingresso justamente para ver a brilhante interpretação de estrelas do cinema, que se tornaram célebres e foram premiadas, sobretudo por conta de suas interpretações, que levam muito em  conta recursos de voz. Posso estar errado, mas ao se manter o entendimento capitalista de, por venderem mais, filmes estrangeiros devem ser exibidos aqui todos dublados, porque no exterior (leia-se EUA) o povão só assiste filme assim, parece-me mais um atestado de mediocridade quanto à qualidade artística das obras estrangeiras que são disponibilizadas aqui, ou mesmo de incentivo à falta de leitura, porque nosso povo já não está mais acostumado a ler. Vale salientar que existe um movimento nacional nas redes sociais, a partir do Facebook, com milhares de assinaturas, protestando contra o fim dos filmes legendados.  Pobre nação inculta e incapaz de ver um filme com legendas!!

sábado, 9 de junho de 2012

HQS: As constantes reviravoltas do Universo DC, redefinindo as histórias em quadrinhos no século XXI

Histórias em quadrinhos são para crianças?? Quanta bobagem!! Há mais de vinte anos, os antigos gibis, muito comuns em bancas de jornais e revistas, disputados arduamente por crianças e adolescentes como eu fui há trinta anos atrás, há tempos foram substituídos pelas graphic novels (ou "romances gráficos"). São edições encadernadas, volumosas, com acabamento mais refinado e páginas de melhor qualidade (e por isso, mais caras). Geralmente, nessas revistas as histórias invariavelmente gravitam por temas adultos, complexos, até intimistas, mesmo que protagonizadas por mascarados uniformizados e dotados de superpoderes, seguidos por uma arte bem elaborada e complexa, que já destoou décadas dos antigos desenhos feitos em econômicas gravuras situadas em pequenos quadros desenhados em cada página, da época de desenhistas como Jack Kirby, Sal Buscema, John Romita e Jim Steranko, cujo trabalho e formatação de suas estórias deram o nome desse tipo de literatura ("quadrinhos").

Na verdade, acredito que as histórias em quadrinhos envelheceram junto com o seu público; amadureceram há ponto de hoje, cada vez mais, serem vistos trintões e quarentões lotando não mais a banca do jornaleiro, como faziam outrora seus alteregos mais jovens, mas sim povoando as livrarias em busca de novas e cada vez mais elaboradas coleções. Faço parte, com orgulho, dessa última categoria de leitores, tão apaixonadamente nerds, que entre um ou outro seriado de Big Bang Theory, divertem-se e muito, deixando seus livros de mestrado e doutorado de lado, para se deleitar com as histórias de seus heróis, sejam eles da editora "A" ou "B".

Por falar em editoras, estou acompanhando avidamente os últimos acontecimentos desenvolvidos na clássica editora norte-americana, Detective Comics, mais conhecida como DC, a grande concorrente mundial da Marvel, comprada há alguns anos pelo grupo Time-Warner, enquanto que a Marvel acabou pertencendo a Disney, Esta última montou um estúdio cinematográfico próprio e agora colhe as glórias de levar seus super-heróis para a telona do cinema, como bem demonstra a bilheteria de bilhões de dólares do filme Os Vingadores e do êxito de filmes anteriores como Thor e Homem de Ferro. Enquanto isso, a DC, procura reformular sua linha de personagens e redimensionar seu próprio universo quebrando tabus (como revelar que um dos heróis de seu catálogo clássico é gay), matando e ressuscitando mitos antigos da editora (como foi o caso do Super-Homem, Flash e Lanterna Verde), tentando sair do atoleiro de suas dívidas e da baixa de vendas de seus gibis nas últimas décadas, acompanhando a crise econômica. Gosto dos títulos da DC porque seus diretores não tem medo de arriscar, mesmo afetando a mística de personagens tão conhecidos do público há tantos anos (como o Batman), mas procurando sair da mesmice, dando liberdade criativa aos seus roteiristas e escritores, trazendo até a DC um time de gênios da literatura como Brian Azarello, uma espécie de "Martin Scorcese dos quadrinhos", talentos  Grant Morrison ou Geoff Johns.

Para quem curte quadrinhos e fica ligado no tema, não deixa de ser interessante as reviravoltas que se dão no Universo DC, com suas múltiplas "terras paralelas" e a infinidade de destinos diferentes que podem ter seus personagens, que deixam até tonto o mais tradicional dos leitores. Entretanto, as alterações das histórias da DC não vem de hoje; e assim como a Marvel, passaram por bons momentos de transformações que vale a pena recordar.

O grande salto nas histórias de ambas as editoras se deu nos anos oitenta, no século passado, quando o amadurecimento do público que já me referi fez-se sentir nas novas abordagens de cada um dos personagens das sagas da DC. Sendo fã de quadrinhos quem é que não se lembra da Crise nas Infinitas Terras, em que um envelhecido Super-homem de uma Terra paralela, lutava junto com o Super-homem mais moderno, numa aventura que redefiniu o universo de heróis da editora? Existiu também o pragmatismo dos editores em tentar dar linearidade e coerência a um universo bagunçado de personagens que iam e voltavam nas diferentes décadas, desde a década de trinta (visto que a DC é mais antiga que a Marvel) e que se reencontravam novamente em diversos episódios da Liga (e antiga Sociedade) da Justiça. Era preciso explicar ao grande público, e, principalmente, às novas gerações, porque um personagem como Batman ainda merecia ser lido em plena era do surgimento da cultura digital, quando o herói foi criado ainda na época da Grande Depressão Americana. E mostrar que um Super-Homem não seria tão vetusto a ponto de não conquistar novos e ardorosos fãs. Para isso foi necessário reinventar, recontando a história desses personagens. A partir daí, em cada nova década que surgiu a partir de então, a DC não parou mais.

É bem verdade que a Marvel também fez suas alterações, e expandiu seu universo, seja através da saga Guerras Secretas, ou do surgimento do selo Ultimate, onde os personagens eram apresentados com suas histórias recontadas, ou com novos alteregos para as novas gerações. Porém, atrevo-me a dizer que nenhuma delas conseguiu ter o impacto e a relevância editorial que as histórias que sua rival começou a publicar. Talvez uma das grandes sacadas da Marvel foi ter publicado na década passada a série Dinastia M, onde a personagem Wanda, a Feiticeira Escarlate, irmã de Mercúrio e filha de Magneto, enlouquece com a morte de seu marido, o Visão, e o aborto de seus filhos gêmeos, criando em seu delírio uma realidade alternativa, onde os mutantes governam a humanidade, vários super-heróis tiveram sua história recontada, e Magneto é o seu principal soberano. Tudo bem, a série é muito legal, porém, ainda parece uma série dos X-Men e não uma saga que envolva todos os personagens da editora, redifinindo seu status, e mesmo seu futuro. Voltando a DC, lembro-me, recentemente, de Crise de Identidade, talvez uma das mais sombrias e adultas séries da editora a ilustrar o histórico de edições da Liga da Justiça, mostrando a dor de heróis clássicos como o Homem-Borracha, ao descobrir que sua esposa foi brutalmente assassinada por um serial killer, e de como a morte de alguns personagens me impactou. Até hoje, estórias como a morte de Jason Tood, o segundo Robin, conseguem me deixar emocionado, na saga escrita por Jim Starlin e desenhada por Jim Aparo, em 1989, onde vemos um Batman perplexo (e posteriormente paraplégico), diante de seu inimigo Coringa, autor do terrível assassinato de seu jovem parceiro. Seguiram-se obras-primas como A Piada Mortal, também sobre o homem-morcego, escrita por um genial e inspirado Alan Moore, que recontou a história do Coringa, bem como A Morte do Super-Homem, nas mãos do vilão Apocalipse.Divulgada exaustivamente pela mídia, na época de seu lançamento, a revista serviu para reaquecer as vendas dos gibis da DC, bem como na série de retorno, quando o super-herói ressuscitou.

Um comentário especial ao selo verdadeiramente adulto da DC: o Vertigo. Através dessa divisão da editora, responsável por obras recomendáveis somente para maiores de 18 anos, vemos que a DC ganhou mais destaque, conquistando o público adulto de vez, uma vez que suas estórias envolvendo terror, contos policiais, mistério, ficção científica, violência e sexo, com narrativas bem cinematográficas, mereceram destaque (e prêmios) pelo mundo, mantendo o caixa da editora em alta, apesar dos percalços com seus personagens clássicos entre o público infanto-juvenil. Destaque para a série Hellblazer, com o icônico personagem Johnny Constantine (interpretado no cinema por Keanu Reeves, numa péssima versão em filme), ou as séries do Monstro do Pântano, Casa dos Mistérios, 100 balas (do escritor Brian Azarello, como disse e não canso de repetir: um Martin Scorcese ou um Tarantino dos quadrinhos, junto com o competente desenhista argentino Eduardo Risso), a premiada série Fábulas e a recente série de contos de terror, Vampiro Americano , com o charmoso vilão Skeener Sweet.

Voltando a DC Comics, as reviravoltas da última temporada de histórias começou com a interessante saga A Noite mais Densa, que percorreu todo o universo de revistas da DC, tendo como protagonista Hal Jordan, o Lanterna Verde mais famoso. Numa série onde parte dos personagens morre violentamente para retornar como zumbis (a DC acabou por imitar a Marvel Max, selo adulto da editora concorrente, que tinha os personagens monstros da série Zumbis Marvel), a mudança de personagens, com a morte de personagens mais jovens e o retorno de alguns antigos, considerados mortos, é uma das grandes chamadas do épico escritor por Geoff Johns (responsável pelo retorno do personagem Hal Jordan, outro ressuscitado no esquema de mortes e ressurreições de heróis, bem típico das séries da DC Comics), quando então, após a derrota do vilão Nekron (responsável pelo surgimento dos zumbis), surge a nova série O Dia mais Claro, tendo agora, como personagem principal, o Desafiador, um antigo personagem, oriundo dos anos setenta, meio esquecido pela editora, e que ganhou uma nova e interessante cara, a partir das ideias do mesmo roteiro. Com o final dessa série, descobrimos que, na verdade, as reviravoltas do universo da DC Comics são, na verdade, uma trilogia, com a nova série que estreou no Brasil no começo deste ano, Ponto de Ignição, tendo como personagem o Flash, com seu alterego mais famoso, Barry Allen, colocado agora numa realidade paralela criada pelo vilão Flash Reverso, onde todos os personagens da DC tem suas histórias reescritas, como que refundando o universo de todos, em mais uma iniciativa que parece ser, em parte, uma cópia das ideias trazidas pela Marvel (qualquer semelhança com Dinastia M, pode não ser mera coincidência).

Por fim, entre idas e vindas, alguns surtos de genialidade critativa e outros de mero plágio, para concorrer com a editora rival, creio que o grande objetivo dos editores e roteiristas das histórias em quadrinhos foi o de atualizar personagens já conhecidos do público por décadas (ou quase um século, como é o caso do Super-Homem ou do Batman). Entretanto, creio que parte do magnetismo desses personagens é não perder as características que os fizeram tão conhecidos do público e amados por seus leitores, porque, afinal, kriptonita é kriptonita e Bruce Wayne tornou-se o que se tornou por ter ficado órfão. Acho que as novas gerações tem todo o direito de conhecer versões paralelas e mais modernas de alguns heróis, mas também tem o direito de serem tão seduzidos por esses personagens em suas histórias originais, como foram os leitores mais antigos, das gerações antecessoras. Afinal, o que faz os quadrinhos eternos não é sua aura de novidade, mas sim o predomínio de uma leitura tradicional que, com tablets ou com papel, continua sendo a principal referência de maravilhosas histórias, contadas não apenas com texto, mas também com imagens. Por isso amo tanto as HQs. Viva as HQs!! Que continuem existindo!
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