domingo, 24 de fevereiro de 2013

CINEMA: Jessica Chastain-A ruiva definitiva

A disputa das premiações do Oscar este ano promete ser uma das mais emocionantes e acirradas da história. Tudo porque, tirando o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Anne Hattaway (por sua atuação perfeita no musical "Os Miseráveis"), nas demais categorias não existem favoritos e tudo pode acontecer no Dolby Theater, em Los Angeles,  hoje, no dia 24 de fevereiro.

Agora, imagine uma bela e talentosa atriz, jovem mas madura, aos seus 35 anos, que já contracenou com os maiores astros do cinema e foi dirigida por cineastas que muitos atores disputam aos tapas, e, além disso, ruiva. O nome dela é Jessica Chastain (o sobrenome é artístico, pois o de batismo é Howard). Jessica concorre ao Oscar de melhor atriz juntamente com adversárias igualmente talentosas, como Jennifer Lawrence  ("O Lado Bom da Vida"),  Naomi Watts ("O Impossível"), Quvenzhané Wallis ("Indomável sonhadora") e Emanuelle Riva ("O Amor"). No confronto direto, eu diria que a adversária que pode tirar o prêmio de Chastain é Jennifer Lawrence, cuja atuação em "O Lado Bom da Vida" eu já comentei no post anterior. Por outro lado, Wallis e Riva competem dentro de uma curiosidade histórica: são, respectivamente, a mais jovem e a mais velha atriz a concorrer ao prêmio máximo da Academia, na 85º Edição do Oscar.

Eu tive acesso à atuação e talento de Jessica Chastain pela primeira vez ao vê-la no filme "A Árvore da Vida", de Terence Malick. Contracenando com Brad Pitt, como a esposa dona de casa e mãe de família tipicamente norte-americana, nos anos sessenta, Jessica me comoveu com uma atuação primorosa e intimista, que nos fez sentir todo o afago e amor materno. Na época ela já tinha recebido excelentes comentários, tornando-se uma espécie de "queridinha da crítica" por conta de suas escolhas e interpretações. Na verdade, com os decorrer dos filmes que atuou, ela demonstrou ser uma atriz dedicada e minimalista na escolha de seus papéis, dando um toque especial a todos os seus personagens, como a esposa do general Coriolano, ao lado do ator Ralph Phiennes, incorporando Shakespeare no cinema; ou representando o elegante e sensual interesse amoroso do ator Tom Hardy, no filme de gangsters "Os Infratores". Vale destaque para sua atuação também em "Histórias Cruzadas"( que deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer), quando interpretou uma peseudofútil mulher de milionário, odiada por outras mulheres, na Mississipi racista e provinciana do século passado.

Agora, o grande momento de Jessica Chastain, sem dúvida, foi com sua indicação ao Oscar por interpretar uma agente da CIA, no novo filme de Kathryn Bigelow (a mesma que dirigiu e ganhou o Oscar de melhor direção por "Guerra ao Terror"), o thriller político "A Hora mais Escura". No filme, Jessica é Maya, uma agente novata que, ao ingressar no serviço secreto após o terrível atentado terrorista das Torres Gêmeas, no 11 de setembro (que ceifou milhares de vidas, como todos sabem), dedica dez anos de sua vida a pegar o terrorista Osama Bin Laden. O filme parece uma continuação de "Guerra ao Terror", com seu tom de quase documentário, e com uma protagonista mulher no lugar de um homem, mas se a diretora Bigelow conseguiu transformar o ator Jeremy Renner em um astro, no filme anterior, aqui ela trabalhou com uma atriz completa. O filme é totalmente feito para ser conduzido por uma protagonista feminina, e Jessica Chastain consegue dar conta da responsabilidade, nas duas horas de uma película em que o espectador acompanha as buscas, fracassos, tentativas, erros e estratégias montadas pela personagem, até conseguir seu objetivo maior que é matar o terrorista saudita que assombrou o inconsciente coletivo norte-americano, durante toda a primeira década do nosso século.

O filme era para ter um nome diferente, pois se tratava apenas da caçada a Osama Bin Laden, sem ter um final definitivo, até que Bigelow foi surpreendida pela notícia da morte de Bin Laden, alvejado por forças especiais norte-americanas em Abbotabad, no Paquistão, em uma operação secreta autorizada pelo governo Obama, num episódio já conhecido historicamente por todos. A diretora recria a operação, em sua riqueza de detalhes, contando como uma mulher esteve na supervisão disso o tempo inteiro, mostrando em cenas dramáticas e de tirar o fôlego, o suspense dos soldados ao entrar de helicóptero no meio da noite, na fortaleza onde estaria escondido um dos homens mais perigosos do mundo. Fiel à narrativa oficial, o grande mérito do filme é mostrar as últimas horas de Bin Laden, do ponto de vista de quem o matou, além de mostrar a gama de sentimentos que permeava o coração de todos os funcionários da CIA, depois de anos de fracassos na tentativa de localizar e matar o terrorista. É justamente nesse processo de acerto de contas com o passado recente da história americana, que a personagem de Jessica Chastain brilha no filme.

Sua atuação mereceu destaque e indicação ao Oscar, por mostrar a metamorfose de Maya no momento em que ela ingressa de cabeça na missão de destruir Bin Laden. De uma novata relutante, que se assusta com o grau de violência, no emprego da tortura de supostos membros da Al Qaeda, numa prisão em Guantánamo e numa base no Iraque, surge uma agente experimentada, firme mas sem cair no clichê, que dá uma lição de moral num figurão da CIA, num dos grandes momentos do filme, quando ela começa a encontrar obstáculos colocados pelo próprio governo, para encontrar o autor dos atentados das Torres Gêmeas. Destaque especial para uma reunião com o Secretário de Defesa norte-americano, quando é apresentado o plano para localizar Bin Laden e o secretário pergunta quem fez o plano. "Eu fui o filho da puta que fiz esse plano", responde a inquieta agente, prenunciando o climax do filme, que está para acontecer. O grande mérito da atuação de Chastain é o de mostrar o desgaste e a ruptura emocional de alguém que acaba transformando uma missão oficial numa cruzada, em que desejos de vingança e sentimentos de cumprimento do dever misturam-se, a ponto de quebrar a sanidade de quem não esteja preparado. Não é o que acontece com Maya, que, apesar de toda a pressão e das cobranças em não conseguir localizar o terrorista durante anos, não se deixa desabar, ao menos até completar sua missão final, e dar satisfação muito mais a si própria do que a seus superiores, de que o êxito é possível numa tarefa tão complicada e perigosa.


Na noite de hoje as apostas estão lançadas e Jessica Chastain pode sair da cerimônia do Oscar premiada ou não. De qualquer forma, somente o fato de ter recebido uma indicação já lhe dá cacife para ser considerada uma grandes atrizes em atividade, na indústria do cinema atual. O fato de ser ruiva é apenas um plus que realça de charme uma artista que consegue se tornar visível não apenas pela beleza, mas pela imponência na atuação. Que venham novos papéis, novas heróinas e novos personagens, para uma tão talentosa e equilibrada Jessica Chastain. Nós, os fanáticos por cinema, agradecemos muito!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

CINEMA: Em "O Lado Bom da Vida" o bom é saber que nem sempre as coisas acontecem como pensamos.

A atriz Jennifer Lawrence é a mais nova grande sensação das jovens atrizes de cinema norte-americanas, como de todas que aparecem todos os anos, numa indústria que nunca cansa de se refazer. Com apenas 22 anos, ela foi indicada ao Oscar deste ano, de melhor atriz, pelo filme "O Lado Bom da Vida" (Silver Linings Playbook). Bem diferente da personagem que a fez concorrer anteriormente no mesmo prêmio há três anos atrás, no drama "Inverno da Alma", aqui, Lawrence participa de uma comédia dramática, onde as agruras dos personagens servem como tema para uma bem humorada estória contando de coisas ruins.

Mas como é que isso? É possível falar bem humoradamente de coisas ruins que nos acontecem, principalmente se elas se dão no aspecto afetivo? O mote principal do filme dirigido por David Russel ( de "O Vencedor") é exatamente esse: o de colocar o espectador na condição daquele segundo observador que já se passou pelo primeiro, vivendo um certo drama já vivido por ele mesmo, em situações de desemparo ou abandono. Afinal de contas, quem nunca lamentou a perda de um estilo de vida ou de um relacionamento e teve que recomeçar do zero, reconstruindo tudo de novo?

Esse é o fio condutor principal do roteiro de "O Lado Bom da Vida". Não se trata de um filme absolutamente original, pelo contrário, é até previsível (meio "feijão com arroz" para alguns); mas o que o marca em sua previsibilidade é a riqueza de detalhes que podem ser explorados no roteiro e que tornam o filme tão charmoso e interessante, como num longa-metragem de sessão da tarde que nos deixa com sorrisos no rosto. O filme trata da história de Pat Solitano Jr., um professor de história desempregado, e com transtorno bipolar, que ao flagrar a esposa em casa, transando com outro homem, entra em surto, causando-lhe consequências nefastas. Meses após o incidente, ao sair de um manicônimo judiciário, Pat é levado aos cuidados da família, especificamente de seu pai, Pat Senior (interpretado por Robert De Niro) e sua mãe Dolores ( a veterana Jacky Weaver). Recusando-se a tomar sua medicação, Pat vive em delírio, obcecado por reconquistar a mulher, mas impedido disso por conta de uma ordem judicial proibindo-o de vê-la. Sob ameaças contantes de retornar ao isolamento psiquiátrico, ele vive então situações para lá de constrangedoras, associadas com seu estado mental e nas discussões com seu psicoterapeuta indiano, que revelam, na verdade, uma imaturidade emocional angelical ou quase pueril, pois Pat ainda é um dos daqueles adultos que vive um romantismo adolescente de que tudo levará a um final feliz.

É em suas peripércias na busca do reencontro amoroso que Pat encontra Tiffany, a personagem de Jennifer Lawrence, cunhada de um de de seus amigos que é tão ou mais perturbada emocionamente do que Pat. Tiffany é uma jovem viúva, sem filhos, que ao perder o marido muito cedo, também perde o controle de sua vida, e levada pela carência perde o emprego, após ter se relacionado sexualmente com todos os funcionários da firma onde trabalhava. Pat e Tiffany se completam, mas ainda não sabem disso, e quando Tiffany conta a Pat detalhes de como se relacionava com os colegas da firma numa lanchonete, vemos uma das cenas mais hilárias (e também bastante fortes emocionalmente) do filme. Pat e Tiffany firmam pacto de amizade, onde decidem se ajudar mutuamente, dentro das paranoias de cada um, e a partir daí se desdobra toda uma bela história.

Assim como "Melhor é Impossível" que rendeu pela terceira vez o Oscar de melhor ator para Jack Nicholson e revelou a atriz Helen Hunt, também em "O Lado Bom da Vida", o casal de protagonistas apresenta uma boa química, suficiente para sólidas indicações ao prêmio máximo da Academia, caso a premiação deste ano resolva homenagear, novamente, uma boa comédia. Em ambos os filmes fala-se de doença mental (no filme de Nicholson, o transtorno era obssessivo-compulsivo e no filme atual, um dos protagonistas é bipolar e a outra, ninfomaníaca), e neles temos personagens emocionalmente perturbados, mas que vão melhorando gradativamente à medida que conhecem outras pessoas e a si próprios, obtendo sua redenção. Não são apenas Pat e Tiffany quem precisa de ajuda, pois o pai de Pat é supersticioso, viciado em apostas e vê partidas de futebol americano todos dias, sendo proibido de frequentar os estádios por provocar brigas. Um dos melhores amigos de Pat tem um casamento disfuncional, que, segundo ele, nas horas sufocantes o faz se trancar na garagem com seu I-pod, ouvindo Metallica e Megadeth, enquanto que um dos amigos que Pat fez no hospício vive fugindo do internamento, indo para a casa de seus pais. No final das contas, com as loucuras de cada um, todos querem, apenas, ser felizes.

Ora, para os que acusam o filme de ser um tanto óbvio quanto à busca de um final feliz, será que não é isso que todos procuramos? A cena em que Pat acorda seus pais de madrugada, após ler "Adeus às Armas" de Ernest Hemingway, jogando o livro pela janela, ao reclamar de seu final é uma das grandes tiradas do filme. Já passei por momentos complicados da minha vida, assim como vi amigos queridos passarem por situações semelhantes ou até piores, sentindo a experiência da perda, simplesmente para poder recuperar a autoestima e conquistar a maturidade, obtendo experiências novas. Foi assim que conheci minha esposa, por exemplo, e foi assim que muitos amigos meus obtiveram a felicidade, no momento em que souberam dar a volta por cima, e, como diz no título original do filme, conseguir "ler nas entrelinhas", as silver linings que dão toda a diferença na vida de Pat e Tiffany, no decorrer do desenvolvimento da estória.

Indicado a 8 (oito) Oscars, inclusive de melhor filme, diretor, ator para Bradley Cooper, atriz para Jennifer Lawrence, além de concorrer também De Niro como ator coadjuvante e Jacky Weaver como atriz na mesma categoria, o filme também é forte favorito na categoria de roteiro adaptado, podendo sair da noite de premiação como um dos grandes vencedores (ou compartilhar prêmios com outros filmes tão bons quanto).  Como pode se ver, não é à toa que o filme concorre em todas as categorias principais de interpretação (tanto para ator e atriz principal quanto para coadjuvantes), pois, se o roteiro trata de um simples história de amor, é a atuação dos atores que segura o filme, dando-lhe toda uma cor especial, podendo ser "O Lado Bom da Vida" o típico "filme de ator", em que seus personagens atuam prazeroamente, dando brilho em suas interpretações, provocando cenas e diálogos memoráveis, que deixam seu lugar na história do cinema. Além de linda e adequada ao papel, Jennifer Lawrence dá todo o contorno da heroina romântica, quando aparece na tela, e sua desenvoltura diante de um consagrado Robert De Niro, num divertido duelo de interpretação em que o velho ator, ao final, entrega os pontos, é de cair o queixo. Ela pode até não ganhar o Oscar, por concorrer com outras atrizes mais maduras e igualmente talentosas (como Jessica Chastain por "A Hora Mais Escura" ou a veterana atriz francesa, Emanuelle Riva, por "O Amor"), mas, com certeza, já ganhou nossos corações ao interpretar  a carente, mas adorável Tiffany. Se ainda não viu o filme, EXCELSIOR para você, meu (minha) caro(a)!

Então, se você ainda não o assistiu, vale a pena ver que "O Lado Bom..."merece ser assistido, ao menos para se ter a certeza de que o lado ruim a gente pode conhecer, mas o lado bom, muitas vezes a gente não percebe que se encontra bem debaixo de nossos narizes, além das entrelinhas. OBS: Dica para a música-tema do filme, Always  Alright, da banda norte-americana de folk e blues, Alabama Shakes, que se apresentará no Brasil no festival Lolapalooza, em março de 2013, que representa bem o espírito do filme.

POLÍTICA: Cuba, Yoani Sanchez e a patuleia esquerdista e direitista.Quem tem a razão?

(foto:jornalistasdaweb.com.br)
Causou alvoroço a chegada da blogueira e jornalista cubana Yoani Sanchez ao Brasil, nos últimos três dias, desde sua chegada no aeroporto de Recife até sua passagem pelo Congresso Nacional. Yoani tornou-se famosa a partir de seu blog, Generacion Y, em que, sob a forma de breves crônicas, relata a realidade de seu país e do povo cubano em tempos de crise econômica, desabastecimento e ausência de liberdade de expressão. O blog de Yoani já tem seis anos, e nessa época, já tive a oportunidade aqui de comentar em meu blog o que eu achava de seus escritos, estabelecendo, a meu ver, uma crítica na medida certa acerca das conquistas da Revolução Cubana, através de seu líder maior, Fidel Castro, há cinquenta anos atrás, até a realidade atual da ilha, governada por seu irmão, Raul. Não obstante as paixões que dividem esquerda e direita em campos opostos, acho que a realidade de Cuba é muito mais complexa do que os jargões e as palavras de ordem de enfurecidos militantes de partidos de esquerda ou de direita, que, sob protesto, recepcionaram debaixo de vaias a blogueira Yoani, assim que ela chegou no aeroporto.

A revista Veja, nesta semana, publicou uma reportagem tratando de um suposto dossiê,  montado por representantes da embaixada cubana no Brasil e supostamente entregue a autoridades diplomáticas brasileiras, com informações desabonadoras sobre a blogueira cubana que visita o Brasil. Acusada de mercenária ou contrarrevolucionária pelo governo cubano, Yoani foi surpreendida por cerca de vinte militantes no aeroporto de Recife, que, gritando palavras de ordem e se comportando de maneira agressiva, jogaram contra ela notas de dólares falsos. O gesto simbolizava o espírito do suposto dossiê, onde insinuava-se que a blogueira recebesse dinheiro dos Estados Unidos, de dissidentes cubanos radicados em Miami e vinculados a CIA, para desestabilizar o governo cubano pela internet, através de seu blog.

O que ocorre é que Yoani Sanchez é pouco conhecida em seu país natal. Ela é muito mais uma celebridade fora  de Cuba, ganhando fama internacional agora, devido à divulgação de um documentário, feito por um cineasta brasileiro, acerca da realidade da blogueira em seu país, relatando episódios de perseguição política e mesmo ataques diretos dos defensores do regime dos irmãos Castro. Assim, o filme Conexão Cuba-Honduras tem tudo para ser um enorme sucesso, mais por conta do alarde e das polêmicas travadas com a vinda de cubana ao Brasil, e sua viagem tantas vezes proibida, num ciclo que promete visitar outras países, divulgando o trabalho da blogueira, devido a recente decisão do governo cubano de liberar viagens ao exterior de residentes no país, flexibilizando as regras para sua locomoção, num processo de abertura política iniciado com o presidente, Raul Castro.

Alvoroço na chegada ao Brasil.(noticias.terra.com.br)
Yoani é uma mulher de baixa estatura, magra, da pele pálida e com estilo meio hiponga, com seu cabelo semelhante ao da cantora Maria Betânia. É uma mulher  aparentemente de hábitos simples, que gosta de ir à feira comprar frutas e tomar cerveja, e sem filiação político-partidária definida. Aos 37 anos, ela  é filóloga formada pela Universidade de Havana, e já trabalhou como webmaster na Suiça, no curto período em que passou fora de Cuba, entre os anos de 2000 a 2004. Retornando ao seu país, e com os conhecimentos de internet adquiridos no tempo em que permaneceu fora, Yoani começou a trabalhar no seu blog, que, ao narrar o cotidiano de pessoas comuns da ilha caribenha, e suas dificuldades num país com a economia em colapso, num regime politicamente fechado e mais caótico ainda, com reduzida liberdade de expressão, ela acabou chamando a atenção de boa parte do mundo, sendo convidada para eventos e colecionando prêmios. Nesse intervalo de tempo, a blogueira também pagou um alto custo por emitir suas opiniões, sofrendo perseguição política, sendo presa por diversas vezes e tendo seu direito de postar em seu blog bastante diminuído. Ela alegou por diversas vezes que não tinha sequer uma conexão em seu notebook para acessar a internet de sua casa, e por isso era obrigada a  trabalhar em seu blog de uma lan house, em determinados horários do dia, experimentando uma conexão lentíssima e altamente vigiada. Para muitos, Yoani acabou se tornando uma das heroínas da democracia digital.

Para mim, o grande problema da visita de Yoani Sanchez ao Brasil foi o nível de polarização ideológica gerado com sua chegada, insuflada pela imprensa nacional, pelos erros do governo na sua tibieza em tratar diplomaticamente da chegada da blogueira aqui, e pela claque dos partidos de oposição, empobrecendo o debate sobre o futuro de Cuba, e consequentemente da América Latina, tal como a discussão sobre o fim do embargo econômico mantido pelos EUA, que contribuiu para prejudicar ainda mais a fragilizada (ou arruinada) economia cubana. Yoani é acusada por seus detratores, dentre seus compatriotas, de receber oficiais da representação diplomática norte-americana em Havana e de manter contato contínuo com grupos radicais anticastristas, sediados em Miami. 

Com a chegada da blogueira:protestos (uol.noticias.com.br)
Não estamos mais num clima de Guerra Fria e as manifestações no Congresso Nacional pró e contra Yoani Sanchez apenas me remetem a um tempo passado, há mais de trinta anos, quando ainda estávamos divididos em um bloco imperialista, liderado pelos EUA e outro socialista, capitaneado pela extinta União Soviética. A repercussão da passagem da blogueira por aqui foi um marco para a oposição. Yoani foi automaticamente eleita a "musa cubana da oposição", passeando de mãos dadas pelos corredores do Congresso com o virtual candidato do PSDB à Presidência da República no ano que vem, o senador mineiro Aécio Neves. Na comitiva de parlamentares que acompanhou Yoani, na tumultuada sessão do Congresso de ontem, também estavam políticos de extrema-direita, como o reaçonário deputado Jair Bolsonaro, defendor da antiga ditadura militar no Brasil, que, oportunisticamente, paparicava Yoani como pretexto para desqualificar o governo brasileiro, defenestrar o governo cubano  e insultar a esquerda, que ele tanto odeia. O deputado ruralista e defensor dos latifundiários, Ronaldo Caiado, também estava presente no encontro. Dos parlamentares de esquerda, apenas o solitário e educado senador, Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, acompanhou a blogueira cubana, desculpando-se, talvez, pelos excessos da turba que a acolhia, tanto de um lado quanto de outro, do espectro político nacional.

Posando ao lado de Aécio no Congresso (uol.noticias.com.br)
Creio que a discussão sobre o futuro de Cuba ficou totalmente empobrecida ou até inexistente devido à espetacularização medonha da chegada da blogueira Yoani Sanchez ao Brasil. Ao invés de se promover um franco e democrático debate sobre a necessidade de apoio mundial à ilha caribenha em seu momento de crise, como também de defesa de democracia e liberdade de expressão, o que se viu foi um mero bate e boca de tendências políticas opostas, antecipando a campanha eleitoral do ano que vem. A vinda de Yoani serviu muito mais como um palanque para o PSDB e seus aliados criticarem a orientação de esquerda do atual governo petista da presidente Dilma Roussef, simpático ao governo cubano. A cobertura midiática da confusão que foi a chegada da blogueira ao Congresso, foi muito mais intensa que o lançamento oficial da candidatura da presidente brasileira a sua reeleição, feita pelo ex-presidente Lula, no evento comemorativo dos 10 anos de governo e 33 anos de Partido dos Trabalhadores, realizado ontem, em São Paulo. Em síntese, o que deveria ter sido um fato histórico relevante para as relações internacionais entre Brasil e Cuba, com a recepção não só de agentes oficiais do governo cubano, mas também de personalidades daquele país que divergem democraticamente do governo, acabou por se diluir totalmente numa chanchada de militantes, que, em sua fanfarronice insuflaram uma briga violenta de torcidas que só seria dirimida com a chegada da polícia. Triste episódio!

E daí que a blogueira cubana recebe diplomatas norte-americanos em sua residência em Havana? E daí que ela recebe alguns trocados do exterior, se a maior parte dos cubanos que vive em sua ilha também vive de dólares remetidos de fora, ou de atividades no mercado negro do próprio país, como forma de escapar dos miseráveis salários pagos pelo governo de Raul Castro. E daí que Yoani possa ter cometido a travessura de montar perfis falsos de si própria nas redes sociais, para aumentar sua quantidade de seguidores no twitter, tão e simplesmente para arrecadar mais atenção e difusão de seus posts, que são lidos pelo mundo inteiro? Acredito que quaisquer das infrações que hoje são atribuídas à jornalista e blogueira que visita o nosso país são pequenas, diante de tantas violações de direitos humanos, e tantas arbitrariedades já cometidas por regimes ditatoriais de esquerda, seja nos tempos da União Soviética de Stálin, na China de Mao, seja na Cuba de Fidel, não obstante as conquistas de sua grandiosa revolução. Ora! Já é tempo de deixarmos as paixões de lado e pensarmos com objetividade e racionalidade questões que são fundamentais para o futuro e prosperidade dos povos latino-americanos. Não dá mais para fechar o sol com a peneira, fechando os olhos para o anacronismo e atraso do governo cubano, e sua necessidade de modernização. Assim como, os atuais presidentes, Barack Obama, e Raul Castro, devem sim buscar um entedimento histórico, a fim de extinguir por definitivo o embargo econômico entre os dois países, para que enfim os ares no Caribe possam ser melhor respirados. Somente dessa forma é que a viagem de Yoani pode fazer algum sentido. Enquanto isso, dou meu recado para o governo e para a oposição: deixam Yoani viajar! Afinal, essa mulher quer somente experimentar uns dias emocionantes de um passeio global onde pode conhecer novas pessoas, culturas e novas tecnologias. Boa viagem para você, Yoani!!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A RENÚNCIA DO PAPA BENTO XVI:Uma Igreja fraturada.

A imagem de um raio atingindo o topo da Basílica de São Pedro, num flagrante fotográfico obtido com perfeição pelo fotógrafo italiano Filippo Monteforte, no mesmo dia em que o papa Bento XVI anunciou que irá renunciar ao papado, em 28 de fevereiro deste ano, simboliza bem o ápice da crise de uma Igreja Católica que não consegue mais reconhecer a si própria. Como que numa manifestação da fúria divina ou como um presságio do que ainda está por vir, a iimpressionante imagem do raio cortando os céus do Vaticano até atingir a Basílica, para mim expressa bem os desafios que esta igreja cristã milenar terá pela frente, sob o risco de se desintegrar (ao menos na forma tradicional como foi estabelecida durante tantos séculos).

O papa Bento XVI irá voltar a ser apenas Joseph Ratzinger no final deste mês. Alegando não ter mais forças para conduzir a igreja, face sua idade avançada (85 anos), o papa irá renunciar. Ele se tornará o 4º papa a renunciar ao trono de Pedro em toda a história, desde a fundação da Igreja Católica, há mais de mil anos. Para se ter ideia de quão raro é esse fato, o último papa a renunciar foi Gregório XII, em 1415; ou seja, há praticamente seis séculos atrás. Tal ato não deixa de ter um enorme simbolismo para a história da Igreja e para o desenvolvimento da cristandade em todo o planeta. Afinal, apesar da perda de fiéis, a Igreja Católica ainda é a igreja cristã mais poderosa do mundo, contando com uma enorme população de católicos nas Américas, principalmente nos Estados Unidos, e em países populosos da América Latina, como a Argentina, o México e o Brasil.

Entretanto, no pontificado de Bento XVI, a Igreja Católica enfraqueceu-se ainda mais na Europa. Mesmo na Itália e na Polônia, países historicamente com maioria católica, a religião decresceu, com o advento do neopentecostalismo e a ascensão do islamismo com a grande corrente migratória oriunda principalmente da Ásia e do norte da África. A igreja comandada pelo papa renunciante também perdeu fiéis no Ocidente, com as centenas de denúncias de pedofilia envolvendo clérigos e integrantes da igreja, além de denúncias de corrupção envolvendo a Cúria Romana, o mais alto órgão da cúpula católica, responsável pela administração e pelas finanças da igreja.

(retirado de jb.com.br)
Creio, porém, que o maior problema da Igreja Católica, que levou à renúncia de seu sumo pontífice, não foi apenas a evasão de seu rebanho de fiéis, as denúncias de pedofilia ou a corrupção em seus quadros administrativos. O problema real da igreja de Bento XVI foi a de não conseguir se sintonizar com as demandas do século XXI. Prosseguindo com a proposta de seu antecessor( o carismático papa João Paulo II) de desmobilizar toda a estrutura liberal-progressista montada no Concílio Vaticano II, na década de sessenta do século passado, no curto mas célebre pontificado de João XXIII, o papa Bento XVI praticamente eliminou a ala progressista da igreja, simpática à Teologia da Libertação, introduziu uma agenda conservadora, e, com uma visão muito mais elitista de igreja, não se preocupou com a debandada de fiéis e sim com a manutenção de uma estrutura monolítica, que separasse uma minoria dos "verdadeiros crentes", daqueles que pareciam estar distanciados da igreja cristã.

É na separação entre uma igreja de salvos e uma comunidade de decaídos que Bento XVI pode ser mais identificado. Sua visão ultraconservadora que destoava do clérigo progressista que ele próprio era na juventude, fez com que um ex-militante adolescente da juventude hitlerista alemã viesse a se tornar um cardeal diligente, e extremamente poderoso no pontificado do papa anterior, comandando com mão de ferro a Congregação para a Doutrina da Fé (nome atual da antiga Inquisição). Como teólogo, Joseph Ratzinger era um estudioso brilhante, mas como papa viu-se como um administrador inábil, com uma visão acentuadamente tradicionilsta, e por que não dizer, ultrapassada de igreja, pouco propensa a manter um diálogo interreligioso. Em uma de suas preleções enquanto ainda era cardeal, Ratzinger chegava a criticar as igrejas protestantes, reafirmando que a igreja de Roma era a única igreja verdadeiramente cristã e reconhecida pelas escrituras. Com uma visão dessas não foi novidade que, no dia de sua proclamação como papa, Bento XVI já fosse alvo de críticas.

A falta de diálogo e a formação de grupos de oposição dentro da própria estrutura do Vaticano minaram de vez o poder que Bento XVI tinha sobre a igreja. O papa que agora renuncia tinha uma visão tradicional de pontificado, onde o papa ainda era tido como o "vigário de Cristo na terra", ou, simplesmente, uma criatura falível tão somente perante Deus, como um homem que apesar de não ser santo, merecia, com suas vestes brancas, ser chamado de "vossa santidade". Nessa condição, Bento XVI considerou, erroneamente, que conseguiria apenas com sua autoridade papal, conduzir todo o rebanho de católicos do mundo, eliminando as críticas ou diferenças. Ledo engano. Num mundo que cada vez mais se transforma, um dos desafios encontrados pela igreja no século XXI é se manter enquanto instituição tradicional, quando o próprio conceito de tradição é revisto, ou até mesmo eliminado, numa sociedade global e ligada virtualmente pela internet e suas redes sociais numa quebra constante de antigos paradigmas, onde nada é mais o que parecia ser. Para se ter apenas um exemplo, veja-se o caso do casamento gay, condenado com veemência pela igreja, mas cada vez mais praticado no mundo inteiro, sendo reconhecido por governos de países desenvolvidos, dentre eles a França, cujo parlamento aprovou recentemente a inclusão na legislação do direito ao casamento e adoção por casais do mesmo sexo. Em seu negativismo em termos absolutistas, sem a mínima possibilidade de transigência, ou diálogo com setores mais liberais da igreja e dos movimentos sociais na discussão desses temas, o papa viu a igreja se afastar cada vez mais da população ao discutir temas controversos. Soma-se a isso a intolerância da igreja em relação a outros temas também caros à sociedade moderna, como o direito ao aborto, o fim do celibato dos padres, a ordenação de mulheres na igreja, o uso de contraceptivos e o emprego de células-tronco em pesquisas científicas.

A Igreja Católica não conseguiu frear o surgimento de um novo ateísmo. O papel da igreja e sua relevância como instituição passaram a ser cada vez mais questionados e a própria figura do papa, mesmo para quem é ou era religioso, passou a suscitar sérias dúvidas quanto a sua credibilidade. Não se questiona o fato de que as viagens do sumo pontífice ainda merecem uma extensa cobertura midiática e são vistas como grandes eventos geopolíticos. É inegável que, até por conta de sua suntuosidade e expressiva apresentação, como representantes da última monarquia absolutista do mundo (o Vaticano), os papas ainda são recebidos por multidões, onde quer que cheguem. Entretanto, os pronunciamentos de Bento XVI na televisão e suas aparições em eventos anuais tradicionais, como a Missa do Galo, pareciam cada vez mais ser mais burocráticos e enfadonhos do que, efetivamente, deveriam ser grandes eventos religiosos, cobertos de um santo significado. Bento XVI foi um papa que não agradou a todos, mas deu pro gasto, segundo alguns de seus críticos; apesar de ter feito nada ou muito pouco para que sua igreja não se desmantelasse.

Acredito que, ao ler alguns pensadores, téoricos da ciência da religião, como Mircea Eliade, a humanidade sempre estará cindida entre o sagrado e o profano. Mesmo que sejam muito evoluídas tecnologicamente, a ponto de determinadas instituições milenares, como a igreja, terem sua existência questionada, por conta de um certo anacronismo de seus integrantes, as sociedades mais modernizadas não conseguirão se desprender de seu aparato religioso. Sempre permanecerá a fé e o questionamento de quem somos, como fomos criados e qual será o nosso destino após a nossa morte. Creio que a presença de Deus enquanto uma fórmula de contingência que dá sentido à realidade do sistema religioso sempre vigorará em todas as sociedades, conforme afirmava Luhmann, em sua sociologia da religião. Porém, a forma de refletir sobre a existência de Deus e as experiências de vida religiosa tendem a ser cada vez mais diferentes neste século. É cada vez mais comum encontrar comunidades inteiras de cristãos afastados de suas igrejas de origem, procurando novas formas de  convivência religiosa através de cultos nas residências de um e de outro, ou por meio da formação de células e grupos de oração e discussão teológica. Em todos esses eventos percebe-se um certo desapontamento com a igreja tradicional, e a Igreja Católica aparece como instituição religiosa recordista de críticas e defecções. Enfim, um horizonte atribulado e cinzento parece cercar a igreja cristã mais antiga do mundo, numa crise que faz lembrar o ambiente conflituoso que antecedeu a Reforma Protestante, no século XVI.

Lamento pelos católicos as indefinições quanto ao futuro de sua igreja, face a renúncia de seu líder. Que um novo papa, se não funcionar como grande agente de transformação, ao menos recomece a igreja do zero, recuperando sua humildade e sua vocação de atender aos mais pobres e desvalidos. É preciso que a Igreja Católica avance ainda mais na crítica de seu passado retrógado, quando vários de seus papas legitimaram governos autoritários, chancelaram a escravidão, lideraram sangrentas cruzadas em nome da fé, dizimando povos e provocando etnocídios como aqueles que ocorreram com a população indígena das Américas. Menos do que seu histórico imperial, a igreja de Bento XVI deve se voltar para si própria, numa profunda autocrítica, a fim de que ela ainda tenha validade e importância para a sociedade neste século e nos séculos que ainda estão por vir.  Não só milhões de católicos, mas todos aqueles que tem algum tipo de fé, esperam por isso.
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Gates e Jobs

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