quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MÚSICA: As cortinas fecharam-se para Leonard Cohen

O cantor ainda jovem, nos anos 70.
Se você perguntar entre 10 pessoas do seu convívio pessoal ou mesmo do meio acadêmico quem era Leonard Cohen, é bem capaz de apenas uma ou nenhuma saber de quem você está falando. "Leonard....quem???", alguém pode perguntar. Isso se deve porque o cantor, compositor, poeta e escritor canadense de voz sussurada nunca obteve sucesso comercial, e apesar de cantar para plateias lotadas, sua música sempre foi ouvida por um círculo restrito e requintado de ouvintes, que apreciavam uma poesia cantada, numa polida língua inglesa.

Leonard Cohen saiu definitivamente de cena no último dia 8 de novembro, aos 82 anos, por causas não relevadas pela família. Ele faleceu em casa, acompanhado do filho Adam, lugar onde gravou seu último disco. Ele nos deixou com um último álbum, intitulado You Want in the Darker. Assim como David Bowie, falecido no começo do ano, mas que lançou o ótimo Blackstar uma semana antes de morrer, no penúltimo mês de um 2016 de extremas perdas (não só artísticas, mas pessoais para mim), Cohen se foi deixando um álbum-testamento, e um legado de mais de 100 canções emblemáticas, em cinco décadas de carreira, que ficarão para sempre, na história da cultura popular do século XX.

Em um de seus shows memoráveis, em Montreaux.
Para os apreciadores da obra de Cohen, ele já era um aclamado poeta e romancista em sua terra natal, na década de sessenta do século passado, com livros como "Flores para Hitler", de 1964 e "Belos Vencidos", de 1966; mas, aos 33 anos, o escritor resolveu arriscar como cantor. Amante de viagens e apaixonado pela poesia do espanhol Garcia Lorca, Leonard Cohen iria até a Ilha de Hidra, na Grécia, onde viria a conhecer talvez a sua maior musa, que lhe renderia  o primeiro sucesso, a antológica canção So Long, Marianne. Entretanto, foi em 1969 que ele apareceu para o mundo, cantando uma música cover, Susane, que já tinha sido cantada na voz de Nina Simone. Os anos setenta são talvez a época mais profícua da musicalidade de Cohen, com canções ícones como Bird on a Wire, Avalanche e Chelsea Hotel n.o. 2, chegando a competir nessa época com outro grande cantor daquilo que viria a ser chamado de estilo indie ou música pop alternativa, o francês Serge Gainsbourg.

Vieram outras canções e discos que compõem o catálogo dos fãs da música de Leonard Cohen. Eu destacaria So Long, Marianne, Sisters of Mercy (que renderia o surgimento da banda de rock homônima, nos anos oitenta) e o disco Songs of Love and Hate, de 1972, até chegar ao seu álbum mais vendido, I'm your Man, de 1988 e a belíssima e ao mesmo tempo triste canção Dance to the End of Love. Nessa época, com seu jeitão de poeta beat, parecendo ser uma espécie de "Frank Sinatra Cult", Cohen já havia conquistado alguns garotões do rock, que apreciavam suas letras e músicas, dentre eles Michael Stipe, do R.E.M., Ian McCulloch do Echo & The Bunnymen e até Kurt Kobain do Nirvana, que cita um trecho de uma canção de Cohen, ao cantar  a densa Pennyroyal Tea.

O artista emociona-se ao ser homenageado.
A música de Cohen também é conhecida pelo apelo espiritual. Aficcionado pelo estudo da teologia, Cohen estudou vários temas e os explorou em suas canções, seja da cabala judaica até a trindade cristã. Talvez sua composição mais conhecida seja justamente uma que faz alusão a temas e personagens bíblicos, mas, que, na verdade, num pseudogospel emocionado, trata-se menos de fé, e mais de uma canção de amor e desilusão, cuja letra é de um lirismo e profundidade que lembra uma obra barroca. Estou falando da célebre Hallelujah. Esta canção foi regravada por vários artistas, dentre eles, Jeff Buckley, grande artista e promessa do rock que morreu jovem, precocemente nos anos noventa, e que somente lançou um disco em vida. Foi justamente através da versão de Buckley que eu, anda um jovem estudante universitário, tive o primeiro contato com a obra de Cohen.

De origem judaica, o poeta e cantor acabou abraçando o budismo, tornando-se monge nos anos noventa e abandonando a música e a literatura.  Leonard Cohen somente acabou retornando aos palcos ao 74 anos, na primeira década deste século, quando descobriu que sua ex-empresária havia surrupiado toda a sua grana, e a necessidade financeira o levou a se apresentar ao vivo novamente e a gravar novos discos. Já idoso, mas elegante com seu chapéu e ternos, o último dos grandes shows de Cohen foi na Espanha, no ano passado, numa apresentação que, literalmente, fez toda a plateia chorar de emoção. Já doente, como um ancião fragilizado em cima do palco, e abatido pela depressão, com uma simplicidade e sinceridade que mantinha com quem lhe ouvia, Cohen começou o show com ar tímido, mas, calmamente, foi conquistando o público até chegar ao ápice, o que era a marca de suas músicas e apresentações ao vivo: uma emoção progressiva, que se inicia aos palcos até chegar a uma evolução catártica, à beira do frenesi religioso. Em suas últimas entrevistas, dizia-se preparado para a morte. "Estou pronto", era o que respondia aos seus interlocutores quando era perguntado sobre o assunto. E, assim, numa tarde de terça-feira, partiu mais um grande artista do século XX.

A última foto icônica.
Nesses tempos em que contemporâneos de Cohen, como o Prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan, são revisitados, e para todo bom apreciador de música folk, pra quem não conhece, vale a pena dar uma conferida na obra deste belo artista. Despedindo-me de Leonard Cohen, assim como me despedi de tantos neste blog até o dia em que eu mesmo terei que me despedir, termino este texto com os versos finais de Hallelujah, na sua tradução para o português, dizendo: "Tinha um tempo que você me deixava saber o que se passava. Mas agora você não me mostra mais, não é? Eu me lembro quando me apaixonei por você! E o Escuro Sagrado também se movia. E cada respiração nossa era de Aleluia!E todo suspiro que dávamos era um Aleluia! Aleluia! Aleluia!!".

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ELEIÇÃO AMERICANA: o fim do politicamente correto.

Confirmou-se o inconfirmável: Donald Trump é presidente dos Estados Unidos da América. Numa campanha eleitoral que começou ainda no ano passado e vista como piada, Trump, um outsider da política, que nunca tinha disputado ou exercido antes um cargo público, foi eleito na madrugada de hoje presidente da nação mais poderosa do planeta, pelo Partido Republicano, derrotando a candidata democrata, Hillary Clinton. Foi a reviravolta política e a guinada conservadora mais espetacular da última década, e o fim de uma era: a era do avanço político da esquerda e de candidaturas e governos mais progressistas.

O mundo parece andar de marcha ré. Num discurso até então considerado abolido nos livros de história, ou ao menos na opinião de milhares de intelectuais, militantes sociais e representantes de segmentos sociais étnicos e de gênero, como negros, hispânicos, feministas e representantes da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bisssexuais e transgenêros), o candidato e presidente vitorioso elegeu-se como um discurso e uma plataforma nacionalista, diplomaticamente unilateral, xenófoba, misógina, ultraconservadora e fanfarrona. Defendendo a construção de um muro separando os EUA do México, a proibição da entrada de muçulmanos no país para evitar o terrorismo, a comparação de imigrantes ilegais mexicanos a bandidos e estupradores e acusado de abuso sexual por ex-funcionárias de suas empresas, além de dizer as coisas mais horripilantes sobre mulheres, seja sobre mulheres feias ou grávidas, o bilionário empresário dos hotéis, cassinos e show business representa a vitória do capital, de uma América branca, intolerante, desempregada ou subempregada, religiosa e conservadora, que encontrou no candidato republicano o representante de seus anseios de um novo país.

Make America Great Again (Faça a América ser grande de novo!). Com esse slogan de campanha, Donald Trump substituiu o também criativo lema do Yes, We can (Sim, nós podemos!) do presidente que saí, Barack Obama. Em tudo, parece que Trump e Obama apresentam-se como o espelho invertido de uma mesma sociedade. Os oito anos de governo democrata de Obama vão ser conhecidos na história recente como os da inclusão da saúde pública num país que privilegiou durante séculos a iniciativa privada no setor, ao pregar tradicionalmente a opção por um médico como escolha individual de quem tem condições financeiras de procurar um, e não um serviço que deve ser ofertado pelo Estado. Serão  conhecidos os anos Obama, na diplomacia, como anos de sucesso no combate ao terrorismo ao eliminar Osama Bin Laden, mas de fracasso ao evitar o surgimento e a expansão do Estado Islâmico e a frustração de não conseguir combater os testes nucleares da Coréia do Norte. Foram anos conhecidos pela inédita aproximação com Cuba, o retorno das relações diplomáticas com a ilha caribenha dos irmãos Castro e a reinauguração de uma embaixada, além da tentativa de suspender o pernóstico embargo que prejudica a relação entre ambas as nações há mais de 50 anos. O governo Obama vai ser conhecido também por ser aquele que deu espaço às minorias que, demograficamente, acabaram se tornando maiorias, como negros, hispânicos e asiáticos, e por uma campanha interna pelo desarmamento e o controle da indústria armamentista, face os frequentes e periódicos ataques de atiradores solitários em escolas e locais públicos do país. O governo do democrata também foi responsável pela redução dos preconceitos a gays e lésbicas, ao abolir a regra que proibia aos militares de revelarem sua orientação sexual, quando do seu ingresso nas Forças Armadas.  O governo de Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, com sobrenome árabe, filho de um queniano, nascido no Havaí e criado para ser um intelectual professor de Direito da Universidade de Chicago, simboliza a marca de um tempo que se foi, nessa segunda década do século XXI. Foi embora a época da diplomacia liberal da globalização,  da abertura política, do multiculturalismo, e da tolerância ao pluralismo, e; no lugar disto, com a eleição de Trump, voltou-se a culpabilizar o outro, o diferente. Se antes, defender uma agenda progressista de novos direitos para novos atores sociais, como mulheres, gays e imigrantes, era tido como normal e recomendável, numa sociedade taxada de "moderna", hoje, o retorno à defesa da família monogâmica, do Estado-nação soberano diante do direito internacional e do patriotismo baseado numa única singularidade cultural, retornou com força com a eleição de Trump.

A eleição norte-americana, diferente da nossa eleição brasileira, é indireta, e lá não importa apenas a votação popular, mas, principalmente, conquistar os votos de Estados considerados chave no mapa do federalismo americano, onde a vitória pela votação obtida nas urnas, nessas regiões, pode levar  a uma quantidade maior de delegados, aptos a votar no colégio eleitoral que é o responsável final pelo processo de eleição nos EUA. Foi isso que aconteceu no dia 8 de novembro de 2016, e foi nessa data que Hillary Clinton viu suas chances de uma primeira mulher chegar a Casa Branca caírem por terra, quando perdeu a votação em estados-chave, como Flórida, Ohio, Nevada e Pensilvânia. Sem ter como competir com Trump nesses locais, a candidata democrata amargou a derrota e o ostracismo político do projeto de poder do casal Clinton (aquele conhecido pelo escândalo sexual de um presidente, uma estagiária, sexo oral e charutos). A derrota de Hillary também é a derrota do Partido Democrata, que mais uma vez não conseguiu fazer maioria em nenhuma das casas legislativas (com maioria republicana tanto na Câmara quanto no Senado), e o desmanche do projeto de continuidade de um terceiro mandato da gestão Obama. Se os anos globalizados, diplomáticos e politicamente corretos da fala mansa de Obama foram embora; agora o que resta são as bravatas e o hard power do discurso sexista, xenófobo e virulento de Donald Trump.

Mas, sabe-se que uma coisa é discurso, outra é ação política. Como alguém que veio do mundo das celebridades, do meio dos negócios e da habitualidade com os holofotes, por meio do reality show "O Aprendiz", ou mesmo com algumas participações em comercias de televisão e pontas em filmes de cinema, Donald Trump é um cara, como ninguém, que sabe lidar com a mídia. Foi justamente através da mídia, veiculando na TV e nas redes sociais a imagem de empresário durão, destemido e desbocado, que não integra a política tradicional, mas, ao contrário, incorpora o tradicional american dream de ascensão social, que Trump se deu bem no eleitorado menos escolarizado e mais necessitado. Apesar de ser muito rico, Trump difundiu a imagem de ser um sujeito identificado como um do povo e ressuscitou a imagem do self made man, tão cara ao mercado; ou seja, a de que você pode prosperar e ficar rico por seu esforço próprio, se o Estado não te atrapalhar. Nessa estratégia de campanha, Trump reinaugurou fortemente o populismo de direita, que na história do século passado deu origem a muitos líderes demagogos e autoritários. Na democracia americana e dentro da relação extremamente equilibrada entre os poderes, é difícil que Trump consiga viabilizar sua agenda de direita, ultraconservadora, sem encontrar grandes focos de resistência, tanto no Legislativo e  no Judiciário, apesar de seu partido ter conseguido maioria nas duas cassas legislativas. Lembremo-nos de que o presidente eleito encontra resistência interna entre os próprios membros de seu partido, e o ex-presidente George W. Bush afirmou com sinceridade nesta eleição que não votou no seu camarada de partido. Como disse jocosamente o célebre músico Stevie Wonder:"votar num cara como Trump é como eu escolher assumir a direção de um veículo"; ou seja, você não sabe para onde vai. Mas essa incerteza acabou sendo chamativa para boa parte do eleitorado que se manifestou nas urnas ontem. Afinal, nessa nova onda conservadora que paira no mundo inteiro, o que quer a maioria do povo?

Recentemente, decisões populares democraticamente aceitas, não fugiram da polêmica e chegaram a chocar o mundo, constrangendo os institutos de pesquisa, assim como fizeram na eleição de Trump, com resultados inusitados, tais como a decisão do eleitorado inglês de sair da União Europeia, por meio do plebiscito apelidado de Brexit, bem como pelo plebiscito colombiano, que apesar de render o Nobel da Paz ao presidente Juan Manuel Santos, acabou resultando na vitória do "não", na recusa popular, por pequena margem de votos, a um acordo com os guerrilheiros das FARC, a fim de cessar definitivamente hostilidades que já duram mais de 50 anos. Por outro lado, assim como no Brasil, um golpe legislativo reinstalou a direita no poder, com o precipitado processo de impeachment da Presidente de esquerda, Dilma Roussef e a instalação na presidência do vice, o conservador Michel Temer, também em outras partes do mundo, os conservadores e neoconservadores já mostram suas garras. Nas últimas pesquisas eleitorais na França, o nome da candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, representante máxima da extrema-direita francesa, com seu discurso anti-imigração, aparece com força como virtual vencedora numa eleição presidencial de segundo turno, no ano vindouro. Na Espanha, após meses de indefinição sobre a formação de um governo, e a ascensão meteórica do novo partido de esquerda, o Podemos, após três eleições legislativas fracassadas,  a chefia do governo acabou retornando às mãos do primeiro-ministro de direita, Mariano Rajoy. Da mesma forma, na Inglaterra, o poder se consolidou entre os conservadores, deixando os trabalhistas apenas com um prêmio de consolação, que foi obter nas eleições a Prefeitura de Londres. 

A vitória e o início de governo do neoliberal Mauricio Macri, na Argentina, derrubando mais de uma década de kirchnerismo na Casa Rosada, também demonstrou que na América Latina, assim como na Europa, o voto está migrando para candidatos de direita. No Peru, a eleição recente de Pedro Paulo Kucinski para Presidente, num segundo turno com a também direitista Keiko Fujimori, mostra o quanto o discurso nacionalista ou privatizante tomou conta novamente do cenário político latino-americano. Nas últimas eleições municipais brasileiras, viu-se uma derrota retumbante do Partido dos Trabalhadores, até então em franca ascensão nos últimos anos até afundar em escândalos de corrupção envolvendo seus principais lupanares, e uma perda total de hegemonia para siglas mais identificadas com o pensamento conservador ou neoliberal, como o PSDB. A eleição em São Paulo de João Dória como prefeito, bilionário e apresentador de programa de TV, tão ou mais identificado com Donald Trump, por se apresentar como um empresário que virou político, acabou conquistando de vez o eleitorado paulista, elegendo-o no primeiro turno. Constata-se que, no mundo todo, o ideário, o discurso e até mesmo o vocabulário da esquerda política, vem sendo desconstruído, progressivamente, por um projeto de direita.

Agora, não é verdade que a esquerda acabou, que os movimentos sociais não mais existem ou que os direitos individuais e sociais foram suprimidos, e que, agora, retornaremos a uma era de fascismo, onde mais uma vez a intolerância xenófoba vingará, a ponto das fronteiras serem fechadas a refugiados sírios, que escapam da barbárie de uma guerra civil sanguinária. Nos Estados Unidos, políticos como Barack Obama fizeram história e deixaram um legado, assim como novos protagonistas nacionais, no âmbito progressista, apareceram, como o senador democrata Bernie Sanders. Identificando-se abertamente como socialista, em seu radicalismo, Sanders seria o adversário ideal para enfrentar Donald Trump, numa eleição que seria bem mais eletrizante e polarizada. De qualquer forma, assim como Obama fez em sua campanha vitoriosa há 8 anos atrás, Sanders conseguiu reativar uma juventude, até então acomodada com o establishment das cúpulas partidárias tradicionais, acusando o candidato, nas primárias partidárias, de que a cúpula do Partido Democrata, descaradamente boicotou sua campanha nas primárias do partido, em prol de favorecer Hillary. Não deu certo, pois a escolha de Hillary no lugar de Sanders revelou-se equivocada! Desconfiados de uma candidata, que ao mesmo tempo que falava de feminismo e direitos humanos, defendeu a invasão no Iraque e, como advogada, representava os interesses dos banqueiros de Wall Street, os eleitores tradicionalmente democratas, simplesmente não foram votar no dia 8 de novembro; ou até mesmo alguns mudaram a casaca, e ingressaram na aventura arriscada de votar em Trump. Deu que no deu!

A verdade é que, nos momentos de crise econômica e instabilidade dos mercados, a esquerda não conseguiu superar as mazelas e contradições do capitalismo, e acabou sendo engolida por ele, num fenômeno de acomodação no poder, que ao invés de trazer mudanças substanciais na qualidade de vida dos mais pobres, através de um aliancismo com os representantes do mercado, findou com a manutenção de um modelo viciado, que manteve a desigualdade, não conseguiu combater o desemprego e a inflação, e ainda tentou se manter no poder baseado muito mais numa agenda cultural de defesa de direitos de segmentos marginalizados, como negros, homossexuais e mulheres, do que do crucial combate à pobreza e a marginalização social. A defesa da integridade do discurso de esquerda como um discurso de combate dos explorados aos exploradores, não colou diante da classe operária branca, de baixa escolaridade, originalmente devota das teses progressistas e outrora eleitora do Partido Democrata, nos Estados Unidos, e que, após décadas de descaso, acabou atribuindo a desgraça do desemprego e a desvalorização profissional à globalização e a ocupação de mão de obra por imigrantes, na formação de um senso comum que se difunde por todo o hemisfério norte globalizado. Da mesma forma, na América Latina, em eleições locais como as que ocorreram no Rio de Janeiro, e que deram a Prefeitura da cidade ao líder evangélico e senador Marcelo Crivella, tais resultaos demonstram que o discurso para as massas mais esclarecidas e universitárias, do candidato adversário, Marcelo Freixo, não chegou à periferia, não atingiu o morro, onde moram as populações mais carentes, necessitadas, e que são seduzidas por um forte apelo religioso do neopentecostalismo e assistencialismo oportunista da Igreja Universal. Da mesma forma, na Colômbia, a direita religiosa, representada por segmentos que transformam proselitismo religioso em político, foi uma das responsáveis pela aprovação do "não", ao invés do "sim", para se concluir o processo de celebração de paz entre o governo e a guerrilha, uma vez que o mediador do processo seria o "ateu" governo cubano. Vê-se, portanto, que a intolerância religiosa, como parte do projeto conservador na política, é um dos ingredientes para o avanço da Direita no mundo todo.

Todos os conceitos oriundos do Iluminismo, rebuscados na Declaração dos Direitos Humanos, após a II Guerra Mundial, passam a ser relativizados e até esquecidos na nova política que se consolida com a eleição de Donald Trump. Cada vez mais pessoas tiram a carapuça e aparecem nas redes sociais, ocupando perfis no Twitter ou no Facebook, sem medo de revelaram comentários racistas, xenófobos, homofóbicos ou misóginos. Geralmente tal carga de preconceito é associada a um sentimento de revolta individual, canalizado naquilo que os sociólogos chamam de anomia (uma ausência de adesão individual às normas de uma convivência social tida como saudável). Foi justamente aproveitando-se desse sentimento anômico que Trump cresceu, atropelando críticos de seu próprio partido e se firmando como porta-voz desse segmento de revoltados individualistas. É como se falar de dignidade humana fosse somente papo de intelectual e que a realidade nua e crua levasse às pessoas a retornar a uma certa selvageria individualista de que cada um por si e ninguém pelos outros, num estado de natureza hobbesiano. O fim da era do politicamente correto não terminou, mas se consagrou com a eleição de Donald Trump. Resta-nos aguardar os próximos capítulos de uma história, que promete ser aterradora. Eu espero sinceramente estar errado!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

IN MEMORIAN: Saudade é uma palavra que só vale pra quem já viveu um luto. Meu tributo a Gerson Luiz Klafke

A palavra "saudade" é proveniente do latim (solitate). E por isso muitos associavam a palavra a solidão. Existe o mito de que esta palavra só existe no português e no dialeto gallego, e não poderia ser traduzida da mesma forma nos outros idiomas, pois no espanhol (soledad), no italiano (solitudine), ou no francês (solitude), nenhuma delas teria o mesmo sentido de quem sente um sentimento que não reúne apenas dor, isolamento, solidão, mas sim envolve uma gama muito mais rica de sensações.

Posso ter saudade para chorar, mas também para sorrir, ao recordar de belas lembranças. E nesse sentido, a palavra saudade também pode significar "salvar" ou salvação", pois também deriva do vocábulo salute. Tendo este ou aquele significado, o que sabemos em bom português é que só se tem saudade de alguém que está longe, que partiu, e que o pior, sente-se saudade daquele que partiu e não vai voltar (ao menos não cedo). Entretanto, não se tem apenas saudade de alguém, mas também saudades de momentos, de eventos passados, o que faz surgir a palavra "saudosismo", que tem relação com nostalgia (em espanhol, añoranza). Quando temos saudade, temos saudades de amigos ou amores que partiram, mas também de lugares que conhecemos no passado, e que gostaríamos de retornar. É de um desses lugares e uma dessas pessoas que eu gostaria de falar nessa postagem: da cidade de Rio Pardo no Rio Grande do Sul, e de meu grande amigo e sogro, Gerson Luiz Klafke.

Gerson era bombeiro, salva-vidas, e, principalmente, um sujeito ativo e desenrolado, que gostava de esportes, pescaria, fazer churrascos e adorava ver o seu time jogar, o Internacional. Para quem já leu este blog nos últimos anos, escrevi sobre um bocado de coisas e um bocado de gente, e fiz o obituário de muita gente famosa, de quem eu gostava pelo talento. Entretanto, nunca, mas verdadeiramente nunca, eu poderia imaginar estar, numa tarde de segunda-feira, escrevendo o obituário de meu próprio sogro. Gerson morreu numa sexta-feira, dia 7 de outubro de 2016, no comecinho da tarde, no seu local de trabalho, quando estava trabalhando em uma base do Corpo de Bombeiros da cidade de Rio Pardo, onde morava. Por um acidente trivial, se não fosse trágico, Gerson perdeu a vida aos 49 anos. O noticiário da cidade disse que ele tinha caído do caminhão e batido violentamente com a cabeça na queda, o que produziu um traumatismo craniano que lhe foi fatal. Assim se foi uma vida, naquilo que muitos dizem terem sido "o dia" dele. Independente da fé ou da espiritualidade das pessoas, não acredito em casuísmos, mas acredito em destino, e, para minha infelicidade enquanto genro, calhou de Gerson falecer perto de se aposentar, e num dos momentos mais felizes de sua vida.

Faleceu não apenas o sogro de Fernando, ou o pai de Stella e Alicia, o marido de Cecília, o filho de Dona Traudi, ou o avô do meu pequeno filho Miguel. Faleceu o meu amigo! Se eu fosse contar para meu filho a história de seu avô materno, como quem conta a história de um grande amigo que se foi, eu diria a ele que, assim que aprendesse a ler, lesse este blog, e visse todo um singelo relato que devo fazer como tributo, a um dos mais queridos, respeitáveis e amados amigos que tive nesses últimos anos.

Ainda me lembro da primeira vez que dei de cara com o Gerson, na rodoviária de Rio Pardo. Não fazia nem seis meses e eu havia noivado com  a filha do cara, num relacionamento que parecia um namorico relâmpago de um professor com uma ex-aluna, e que acabou gerando um casamento duradouro e um filho. Era o ano de 2010, e eu estava entre ansioso e preocupado em conhecer os pais da minha noiva, já que eu incrivelmente havia noivado com a garota sem que os pais dela sequer me conhecessem. Eu já havia retornado ao Nordeste, após uma estada de 3 anos no Rio Grande do Sul, fazendo meu doutorado, e eu não tinha a menor ideia se os pais (principalmente o pai) da noiva iam gostar de mim. Lembro-me de descer do ônibus vindo de Porto Alegre, da viação Santa Cruz, na rodoviária de Rio Pardo, e me esperava aquele cara bem alto, branco, atlético, parecendo um veterano jogador de futebol da seleção da Alemanha, com seu cabelo curto e grisalho, mas um óculos que lhe davam certo ar professoral. Pude perceber que o pai da noiva estava mais encabulado que eu, o próprio noivo, mas bastou um aperto de mão, e um sorriso, para meia hora depois estarmos almoçando alegremente, eu contando meus casos de ex-advogado que virou policial e desejava se tornar professor universitário, e os planos que tinha junto com minha noiva Stellinha, os preparativos do casamento e as expectativas pela lua de mel, que se avizinhava no final do ano. Com sua hospitalidade de gaúcho do interior, Gerson e sua esposa Cecília, minha futura sogra, me deixaram totalmente desarmado de espírito, animado e bem à vontade naquela casa que viria a ser meu porto seguro em Rio Pardo nos seis anos seguintes, entre goles de cerveja, churrascos comidos à exaustão, rodadas de chimarrão, filmes na TV e altos papos, que iam desde o futebol até a política. Como ele era somente 4 anos mais velho do que eu, pude perceber que fazer parte da mesma geração envolvia praticamente gostos semelhantes por muitas coisas, principalmente pelo hard rock dos anos setenta e oitenta, e um gosto especial por bandas como Scorpions, Iron Maiden e Rush.

Pude saber um pouco da história daquele casal, e descobrir que Gérson e Cecília conheceram-se nos brilhosos anos oitenta, numa Rio Pardo em que os jovens confraternizavam-se fazendo festas na casa de um e de outro. Ele e sua futura esposa conheceram-se em uma dessas festas, e logo, dois jovens bonitos, enamorados, formaram um dos daqueles jovens casais, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, que, casados, tiveram que assumir desde cedo a responsabilidade de constituir uma família, buscar empregos sólidos no serviço público e sustentar a primeira das duas filhas que nasceram, que viria a se tornar a minha esposa. Foi aí que descobri outra das grandes paixões de Gerson: o Corpo de Bombeiros.

Gerson não era só bombeiro por profissão, necessidade, ou vocação, Gerson era bombeiro por AMOR! Eu já tinha certa admiração por esses profissionais de combate ao fogo; mas depois que conheci o Gerson essa admiração pelos bombeiros passou de admiração para idolatria. Ele me presenteava com souvenirs que lembravam a profissão, como um chapéu estiloso, uma camiseta e até ganhei dele de presente uma sunga de banho que ele utilizava, que uso até hoje, com o logotipo da corporação. Quando viajei a Paris, num Congresso da universidade, cheguei até a comprar um livro com a história do Corpo de Bombeiros da França, com imagens dos primeiros uniformes, carros e caminhões que o grupamento utilizava desde o século XIX. Lembro até hoje, das muitas visitas que Gerson me fazia em Natal, quando ele e Cecília conheceram minha amiga Neide e seu esposo Leif, um norueguês que trabalha na Marinha Mercante, que viriam a ser os novos amigos do casal e padrinhos do meu filho Miguel. Num memorável churrasco, à beira da piscina da casa de meus compadres, Leif apresentou ao Gerson um sujeito chamado Lawrence, britânico, que trabalhava no Corpo de Bombeiros da Inglaterra. No meu inglês trôpego, depois de doses cavalares de cerveja e whisky, servi como intérprete na conversa entre os dois e notei como os olhos do Gerson brilhavam ao conhecer seu colega de profissão estrangeiro, perguntando como era a forma de trabalho dos bombeiros da Terra da Rainha. Era com alegria que Gerson abria o celular, e mostrava fotos de seu trabalho, do quartel e de seus colegas de profissão em Rio Pardo, entusiasmado para que o bombeiro britânico conhecesse os bombeiros do Rio Grande do Sul. Gerson trabalhava também como salva-vidas, e por 20 anos trabalhou na Operação Golfilho, nas praias dos tórridos verões gaúchos. Como um protagonista do seriado Baywatch, eu via as fotos nos jornais do trabalho daquele cara atlético, todo bonitão, compenetrado em evitar que os banhistas se afogassem, e me deparei com um lado criança que ainda permanecia latente no meu corpo adulto: havia descoberto um novo herói!

Eu, pelo meu lado, funcionário público graduado e candidato a intelectual com doutorado, nunca me senti aumentado ou diminuído na presença do Gerson. Não me interessava ao lado do meu sogro aquelas conversas complexas, rebuscadas da universidade, e nem eu e nem ele parecíamos aqueles sujeitos materialistas ou gabolas, falando de posses ou contando vantagem do que quer que seja. Nos seis anos que conheci o Gerson, nunca vi, um minuto sequer, ele se vangloriar das vidas que salvou nas praias gaúchas, das pessoas que socorreu no interior do estado, vítimas de ciclones ou inundações, ou até de cavalos que ajudou a puxar de algum rio ou pasto. Gerson era um homem discreto, e além disso tinha uma profunda humildade e um senso de responsabilidade no que fazia, encarando todo salvamento que realizava como um dever, a obrigação do bombeiro que apenas realiza o seu trabalho. Ele me falava das lutas da categoria, perguntava como era a independência funcional dos bombeiros no Rio Grande do Norte e acessava na internet os sites das associações de bombeiros de outros estados, preocupado com a valorização profissional e salarial de servidores do Estado, muitas vezes mal reconhecidos e mal remunerados, não obstante a mais nobre das funções que realizam na sociedade, que é a da proteger pessoas e bens.

Como bombeiro, sem saber, Gerson fazia que eu me lembrasse dele sempre que assistia o clipe da banda de rock Foo Fighters, na canção My Hero, em que o personagem, sozinho, salva várias pessoas do incêndio num prédio, sem que num minuto sequer apareça seu rosto. Gerson representava esses heróis sem rosto, que por debaixo de um macacão do Corpo de Bombeiros, em todo país, não são um nome, mas sim um caminhão, uma sirene e um uniforme. Foi justamente vendo um cortejo desses caminhões, num vídeo repassado na internet, no funeral dele, que vi o quanto os bombeiros devem e deveriam ser mais valorizados pelo Estado, mas como, no imaginário coletivo, ainda são vistos como heróis pela sociedade. Apesar de triste, foi uma cena extremamente bonita ver aquele cortejo de viaturas com as sirenes ligadas levando o féretro do meu amigo, percorrendo a pequena Rio Pardo que parou para ver, pela última vez, um de seus heróis,  até seu último repouso no cemitério da cidade.

Nesses últimos anos, enquanto viveu, pude alternar visitas a casa de Gerson e Cecília e eles a minha e de minha esposa. Como sogros queridos, eles agora eram meus parentes e eu o deles, e me acostumei, todos os anos, a tê-los na minha casa, assim como eu sabia que sempre havia um quarto separado para mim e Stella, na singela casinha que Gerson havia contribuído para construir com seus meios próprios. Percebi, ao conhecer meus sogros, que eles não viajavam muito, e percebi o encantamento de Gerson quando ele e sua esposa conheceram o Nordeste pela primeira vez, visitando Natal. Além de Natal, tive a oportunidade de levá-los até Recife, e fiz com eles uma inesquecível turnê por Olinda, no seu centro histórico, onde ficamos hospedados. Guardo na lembrança, coração e fotos aqueles momentos. Notei que, como gostava de praia, Gerson ficou gamado com Natal, e mais ainda, quando os levei até a Praia de Pipa, Gerson ficou totalmente deslumbrado com a beleza e a animação do lugar. Ele me confidenciou nas idas e vindas a Natal que pretendia comprar um terreninho em Natal e queria vir pro RN assim que se aposentasse. Eu perguntava a ele, homem ainda jovem, com boa saúde disposição, no que ele poderia trabalhar, e com um sorriso ele me respondia:"qualquer coisa". Sendo um sujeito ativo e multitarefas como ele era, meu sogro tinha até curso de pilotagem de barco, e não duvido nada que, morando em Natal, ele se tornasse um piloto de barco ou um alegre motorista de buggy, curtindo sua vida de bombeiro aposentado. Pena que Deus teve um plano diferente para ele!!

Vivi momentos grandiosos de alegria e comemoração, extremamente especiais, ao lado de um guerreiro, que se tornou meu sogro. São imagens que não me sairão da memória e ficam registradas eternamente aqui, tal como o dia de meu casamento, quando minha esposa, a noiva, linda, seguia em direção ao altar, acompanhada de seu sorridente pai. Lembro-me daquele sorriso tímido, característico dele, quando Gerson me entregou a noiva e somente disse ao me abraçar: "então tá, Fernando!". Lembro também do dia que levei Stella, grávida, até o médico para sabermos qual seria o sexo do bebê, na ultrasonografia, e recordo do meu entusiasmo e da risada de Stella, quando o médico disse que era menino, e eu me apressei para ligar para minha mãe, informando que iria nascer um garoto, e depois liguei pro Gerson, gritando como um louco no hospital: "É homem!É homem!". Pude escutar aquela risada curta e serena dele no outro lado da linha, e sabia que, como pai extremamente realizado, também estava compartilhando ali, num momento único, a alegria de um novo membro da família que estava chegando, com um avô igualmente realizado.

São tantos e muitos os momentos felizes que eu passaria dias escrevendo ou falando como eu amava meu amigo e sogro Gerson Klafke. E tenho a total certeza de que deve haver uma centena de pessoas, entre parentes e amigos que deve fazer a mesma coisa. Se Gerson tinha defeitos? Claro, óbvio, pois isso todos  tem! Em sua simplicidade, o Gerson incorporava o que há de melhor nas pessoas, sendo ele mesmo, com suas virtudes e fraquezas; pois, afinal, você é especial não porque você quer ser especial, mas sim porque se torna especial sendo simplesmente você mesmo. Ele não se tornou especial para mim só porque era bombeiro, um herói salva-vidas, um bom atleta e esportista, ou um torcedor do Internacional que tomava tanta cerveja quanto eu. Gerson era especial porque era meu amigo, e a saudade eterna que vou sentir dele está associada aquele sentimento que falei no começo desse texto, que só tem quem sente a falta de alguém, mas também de algo, pois Gerson simboliza para mim épocas e lugares. Posso até me atrever um exercício de imaginação e pensar o que diria o Gerson na minha frente, ao ver um cortejo tão bonito em seu funeral. Talvez ele dissesse: "Bah, tchê! Mas tudo isso pra mim?!". A imagem que vou congelar em meu cérebro por toda a vida e repassar ao meu filho é que o avô dele era um cara tão especial, justamente por ser esse pessoa tão simples, de uma Rio Pardo simples e povo hospitaleiro, que aprendi a amar.

Creio que o Gerson se foi dessa vida realizado, com sua esposa querida, as filhas criadas, feliz com seu neto e louco para retornar às praias potiguares, para pegar umas ondas ou correr ao redor da via costeira. Ele faleceu no lugar e na função que gostava, acompanhado de seus colegas de profissão que, pelo que soube, o amavam ou admiravam da mesma forma que seus amigos e familiares. Infelizmente, o caminhão dos bombeiros que ele dirigia por mais de vinte anos, acabou contribuindo, como um destino divino, para que sua morte ocorresse e assim ele pudesse passar para o lado dos anjos, onde outros heróis celestiais estão a nos proteger o tempo todo. Fica registrada minha homenagem e um tributo para meu filho, Miguel, e meus descendentes, para que saibam que carregam no sangue o legado de uma extraordinária pessoa que existiu, em 49 anos bem vividos. Meu abraço e beijo  todo especial a minha sogra, Cecília, leitora de meus textos e assim como suas filhas, uma linda e singela boneca, que perdeu seu amado esposo e companheiro! Meu carinho todo especial a minha querida Vó Traudi, seu esposo e também muito querido Caloca! Meu abraço forte a minha cunhada, Alícia, que praticamente vi crescer e que, com certeza, já está se tornando uma mulher honrada e grande companheira como foi seu pai para sua mãe! Repasso minhas lágrimas e meu abraço enlutado a todos os irmãos: Cesár, Geraldo, Mano, Cesinha, Fabiane e Eduardo!! Aos cunhados Moisés, Ronaldo, Teca e Eraldo. Aos sogros Romualdo e Romilda! Peço que me perdoem se esqueci de mencionar alguém aqui!! E, finalmente, escrevo estas palavras para minha esposa Stella, dizendo o quanto a amo, e o quanto estou sofrendo, reiterando o que lhe disse no dia de nosso casamento, de que, nesse momento de sofrimento, o que quero é continuar lhe amando tão intensamente quanto lhe amei desde o dia que decidimos ficar juntos e fazer nossa família. Peço a ela perdão em todos os momentos em que não fui, poderia ter sido ou não serei um marido tão 100% quanto foi o Gerson para a mãe dela; mas, saibam que, é por meio da escrita, que tenho uma forma de extravasar uma tristeza tão grande que sinto no peito, que só será vencida pela alegria, de me lembrar a todo momento que meu amigo Gerson existiu, e que uma amizade bonita e notável ainda vai ser cantada e escutada por muitas e muitas gerações.

Como eu havia dito no começo, saudade também vem da palavra "salvação". Creio que, como salva-vidas, Gerson veio para o mundo para se tornar um desses salvadores, e, nessa condição, Deus o chamou para salvar mais almas lá no céu. E o que eu teria pra  dizer a ele, nesse momento é: "VÁ EM PAZ MEU AMIGO, E CONTINUE A NOS SALVAR JUNTO COM SEUS COMPANHEIROS ANJOS, POIS UM DIA NOS REENCONTRAREMOS DE NOVO, NUMA GRANDE FESTA". Agora, ao menos eu sei o que é saudade, e saudade chama-se GERSON LUIZ KLAFKE!!


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

ARTIGO: Se o marxismo é o ópio dos intelectuais, o capitalismo é a cocaína dos neoliberais!

Recentemente foi relançada  a grande obra "O Ópio dos Intelectuais", do célebre sociólogo francês do século XX, Raymond Aron (1905-1983). No livro, escrito originalmente em 1955, Aron expõe nas entrelinhas porque rompeu com grandes intelectuais de sua época, como Sartre e Merleau-Ponty, e sob o pressuposto de denunciar os abusos totalitários do stalinismo e diante da adesão de muitos pensadores europeus ao chamado eurocomunismo, ele tentou dissecar os porquês da simpatia de boa parte da academia e do segmento universitário às posições políticas de esquerda.

Antes de ser um crítico da esquerda, Aron era um crítico do marxismo, principalmente na sua forma mais partidarizada e autoritária, representada pelo Partido Comunista Soviético e seus métodos de recrutamento, baseado num stalinismo que identificava a luta de classes como uma verdadeira crença religiosa a ser seguida, e a vanguarda revolucionária, representada pelo partido, como os santos da Revolução proletária. O livro foi publicado, antes da descrição dos crimes praticados durante o regime totalitário de Stalin, na União Soviética, por seu sucessor, Nikita Kruschev, no XXII Congresso do Partido Comunista, e parecia ter um tom premonitório: os comunistas eram os inimigos da democracia. Só que, aqueles que hoje reeditam e propagandeiam sua obra, na tentativa de criticar duramente todos os que assumem posições políticas de esquerda, esquecem-se da conjuntura e do todo o contexto político global em que foi publicada a obra do pensador francês, bem diferente dos dias globalizados de hoje.

Na época de Raymond Aron, os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, estavam no apogeu da "Guerra Fria"; período conhecido nos livros de história como o de uma tensão geopolítica constante, de conquistas de territórios, por meio da revolução, da contrarrevolução, espionagem e fomento de conflitos, competição desmedida, e, principalmente, da propaganda entre dois mundos ideológicos gravitados em torno de nações com visões de mundo e sociedade totalmente diversas. Como peças em um tabuleiro, as nações do planeta, inclusive o Brasil, viam-se disputados por esses dois grandes grupos, que como num jogo de futebol, representavam, de um lado, o "império do mal" comunista, pintado nas cores totalitárias do stalinismo, ou o "reino da liberdade" capitalista dos norte-americanos, da riqueza, democracia e do livre consumo dependendo do ponto de vista e posição política adotados.

Entretanto, apesar de diagnosticar com sensatez e acuidade histórica todos os abusos do sovietismo, e denunciar as revoluções populares que desaguaram em ditaduras, como o caso emblemático de Cuba e da própria União Soviética, creio que Aron peca, principalmente, por uma falta de honestidade intelectual, como pensador de seu tempo. É inquestionável que a intensidade das paixões políticas do século XX, fermentadas por ideologias, serviu para um certo emburrecimento, quando não uma cegueira de boa parte da comunidade acadêmica internacional. A esquerda militante classista, inspirada em grandes líderes de seu tempo, como Stalin na Rússia, Mao-Tsé-Tung na China, Fidel Castro em Cuba ou Ho-Chi-Min, no Vietnã, viu o sonho de uma sociedade mais justa terminar sob a bota de tiranos, na formação de ditaduras que eram somente engrenagens opressoras de um partido sobre o povo, e não do proletariado sobre seus algozes. No Brasil, durante décadas, Luiz Carlos Prestes foi a expressão mais imediata do líder político da vanguarda, que, como um grande timoneiro, conduziria a classe operária ao paraíso do fim da opressão burguesa-industrial. A História mostrou um resultado diferente, é verdade, mas a direita conservadora ou neoliberal, também teve seus ídolos, que também fracassaram na tarefa de conduzir uma sociedade de "homens livres" à glória da acumulação individual de capital, no reino da felicidade do mercado. Seus ícones como Ronald Reagan, nos Estados Unidos da América, Margareth Thatcher, na Inglaterra, ou Jacques Chirac, na França, não conseguiram demonstrar que os sistemas que defendiam eram melhores, seja pela intensa desigualdade social que criaram e mantiveram (a greve dos mineradores contra o governo Thatcher, na Grã Bretanha, foi um exemplo disso), seja pelos governos autoritários que respaldaram, financiando ditaduras militares e grupos contrarrevolucionários somente para desestabilizar (ou até mesmo destruir) governos de esquerda, democraticamente eleitos, nos países latino-americanos e africanos, como foi o caso do financiamento do sangrento golpe no Chile, em 1973, com a deposição e morte do presidente democraticamente eleito, o socialista Salvador Allende, e ascensão do ditador Augusto Pinochet.

Para mim, a principal observação que faço à crítica de Aron é que, em sua preocupação de querer parecer um brasileiro instruído, militante político tucano de classe média supostamente "em cima do muro",  e espectador da rede Globo,o pensador francês acabou por omitir talvez um dos maiores dilemas e a grande sacanagem do capitalismo, que o tão criticado Karl Marx pôde diagnosticar tão bem: o fenômeno da exploração.

É a exploração, seja a econômica nos tempos da revolução industrial de Marx, ou mesmo a que se dá hoje em tantos outros aspectos, como a exploração social, cultural, midiática e até sexual, que o capitalismo, enquanto sistema econômico, encontra seu cerne e seu grande motor motivador. Hoje, os teóricos e jornalistas da Nova Direita brasileira ou setores neoliberais de todo o mundo exortam o quanto a Inglaterra, país que deveria ter sido o berço do proletariado revolucionário, protagonizado por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", e que poderia ter sido a grande vanguarda, a grande nação porta-voz do Novo Mundo da utopia socialista, tornou-se uma emergente e forte nação capitalista, onde a exploração do homem pelo homem cedeu espaço à pujança e a obtenção de direitos sociais, como saúde, moradia, emprego e educação, sem que fosse necessário abolir a propriedade privada e instituir uma ditadura. Esses mesmos defensores do modelo capitalista britânico ficaram chocados quando os ingleses decidiram em plebiscito não mais participar da União Europeia (e agora, José?). O problema é que esses mesmos leitores e divulgadores dessa crítica jogam para o tapete um outro segmento tão ou mais explorado, que fomenta hoje a maior parte dos problemas da Europa atual: os imigrantes.

Assim como os pensadores e intelectuais esquerdistas teriam o marxismo como sua pseudoreligião, cegados ideologicamente, segundo a crítica de Aron, a um determinismo irracional, quase positivista, de aceitar como crença uma inevitável condução da sociedade ao socialismo, os apologistas da direita, especialmente os representantes de doutrinas liberais e economicistas, acreditam ainda hoje que o capitalismo é a solução natural para resguardar um reino da felicidade baseado na liberdade individual, pelo incentivo à livre iniciativa. Permeada de um completo darwinismo social, encontrado antes na teoria de Spencer, a doutrina liberal ou neoliberal demonstrou que, de moderna não tem nada, e na verdade é tão antiga como o pensamento escravagista ou feudal, uma vez que pressupõe uma ordem social entre dominadores e dominados. Afinal, enquanto alguém lucra e desfruta das benesses materiais, outro tem que trabalhar e produzir pra sustentar esse lucro. Não existem banqueiros sem funcionários, não existe a fábrica e nem os industriais sem os operários e não existe o escritório do chefe, sem seus subordinados, numa estrutura supostamente imutável, como pensava o filósofo conservador Edmund Burke, onde uns nasciam para servir, outros para dominar. Até mesmo no cinema, diversos filmes de ficção científica, clássicos ou inspirados em histórias em quadrinhos, revelavam essa visão natural de uma sociedade de classes dividida entre interesses antagônicos, onde uns subjugam para não serrem subjugados. Entretanto, no lugar da aliança de classes pensada no filme Metrópolis do cineasta alemão Fritz Lang (1927), deu-se a rebelião e o conflito, como aquele observado nas cenas do filme Expresso do Amanhã (2013), do cineasta coreano Jo-Hoo Bong. Filmados em épocas distantes, estas duas obras cinematográficas representam bem uma realidade de revolta com o sistema capitalista que vinha desde a Comuna de Paris, do século XIX, passando pela revolta dos marinheiros russos no Encouraçado Potenkin, em 1905, até chegar aos Occupy Wall Street, contra a expansão capitalista globalizada dos dias de hoje, gerando um futuro distópico, onde, mais uma vez, os menos abastados economicamente são os mais oprimidos politicamente, porque são continuamente escravizados, dentre as engrenagens medonhas de um sistema que, na paródia da máquina (um robô, no filme de Lang, e um trem, no filme de Bong),em contrapartida, lhes vende a imagem de um sistema democrático e protetor.

E qual a solução para o livro de alguém que denuncia um embuste, quando na verdade sua própria crítica do embuste também é embusteira? O  "Ópio dos Intelectuais" denuncia uma droga que entorpecia o pensamento dos intelectuais do século passado, sem lhe mostrar o antídoto, revelando, na verdade, uma postura passiva de aceitar as coisas como elas são, limitando-se a simplificar o debate, ao dizer que a história não se resume a luta de classes. Ora, ao elogiar o americanismo, menos como ideologia e mais como um sistema de conceitos como o de respeito à Constituição e à liberdade individual, o culto da ciência e da eficácia, Aron desdenha do pensamento europeu (notadamente o Francês) e exorta um modo de produção que, também não deixa de ter ares de um culto. Nesse sentido, o teórico francês propõe substituir, tão e simplesmente, um ópio por outro.

Ora, sou mais simpático ao livro "Multidão" do pensador italiano Antonio Negri, feito às quatro mãos juntamente com o pesquisador norte-americano, Michael Hardt. Nesse livro, os autores reconhecem que a velha dicotomia marxista entre burguesia e proletariado é insuficiente para se compreender as diversas facetas da desigualdade entre os homens nos dias de hoje, face a pluralidade cultural e social. Mas, ao falar que hoje é mais conveniente falar de uma estrutura social em redes do que em classes, os teóricos citados não retiram da pauta da sociedade a luta contra a exploração e todas as formas opressoras de dominação. Isto implica em falar de uma opressão tanto do capital econômico, quanto de um capital imaterial, intelectual. A opressão de gênero, racial e de orientação sexual soma-se a opressão de classe, e a crítica marxista sobre as formas de opressão ainda persiste, mesmo que Raymond Aron tentasse "tapar o sol com a peneira", ao propor a solução individualista do "intelectual responsável", aquele que participa dos partidos, mas prioriza aqueles que mais valorizem o homem. O intelectual de Aron é aquele que não limita a assinar manifestos contra as injustiças, participa das ações políticas, mas não se vincula a partidos ou Estado algum. Essa alegoria poderia estar presente nas "Marchas de Junho" de 2013, quando milhões de pessoas, sem vínculos de ideologia ou preferência política, lotaram as ruas dos grandes centros urbanos do Brasil, numa onda espontânea de grande manifestações e protestos de rua. Entretanto, tal figura seria suficiente num período de radicalização política? Não teria ele que assumir um lado?

Insisto em dizer que a obra de Aron é datada, por conta de que o vibrante sociólogo francês não teve tempo de viver para observar o apogeu da globalização, o fim do bloco soviético e da Guerra Fria, o rearranjo de forças políticas com a formação da União Europeia, a Guerra na Bósnia, o surgimento do terrorismo fundamentalista islâmico e nem os atentados às Torres Gêmeas no World Trade Center. Se ele tivesse visto tudo isso, talvez se juntasse a toda uma nova categoria de intelectuais, que descrentes tanto dos ideais da velha esquerda quanto da nova direita assumida, buscariam traçar terceiras vias possíveis, como teóricos da linha de Antony Giddens, ou mais radicais como Slavoj Zizek. Destaco aqui, como contrapartida ao pensamento esboçado no "Ópio", a relevante obra do pensador húngaro, Istváz Mészaros, "Para Além do Capital". No livro, o filósofo discute que o capitalismo fundou-se num tripé, formado pela aliança entre capital, trabalho e Estado. Assim, criticar o socialismo por defender um Estado social forte, é de uma incoerência suprema, tendo em vista que o capitalismo também necessita do Estado para sobreviver. Isso significa dizer que, se os bolcheviques, na Revolução Russa, tomaram de assalto o poder do Estado, para estabelecer um governo opressivo, os capitalistas neoliberais burgueses também não fizeram diferente, ao se impor pelo poder dos lobbies dos bancos e das grandes corporações capitalistas, vencendo eleições e estabelecendo governos protecionistas e predatórios do capital dos países vizinhos, especialmente os da América Latina, que resultam hoje num surto de imigrações clandestinas, dos expropriados mexicanos até seu poderoso país vizinho, atravessando a fronteira em busca de emprego e comida.

Também merece destaque para compreender melhor nossos tempos (e também saber como pensam os intelectuais de hoje) ler a célebre obra "O Capital no século XXI", do economista francês Thomas Piketty, além da obra de seu compatriota, mais à esquerda, Alan Badiou, autor de "A Hipótese Comunista". Em ambos os livros, seus autores buscam demonstrar que o capitalismo não é o "reino da felicidade" como apregoam seus defensores neoliberais. Na obra de Piketty, observamos que 10% dos mais ricos detém 60 a 70% da riqueza global. Isso significa dizer que, enquanto uma família passa fome na Somália, sem ter um pedaço de pão para comer, bilionários multiendinheirados, como Rupert Murdoch, do extinto semanário inglês News of the World e um dos magnatas da mídia mundial, sorvem vinhos caríssimos a bordo de jatinhos. Felicidade de uns, tristeza de outros? A ordem natural das coisas? Basta se esforçar para conseguir o que quer? Essa lorota liberal foi pregada deste os tempos de Adam Smith, o que demonstra que a cantilena capitalista de nova, não tem nada. Nem é nova a forma como a ideologia dos mais poderosos faz ver que errados são aqueles que se prendem a uma teoria política e econômica que propôs uma intensa revolução social, como se fosse uma crença, e não aqueles que defendem a manutenção de um modelo brutal e absolutamente injusto de exploração. "Não existe almoço grátis", dizem os capitalistas e articulistas de revistas como a "Veja". O almoço pode não ser de graça, mas a solidariedade é. Nesse sentido, até o Papa Francisco junta-se em sua crítica a uma cruzada anti-capitalista. Será que o Vaticano, com seu poder milenar, também foi contaminado pelo "ópio intelectual" do marxismo?

Já o livro de Badiou é excelente, por instilar no leitor uma curiosidade intrépida, ao propor uma retomada do termo "comunista", não mais como adjetivo, mas sim como um novo conceito histórico. Conterrâneo mais jovem de Aron e ainda em atividade, juntamente com Zizek e Negri, ao analisar os fracassos da experiência soviética e da Revolução Cultural chinesa, no século XX, Badiou utiliza-se de uma comparação científica com o "Teorema de Fermat", na matemática, que permaneceu sem solução durante três séculos, após várias experiências. Nesse sentido, fracasso não se confunde com abandono, no momento em que reiterar ou insistir numa experiência não significa necessariamente que se vá novamente incidir em erro. O "comunismo" enquanto hipótese é uma ideia política que ganha novos contornos no século XXI, e que não passa mais necessariamente por Estados ou partidos. É na mobilização social e nas novas formas de convivência civil que se pode conceber uma nova experiência que dê lugar a velhos esquemas opressivos de exploração.

Portanto, diante de um arcabouço teórico tão ou mais intenso do que aquele propagado pela Nova Direita e seus meios de comunicação, acredito ser um chamado à inteligência ter acesso a pontos de vista diferenciados, aguçados com a realidade atual de conflitos que vivemos, do que, simplesmente, reeditar e propagandear uma obra antiga, de um pensador que não concebeu os tempos vividos neste século, pois não teve tempo de viver pra isso. Isto é melhor do que, simplesmente, utilizar um livro  antigo de Aron como instrumento político, tão somente para desmoralizar o pensamento de esquerda. Nesse sentido, enquanto os intelectuais marxistas entorpecem-se de seu ópio ideológico, os de direita, defensores do capital, buscam endinheirados sua cocaína mental, achando que um sistema baseado na exploração é a única e melhor saída para a humanidade. Prefiro ficar nos meus vícios ideológicos do que ventilar nos meios de comunicação tanta besteira!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS: TÃO LONGE, TÃO PERTO!

A XXXI edição dos Jogos Olímpicos, em 2016, aconteceu pela primeira vez em um país do Hemisfério Sul. Para ser mais exato, no Brasil, na América Latina. O Rio de Janeiro, com sua paisagem paradisíaca (além da caótica e violenta vida urbana) foi cenário da edição mais marcante das Olimpíadas, para os brasileiros, desde sua primeira edição na era moderna, em Atenas, no ano de 1896, quando o barão Pierre de Coubertin teve a brilhante ( e diplomática) ideia, de reunir os povos mundialmente num evento que reproduzia os jogos realizados pelos gregos antigos, numa celebração esportiva que tomaria o lugar das guerras e proporcionaria uma abertura nas relações e trocas comerciais. O negócio deu tão certo que continua até os dias de hoje, com uma avalanche grandiosa de marketing e investimento público e comercial. Historicamente, o legado dos Jogos repercute no desenvolvimento econômico e social dos países que lhe foram sede de maneira positiva, e no Rio de Janeiro, mesmo com todos os nossos problemas, isso não poderia ser diferente.

São diversos e tantos aspectos que podem ser explorados, como retrospectiva e avaliação dessas Olimpíadas, exibidos à exaustão pelos meios de comunicação, que eu me vali de comentários distribuídos em 15 itens, para maior compreensão do leitor. Por isso, eu listo aqui, esquematicamente, os que, para mim, foram os fatos mais marcantes dessa Olimpíada:

1) O QUADRO DE MEDALHAS: A delegação brasileira de 462 atletas ( a maior da história) fez pouco em relação às Olimpíadas de Londres, em 2012, quando então o Brasil atingiu a sua marca histórica da maior quantidade de medalhas (seguindo o critério do Comitê Olímpico Internacional-COI), perfazendo, este ano, um recorde de 19 medalhas, sendo que 7 foram de ouro (em comparação com 5 de ouro em Londres), 6 de prata e 6 de bronze. A meta do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) era de que no Rio de Janeiro, o país ficasse no seleto grupo, entre as dez maiores nações do mundo, ganhadoras de medalhas nos Jogos. Nesse sentido, batemos na trave, ficando numa honrosa 13ª colocação, atrás de Austrália, Holanda e Hungria,  mas na frente de países europeus ou do hemisfério norte, alguns primeiro-mundistas e com grande investimento no esporte, tais como Espanha, Croácia e Canadá, e outros com tradição de medalhas,  como Quênia, Jamaica, e Cuba. Em relação a Jamaica e Quênia, vale salientar os destaques tradicionais de atletas africanos e jamaicanos no atletismo, nas corridas de curta ou longa distância, sempre disputando (e ganhando) medalhas de ouro, o que os bem posiciona no ranking, e ajudou seus países a crescer no quadro de medalhas; com a consagração de atletas como os velocistas Usain Bolt e Elaine Thompson, nos 100 metros rasos, e os quenianos, Asbel Kiprop, nos 1.500 metros e Vivian Cheruyot, nos 5.000 metros, nas modalidades masculinas e femininas, respectivamente. Cuba, por sua vez, vem demonstrando historicamente uma decadência esportiva no quadro de medalhas, que corresponde a profunda crise econômica que assola continuamente a ilha dos irmãos Castro, principalmente após o fim da Guerra Fria e a morte de seu principal apoiador, o líder venezuelano Hugo Chavez.

2) O "JAPA" DO TIRO: Assim como Guilherme Paraense foi o primeiro brasileiro a conquistar medalha para o Brasil (ouro) na história, em uma Olimpíada, atirando de uma pistola (nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em, 1920, no tiro esportivo), a primeira medalha olímpica para o Brasil, no segundo dia dos jogos, foi obtida por um jovem militar, descendente de orientais, com cara de jogador de "Pokemon Go", que conquistou a medalha de prata no tiro, na pistola de ar de 10 m, sendo superado apenas por um vietnamita. Felipe Wu bateu continência com satisfação ao receber sua medalha, enquanto a bandeira brasileira descia na cerimônia de entrega aos três maiores atiradores do torneio, e escreveu com seu prodígio mais um capítulo da participação dos brasileiros nos Jogos Olímpicos.

3) A CONQUISTA DA MOÇA QUE VEIO DA FAVELA REABILITA O JUDÔ: Se Sarah Menezes decepcionou no Rio de Janeiro, e o judô, modalidade esportiva que tradicionalmente traz medalhas para o Brasil em Olimpíadas, não teve lá seus melhores resultados, ao menos uma medalha de ouro foi pendurada no pescoço de uma moça negra, de origem extremamente humilde, que foi salva da pobreza na Cidade de Deus através de um projeto governamental, que a transformou em campeã olímpica. Rafaela Silva redimiu-se da decepção passada, quando foi desclassificada em Londres, para subir no pódio mais alto no tatame, conquistando a medalha de ouro. Assim como Felipe Wu, Rafaela ingressou nas Forças Armadas e foi aproveitada pelo Estado brasileiro para desenvolver seu potencial olímpico. Graças  a ela, deu-se mais uma prova de que inclusão social no esporte não é mero projeto, mas realidade. Que se continue assim!

3) A CONSAGRAÇÃO DOS SEMIDEUSES DO ESPORTE: A Olimpíada do Rio de Janeiro também ficará para a história como o evento esportivo em que se aposentaram no auge da fama e do vigor físico dois gigantes de suas respectivas modalidades: o nadador norte-americano Michael Phelps e o corredor jamaicano Usain Bolt. O primeiro, um verdadeiro super-humano nas águas, além de já ter sido considerado o maior atleta olímpico da história, com a maior quantidade de vitórias conquistadas, na Olimpíada de Londres, e que, no Rio, viu aumentar seu quadro impressionante de medalhas, conquistando o inédito tetracampeonato na natação, com medalha de ouro nos 200 metros medley, além de 23 medalhas conquistadas no total. Agora, se Phelps é considerado insuperável na água, o homem mais rápido do mundo em terra é Bolt. Com forma física impecável, disputando sua última Olimpíada, Bolt praticamente voou nas pistas da arena carioca, encantando o mundo inteiro com sua força física e carisma (a pose do "raio" que o celebrizou, não podia faltar). Ambos os atletas chegaram à maturidade, após passarem dos 30 anos de idade, ricos, famosos e consagrados, com famílias a sustentar e um séquito incalculável de fãs. Nesta Olimpíada Phelps e Bolt despediram-se do público de forma épica. As cenas do nadador norte-americano, chocando o mundo com suas impressionantes marcas na piscina, e Bolt, correndo com um sorriso no rosto, nos metros finais que o aproximavam da vitória, nos 100, 200 e 400 metros, são imagens que ficarão na memória de gerações para sempre, e eu tive o privilégio de viver para ver esses superatletas darem o melhor de si e transformar o esporte num verdadeiro espetáculo. Obrigado por tudo, Phelps! Obrigado, Bolt!! Com personalidades distintas, mas ambos carismáticos, estes dois esportistas são, de longe, os maiores e mais honrados personagens desta Olimpíada.

4) A DECEPÇÃO DAS ATLETAS BRASILEIRAS NAS MODALIDADES FEMININAS, COLETIVAS E INDIVIDUAIS: As apostas eram grandes, a esperança infinita, o rendimento alto, a torcida enlouquecida, e os resultados anteriores, impecáveis. Mesmo com todos esses ingredientes, as seleções de futebol, voleibol e handebol femininas não conseguiram chegar longe nessas Olimpíadas, perdendo a oportunidade de disputar medalhas. A seleção de futebol de Marta e Cristiane, bem que tentou, em duas dramáticas e consecutivas decisões de pênaltis, contra a Austrália, nas quartas de final, e contra a Suécia, na semifinal, mas não conseguiram, na segunda oportunidade, evitar a derrota e a perda de oportunidade de disputar a final olimpíca, além de desperdiçarem a possibilidade de obter a medalha de ouro, quando, desmotivadas após um retrospecto de vitórias, perderam a disputa da medalha de bronze para a seleção do Canadá. Talvez o único gostinho de consolação para as jogadoras brasileiras foi ver a fragorosa derrota das algozes norte-americanas, na primeira fase do torneio, com direito a um "frango" da tão bonita quanto desbocada goleira Hope Solo. 

Mas a derrota sempre tem um gosto ruim, principalmente para o basquete brasileiro. Nem chegando à sombra do que era uma seleção olímpica nos áureos tempos de Paula, Marta e Hortência, o time  brasileiro de basquete feminino, que veio para as Olimpíadas, somente veio para perder. Não conseguiram ganhar um jogo sequer, sendo eliminadas precocemente na primeira fase do torneio.  O handebol feminino, campeão mundial, fez mais bonito, chegando a ganhar três partidas consecutivas, até ser eliminado nas quartas de final pela forte seleção dos Países Baixos.

Entretanto, o caso mais traumático de derrota de uma equipe feminina nos esportes coletivos foi a inesperada queda diante da seleção de vôlei contra a China, nas quartas de final do torneio olímpico. A equipe das bicampeãs olímpicas Sheila, Jacqueline e Fernanda Garay tinham eliminado por 3 sets a 0 todas as equipes que pegaram pela frente, na primeira fase (inclusive a China), e foi impressionante como a equipe do vitorioso técnico José Roberto Guimarães viu o sonho do tricampeonato desabar diante da eficiência do contra-ataque chinês. A comovente cena de ver o neto de 6 anos de Guimarães, descer chorando as arquibancadas do ginásio Maracanãzinho, coberto com uma bandeira do Brasil e correndo em direção ao avô para abraçá-lo, também resistiu nas minhas retinas e na minha mente, como uma das imagens dessa Olimpíada.

Até mesmo no vôlei de praia, carro-chefe de uma modalidade que nasceu nas areias das praias cariocas, as mulheres não tiveram sucesso em ganhar uma merecida medalha de ouro. A dupla Ágatha e Bárbara sucumbiu na final diante das alemãs Ludwig e Walkenhorst, que, muito melhores, venceram a disputam por dois sets a zero, deixando as brasileiras com o mérito de permanecer apenas com a medalha de prata. Mesmo na disputa do bronze, o Brasil também não conseguiu se impor, com a dupla Larissa e Talita, perdendo a disputa para a dupla feminina norte-americana, não conquistando medalha.

Mas, talvez, a meu ver, a maior decepção individual feminina desses jogos não foi a derrota da judoca Sara Menezes, medalhista de ouro em Londres e primeira brasileira campeã olímpica da modalidade, que, desta vez, não conseguiu repetir o feito e acabou saindo contundida na disputa dos pesos ligeiros do judô. O que mais me impressionou foi mais uma derrota retumbante no salto com vara da saltadora Fabiana Murer, campeã mundial em 2011, na sua modalidade. As expectivas eram grandes em relação a ela, até porque sua principal e célebre adversária, a campeã olímpica russa Yelena Ysimbaeva, foi proibida de participar dessa edição dos Jogos, por conta das denúncias de dopping no atletismo de seu país e a polêmica proibição do COB da participação da Rússia, por conta dessas revelações. Talvez por conta disso, muitos esperassem que Murer viesse à forra, após duas decepcionantes participações nas Olimpíadas de Pequim e Londres, onde, em ambas, a atleta brasileira era favorita. Desta vez, não foi por conta do desaparecimento de suas varas e nem por conta do vento, que a saltadora Fabiana Murer não viu a cor de uma medalha. Aos 35 anos, lesionada com uma forte hérnia de disco e quase sem condições de competir, a paulista não conseguiu sequer passar da fase eliminatória, errando seus três saltos e anunciando, desapontada, sua possível aposentadoria. Realmente, uma pena!

5) A DECEPÇÃO BRASILEIRA NA NATAÇÃO: Enquanto norte-americanos como Michael Phelps e Ryan Lochte brilhavam na natação, nossos nadadores, tanto na equipe masculina quanto na feminina, decepcionaram nos jogos, sem levar medalha alguma. O esforço de Thiago Pereira e a atuação de Joanna Maranhão nas piscinas olímpicas merecem respeito e reconhecimento, mas a grande falta sentida foi mesmo de César Cielo, primeiro brasileiro campeão olímpico dos 50 metros, em Pequim. O drama de Cielo começou antes dos Jogos, quando ele sequer atingiu a marca para ser classificado para as Olimpíadas em seu próprio país, o que levou a um período de depressão e reclusão, recusando-se até mesmo a carregar a tocha olímpica. Num país de herança subdesenvolvida, ter medalhistas olímpicos em modalidades nobres e tradicionais do evento esportivo mais importante do mundo, como a natação, ginástica e atletismo é quase uma questão de honra, e, não ter ganho uma medalhinha sequer na citada primeira modalidade, deve ser motivo de preocupação (e muito bronca) para o Comitê Olímpico Brasileiro.

6) O CHORO DO FRANCÊS E A FORÇA ATERRORIZANTE DAS VAIAS: De um lado, um campeão mundial destemido, europeu, oriundo de um país desenvolvido, aos 28 anos no auge do vigor físico, arrogante, concentrado, sabedor de seu talento e limitações, mas seguro da vitória, após superar um recorde histórico em sua modalidade, que tinha permanecido intocável por mais de vinte anos. Do outro, um jovem de origem humilde, nascido e criado num país da subdesenvolvida América Latina, egresso das categorias juvenis, com ótimos resultados, munido de um bom treinador, e aos 22 anos cheio de energia e aberto às oportunidades, inclusive, de ganhar uma medalha de ouro. Nesse duelo improvável, onde surgiu de forma fascinante mais um campeão olímpico, pude acompanhar, como num roteiro de filme, a espetacular vitória do saltador Thiago Braz, sobre o favorito francês Renauld Lavillenie, no salto com vara. Como todo brasileiro que assistia os jogos, sabedor da falta de tradição e da raridade do Brasil em conquistar medalhas de ouro no atletismo, eu jamais imaginaria que, para minha (grata) surpresa, o competidor brasileiro iria tão longe, e, pior, geraria uma das cenas mais extraordinárias que já vi numa arena olímpica. E começou tudo de forma tímida, mas marcante, precisa, progressiva. Enquanto o brasileiro procurava manter e superar suas marcas, junto com os demais competidores, pulando 4,90; 5,20; 5,80 metros, o competidor francês permanecia impassível, sem cumprimentar ninguém, introspectivo, sereno até, como que aguardando o resultado inevitável que lhe daria a vitória. Nesse dia, pularam, entre várias nacionalidades, competidores que vinham da Polônia, China, Rússia, Ucrânia, mas, nos últimos saltos, somente ficaram entre os três últimos a ganhar medalha, um norte-americano, um francês e um brasileiro. Da arquibancada, o técnico de Thiago Braz, o idoso e experiente técnico Vitaly Petrov (que tinha sido o mesmo de Sergey Bubka, até hoje uma verdadeira lenda do esporte, ganhador da medalha nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e 11 vezes campeão mundial), orientava seu jovem pupilo entre os saltos, permanecendo sem esboçar emoção alguma, enquanto seu atleta pulava. Até que veio a mágica do esporte. Pedindo para saltar uma altura que nunca havia superado, os 6,6 metros, Thiago conseguiu a proeza de superar o salto de seu adversário francês, que já havia pulado 5,98. Lavillenie sentiu a pressão. Enquanto Thiago Braz marcava um recorde olímpico, o competidor francês, campeão mundial em sua modalidade, tentou fazer a mesma marca que já havia feito in door, de 6, 16m, superando o recorde anterior de 6,15m de Bubka. Não deu certo. Na única chance que tinha, o francês perdeu, e o Brasil explodiu em festa com mais uma medalha de ouro olímpica. Não ajudou o fato de Lavillenie ter culpado a torcida brasileira, que o vaiou constantemente, enquanto ele tentava acertar seu último salto, ao tentar repreender o povão, mostrando sua indignação, com o dedo polegar voltado para baixo. O que se seguiu, então, foi um espetáculo de glória para o atleta brasileiro, e de vergonha para o francês.

Não adianta explicar ao brasileiro que, em eventos esportivos internacionais realizados no mundo, o silêncio da plateia é fundamental, em algumas modalidades, principalmente no salto com vara, que, praticado ao ar livre, além de contar com a direção e força do vento, ainda precisa contar com a concentração de seus competidores. Revoltado e inconformado com a derrota que o levou a medalha de prata, Renaud Lavillenie chegou a comparar, com frases infelizes na imprensa, as vaias da torcida brasileira as do público alemão, nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, quando o atleta negro, norte-americano, Jesse Owens, conquistou a medalha de ouro no atletismo, sob reprovação de Hitler e do todo o staff nazista. Ora, os brasileiros não tem nada contra Lavillenie e nem contra os franceses, e, na verdade, não tem nada contra jogador algum. Aqui, vaia-se na hora em que nossos atletas estão em campo e não correspondem ao esperado, assim como vaiamos o time adversário, como forma de dar força ao nosso time e não para desmerecer ou desprestigiar o rival. Faltou essa lição de antropologia ao nosso pobre Lavillenie, que acabou pagando o pato por toda sua empáfia antes e depois da derrota para o brasileiro. Na entrega de medalhas, cheguei a ter pena do coitado que, um dia, queria ser campeão olímpico nos jogos brasileiros, e, ao ser vaiado na premiação, caiu em prantos, não resistindo à pressão, na cerimônia de entrega de medalhas. Foi preciso o próprio Sergey Bubka, em pessoa, aparecer na área, diante das câmeras de jornalistas do mundo inteiro, para desfazer o mal estar, reconciliando o francês com o brasileiro, ao menos temporariamente. Fica a lição para o campeão francês, que uma medalha de ouro não se ganha de véspera; e para o brasileiro: aproveite a oportunidade, pois muitas ainda estão por vir.

7)  A REDENÇÃO DE DIEGO HYPÓLITO E A CONSAGRAÇÃO DE ARTHUR ZANETTI NA GINÁSTICA: Devido ao seu alto grau de exigência, a ginástica olímpica não é fácil pra ninguém. Principalmente para um ginasta experiente, bicampeão mundial, como Diego Hypólito,  na busca de uma medalha em Olimpíadas, que viu dois fracassos olímpicos em duas edições anteriores dos jogos, estragarem seu favoritismo de forma dramática. Em Pequim, ele caiu de bunda, na final do solo masculino no tablado, e, em Londres, caiu novamente, durante a execução de suas manobras acrobáticas, o que levaram a perder o sonho de levar uma medalha para casa. Oito anos depois do vexame de Pequim, que lhe rendeu "memes" e zombarias em programas humorísticos, finalmente Diego se superou no Rio de Janeiro, e mostrou o grande ginasta que é. Aos 30 anos, tornando-se o mais velho competidor da final, Diego Hypólito conseguiu a medalha de prata, numa execução quase perfeita de seu solo (digo, quase, por conta da pontuação dos juízes, visto que sua apresentação foi impecável). Depois de muita terapia e superando uma depressão, Diego deu uma lição para o Brasil e uma bofetada moral nos seus críticos, dando a volta por cima, fazendo a alegria não apenas de sua família, como sua emocionada irmã, a ex-ginasta, Daniele, mas de toda a torcida brasileira, que soube reconhecer, finalmente, o seu astro. Parabéns, Diego! Medalhista olímpico. Ele, seu colega no solo Arthur Nory, que conquistou a medalha de bronze na mesma prova e  o ginasta Arthur Zanetti (medalha de ouro em Londres) que conseguiu também a prata nas argolas, são o exemplo de atletas brasileiros que, hoje, compõem um seleto e pequeno grupo dos melhores ginastas do mundo, de renome internacional. Pode-se dizer que atualmente o Brasil é uma das potências olímpicas na ginástica.

8) DESCENDENTE DE ÍNDIO, E ASTRO BRASILEIRO DA CANOAGEM COM TRÊS MEDALHAS: O nome dele é Isaquias Queiroz. Além do cabelo engraçado, com a franja alisada, ele tem a pele morena, cor de urucum, herdada de seus descendentes indígenas no interior da Bahia, um rim a menos, e, oriundo de uma família de pescadores,  o atleta brasileiro da canoagem renovou a modalidade para o povo brasileiro. Nas 3 provas que participou (um bronze canoa individual 200 metros, e prata na canoa individual 1000 metros e canoa dupla, 1000 metros, juntamente com o conterrâneo, Erlon de Souza Silva), Isaquias tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas numa mesma Olimpíada (duas de prata e uma de bronze). O ouro não chegou ainda para ele, apesar de ter chegado perto, mas, com somente 22 anos, tudo leva a crer que ouviremos falar muito de um rapaz que representa uma das faces (e a alma) do povo brasileiro.

9) QUANDO O SOBRENOME (E O TALENTO FAMILIAR) FAZ A DIFERENÇA: Foi criada muita expectativa quanto à derradeira participação do veterano velejador e campeão olímpico brasileiro, Robert Scheidt, nesta Olimpíada, que, aos 43 anos, tentaria igualar os feitos nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e Atenas, em 2004, no iatismo. Infelizmente, não houve mais condições para o citado atleta conquistar medalhas nas águas da Baía da Guanabara. Entretanto, na modalidade da vela, o Brasil não ficou de mãos abanando, e coube a Martine Grael, acompanhada de Kahena Kuzne, formarem a dupla vitoriosa de velejadoras que conquistaram a medalha de ouro do iatismo, na classe 49 FX. Martine, filha de outro campeão olímpico, Torben Grael, honrou não apenas o sobrenome familiar, provando que "filha de peixe, peixinha é!", mas também honrou o país com seu feito histórico. Assim, uma dinastia de velejadores mantém-se firme para disputar o ouro em outros jogos.

10) FINALMENTE O RECONHECIMENTO DO BOXE: Nos Jogos Panamericanos as medalhas de ouro já tinham chegado, mas foi preciso ter uma Olimpíada no Rio de Janeiro, para que o boxe brasileiro fosse finalmente reconhecido como potência olímpica mundial, com a conquista da medalha de ouro pelo pugilista Robson da Conceição, na categoria de peso ligeiro. Em Londres, o Brasil tinha chegado perto da cobiçada medalha dourada, com dois irmãos lutadores: Esquiva (prata) e Yamagushi (bronze) Falcão. Mas, desta vez, na Cidade Maravilhosa, foi a vez de Robson levar para o Brasil um merecido ouro, após derrotar o favorito, o cubano e campeão olímpico Lázaro Álvarez, nas semifinais da competição. Aliás, a rivalidade entre Cuba e Brasil já se tornou histórica com os últimos confrontos olimpícos, e o êxito de nossos lutadores revela um futuro de glórias futuras na modalidade.
11)O ESCÂNDALO DE RYAN LOCHTE: Belo, talentoso, medalhista olímpico, amigo de Michael Phelps e a segunda maior estrela da natação mundial, o nadador norte-americano Ryan Lochte tinha tudo para ter saído do Brasil deixando uma boa impressão, com as medalhas de ouro conquistadas no revezamento 4 X 200 metros e prata nos 200 metros medley. Entretanto, um incidente com ares de reality show tornou-se um dos maiores escândalos de celebridade do ano, capaz até mesmo de ofuscar, durante alguns dias, a festa olímpica de Phelps, dado o caráter tragicômico do ocorrido. Numa suposta "saidinha" para a farra, da Vila Olímpica, Lochte fez tudo o que faz um cara jovem, bonito e famoso, quando está de folga, após ter ganho medalhas olímpicas: festejar (e, no caso dele, acompanhado de uma bela mulher). O problema é que ele se esqueceu de avisar a noiva nos EUA, e além de ter pulado a cerca, o norte-americano meteu-se numa enrascada policial desnecessária, ao mentir para as autoridades no seu retorno ao alojamento, pela madrugada, após ter voltado embriagado de uma festa, onde, alegou que ele e seus companheiros de equipe tinham sido assaltados e mantidos reféns por um curto período, sob o cano de uma arma. Tudo mentira! A molecagem só durou o tempo suficiente para que a Polícia Federal entrasse no caso, tivesse acesso a imagens de vídeo, e tivesse constatado que tudo não passou de uma farsa, montada por Lochte e seus amigos, com direito a cenas de uma loja de conveniências e um posto de gasolina depredados, além da briga com seguranças. Por conta da mentira, já desembarcado em solo americano, o nadador teve que pedir desculpas publicamente, além de perder, de cara, três patrocínios importantes, constranger todo o Comitê Olímpico norte-americano pelo vexame em terras cariocas e estar sujeito a suspensão de suas atividades esportivas. Creio que Ryan Lochte é um cidadão estrangeiro que não vai querer pousar no Rio de Janeiro nem tão cedo!


12) O ÊXITO BRASILEIRO ( E AS DERROTAS) NOS ESPORTES COLETIVOS: Qual brasileiro que gosta de jogos não fica feliz quando o principal esporte coletivo nacional conquista a medalha de ouro numa Olimpíada? Qual brasileiro não se alegra mais ainda se, no dia seguinte, o segundo maior esporte coletivo nacional também ganha o ouro? Foi isso que aconteceu no penúltimo e último dia dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No sábado, dia 20 de agosto, às 17 horas, a seleção brasileira de futebol, capitaneada pelo astro do Barcelona, Neymar, finalmente desencantou e fez às pazes com a torcida brasileira, após um fatídico 7 X 1 na Copa do Mundo, também em solo brasileiro, em 2014, que entrará para os livros de histórica como a maior vergonha nacional de um país numa partida em um Mundial de futebol. Deus (e para os cronistas, os "deuses" do futebol) quis que a final olímpica fosse justamente com a Alemanha, o algoz de 2014, e, atuando não mais como meninos chorões, mas sim como jogadores profissionais de uma equipe nacional, a seleção brasileira empatou no tempo normal em 1 X 1, com direito a gol de Neymar, e na disputa de pênaltis prevaleceu o Brasil, sendo Neymar, novamente, o autor do último gol que levou o Brasil, pentacampeão mundial de futebol, a finalmente carregar no pescoço a medalha de ouro, que os brasileiros deixaram escapar ao menos outras quatro vezes, em Jogos Olímpicos. O Rio de Janeiro foi palco, portanto, de uma redenção nacional no futebol.

Redenção também é a palavra que deve ser aplicada ao voleibol masculino, treinado mais uma vez pelo técnico campeão Bernardinho, em uma quarta final consecutiva da seleção brasileira, em Olimpíadas. Depois de Atenas, em 2004, quando o Brasil foi bicampeão olímpico, o país não conseguia a medalha de ouro, ficando com a prata, tanto em Pequim em 2008, quanto em Londres, em 2012, perdendo, respectivamente, para os Estados Unidos e para a Rússia. Mas foi justamente contra duas potências esportivas que o grupo de Bernardinho, contando com jovens atacantes, da nova geração do vôlei, como Wallace e Lucarelli, comandados por Bruninho, e uma atuação brilhante do experiente jogador Lipe, que, assumiu o protagonismo com seus saques matadores e elevou o moral de uma equipe inexperiente, o Brasil do voleibol reencontrou seu jogo.  Diferentemente das meninas da equipe feminina, que eram favoritas, os homens do voleibol saíram de fracassos seguidos em Olimpíadas e Ligas Mundiais, desacreditados na primeira fase do torneio no Rio, correndo o risco de serem desclassificados, antes de uma dramática partida contra França, e depois de uma atuação redentora contra a Argentina, quando os brasileiros recuperaram a moral perdida, ganhando a semifinal e final do vôlei de forma inesquecível, vencendo todos os sets dos jogos, com os resultados de 3 X 0 tanto contra a Rússia, quanto contra a poderosa Itália, na final do domingo, dia 21 de agosto. Enfim,o Brasil tornou-se tricampeão olímpico no voleibol masculino e potência mundial incontestável na modalidade. Foi a consagração não só do técnico, mas também do veterano líbero Serginho, retirado da aposentadoria para jogar mais uma (e a última Olimpíada), que, aos prantos, e abraçado ao filho pequeno, foi outra imagem singela do vôlei (somada a do técnico derrotado José Roberto, com o neto, no vôlei feminino), que deve ser gravada como imagem eterna e emocionante destes Jogos.

Também no vôlei, mas agora no vôlei de praia, finalmente a dupla Alison "Mamute" e Bruno Schmitt honrou  a fama e a tradição da modalidade, na terra em que ela nasceu, conquistando a final e a medalha de ouro, ao derrotar a dupla adversária italiana, tornando-se, também, campeões olímpicos. Com a proeza, a dupla brasileira conquistou um ouro olímpico que não vinha desde a dupla vitoriosa Ricardo e Emanuel, últimos campeões da modalidade na Olimpíada de Atenas, em 2004.

Agora, o que melou mesmo nesses jogos, desapontando muita gente (inclusive eu), enquanto fã de basquete, foi a seleção masculina, treinada pelo recém-demitido técnico argentino Rubén Magnano. A seleção campeã panamericana de 2013 não foi páreo para a Austrália, Croácia e Argentina, e acabou eliminada do torneio na primeira fase, ganhando apenas de Espanha e Nigéria. Ao menos o que valeu foi que a seleção de Nenê, Marcelo Huertas e Benite, e que perdeu Anderson Varejão (contundido antes da competição), foi a emocionante vitória contra a Espanha, vice-campeã da Olimpíada passada, liderada pelo famoso e veterano pivô, Paul Gasol. Também nesse caso, o fator torcida foi fundamental, e os desestabilizados jogadores espanhóis acabaram entregando o jogo aos brasileiros, nos segundos finais da partida. Quase que conseguíamos a classificação contra a campeã olímpica Argentina (famosa por ter o feito histórico de já ter derrotado os consagrados Estados Unidos numa Olimpíada), em duas prorrogações, mas acabamos deixando que eles vencessem no final, perdendo o sonho olímpico de mais uma medalha. O Brasil necessitará de muito trabalho até conseguir reerguer o basquete nacional.

No handebol masculino e no polo aquático, apesar da participação louvável de nossos jogadores, ganhando jogos importantes, não passamos das quartas de final, e o Brasil ainda deve medalhas importantes em ambas as modalidades, onde ainda não tem grande tradição.

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13) ESTRELAS DO PASSADO, COMO COMENTARISTAS NA SPORT TV: Só mesmo nessa Olimpíada tive a oportunidade de desfrutar de um end of the night de gala, após as transmissões dos jogos, acompanhando pela madrugada o programa de comentários sobre os jogos da Sport TV, que contratou como comentaristas internacionais, com direito a dubladores e tudo, algumas das maiores estrelas olímpicas do esporte na história. Nas noites destes Jogos, pude ver e escutar a inesquecível e simpática Nadia Comaneci, a lendária ginasta romena, campeã das Olimpíadas de Montreal, em 1976 (única nota "10" nas barras assimétricas, com execuções absolutamente perfeitas). Também foram convidados para comentar os Jogos do Rio, o velocista norte-americano Carl Lewis, campeão olímpico dos 100 metros na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, e seu compatriota, o mítico nadador Mark Spitz, campeão da natação nos Jogos de Munique, em 1972. Para completar o quadro de ilustres figuras que vi, já envelhecidas, mas ainda campeãs e carismáticas, participou dos programas de TV o grande campeão do salto em altura, o cubano Javier Sotomayor, ouro na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Quer time de comentadores melhor do que esse?

14) FESTAS DE ABERTURA E ENCERRAMENTO INESQUECÍVEIS: Afinal, não houve atentado terrorista, e nem a violência do crime organizado no Rio de Janeiro proporcionou surpresas desagradáveis, como uma escalada aterradora de crimes contra turistas ou atletas. Mantida em um forte esquema de segurança, a Vila Olímpica não se viu atacada por arrastões de bandidos, e, tirando o triste episódio midiático envolvendo o nadador Ryan Lochte, a imagem do Rio e do Brasil não ficaram arranhadas e apareceram bem na fita, em luzes, som e cores, para a imprensa internacional. Na verdade, para os gringos, a imagem do brasileiro enquanto povo festeiro, que gosta de samba e de um bom carnaval, acabou prevalecendo no cenário da maior festa carnavalesca do mundo, com direito a uma explosão da alegria esfuziante do povo brasileiro, na enorme festa nunca antes vista no estádio do Maracanã, cenário da abertura e do encerramento dos Jogos. Quem foi, gostou muito e, quem não foi, apreciou as imagens pela televisão, elogiando a organização. No final das contas, tudo acabou em festa, samba, suor e carnaval!! Ainda bem para nós!

15) AS LIÇÕES PARA O FUTURO: Agora, que venha Tóquio. A realização da Olimpíada no Japão já é um sólido projeto em 2020 para os brasileiros em geral e especialmente para o COB. Até deu vontade de conhecer pessoalmente a "Terra do Sol Nascente". Até lá, muito tem que ser refletido, sobre nossas derrotas e vitórias, e sobretudo qual será o principal legado que a Olimpíada deixou para o Brasil e para o Rio de Janeiro. Muito dinheiro foi gasto, investimentos foram feitos nos atletas olímpicos (e paraolímpicos), num país em crise política e econômica, e, resta saber, se dias melhores virão também para o esporte brasileiro. A meu ver, uma das lições mais importantes dos Jogos Olímpicos no Rio é que somos capazes, e não obstante a roubalheira na gestão dos negócios públicos, por administrações de governos duvidosos, tanto na seara municipal, quanto estadual e federal, somos capazes de fazer bonito com todas as críticas, e saímos daquele "complexo de vira-lata" nelsonrodrigueano. Agora, antes que eu me esqueça, "Fora Temer" e nos preparamos para conquistar medalhas no Japão. Até lá, Sayonara!!
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