sábado, 11 de abril de 2009

POLÍTICA RACIAL: Afinal, nas universidades, deve ter cota ou não????

Neste mês de abril a Comissão de Constituição e Justiça do Senado deve se reunir para discutir a proposta de expandir o sistema de cotas raciais, já existente nas universidades públicas estaduais ( como no Rio de Janeiro e na Bahia), para toda a rede pública de universidades federais do país, bem como para as escolas técnicas federais (as CEFETS), e para os colégios mlitares. O projeto prevê inicialmente uma reserva do percentual de 50% das vagas dessas instituições para alunos de escolas públicas (as chamadas "cotas sociais"), bem como desse contingente, 25% das vagas devem ser destinadas a estudantes com renda familiar de até um salário mínimo (até aí tudo bem!). Ocorre que o projeto também menciona que essas vagas reservadas devem ser destinadas a negros e indígenas.

Introduzido paulatinamente no país desde a última década do século passado, o sistema de cotas raciais no Brasil, destinando parte das vagas nas universidades públicas para descendentes de negros e indígenas, tem mantido acesa polêmica na opinião pública nacional, como também tem sido pivô de várias disputas judiciais. É comum se encontrar em qualquer sala de aula, manifestações contrárias e raivosas de estudantes não contemplados pelo sistema de cotas, e até mesmo daqueles que originalmente delas dependeriam, dizendo que a cota racial atrapalha ao invés de ajudar, uma vez que um aluno branco e pobre pode ter estudado na mesma escola pública que um estudante negro, ter tido as mesmas oportunidades, e mesmo assim ser preterido numa seleção para uma universidade, tão e simplesmente pela diferença da cor da pele, mesmo que esse aluno branco tenha apresentado um melhor resultado e uma melhor qualificação na seleção. Já do lado dos negros contrários às cotas, é comum também ouvir o argumento de que as cotas raciais instituem um racismo às avessas, fator difusor de maior preconceito, uma vez que o sistema não mediria a capacidade real dos estudantes negros em relação aos brancos, e, pelo contrário, ao se estabelecer cotas para o ingresso nas universidades, o poder público reconheceria não apenas o racismo, ferindo o princípio constitucional da igualdade, como também legitimaria a diferença social, afirmando pela própria lei que os negros são inferiores intelectualmente aos brancos, e, em função disso, necessitariam das cotas para "compensar" essa desvantagem racial e intelectual, permitindo-lhes um acesso mais fácil à universidade.

Também se encontra no meio estudantil posicionamentos plenamente favoráveis às cotas, seja entre alunos brancos ou negros. Mais propriamente entre os negros, escuta-se também discursos de que o sistema de cotas raciais não é ideal, mas necessário, tendo em vista a histórica situação de desamparo do negro e pobre no Brasil, dependente de escola pública, desde a tenra idade, e que não teve sequer condições de competir ou ter acesso à rede particular de ensino(bem) paga, onde a grande maioria dos estudantes brancos de classe média alta tiveram acesso e melhor qualificação para estudar e passar numa seleção para as universidades públicas (ainda hoje, as mais concorridas). Já outros alunos são mais pragmáticos e simplesmente dizem: "ahhh, tenho avô negro ou avó índia e minha pele é meio bronzeada. Se o sistema de cotas me favorecer, que bom!! Eu vou mais é aproveitar!!".

Em primeiro lugar, devo dizer que me sinto plenamente à vontade para discutir esse tema, levando em conta não apenas o fato de eu ser negro, ou, para uns, apenas um descendente típico de afrobrasileiros (pejorativamente chamado de "pardo" ou "mulato"), mas também porque essa discussão interessa-me como cidadão, pela sua repercussão social, e como técnico e estudioso do direito, por suas claras implicações jurídicas.

As chamadas "ações afirmativas" são produto dos movimentos de desobediência civil e reivindicação de direitos sociais, popularizados nas marchas conduzidas por líderes negros norte-americanos como Martim Luther King, nos EUA, na década de sessenta do século passado. Esses movimentos dedicavam-se a combater as leis segregacionistas, que estabeleciam direitos diferenciados e privilégios para representantes de uma raça (a branca), contra uma minoria de negros que não podia compartilhar, sequer, de um mesmo assento de ônibus ou entrada em um restaurante, quanto mais o ingresso em uma universidade. Foi nesse movimento que nasceram as propostas de cotas raciais no ensino público universitário, que hoje são adotadas por uma boa parte dos países onde há diferenças raciais e sociais gritantes.

Surge aqui então uma primeira dicotomia que precisa ser resolvida: a distinção entre segregacionismo X inclusão racial. Sabe-se que o mecanismo das cotas foi introduzido historicamente para combater a segregação pela via da inclusão; ou seja, se havia leis que estabeleciam direitos diferenciados e acesso privilegiado para alguém de uma cor, essas leis deveriam ser abolidas, e, em seu lugar, deveriam ser colocadas disposições que garantissem o acesso daqueles que outrora foram excluídos, no meio de um sistema não mais segregador. Foi isso que ocorreu na Índia, por exemplo, onde um sistema de castas milenar e enraizadíssimo na sociedade hindu começou a ir por terra mediante uma "ocidentalização" do direito local, prevalecendo o princípio da igualdade, onde membros de castas diferenciadas deveriam ter o mesmo acesso ao ensino público, independente de sua condição étnica ou social. É bem verdade que tais mecanismos não garantiram um maior desenvolvimento social à nação indiana e nem combateram a fome e a miséria galopantes que ainda hoje encontram-se presentes naquele país ( quem viu o filme ganhador do Oscar este ano,"Quem quer ser milionário", e deu olhada nas favelas de Mumbai, sabe do que eu estou falando). Portanto, na verdade, o sistema de cotas serviu mais como um "meio compensatório", do que propriamente como um instrumento real de conquista racial e integração social.

Agora, o argumento que me custa a calhar nos ouvidos é aquele de que no Brasil não haveria racismo, ou, menos do que isso, apesar de nossas diferenças raciais e sociais, a miscigenação aqui em terra brasilis seria tão grande, que hoje seria impossível estabelecer diferenças raciais num pais majoritariamente de mestiços. Aludem os defensores da miscigenação que, aqui em nosso país, não existiria uma consciência de raça, pois a nossa experiência histórica seria bem diferente da experiência norte-americana. Ahhh! tá! Mas ambos os países não foram escravocratas enquanto eram colônias de reinos europeus, e tanto lá na terra do Tio Sam quanto aqui, por séculos, os negros não foram desprovidos de condições sociais e econômicas, em detrimento de uma classe privilegiada branca? Ou será que estamos falando de outro país?? Os norte-americanos tinham a sua "cabana do Pai Tomás", nós, tínhamos o nosso "negrinho do pastoreio". Só falta tocar um blues para lembrarmos dos negros de lá, ou talvez um samba, para recordarmos dos negros daqui.


Eu teria aqui uma pilha de exemplos históricos comparativos para mencionar, a título de ilustração, na tentativa de explicar as diferenças entre os negros das plantações de algodão pincelados pelo escritor Mark Twain, na sua obra máxima "Tom Sawyer", na literatura norte-americana, em comparação aos "pretos tições" lidados por Gilberto Freyre por aqui, em sua ótima "Casa Grande & Senzala". Porém, ficaria muito chato! Já que estamos falando de sistema de cotas, competiria aqui estabelecer algumas desconstruções, de ambas as teses (favoráveis e contrárias) sobre as cotas raciais, explicitando alguns de meus pontos de vista, que podem ser úteis a quem se aventura a ler estas extensas linhas, e compartilhar das "conexões" que faço na leitura deste blog.

Ficando então nas diferenças básicas, eu diria que não é verdade que no Brasil o negro não tenha consciência de raça em função da miscinegação, e que por isso não seja conveniente (ou até depreciativo) defender políticas de inclusão social que levem em conta o componente da raça. Na verdade, todo negro ou descendente de escravos no Brasil sabe muito bem a extensão do papel da cor de sua pele, toda vez que é confundido com o zelador do prédio ao visitar um amigo no elevador, ter fama de ser pagodeiro ao invés de ouvinte de música clássica, ou só se tornar ídolo quando vira jogador de futebol. Os negros norte-americanos se organizaram enquanto grupo racial, combateram o racismo e desenvolveram as ações afirmativas na conquista de direitos, por que souberam e tiveram uma maior capacidade de iniciativa e mobilização, na luta por direitos sociais. Sabe-se que nos EUA, o mito da "democracia amerina", como defendia o filósofo inglês Alexys de Toqueville, foi posto à prova quando centenas, ou talvez milhares de negros organizados, mobilizaram-se em passeatas e protestos, pelas ruas americanas do Alabama até o Mississipi, chegando até Washington, por meio das marchas pelos direitos civis ou pelo movimento dos Panteras Negras.

Aqui no Brasil, por contingências históricas que não merecem observação agora, o negro brasileiro nunca foi impulsionado a se organizar da mesma forma que seus parceiros de raça norte-americanos, até mesmo porque, em primeiro lugar, na vanguarda dos movimentos sociais, estavam as lideranças operárias e socialistas, encabeçando sindicatos, ligas de camponeses e partidos de esquerdas, com um discurso ideológico de classes que superava a luta racial. O racismo ou a segregação racial eram produto da divisão de classes, e não de uma diferença étnica, e competiria aos militantes marxistas não somente garantir a adesão de negros ou indígenas, mas sim de toda a camada de explorados economicamente e socialmente, sejam eles brancos, pardos, negros, indígenas, amarelos, ou quem quer que aparecesse, para combater a dominação burguesa de uma classe branca e capitalista.

No aspecto religioso, a questão da fé também não foi menos importante, no momento em que nos EUA, um país majoritariamente protestante, porém racista, ao lado das igrejas pentecostais de brancos, adeptos da Ku Klus Klan, havia igrejinhas de negros, na periferia das cidades, com seu gospel comovente e seu louvor animado, movido a batucadas e bater de palmas típico dos culto afro, que aqui, no Brasil, foram assimilados pela Igreja Católica, por via do sincretismo entre padres e pais-de-santo umbandistas na Bahia, e não pelas igrejas evangélicas, com seus missionários brancos chegados ao Brasil, que ao invés de propiciarem um modelo de organização e mobilização efetivamente black, como era feito nos EUA, mantinham, ao contrário, com sua ideologia branca, um modelo de "branqueamento" dos segmentos de negros pobres, nas favelas e periferia das grandes cidades, que largaram as vestes brancas e os atabaques, pelo paletó e gravata, cabelo curto e vocabulário wasp do modelo tradicional de culto anglo-saxão.


Grandes vultos de nossa história eram negros, tais como José do Patrocínio e Abdias do Nascimento. Porém, foi somente este último que contribuiu no século passado para a formação de um discurso sobre a identidade negra e a necessidade de mobilização social, para consolidar uma consciência étnica do papel social do afrodescendente. Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras, símbolo máximo da intelectualidade nacional, era mulato, casado com uma branca, mas mesmo em seus retratos mais antigos, o "enbranquecimento" não deixava de estar presente, e ele nunca requereu sua condição de raça para estabelecer qualquer crítica fundada ao sistema republicano pela discriminação com o negro, uma vez que assim como naquela época, a questão da negritude parecia ter sido resolvida historicamente com o fim da escravidão, e a diferença pela cor da pele passou a ser secundarizada pela diferença social.

Porém, voltando à questão das cotas, se, ao menos para mim, ficou demonstrado que é balela qualquer discussão pelo fim desse sistema, sob a alegação de que não há consciência de negritude no Brasil (uma vez que ela sempre existiu, só não foi fator de mobilização), fica aqui também a minha crítica quanto aos que, de forma oportunista, abraçam definitivamente o argumento das cotas como uma espécie de panacéia para o problema nacional na inclusão racial, dizendo que: sim, de fato, concordo com os anticotitas, mas tão somente na crítica de que, adotar tão e simplesmente o sistema de cotas raciais nas universidades, não vai resolver, nem hoje, nem nunca, o extenso dilema da desigualdade social e racial no Brasil.

Mas se não resolve, ao menos compensa, nem que seja um pouquinho. Se alguns dizem que o sistema de cotas enquanto condição obrigatória para o funcionamento das universidades, foi abolido pela Suprema Corte Americana em 1979, eu contra-argumento dizendo que se as cotas foram consideradas inconstitucionais enquanto requisito obrigatório para o acesso ao ensino público, digo que, por outro lado, elas foram fundamentais para corrigir uma injustiça histórica quanto aos negros, e o exemplo mais cabal disso foi o repentino acesso de centenas e centenas de negros norte-americanos à instituições renomadas de ensino nos EUA, na década de sessenta, que propiciaram o incentivo à preparação, e superação social de milhares e milhares de gerações de negros que vieram posteriormente, trazendo ao mundo um ex-professor de direito constitucional da Universidade de Chicago, um advogado militante, nascido no Havaí, filho de um queniano negro como uma estudante branca norte-americana, e que viria a se tornar o presidente da nação mais poderosa do planeta. Sim, é ele: Barack Obama!

O sistema de cotas que garantiu a abertura de direitos aos negros, redundando no surgimento de Obama, é a prova cabal de que o sistema de cotas não resolve, por si só, o problema da desigualdade, e nem é a solução mágica para o fim do racismo. Contudo, tal mecanismo ataca de morte e supera o segregacionismo, que, se nos EUA se deu da forma mais gritante, pela vigência de leis que estimulavam a segregação, no Brasil essa segregação se deu de forma mais sutil, velada, mas tão eficaz e aguda como o modelo norte-americano, pela incapacidade econômica e social de nossos negros competirem em relação de igualdade com brancos educados em escolas privadas, de classe média, com um bom perfil econômico, que além do acesso a boa escola na infância, pela rede básica de ensino, ainda tiveram o privilégio de pagar bons cursinhos, boas aulas de idiomas, bons livros comprados no cartão de crédito e boas salas de aula. Vão me dizer que o problema está então no ensino como um todo no Brasil, e eu concordo plenamente. Não haveria como discordar. Porém, enquanto o ensino não for de todos e para todos neste país, acho conveniente, sim, termos mecanismos compensatórios, de curto, mas eficaz alcance, na debelação da desigualdade (ora por raízes econômicas, ora por diferenças raciais), garantindo a toda uma massa de pretos e pobres, o acesso à universidade pública, com ensino de qualidade.

Como eu disse, e volto a repetir, já que o tema é polêmico, não estou aqui defendendo as cotas como a solução de todas as mazelas produzidas pela profunda desigualdade, e pela evidência demográfica de que temos tantos negros ou indígenas pobres nesse país, em relação a uma minoria branca, até mesmo porque branco não se encontra apenas em mansão, mas tem também muito branco pobre, vivendo em favela por aí! Entretanto, o que percebo no Brasil, assim como em outros países, é que as normas devem ter sua vigência até o momento em que produzirem a eficácia a que elas foram destinadas. E no caso do sistema de cotas, enquanto seu principal objetivo for minimizar o evidente fato de que poucos são os negros a ingressar em uma universidade pública, acredito que sua adoção é viável, até o momento em que produzirmos em nossa sociedade um novo modelo social, onde não será mais estranho e nem diferente ver um negro na Casa Branca (como se deu na eleição americana), assim como não será exótico ver um grande banqueiro negro, assim como hoje não é, ao ver isso no serviço público (vide a excelente atuação no STF do ministro negro Joaquim Barbosa). Acredito que o sistema de cotas deve valer, até o momento em que, por mais "chinelento" que eu esteja, eu não seja confundido com o zelador do condomínio ao entrar dentro do elevador do prédio.

Em termos constitucionais, fala-se muito em igualdade, e na centena de mandados de segurança que são impetrados contra as cotas, por alunos preteridos em processos seletivos nas universidades, vê-se que o argumento é quase sempre o mesmo:"inconstitucionalidade das cotas por ferir o princípio da igualdade". Não obstante os ganhos de causa ou as perdas em alguns tribunais, chega a hora em que pergunto: "igualdade pra quem, cara-pálida?". O bom estudante de direito constitucional sabe que o princípio constitucional da igualdade rege-se, em sua essência, pelo princípio da isonomia, que pode ser: material ou formal. Pela isonomia formal, os argumentos usados aos montes pelos advogados dos anticotistas, é de que a lei de cotas não contempla a igualdade prevista formalmente pela constituição em seu texto, quando diz que "todos são iguais perante a lei", no artigo 5.o. Ocorre que pelo prisma da isonomia material ( e não formal), o texto é claro também ao dizer, no artigo 7.o, inciso XXX, que é proibida " a diferença de salários, exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil". A isonomia material serve para "tratar os desiguais de forma desigual", como apregoava o jurista brasileiro José Afonso da Silva. Ora, é lógico que os mais avivados na letra da lei, irão me dizer que a norma constitucional que eu citei, só serve para combater a segregação, e como ela já está abolidada de nosso sistema, então não seriam necessárias leis pró-cotas. Contudo, eu refuto mais uma vez esse argumento, dizendo que a isonomia não é apenas obtida com a proibição da segregação, evitando-se o preconceito, mas também pela inclusão de direitos que, hoje, ainda não contemplam a todos os brasileiros, como é o caso dos negros, pobres e indígenas, que se veem privados do acesso à universidade pública, não por falta de capacidade, mas por falta de oportunidades que sequer lhes foram garantidas, no primeiro dia que chegaram na escola.

Concluo me recordando de excelente e esclarecedora passagem, escrita pelo filósofo e jurista norte-americano Ronald Dworkin, em sua célebre obra: Levando os direitos a sério. No livro, o jurista trata, no capítulo 9, da chamada "discriminação compensatória", tratando do regime de cotas raciais nas universidades norte-americanas. Ele disse que, em 1945, um negro chamado Sweatt tentou ingressar na Faculdade de Direito da Universidade do Texas, mas teve seu pedido rejeitado, com base numa lei estadual que proíbia a presença de negros na universidade. Ele então moveu uma ação judicial, que foi parar na Suprema Corte Americana, obtendo o direito de ingressar na referida universidade, alegando a Décima Quarta Emenda da constituição americana, sobre a igualdade na proteção de direitos. Em 1971, um judeu chamado DeFunis entrou com pedido semelhante, alegando o mesmo dispositivo constitucional, para ingressar na Universidade de Washington, alegando proteção das minorias, mas seu pedido foi rejeitado. Qual a diferença entre o pedido de um e de outro, já que ambos se sentiram discriminados?

Ocorre que, segundo Dworkin, Defunis não tem nenhum direito, mesmo que não pudesse ingressar no ensino superior pela falta de faculdade de direito no seu estado, ou se houvesse apenas uma faculdade, mas com poucas vagas, e que não levassem em conta seus méritos intelectuais. A inteligência não é o único critério a ser levado em conta para o ingresso numa universidade. Para Dworkin, as faculdades de direito selecionam os mais aptos intelectualmente, não porque seja um direito do candidato ser avaliado tão somente no crítério de inteligência, mas sim porque interessa a faculdade servir a comunidade de advogados mais aptos no futuro, quando eles se formam. Ele diz: "os padrões intelectuais se justificam não porque premiam os mais inteligentes, mas porque parecem servir a uma política social útil".

É nesse sentido que se processa a crítica inteligente de Dworkin. O direito à educação básica, é sim direito fundamental que deve ser garantido igualmente a todos, da infância até a adolescência, o que não é feito pela realidade da rede de ensino brasileira, que privilegia os mais abonados economicamente, e aqueles que, historicamente, por raça, encontram-se melhor posicionados na pirâmide social (não me venham falar novamente dos brancos existentes nas camadas pobres da sociedade, pois retruco com a maciça maioria branca, nos setores mais privilegiados e ricos da sociedade). Entretanto, no ensino superior, a educação jurídica pleiteada pelo judeu Defunis, e concedida ao negro Sweatt, não é vital a ponto de que todos tenham direito a ela, mas tão somente aqueles que procuram tal opção. O que ocorre é que, ao indeferir o pedido de Defunis, a justiça norte-americana não tolheu de direitos toda a comunidade judaica do estado de Washington, impossibilitando que outros judeus tivessem acesso à universidade, prejudicando uma política social útil, mas no caso do negro Sweatt, a situação é oposta.

Dworkin argumenta que, se é pensada como política social, a opção preferencial pela admissão de negros na universidade (assim como a dos mais aptos intelectualmente), no sentido de diminuir a diferença de riqueza e poder que existe entre brancos e negros na sociedade, proporcionando mais igualdade racial, no momento em que negros mais instruídos juridicamente, podem, não só melhorar a qualidade do ensino jurídico no estudo dos problemas sociais, mas também estimular mais e mais negros a se candidatar a novas vagas, é uma proposta de política social com objetivo bem definido, sendo legítimo que tal instituição de ensino adote tal critério, além de outros que a universidade tem o direito de estabelecer, face sua autonomia universitária e os propósitos de realizar o bem comum. Desta forma, o argumento em favor das cotas deve ser sempre de interesse social, público, em prol da sociedade, e não tão somente um argumento individual, de natureza privada, fundado tão somente no interesse particular do candidato de ingressar na universidade, neste ou naquele curso. O candidato, seja ele qual for, tem o direito, sim, de ser avaliado, mas não deve ter ele qualquer ingerência sobre os critérios de seleção de uma instituição, baseado tão somente no seu próprio interesse pessoal, como na alegação de ter o direito a ser avaliado tão somente pelo critério intelectual.

Agora se me perguntam das maracutaias de muitos alunos, na hora de preencher a ficha de inscrição a um processo seletivo, que só são negros ou pardos na hora de pegar um bronzeado na praia, e assinalam o "x" dizendo-se negros ou indígenas, digo que o problema não está na essência da proposta das cotas, mas sim no mecanismo de gerenciamento do processo seletivo. Por que será que só sabemos idenficar um preto pobre quando desviamos da calçada ao ver um se aproximando, com medo de um assalto, e não sabemos identificar quando realmente algum deles preenche esse requisito na hora de pleitear uma vaga na universidade? Sim, como diria o velho Abdias, tá na hora de ampliarmos nossa consciência de raça, e se " a alma não tem cor", como diz no verso da música de Jorge Mautner, ao menos ela pede uma pincelada de tinta, na hora de entrar na universidade!

domingo, 5 de abril de 2009

MÚSICA:"No line on horizon" apresenta um U2 da meia idade

Como diz a célebre canção de Roberto Carlos: "Além do horizonte existe um lugar". Talvez para bandas planetárias como o U2, esse lugar seja o mitológico panteão das lendas do rock, ou tão e simplesmente seu lugar na história como uma das mais longevas e competentes parcerias criativas no mundo da música, entre músicos experientes e dedicados que, pelo talento, conseguiram se transformar em astros e prosperar no ramo, arrebatando legiões de fãs por décadas e gerações. Lendas vivas e expoentes históricos como Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin ou The Who, são exemplos emblemáticos disso.





Relutei alguns dias em escrever este comentário, seja porque estive escutando o novo disco do U2, chamado No line on horizon, lançado este mês mundialmente, ou porque não queria com este artigo comportar-me, de um lado, apenas no contexto de crítico, ou de outro, apenas no contexto de fã. Ambas as análises ficariam nebulosas se eu tentasse expor minhas ideias e impressões sobre o disco me atendo às polaridades dos dois tipos de contexto que tracei há pouco. Se eu fosse crítico demais, poderia dar a impressão de fazer uma análise seca, desprovida de emoção, técnica demais, formal demais, acadêmica, e despojada do necessário calor humano que envolve toda crítica de arte. Entretanto, se eu me comportasse apenas como fã, escrevendo sobre uma banda que gosto e admiro, poderia adotar uma conduta irresponsável, longe dos limites da proposta que fiz ao criar este blog e, naturalmente, afastar aqueles que não gostam do grupo comentado, ou simplesmente não gostam desse estilo de música. Não é esse meu propósito. Portanto, ao escrever estas linhas procurei um meio termo (ao menos tento), não sendo nem tão crítico, e nem tão fã, apenas fazendo aquilo a que me dediquei neste blog: escrever sobre o que entendo, e sobre o que gosto.



No line on the horizon tem inicialmente a proposta de ser um dos melhores álbuns da história do U2. Claro! Essa é a proposta de todo marketing musical (afinal de contas, todo artista tem que "vender seu peixe"), mas o que se revela por detrás da propaganda é a iniciativa natural de todo grupo com mais de vinte anos de estrada, de tentar se reinventar, ou mesmo ficar na mesma, experimentando velhas fórmulas musicais e apenas requentando-as para fazer sucesso (vide, pra quem gosta, da explosão de vendagens de Black Ice, último álbum do AC/DC, lançado ano passado, que traz a mesma coisa em música e o velho estilo da banda australiana). Obtive o disco logo após o seu lançamento e o escutei todo, por várias vezes, repetindo naturalmente em meus ouvidos as músicas que gostei mais. É um bom disco, da boa e velha banda irlandesa que já conhecemos, com seu natural estilo e até mesmo cacoetes, mas é um disco bom, audível, perfeito sonoramente, de boa qualidade, mas não uma obra de arte.


Mas, afinal de contas, antes de mais nada, que os fãs mais devotos do U2 me perdoem! Antes de me jogarem pedras, afirmo que a proposta do U2 é essa mesma: de ser bom, competente, mas não ser grandiloquente. Bono e seus companheiros não são, nem de longe, os mártires da música e nem cruzados de boas ideologias querendo propagar a revolução através da música! É verdade que hoje, todo artista global quer ser "politicamente correto". Bono Vox (alter ego do talvez mais interessante Paul Hewson) não é John Lennon, e nem seu parceiro nas guitarras The Edge (alter ego de David Evans) não é Paul Mccartney. Enganam-se os críticos ou marqueteiros de hoje ao alegar que o U2 seja os Beatles da nova era. É tudo bobagem! Na verdade, bem diferente da lendária banda inglesa de Liverpool, os irlandeses de Dublin não querem reeditar a genial parceira entre Lennon e Mccartney, pois afinal, quem dá as cartas da banda na verdade é o circunspecto baterista, Larry Mullen Jr.


Quando Bono sai da pose de quem está querendo salvar o mundo, quem entra em cena é dá o coração musical da banda, na verdade é Mullen. Foi ele que, aos 17 anos, no final da década de 70, fixou um cartaz no mural da escola, declarando-se baterista e propondo-se a reunir um grupo para formar uma banda de rock. Até hoje, mesmo com toda a empolgação, fama e frenesi de Bono, quem dá a palavra final e barra ou dá prosseguimento aos projetos musicais do U2 é Larry. Nos quase trinta anos de existência do U2, lá, atrás do palco, na direção das baquetas, Larry Mullen não apenas dá o compasso das canções, como também dirige o processo criativo, a formação das canções embaladas mediante as letras de Bono, transforma em música e fórmula de sucesso tudo o que aqueles garotos irlandeses lisos quiseram um dia, ao se propor formar uma banda, pagando as passagens de ônibus com grana emprestada dos pais de classe operária em direção a Londres, para gravar a primeira fita demo. Larry, Bono, The Edge, e o baixista Adam Clayton são de fato, os caras mais sortudos, carismáticos e talentosos da terra de James Joyce, mas também sabem de suas inseguranças e limitações musicais.


O U2 foi uma das bandas das últimas décadas do século XX que conseguiram aliar virtu e fortuna (nos dizeres de Maquiavel), numa época em que a geração MTV acabava de surgir. Os anos oitenta foram pródigos numa nova musicalidade e trouxeram tantos grupos musicais e tendências memoráveis no rock, tornando-o definitivamente a expressão musical mais popular e globalizada do planeta, que se torna difícil até os enumerar, graças à difusão da música pela televisão, a volta da cultura das rádios mediante o enfraquecimento dos festivais e dos shows ao vivo, e pelos movimentos políticos engajados pelo combate a fome na África (como o Live Aid), a defesa da queda do muro de Berlim, e pelo fim do apartheid na África do Sul. Artistas como Michael Jackson e Madonna ( nos EUA e depois no resto do mundo), bombaram nesse período, mas também foi nessa época que o termo Britt Pop passou a ser utilizado. Na verdade, o rock europeu, e, em especial, a música do estilo produzida na Grã-Bretanha, ainda estava de ressaca do punk, e devia ao mundo gigantes musicais produzidos nos anos 60, como Beatles e Rolling Stones. Começaram a surgir nos anos oitenta bandas épicas, que marcaram a vida e a trajetória de qualquer um que seja hoje quarentão ou esteja entre seus trinta e poucos anos. Foi uma avalanche de bandas boas e memoráveis, oriundas do Reino Unido, que fizeram ressuscitar todo um sentimento de nostalgia no novo milênio, como The Cure, New Order, Depeche Mode, Simple Minds, A-ha (da Noruega, mas lançada na Inglaterra), Suede, The The, e talvez uma banda com tanto ou mais carisma que os irlandeses do U2: a banda The Smiths, do poeta bardo Steven Patrick Morrysey.


No Brasil, na mesma época, o marco histórico desenvolvido com o primeiro Rock in Rio, em 1985, nos deu grupos e artistas consagrados nos dias de hoje, como Blitz, Barão Vermelho ( do saudoso Cazuza), Ira, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Titãs, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii,Lulu Santos, Rádio Taxi, Camisa de Vênus e o antológico Legião Urbana, do memorável Renato Russo. Era o começo do Brock, ou Rock Brazuca, com repercussões que são sentidas até hoje. Aqui, o rock deixou, por exemplo, de ser considerado subgênero musical para adolescentes ou produto importado do imperialismo yankee, para se tornar parte integrante da MPB(Música Popular Brasileira). Ouvir U2 e Legião Urbana naquela época, fazia parte das duas faces de uma mesma moeda, na música nacional e internacional, que revelavam sentimentos de juventude, revolta, rebelião contra os valores estabelecidos, mas também paixão, poesia e esperança. Pra quem viveu a época, éramos embalados por Sunday Bloody Sunday na voz de Bono, assim como escutávamos Geração Coca-cola, através do gogó de um jovem Renato Russo.



A música do U2 em seus primórdios revelava o mesmo questionamento político que fazíamos aqui nos últimos anos da ditadura militar, ainda sob o veto da censura, com Lula e seus sindicalistas ainda fazendo muito barulho num recém fundado PT, e no embalo da campanha das Diretas Já. Nosso escapismo era escutar as rádios e comprar os novos discos de vinil das bandas do momento, passando horas intermináveis após a escola tateando nas prateleiras, entre álbuns do U2, do Legião Urbana, e de um sem número de bandas que gostava de colocar na minha antiga vitrola, do 3 em 1, em meu barulhento quarto. Foi nos vídeos do antigo programa de televisão "Som Pop", que vi pela primeira vez os irlandeses do U2, num show antológico em Dublin, com um Bono ainda usando um cafona penteado mullet, enquanto The Edge ainda tinha cabelo e Adam Clayton parecia um nerd saindo de uma loja de bonecas, com aquele cabelão loiro e cacheado, cobrindo uns óculos parabrisa que eu também usava. Os caras simbolizam o espírito da rebelião ou do engajamento politicamente correto. Não eram escrotos, drogados ou viciados em sexo como os Stones, e nem tão pueris ou beatificados quanto os Beatles, autodestrutivos como o pessoal do The Who ou xamânicos como o Led Zeppelin de Jimmy Page e Robert Plant, mas eram carismáticos, jovens e hasteavam a bandeira de uma causa reconhecida como justa no mundo inteiro: o massacre de vidas inocentes e civis nos conflitos pela independência da Irlanda do Norte, entre as lutas do IRA (exército republicano irlandês) contra as forças invasoras da Inglaterra.



Pois é! Se tínhamos aqui na América do Sul a decadência de ditaduras, na Europa dos irlandeses do U2 tinha-se uma economia combalida pelo desemprego, o apogeu do discurso neoliberal e de extrema-direita no Reino Unido, do governo ultraconservador de Margareth Thatcher (aliado do governo da mesma linha do republicano Ronald Reagan nos EUA e amiga íntima do ditador Pinochet do Chile) e o clima ainda pesado da Guerra Fria, num mundo dividido entre dois blocos: dos adeptos do capitalismo, vinculados a Washington, e aqueles integrantes da chamada "cortina de ferro", liderada por Moscou, no bloco soviético. Éramos todos jovens, vivendo num mesmo mundo e numa mesma época, unidos pela luta global contra governos demagógicos, capitalistas e autoritários, assolados pelo medo de um conflito nuclear entre as potências e sofrendo as mazelas do capitalismo com nossa fama de terceiromundistas. Sim! Era muito bom escutar U2, pois a música deles revelava uma causa para qual lutar. Além disso, os caras eram católicos! E apesar de hoje eu ser protestante e antipapista, não deixava de ser interessante uma banda que, em suas letras, falava de Deus e de revolução da mesma maneira enérgica e empolgante que The Edge estremecia multidões nos estádios tocando seus riffs de guitarra, ao escutar a inebriante canção Pride (in the name of love), que falava de Cristo e Martin Luther King, ou New Years Day. "What more in the name of love"????

No livro "Rock and Roll-uma história social", publicada aqui no Brasil pela Editora Record, o historiador Paul Friedlander traça um retrato desse estilo musical, falando no capítulo 18 sobre o rock produzido nos anos oitenta. É digna de transcrição, a passagem em que analisa as letras dos grupos, em termos conclusivos, dizendo que na época, "a história das letras de pop/rock registra uma transmissão de mensagens implícitas e explícitas, relatos, símbolos de rebeldia, mudança social e amor". De fato, é tudo isso que se pode encontrar na música do U2, sendo que nos últimos anos, a banda procurou redimensionar seus conceitos artísticos, sempre mantendo porém um certo estilo, ao flertar com a música eletrônica nos anos noventa, em álbuns como Acthung Baby, Zooropa e o célebre Pop, que valeu a primeira turnê do grupo ao Brasil, da qual este que vos escreve assistiu ao vivo e em cores, em minha passagem pelo Rio de Janeiro, quando a banda aportou aqui para um show memorável no autódromo de Jacarepaguá.

Se na década de oitenta do século passado, o U2 e outros grupos aproveitaram um momento histórico significativo para a música popular, com a revolução através da televisão, via MTV, hoje em dia, a revolução midiática prossegue, mas em outro ritmo, bem mais acelerado e através de outras mídias como a internet, os programas de MP3, o Youtube, os I-pods, e até mesmo os celulares. Os caras do U2 além de bons músicos, são muito bem assessorados profissionalmente e se revelaram excelentes administradores da própria carreira, pois sempre souberam se promover decentemente, utilizando dos recursos mercadológicos das novas tecnologias. Um exemplo disso é que antes do lançamento do novo álbum, os caras já disponibilizavam o novo material através de aparelhos celulares, associando-se a uma famosa marca do setor da telefonia, divulgando seu novo projeto e seus novos vídeos, como também promovendo ainda mais a carreira e engordando suas já adiposas contas bancárias. Quem é que hoje, seja em Nova York, no Nepal, no Malauí, ou num casebre de barro no interior do Maranhão, que não tem, nem que seja um aparelho celular? Pois é! É nesse aparelhinho que agora dão as caras Bono e sua turma!


Mas, voltando aqui ao novo disco, que é o que realmente nos interessa neste artigo, após tantas conexões que fiz entre o passado e o presente da banda de Bono, como eu tinha dito no começo destas linhas, uma banda pode se reinventar mudando tudo o que antes já produziu, arriscando-se a redefinir seu estilo (os caras do U2 já tinham tentado fazer isso nos anos noventa), ou então manter o que está bom, apenas revisitando obras anteriores, numa colagem de antigos riffs e canções, que tão e simplesmente fazem de No line on horizon uma verdadeira autoparódia de tudo o que o U2 já produziu. Como eu já tinha dito, o disco é bom, mas não apresenta nenhuma novidade quanto à musicalidade já conhecida da banda.

Pra se ter uma ideia, ao escutar a faixa de abertura, cujo título é o mesmo do álbum, não há como não deixar de recordar a canção The Fly, eternizada nas rádios, no começo dos anos noventa, no já citado disco Acthung Baby. Já a segunda música Magnificent, com seu refrão grudento, lembra puramente Unforgetable Fire, um dos primeiros discos da banda ( e aquele que os popularizou), juntamente com o álbum War, que também serviu como ícone para o trabalho do grupo, com a lendária logomarca do menino "Radar" em sua capa. É musica pra tocar em FM direto (como, com certeza, irá tocar), e embalar as festas com a gata do lado(que, naturalmente, vai ter que ser fá do U2 pro "xaveco" pegar), nas pistas de dança das boates ao redor do mundo. Ouvindo a música, dá pra perceber porque o jovem grupo norte-americano de Las Vegas, The Killers, foi tão influenciado pelo quarteto irlandês. Já a música seguinte, Moment of Surrender, parece em seu começo que a banda de Bono rendeu-se ao Radiohead, mas logo fica clara a marca do grupo, mostrando que a música trata-se, nada mais, nada menos, que a continuação do projeto alternativo de Bono e The Edge, iniciado com a banda paralela Passengers, mais uma vez na década de noventa (quem é que não se lembra de Miss Sarajevo, cantada por Bono junto com o finado tenor Luciano Pavarotti?). Para quem é fã, é música pra se escutar no escuro, acendendo uma vela (catolicamente falando, como é bem do estilo do grupo). O ritmo prossegue o mesmo, mas com um certo ar mais lírico, ao se ouvir a canção que segue, Unknown Caller, mais chegada a um certo esoterismo, com um lance meio de guitarra mística tocada por The Edge, porém seguida da batida meio tribal e característica de Larry Mullen, e o jeito de canção gospel, bem ao estilo de If God send his angels, de discos mais recentes, como o também bom All That You Can Leave Behind.

Agora a música da metade do disco que se segue, a quinta canção, meio que fazendo um marco proposital no interior do álbum, talvez muito pela influência do produtor da banda Brian Eno (ex-Roxy Music), é a faixa mais pop, mais baba, mais comercial, e mais "papai, quero tocar na FM". É a típica balada romântica e animada que aparece, de vez em quando, nas obras do U2, e que serve como ótimo motivo pra chamar a ex-namorada pra sair e tocar no carro. Como diria meu amigo cineasta, Aristeu Araújo, com seu bom humor sarcástico, a música é bem "romantiquinha", mas não deixa de ser bacana por causa disso. Ou alguém aqui vai dizer que nunca cantarolou "With or Without You, do célebre álbum Rattle and Hum? Para Rodrigo Salem, crítico da revista Rolling Stone Brasil, é Bono Vox querendo ser Justin Timberlake (arrrghhh!!! essa doeu!), mas aí é outra história.

Meio que saindo um pouco do romance, eis que após a quinta faixa surge a canção Get on your Boots, mostrando bem o quanto Bono permanece antenado às novas gerações. Pois não há quem me diga ou convença que o electro-rock movido a Red Bull dessa música não tenha influência em seus riffs, da dupla White Stripes. É música agitada boa pra contrastar com a meiguice da canção anterior. Depois, como que seguindo na influências de outros ritmos aliados ao rock, vem a canção Stand up Comedy, com influência da black music, e as letra irônica e politizada de um Bono ainda em boa forma. Lembra Until the End of the World, outro megahit tocado à exaustão na década de noventa, também do ultracitado álbum Acthung Baby. A próxima música Being Born, volta ao projeto Passengers, com um pingo de Pop, com uma pitada de Last Night on Earth do disco referido, pra talvez voltar a ser uma música tipicamente eletrônica, como que num disco do Depeche Mode. Depois segue outra música marco do disco, White as Snow, considerada pelos críticos de algumas revistas a mais bela das produções recentes do U2, e talvez uma das mais adultas, por tratar em sua letra, da triste história de um soldado que morre no Afeganistão. É o U2 voltando a sua veia politicamente correta ou altamente politizada, bem ao sabor dos tempos em que Bono cantarolava Sunday Bloody Sunday. A penúltima música, Breathe, apresentada inicialmente à mídia e candidata a ser um dos singles do álbum, e faixa de propaganda, tocada com exclusividade no programa de David Letterman nos EUA, talvez seja uma das que eu mais goste:simplesmente visceral, forte, marcante, rebelde, viril, como o U2 que conheci quando era adolescente, e que me deixou embasbacado, confiante e com vontade de sair às ruas para protestar, correndo atrás dos meus sonhos. É a canção com The Edge mais solto como nunca, esbanjando a competência na guitarra que lhe é devida, fora suas sabidas limitações como virtuose, fazendo o que ele mais sabe: riffs de guitarra extremamente bacanas e que são escutados e reconhecidos pelo até mais surdo dos mortais!

A canção de encerramento, como em todo disco do U2, tinha que ser uma canção mais intimista, pois Cedars of Libanon é bem a cara de um Bono mais poeta, que deixa para o final, juntamente com os teclados belamente arranjados por Brian Eno, que os ouvidos mais sensíveis escutem como um sussurro a melodia pós-moderna que trata de temas da atualidade, como a massificação da mídia, a guerra, os conflitos globais, os vícios e as incertezas do período, com uma sonoridade mais filosófica, menos romântica, mas elegantemente bela.


Para os quase cinquentões do U2, não deixa de ser encarado como um "ufa" a exclamação final ao encerrar mais um ciclo em que apresentam ao mundo um trabalho regular, longe de ser uma obra-prima, mas que tem sim, seu reconhecido valor. Talves No line on horizon seja melhor que os últimos discos da última safra pró-século XXI, ou década de dois mil da obra da banda irlandesa, mas, com certeza, não é o melhor álbum de sua história. E nem poderia ser, até porque qualificar qual é o melhor disco não é tarefa dos músicos e nem dos críticos, mas sim do próprio público, dos fãs que aguardam ansiosos um novo material ou dos novos fãs que podem ser arrebatados, nas novas gerações que vivem de baixar música na internet ou ver vídeos no Youtube, e não fazer, como eu fazia, agora dinossauro, ao procurar música na década de oitenta, passando horas nas lojas de discos, ouvindo meus artistas e bandas prediletas.

É isso! Como diria o crítico de música André Barcinski, dentre as 100 melhores bandas de rock do século XX, o U2 é a banda "brega" mais legal do planeta. Sim, pois o que os caras fazem é um rock pop de qualidade, sem grandes especulações filósoficas ou rítmicas como os discos do Radiohead, ou as viagens do rock progressivo do Pink Floyd ou de um Genesis da década de setenta, na fase com Peter Gabriel. Os caras nem tampouco são operísticos ou ricamente teatrais como eram os caras do Queen, com o finado e saudoso Freddy Mercury nos vocais, mas tem sim seu valor e muito valor. Barack Obama que o diga, um dos fãs confessos da banda, responsável pelo convite feito aos músicos para tocar no dia de sua posse, em frente ao Lincoln Memorial Center, em Washington, no começo deste ano. Você quer moral maior do que essa? It's only rock and roll, but I like it!!!!!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

LULA & OBAMA NA CONFERÊNCIA DO G20:É namoro ou amizade?

O atual bafafá da política internacional é a "rasgação de seda" flagrante do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama para o presidente Lula, na conferência dos vinte países mais importantes do mundo (o G20), realizada ontem, dia 2 de abril, em Londres. A reunião, convocada para discutir a crise financeira mundial, antes de seu início, parecia mais um encontro de camaradas, com direito a brincadeiras, tapas nas costas, risadas, brincadeiras, e poses para fotos. Parecia mais um encontro de ex-colegiais numa festa de aniversário da turma ou uma roda de bate-papo diante do churrasco, após uma pelada de futebol. A descontração, a intimidade e a desinibição mais evidentes e impressionantes, foram justamente do recentemente empossado presidente norte-americano e o presidente brasileiro, e contrastavam com o sentimento global de medo, insegurança e ansiedade diante de um incerto e desolador quadro de colapso das finanças mundiais, com onda galopante de desemprego, recessão, quebradeira de empresas e bancos e encarecimento de produtos.

Filmados pelas câmeras de TV do mundo inteiro, o que ganhou mais destaque na mídia brasileira, do que a própria conferência, foi o elogio espontâneo conferido por Obama a Lula, no encontro dos dois no evento. Se o presidente brasileiro já se mostrava bem à vontade, e andava de braços dados com o presidente da França Nicolas Sarkozy (parece que a visita dele ao Brasil, acompanhado da estonteante primeira-dama Carla Bruni, o sol da Bahia e a caipirinha fizeram muito bem ao presidente francês), a cena posterior com a chegada de Obama parecia o reencontro de velhos e queridos amigos. Lula não disfarçou o contentamento de sorriso largo, e recebeu o novo "amigo" norte-americano com direito a longos abraços e amistosas conversas de compadre (naturalmente acompanhadas de perto pelo intérprete oficial do Palácio do Planalto). Ao apresentar Lula ao secretário do tesouro americano, Timothy Geithner, Obama deixou sair um comentário elogioso típico dos brothers negros do bairro do Harlem, quando reconhecem um parceiro ou um bom chapa ao reencontrá-lo. Foi o comentário do "sangue bão": Obama referiu-se a Lula como "this is the man"(esse é o cara), "I love this man", dizendo ao secretário do tesouro, que ele estava falando com "o político mais popular do mundo". E ainda completou a amigável brincadeira, dizendo que Lula deveria ser mais importante que ele, Obama, por ser "mais boa-pinta".He,he,he,he,he,he,h,e. Ué? Alguém não achou graça??

Imagino o senador Artur Virgílio do PSDB, inflamado crítico do governo, assistindo o episódio na TV e cuspindo na hora o cafézinho que tomara em seu gabinete, afirmando: "Obama tá dizendo isso porque não é brasileiro". Que o diga então a parcela do eleitorado brasileiro antilulista (especialmente aquele majoritário sediado em São Paulo, por que será?), que se não pulou de raiva pelo elogio rasgado a nível planetário de Obama a seu maior desafeto, deve ter feito coro junto aos parlamentares de oposição no Congresso, fazendo desdém do elogio do presidente norte-americando, e afirmando em tom impessoal:"ele tava apenas brincando". Que será que vai dizer o Diogo Mainardi? Tô me coçando pra saber! Bom! Pelo que eu saiba, ele não gosta de Obama também! Na verdade, acho que o nobre articulista da Veja não gosta de ninguém "pop" que não seja ele mesmo. É o "meio bronzeadinho" sujo (como disse Berlusconi, da Itália, presente no evento) falando da mal lavada "anta" do Mainardi. Aguenta essa Revista Veja!

Na verdade, desde o primeiro encontro oficial entre Lula e Obama em Washington, no mês passado, havia ficado mais do que evidente a mútua simpatia entre ambos. Lula e Obama naturalmente tem histórias diferentes, mas ambos são produto de seu tempo, sendo autênticos representantes de transformações extraordinárias no processo político global dos últimos tempos, e fruto do amadurecimento da democracia e da nova consciência despertada no eleitorado. Há pouco mais de vinte anos atrás, em plenos anos oitenta do século passado, seria inconcebível ou mesmo loucura considerar que um iracundo torneiro mecânico barbudo, líder de um partido de sindicalistas de esquerda, chamados na época de radicais ou de "xiitas", e um negro, filho de um queniano, pudessem ser, respectivamente, presidentes de uma nação de dimensões continentais e passado autoritário e populista como o Brasil, e da maior potência econômica, bélica e política, da mais poderosa nação do planeta. É, foi um avanço e tanto!

Emblemática e digna de nota na imprensa nacional foi, não apenas os comentários sobre as impressões de Lula, acerca do primeiro encontro do brasileiro com o presidente norte-americano na Casa Branca, mês passado, mas também o simbólico gesto de Lula, feito naquela ocasião, ao segurar com uma das mãos o peito de Obama, desejando-lhe sorte e sucesso em sua administração, aconselhando-o a "ouvir seu coração". O gesto, apesar de ser precipitadamente retratado por alguns como uma espécie de "viadagem" sentimentalóide ou pura demagogia, na verdade sintetiza a forma como ambos os presidentes se relacionam entre si e com o povo ao seu redor. Lula e Obama podem ser taxados de serem populistas, mas não o são por seus simples atributos pessoais, uma vez que carisma pode ser confundido com populismo, toda vez que o detentor dessa característica moral comporta-se como mais um do povão.

Longe dos gestos requintados, professorais ou academicistas de um Fernando Henrique, ou menos que "um Sartre", mas muito mais comportando-se como um "encanador"(como se referiu desdenhosamente a viúva do jornalista Roberto Marinho, na primeira eleição que Lula concorria com FHC), o atual presidente brasileiro popularizou-se ou tornou-se a liderança mais popular do mundo, como apregoa Obama, justamente por manter em sua postura condutas avessas ao protocolo tradicional dos chefes do Estado. Lula usa frases feitas, é claro, mas estas condizem muito mais a um repetitivo cacoete de alguém que procura se expressar da forma mais direta e clara possível ao seu eleitorado ( e ele consegue isso como ninguém), do que a um discurso pronto arquitetado por marqueteiros. Se Lula fosse artificial não teria vingado sequer como liderança no sindicato. Da mesma forma, Obama manifestou ter personalidade semelhante, seja pelo bom humor, pela boa lábia ou pela humildade. "Nunca antes nesse país" um presidente brasileiro foi tão bem elogiado pelo líder de uma grande potência.

Em seus traquejos, virtudes e erros, Lula e Obama firmaram-se como líderes não apenas como personagens já consagrados nos livros de história por sua impressionante trajetória pessoal, mas também pela sua inegável capacidade de cativarem seus interlocutores, utilizando a simplicidade da conversa informal como eficaz arma de retórica política convincente. Ambos são hábeis e ágeis comunicadores, muitas vezes falando em seus discursos de improviso, cultivados pela genuína convivência com as camadas populares, que lhes deram vivência e aguçada articulação política, durante o percurso de suas vidas. Lula e Obama nem sempre seguem a orientação de seus assessores, colhendos os frutos e dividendos políticos de suas opções, como também pagam o preço de suas gafes eventuais (vide a repercussão da declaração feita por Lula, dias antes, diante de um estupefato Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, ao atribuir à crise mundial a um bando de "banqueiros brancos de olhos azuis", num suposto racismo às avessas. Olha o que tu falas, Lula!!!).

Agora o que importa mesmo saber depois de tantos afagos, é se a simpatia cultivada naturalmente como um "amor à primeira vista" entre os dois presidentes, vai ser revertida em benefícios para a nação e para o povo brasileiro por meio de medidas menos protecionistas por parte do presidente yankee. Não podemos esquecer que Obama está a serviço de seu país e dos interesses de seus empresários, investidores e produtores, naturalmente vinculado (como deve estar) plenamente aos interesses nacionais. Não acredito que a amizade entre esses presidentes fará ceder um milímetro a intransigência norte-americana quanto à abertura das importações e o fim das reservas quanto ao etanol brasileiro. Ao mesmo tempo foi dada uma trégua para Obama, em função da inegável e evidente responsabilidade a que ele está submetido, em virtude de ter que carregar nas costas o fardo de ter de ajustar as contas globais, sob pena do cataclisma absoluto, em função de um legado maldito herdado por seu antecessor. Como se não bastasse, Obama tem que ligar com guerras, o combate ao terrorismo internacional, a necessidade de reparação da imagem dos EUA no cenário internacional, e ainda tem que aguentar as pressões internas e externas quanto ao anacrônico e pesado bloqueio econômico ainda imposto a Cuba. Obama não tem tempo para a América Latina, e nem sei se terá, mesmo que consiga se eleger para um segundo mandato. Creio que o máximo que podemos esperar dele em seu carisma de figura histórica, é livrar o mundo do colapso econômico ( se conseguir), além de sua sincera cordialidade.

O fato de ter recebido um elogio do presidente americano de fazer corar, e que o faria ficar sem dormir de tanto orgulho e excitação, não significa necessariamente que Lula esteja imune à crise. Pelo contrário, um dos traços mais marcantes da globalização é a sua lógica de contrastes entre o global e o local, e, de forma bem dialética, quanto mais a crise cresce, mais a popularidade de Lula sobe entre seus pares nas relações internacionais, pela postura do presidente brasileiro de não mostrar abatimento, mesmo com uma economia precária como a brasileira, diante de consagradas potências mundiais presentes no G-20; ao mesmo tempo que seus índices de aprovação no Brasil começam a apresentar desgaste, revelando a dificuldade que terá o mais prestigiado presidente da história nacional de eleger sua sucessora, sobretudo num dantesco ambiente de crise econômica. O tempo não é para deslumbramentos e Lula sabe disso.

Se uma coisa podemos atestar como legado do governo Lula foi, sem dúvida, o sucesso da diplomacia presidencial, fazendo com que uma outrora "república das bananas" fizesse jus ao tamanho de seu continente, merecendo destaque na política internacional. Sob os auspícios do governo Lula, o Brasil deixou de ser um país apenas reconhecido pelo antológico futebol no cenário mundial ou pelas belas mulatas, mas também se revelou um franco e combativo candidato a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Hoje, é impensável e inconcebível, no contexto da globalização, realizar qualquer fórum mundial sem a presença do presidente brasileiro, e pegando carona, seu tímido vizinho argentino, nas discussões de temas caros à humanidade e necessários para a segurança e estabilidade globais. O Brasil é um país rico, eu sei, mas com inúmeras deficiências como se apressa em dizer a oposição; e Obama, por mais negro ou simpático que seja, ainda é um representante do imperialismo yankee e da burguesia internacional, como apregoam os representantes da extrema-esquerda, conforme o virulento discurso da aguerrida e destemidade ex-senadora Heloísa Helena, do P-SOL. Mas, permitindo-me um rasgo nacionalista e uma plena manifestação de orgulho nacional, mesmo sob pena de pieguice, é muito bom ver Lula ou qualquer presidente brasileiro na mesma condição, divindo espaço na foto, sentado, ao lado da rainha da Inglaterra, e tendo o presidente americano em pé, bem atrás, como numa fotografia da seleção dos 20 mais importantes, onde os craques ficam agachados e bem na foto, justamente ao lado dos melhores artilheiros. Inveja mata, FHC! E para todos os críticos do presidente brasileiro, que na campanha de 89 chamavam o cara de analfabeto e objeto de vexame para o Brasil caso assumisse a presidência, não deixa de ter um gostinho de "cala a boca" ver o quanto o atual presidente brasileiro é respeitado, mesmo não tendo feito faculdade na USP, pós-graduação na Sorbonne e nem falar quatro ou mais idiomas.

O Brasil ganhou respeitabilidade internacional pelo fato de ter seguido à cartilha da economia global, mantendo uma política econômica interna de austeridade, investindo nas exportações, regulando o capital, mas mantendo a personalidade, sem se deixar subjugar pelos desmandos dos bancos internacionais e nem ter gastado muito, como outrora fizeram milhares de vezes os governos anteriores. Enquanto o capitalismo no berço dos neoliberais naufragou, pela ganância de seus próprios investidores no famigerado governo Bush, o governo brasileiro não cometeu irresponsabilidades como os argentinos e nem comprou brigas desnecessárias com parceiros raivosos no continente, como Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai, e estreitou seus laços com potências emergentes como a China, os países árabes, além de manter um pé na União Européia, com uma relação mais do que proveitosa com a França. A chegada de Obama ao poder apenas revelou-se uma cereja no bolo, num histórico de relações que transpôs em muito os ritos protocolores da cordialidade, uma vez que até mesmo com Bush em suas trapalhadas, Lula soube tirar proveito mantendo uma boa relação, prosseguindo com laços comerciais intactos, imunes à crises, que só tenderam a se fortalecer.

Podem me acusar de ser "lulista" ao extremo ao estabelecer aqui meus comentários acerca do peculiar elogio feito por Obama ao presidente brasileiro. Mas retruco, dizendo, nessa altura do campeonato, que quem é mais lulista é Obama! This is the man!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

NEM LUXO, NEM LIXO: No "Caso Daslu", como se desenvolveu a nova mania nacional de prender rico!

Foi tema das manchetes nacionais na última semana o exagero ou justiça (será?) da ultrasevera condenação a 94 anos de reclusão e posterior prisão da socialite Eliana Tranchesi, dona da Daslu, uma das maiores lojas de alto luxo do país, pelos crimes de sonegação fiscal, contrabando, descaminho e falsidade ideológica. A juíza que decretou a sentença, qualificou a condenada como chefe de uma organização criminosa, e, em sua decisão, explicitou que a conduta de Tranchesi "era proveniente da cobiça em busca de acumulação de riqueza proveniente de meios ilícitos". Ué?! Será que a maciça maioria da burguesia brasileira e seus representantes políticos no Congresso não fazem a mesma coisa?? Tem que prender todo mundo, então!

Pra quem não conhece o caso, em primeiro lugar cabe aqui uma referência ao mundo da high society, e, pra quem entende do mundo fashion (especialmente através de amigos meus vinculados ao setor da moda), conto um pouquinho da estória da Daslu, uma mitológica loja de roupas sediada em São Paulo, capital, que, assim como a famosa butique de Malcom Mclaren e Vivienne Eastwood na Inglaterra dos anos 70, tornou-se a referência da alta moda, do luxo e do bom gosto a que acorriam os bem nascidos e endinheirados playboys e dondocas paulistanas. A loja comprava e revendia, no mercado brasileiro, roupas e acessórios de moda de grifes importadas famosas e reconhecidas mundialmente, como Versace, Dior, Rolex, Chanel, Louis Vutton. Era comum no ambiente da loja encontrar políticos, empresários, damas da alta sociedade, apresentadores de programa de televisão, atores globais, modelos, e todos aqueles que pudessem bancar o glamour e a ostentação típicos de quem vive da visibilidade social. Para se ter uma ideia, em seu auge, a empresa despontou em reportagens feitas por revistas aclamadas internacionalmente e mundialmente conhecidas, como a Vogue, New Yorker e a Vanity Fair. A Daslu era uma loja de grã-finos para grã-finos, e não deixa de ser simbólica a prisão de sua maior proprietária.

Pois é, a Daslu tornou-se mitológica porque figurou nos anos noventa do século passado como parte da paisagem paulistana, na meca do capitalismo verde-amarelo. A loja ajudou a redefinir conceitos e papéis sociais (vejam minha "tese") porque galvanizou atenção popular depois que até a filha do ex-governador Geraldo Alckmin chegou a trabalhar lá, como vendedora da loja. É, meus amigos! Dona Eliana Tranchesi, sem querer, ajudou a redefinir o papel social do comerciário, no momento em que as colunas sociais achavam "the best" ter a filha do então governador do estado como funcionária de um tão respeitável estabelecimento. Professor universitário como eu?? Que nada!!! O negócio é ser vendedor de butique de grã-fino.

O problema é que a rapaziada de alto garabito e grana no pente descobriu que todo luxo, ostentação e aura de celebridade da loja Daslu era movido à base de sonegação de impostos. Como um "Al Capone de saias", a senhora Tranchesi e seus sócios (inclusive seu irmão, seu braço-direito), encomendavam produtos de grife do exterior; porém, na hora de declará-los ao Fisco, subfaturavam os preços, revelando ao Estado valores bem inferiores ao que tinha sido comprado, pagando uma ninharia de impostos. Pra se ter uma ideia, de acordo com reportagem da Revista Época de 30 de março, camisas de seda italiana e sapatos de couro da marca Gucci, vendidos no Brasil entre 2.000 a 4000 reais, eram declarados ao Fisco entre valores de R$ 12,00 a R$ 9,00 (parece brincadeira). O absurdo não é tanto a diferença astronômica entre valores reais e os declarados dos produtos obtidos, que proporcionaram ganhos ilícitos estrondosos na conta bancária dos sócios da Daslu, mas sim a "cegueira" ou incompetência do Estado em não ter visto isto há mais tempo. Imagino a cena ficctícia em que a dona da Daslu encontra-se com seus comparsas, conversando no escritório da loja sobre suas fraudes, reiterando os crimes, dizendo assim: " vamos fazer dessa forma, subfaturar todos os produtos, pois esse pessoal do Fisco e da Polícia federal são todos uns "jecas", uns pobres de pai e mãe que não sabem reconhecer uma camisa italiana de uma calça comprada na 25 de março!", ou "funcionário público não entende de moda. Eles nem vão notar a diferença. Afinal de contas, esse povinho do Estado não sabe se vestir. Você viu como o Protógenes se veste?(referindo-se ao delegado da Polícia Federal responsável pela prisão do banqueiro Daniel Dantas)". Sob o vento da impunidade, Tranchesi e sua trupe foram constituindo sua fortuna.

Porém, enche os olhos o tamanho da condenação a que a dona da Daslu foi submetida. 94 anos! Puxa, 94 anos! Em termos comparativos, nem Marcola, líder do PCC, um dos "vilões número um" do país recebeu uma pena tão grande(só pra constar, 40 anos). O Judiciário paulista talvez quis dar uma lição a sua alta burguesia, afirmando que nem eles estariam livres do "braço longo da lei". Uma série de prisões espalhafatosas e midiáticas, como a do ex-prefeito paulista Celso Pitta, saindo algemado e de pijamas na Operação Satiagraha da Polícia Federal, na mesma operação que culminou na prisão de Daniel Dantas, e agora a prisão de Tranchesi, mesmo que liberada horas depois por força de um habeas corpus, refletem bem o espírito que trabalha hoje o Judiciário brasileiro, mormente os magistrados paulistas (vide o caso do ano passado do assassinato da menina Isabela); ou seja, boa parte das decisões e das medidas judiciais são movidas por mídia, por interesse midiático, por pressão da opinião pública!

Num ano que precede uma eleição para presidente, em que o candidato da oposição, vinculado ao tucanato paulista, aparece como favorito nas pesquisas, e embalado pelo discurso capitalista, visto na reportagem da edição de 1 de abril de Veja sobre o caso, exortando a doutrina neoliberal dizendo que a prisão de Eliana foi justa, e que: "a riqueza, no mundo capitalista moderno, é fruto de trabalho, ousadia e criatividade"(ahh,tá!), não é de se estranhar que parte da elite econômica brasileira (leia-se: metade dela residindo em São Paulo), deseje figurar na opinião pública não como canibais e arrogantes capitalistas, viciados em ludibriar a cobrança de tributos, com o intuito de multiplicarem seus lucros, mas sim como ardorosos defensores da legalidade e da fixação de penas pesadas contra os seus pares. Ora, sabe-se que na cultura nacional são comuns fraudes fiscais, desde pequenos até grandes empresários. A rotina tributária no país nunca foi vista com bons olhos. Ninguém paga imposto com um sorriso no rosto! Desta forma, é natural pensar que, desde um megaempresário até um dono de padaria, quando podem, maqueiam ou subfaturam o preço de seus produtos, a fim de pagar menos ou quase nada para a turma do Leão do Imposto de Renda. O problema do caso da Daslu é que o rombo foi grande demais(cerca de 600 milhões sonegados ao Fisco). Como o direito não socorre aos que dormem, chegou uma hora que o leão adormecido do Fisco teve que acordar!

Pois bem! Sofrendo de um câncer ósseo e de pulmão, e, segundo seus advogados, fazendo quimioterapia, uma abatida Eliana Tranchesi cruzou a carceragem da ala feminina do Presídio do Carandiru (quem diria!), para ser libertada horas depois, face a suposta "desumanidade"da decisão judicial, alegada pela defesa, e por não oferecer ela perigo à sociedade. De fato, fico me perguntando de que adianta prender e condenar a quase um século de pena uma socialite trambiqueira, que das mais graves das coisas que fez foi ludibriar o Fisco, pela flagrante falta de discernimento dos auditores fiscais, em diferenciar uma camisa de moda de uma blusa de camelô. 94 anos, repito 94 anos! Gostaria de saber se 94 anos de pena vão reaver a centena de anos de escravidão, exploração econômica e expropriação das camadas mais pobres e segregadas da sociedade brasileira. Se 94 anos vai tornar o nosso Estado mais democrático, menos policiesco, com suas milícias privadas, esquadrões da morte, torturas e violência policial, alvejando pretos e pobres desse país, todos os dias nas favelas carioras e na periferia das grandes cidades. Seria bom se esses 94 anos marcassem o fim de um sistema carcerário falido, medieval e animalesco, onde, naturalmente, presos do porte da senhora Tranchesi nunca terão o desprazer de cumprir sua pena numa daquelas fétidas celas de nossos presídios. Pergunto se 94 anos de pena vão resolver, como num passe de mágina, os problemas de impunidade e morosidade na Justiça Brasileira, tornando nossos processos mais céleres, e propiciando aqueles que mais precisam mais eficazes e justas decisões judiciais. Pra mim essa nova mania de prender rico é mais um "fogo de palha" da ação de nossos juízes, movidos pela pressão da opinião pública nacional, do que decisões com fundamento, na verdade, em autênticos preceitos constitucionais. Gostaria de estar errado! Será que estou?

Enquanto isso, o senhor Geraldo Alckmin e família, assim como toda a grã-finagem paulistana, com seu Luciano Huck de relógio Rolex dado pela esposa, ou a risonha vovó Hebe Camargo, tiram o seu corpo fora, talvez não querendo nem de longe, serem reconhecidos como mais um dos consumidores da célebre loja de grifes da metrópole nacional. Como na música de Rita Lee, Eliana Tranchesi não queria nem luxo, nem lixo, mas no final não teve nem mesmo saúde para gozar a vida com tranquilidade. Se eu fosse crente pentecostal poderia até dizer que as enfermidades, assim como as prisões, vem como resultado de um castigo divino. Mas ainda me pergunto se o castigo está reservado aos mais ricos, só pelo fato de serem ricos, ou pelo fato de serem pobres em dignidade, querendo, como apregoa a célebre Lei de Gerson, "apenas levar vantagem em tudo".

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A TRILOGIA DO EGOÍSMO-Parte III- Amor, morte e futebol na vida de Janken Ferraz


Eu disse que o mês de março foi o mês das rupturas afetivas, lares desfeitos, disputas sobre filhos, com forte cobertura da mídia, que serviram de pivô para a prática de crimes. Chamei esses casos de "trilogia do egoísmo", e agora, finalizo a série tratando do terceiro fato que se tornou manchete dos jornais, assim como os casos que o antecederam, a respeito da prisão do ex-jogador de futebol Janken Ferraz Evangelista, pelo homicídio de sua ex-mulher, a jovem Ana Claúdia Silva, de apenas 18 anos, há duas semanas.

As câmeras do circuito interno do condomínio onde vivia Ana Cláudia registraram quando Janken, Ana e o pequeno filho do casal, retornaram na data do crime de um jogo no Pacaembu. Minutos após o casal ter entrado no edifício, as câmeras captaram Janken retornando ao elevador, agora sem Ana, acompanhado apenas do filho pequeno nos braços, e vestindo outra camisa. Horas depois, Ana Cláudia foi encontrada morta no apartamento, vítima de várias facadas.

Desaparecido e procurado pela polícia, tendo sumido com o garoto, Janken foi acusado do homicídio de Ana, além do sequestro do filho, e foi descoberto, entregando-se às autoridades no dia 25 de março, na cidade de Teixeira de Freitas, na Bahia, onde viviam familiares do acusado. Janken confessou o crime aos policiais, e disse que teria matado Ana, após uma discussão, por causa de ciúmes.

Ana Cláudia era uma bela e jovem garota loira de 18 anos que conheceu Janken na adolescência, quando passaram a namorar. Ela veio a engravidar e mesmo com a sugestão do então namorado de fazer um aborto, Ana veio a ter a criança e os dois se casaram, passando a jovem mãe a ter uma série de atritos com o marido, como também com a família dele. Os dois iniciaram um processo de separação e uma disputa pela guarda do filho. Janken, segundo depoimentos de familiares da moça e de amigos, não teria concordado com o fim da relação e nem com a distância de seu filho, reagindo violentamente às sucessivas negativas da ex-mulher de reatar a relação.

Junken Ferraz foi jogador de futebol, tendo jogado nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Independente de seus dons futebolísticos, é inegável que Janken perseguiu a carreira de jogador, tendo inclusive praticado outro crime além do delito cruel do qual é agora acusado. Logo após sua prisão, descobriu-se que Janken falsificou há alguns anos sua identidade, adotando a identidade do irmão, então um adolescente de 16 anos na época, para poder ingressar no renomado time de futebol brasileiro. Janken precisava mentir sobre a idade para ser aceito no clube, e num caminho de mentiras consolidou sua carreira e casamento, ambos fracassados. Segundo depoimento da irmã de Ana Cláudia no programa da Record, do último domingo, a mentira quanto à idade foi mais um dos motivos da decepção de Ana em relação ao seu suposto "príncipe encantado", e mais um fator que acrescentou razões para a inevitável separação.

Chovem denúncias quanto à conduta de Janken após sua prisão. Uma ex-namorada alega ter sido vítima de tentativa de homicídio por Janken, quando este a atropelou após uma briga, passando por cima dela com uma motocicleta, quando era adolescente. Parece que os depoimentos colhidos são unânimes em dizer que o ex-jogador do São Paulo era um tipo instável, de comportamento explosivo, agressivo, que reagia mal diante de negativas, e que seria capaz (como foi) de matar alguém, sobretudo se essa pessoa fosse mãe de seu filho.

Não deixo de verificar aqui as tristes semelhanças e inevitáveis conexões entre os casos apresentados aqui neste blog no mês de março, compondo minha aludida "Trilogia do Egoísmo". Nos 3 casos apresentados ( o de David Goldman X Bruna Bianchi pela posse do menino Sean; a tragédia de Goiânia com a morte de Kleber Barbosa e sua filha Penélope; e o homicídio praticado por Janken Ferraz contra sua ex-mulher Ana Claúdia, após brigas pela posse do filho) estão presentes os seguintes componentes: casais com relações afetivas desajustadas que tendem ao fim; a disputa pela guarda ou posse de crianças, que acabam se tornando vítimas involuntárias dos sentimentos egoístas de seus pais; a transformação do conflito familiar em crime e consequente caso de polícia ou conflito judicial( a acusação de sequestro feita pelo pai de Sean contra a ex-mulher, a falecida Bruna; o homicídio de Penépole praticado pelo próprio pai, que se suicida na queda de um avião, além da tentativa de homicídio contra a ex-mulher; o homicídio da ex-mulher por Janken Ferraz, além do sequestro do filho).

É verdadeiramente impressionante o quanto a chamada pós-modernidade e a necessária releitura de conceitos tradicionais tão sacramentados, quanto à manutenção da família e a consequente felicidade familiar, são tão questionados e tão descontruídos diante da tragédia cotidiana, da ruptura violenta de relacionamentos afetivos frustrados. Os tristes fatos, que acabaram compondo a triste trilogia a que me refiro, são apenas um recorte de sofrimentos rotineiros de todos os dias na vida de casais ou de famílias em crise. A constatação de que o amor acabou, os laços que outrora uniam não mais subsistem, que a disputa injusta e cruel pela guarda de filhos irá ocorrer, como se eles fossem troféus de uma luta ensandecida de recuperação da auto-estima e do amor-próprio, apenas refletem aquele sentimento de orgulho ferido daqueles que se separam, transformado no mais puro e viciante egoísmo. O egoísmo é o veneno que mata a sensatez, afugenta o amor, inibe a compreensão e torna turva a visão, fazendo com que cegos pais não percebam o quanto de sofrimento estão repassando para seus filhos.

Fico me perguntando até quando inúmeros "Janken Ferraz" estarão à solta por aí, disfarçados na figura caricata de bons moços, bons maridos e bons pais de família, e dali, como numa transformação de Doutor Jeckyl para Mister Hyde, saem das sombras para mostrar sua verdadeira face doentia, destruindo não apenas seus relacionamentos afetivos, mas também a própria vida das pessoas. Fico imaginando, como querem alguns psicanalistas, se não seria tudo culpa das mães??!! Ou se não seria alguma deficiência de tratamento desde a tenra infância, encoberta sob mimos excessivos ou pseudozelosos, que transformariam crianças irriquietas, ou incapazes de assimilar um "não", em futuros adultos raivosos, inconstantes, possessivos, cegos, autoritários, que não conseguem lidar sozinhos com suas frustrações e acabam por compensar nos próprios filhos suas dores interiores, quando decidem massacrar ex-maridos ou ex-esposas, seja figurativamente ou mesmo pela prática do extermínio, nas sucessivas notícias de assassinatos e crimes passionais divulgados pela mídia, na sua sede de sangue por mais e mais informações sensacionalistas.

Sobre isso recordo um interessante estudo feito por Boris Cyrulnik, em seu livro "Falar de Amor à beira do Abismo". O célebre psicólogo e pedagogo francês fala em uma passagem do livro, acerca do que o homem machucado pelo sofrimento pode agravar ou reparar com sua perda afetiva, afirmando: "para não se deixar assassinar, é preciso buscar nas significações escondidas as estruturas invisíveis que possibilitam o funcionamento desse sistema absurdo e cruel".

Ora, fico imaginando se não é na fé, na crença da justificação mais racional dada por Deus aos sofrimentos mais absurdos é que podemos ter a capacidade de recomeçar ( a chamada "resiliência" ou recuperação de que trata Cyrulnik). Da nosse fome por relacionamentos perfeitos, por um modelo pronto e acabado de vida afetiva e familiar estável e feliz, por construir narcisicamente nossos quadros, pintando nossa realidade na realidade do outro (como afirma Comte-Sponville), acabamos por destruir o próprio quadro construído, pela força impactante, irracional e intragável de nossos desejos reprimidos, de nossa ânsia por respostas prontas e acabadas, pela sedução do nosso próprio egoísmo. Esquecemos que a vida foi feita para ser vivida, seja lá como, e não por um modelo pré-concebido que estabelecemos como ideal (aí eu retorno a chamada "consciência do absurdo" retratada por Albert Camus, no texto anterior publicado neste blog). Enquanto em nossa arrogância tratarmos como adultos as nossas crianças, que dependem de nós e nosso afeto, quando nós mesmos nos transformamos em crianças irriquietas, birrentas e egoístas, que choram quando nos tiram o nosso doce ( no caso, o doce do desejo, da vontade animal de querer ficar com o outro), não poderemos, na verdade, nos auto-intitular de verdade como adultos.

Ou será que não seria nada disso e pessoas como Kleber Barbosa ou Janken Ferraz seriam apenas esses seres uns francos psicopatas? Segundo o psicólogo canadense Robert Hare, em entrevista publicada recentemente na edição de 1 de abril da Revista Veja, o psicopata não nasce psicopata, e sim, nasce com tendências para a psicopatia. Assim, todos nós, dependendo da forma como interagimos com os outros e como fomos criados, podemos nos tornar ou não psicopatas, ou sermos tidos pelos outros (especialmente por nossos ex-relacionamentos ou ex-namoradas) como psicopatas. Um psicopata não é incapaz de sentir amor, e na verdade pode até amar muito, mas de uma forma tão egoísta ou tão ausente de moralidade que esse amor pode resultar em morte. Lembremo-nos que se o egoísmo passional nos torna loucos, a psicopatia nos torna "loucos morais", ou seja, tornamo-nos pessoas incapazes de sentir remorso, dor ou arrependimento, após termos saciado um certo sentimento de vingança ou revanche muito típico, sobretudo quando ganhamos a guarda judicial de um filho, ou conseguimos que aquele que nos amou mas não ama mais, se estrepou de alguma forma: ou com uma facada, ou morrendo numa sala de cirurgia, ou levando um extintor de incêndio na cabeça, como vimos nos casos retratados neste blog.

É, meus amigos, os cães ladram mas a caravana passa! Queira eu não me tornar refém de meus egoísmos, das minhas próprias psicopatias, para não ter o mesmo triste fim que um Kleber Barbosa ou um Janken Ferraz! Pobres crianças! Pobre Ana Claúdia! Que Deus tenha misericórdia de todos! Amém!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?