terça-feira, 8 de junho de 2010

COMPORTAMENTO: Vulgaridade e decadência alcóolica feminina vem desde a Antiguidade.

Às vezes fico refletindo sobre o conceito de mulher vulgar. Será que de fato o conceito existe ou se trata apenas de uma definição arbitrária do senso comum?Será que a vulgaridade atribuída aos atos e gestos de algumas mulheres não é fruto de mais um dos sorrateiros expedientes machistas da dominação masculina? Bem! Talvez, de fato, o conceito de mulher vulgar só sirva propriamente às mulheres, pois a elas interessa mais do que aos homens qualificar uma conduta de sua semelhante de gênero como vulgar. Afinal de contas, mulheres são ou não são desunidas entre si?

Passei a refletir sobre isso, do alto de minha barbicha coçada à exaustão,quando penso em escrever minhas litanias virtuais, tendo em conta recente episódio, tristemente testemunhado por mim, por estes olhos meus que a terra há de comer, quando, recentemente, visitei um agradável barzinho, ao lado de um amigo meu, colega de profissão. Nós, como dois professores almejando o santificado chopinho de fim de expediente após a labuta das aulas, dirigimo-nos ao  nosso suntuoso templo da cevada (alguns mais gaiatos, incluindo eu, chamam de "escritório") e lá, além da grata presença de amigos queridos, encontramos também três ex-alunas desse meu colega de vida boêmia, e o que poderia até se transformar num papo agradável, acabou me soando como a antesala do inferno (não meu, porque como diria Sartre: "o inferno são os outros!"). Quando uma das moçoilas nos abordou, esta, assim como suas colegas, parecia visivelmente alcoolizada. Até aí, tudo bem!Afinal de contas, quem é que não bebe mais da conta de vez em quando, não é mesmo?! O problema é que o estado alcoolizado das ditas estudantes universitárias no período noturno e trabalhadoras do setor terciário durante o dia, passou dos limites, quando o grupo passou a dar sinais de que sua farra poderia se transformar, facilmente, numa cena de hospital ou caso de polícia. E não foi o que ocorreu?

Entre galhofas, esbarrões, frases desconexas, babadas, cuspidas, puxões de cabelos entre elas, copos quebrados e amendoins de aperitivo sobrevoando as mesas, pude perceber até que ponto não só o homem, mas também a mulher pode sair de sua altivez feminina, cair do salto e literalmente bater com sua boca carnuda e vermelha de batom no fundo da sarjeta.Espanta ao homem ver uma mulher alcoolizada porque isso o faz comparar a embriaguez feminina com o absurdo da conduta masculina pós-álcool, identificada com a irresponsabilidade do homem ou exercício babaca de macheza ("o macho tem que beber"), contrária à conduta da mulher sóbria; pois, para o homem, as mulheres deveriam ser a encarnação da sobriedade. Na lógica patriarcal de nossa sociedade ocidentalizada, em seus moldes greco-romanos e com forte influência da cultura judaico-cristã, a figura do ébrio é sempre representada pelo homem, enquanto que para mulher compete a imagem da austeridade, da serenidade maternal que a tudo acolhe e tolera, inclusive os porres do marido. A "mulher honesta" a que aludia Júlio César, para justificar na Roma Antiga seu divórcio de Pompéia, deveria ser aquela mulher do tipo "Amélia" (que me perdoem as detentoras desse nome); ou seja, aquela que fica em casa, costurando ou cerzindo os uniformes do marido a serem usados na guerra, enquanto que o homem-guerreiro, ao voltar das batalhas, teria direito ao porre de comemoração, em tributo a Baco, enquanto que à mulher restaria uma ansiosa espera no lar do marido embriagado, à disposição de seu homem para entregar o seu corpo após a festa masculina, mesmo que tendo de aguentar um desgraçado hálito de vinho. Uma mulher que não se portasse dessa maneira, e, ao revés, provocasse a ira dos deuses, confrontando-os, saindo na balada e bebendo do que seria um líquido reservado aos homens, ou era tachada de bruxa ou prostituta. Parodiando a célebre novela televisa de Manoel Carlos, ao invés de "mulheres apaixonadas", nascia o epíteto da vulgaridade para as nossas "mulheres embriagadas"!

Vulgus, do latim, significa "povo, massa comum", ou simplesmente a palavra" popular". Sêneca já aplicava o termo em Roma para qualificar a turba, o povão, a plebe, aquela categoria social numerosa e distinta da elite, formada por homens e mulheres simples, que fazem da simplicidade sua maneira de ser. Vulgar foi então um termo utilizado para definir algo que seja do povo, do gosto comum, algo distante do que querem ou pensam os sábios, os estudiosos, os letrados, os detentores de conhecimento. Ora, tem coisa mais popular (vulgar) do que a bebida, consumida em larga escala sem distinções de raça, credo ou classe social? Por que as mulheres então seriam tidas como vulgares porque bebem?

A embriaguez para os gregos, definitivamente, não era atributo feminino. Seja no Banquete de Platão, ou nos relatos de Plutarco, Heródoto ou Tulcídides, a hora onde os convivas se regalavam no vinho e bebiam até cair ou vomitar era atributo dos homens, dos senhores das letras e da política, que em tributo a Dionísio, e levando em conta a fartura das colheitas de vinho, deveriam se entregar aos excessos, conduzindo-se a estados cada vez mais delirantes de embriaguez, enquanto competia às criadas ou esposas tão somente recolher  em vasos o vômito de seus senhores. Não raro, figuras influentes da política deixavam-se embriagar na alcova, junto a suas amantes ou prostitutas, porque, na verdade, o compartilhamento da bebida inebriante não deveria ser feito junto às esposas. Na Idade Média, o feudalismo e o advento de uma cultura fundada na religiosidade cristã, com o poderio da Igreja Católica, reforçou os estereótipos e papéis sociais, condenando o álcool e a embriaguez, reservando às mulheres até mesmo a fogueira, se adotassem um comportamento semelhante ao das feiticeiras, estas sim, vorazes consumidoras de bebidas alcóolicas. O delírio, a conduta alucinada de quem bebe, não deveria estar associada à sagrada figura feminina. O cristianismo católico, vinculado ao cânone da santidade de Maria, não poderia admitir que no seio de sua comunidade pudessem existir mulheres depravadas, que destoam do seu ofício natural de mães, contrariando os mandamentos da igreja e se deixando levar pelo álcool. A saída para as cortesãs era o período do Carnaval, festa pagã tipicamente da Renascença, criada com anuência da igreja, no sentido de permitir, ao menos uma vez durante o ano, antes da quaresma, um curto período onde eram permitidas as licenciosidades (inclusive goles de birita tanto para homens e mulheres, desde que bem escondidinhos pelas máscaras carnavalescas).

Mulher alcoolizada passou então a ser tabu na sociedade ocidental, tanto quanto o adultério, o divórcio ou o incesto. Durante séculos os abusos a que estavam sujeitas devido à dominação masculina fizeram com que as mulheres ficassem obrigatoriamente sóbrias. Na segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento da psiquiatria e o surgimento da psicologia e posterior advento da psicanálise freudiana, o alcoolismo feminino passou a ser associado com doença, com surtos de histeria ou loucuras decorrentes do estado hormonal, que faziam a mulher tomar uns dois tragos ou mais, ou mesmo tão e simplesmente sinais de decadência moral e física. Quem desposaria uma mulher que leva uma garrafa debaixo do braço? Ter ao seu lado uma mulher alcóolatra era a pior das infâmias, motivo de escárnio ou preces devido a uma maldição causada ao homem por punição divina. Mulher e copo cheio de bebida não correspondiam, ao menos que o whisky, a cerveja, o vinho ou a cachaça fossem sorvidos pelo homem, a fim de alimentar seu apetite sexual e assim, de forma ébria, satisfazer-se sexualmente possuindo uma mulher, em estado de embriaguez preordenada.

Somente no século XX, com os movimentos de libertação da mulher e o surgimento do feminismo, o consumo de álcool e outras condutas tanto adotadas por homens quanto por mulheres, passaram, a meu ver, a serem toleradas na sociedade, não sem um certo tom de crítica e estereótipos traçados pela cultura do período. Até hoje, a visão de uma mulher segurando uma garrafa de bebida alcóolica, pode simbolizar tanto propaganda de cerveja quanto o auge da vulgaridade. No Código Penal, na jurisprudência, e na doutrina jurídica sobre os crimes sexuais, o fato de um homem ter relações sexuais com uma mulher embriagada ainda pode suscitar um processo por crime de estupro, com violência presumida, uma vez que muitos teóricos do direito entendem que a mulher num estado de embriaguez é incapaz de discernir sobre a natureza de seus atos ou de manifestar consentimento. Em função disso, muitos homens alertam os outros da "roubada" de conhecer uma mulher embriagada no meio da noite e com ela ir para a cama, uma vez que no dia seguinte o sujeito pode ter a polícia batendo na sua porta. O álcool ainda pode ser utilizado por muitos como artíficio ou mecanismo para inibir a mulher, tirar dela toda a liberdade de ação, e com isso usar da substância alcóolica como mais uma instrumento de subjugação.

Entre as figuras célebres no meio feminino que popularizam o consumo do álcool e até o utilizaram como marketing involuntário, podemos citar, na contracultura do final dos anos 60, a cantora Janis Joplin, que entre goles e mais goles de whisky, vodka e um quilo de drogas e substãncias  alucinógenas, cantou a alma da mulher ferida entre um trago e outro, cambaleando por vezes no palco com sua embriaguez triste, porém lírica. Décadas antes, Billie Holliday sucumbia ao efeito das mesmas drogas e de doses cavalares de álcool, sem medo de dizer o que sentia ou o que cantava, e dando de bruços às críticas da sociedade conservadora e racista de sua época. O consumo de bebida e a imagem da bad girl passaram a caminhar juntos, e assim como os demais símbolos de contestação, as chamadas "moças de familia" passaram a sair de casa, contrariar seus pais e tomar umas doses de bebida, não sem antes receberem a extremada crítica de que mulher que bebe é mulher vulgar, mulher vadia ou que não tem a cabeça no lugar. Pra reforçar o estereótipo, na década de 80 do século passado, no lugar de Janis Joplin, tivemos o corpo sóbrio, sarado e rebolado de Madonna, dançando freneticante like a virgin, exalando sensualidade, mas sem uma gotinha de álcool, no seu perfil de geração saúde, regado à alimentação macrobiótica, exercícios, plásticas e cabala. Somente no novo século, nesta última década, é que pudemos reviver a estética de estrelas bebuns, como no caso das cantoras inglesas Amy Winehouse ou Lily Allen. No caso da primeira, as estripulias etítlicas serviram de fermento para os paparazi, enchendo os tablóides e alimentando a fama da nova estrela da soul music global, tanto quanto sua música, que esboça o mesmo sofrimento da perda do amor sentido a cada gole da mulher traída ou abandonada, como as idas e vindas das clínicas de reabilitação por consumo de álcool ou drogas de Miss Winehouse; enquanto que no caso da segunda, o consumo excessivo de álcool mais parece uma picardia juvenil pós-adolescente de quem quer aparecer através da birita. É! De qualquer forma, a impressão que fica é que sempre parece feio ver uma mulher encher a cara, e mais feio ainda de ver que nas novas gerações, mais e mais mulheres buscam seus iguais direitos numa sociedade masculinizada, imitando até os vícios dos criticados homens, vindo a beber tanto ou mais que seus antagonistas de gênero. Será que é preciso mesmo beber tanto?

Volto para a cena que vi nesta semana, vendo uma pobre coitada despencar embriagada de uma cadeira, batendo a cabeça no piso do bar, permanecendo inconsciente e desanimada, enquanto uma turba de garçons se apressava a reanimá-la, entre golfadas e mais golfadas de vômito. Pensei que desabava ali não mais apenas uma mulher embriagada, mas também o resto de sua autoestima e credibilidade. Bebemos por vários motivos: ou para comemorar a vitória de nosso time, o novo emprego conquistado, o nascimento do filho, a aprovação no vestibular, um novo emprego ou um aumento de salário; assim como podemos tomar mais uma dose para afastar sentimentos recônditos que odiamos, fugir da tristeza que não cansa de ficar, ou para esquecer amores perdidos. No caso da mulher, parece que a sentença por ter bebido e exagerado parece mais pesada e demasiada do que a dos homens. Não importa só a ressaca física da mulher que beijou a lona após ter bebido demais, mas sim aquela ressaca moral,que insiste em permanecer quando vemos que o fiapo de sedução que a mulher possuía desaparece,quando ao invés de um rosto, um cabelo ou corpo bonito, o que sobra é um corpo flácido e alcoolizado, mais parecendo um saco de batatas do que um objeto do desejo, numa noite perdida em uma mesa de bar. Não sou contra mulheres que bebem, e sou muitas vezes parceiro de uma rodada de chope de muitas de minhas amigas, mas o que percebo tristemente é que mais e mais mulheres desconhecidas vão me aparecer com bafo de whisky, martini ou cachaça, e dessas, com muita certeza, creio que não vou ter muito o que acrescentar. Só posso dizer uma coisa: SE BEBER NÃO DIRIJA! Até o próximo gole!!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

SAÚDE: Vivemos numa sociedade química??

Na edição n.o. 187 da Revista Trip, em reportagem assinada por Nina Lemos, na seção "comportamento", aparece uma matéria interessante, intitulada "Super-normal", comentando o consumo generalizado do medicamento Rivotril, ansiolítico que se tornou o segundo remédio mais vendido no Brasil, na frente do Tylenol e do Hipoglós. Para se ter uma ideia, no ano de 2008, foram vendidas 14 milhões de caixas do remedinho tarja preta que agora faz a cabeça da galera "descolada". Pois é, tomar Rivotril agora virou cool, e quem tem uma crise de ansiedade, uma deprê, ou não consegue dormir, é só tomar um comprimido de "Rivô", como o remédio é agora chamado carinhosamente por seus consumidores. Detalhe: para um remédio que causa uma forte dependência, para os viciados nele, o medicamento virou uma verdadeira entidade. Bateu tristeza: Rivô nela!!!!

Como sou viciado em leitura ( e não em medicamentos), gosto da Trip, como de outras publicações, porque a revista de Paulo Lima consegue me manter antenado sobre o que a juventude (ou nem tanto)  urbana e classe média do país vem pensando ou consumindo, ou mesmo simplesmente para apontar as tendências ou modismos culturais do período. Há reportagens interessantes e muito bem feitas mesmo, além de ser possível fazer uma verdadeira pesquisa sociológica sobre muitos temas que são abordados pelo periódico, além das célebres "páginas negras", seção inicial da revista, que sempre tem uma matéria de capa sobre alguma personalidade que ganhou (merecidamente ou não) atenção da mídia.

Como exemplo de quão são interessantes as reportagens da revista e o quanto de relevante em termos de reflexão podemos fazer acerca do que é publicado, foi aquela que citei acima sobre o Rivotril. Anteriormente diagnosticados como "doentes emocionais", os usuários do fármaco agora saíram das sombras, revelando o uso em larga escala do medicamento por celebridades, pessoas do meio artístico e intelectuais. O ator e diretor Selton Mello, por exemplo, ao receber no ano passado o prêmio de melhor ator, por sua atuação no filme Meu nome não é Johnny, disse nos alto-falantes em seus agradecimentos, que agradecia não somente a todos os presentes do auditório lotado da premiação, mas também à indústria farmacêutica, ao Pramil e ao Rivotril que faziam as pessoas "ficar tão bem" (sic). Selton Mello toma Rivotril, Pedro Bial também (até pra demonstrar aquela alegria toda de palhaço midiático, meio "Neochaquinha", no BBB), Zeca Pagodinho também é adepto do medicamento, Erika Palomino diz que não vive sem ele, e inúmeros escritores, publicitários e músicos não saem de casa sem tomar seu comprimidinho, deixando sempre à disposição uma caixinha do remédio no bolso, caso a barra comece a pesar . Daqui a pouco, vão dizer que até o Lula toma do remédio!

Alçadas à condição de "mãe de muitos brasileiros", no momento em que aquieta até o mais feroz dos pitbulls, drogas como o Rivotril começam a ser usadas exageradamente em nossa sociedade, burlando inclusive à fiscalização de farmácias que exigem requisição médica para a venda do fármaco, muito em função das pressões da sociedade urbanizada, pós-industrial e globalizada que vivemos, gerando todo um clima de crise, deslocamento, desenraizamento ou aporrinhação mesmo, que nos primórdios da sociologia, na teoria de Durkheim, poderíamos definir como "anomia". A crise ou perturbação pela ausência de valores fixos que levem a uma estabilidade emocional ou a um chão onde os indivíduos possam se firmar, acaba por produzir uma nova fetichização na sociedade de consumo capitalista, forçando muita gente a, literalmente, "comprar felicidade". A indústria farmacêutica segue o rumo da indústria comum; ou seja, produz bens de consumo duráveis ou não duráveis que devem ser produzidos e utilizados em grandes quantidades, a fim de que gere lucro. Sem querer ser o mais marxista dos sujeitos (até porque não sou), entendo que a lógica do sistema capitalista, através do discurso médico-psiquiátrico, acabou por tentar "vender seu peixe", com bastante êxito, na popularização de um produto que promete ser a solução dos males modernos, que tanto produzem danos psicológicos. O consumo desenfreado do Rivotril no Brasil me faz lembrar o filme Requíem para um Sonho, de Darren Aronofski , onde a personagem Sara, interpretada pela atriz Ellen Burstyn,  mãe no filme do viciado em drogas Harry (Jared Leto), também mostra sua dependência química, ao viver entupida de comprimidos pra emagrecer ou que a façam dormir, a fim de participar de um programa de televisão.

O problema não está na nobre intenção da ciência médica de produzir medicamentos que aplaquem a dor, principalmente a dor interna, a dor da alma. O problema é quando o remédio ou o discurso sobre o medicamento se propõem a ser um substitutivo para as necessárias reações internas e naturais, que cada um tem que ter ou ao menos se propõe a reagir, diante de um sentimento ou situação de frustração, de ter chegado ao limite, de angústia, de provação, de dor. Vivemos numa realidade bastante desumanizante e perturbadora, de cobrança crescente por resultados numa "selva de pedra", que consome não só carne, suor e sangue, mas também espíritos, almas e pensamentos. Em países de primeiro-mundo, como Japão, ou em paraísos do bem-estar social, como na Dinamarca ou na Suécia, são comuns casos de pessoas que se suicidam, geralmente até em determinados períodos do ano, numa lógica macabra que revela que muita gente simplesmente não consegue "segurar a onda", diante dos dilemas impactantes de uma rotina e dia a dia cada vez mais sufocante. Imagine quem vive em São Paulo, deparando-se com o cotidiano da grande cidade, com seu monstro metálico de buzinas, congestionamentos, fumaça, barulho incessante e voo ininterrupto de helicópteros, fazendo com que muitas pessoas, em plena situação de pânico, abandonem seu carro em meio ao engarrafamento, simplesmente porque não aguentam mais. É muito fácil escutar na metrópole o coro de corpos exaustos, a voz trêmula de quem não aguentou mais o perturbador e  frenético movimento da urbe, resfolegando em voz trêmula, dizendo: "cansei!". É nesse cenário que o discurso onipresente de valorização de drogas como o Rivotril ganha tanto vulto.

Não tenho nada com a vida das pessoas e nem posso julgar como fracos quaisquer indivíduos que necessitaram prioritariamente de ajuda, e daí, aconselhados por bons profissionais da medicina ou da psicologia, agora se valem de medicamentos para conseguir aguentar o tranco dos dias de hoje, para não ter um "piti" e nem meter uma bala na cabeça. O problema que vejo e que aludi acima é quando todas as demais opções (mudar de cidade, viver no campo, mudar de emprego, casar com outra pessoa, abraçar uma religião ou seita, descobrir novas aptidões artísticas, praticar esportes, ir ao cinema, ou simplesmente encher a cara, tomando várias cervejas) são deletadas em prol de uma solução que vem por um comprimido que promete ser a saída para todos os males da alma. Isso gera um movimento perigoso de perseguição cada vez maior da felicidade a qualquer custo, nem que seja pelo vício e dependência em drogas lícitas, que pode provocar consequências efetivamente trágicas. Afinal de contas, quem não vê nos meios de comunicação, nos últimos tempos, a fila macabra de celebridades mortas por overdose de medicamentos?

Em prol do "culto ao remedinho", figuras célebres como Elvis Presley, nos anos 70, e Michael Jackson, no passado, sucumbiram por tomar remédios demais, achar que a vida passaria a ser vivida no piloto automático, atuando como um brinquedo de corda movido a medicamentos, que para comer ou não engordar precisa de um estimulante ou inibidor de apetite, para dormir um ansiolítico e para não cair em choro copioso, um antidepressivo. Talvez a falta de religiosidade ou a ausência da rigidez de valores tradicionais de outrora que valorizavam a coragem, a temperança ou a paciência, possam servir como explicação para a saída fácil procurada por tantos de resolver seus problemas pessoais na base de medicamentos. Ano passado, fiquei chocado com a morte do ator australiano Heath Ledger, na precocidade de seus 28 anos, por tomar remédios demais (dizem que o cara não conseguia dormir, e depois que separou da mulher, além de beber, vivia na base de medicamentos), e este ano, pela morte no começo do ano da jovem e bela atriz Britany Murphy,  aos 32 anos, e pelo óbito de seu marido, o roteirista Simon Monjack, seis meses depois, pelas mesmas causas: infarto agudo causado por overdose de medicamentos. E eu que vivia tomando medicamento pra dormir e antidepressivos, há um bom tempo atrás. Ai, que medo!!!

Entendo que tem muita gente boa e sensível morrendo jovem demais, devido a esse culto ao medicamento que, paradoxalmente, ao invés de fazer bem, como o propósito de qualquer remédio, no final faz muito mal. Posso estar falando besteira para qualquer profissional da medicina ou da psicologia que esteja lendo este blog, ou  parecer ingênuo para muitos que recorrem a medicamentos como forma de solucionar seus barulhos internos. Sei, sei! Não sou o sabichão e logicamente posso muito bem não compartilhar da dimensão dos problemas que incomodam e inquietam muita gente, deixando-as tão perturbadas que necessitam realmente de alguma medicação. Só digo que, pelo fato de já ter passado por experiências muito ruins na vida, e ter literalmente desabado, sei do peso de nossas escolhas e de como é difícil se reerguer, se não tivermos a mãozinha de alguma caixa de comprimidos que esteja bem próxima, ao nosso lado, de preferência na cabeceira da cama. Porém, sei também da relevância que tem um bom papo reto com um amigo, um desabafo bem chorado no ombro ou no colo de quem nos ama ou de quem a gente gosta, a confissão de nossos erros ou autorresponsabilização de nossas atitudes pra um padre, pastor ou sacerdote, pra quem exerce alguma religiosidade, o ato de dobrar os joelhos ao pé da cama, olhar para o nada, acreditar que existe algo além, e pedir ajuda ao "cara lá de cima"; ou tão e simplesmente a atenção do barman no balcão ou na mesa de bar, ou de algum transeunte disposto a escutar nossas lamúrias, quando a vida pesa, e queremos escutar na voz de Morryssey, do Smiths, o refrão: "mother, I can feel, the soil falling over my head". Se preferirem, como diria Renato Russo: "viver é foda, morrer é difícil", mas mesmo assim, prefiro encarar a maior parte dos meus problemas de cara limpa, sem ter que recorrer à solução fácil do comprimidinho, toda vez que a barra começa a ficar pesada ( e pesa várias vezes). Para os fãs do Rivô, deseje apenas sorte e felicidade na opção. Para mim, "mais uma dose, é claro que tô afim", Pois, afinal: "por que a gente é assim?".

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ELEIÇÕES: Segurança Pública-Serra e sua metranca podem gerar bala perdida!

Pra quem me conhece e sabe de minhas predileções político-partidárias, não há duvida nenhuma de que votarei em Dilma Roussef para presidente. Não apenas porque "o cara" quer, mas sim por acreditar que o projeto político representado pela escolhida de Lula segue em confronto com o projeto oposicionista de Serra. Não que as propostas de Dilma sejam revolucionárias, mas ao menos são as propostas de um governo que teve o mérito de sair da mesmice na discussão sobre a área de segurança (razões que explico no decorrer deste texto). Bueno! O que temos agora, em termos de candidaturas?! De um lado, pela candidata governista, temos a presença do ideário socialista, com um Estado forte, com tudo de bom e ruim decorrente disso, inclusive com uma burocracia exagerada, um populismo de esquerda que acomoda sindicalistas em cargos públicos, clientelismo, troca de favores e um certo fisiologismo típico de quem barganha apoio do PMDB, e um assistencialismo bem no estilo social-democrata, além de uma política externa que tenta colocar o país no protagonismo internacional, mesmo que esse implique numa briga com os Estados Unidos. Já, de outro lado, pelo candidato oposicionista, temos a marca do projeto neoliberal iniciado com Fernando Henrique Cardoso, capitaneado pela aliança tucano-democratas, do Estado mínimo, privatista, interessado em fomentar o grande capital através do discurso da reforma tributária, num tom economicista, privilegiador do interesse privado e porta-voz da classe média urbana e consumista, que no âmbito externo tem um projeto mais modesto: de subserviência ao capital especulativo internacional, mais acomodado aos interesses norte-americanos, até o ponto de crucificar figuras como Chavez, Raul Castro, Evo Morales e Ahmadinejad, como verdadeiras "forças do mal".

Mas o que me preocupa mais no discurso de Serra não é tanto a coloração político-ideológica que ele tanto ostenta  com sua plumagem tucana, já há muito tempo, mas sim seu discurso voltado para á area da segurança pública. Serra me parece mais um devoto dos discursos da lei e da ordem, bem ao gosto da tirânica classe média paulista e de sua elite econômica, que acha que questão social é caso de polícia, defendendo um populismo punitivo ao gosto das massas que assistem na TV o Datena, com o recrusdecimento das penas de prisão, a ausência de trégua para os criminosos, na ideologia preventiva do "combate ao crime", uma visão totalmente panóptica do aparato carcerário, além de uma defesa (pasmem!) apaixonada da Lei dos Crimes Hediondos. É, se já era perigoso pensar no retorno dos neoliberais ao poder (não obstante o lulismo hoje ser considerado uma espécie de social-liberalismo), agora, o mais preocupante é ver como esses neoliberais irão lidar com assuntos vinculados à segurança do Estado.

O antrópologo Loic Wacquant, conhecidíssimo por duas grandes obras suas: As prisões da miséria e Punir os Pobres, denuncia a estratégia neoconservadora e da nova-direita de tratar as questões sociais como questões que só se solucionam com o emprego do aparato punitivo do Estado. Para Wacquant, seria a "passagem do Estado-providência para o Estado-penitência", no momento em que o Estado, ao não conseguir suprir os excluídos de política sociais, "joga a toalha" e resolve a questão da pobreza da forma mais rápida e eficaz, tirando os pobres das ruas, higienizando o espaço público, levando-os para o cárcere. É desse discurso que se alimentam candidatos como Serra, juntando-se ao coro dos demagogos de plantão, ao criticar os movimentos de direitos humanos, por serem, segundo eles, tolerantes demais com a bandidagem. Povo quer ver ação!Povo quer ver o fim da impunidade! Povo quer sangue! E assim como Foucault, no capítulo inicial de Vigiar e Punir,onde ele narra uma execução em praça pública, com o martírio de um condenado, políticos como Serra querem ver supostos criminosos massacrados pela mídia e pela opinião pública, mofando ou apodrecendo na cadeia; como bem pôde ser observado quando o folclórico político tucano e ex-governador de São Paulo, hábil no uso das expressões "trololós" da vida, ampliou seu voculário, dizendo num popular português que os criminosos, na sua presidência, deveriam ser todos "engailoados" (como se já não fossem, tendo em vista os dramas da superlotação de nosso sistema prisional).

Ao escutar a entrevista ao vivo de Serra na Rádio Gaúcha, no começo deste mês de maio, por exemplo, em duas horas de conversa do candidato tucano com os radialistas, pude escutar além de sóbrias exposições sobre futebol e sobre as chances do Santos e do Palmeiras, verdadeiras pérolas do discurso punitivo, quando Serra se referiu saudosamente à eficácia da Lei 8.072 (dos Crimes Hediondos), para ele, sabiamente aprovada pelo Legislativo após a morte da atriz Daniela Perez (como se ninguém não estivesse cansado de saber disso), bem como defendeu o uso de pulseiras e tornozeleiras eletrônicas para monitorar presos do semiaberto ou em liberdade condicional. Sobre o sistema prisional é que Serra foi mais efusivo, dizendo que se tratava sim de responsabilidade dos estados da federação lidar com a questão carcerária, não devendo a União meter o bedelho nisso, defendendo tão somente um aumento de verba, destinada em forma de repasse aos estados, para que eles solucionassem o dilema carcerário, para a construção de mais presídios; ou seja, nenhuma solução a longo prazo envolvendo expedientes não punitivos: para os pobres mais cadeia; para os ricos, garantia de verbas para que se construam mais cadeias a fim de afastar os indesejáveis do convívio com a distinta comunidade do Alto de Pinheiros.

Serra defende a criação de um Ministério da Segurança Pública, reeditando o bom e velho papo furado da Força Nacional. Agora pergunto: Força Nacional pra que? Pra atender os interesses de quem, cara-pálida? Se for para essa tal nova força fazer o papelaço que fez o Exército, ao invadir os morros cariocas, digo que isso será motivo de festa para os traficantes e para o crime organizado em geral. Ora, mais militares ou gente fardada armada até os dentes, pra invadir localidades dominadas por criminosos, significa em termos matemáticos, mais chances de se conseguir subornar ou cooptar agentes públicos, e estimular o tráfico de armas que se dá entre habitantes dos morros e integrantes dos quartéis. Na sua inteligência de cidadão urbanóide criado na Móoca, Serra deve pensar tais expedientes de força em momentos de suposta "instabilidade institucional" (leia-se, arruaças do movimento sem-terra), para colocar seus leões emplumados para sufocar manifestações populares. Foi o que fez sua colega de legenda, Yeda Cruzius, no Rio Grande do Sul, no tocante ao levante dos professores grevistas da rede pública, foi o que fez a Brigada Militar gaúcha, liderada por um então "Rambo" coronel Mendes, que culminou com a desastrada ação que envolveu a morte de um sem-terra, morto com um tiro nas costas, disparado pela própria polícia. O aparato de segurança, segundo a lógica tucana de candidatos como Serra, deve ser montado em torno daquela mesma polícia que atua em São Paulo do "atire primeiro, pergunte depois", no velho estilo "Rota na rua". É! O xerife Serra está se notabilizando com esse seu discurso de programa do Ratinho. Pode ser até que consiga alguns votos no Ceará, terra de seu colega de legenda, Jereissatti, e dos pistoleiros que vivem lá.

Não basta o discurso de força empregado por Serra se voltar, no âmbito da segurança interna, para os tradicionais "clientes" do sistema criminal (pretos, pobres, favelados e excluídos), mas, também no âmbito externo, Serra quer se firmar como uma espécie de "Álvaro Uribe brasileiro", denunciando a criminalidade nas fronteiras, e se valendo de expedientes denuncistas, mesmo sem ter provas cabais nas mãos, detratando seus vizinhos, como na recente entrevista numa rádio paulista, em que meteu o pau em Evo Morales e no governo boliviano, dizendo que eles fazem vista grossa quanto à entrada e saída de cocaína que passa pelo seu território, estimulando o tráfico de drogas que assola o Brasil. Serra deixou bem claro que seus parceiros prefenciais no Cone Sul estão longe de ser tipinhos esquerdistas, incendiados pela mídia neoliberal e neoconservadora de periódicos como a Veja ou o Estadão, e que seu discurso está muito mais próximo daquele adotado pela nova direita americana, que pregam doutrinas de segurança hoje muito questionadas, como a da "janela quebrada" ou tolerância zero e que defendem, por exemplo, a presença de tropas americanas no território próprio, comprometendo a soberania, a pretexto de combater o narcotráfico. Numa urbe gigantesca como São Paulo, Serra pode até bancar o Rudolph Giulani bandeirante, mas numa realidade mais complexa de um país de dimensões continentais como o Brasil, aí o papo é outro.

Somam-se intelectuais que debatem o problema da segurança como Luiz Eduardo Soares, Nilo Batista, Marcos Rolim, Guaraci Mingardi, Maria Lucia Karam, Miriam Guindani, Vera Malagutti, Alba Zaluar e o coronel José Vicente, que há muito questionam o receituário adotado por políticos como Serra ou pela seara tucano-democrata. Na verdade, o bom e velho papo do "bandido bom, bandido morto", ressuscita apenas políticas criminais ineficazes, com danos colaterais imensos na manutenção de direitos fundamentais como a vida e liberdade, do que se propor a resolver realmente o problema da crise de segurança do Estado. É uma velha lógica reativa e imediatista, a defendida por candidatos como o tucano oposicionista, e de nada resolvem a dinâmica da criminalidade, desenvolvida no país após o processo de redemocratização.

O problema do discurso de Serra nessa área espinhosa como a segurança, é o mesmo problema da direita enquanto espectro político de lidar com o tema; pois, na verdade, segurança só passou a ser preocupação dos mais ricos quando os portões de suas mansões passaram a ser ameaçados por sequestradores. Durante séculos são os mais pobres que sofrem com a falta de segurança, pois é o trabalhador subalterno, assalariado, que corre o risco diário de ser assaltado numa parada de ônibus, de madrugada, ao sair do trabalho, e não o banqueiro com seu helicóptero ou carro blindado. Para o segmento mais pobre e assalariado da população, nunca foram pensadas políticas de segurança, até porque assaltos, estupros e violência doméstica sempre fizeram parte da crônica suburbana. O que incomoda as elites é agora ter que tratar com uma nova forma de criminalidade desenvolvida na globalização, chamada comumente de crime organizado, que aí sim afeta o capital e atinge o patrimônio dos mais endinheirados. Nesse momento, ao menos na seara tucana, desde o governo de Covas em São Paulo ou de Marcelo Alencar no Rio de Janeiro, não se pensam em políticas de planejamento da segurança que levem em conta formas de participação democrática da sociedade na gestão da segurança, numa lógica substitutiva na aplicação de penas, levando mais em conta aspectos reeducativos do sistema criminal, do que meramente punitivos. No discurso de Serra vejo muito da velha ideologia liberal, de inspiração católica, de ver o criminoso como um pecador, aquele que, pelo livre-arbítrio, tornou-se um safado que escolheu livremente o caminho do crime, e por isso deve ser punido. É bem a lógica da classe média paulista, branca, católica, e de origem italiana, de onde veio o candidato oposicionista, do PSDB, e não das comunidades negras, pobres, e de origem nordestina, como as que viveu o rapper Mano Brown, do Racionais MC. Sobre isso, é interessante ver a entrevista que Brown dá e que se tornou célebre no You Tube, sobretudo na parte em que fala de Serra, e que tive oportunidade de deixar aqui à disposição dos leitores do blog.

Em contrapartida ao discurso de Serra, parece que nesse sentido, se o governo Lula fez pouco, ao menos algo fez no imobilizado campo da segurança pública, quando isso envolve a União. O surgimento e evolução do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança e Cidadania) do Ministério da Justiça, na gestão de Tarso Genro, parece realmente ter saído do papel e tido algumas tímidas (porém louváveis) iniciativas, no sentido de mobilizar amplos e efetivos segmentos da sociedade civil e da própria polícia, para pensar e redefinir o papel da segurança. A esquerda é pródiga em produzir pensadores nessa área, não porque seja uma debilidade da direita em manter cérebros que pensam uma reforma do aparato punitivo, mas sim pelo fato de que candidatos como Serra, ao menos até agora em seus discursos, não demonstraram possuir por trás deles, em sua assessoria, alguns think tanks do pensamento conservador ou neoliberal (como nos EUA), que pensem cientificamente a segurança do Estado, mesmo que para defender posições ideológicas reaconárias. Serra permanece preso ao velho discurso liberal-positivista do direito penal, ao defender mais normas criminalizantes, mais penas e mais punições. Em nada acrescenta sua proposta de segurança, porque se encontra míope, limitada a ver o problema da criminalidade numa perspectiva meramente microssocial, vendo a pena como um problema do bandido, e não como um problema da sociedade. Por outro lado, através do PRONASCI, o governo federal conseguiu, aos poucos, romper com o invólucro limitador da velha visão tradicional sobre o crime, pensando mais a segurança como um problema não só de Estado, mas de sociedade, chamando essa mesma sociedade a discutir o delito, numa proposta mais macrossocial. O que quero dizer com isso é que se levou em conta no gerenciamento da segurança, não mais o simples emprego do efetivo estatal armado para debelar o delito, mas sim de uma evidente participação popular nas políticas de segurança, em iniciativas transformadoras, como o policiamento comunitário, os territórios da paz, o trabalho com jovens e as unidades de polícia pacificadora.

Estou certo de que como criminólogo, Serra dá um bom economista, e nessa condição ele possa acreditar, até ingenuamente, que o problema da criminalidade no Brasil resolva-se tão somente através de um cálculo punitivo. Entretanto, bem mais complexas são as relações e reações humanas, e creio ser muito difícil ele convencer alguém de que seu discurso na área de segurança não passa da mera casca, ao propor a criação do tal Ministério da Segurança, de discos voadores pra perseguir criminosos, ou seja lá o que se passe na sua lustrosa careca. Só sei que do jeito que vai, esse discurso não cola! E como diria Mano Brown, ao ser perguntado de um José Serra na presidência, ele resumiu: catástrofe. Vote certo, vote consciente em 2010! Não vote no Serra!Agora se você for tucano, reaçonário e só gostar de filmes com explosões e tiros!Aí, bom!Não dê me ouvidos!Bala neles!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

MÚSICA/HOMENAGEM: Morre Dio, vira-se uma página do Heavy Metal.

O heavy-metal está de luto!! Morreu o "baixinho invocado" do rock pesado. Sou um cara com gosto eclético pra música. Vou desde um Chico Buarque, Noel, Cartola e Jorge Ben Jor, passando por um tropicalismo de Caetano, Gal e Gil, uma bossa-nova de Jobim e Nara Leão, um rock'n roll a la Chuck Berry, Elvis, além dos clássicos Beatles e Rolling Stones, Led Zepellin ou The Who, até chegar a um blues e um jazz de Miles Davis ou Charles Mingus, sem esquecer música clássica de Brahms ou Bach,  e música eletrônica. Só não aguento axé, pagode e nem os discos de Frank Aguiar, Calcinha Preta ou Osvaldo Montenegro e nem o Bonde do Tigrão. Entretanto, sou de origem eminentemente rocker, como maciçamente foi minha geração, mas sou assumidamente fã de metal. Não obstante não me considerar parte de uma tribo urbana, confesso que minha formação musical na adolescência passou muito por escutar discos do Judas Priest, do Manowar, do Iron Maiden, AC/DC, Saxon, Metallica e, principalmente, da banda ícone de toda uma época: o Black Sabbath.

Foi no Sabbath que despontou para o sucesso Ronnie James Dio (1942-2010), na formação vice-campeã do grupo, após Ozzy Osbourne ter saído da banda, no final dos anos 70. Na década de 80, Dio figurou no Sabbath por apenas três discos(Mob Rules, Heaven and Hell e Live Evil), mas deixou na história do rock sua marca inconfundível: timbres agudos e viscerais, perfomances vigorosas, uma teatralidade mórbida e um domínio de palco raro, para muitos frontmen. Dio era sobretudo um cantor carismático, e devido a esse carisma atribuí-se a ele um dos gestos mais conhecidos entre os fãs de heavy-metal e que se notabilizou como o sinal dos metaleiros de todo o mundo: as mãos erguidas com o dedo minimo e o indicador levantados, formando com o polegar uma forma que simboliza chifres, como que representando um animal satânico. No documentário Metal, dirigido pelo antropólogo norte-americano Sam Dunn, ao ser entrevistado, Dio, de origem católica, atribuíu o gesto a uma avó que ele tinha, imigrante italiana, que a tudo que via fazia o gesto característico do chifrinho, como que para espantar mau olhado; ou seja, Dio refutou as acusações prosaicas de que estivesse incentivando o satanismo para jovens e incautas multidões de adolescentes que escutavam sua música, pois acabou demonstrando que estava fazendo apenas uma brincadeira que se tornou uma referência pop. Foi num show do Sabbath que Dio repetiu o gesto, e assim, até hoje, milhões de metaleiros em todo o mundo reproduzem o sinal dos chifres, como que num ritual em homenagem a um dos sons mais controvertidos e tocados no planeta.

Eis que na manhã do último dia 16 de maio, a comunidade headbanger amanheceu num triste domingo de luto, ao saber que o ex-vocalista de bandas como Rainbow e Sabbath havia sucumbido, não resistindo a sua luta de mais de dois anos contra um câncer de estômago. Dio talvez tenha sido uma das primeiras celebridades do rock pesado a não morrer de overdose de drogas, AIDS ou tiros, e sim falecer da forma como padecem a maior parte dos outros mortais: Dio morreu de velhice! Foi de uma doença associada à velhice que o velho vocalista satânico bateu as botas, e não queimado em chamas por um raio divino, como muitos apressados religiosos fundamentalistas norte-americanos quiseram que ele morresse, nas campanhas moralistas da década de 80 contra o rock'n roll.

Ronald James Padavona (nome de batismo) nasceu em 10 de julho de 1942, em Portsmouth, estado da Virginia, nos Estados Unidos, filho de imigrantes de origem italiana. Na juventude, segundo seus biógrafos, o jovem Ronnie participava de bandas adolescentes de folk e rock no colégio, na década de sessenta, adotando o sobrenome Dio em homenagem a um famoso mafioso italiano preso na época, até se unir a colegas de sala de aula formando a banda Vegas King, que depois se chamaria Elf (primeira incursão comercial do músico com uma banda de rock), cantando por três discos nesta banda, até conhecer, na década de 70, o guitarrista Ritchie Blackmore, já famoso por sua participação na antológica banda Deep Purple, que havia saído do grupo e formado uma banda própria, chamada Rainbow. Blackmore chamou Dio para assumir os vocais do Rainbow, e assim ele ingressou no mundo do rock pesado, com seu timbre de voz característico de tenor, chamando a atenção pelos vocais inflamados e cheios de emoção, trabalhando em quatro álbuns do grupo de Blackmore. Em 1979, quando Ozzy Osbourne saía de um consagrado Black Sabbath, após as gravações do álbum Never Say Die, deixando um vácuo difícil de ser transposto, Dio foi convidado pelo líder da banda e guitarrista Tony Iommi, a assumir o lugar de Ozzy. Ciente da responsabilidade de substituir um cantor já consagrado pela fama, Dio não fez feio, e, ao contrário, desde os primeiros acordes em que começou a cantar com o pessoal do Sabbath, disse a que veio.

No Black Sabbath, Dio inaugurou uma nova fase do grupo nos primeiros anos da década de 80. Foi nessa época, na minha adolescência, morando em Brasília, que comecei a colecionar discos de rock e ouvir bandas de rock pesado. Foi nesse período que conheci o som do Black Sabbath (na formação com Dio), já que Ozzy Osbourne eu conhecia pelos álbuns solo, antes de escutá-lo nos discos da década anterior, cantando no Sabbath. Os três álbuns antológicos do Black Sabbath que Dio participou ficaram permanentemente na história do rock, nos meus ouvidos e na minha memória. Até hoje, a canção-título do primeiro álbum com Dio, Heaven and Hell, é um verdadeiro hino, com a voz lírica de Dio, acompanhando o dedilhado feroz da guitarria de Iommi. Os primeiros versos são de uma grandeza apocalíptica:

"Sing me a song, you're a singer



Do me a wrong, you're a bringer of evil


The devil is never a maker


The less that you give, you're a taker


So it's on and on and on, it's heaven and hell."

E assim Dio cravou sua passagem na história do rock. Parecia que o Black Sabbath tinha reencontrado seu rumo, com um vocalista tão ou mais carismático que o próprio Osbourne. Ocorre que no meio da década, por brigas de egos, disputas nas vendagens dos discos ou mesmo por pura babaquice, Dio e Iommi brigaram, sendo o cúmulo da separação do grupo, o prosaico episódio em que um enfurecido Dio saiu do estúdio, no meio das gravações da banda, quando, segundo ele, propositadamente diminuíram o volume de seu microfone, enquanto as guitarras bombavam no estúdio, sufocando sua voz. Dio passou a ser conhecido como um músico perfeccionista, exibido, arrogante, vaidoso e até mesmo chato, mas o que se sabe a partir de então é que ele resolveu fazer carreira própria, passando a lançar discos solo numa banda com o seu próprio nome. Nascia a marca Dio.

E como marca, pelos anos seguintes, parece que Ronnie James Dio soube conduzir bem sua carreira solo, empresariado pela esposa Wendy, e contando com bons músicos na formação das bandas de apoio que o acompanharam. Para mim, seu disco mais clássico e mais conhecido pelos fãs é o ótimo Holy diver, o disco cuja capa marcou então o símbolo da logomarca do nome da banda, além do desenho de um diabo fashion, totalmente estilizado, com sua música mais famosa, que tocava nas FMs da época, a marcante Rainbow in the Dark. A partir de então Dio fez carreira com seus discos, shows animadíssimos, uma legião crescente de fãs adolescentes e antigos devotos do Sabbath e apreciadores de heavy-metal, participando de trilha sonora de filmes, vendendo camisetas, posters e um todo um merchandising associado a sua música e sua imagem. Dio cantou com outros músicos de metal no célebre disco Hear'n aid, na canção Stars, em 1986, como parte de uma contribuição da comunidade heavy metal nas campanhas de combate à fome na África, reproduzindo iniciativas como o Live Aid, na Europa, ou o We are the one, nos EUA, patrocinado por Michael Jackson e outros músicos pop.

Uma das últimas vezes em que vi Dio com vida, além de sua participação no documentário sobre metal de Sam Dunn, foi na comédia de Jack Black, com seu grupo musical Tenacious D, em que ele interpreta a si mesmo como uma espécie de "conselheiro espiritual" do personagem de Black. Mas o canto do cisne do ex-vocalista do Sabbath se deu mesmo na turnê da banda Heaven and Hell, em 2007, uma homenagem dos ex-integrantes do Sabbath, com os velhos Tony Iommi na guitarra, Geezer Butler no baixo e Vinnie Apice na bateria, tocando sucessos dos discos da banda cantados por Dio. A turnê veio ao Brasil em 2008, e o público brasileiro teve o gostinho de ver Dio cantar pela última vez, além do registro dos shows em CD e DVD. A banda ainda lançaria em 2009 o álbum The Devil you know, com músicas inéditas. Foi o canto do cisne de um cantor que anunciou no final deste mesmo ano que estava com câncer, anunciando aos seus fãs sua retirada dos palcos para a retirada do tumor. Dio esperava voltar a cantar em breve, assim que passasse, no começo deste ano, por uma quimioterapia e radioterapia severas. Infelizmente, não foi assim que, para quem acredita, Deus quis. Dio faleceu agora, em maio.

Resta agora o legado do velho músico aos seus fãs, além de uma fundação, criada por iniciativa dele, com investimentos de sua fortuna pessoal, para estabelecer um instituto de pesquisa e combate ao câncer.Dio se foi, mas suas canções permanecem vivas, suas perfomances de palco ficarão para sempre na memória e serão reproduzidas exaustivamente no youtube, e, sobretudo, as novas gerações ainda terão muito a escutar e aprender, ouvindo as músicas do Black Sabbath, ou os álbuns solo de um músico que viveu intensamente sua época, e que cantou o espírito do heavy metal, através de seu talento e rebeldia: AND IT'S ON AND ON AND ON. IT'S HEAVEN AND HELL. Goodbye, Dio!!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Reflexão: Sobre o papel transformador da mentira!

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer", disse Mário Quintana. A filosofia da mentira é mais cara do que pensamos, pois todos mentem, cotidianamente, às vezes apenas suaves e até infantis "mentirinhas", como aquelas que dizíamos a nossas mães quando elas perguntavam se tínhamos escovado os dentes antes de ir pra escola, até chegarmos às "mentironas", aquelas que se diz ao Fisco na hora de omitir os ganhos no Imposto de Renda, ou as que são prometidas nas campanhas eleitorais; ou a pior de todas: quando o companheiro ou a companheira pergunta: "tu estás me traindo?", e você responde com a cafajeste cara mais mentirosa do mundo:" não!".

Entendo que o 1.o. de Abril deveria ser o dia dedicado não apenas à mentira, como sublime antônimo da verdade, mas sim aos mentirosos; principalmente aqueles que tem a habilidade de mentir para si mesmos. Todos nós somos os piores mentirosos do mundo quando mentimos para nós mesmos! Mentimos que queremos realmente permanecer num determinado emprego ou cargo, mentimos quando dizemos que queremos ficar com determinada pessoa, mentimos que queremos ficar numa mesma cidade, mentimos que estamos com dinheiro e pagamos todas as dívidas, mentimos que não estamos envelhecendo ou engordando, mentimos até que queremos ser felizes da forma como nossos familares desejariam que estivéssemos; mas, o pior: uns mentem até que querem viver! A pior mentira é mentir pra si próprio de que não tem problemas ou de que não precisa de ajuda. E esse tipo de mentira, pode sim, custar muito caro.

Já estive muito doente, mas doente não daquelas doenças que nos deixam gripados, febris, com a garganta inflamada, ou cheio de manchas no corpo. Minha doença não foi daquelas que quebra o corpo, mas sim a doença que quebra a alma. Vivi a doença da mentira! Na obra intitulada O Suicídio, há mais de um século, o pensador Emile Durkheim procurava estabelecer causas sociais para uma doença a que os psiquiatras atribuíam causas individuais. O suicídio não era causado somente por uma enfermidade física, por uma deterioração cerebral na parte da cachola que lida com as emoções, pois o suicídio era uma enfermidade social. Talvez cansados das mentiras tão volumosas e tão gritantes de uma sociedade (a mentira social da igualdade entre os homens é uma delas), alguns preferiram se matar; enquanto que outros, ao contrário, tão crédulos de que a sociedade representava a verdade, consideravam que suas vidas simbolizavam uma mentira, que deveria ser extirpada com o fim de suas próprias vidas (o chamado suicídio altruísta).

Não quero parecer depressivo nem tétrico em meus escritos, mas apenas veemente, talvez um pouco austero, ao confessar que, ao já ter padecido da doença, dizer agora que; como indivíduo minimamente são ou sadio, não digo que não suporto a mentira que alguns dizem, mas a mentira que alguns vivem, mentindo a si próprios que não estão doentes. A mentira do depressivo ao mentir que está alegre, a mentira do orgasmo daquele que nada sente, a mentira do psicopata ao saber que está mentindo, mas está pouco se importando com isso.

Uma coisa é certa e sabemos disso: a mentira faz mal! Não gostamos da mentira porque somos programados ontologicamente para a verdade. Sobre isso debruçavam-se os filósofos desde Platão e Aristóteles, passando por Kant com suas máximas morais (será que é racional acreditar numa verdade universal?), e assim a descobrimos na religião, como no cristianismo, onde a palavra bíblica afirmava que somente Deus era a verdade, o caminho e a vida. A verdade da vida parece não ser tão fácil para muita gente, ou talvez não seja suportável para todos. A verdade, por mais virtuosa que seja, dói! Foi dolorosa a verdade histórica dos povos que descobriram seu caminho somente através de guerras,crueldades e dor, assim como foi a verdade universal da necessidade de reconhecer o humano, descoberta apenas ao final de um holocausto,  das atrocidades de um conflito com milhões de mortos, de um conflito mundial que quase destruiu o mundo. A verdade apareceu nua e crua em Nuremberg, depois de tantos anos de mentira totalitária nazi-fascista. No Brasil, vivemos um período de mentira deslavada debaixo das baionetas, durante vinte anos de ditadura militar, e a mentira continuou sua permanência em nosso âmago quando o Supremo Tribunal Federal a chancelou, ao manter como está a Lei da Anistia, sem punir torturadores do período ditatorial. A mentira tem pernas curtas, mas é longeva!

A mentira pode servir para favorecer interesses oportunistas, como sabemos, e auxiliar os expedientes mais mesquinhos. Maquiavel ficou conhecido como um artífice da mentira no pensamento político, mas foi apenas mais um dos pensadores que descobriu que a mentira é somente uma das artimanhas de um saber instrumental vinculado ao pragmatismo das ações humanas, na busca de resultados, do que um saber veiculado a um senso moral. O eleitor gosta das mentiras de seu candidato e futuro governante, se ao menos o resultado de atender a ânsia por pão e circo for atingido. A amante gosta das mentiras de amor do Don Juan mentirosamente apaixonado, tão somente porque ele a levou ao gozo. Lembro-me do filme Underground, do diretor bósnio Emir Kusturica, onde numa passagem ,a personagem Natalya dizia ao seu amante, o inescrupuloso e ardiloso traficante de armas Marko, após uma noite de prazer: "ahh, Marko, você me diz mentiras tão lindas!". A mentira tanto pode servir como arma para os cafajestes como instrumento de defesa para os mais frágeis. Pela mentira, George W. Bush incitou o mundo a uma Guerra contra o Iraque, sob o pretexto (mentiroso) de encontrar armas de destruição em massa e assim conduziu a águia americana a mais uma horrorosa guerra, enquanto que a mentira se confirmava, com a ausência das tais armas de destruição, e a revelação da verdade, nos campos de petróleo ocupados por tanques e soldados americanos. A mentira é útil em alguns casos, porque dá muito lucro!

Mas me volto ainda à mentira daqueles que mentem seus próprios sentimentos, e por isso sofrem, assim como fazem sofrer um monte de gente ao seu redor. A mentira confere sobrevida a casamentos há muito desfeitos, assim como atrapalha muitos namoros, naufragando relações que sequer começaram a acontecer. Lembra daquelas situações em que você ou alguém próximo encontra uma pessoa recém-separada, e essa, de sopetão, ao te dar o primeiro beijo, diz que você é o amor da vida dela? Mentir para o outro, no momento em que se diz amar alguém, quando ainda não se está pronto para amar, é uma das mentiras que cobre um alto custo emocional. Mentimos para nós mesmos quando não queremos encarar a verdade da solidão. Quem já viveu e se relacionou afetivamente sabe o que é isso, sabe da dureza da verdade da solidão, e, recordando-me de Baumman, em sua interessante obra Amor Líquido, a modernidade que nos obriga a sempre ter companhia traz consigo a mentira revelada pela solidão. Não estamos com alguém, verdadeiramente, enquanto não aceitarmos a solidão como verdade inconteste, enquanto não encararmos nossas próprias verdades que a solidão nos traz. Só assim poderemos começar a deixar de mentir! Não acredito em sofredores de amor apaixonados pelo outro enquanto não encararem a verdade de um sofrimento que só pode ser vivido pelo luto. Não gosto de namorar "viúvas", enquanto o luto não foi vivido, a verdade do sofrimento não foi encarada, e, após encarar a dureza da verdade, alguém seja capaz de deixar de mentir.

Como eu havia dito, é muito fácil transformar a mentira numa filosofia de vida. Entretanto, ela pode ter um poder transformador sobre o outro quando é descoberta. Aprendemos no decorrer da vida a decodificar a mentira, a saber quando alguém está mentindo e se portar (até se proteger) disso. Assim como podemos ser mentirosos, podemos nos esquivar dos que mentem, o que, por si só, também pode ser uma atividade dolorosa ou complicada, no momento em que a mentira tece uma rede que, facilmente, pode nos enredar. Não é à toa que encontramos títulos tão manjados nas locadoras de filmes chamados "Rede de Mentiras" ou "Jogo de Mentiras". A mentira em sua metástase pode provocar verdadeiras convulsões sociais, e seu papel maléfico é relatado até nas obras de Shakespeare, tanto em comédias, como em "Muito Barulho por Nada", ou em tragédias, como em "Otelo".

Já menti muito e não digo que nunca deixarei de ser totalmente um mentiroso, mas sou verdadeiro em dizer que o aprendizado que obtive com a mentira foi o de não mentir novamente, sob pena de eu sentir o peso das amargas consequências. Como dizem as frases mais manjadas, mas também as mais certas: por detrás de uma mentira sempre existe uma grande verdade. Creio que eu não sou igual ao personagem de Jim Carrey, na comédia "O mentiroso", mas aprendi também a lição de moral do filme, que a melhor forma de escapar a mentira e falar a verdade é quando deixamos a verdade vir, exatamente de onde ela nunca fugiu: do coração. Um abraço a todos, de verdade!!!

terça-feira, 11 de maio de 2010

FUTEBOL: Seleção Brasileira-Saiu a listaaaa!!!

Tam,tam,tam,tam,tam! Eis que saiu a lista dos convocados na seleção brasileira de Dunga. Às 13 horas do dia 11 de maio de 2010, o técnico Dunga revelou ao mundo a relação dos 23 indicados, para representar a nação na mais relevante competição esportiva do planeta. Sabemos hoje que a Copa do Mundo, enquanto evento midiático, conseguiu suplantar o glamour dos Jogos Olímpicos na forma de um acontecimento que toma a atenção do mundo de quatro em quatro anos, sempre no mês de junho. O mundo pára em período de copa! O mundo respira futebol!!

E é tomando fôlego antes do anúncio da festa,  que o técnico brasileiro revelou seus eleitos, dentro de nomes que já eram esperados, e talvez não fossem surpresa pra ninguém. Enquanto que outros balbuciaram boquiabertos a ausência de craques certos, outros nem tanto, e aqueles que nunca se esperava que iriam representar o Brasil no mundial. Podemos citar as ausências dos célebres Adriano, Ronaldinho Gaúcho e o goleiro Vítor, do Grêmio, ou confirmar a convocação de titulares absolutos, como Luiz Fabiano, Kaká, Robinho e Nilmar, assim como atestar a surpresa da substituição do flamenguista Adriano (na estima futebolística de Dunga) por Grafite, atualmente jogando no Wolfsburg, da Alemanha. É! Parece que Dunga ao menos se mostrou coerente com a linha que vinha adotando durante todo o período em que assumiu o cetro de treinador.

Infelizmente, para boa parte da mídia esportiva, não foi dessa vez que foi concedida a oportunidade para o craque revelação, sensação desse ano, o jovem jogador santista Neymar. O menino de apenas 18 anos, filho de jogador e natural de Moji das Cruzes, tem deslumbrado os olhos de milhares de telespectadores do futebol nacional, com seus dribles e gols inesquecíveis, elevando o campeão paulista Santos ao título de favoritíssimo a Copa do Brasil e ao título certo do Campeonato Brasileiro, junto do consagrado Robinho, também convocado. Por falar em Robinho, o gênio das pedaladas, junto com o atual Real Madrid, Kaká, tem a sólida responsabilidade de fazer valer a fama, os milhões de investimento dos clubes e a cobrança da torcida, não fazendo feio no mundial. Diferentemente, diga-se de passagem, do fiasco da  Copa passada, onde um apático Ronaldinho, chegou a confraternizar de forma esdrúxula com os franceses, após a humilhante derrota do time nacional, pela segunda vez consecutiva na história, em uma competição de Copa do Mundo, pedindo autógrafo para um triunfante Zidane.

É! "Nunca antes na história desse país", como poderia dizer um exultante presidente Lula, fomos brindados com uma demonstração de tamanha coerência futebolística como a que foi apresentada pelo técnico Dunga. Diferente de Zagallo, que melancolicamente encerrou a sua participação em copas, numa seleção do Parreira que não convenceu, justamente pelas evidências de pressões internas que afetaram em muito a escalação do time, o planejamento do jogo e a aproveitamento de jogadores (leia-se pressão da CBF, dos cartolas, dos anunciantes de marcas esportivas e até mesmo da grande mídia, com seu enorme aparato de comerciais, propagandas e lucros divididos pela exposição de craques em má fase como jogadores); ao contrário, Dunga não se deixou levar pelas pressões e manteve seu comprometimento tão somente com sua equipe, irmanada num projeto básico, objetivo e sério de conquistar títulos. Foi assim na Copa América, foi assim na Copa das Confederações e não poderia deixar de ser diferente na Copa do Mundo. Joga na equipe de Dunga quem mostrar comprometimento e verdadeiro futebol!

Não foi o caso, infelizmente, de Adriano. Até o começo do ano, graças ao êxito da vitória flamenguista na conquista do campeonato brasileiro do ano passado, era quase certa a convocação do craque rubro-negro, ex-jogador do Internazionale. Entretanto, uma série de mancadas praticadas pelo próprio jogador, como noitadas e faltas a treinos, amizade com traficantes, e uma vida pessoa atribulada, com idas e voltas no seu relacionamento tumultado com a personal trainer Joana Machado, serviram apenas para iluminar a crônica das fofocas de revistas e jornais, mas em nada abonaram o talento do jogador carioca para representar o Brasil numa competição do tamanho da importância do mundial da África do Sul. Adriano vacilou feio, é verdade, muito em parte por conta de seus erros e faltas, apesar de ainda exibir um vistoso futebol; mas o que vem se percebendo nos últimos anos, ao menos na lógica de técnicos anteriores, como Luiz Felipe Scolari, é que o jogador pode até ser bom, ou, mais ainda, bom até demais; mas se não for comprometido e disciplinado, não embarca no voo da seleção.

Pra quem se recorda de episódios das antigas, foi isso que aconteceu com o jogador Renato Gaúcho (hoje Portaluppi, conhecido agora como treinador), na Copa de 1986, do México, quando às vésperas do embarque para Guadalajara, foi cortado do escrete canarinho, justamente pela falta de responsabilidade, ao ter furado a vigilância da concentração do time, e ter saído para uma noitada regada a muita bebida, mulheres e sexo, chegando atrasado aos treinos no dia seguinte. Na ocasião, o jogador Leandro, fundamental peça no tabuleiro defensivo do então técnico Telê Santana, aos prantos, em solidariedade ao amigo de noitada, Renato, recusou-se a embarcar junto com os demais, iniciando um melancólico périplo da seleção que iria se encerrar nos pés de Michel Platini, no fracasso brasileiro de um cambaleante Zico e de um transtornado Sócrates, na perda para a seleção francesa, na disputa de pênaltis, desclassificando o país, nas quartas-de-final do mundial (parece ser karma brasileiro perder pra França em mundiais. Mon Dieu! Increible!!).

Depois disso foi o episódio envolvendo um já consagrado campeão mundial Romário na Copa de 2002. Romário!Nosso gênio das pernas curtas! Um "macunaíma futebolístico", assim como foram outros caras-de-pau do esporte como Garrincha, Casagrande e Edmundo.Diante de um iracundo técnico Scolari, não adiantaram as lágrimas copiosas do ex-craque vascaíno diante das câmeras de televisão, quando deu coletiva à imprensa, ao saber que tinha sido cortado da seleção que embarcaria para a futura vitória do Penta no Japão. Não adiantou a catimba malandragem carioca do nosso "el pibe de oro" brasileiro, responsável junto com Bebeto e o próprio Dunga, enquanto capitão do time, pela vitória do tetra brasileiro na Copa dos EUA. Sabidamente boêmio, mulherengo e malandro, mas detentor de uma lesão muscular séria, Romário foi cortado da seleção mesmo quando o ofegante médico da seleção, Lìdio Toledo, atestou as boas condições do craque para jogar mais um mundial. Dizem que Zico, na época assistente técnico de Scolari, foi fundamental para a defenestração de Romário ( e posteriormente parte autora num processo judicial, tendo em vista os descalabros que o baixinho falou de seu ex-ídolo na imprensa, após o episódio). De qualquer forma, cumpriu-se um expediente já comum na convocação de jogadores para a seleção: se o sujeito não abraçar a causa, não tem vez!! Restou a Romário, naquela época, acompanhar a Copa do Japão, num estúdio, atrás de câmeras de televisão, como comentarista esportivo.

Exibir um bom futebol, estar vivendo uma boa fase de gols nos clubes em que participa, uma boa conduta disciplinar e entrosamento com os demais jogadores. Geralmente é isso que é cobrado de um jogador do porte de um integrante da seleção brasileira; além da pressão (como eu disse) dos clubes, dos empresários dos jogadores, dos anunciantes, da confederação de futebol, e de tantos outros interessados apenas na lógica mercadológica do esquema esportivo. Creio, perdoem-me os fãs do cara, que seja esse o caso de Ronaldinho Gaúcho, que, a meu ver, há tempos já não apresenta mais um futebol digno de nota, dos tempos em que encantava a torcida nacional e internacional com suas jogadas geniais. Ronaldinho foi mais uma vítima do sucesso (assim como foi seu correlato Ronaldo Nazário, e agora Adriano) e, de uns anos pra cá, imaturo, hesitante, ou irresponsável mesmo, viveu fases pouco dignas em sua biografia de jogador, levando o suspiro da dúvida a muitos torcedores de sua real dedicação à seleção. Será que o dentuço está nessa só pelo dinheiro? Ou, será que ele capaz realmente de vestir, com orgulho, a camisa verde-amarela? Na dúvida, Dunga preferiu deixá-lo apenas na lista de espera, daqueles jogadores suplentes que só serão convocados se der zebra no embarque de algum dos titulares para Johanesburgo.Acho que Dunga foi até generoso com o Ronaldinho, pois nem o Adriano sequer figurou na lista de possíveis convocáveis.

É isso aí, meu Brasil varonil! Como estamos já em época de Copa, resta deixar a cerveja resfriando na geladeira, tirar o uniforme canarinho do armário, ligar a TV e ficar na expectativa de mais um evento esportivo avassalador, que acompanho desde os meus 11 anos de idade. Serei mais um dos 190 milhões, que, segundo a canção, grita:"salve a seleção"! Talvez nem tanto pelo país, que tanto amo em meu patriotismo, mas pelo futebol, que amo de paixão. Pois então, que vengan! Que vença o melhor; mas, é claro, que VENÇA O BRASIL!!!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MÚSICA: Meu tributo a Jeff Buckley.

Sabe aquelas horas em que a deprê bate, você se recorda de amores passados e perdidos, a nostalgia te acomete, ou você simplesmente quer arrancar lirismo da tristeza, transformando as lágrimas num ato extremamente romântico? Bueno! Pra quem sabe o que é isso, digo que, de minha parte, arranco essas sensações ouvindo as canções de Jeff Buckley. Para mim, uma das mais belas vozes e um dos mais belos intérpretes em língua inglesa, que já surgiram na música contemporânea, tão precocemente retirado de um mundo que ele ajudou a embelezar com suas canções.

Jeffrey Scott Buckley nasceu na Califórnia, em 17 de novembro de 1966, filho do também músico Tim Buckley, e morreu jovem em Memphis, numa fria noite de 29 de maio de 1997, afogado, após nadar no rio Wolf, uma afluente do rio Mississipi, com apenas 30 anos de idade. Segundo relato de Keith Foti, um dos amigos do músico e o último a vê-lo com vida, Jeff tinha saído para nadar, cantarolando alegremente Whotta lot a love, clássico da banda Led Zeppelin, quando desapareceu nas águas frias do rio, sendo seu corpo descoberto pela polícia apenas uma semana depois.

A morte prematura do músico abalou o mundo do rock, levando-se em conta o sucesso de seu primeiro e único disco, chamado Grace,  de 1994, que até hoje possui as mais belas músicas repetidas à exaustão nas rádios alternativas e I-pods de muita gente pelo mundo afora. O single Last Goodbye, música tocada na MTV naquela época, até hoje tem diversas versões cover, cantadas por diversos músicos (famosos ou não) e serviu de trilha sonora para o filme Vanilla Sky, com Tom Cruise. A perfomance única e exuberante de Jeff, meio que intimista, lírica, vigorosa, mas romântica ao extremo, fizeram que até hoje esta música sirva como inspiração para muitas pessoas, inclusive eu, que das diversas canções prediletas que escutei e ainda escuto na vida, adoro escutar os acordes iniciais e a voz de lìmpida de Buckley, iniciando seus versos, cantando: "This is our last goodbye. Afraid to feel the love between us die....". Simplesmente lindo!

Ao ouvir Buckley e o disco Grace, rememoro os amores e desamores, passados e recentes. As alegrias, as lembranças, as descobertas afetivas, as decepções. Na música acima citada, quando Jeff Buckley canta com sua voz macia e em semifalsete o verso "Kiss me, please, kiss me! But kiss me , babe, out for desire, no consolation", simplesmente desabo. "It makes me so angry", diz ele,  "cause I know that in time.....I'll only make you cry, this is our last goodbye!". Bravoooo!!!

Em outra canção de amor desse disco, Love should come over, a versatilidade de poeta romântico, do cantor e guitarrista norte-americano, é bem observada por quem escuta essa canção, que ensina como fazer uma bela balada "dor de cotovelo", falando de solidão, sem ser piegas, ingênuo ou adocicado demais. O sentimentalismo de Buckley é a conta-gotas e na dose certa, quando, por exemplo, escuta-se a estrofe: "Sometimes a man gets carried away. When he feels like he should be having his fun. And much too blind to see the damage he'sdone. Sometimes a man must awake to find that, really,He has no one...". Ai, ai, ai. É de partir os ossos, vocês não acham?

Existem outros e maravilhosos belos exemplos de jóias musicais nas antológicas canções desse saudoso cantor californiano, como Lilac Wine, a belíssima Hallelluia, cover da clássica canção de Leonard Cohen, e muitas outras. Tem também o álbum póstumo de Jeff, Sketches from the Sweetheart for the dumb, numa compilação de inéditas reunidas por sua mãe, dois anos após sua trágica morte, com a música principal, Everybody here wants you; mas prefiro que os leitores do blog, que se interessam por música e nunca ouviram essa bela voz, desfrutem da experiência de ouvi-la e depois emitam sua opinião.

Jeff Buckley viveu e morreu prematuramente numa época em que o século passado, saturado por hipocrisia, desconfiança, guerras e falta de amor, estava prestes a acabar. Ainda não tínhamos celulares em profusão, Mp3s, i-pods, internet banda larga, e nem todo o aparato que caracterizou nossa sociedade de fim de século, com toda sua velocidade, tecnologia e incertezas. Vivi numa época em que escutar Jeff Buckley era quase como um ritual xamânico, com meus amigos fãs reunidos no apartamento de um deles, com o som ligado tocando as músicas do cara, muitas caipirinhas na cabeça, alguns com seu baseado, metidos em papos-cabeça como na música de Nei Lisboa, entre solidariedades a cada copo e a certeza única de que a música de Buckley tinha vindo pra ficar, apesar de sua precoce perda. Ouvir Jeff Buckley era um ritual universitário, assim como é para qualquer fã de Los Hermanos, Chico Buarque, Mutantes e Pato Fu. Digo apenas que a música de Jeff Buckley, apesar de ser adequada a esses momentos históricos pelos quais vivemos, pode servir ainda hoje como arma de protesto; mas um protesto suave, sútil, harmônico, em que a força das palavras, da musicalidade e da poesia, já consegue por si só transmitir mensagens que desarmam os olhares inquisidores do desamor.

Na geração atual de Lady Gagas e similares, é bom saber que ainda existem talentos genuínos, com o mesmo grau de sentimentalismo, talento real e veracidade como músicos que foram Jeff Buckley, e que hoje podemos atestar ao ouvir cantores como Rufus Wainwright, um envelhecido Morrysey, que após ter saído do The Smiths não deixou cair a peteca, e continua a fazer discos profundos e matadores, ou ainda novos talentos, como  Antony and The Johnsons. De qualquer forma, pra quem gosta, é sempre bom reescutar Jeff Buckley, formando a tribo confessa de seus ardorosos fãs, que se satisfazem com tão pouco, com apenas um belo disco, daquele que partiu tão cedo, mas que conseguiu deixar sua marca, como um anjo belo que veio ao mundo como um pássaro fugidio, para uma única revoada, com sua voz de rouxinol: que Deus te abençoe, Jeff Buckley!!!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?