Semana passada, andando pela cidade de Natal, vi uma cena curiosa: um carro zero quilômetro empacotado pra presente na frente de uma famosa churrascaria da cidade. Perguntei para o colega ao meu lado se ele sabia do que se tratava, e ele me disse que aquela churrascaria tinha uma promoção inusitada: quem comesse até 8 kg de carne no almoço ganharia o carro. Soube de um turista gaúcho, um senhor de acentuado corpanzil que se sentou no lugar para comer e soube da promoção. Como sabemos, gaúcho é um povo acostumado a comer muita carne, e o serelepe gaudério inventou de topar o desafio das carnes, chegando a ingerir 6 quilos e meio de carne, até ser levado ao hospital, direto para uma lavagem estomacal. No que tange à carne vermelha, o organismo humano leva horas para digerir tanto alimento, podendo variar de um período de 24 horas numa boa churrascada até 3 dias. Isso acontece porque o alimento leva de seis a oito horas para sair do estômago e ir para o intestino delgado. Imagine então um estômago entalado, tal qual areia colocada no cano de escapamento de um carro. O estrago é grande, você não acha?
Fico imaginando pessoas que ameaçam morrer de tanto comer só pra conseguir um veículo novo, ou que fazem qualquer tipo de esforço físico sobre-humano tão somente para conquistar um prato de comida ou ganhar alguns trocados. Fico pensando naquelas provas imbecis do programa Big Brother, em que nove idiotas se submetem a testes vexatórios, como ficar acordado em pé uma noite inteira dentro de uma caixa de vidro ou de permanecer horas segurando a chave na porta de um carro, só para levar como prêmio o veículo ou dez, vinte ou trinta mil reais antes de ser eliminado no paredão, com um indefectível Pedro Bial ao fundo da tela. A cena ainda faz me lembrar outra, de um clássico filme do diretor Sidney Polack, de 1969, chamado A Noite dos Desesperados, que retrata a Grande Depressão americana, em que casais de jovens trabalhadores desempregados passavam horas dançando até caírem exaustos em concursos de dança, para ganhar algum dinheiro do prêmio. Quanto vale a dignidade humana por um prato de comida? Quando vale o orgulho, a autoestima, a autopreservação, a valorização da vida, quando se é permitido fazer tudo para conquistar um prêmio:um carro, uma casa, um cheque polpudo ou uma loteria? Quando é que separamos o verdadeiramente humano do inumano?
A lógica liberal-capitalista é a do laissez faire, ou seja, para o homem livre tudo é possível na busca do êxito pessoal, até mesmo machucar a si próprio. A lógica da automutiliação de alguns perfomers de piercing é de se pendurar com ganchos pelos mamilos, como fez o ator Vincent Harris, no filme Um homem chamado cavalo, simulando um ritual indígena.Às vezes penso que a lógica sadomasô explicitada na obra de terror Hellraiser, do cineasta britânico Clive Barker, aplica-se a alguns competidores dos bizarros torneios televisos, com Lucianos Huck, Bials ou Faustões no lugar de Pinhead e seus cenobitas. É necessário realmente sentir (muita) dor para se obter o prazer da satisfação pessoal de ganhar o prêmio? Pergunte isso para o glutão cliente da churrascaria que vomitou muitos dos quilos de carne que ingeriu, antes de descobrir que até seu estômago volumoso tem limites, e que mesmo os obesos hábeis na arte de comer não conseguem ganhar sempre, mesmo que isso signifique a perda de um carro.
Não sou contra os jogos, e, ao contrário, até os aprecio pois servem para muitas das reflexões filosóficas. Os poetas lidam com jogos afetivos ao tratar da paixão, da sedução, dos afetos, das emoções, assim como os filósofos da linguagem, como Wittgenstein, analisavam o jogo das palavras. O problema não está no jogo, na competição em si, mas sim no que se busca ao final de cada jogo. Se o velho lema que eu escutava da professora primária no colégio não serve mais, pois o importante é mesmo ganhar e não competir, lamento por outro lado que o sabor passional da competição e substituído pelo vício, pela ilusão tétrica da vitória a qualquer custo, mesmo que pagando o preço da própria vida. Sobre isso, recordo de outro filme, esse uma película espanhola, chamado Intacto, de 2001, do diretor Juan Carlos Fresnadillo; em que Tomás, (personagem do ator argentino Leonardo Sbaraglia), é um sujeito de extrema sorte, que ao conseguir ser o único sobrevivente de um desastre de avião, é chamado a participar de vários jogos e desafios no sentido de obter o prêmio máximo e derrotar o sagaz e experiente Samuel (Max Von Sidow, impecável), um velho judeu sobrevivente de um campo de concentração que é considerado "o senhor da sorte" e que costuma sair vitorioso em todos os jogos.
E porque não lembrar também do sanguinolento Jogos Mortais, que já virou uma repetitiva franquia com seis filmes, em que entre tripas, corpos despedaçados e sangue aos borbotões, podemos identificar com clareza o empobrecimento do espírito humano quando, ao invés de trabalhar o jogo como uma lógica natural das relações humanas, transforma a competição num combate infernal pela sobrevivência, cujas armadilhas inexoráveis não dão qualquer alternativa a não ser continuar jogando, para jogar e jogar cada vez mais.
Talvez na literatura eu ainda encontre Dostoievski, e sua formidável obra O jogador, onde seu personagem, Alexis Ivanochi, perde sua própria humanidade na jogatina, na busca de seu eterno amor por Paulina Alexandrovna. Em todos esses personagens, do comedor de churrascos do restaurante a Ivanovichi de Dostoievski, todos nós nos deparamos com dramas humanos, tão demasiadamente humanos, e vemos que o espectro de nossa fraqueza está revelada não no começar a jogar, mas no desaprender de jogar. Desaprendemos do jogo no momento em que nós deixamos tomar por ele e nos tormanos o próprio dado lançado na roleta, e não as mãos e dedos lançadores. Ser bom jogador depende de uma psicologia do sujeito, de um controle concreto de seu livre-arbítrio,e da disposição de jogar apenas se realmente o jogo valer realmente a pena. Eu digo isso porque continuo me perguntando pensando a cena inicial da churrascaria: pra que realmente jogar ameaçando ter um infarto por comer tanta carne, se o que me vale mais é o prazer de comer, e não o prazer de ter um carro ao me matar de comer? Talvez essa pergunta possa ser respondida pelo comilão que acabou no hospital, ou ele não tenha mais condições físicas de responder. E você? Encararia 8 kg de carne pra ter um carro novo? Se a resposta for afirmativa, só posso te dizer uma coisa: bom apetite!!!
Um blog em forma de almanaque, com comentários sobre cultura, política, economia, esporte, direito, história, religião, quadrinhos, a vida do próximo, o que você desejar, ou que os seus olhos se permitam a ler e comentar, contribuindo para as reflexões desse humilde missivista, neófito nos mares internaúticos, em meio a esta paranoia moderna.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
REFLEXÃO: Natal, Walter Benjamin e eu.
Walter Benjamin é um dos últimos grandes pensadores da filosofia alemã no século XX, sem falar da contribuição de Heidegger e das teorias de Habermas, este último, com mérito, considerado um colossal gigante filosófico ainda vivo. Entretanto, voltando a Benjamin, este fazia junto com Adorno, Horkheimer e Marcuse um grupo intitulado Escola de Frankfurt, que bem poderiam ser os Três Mosqueteiros do pensamento filosófico com sua teoria crítica, acompanhados de seu D'artagnan judeu.
Sim, Walter Benjamin era judeu, e numa Alemanha atingida pelas sombras do totalitarismo e a ascensão dos movimentos nazifascitas, Benjamin tinha tudo pra se dar mal, por combinar em sua biografia tudo o que os carrascos nazistas mais desprezavam: ele era judeu, intelectual, e socialista. Ocorre que, como marxista, Benjamin reformulou alguns aspectos da teoria política de Karl Marx, adaptando-a à cultura.É digna de nota sua compreensão do fenômeno artístico como um instrumento de conscientização das massas, ao tratar do papel do cinema e do significado de "aura" na obra de arte, em seu livro mais famoso “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Para Benjamin, à medida que arte tem dissolvida sua aura, seu manto de sacralidade, religiosidade ou dimensão aristocrática, ela se populariza, conferindo acesso às massas, e tende a se revestir de uma dimensão social, ou seja, pode mudar cabeças. Isso implica em dizer que no teatro a peça teatral revela-se na própria pessoa, na aura do ator, enquanto que no cinema e na televisão os atores se tornam secundários, acessórios, quando não dispensáveis, pois a relação do público não é mais com os atores, mas sim com o aparelho, com a máquina, com o aparato tecnológico que dissolve a aura da arte. Não é à toa que nos dias de hoje, com a chegada da tecnologia 3D e o sucesso comercial do filme Avatar nos cinemas, o estudo de Benjamin ganhe uma atualidade impressionante. Mas, voltemos à condição de Benjamim enquanto pessoa, e porque eu estou falando dele.
Como eu havia dito antes, apesar de toda sua sensibilidade, bagagem teórica e cultural, Walter Benjamin acabou por ser considerado um pária em seu próprio país, incapacitado de lecionar assim que os nazistas chegaram ao poder e se tornou mais uma vítima de um sistema opressor, assim como milhões daqueles que perderam a vida inutilmente no holocausto judeu. As circunstâncias que cercaram a morte do pensador berlinense ainda permanecem obscuras, mas tudo indica que ele se suicidou, ao tentar escapar do cerco nazista numa fuga desesperada pelos Pirineus tentando chegar na Espanha, vindo da França, país que o filósofo havia imigrado em 1933 após a chegada dos nazistas ao poder, mas que acabou sendo tomada pela avidez sanguinária de Hitler. Detido na fronteira franco-espanhola, ao saber que seguia entregue a Gestapo, Benjamin se suicidou.
Já falei aqui neste blog como as ditaduras podem seduzir os intelectuais, assim como estruturas de poder totalitárias podem, ao contrário, destruir qualquer tipo de oposição intelectual. Padecem sobretudo os sensíveis, aqueles realmente interessados na transformação e na revitalização de uma cultura considerada ultrapassada, e, por isso, são jogados no limbo do esquecimento ou nas galés dos maus tratos emocionais. Sei disso porque, assim como Benjamin, sinto agora isso na pele, ao me deparar com uma estrutura de Estado que não mais corresponde aos meus ideais e a um serviço que em muito me onera psica e intelectualmente, pois não é onde eu gostaria de estar. E sobre estar vivo, no paradoxo de viver agora em uma bela cidade, mas, ao mesmo tempo, não querer mais viver nela por sentir que a "aura" de que tratava Benjamin não existir mais pois que agora se despedaçou, vejo que isso me traz uma consciência dolorida de classe e que me torna, necessariamente, um rebelde, um pária em minha própria cidade e no meu próprio emprego.
Explicando, sinto a aflição de Benjamin, um estudioso da aura da arte e alguém que via de fato racionalidade na beleza, pois ao ver uma cidade tão bonita como Natal, eu pude descobrir o quão perversamente, nas mãos de seus governantes, de uma elite política e de uma camada burguesa provinciana, a cidade de minha juventude foi estragada por processos nefastos de urbanização, por uma multidão de carros novos, velhos ou importados que empesteiam e poluem a cidade de bela paisagem. Isso estraga qualquer cartão-postal, dissipando a aura de linda "cidade do sol", outrora imaculada na obra de arte, em verso, prosa, fotos e cantos.Num serviço público por vezes inoperante, e, sobretudo, ineficaz, vejo o quanto as trocas fisiológicas colocaram uma vez mais parvos ignorantes na chefia de órgãos públicos (de forma semelhante à ocupação de espaços no poder político pelos nazistas na época de Benjamin), de mentalidade ultraconservadora, extremamente burocrática, tecnicista, fordista, e que não aceitam contestação, transformação e, pelo contrário, lançam ao exílio de velhas e carcomidas repartições os interessados, todos aqueles que de alguma forma se tornaram diferentes, os exóticos, os esquisitos, os nerds. Natal é uma cidade de funcionários públicos, uma minimetrópole de interesses burocráticos e turísticos, onde se esconde por debaixo do tapete das belas dunas toda a perversidade oficial. Para todos os efeitos, quem sofre no serviço público são os intelectuais.
Algumas estruturas não são para intelectuais, e, dentre elas, considero para mim a segurança pública. Na qualidade de um servidor público que já sinto que não sou, sinto-me um judeu intelectualizado vítima de uma estrutura antissemita, de um fascismo dissimulado que se revela numa sicofântica "batidinha nas costas", de um bisonho método de extermínio de mentes através das câmaras de gás da indiferença. Sinto que minha fronteira através dos Pirineus da vida leva-me ao Rio de Janeiro, mas temo, mediante a perseguição que sinto que está sendo movida contra mim, se conseguirei alcançar a fronteira, antes de ser capturado, e ser entregue a Gestapo dos burocratas de plantão.
Assim como Walter Benjamin mantinha por influência familiar sua fé judaica, eu restabeleço minha fé cristã a cada derrapada do destino. Peço a Deus a libertação dos grilhões, a liberdade de consciência que me possa fazer tomar as decisões mais discernidas e acertadas possíves, mas, sobretudo, de ao mostrar meu peito aberto, não ser atingido pelas balas perdidas da intolerância, que os algozes de tocaia sempre se dispõem a disparar ao mover os dedos no gatilho, toda vez que sentem que algo diferente está por vir. Peço, apenas, aos meus queridos leitores do blog, sensíveis amigos e alguns conhecedores de meu problema que orem, ou torçam comigo, para que eu não seja mais uma cifra do holocausto de servidores públicos, jogados na humilhação do esquecimento ou banidos para sempre da existência, através de uma mera canetada dos agentes da opressão. Até breve e boa sorte para nós todos!
Sim, Walter Benjamin era judeu, e numa Alemanha atingida pelas sombras do totalitarismo e a ascensão dos movimentos nazifascitas, Benjamin tinha tudo pra se dar mal, por combinar em sua biografia tudo o que os carrascos nazistas mais desprezavam: ele era judeu, intelectual, e socialista. Ocorre que, como marxista, Benjamin reformulou alguns aspectos da teoria política de Karl Marx, adaptando-a à cultura.É digna de nota sua compreensão do fenômeno artístico como um instrumento de conscientização das massas, ao tratar do papel do cinema e do significado de "aura" na obra de arte, em seu livro mais famoso “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Para Benjamin, à medida que arte tem dissolvida sua aura, seu manto de sacralidade, religiosidade ou dimensão aristocrática, ela se populariza, conferindo acesso às massas, e tende a se revestir de uma dimensão social, ou seja, pode mudar cabeças. Isso implica em dizer que no teatro a peça teatral revela-se na própria pessoa, na aura do ator, enquanto que no cinema e na televisão os atores se tornam secundários, acessórios, quando não dispensáveis, pois a relação do público não é mais com os atores, mas sim com o aparelho, com a máquina, com o aparato tecnológico que dissolve a aura da arte. Não é à toa que nos dias de hoje, com a chegada da tecnologia 3D e o sucesso comercial do filme Avatar nos cinemas, o estudo de Benjamin ganhe uma atualidade impressionante. Mas, voltemos à condição de Benjamim enquanto pessoa, e porque eu estou falando dele.
Como eu havia dito antes, apesar de toda sua sensibilidade, bagagem teórica e cultural, Walter Benjamin acabou por ser considerado um pária em seu próprio país, incapacitado de lecionar assim que os nazistas chegaram ao poder e se tornou mais uma vítima de um sistema opressor, assim como milhões daqueles que perderam a vida inutilmente no holocausto judeu. As circunstâncias que cercaram a morte do pensador berlinense ainda permanecem obscuras, mas tudo indica que ele se suicidou, ao tentar escapar do cerco nazista numa fuga desesperada pelos Pirineus tentando chegar na Espanha, vindo da França, país que o filósofo havia imigrado em 1933 após a chegada dos nazistas ao poder, mas que acabou sendo tomada pela avidez sanguinária de Hitler. Detido na fronteira franco-espanhola, ao saber que seguia entregue a Gestapo, Benjamin se suicidou.
Já falei aqui neste blog como as ditaduras podem seduzir os intelectuais, assim como estruturas de poder totalitárias podem, ao contrário, destruir qualquer tipo de oposição intelectual. Padecem sobretudo os sensíveis, aqueles realmente interessados na transformação e na revitalização de uma cultura considerada ultrapassada, e, por isso, são jogados no limbo do esquecimento ou nas galés dos maus tratos emocionais. Sei disso porque, assim como Benjamin, sinto agora isso na pele, ao me deparar com uma estrutura de Estado que não mais corresponde aos meus ideais e a um serviço que em muito me onera psica e intelectualmente, pois não é onde eu gostaria de estar. E sobre estar vivo, no paradoxo de viver agora em uma bela cidade, mas, ao mesmo tempo, não querer mais viver nela por sentir que a "aura" de que tratava Benjamin não existir mais pois que agora se despedaçou, vejo que isso me traz uma consciência dolorida de classe e que me torna, necessariamente, um rebelde, um pária em minha própria cidade e no meu próprio emprego.
Explicando, sinto a aflição de Benjamin, um estudioso da aura da arte e alguém que via de fato racionalidade na beleza, pois ao ver uma cidade tão bonita como Natal, eu pude descobrir o quão perversamente, nas mãos de seus governantes, de uma elite política e de uma camada burguesa provinciana, a cidade de minha juventude foi estragada por processos nefastos de urbanização, por uma multidão de carros novos, velhos ou importados que empesteiam e poluem a cidade de bela paisagem. Isso estraga qualquer cartão-postal, dissipando a aura de linda "cidade do sol", outrora imaculada na obra de arte, em verso, prosa, fotos e cantos.Num serviço público por vezes inoperante, e, sobretudo, ineficaz, vejo o quanto as trocas fisiológicas colocaram uma vez mais parvos ignorantes na chefia de órgãos públicos (de forma semelhante à ocupação de espaços no poder político pelos nazistas na época de Benjamin), de mentalidade ultraconservadora, extremamente burocrática, tecnicista, fordista, e que não aceitam contestação, transformação e, pelo contrário, lançam ao exílio de velhas e carcomidas repartições os interessados, todos aqueles que de alguma forma se tornaram diferentes, os exóticos, os esquisitos, os nerds. Natal é uma cidade de funcionários públicos, uma minimetrópole de interesses burocráticos e turísticos, onde se esconde por debaixo do tapete das belas dunas toda a perversidade oficial. Para todos os efeitos, quem sofre no serviço público são os intelectuais.
Algumas estruturas não são para intelectuais, e, dentre elas, considero para mim a segurança pública. Na qualidade de um servidor público que já sinto que não sou, sinto-me um judeu intelectualizado vítima de uma estrutura antissemita, de um fascismo dissimulado que se revela numa sicofântica "batidinha nas costas", de um bisonho método de extermínio de mentes através das câmaras de gás da indiferença. Sinto que minha fronteira através dos Pirineus da vida leva-me ao Rio de Janeiro, mas temo, mediante a perseguição que sinto que está sendo movida contra mim, se conseguirei alcançar a fronteira, antes de ser capturado, e ser entregue a Gestapo dos burocratas de plantão.
Assim como Walter Benjamin mantinha por influência familiar sua fé judaica, eu restabeleço minha fé cristã a cada derrapada do destino. Peço a Deus a libertação dos grilhões, a liberdade de consciência que me possa fazer tomar as decisões mais discernidas e acertadas possíves, mas, sobretudo, de ao mostrar meu peito aberto, não ser atingido pelas balas perdidas da intolerância, que os algozes de tocaia sempre se dispõem a disparar ao mover os dedos no gatilho, toda vez que sentem que algo diferente está por vir. Peço, apenas, aos meus queridos leitores do blog, sensíveis amigos e alguns conhecedores de meu problema que orem, ou torçam comigo, para que eu não seja mais uma cifra do holocausto de servidores públicos, jogados na humilhação do esquecimento ou banidos para sempre da existência, através de uma mera canetada dos agentes da opressão. Até breve e boa sorte para nós todos!
sábado, 24 de julho de 2010
FILOSOFIA: Em Heidegger todo o recomeço é uma questão de vivência primordial.
Muitas vezes somos chamados à tortuosa tarefa de recomeçar, dar novamente o tiro inicial, um novo pontapé, seja na vida profissional, afetiva ou familiar. Recordo das minhas idas e vindas numa opção profissional ou num novo amor. Das pessoas que me apaixonei ou afeiçoei, daquelas que ficaram e as que partiram. Mas sempre a ideia de recomeço, o eterno devir esteve presente em minha caminhada, sustentada pelas leituras que nunca deixei de fazer.
Recentemente conversando com uma amiga, o papo realizado via internet me fez lembrar as leituras de Ser e Tempo, obra máxima de Heidegger, que, por debaixo da linguagem estritamente filosófica, revela muitas respostas a questionamentos que já fiz no passado, de coisas que afligiam meu coração, e, que de repente, podem servir de auxílio a esta amiga. Na ontologia filosófica heideggeriana podemos encontrar respostas para questões como a existência de Deus, a perpetuidade do amor, a temporalidade da vida e a dinâmica da aflição.
Vida e aflição. Somos seres aflitos porque vivemos, e na filosofia de Heidegger colhida na obra citada, já podemos aqui nos debruçar sobre dois conceitos básicos desenvolvidos pelo pensador da Floresta Negra: vivência e preocupação. Heidegger chama de vivência primordial um conceito extraído de Dilthey para dizer que quando surgimos no mundo, enquanto um "ser-aí" (dasein), já nos deparamos com um série de entes que nos cercam, nesse mundo circundante. É preciso apreender o sentido das coisas simplesmente vivendo, para se aprender a viver. Para isso o homem vive se "pré-ocupando", o que significa dizer que preocupação aqui não é vista como um mero sentimento aflitivo, mas sim como a essência da própria dinâmica da vida. Ao se preocupar o homem age, interage com o mundo circundante apreendendo significados, que depois ele traduzirá para seu conhecimento. Heidegger trabalha uma postura filosófica no caminho do conhecimento que é o caminho da autoconsciência, do conhecimento sobre si próprio. As coisas não existem só porque existem no mundo, mas existem porque eu existo, eu, ao viver, dou significado a essa existência. Pode parecer até simples (ou bem complicado) para quem lê esse jogo de palavras; mas, na verdade, Heidegger quer demonstrar com isso que sua filosofia surge como uma ruptura com a conduta intelectualóide racionalista e cartesiana, de querer sempre estabelecer um discurso sobre algo para se poder agir, quando na verdade é preciso primeiro agir para depois discursar.
Mas onde quero chegar e no que isso irá servir de contribuição ao caso de minha amiga? Digo, em especial nos conselhos afetivos em matéria de amor, que aí Heidegger também dá uma bola dentro, explicando no seu conceito de sentido de realização como complemento do sentido de ser, que em todos os momentos do agir, que caracterizam a vivência do ser, devemos ter uma postura de abertura à vida, de se apoderar da vida como um salto, independente de nossas mais intrigantes elucubrações. Isso significa dizer que não adianta perguntar "por que amar?" ou "amar a quem?", mas simplesmente amar. O jogador de futebol só pode discorrer sobre a importância da pelota se sente o gramado do campo sob seus pés, assim como para o flautista o som de sua flauta deixa de ser mero ruído se ele se abre para a beleza e imensidão da música. Amar algo ou alguém independe de nossas elaborações, mas só conseguimos efetivamente estabelecer a vivência do amor, estar vivendo amorosamente se nos desprendemos das amarras da intelecção cartesiana e nos abrimos num salto, saltamos no escuro, no êxtase de nossa disposição afetiva mesmo sabendo que o inesperado, o inconcluso, o não visto, o impoderável e invisível pode nos afligir, pode nos assustar. Mas Deus e o futuro não são assim??
Em outros textos deste blog já me referi a Heidegger como um pensador romântico, na concepção mais piegas do termo, não enquanto filósofo, mas enquanto homem. Pois parodiando Schopenhauer entendo que que os homens de ideias são também homens de ética; ou seja, é preciso uma disposição ética de querer conhecer a si próprio para querer conhecer o restante do mundo e da vida, que é a disposição do filósofo. Na procura de si próprio Heidegger filosofa tendo em vista o amor que nutriu durante anos por Hannah Arendt, talvez o verdadeiro e grande amor de sua vida. Não obstante a força avassaladora desse amor, Hannah preferiu seguir seu caminho e viver novos amores, casando-se com outra pessoa, tendo em vista que aquele homem mais velho e casado que ela tanto amou em seus encontros secretos, por ela não decidia. A inquietação do amor concretizado, mas não finalizado de Heidegger é a inquietude do dasein. Na dimensão aflitiva da vida somos por vezes chamados por ela a viver novas situações, conhecer novas pessoas, desfrutar de novos relacionamentos, e, sobretudo, abrir-se para novas perspectivas. Essa é a caminhada do filósofo-peregrino na sua vivência de suas ideias, essa é a nossa caminhada nos sucessivos saltos que somos convidados a dar, por uma vida inquieta, que por ser vida tem a função de nos inquietar.
Portanto, nessas curtas linhas o que desejo a essa querida amiga é que viva a sua vida abrindo-se à dimensão misteriosa mas ao mesmo tempo fascinante do dasein. Que possa em sua vivência desfrutar de novas amizades, novos amores, novas possibilidades de trabalho, novos lugares para conhecer, e, quem sabe, novos sabores e saberes de conhecer a si própria numa caminhada em que conhecer o mundo parte de conhecer a si mesmo. Viver acima de tudo, antes de conhecer é o ponto de partida para todo conhecimento, inclusive o conhecimento sobre o amor. Foi com isso que pude tantas vezes reativar o botão play de meu coração que por vezes permanecia na tecla pause ou no stand by, voltando a viver, voltando a me "pré-ocupar".Creio que com isso poderemos, enfim, entender o significado tão deslumbrante de existência, a que se debruçou em sua filosofia Martin Heidegger, e da vida ter bem menos medo dela. Adelante, compañeros!!!
Recentemente conversando com uma amiga, o papo realizado via internet me fez lembrar as leituras de Ser e Tempo, obra máxima de Heidegger, que, por debaixo da linguagem estritamente filosófica, revela muitas respostas a questionamentos que já fiz no passado, de coisas que afligiam meu coração, e, que de repente, podem servir de auxílio a esta amiga. Na ontologia filosófica heideggeriana podemos encontrar respostas para questões como a existência de Deus, a perpetuidade do amor, a temporalidade da vida e a dinâmica da aflição.
Vida e aflição. Somos seres aflitos porque vivemos, e na filosofia de Heidegger colhida na obra citada, já podemos aqui nos debruçar sobre dois conceitos básicos desenvolvidos pelo pensador da Floresta Negra: vivência e preocupação. Heidegger chama de vivência primordial um conceito extraído de Dilthey para dizer que quando surgimos no mundo, enquanto um "ser-aí" (dasein), já nos deparamos com um série de entes que nos cercam, nesse mundo circundante. É preciso apreender o sentido das coisas simplesmente vivendo, para se aprender a viver. Para isso o homem vive se "pré-ocupando", o que significa dizer que preocupação aqui não é vista como um mero sentimento aflitivo, mas sim como a essência da própria dinâmica da vida. Ao se preocupar o homem age, interage com o mundo circundante apreendendo significados, que depois ele traduzirá para seu conhecimento. Heidegger trabalha uma postura filosófica no caminho do conhecimento que é o caminho da autoconsciência, do conhecimento sobre si próprio. As coisas não existem só porque existem no mundo, mas existem porque eu existo, eu, ao viver, dou significado a essa existência. Pode parecer até simples (ou bem complicado) para quem lê esse jogo de palavras; mas, na verdade, Heidegger quer demonstrar com isso que sua filosofia surge como uma ruptura com a conduta intelectualóide racionalista e cartesiana, de querer sempre estabelecer um discurso sobre algo para se poder agir, quando na verdade é preciso primeiro agir para depois discursar.
Mas onde quero chegar e no que isso irá servir de contribuição ao caso de minha amiga? Digo, em especial nos conselhos afetivos em matéria de amor, que aí Heidegger também dá uma bola dentro, explicando no seu conceito de sentido de realização como complemento do sentido de ser, que em todos os momentos do agir, que caracterizam a vivência do ser, devemos ter uma postura de abertura à vida, de se apoderar da vida como um salto, independente de nossas mais intrigantes elucubrações. Isso significa dizer que não adianta perguntar "por que amar?" ou "amar a quem?", mas simplesmente amar. O jogador de futebol só pode discorrer sobre a importância da pelota se sente o gramado do campo sob seus pés, assim como para o flautista o som de sua flauta deixa de ser mero ruído se ele se abre para a beleza e imensidão da música. Amar algo ou alguém independe de nossas elaborações, mas só conseguimos efetivamente estabelecer a vivência do amor, estar vivendo amorosamente se nos desprendemos das amarras da intelecção cartesiana e nos abrimos num salto, saltamos no escuro, no êxtase de nossa disposição afetiva mesmo sabendo que o inesperado, o inconcluso, o não visto, o impoderável e invisível pode nos afligir, pode nos assustar. Mas Deus e o futuro não são assim??
Em outros textos deste blog já me referi a Heidegger como um pensador romântico, na concepção mais piegas do termo, não enquanto filósofo, mas enquanto homem. Pois parodiando Schopenhauer entendo que que os homens de ideias são também homens de ética; ou seja, é preciso uma disposição ética de querer conhecer a si próprio para querer conhecer o restante do mundo e da vida, que é a disposição do filósofo. Na procura de si próprio Heidegger filosofa tendo em vista o amor que nutriu durante anos por Hannah Arendt, talvez o verdadeiro e grande amor de sua vida. Não obstante a força avassaladora desse amor, Hannah preferiu seguir seu caminho e viver novos amores, casando-se com outra pessoa, tendo em vista que aquele homem mais velho e casado que ela tanto amou em seus encontros secretos, por ela não decidia. A inquietação do amor concretizado, mas não finalizado de Heidegger é a inquietude do dasein. Na dimensão aflitiva da vida somos por vezes chamados por ela a viver novas situações, conhecer novas pessoas, desfrutar de novos relacionamentos, e, sobretudo, abrir-se para novas perspectivas. Essa é a caminhada do filósofo-peregrino na sua vivência de suas ideias, essa é a nossa caminhada nos sucessivos saltos que somos convidados a dar, por uma vida inquieta, que por ser vida tem a função de nos inquietar.
Portanto, nessas curtas linhas o que desejo a essa querida amiga é que viva a sua vida abrindo-se à dimensão misteriosa mas ao mesmo tempo fascinante do dasein. Que possa em sua vivência desfrutar de novas amizades, novos amores, novas possibilidades de trabalho, novos lugares para conhecer, e, quem sabe, novos sabores e saberes de conhecer a si própria numa caminhada em que conhecer o mundo parte de conhecer a si mesmo. Viver acima de tudo, antes de conhecer é o ponto de partida para todo conhecimento, inclusive o conhecimento sobre o amor. Foi com isso que pude tantas vezes reativar o botão play de meu coração que por vezes permanecia na tecla pause ou no stand by, voltando a viver, voltando a me "pré-ocupar".Creio que com isso poderemos, enfim, entender o significado tão deslumbrante de existência, a que se debruçou em sua filosofia Martin Heidegger, e da vida ter bem menos medo dela. Adelante, compañeros!!!
sábado, 3 de julho de 2010
FUTEBOL: Nessa Copa do Mundo, a culpa foi do Mick Jagger e não da Jabulani.
Recordo que há poucos meses atrás, ainda morando em Porto Alegre, atravessei de carro a avenida Érico Verissimo e parei no sinal, próximo ao prédio do jornal Zero Hora. Pela faixa de pedestres notei que a única pessoa que atravessou era um senhor magro, cinquentão, bem alto, calvo, branco e meio enrugado. O sujeito era um cara extremamente conhecido e chegou a ser um dos ídolos do futebol nacional: Paulo Roberto Falcão, craque do Internacional, da seleção brasileira e do Roma.
Ao ver Falcão recordei da seleção de 1982, a clássica equipe de estrelas como Zico, Sócrates, Éder, Júnior e o próprio Falcão, que participou do festivo Mundial da Espanha. A seleção que foi sem nunca ter sido, capitaneada por um saudoso Telê Santana e sua maneira de cortar do esquema tático os laterais de campo (era a época da campanha midiática:"bota ponta, Telê!). A equipe do futebol bonito, uma verdadeira arte, de gols maravilhosos, da promessa de um dream team que honraria o país com o tetracampeonato mundial, após a mitológica conquista do México em 1970. Fazia apenas 12 anos que o Brasil tinha vivido a experiência de ser tricampeão mundial, nos pés de Pelé, Tostão,Rivelino, Jairzinho, Gérson e tantos outros fabulosos jogadores. Eu aguardava com ansiedade ver o Brasil campeão, pela primeira vez em minha vida, já que não havia ainda nascido na conquista de 70, e escutava curioso os feitos daquela seleção tricampeã, nos relatos de meu pai.
Naquele ano de 1982, eu, na minha pré-adolescência, começava a participar da festa futebolística que é uma Copa do Mundo, assistindo as fantásticas partidas disputadas por aquela seleção de sonho. Acompanhei com os olhos marejados o sonho terminar nos pés maldosos de Paolo Rossi, que naquele fatídico dia de julho, no estádio Sarriá, veio a desencantar. Aquele que seria o dia de Rossi, após cumprir uma longa suspensão e redescobrir seu futebol, assim como a Itália redescobriu a taça de campeão, após cinquenta anos. Parecia ser a vingança da Azurra, pela derrota sofrida por goleada nas mãos da seleção de Pelé, em 70.
Não gosto das quartas de final. Pra mim é a fase crítica de uma Copa do Mundo, onde as esperanças e os sonhos podem ir por água abaixo. É a fase crítica, o momento intermediário de um Mundial que irá definir quais equipes terão chances reais de conquistar um campeonato. Após as quartas somente quatro seleções poderão ostentar o título de serem as melhores do mundo naquele ano, e por isso, assisti a tantas quartas de final que o Brasil perdeu. Pra que chegar tão longe pra depois morrer na praia, numa quartas de final?
Pois foi nas quartas de final que a seleção de Telê e Zico descobriu o fracasso. Mesmo fracasso repetido nos pênaltis contra a França em 1986 na segunda Copa no México, e no mundial de 2006, também contra a França (arggg, os franceses de novo) num melancólico 1 x 0 para os franceses.
Pois agora, perdemos de novo nas quartas, desta vez para a Holanda. Justiça seja feita, a Holanda foi melhor e soube superar um trauma de duas Copas perdidas, exatamente nos pés de brasileiros. Com a derrota da Copa da África encerra-se, sem júbilo, a atormentada "Era Dunga". Pois é, o técnico e ex-jogador Dunga já era! Justiça seja feita, a Holanda tem um débito histórico a sanar indo novamente a uma semifinal de Copa, e Dunga, seja como treinador ou jogador, encerrou sua carreira da forma como começou: debaixo de polêmica e de uma saraivada de críticas.
Em artigo anterior neste blog, tratando da Copa da África, elogiei a coerência de Dunga na escalação de seus jogadores, sem que, com isso, eu dissesse que a seleção era boa. Não é esse o caso. Segundo o ex-jogador holandês Cruyff, craque da Copa de 74, em reportagem publicada pelo jornal O Globo, o futebol da seleção brasileira hoje peca pela falta de magia, pelo esquema burocrático e sem graça montado por Dunga. Ele tem razão. Na verdade, Dunga montou um time à imagem e semelhança de seu mentor na Copa de 94, Carlos Alberto Parreira. O mesmo que conduziu os sofridos Bafana Bafana sul-africanos à derrota, e que mostrou ao mundo um vexame histórico, ao liderar o pior fiasco de um time anfitrião em mundiais, e de ter seu aperto de mão recusado pelo também derrotado técnico da França, Raymond Dommenech. Mesmo com o tetracampeonato brasileiro conquistado à duras penas em 1994, nos Estados Unidos, nos pés da dupla Romário e Bebeto, Parreira nunca me convenceu. E ficou sem me convencer mais ainda com a empáfia da seleção que perdeu vergonhosamente para a França em 2006, após o júbilo anterior do pentacampeonato com a "família Scolari" e a redenção de Ronaldo Fenômeno. Essas quartas de final que nunca me saem das costas, como uma maldição.
Se perder é aprendizado, ao menos nesta Copa tiramos sábias lições quanto à ignorância humana e a voracidade capitalista, no comércio e difusão das horrorosas e barulhentas vuvuzelas. Essa Copa foi o torneio da vuvuleza, a Copa da Jabulani. E num torneio bem controvertido, não pelo preconceito contra o continente africano, mas pela desorganização mesmo, vimos toda a polêmica em torno da bola utilizada na competição: a já folclórica Jabulani, a temperamental bola que nunca é chutada na direção que se quer, e que parece ter vida própria. Essa Copa, que não terminou ainda, já ficou na história por conta de suas vuvuzelas e jabulanis, mas também pelo futebol bonito da seleção da Alemanha. Pois é! A Alemanha fazendo futebol bonito??? Mein Gott!! Mas isso não era atributo de sul-americano. Na Copa da terra do Mandela vimos, ao contrário, o colonizador branco europeu dar as cartas novamente no tabuleiro do mundo, seja com a derrota do Brasil para a Holanda, a desclassificação de todas as equipes africanas ainda na primeira fase do torneio (com exceção honrosa de Gana), e a tragédia argentina, com ares de tango, pela histórica goleada germânica nos pés de Klose, Podolski e tantos outros chucrutes talentosos e habilidosos com a jabulani. E olha que o craque deles, Ballack, nem foi pra Copa, por conta de uma contusão.
A vergonha brasileira só não foi maior que a vergonha italiana, francesa e inglesa, ou o vexame argentino, demonstrando o que já sabíamos: Maradona como treinador é somente um bom beijoqueiro. Sim, essa também foi a Copa em que antigos campeões beijaram a lona da forma mais massacrada possível. A seleção francesa sequer fez um gol, a da Itália, foi sonolenta até o último minuto, quando descobriu a necessidade de ganhar já tardiamente, quando a inexpressiva Eslovênia fez os azurri chorarem envergonhados, voltando antecipadamente pra casa, com seus ternos armani amarrotados pela atuação pífia e ridícula.
Mas não dá pra lavar a roupa suja falando mal só dos outros. Nós, brasileiros, fomos sim mal representados pela equipe de Dunga, pagamos o pato de ter um técnico inseguro e imaturo no comando de uma seleção. Achei até heroica a atitude de Dunga de peitar os meios de comunicação, desafiando a toda poderosa Rede Globo, literalmente batendo a porta na cara de Fátima Bernardes, para ódio de William Bonner e Cia, negando a entrada da imprensa nos treinos da seleção; mas a forma como ele se expôs ao mundo é que foi deselegante, bisonha e até risível, com sua ira fora do lugar, seus acessos de fúria durante as partidas, e sua xingada em jornalistas nas coletivas da imprensa. Essa Copa vai ser também o torneio do técnico mais bizarramente mal vestido, como o caso de nosso Dunga, com seu sobretudo futurista, desenhado pelo estilista retrô Alexandre Hercovitch. É a Copa do "Cala Boca Galvão", da ascensão do twitter como ferramenta útil para defenestrar locutores chatos, difundindo uma campanha cívica para que os brasileiros mudassem de canal, como forma de quebrar o monopólio da Globo na trasmissão da competição. Apesar de que, Galvão Bueno já conseguiu para a próxima Copa do Mundo um sucessor à altura, o também insuportável mas com pinta de galã, Tadeu Schimitt.
Se a Copa da África do Sul não vai deixar saudade para o torcedor brasileiro, ao menos descobrimos um novo talismã ao contrário, na hora de torcer pela derrota do time adversário: Mick Jagger. O eterno rolling stone, com cadeira cativa em todos os jogos importantes do Mundial,praticamente presenciou a derrota de todos os times que foi assistir e torcer: como a sua Inglaterra natal; Portugal, que levou outro canastrão da bola, Cristiano Ronaldo, de volta mais cedo pra casa; a própria seleção brasileira, na vergonhosa derrota para a Holanda; e a Argentina, essa sim que verdadeiramente se f... na goleada imposta pela Alemanha. Resta saber quem Jagger vai torcer na final do Mundial. Na minha opinião, tomara que seja pela Alemanha.
Pois é! Não adianta reclamar ou chorar. Nesta Copa do Mundo, Dunga e Maradona, Kaká e Messi encontram-se no mesmo barco, na qualidade de craques somente em seus próprios times, mas nunca verdadeiramente numa seleção nacional, ambos de volta para casa antes do fim da festa, e todos vestindo a mesma camisa, com um nome em letras garrafais bem estampado: vergonha. Só não vem torcer pelo meu Botafogo! Viu, Seu Mick Jagger!!!! Até 2014!!
Ao ver Falcão recordei da seleção de 1982, a clássica equipe de estrelas como Zico, Sócrates, Éder, Júnior e o próprio Falcão, que participou do festivo Mundial da Espanha. A seleção que foi sem nunca ter sido, capitaneada por um saudoso Telê Santana e sua maneira de cortar do esquema tático os laterais de campo (era a época da campanha midiática:"bota ponta, Telê!). A equipe do futebol bonito, uma verdadeira arte, de gols maravilhosos, da promessa de um dream team que honraria o país com o tetracampeonato mundial, após a mitológica conquista do México em 1970. Fazia apenas 12 anos que o Brasil tinha vivido a experiência de ser tricampeão mundial, nos pés de Pelé, Tostão,Rivelino, Jairzinho, Gérson e tantos outros fabulosos jogadores. Eu aguardava com ansiedade ver o Brasil campeão, pela primeira vez em minha vida, já que não havia ainda nascido na conquista de 70, e escutava curioso os feitos daquela seleção tricampeã, nos relatos de meu pai.
Naquele ano de 1982, eu, na minha pré-adolescência, começava a participar da festa futebolística que é uma Copa do Mundo, assistindo as fantásticas partidas disputadas por aquela seleção de sonho. Acompanhei com os olhos marejados o sonho terminar nos pés maldosos de Paolo Rossi, que naquele fatídico dia de julho, no estádio Sarriá, veio a desencantar. Aquele que seria o dia de Rossi, após cumprir uma longa suspensão e redescobrir seu futebol, assim como a Itália redescobriu a taça de campeão, após cinquenta anos. Parecia ser a vingança da Azurra, pela derrota sofrida por goleada nas mãos da seleção de Pelé, em 70.
Não gosto das quartas de final. Pra mim é a fase crítica de uma Copa do Mundo, onde as esperanças e os sonhos podem ir por água abaixo. É a fase crítica, o momento intermediário de um Mundial que irá definir quais equipes terão chances reais de conquistar um campeonato. Após as quartas somente quatro seleções poderão ostentar o título de serem as melhores do mundo naquele ano, e por isso, assisti a tantas quartas de final que o Brasil perdeu. Pra que chegar tão longe pra depois morrer na praia, numa quartas de final?
Pois foi nas quartas de final que a seleção de Telê e Zico descobriu o fracasso. Mesmo fracasso repetido nos pênaltis contra a França em 1986 na segunda Copa no México, e no mundial de 2006, também contra a França (arggg, os franceses de novo) num melancólico 1 x 0 para os franceses.
Pois agora, perdemos de novo nas quartas, desta vez para a Holanda. Justiça seja feita, a Holanda foi melhor e soube superar um trauma de duas Copas perdidas, exatamente nos pés de brasileiros. Com a derrota da Copa da África encerra-se, sem júbilo, a atormentada "Era Dunga". Pois é, o técnico e ex-jogador Dunga já era! Justiça seja feita, a Holanda tem um débito histórico a sanar indo novamente a uma semifinal de Copa, e Dunga, seja como treinador ou jogador, encerrou sua carreira da forma como começou: debaixo de polêmica e de uma saraivada de críticas.
Em artigo anterior neste blog, tratando da Copa da África, elogiei a coerência de Dunga na escalação de seus jogadores, sem que, com isso, eu dissesse que a seleção era boa. Não é esse o caso. Segundo o ex-jogador holandês Cruyff, craque da Copa de 74, em reportagem publicada pelo jornal O Globo, o futebol da seleção brasileira hoje peca pela falta de magia, pelo esquema burocrático e sem graça montado por Dunga. Ele tem razão. Na verdade, Dunga montou um time à imagem e semelhança de seu mentor na Copa de 94, Carlos Alberto Parreira. O mesmo que conduziu os sofridos Bafana Bafana sul-africanos à derrota, e que mostrou ao mundo um vexame histórico, ao liderar o pior fiasco de um time anfitrião em mundiais, e de ter seu aperto de mão recusado pelo também derrotado técnico da França, Raymond Dommenech. Mesmo com o tetracampeonato brasileiro conquistado à duras penas em 1994, nos Estados Unidos, nos pés da dupla Romário e Bebeto, Parreira nunca me convenceu. E ficou sem me convencer mais ainda com a empáfia da seleção que perdeu vergonhosamente para a França em 2006, após o júbilo anterior do pentacampeonato com a "família Scolari" e a redenção de Ronaldo Fenômeno. Essas quartas de final que nunca me saem das costas, como uma maldição.
Se perder é aprendizado, ao menos nesta Copa tiramos sábias lições quanto à ignorância humana e a voracidade capitalista, no comércio e difusão das horrorosas e barulhentas vuvuzelas. Essa Copa foi o torneio da vuvuleza, a Copa da Jabulani. E num torneio bem controvertido, não pelo preconceito contra o continente africano, mas pela desorganização mesmo, vimos toda a polêmica em torno da bola utilizada na competição: a já folclórica Jabulani, a temperamental bola que nunca é chutada na direção que se quer, e que parece ter vida própria. Essa Copa, que não terminou ainda, já ficou na história por conta de suas vuvuzelas e jabulanis, mas também pelo futebol bonito da seleção da Alemanha. Pois é! A Alemanha fazendo futebol bonito??? Mein Gott!! Mas isso não era atributo de sul-americano. Na Copa da terra do Mandela vimos, ao contrário, o colonizador branco europeu dar as cartas novamente no tabuleiro do mundo, seja com a derrota do Brasil para a Holanda, a desclassificação de todas as equipes africanas ainda na primeira fase do torneio (com exceção honrosa de Gana), e a tragédia argentina, com ares de tango, pela histórica goleada germânica nos pés de Klose, Podolski e tantos outros chucrutes talentosos e habilidosos com a jabulani. E olha que o craque deles, Ballack, nem foi pra Copa, por conta de uma contusão.
A vergonha brasileira só não foi maior que a vergonha italiana, francesa e inglesa, ou o vexame argentino, demonstrando o que já sabíamos: Maradona como treinador é somente um bom beijoqueiro. Sim, essa também foi a Copa em que antigos campeões beijaram a lona da forma mais massacrada possível. A seleção francesa sequer fez um gol, a da Itália, foi sonolenta até o último minuto, quando descobriu a necessidade de ganhar já tardiamente, quando a inexpressiva Eslovênia fez os azurri chorarem envergonhados, voltando antecipadamente pra casa, com seus ternos armani amarrotados pela atuação pífia e ridícula.
Mas não dá pra lavar a roupa suja falando mal só dos outros. Nós, brasileiros, fomos sim mal representados pela equipe de Dunga, pagamos o pato de ter um técnico inseguro e imaturo no comando de uma seleção. Achei até heroica a atitude de Dunga de peitar os meios de comunicação, desafiando a toda poderosa Rede Globo, literalmente batendo a porta na cara de Fátima Bernardes, para ódio de William Bonner e Cia, negando a entrada da imprensa nos treinos da seleção; mas a forma como ele se expôs ao mundo é que foi deselegante, bisonha e até risível, com sua ira fora do lugar, seus acessos de fúria durante as partidas, e sua xingada em jornalistas nas coletivas da imprensa. Essa Copa vai ser também o torneio do técnico mais bizarramente mal vestido, como o caso de nosso Dunga, com seu sobretudo futurista, desenhado pelo estilista retrô Alexandre Hercovitch. É a Copa do "Cala Boca Galvão", da ascensão do twitter como ferramenta útil para defenestrar locutores chatos, difundindo uma campanha cívica para que os brasileiros mudassem de canal, como forma de quebrar o monopólio da Globo na trasmissão da competição. Apesar de que, Galvão Bueno já conseguiu para a próxima Copa do Mundo um sucessor à altura, o também insuportável mas com pinta de galã, Tadeu Schimitt.
Se a Copa da África do Sul não vai deixar saudade para o torcedor brasileiro, ao menos descobrimos um novo talismã ao contrário, na hora de torcer pela derrota do time adversário: Mick Jagger. O eterno rolling stone, com cadeira cativa em todos os jogos importantes do Mundial,praticamente presenciou a derrota de todos os times que foi assistir e torcer: como a sua Inglaterra natal; Portugal, que levou outro canastrão da bola, Cristiano Ronaldo, de volta mais cedo pra casa; a própria seleção brasileira, na vergonhosa derrota para a Holanda; e a Argentina, essa sim que verdadeiramente se f... na goleada imposta pela Alemanha. Resta saber quem Jagger vai torcer na final do Mundial. Na minha opinião, tomara que seja pela Alemanha.
Pois é! Não adianta reclamar ou chorar. Nesta Copa do Mundo, Dunga e Maradona, Kaká e Messi encontram-se no mesmo barco, na qualidade de craques somente em seus próprios times, mas nunca verdadeiramente numa seleção nacional, ambos de volta para casa antes do fim da festa, e todos vestindo a mesma camisa, com um nome em letras garrafais bem estampado: vergonha. Só não vem torcer pelo meu Botafogo! Viu, Seu Mick Jagger!!!! Até 2014!!
quinta-feira, 24 de junho de 2010
CINEMA: Em "Ao sul da fronteira", Oliver Stone me fez pegar de volta a cartilha de militante.
O militante é um romântico. Entre balas, fome na floresta, tanques de guerra, doutrina marxista, fuzilamentos em paredões e desvios autoritários, Che Guevara era um poeta. Como não se deixar seduzir pela aura de romantismo do típico revolucionário latino-americano? Pancho Vila ou Emiliano Zapata no México até hoje inspiram multidões. No Brasil, Luis Carlos Prestes e sua Coluna, numa marcha solitária pela liberdade o transformaram, na época do tenentismo, nos primórdios do século XX, no "cavaleiro da esperança"; enquanto que Lamarca e Mariguella deixaram a pecha de terroristas e entraram nos livros de história como dois idealistas que morreram crivado de balas, acreditando em seu ideal revolucionário, combatendo a ditadura militar. El Comandante Fidel, inspirado em José Martí, até hoje é visto em Cuba por muitos com saudosismo e reverência. Daniel Ortega e seus sandinistas, na Nicarágua da década de 80, deram o que falar. E o que dizer então de Hugo Chavez? Hoje, o novo nome de uma esquerda, metida a revolucionária, que funciona como um "exército de brancaleone" bolivariano.
Ditadores ou libertadores? Segundo a ótica de Oliver Stone, diretor norte-americano oscarizado com Platoon, Nascido em 4 de julho, Wall Street e tantos outros filmes notáveis (como JFK, Nixon e até W, o último longa, tratando da vida de George W.Bush, que rendeu a Josh Brolin a indicação ao Oscar de melhor ator), para a mídia norte-americana e o capitalismo yankee, ditadores são todos aqueles que, de alguma forma, contrariam os interesses do capital internacional, não cedem aos apelos do mercado e dos banqueiros gringos, querendo ter luz própria e seguir seus próprios caminhos. É esse o projeto de América Latina concebido por Stone, com uma câmera na mão, na condição maior de militante do que de cineasta. Em seu novo documentário: Ao Sul da Fronteira, Oliver Stone volta seus olhos para a América do Sul. Uma nova América do Sul, não mais vista pelo ideário wasp norte-americano como uma terra exótica de macacos, florestas, nativos falando espanhol, tango, samba e a Carmen Miranda, mas sim como uma neverland da nova utopia socialista.
No documentário, Stone dedica quase uma hora a entender o fenômeno Hugo Chavez. Sua origem política, a realidade político-econômica da Venezuela: um oásis de petróleo em plena América do Sul, dotado não só de recursos naturais e belas mulheres, mas também de um povo sofrido, à beira da miséria, que durante anos sofreu sobre a ditadura das baionetas de governos repressivos, ostensivamente apoiados pelos Estados Unidos, na sustentação de uma minoria rica, elitizada, branca e européia. É mostrada a ascensão de Chavez ao poder: primeiro, por meio de uma tentativa fracassada de golpe, onde ele aparece como um salvador, um mártir, um jovem e destemido tenente-coronel paraquedista, que juntamente com outros jovens militares, indignados com a repressão popular do presidente Carlos André Perez, decidem tomar o poder à força, e se quebram. Após poucos anos de prisão, Chavez, o líder da rebelião militar, é galgado ao poder pela força das urnas, quando vence a eleição contra uma loiríssima e sugestiva ex-miss universo. Stone dá a entender que Chavez se consagra pelo voto popular, e isso (é certo) o legitimou a promover as profundas mudanças na sociedade venezuelana, que contrariaram fortemente os anseios da elite econômica, e da mídia que a sustentava, através de sua revolução bolivariana.
Aqui, acerca do papel da mídia e da intervenção norte-americana, merece-se um detalhe: assim como na tese defendida entre um em cada um militante de esquerda revolucionária, os meios de comunicação, numa sociedade capitalista, tem a função de respaldar a ideologia reaconária das elites, e assim incentivar o golpismo e o ataque à democracia, todas as vezes em que os interesses das elites forem contrariados. É assim que pensa Stone e é assim que demonstra o seu filme, ao mostrar o papel das redes de televisão e jornais contrários ao governo de Chavez, assim como a vergonhosa participação dos Estados Unidos de Bush, no fracassado golpe de Estado praticado na Venezuela, que retirou temporariamente Chavez do poder, colocando um banqueiro e financista no seu lugar, e que provocou uma reação popular nunca vista na história daquele país, depois que Simon Bolivar insuflou uma revolução na região. Não se passou uma semana para que Chavez voltasse triunfante ao poder, inclusive com o apoio de boa parte do exército, que o havia retirado da presidência nos dias anteriores e até ameaçava matá-lo. Com a "cagada" estadunidense, em reconhecer precipitadamente o governo golpista, antes mesmo que a cadeira da presidência esfriasse com a saída temporária de Chavez, fez com que o presidente venezuelano só se fortalecesse ainda mais no imaginário latino-americano, além de ganhar o apoio apaixonado de seu eleitorado. Saiu um líder, voltou uma lenda!
Mas se Oliver Stone ficou seduzido por Chavez, mostrando-o, inclusive, na sua intimidade, com seus familiares, pedalando de bicicleta, conversando com populares em seu jipe, e indo até à casa pobre, do bairro de periferia em Caracas, onde o líder venezuelano nasceu, Stone também vira suas lentes para outros países e líderes do continente, chegando até a Bolívia de Evo Morales. Outro líder carismático, cultivado pela extrema-esquerda, como o primeiro indígena a chegar à presidência de um país.O ex-cocaleiro é convidado a expor as virtudes medicinais da folha de coca, assim como suas habilidades no futebol, chegando a fazer embaixadinhas com uma bola, no jardim do palácio presidencial; mas o que mais interessa ao cineasta-entrevistador é como Morales explica os motivos da expulsão do escritório do DEA (Departamento de Narcóticos) norte-americano, do território boliviano. Morales, atualmente muito criticado pelo candidato brasileiro de oposição, José Serra, por sua suposta leniência com o tráfico de drogas, explica que, na verdade, sua luta é contra um projeto neoliberal dos EUA de querer se meter em assuntos internos da Bolívia (assim como já faz na Colômbia), ameaçando a soberania latino-americana, como sempre fez a terra do tio Sam, em seu histórico de imperialismo e financiamento de ditaduras e governos autoritários no continente.
Stone também vai para outros países, entre eles o Paraguai, de Fernando Lugo e a Argentina de Cristina Kirchner. Quanto a esta última, interessou ao diretor de Platoon entrevistar o casal Kirschner tão e simplesmente para saber como foi o calote com o FMI, e a cara-de-pau com que Nestor Kirschner desafiou os banqueiros norte-americanos, declarando moratória da dívida externa e que não pagaria mais nem um centavo aos homens de negócio yankess. De forma semelhante pronunciou-se Lula, o presidente brasileiro, ao ser entrevistado por Stone na cúpula das Américas, ao lado de um risonho Chavez, debaixo de uma tenda, falando triunfante de como o Brasil pagou sua dívida externa, com direito à sobras, e de como Lula peitou os banqueiros do FMI, dizendo que não queria mais nem um centavo de volta, e que, inclusive, devolvia o dinheiro que sobrou, pois o país tinha suas próprias reservas e já caminhava por pernas próprias. Afinal, segundo Lula, o bom pagador não fica com dinheiro que não lhe pertence, paga e ainda tira uma onda! O mesmo grau de ironia que conquistou Stone na retórica do presidente brasileiro, o cineasta norte-americano também sentiu com Rafael Correia, presidente do Equador, quando este cobrou a reciprocidade dos Estados Unidos, como condição para a permanência de bases norte-americanas no país. Se os EUA querem uma base militar norte-americana em Quito, que também haja uma base equatoriana em Miami. Será que é pedir demais?
No filme, Oliver Stone ainda abre um espaço pra Barack Obama. Yes, we can!! Quando dá um voto de confiança ao novo ocupante da Casa Branca, após a triste passagem de George W. Bush na presidência anterior. Stone revela a reação da mídia conservadora norte-americana, indignada perante aquilo que parecia um insulto: o aperto de mão entre Hugo Chavez e Obama, e a torcida do primeiro para que o governo deste último seja menos maléfico do que o de seu antecessor, e, ao menos, respeite a autonomia dos povos e a integração latino-americana.
Um coronel paraquedista que virou um novo Fidel Castro, um bispo, um metalúrgico e um indígena que se tornaram presidentes, um casal peronista que desafiou o capital internacional e um jovem presidente equatoriano que botou militares yankees pra correr. Estes são os heróis de Oliver Stone, a nova cara de uma América Latina retratada em filme, que revela, no século XXI, novos governos, de certa forma revolucionários, surgidos em democracias que sepultaram o antigo modelo ditadorial, vassalo do capitalismo norte-americano, do século passado. A América Latina para Stone é a Canaã da esquerda mundial, e para lá converge uma nova política que tende a alterar a correlação de forças num mundo globalizado. É óbvio que Ao Sul da Fronteira é altamente ideologizado, e reflete, em muito, o pensamento de seu diretor. Mas também é certo que o documentário serve como fonte de consulta histórica, a muitos fatos relevantes que ocorreram no continente sul-americano nos últimos anos, e, que, de fato, alteraram o curso da história mundial. Naturalmente, quem é de direita, reaça, neoliberal, neoconservador ou neoqualquer coisa ruim que seja, não irá gastar seus trocados pra assistir a um filme desses, pois sabe que se trata de mera peça de propaganda esquerdista.
Entretanto, aviso aos eleitores de Serra, classe média neoliberal paulistana, assinantes da revista Veja ou meros simpatizantes da turma do Alto de Pinheiros: Ao Sul da Fronteira é sim, muito bom! Dirigido por um dos melhores cineastas dos últimos anos, e de caráter altamente didático e conscientizador. É claro que você não precisa gostar do Hugo Chavez, ser eleitor do Lula ou morrer de amores pelo Evo Morales. Não sejamos ingênuos. Mas terá que reconhecer que muita coisa mudou (socialmente, para melhor) com esses senhores assumindo o governo de seus países, ao menos em termos de postura. Ver esses caras e o "cara" ( o que Lula é para Obama, e também para Stone) conferindo um destaque superior a seus países, como nunca antes se fez, quebrando com a postura de subserviência que marcou os governos sul-americanos durante tantos anos, realmente é motivo de emoção. Pena que os neochatos liberais de plantão, os conservadores, e todos aqueles que não conseguem conviver com a idea de sua empregada doméstica ou jardineiro serem ouvidos e compartilharem do poder numa sociedade democrática, acabam sempre por ser os "estraga-prazeres" da festa da esquerda, através de seus Diogos Mainardis da vida!
Por isso digo aos meus amigos neoliberais, conservadores ou de direita mesmo: este filme, definitivamente, não é pra você, Vladimir!! Um grande abraço a todos (de esquerda ou direita) de qualquer forma!! Soy loco por ti, América!!!
Ditadores ou libertadores? Segundo a ótica de Oliver Stone, diretor norte-americano oscarizado com Platoon, Nascido em 4 de julho, Wall Street e tantos outros filmes notáveis (como JFK, Nixon e até W, o último longa, tratando da vida de George W.Bush, que rendeu a Josh Brolin a indicação ao Oscar de melhor ator), para a mídia norte-americana e o capitalismo yankee, ditadores são todos aqueles que, de alguma forma, contrariam os interesses do capital internacional, não cedem aos apelos do mercado e dos banqueiros gringos, querendo ter luz própria e seguir seus próprios caminhos. É esse o projeto de América Latina concebido por Stone, com uma câmera na mão, na condição maior de militante do que de cineasta. Em seu novo documentário: Ao Sul da Fronteira, Oliver Stone volta seus olhos para a América do Sul. Uma nova América do Sul, não mais vista pelo ideário wasp norte-americano como uma terra exótica de macacos, florestas, nativos falando espanhol, tango, samba e a Carmen Miranda, mas sim como uma neverland da nova utopia socialista.
No documentário, Stone dedica quase uma hora a entender o fenômeno Hugo Chavez. Sua origem política, a realidade político-econômica da Venezuela: um oásis de petróleo em plena América do Sul, dotado não só de recursos naturais e belas mulheres, mas também de um povo sofrido, à beira da miséria, que durante anos sofreu sobre a ditadura das baionetas de governos repressivos, ostensivamente apoiados pelos Estados Unidos, na sustentação de uma minoria rica, elitizada, branca e européia. É mostrada a ascensão de Chavez ao poder: primeiro, por meio de uma tentativa fracassada de golpe, onde ele aparece como um salvador, um mártir, um jovem e destemido tenente-coronel paraquedista, que juntamente com outros jovens militares, indignados com a repressão popular do presidente Carlos André Perez, decidem tomar o poder à força, e se quebram. Após poucos anos de prisão, Chavez, o líder da rebelião militar, é galgado ao poder pela força das urnas, quando vence a eleição contra uma loiríssima e sugestiva ex-miss universo. Stone dá a entender que Chavez se consagra pelo voto popular, e isso (é certo) o legitimou a promover as profundas mudanças na sociedade venezuelana, que contrariaram fortemente os anseios da elite econômica, e da mídia que a sustentava, através de sua revolução bolivariana.
Aqui, acerca do papel da mídia e da intervenção norte-americana, merece-se um detalhe: assim como na tese defendida entre um em cada um militante de esquerda revolucionária, os meios de comunicação, numa sociedade capitalista, tem a função de respaldar a ideologia reaconária das elites, e assim incentivar o golpismo e o ataque à democracia, todas as vezes em que os interesses das elites forem contrariados. É assim que pensa Stone e é assim que demonstra o seu filme, ao mostrar o papel das redes de televisão e jornais contrários ao governo de Chavez, assim como a vergonhosa participação dos Estados Unidos de Bush, no fracassado golpe de Estado praticado na Venezuela, que retirou temporariamente Chavez do poder, colocando um banqueiro e financista no seu lugar, e que provocou uma reação popular nunca vista na história daquele país, depois que Simon Bolivar insuflou uma revolução na região. Não se passou uma semana para que Chavez voltasse triunfante ao poder, inclusive com o apoio de boa parte do exército, que o havia retirado da presidência nos dias anteriores e até ameaçava matá-lo. Com a "cagada" estadunidense, em reconhecer precipitadamente o governo golpista, antes mesmo que a cadeira da presidência esfriasse com a saída temporária de Chavez, fez com que o presidente venezuelano só se fortalecesse ainda mais no imaginário latino-americano, além de ganhar o apoio apaixonado de seu eleitorado. Saiu um líder, voltou uma lenda!
Mas se Oliver Stone ficou seduzido por Chavez, mostrando-o, inclusive, na sua intimidade, com seus familiares, pedalando de bicicleta, conversando com populares em seu jipe, e indo até à casa pobre, do bairro de periferia em Caracas, onde o líder venezuelano nasceu, Stone também vira suas lentes para outros países e líderes do continente, chegando até a Bolívia de Evo Morales. Outro líder carismático, cultivado pela extrema-esquerda, como o primeiro indígena a chegar à presidência de um país.O ex-cocaleiro é convidado a expor as virtudes medicinais da folha de coca, assim como suas habilidades no futebol, chegando a fazer embaixadinhas com uma bola, no jardim do palácio presidencial; mas o que mais interessa ao cineasta-entrevistador é como Morales explica os motivos da expulsão do escritório do DEA (Departamento de Narcóticos) norte-americano, do território boliviano. Morales, atualmente muito criticado pelo candidato brasileiro de oposição, José Serra, por sua suposta leniência com o tráfico de drogas, explica que, na verdade, sua luta é contra um projeto neoliberal dos EUA de querer se meter em assuntos internos da Bolívia (assim como já faz na Colômbia), ameaçando a soberania latino-americana, como sempre fez a terra do tio Sam, em seu histórico de imperialismo e financiamento de ditaduras e governos autoritários no continente.
Stone também vai para outros países, entre eles o Paraguai, de Fernando Lugo e a Argentina de Cristina Kirchner. Quanto a esta última, interessou ao diretor de Platoon entrevistar o casal Kirschner tão e simplesmente para saber como foi o calote com o FMI, e a cara-de-pau com que Nestor Kirschner desafiou os banqueiros norte-americanos, declarando moratória da dívida externa e que não pagaria mais nem um centavo aos homens de negócio yankess. De forma semelhante pronunciou-se Lula, o presidente brasileiro, ao ser entrevistado por Stone na cúpula das Américas, ao lado de um risonho Chavez, debaixo de uma tenda, falando triunfante de como o Brasil pagou sua dívida externa, com direito à sobras, e de como Lula peitou os banqueiros do FMI, dizendo que não queria mais nem um centavo de volta, e que, inclusive, devolvia o dinheiro que sobrou, pois o país tinha suas próprias reservas e já caminhava por pernas próprias. Afinal, segundo Lula, o bom pagador não fica com dinheiro que não lhe pertence, paga e ainda tira uma onda! O mesmo grau de ironia que conquistou Stone na retórica do presidente brasileiro, o cineasta norte-americano também sentiu com Rafael Correia, presidente do Equador, quando este cobrou a reciprocidade dos Estados Unidos, como condição para a permanência de bases norte-americanas no país. Se os EUA querem uma base militar norte-americana em Quito, que também haja uma base equatoriana em Miami. Será que é pedir demais?
No filme, Oliver Stone ainda abre um espaço pra Barack Obama. Yes, we can!! Quando dá um voto de confiança ao novo ocupante da Casa Branca, após a triste passagem de George W. Bush na presidência anterior. Stone revela a reação da mídia conservadora norte-americana, indignada perante aquilo que parecia um insulto: o aperto de mão entre Hugo Chavez e Obama, e a torcida do primeiro para que o governo deste último seja menos maléfico do que o de seu antecessor, e, ao menos, respeite a autonomia dos povos e a integração latino-americana.
Um coronel paraquedista que virou um novo Fidel Castro, um bispo, um metalúrgico e um indígena que se tornaram presidentes, um casal peronista que desafiou o capital internacional e um jovem presidente equatoriano que botou militares yankees pra correr. Estes são os heróis de Oliver Stone, a nova cara de uma América Latina retratada em filme, que revela, no século XXI, novos governos, de certa forma revolucionários, surgidos em democracias que sepultaram o antigo modelo ditadorial, vassalo do capitalismo norte-americano, do século passado. A América Latina para Stone é a Canaã da esquerda mundial, e para lá converge uma nova política que tende a alterar a correlação de forças num mundo globalizado. É óbvio que Ao Sul da Fronteira é altamente ideologizado, e reflete, em muito, o pensamento de seu diretor. Mas também é certo que o documentário serve como fonte de consulta histórica, a muitos fatos relevantes que ocorreram no continente sul-americano nos últimos anos, e, que, de fato, alteraram o curso da história mundial. Naturalmente, quem é de direita, reaça, neoliberal, neoconservador ou neoqualquer coisa ruim que seja, não irá gastar seus trocados pra assistir a um filme desses, pois sabe que se trata de mera peça de propaganda esquerdista.
Entretanto, aviso aos eleitores de Serra, classe média neoliberal paulistana, assinantes da revista Veja ou meros simpatizantes da turma do Alto de Pinheiros: Ao Sul da Fronteira é sim, muito bom! Dirigido por um dos melhores cineastas dos últimos anos, e de caráter altamente didático e conscientizador. É claro que você não precisa gostar do Hugo Chavez, ser eleitor do Lula ou morrer de amores pelo Evo Morales. Não sejamos ingênuos. Mas terá que reconhecer que muita coisa mudou (socialmente, para melhor) com esses senhores assumindo o governo de seus países, ao menos em termos de postura. Ver esses caras e o "cara" ( o que Lula é para Obama, e também para Stone) conferindo um destaque superior a seus países, como nunca antes se fez, quebrando com a postura de subserviência que marcou os governos sul-americanos durante tantos anos, realmente é motivo de emoção. Pena que os neochatos liberais de plantão, os conservadores, e todos aqueles que não conseguem conviver com a idea de sua empregada doméstica ou jardineiro serem ouvidos e compartilharem do poder numa sociedade democrática, acabam sempre por ser os "estraga-prazeres" da festa da esquerda, através de seus Diogos Mainardis da vida!
Por isso digo aos meus amigos neoliberais, conservadores ou de direita mesmo: este filme, definitivamente, não é pra você, Vladimir!! Um grande abraço a todos (de esquerda ou direita) de qualquer forma!! Soy loco por ti, América!!!
quarta-feira, 23 de junho de 2010
DIREITOS HUMANOS: Em Gaza, Israel estimula piada de judeu!
O povo judeu é um povo sofrido, disso até uma criança de cinco anos hoje sabe. Foram vítimas de um holocausto no século XX, foram perseguidos a mais de mil no começo daquele século, sofreram ( e ainda sofrem) todo tipo de preconceito, são muitas vezes mal compreendidos em seus costumes e até hoje recebem a pecha de muitos de terem assassinado Cristo (Mel Gibson, com seu filme sobre a Paixão de Cristo só fez reacender isso).
Mas, afinal, qual é o problema do povo judaico; ou melhor, qual o problema de Israel, em dizimar o povo vizinho palestino, lançando mísseis à cata de terroristas em Gaza, manchando a região de sangue, a pretexto de combater a guerra ao terror? Qual o problema de deixar barcos trazerem carregamentos de comida, rompendo um bloqueio perverso, contra um povo miserável, que acoberta terroristas, assim como famílias faveladas acolhem traficantes em suas casas, pela falta total de apoio do Estado, e por conta de seus algozes, que promovem uma ocupação irracional? Por que todos que criticam as ações do governo de Israel e se opõem podem ser vítimas de balas de fuzil, metralhadora, mísseis ou bombas? Vão me dizer que a questão Israel-Palestina é complexa. Sim, concordo, muito complexa! Não se trata apenas de ingressar no maniqueísmo de dizer quem tem razão e quem não tem, quem são os bandidos terroristas e os mocinhos soldados defendendo a pátria dos escolhidos. Mas a discussão não é essa. O povo de Israel sofre com uma situação que já perdura mais de cinquenta anos, desde a fundação do Estado Judeu, e não é de agora que vários, mas muitos estudiosos, debruçam-se sobre o confilto envolvendo árabes e judeus, israelenses e palestinos.
Lembro-me de um episódio em Porto Alegre em que estava num agradável café, na Cidade Baixa, e uma de minhas interlocutoras era uma psicóloga de origem judaica que tinha ido a Israel. A moça (muito bonita e educada, por sinal), além de psicóloga, era frequentadora da sinagoga, e tinha visitado Israel ao menos umas três vezes. Disse-me ela que era sionista de carteirinha, e, pra quem não sabe, o sionismo é a forma mais emblemática de manifestação do nacionalismo judaico (foi no Manifesto dos Sábios do Sião, escrito no século XIX, que se defendeu, pela primeira vez, as bases de um Estado Judaico). O sionismo se vale de uma mescla de argumentos religiosos, históricos e geopolíticos para justificar a necessidade de um Estado Judeu no mundo, e para isso, defendem, inclusive, a luta armada, pois entendem que tal Estado deve ser obtido de qualquer forma para o "povo eleito de Moisés", pois o martírio faz parte da lógica dos que lutam e morrem pela fé (alguém já viu algo parecido no islamismo?).
Não adiantava, naquele momento, contrariar a empolgada moça e questionar a matança de milhares de civis nos últimos anos, pela ação truculenta do exército israelense;a intrepidez à beira da irresponsabilidade de seu serviço secreto, matando líderes de organizações terroristas em hotéis, com requintes de bandidagem; ou cometer o absurdo de metralhar navios de ajuda humanítária que trazem comida e remédios para a população sofrida de Gaza. Um sionista, defensor incondicional da causa de Israel, é pior que um colorado ou gremista na defesa de seu time, e mesmo que ele erre, o erro é muitas vezes atribuído a uma provocação do adversário, e não a um erro genuíno de quem erra. Nesse "gre-nal sionista", sobra pros palestinos. Se todos os que atacam Israel são seus inimigos, então, para os inimigos, segundo a Torá, bala neles!!! Quer dizer, que o Anjo Exterminador baixe sua espada vingadora, e que o "povo eleito" se mantenha de prontidão e abata os inimigos de Israel. Fico imaginando a interpretação da seguinte passagem do livro biblico de Ezequiel:
"Prepara-te, e dispõe-te, tu e todas as multidões do teu povo que se reuniram a ti, e serve-lhes tu de guarda. Depois de muitos dias serás visitado. No fim dos anos virás à terra que se recuperou da espada, e que foi congregada dentre muitos povos, junto aos montes de Israel, que sempre se faziam desertos; mas aquela terra foi tirada dentre as nações, e todas elas habitarão seguramente. Então subirás, virás como uma tempestade, far-te-ás como uma nuvem para cobrir a terra, tu e todas as tuas tropas, e muitos povos contigo." (Eze 38.7-9)
As agressões de Israel aos povos vizinhos justificam-se, portanto, a meu ver, segundo dois argumentos: um religioso e um político. Acerca dos aspectos religiosos já nos debruçamos aqui, sabendo da importância daquele pedaço de terra desértica para os povos das três principais religiões monoteístas do mundo(judaismo, cristianismo e islamismo); mas o que de fato me preocupa é o argumento político, baseado num nacionalismo extremado, que apoderado por uma extrema-direita forte, que sucessivamente governa Israel, entre um e outro governo trabalhista, é que potencializa a fúria do Estado judaico, contra aqueles que contrariam seus interesses.
O nacionalismo é uma doença política. Em torno dele podem se reunir os desejos mais mesquinhos e os interesses mais egoístas. Segundo Hannah Arendt, nas Origens do Totalitarismo, foi mediante a leitura do Manuscrito dos Sábios do Sião, que defendia o nacionalismo judeu e o Estado judaico, que Hitler inspirou seu famigerado plano de desenvolver a ideologia nazista. O nacionalismo é exclusivista, não admite a diferença, e, em prol da busca e recuperação de um sentimento nacional (o que difere, em muito, do patriotismo) acaba por atiçar as paixões mais avassaladoras, levando multidões a funcionarem como bonecos automaticamente controlados, prontos a perpetrarem as maiores barbaridades. Foi assim no Conflito da Bósnia, nos Balcãs, nos anos noventa; assim como foi em diversos outros episódios da história mundial. O nacionalismo incita separatismos e a formação de grupos terroristas e guerrilheiros como o ETA na Espanha, ou o IRA na Irlanda do Norte, e numa sociedade globalizada, até hoje se perguntam os sociólogos e cientistas políticas, até que ponto uma manifestação nacional pode ser saudável ou não para o futuro de uma nação.
O povo palestino também é uma nação em busca de sua identidade nacional. E isso também é perigoso, não só para Israel, mas para o mundo; mas isso não deve servir de pretexto para justificar as atrocidades praticadas pelo Estado de Israel. Já passaram por Israel alguns governos com muito mais bom senso que o atual, e a última mancada do governo israelense, com um saldo de nove ativistas mortos, num navio em direção a Gaza, em águas internacionais, só justifica as piadas de judeu, que tomo a liberdade de reproduzir uma agora:
"Estava um cidadão judeu andando em Belfast, bem na época dos conflitos entre católicos e protestantes, quando tem a infelicidade de cruzar numa esquina com um suposto ativista do IRA. O cara pergunta com um fuzil apontado pra cara do infeliz:
-Responde rápido! Cátolico ou protestante???
-Não, não! Eu sou judeu! - Responde o assustado rabino.
O guerrilheiro dá uma risada, coça a barba e tira do bolso um turbante, dizendo: "Ahhhh, o senhor é judeu! Que ótimo! Pois hoje eu sou o árabe mais feliz da Irlanda!!!".
Gostaram da piada? Os nove corpos caídos num convés de navio às margens de Gaza, também não!!
Mas, afinal, qual é o problema do povo judaico; ou melhor, qual o problema de Israel, em dizimar o povo vizinho palestino, lançando mísseis à cata de terroristas em Gaza, manchando a região de sangue, a pretexto de combater a guerra ao terror? Qual o problema de deixar barcos trazerem carregamentos de comida, rompendo um bloqueio perverso, contra um povo miserável, que acoberta terroristas, assim como famílias faveladas acolhem traficantes em suas casas, pela falta total de apoio do Estado, e por conta de seus algozes, que promovem uma ocupação irracional? Por que todos que criticam as ações do governo de Israel e se opõem podem ser vítimas de balas de fuzil, metralhadora, mísseis ou bombas? Vão me dizer que a questão Israel-Palestina é complexa. Sim, concordo, muito complexa! Não se trata apenas de ingressar no maniqueísmo de dizer quem tem razão e quem não tem, quem são os bandidos terroristas e os mocinhos soldados defendendo a pátria dos escolhidos. Mas a discussão não é essa. O povo de Israel sofre com uma situação que já perdura mais de cinquenta anos, desde a fundação do Estado Judeu, e não é de agora que vários, mas muitos estudiosos, debruçam-se sobre o confilto envolvendo árabes e judeus, israelenses e palestinos.
Lembro-me de um episódio em Porto Alegre em que estava num agradável café, na Cidade Baixa, e uma de minhas interlocutoras era uma psicóloga de origem judaica que tinha ido a Israel. A moça (muito bonita e educada, por sinal), além de psicóloga, era frequentadora da sinagoga, e tinha visitado Israel ao menos umas três vezes. Disse-me ela que era sionista de carteirinha, e, pra quem não sabe, o sionismo é a forma mais emblemática de manifestação do nacionalismo judaico (foi no Manifesto dos Sábios do Sião, escrito no século XIX, que se defendeu, pela primeira vez, as bases de um Estado Judaico). O sionismo se vale de uma mescla de argumentos religiosos, históricos e geopolíticos para justificar a necessidade de um Estado Judeu no mundo, e para isso, defendem, inclusive, a luta armada, pois entendem que tal Estado deve ser obtido de qualquer forma para o "povo eleito de Moisés", pois o martírio faz parte da lógica dos que lutam e morrem pela fé (alguém já viu algo parecido no islamismo?).
Não adiantava, naquele momento, contrariar a empolgada moça e questionar a matança de milhares de civis nos últimos anos, pela ação truculenta do exército israelense;a intrepidez à beira da irresponsabilidade de seu serviço secreto, matando líderes de organizações terroristas em hotéis, com requintes de bandidagem; ou cometer o absurdo de metralhar navios de ajuda humanítária que trazem comida e remédios para a população sofrida de Gaza. Um sionista, defensor incondicional da causa de Israel, é pior que um colorado ou gremista na defesa de seu time, e mesmo que ele erre, o erro é muitas vezes atribuído a uma provocação do adversário, e não a um erro genuíno de quem erra. Nesse "gre-nal sionista", sobra pros palestinos. Se todos os que atacam Israel são seus inimigos, então, para os inimigos, segundo a Torá, bala neles!!! Quer dizer, que o Anjo Exterminador baixe sua espada vingadora, e que o "povo eleito" se mantenha de prontidão e abata os inimigos de Israel. Fico imaginando a interpretação da seguinte passagem do livro biblico de Ezequiel:
"Prepara-te, e dispõe-te, tu e todas as multidões do teu povo que se reuniram a ti, e serve-lhes tu de guarda. Depois de muitos dias serás visitado. No fim dos anos virás à terra que se recuperou da espada, e que foi congregada dentre muitos povos, junto aos montes de Israel, que sempre se faziam desertos; mas aquela terra foi tirada dentre as nações, e todas elas habitarão seguramente. Então subirás, virás como uma tempestade, far-te-ás como uma nuvem para cobrir a terra, tu e todas as tuas tropas, e muitos povos contigo." (Eze 38.7-9)
As agressões de Israel aos povos vizinhos justificam-se, portanto, a meu ver, segundo dois argumentos: um religioso e um político. Acerca dos aspectos religiosos já nos debruçamos aqui, sabendo da importância daquele pedaço de terra desértica para os povos das três principais religiões monoteístas do mundo(judaismo, cristianismo e islamismo); mas o que de fato me preocupa é o argumento político, baseado num nacionalismo extremado, que apoderado por uma extrema-direita forte, que sucessivamente governa Israel, entre um e outro governo trabalhista, é que potencializa a fúria do Estado judaico, contra aqueles que contrariam seus interesses.
O nacionalismo é uma doença política. Em torno dele podem se reunir os desejos mais mesquinhos e os interesses mais egoístas. Segundo Hannah Arendt, nas Origens do Totalitarismo, foi mediante a leitura do Manuscrito dos Sábios do Sião, que defendia o nacionalismo judeu e o Estado judaico, que Hitler inspirou seu famigerado plano de desenvolver a ideologia nazista. O nacionalismo é exclusivista, não admite a diferença, e, em prol da busca e recuperação de um sentimento nacional (o que difere, em muito, do patriotismo) acaba por atiçar as paixões mais avassaladoras, levando multidões a funcionarem como bonecos automaticamente controlados, prontos a perpetrarem as maiores barbaridades. Foi assim no Conflito da Bósnia, nos Balcãs, nos anos noventa; assim como foi em diversos outros episódios da história mundial. O nacionalismo incita separatismos e a formação de grupos terroristas e guerrilheiros como o ETA na Espanha, ou o IRA na Irlanda do Norte, e numa sociedade globalizada, até hoje se perguntam os sociólogos e cientistas políticas, até que ponto uma manifestação nacional pode ser saudável ou não para o futuro de uma nação.
O povo palestino também é uma nação em busca de sua identidade nacional. E isso também é perigoso, não só para Israel, mas para o mundo; mas isso não deve servir de pretexto para justificar as atrocidades praticadas pelo Estado de Israel. Já passaram por Israel alguns governos com muito mais bom senso que o atual, e a última mancada do governo israelense, com um saldo de nove ativistas mortos, num navio em direção a Gaza, em águas internacionais, só justifica as piadas de judeu, que tomo a liberdade de reproduzir uma agora:
"Estava um cidadão judeu andando em Belfast, bem na época dos conflitos entre católicos e protestantes, quando tem a infelicidade de cruzar numa esquina com um suposto ativista do IRA. O cara pergunta com um fuzil apontado pra cara do infeliz:
-Responde rápido! Cátolico ou protestante???
-Não, não! Eu sou judeu! - Responde o assustado rabino.
O guerrilheiro dá uma risada, coça a barba e tira do bolso um turbante, dizendo: "Ahhhh, o senhor é judeu! Que ótimo! Pois hoje eu sou o árabe mais feliz da Irlanda!!!".
Gostaram da piada? Os nove corpos caídos num convés de navio às margens de Gaza, também não!!
sábado, 19 de junho de 2010
LITERATURA/HOMENAGEM:Saramago-um ateu que morreu como crente.
Sou um oportunista! Confesso! Sou um oportunista. Pela quantidade de obituários que podem ser vistos neste blog, como blogueiro pareço até um bom papa-defunto. São tantos assuntos e besteiras que posso comentar, que aproveito oportunisticamente a morte de alguém famoso para escrever. E nisso confesso, de forma meio desavergonhada, aos leitores deste blog, meu oportunismo mórbido como forma de criar assunto. E é me aproveitando dessa confissão que como um oportunista descarado (mas sincero), escrevo sobre o falecimento (e a devida homenagem) a um dos grandes nomes da literatura latino-americana(e mundial), e o único autor da língua portuguesa já agraciado com o prêmio Nobel de Literatura. Claro, a essa altura do campeonato e pelo título acima, todos sabem que estou falando da morte de José Saramago.
Conheci Saramago não propriamente por sua fama, conquistada apenas após os 60 anos de idade, mas de um livro que dei de presente a uma ex-companheira, há alguns poucos anos atrás, que, por sinal, não o leu. Pois é! Com o livro, que acabou ficando comigo após a separação, tive a minha disposição a leitura de Saramago pela frente, em um de seus livros mais célebres e mais polêmicos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
Pra quem não conhece o livro acima ou nunca ouviu falar de Saramago (Claro! Não cobro atestado intelectual das boas e vivas almas que lêem este blog), pelo título da obra parece até que Saramago escreveu um livro de teologia ou catequese. Nada mais errado, e também nada mais certo. Na verdade, dos três livros que li de Saramago, além daquele que citei acima (vale lembrar Ensaio sobre a Cegueira e as Intermitências da Morte), ao menos nessas obras que conheci encontra-se presente sempre o transcendente, o sagrado, o sobrenatural, o espiritual; não como algo distinto, onipresente ou onisciente sobre os homens, mas como algo que faz parte deles.
Saramago sabia escrever sobre Deus mesmo sem acreditar Nele. Ao menos é o que ele dizia ser: um ateu convicto, além de comunista na juventude. Foi pelo materialismo histórico marxista que Saramago conheceu o mundo e a injustiça, como jornalista e libertário, e foi a partir de seu materialismo que ele passou a exercer sua crença no homem, sua fé secular em valores absolutos como a justiça, a solidariedade, a tolerância e a liberdade, como atributos propriamente humanos. Saramago soube ser fiel e coerente às crenças políticas e filosóficas em que acreditava, não temendo, inclusive, romper com líderes e movimentos que apoiara no passado, denunciando os excessos do totalitarismo de esquerda, ao renegar seu apoio aos irmãos Castro em Cuba, a denunciar ditaduras de extrema-direita no continente latino-americano, ou a desafiar, com seu talento e verve, o imperialismo norte-americano e o sistema capitalista, participando de eventos significativos como o Fórum Social Mundial.
Mas Saramago também era um profundo crítico de uma das instituições mais tradicionais e antigas da humanidade, muito presente na sociedade portuguesa e na cultura ibero-americana: a Igreja Católica. Foi justamente criticando o monolitismo, a influência e os cânones católicos que Saramago desenvolveu sua literatura, apontando para uma nova forma de espiritualidade que poderia ser contemplada sem a necessidade especial de uma divindade punitiva e todo-poderosa. É por isso que digo que Saramago, de seu jeito, era um escritor crente, pois ao questionar a religiosidade cristã que aparecia a ele por meio da pujança católica, ao mesmo tempo, desta forma, pôde este escritor português desenvolver seus próprios “messias internos”, através dos personagens e das obras que escreveu.
Vejamos, por exemplo, em Ensaio sobre a Cegueira. Neste livro, adaptado para o cinema pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e tendo como principal protagonista a bela e talentosíssima atriz norte-americana Juliane Moore, Saramago se vale de um estilo e de um expediente típicos de sua escrita (além da célebre prolixidade, a que irei me referir nos próximos parágrafos), retratando personagens que não tem um nome e são o filho, a amante, o vendedor, a diarista, a prostituta, o executivo, por exemplo). No livro, acompanhamos a peregrinação da mulher do médico, que parece ser a única mulher que enxerga, em uma cidade acometida de uma bizarra e medonha epidemia de cegueira, que tolhe a visão de todos, menos da protagonista, que passa a ser uma espécie de guia de uma multidão de cegos, aprisionados não apenas pela cegueira dos olhos, mas pela cegueira de seus próprios corações e mentes. Através do mito da cegueira, Saramago nada mais faz do que recriar a passagem bíblica, vista nos Evangelhos em Mateus (20.29-34), Lucas (18:35-43) e Marcos (10:46-52), de quando Cristo cura um cego em Jericó. Assim como no personagem da Bíblia, o cego Bartimeu, que recupera a visão, pois, segundo Jesus, “sua fé o salvou”, a personagem da mulher do médico cego, no livro de Saramago, também busca a salvação por meio da fé, não porque acredita que, num passe de mágica, os enfermos recuperarão a visão, mas pela fé de que tem de prosseguir em sua missão de cuidá-los, já que é a única quem vê, e por isso, não pode perder a fé em salvá-los, mesmo que eles não consigam enxergar. Saramago une, neste belo livro e obra singular, o melhor da espiritualidade cristã, juntamente com a filosofia platônica vista no “mito da caverna”, narrado na República de Platão (acerca da libertação da cegueira da ignorância). Percebe-se o quanto os escritos de Saramago provocam uma tremenda e desconcertante reflexão intelectual, nem tanto pela beleza do texto, que, como disse, é bem complexo e arrastado, mas sim pela evocação da genialidade do tema, que faz toda a diferença, ao ler este autor português. Para mim, nesse sentido, Saramago foi o nosso “James Joyce na língua portuguesa”.
Saramago não explora propriamente em seus textos os dramas pessoais de seus personagens, apesar de eles estarem lá, pela fórmula secreta de um intimismo que ele conseguia imprimir em seus leitores, de forma quase mística. Seu detalhismo, na busca rebuscada da exposição de detalhes de certas cenas e ocasiões, mais do que os próprios personagens, numa linguagem por vezes, para muitos, cansativa, conseguia na verdade convidar o leitor a fazer uma verdadeira reflexão filosófico-espiritual em cada página. Algo que malfadados (mas famosíssimos) escritores por aí, que inauguraram uma celebridade e uma aura de sucesso misturando misticismo com autoajuda, ganhando reconhecimento internacional, nem sequer chegam perto (vocês devem saber de quem estou falando, não é?). Agora, é bem verdade, a leitura de Saramago nunca foi simples e própria para principiantes. E, também confesso, ler Saramago num primeiro momento me pareceu muito chato. Pois é! Não foi experiência fácil. Mas, também, não deixou de ser deliciosa a reflexão que pude ler a cada texto que lia deste singular escritor lusitano.
Por falar em escritor, creio que, para mim, Saramago era muito mais um filósofo que gostava de escrever, do que propriamente um romancista. Ele era uma espécie de metafísico que se valia do roteiro da exposição novelística para expressar suas reflexões existenciais. Foi assim em As Intermitências da Morte, um de seus últimos livros (e o último que li); onde, curiosamente, Saramago tratava de algo que para ele, em sua velhice prolongada e pelo corpo de ancião que começava a padecer com o peso dos anos, anunciava-se por acontecer, e que ele necessitava expurgar através de um realismo fantástico de proporções líricas: a iminência da morte e a pergunta que não quer calar acerca do mistério que seria, se ninguém conseguisse mais morrer. É disso que trata esse livro, quando, num povoado (lusitano) imaginário, ocorre que num belo e certo dia as pessoas deixam de morrer, deixando a cidade em polvorosa. Mas o que poderia parecer um milagre e motivo para festejo pela benção conferida da imortalidade, passa a se revelar como maldição, no momento em que os moribundos, estes sim, os principais destinatários da morte, simplesmente não podem alcançar o descanso definitivo, pois não podem morrer. A eles, compete o estado eternamente desagradável da agonia e do sofrimento que não tem mais a morte para lhe encerrar. Não demora para que a morte novamente se torne importante para a população do vilarejo onde ela não mais aparece, passando alguns até a ter saudades dela, procurando saber enfim: afinal de contas, por que a morte entrou em greve?
Esses e outros temas estão presentes na obra de Saramago. Ele, afinal, afirmou em entrevista num documentário que assisti a poucos anos, que não tinha medo da morte, apenas lamentava ter que ser levado por ela um dia. Saramago citou a experiência de sua avó (o que me chegou a ver lágrimas caindo de meus olhos) que dizia a ele, na sua juventude, que lamentava não o fato de ter de morrer um dia, mas sim o fato de que ao morrer, ela não teria mais a oportunidade de acordar no dia seguinte e ver no mundo tantas coisas bonitas. Pois é, para Saramago, apesar dos pesares, a vida valia ser vivida porque não era feita só de coisas ruins, como se houvesse apenas um contra o outro, um homem lobo de si mesmo, mas sim porque o homem, assim como poderia criar destruição, também poderia contemplar e criar coisas belas. Em seu estoicismo ou neoplatonismo, Saramago afinal acreditava na vida sob uma doutrina da beleza, que servia para explicar o sentido, a estética da vida. Assim como pensavam os gregos, o sentido da vida encontrava-se no belo, pois o belo era o bom. E assim a manifestação mais bela da beleza da vida seria envelhecer, ao menos, envelhecer bem. Deve ser por essa beleza que Saramago carregava em cada ruga, com seus 87 anos de experiência, que ele conquistou Pilar Del Rio, jornalista espanhola, amada e devotada esposa do escritor português, cerca de 30 anos mais nova, que o acompanhou numa apaixonada relação, em seus últimos anos de vida. Ou será que os velhos também não podem amar?
Ao morrer, Saramago faleceu não como um ateu empedernido, daqueles que não querem nem ouvir falar em Deus ou que pensam em queimar igrejas, mas sim como um crente devotado à vida, ou a menos em alguém que tinha fé na beleza de mundo, que se ele não reconhecia como criado à imagem e semelhança de um Criador, ao menos não questionava a grandiosidade e a transcendência de uma natureza que em seus últimos anos de vida, ele aprendeu a contemplar da janela de sua casa, nas Ilhas Canárias, saudando quase que religiosamente o nascer de um sol que um dia, seus envelhecidos olhos não iriam mais ver, no fechar definitivo de suas pálpebras pelo sono eterno. Se, de fato, ao contrário do que pensava, a vida não se encerra com o fim, e o paraíso (ou outro mundo transcendente), sagrado e possível pode existir, creio que agora Saramago deve ter descoberto isso. Ao menos, no caso de Saramago, essa é uma última experiência que somente ele pode compartilhar agora e não mais com seus leitores. Como ele mesmo disse, agora ele não pode mais contemplar as coisas belas que tanto viu por tantos anos. É uma pena!Mas, quem sabe, não exista agora outra beleza a contemplar? A resposta está com aqueles que partem e não com os que ficam, pois a nós, resta apenas a beleza do ponto de partida, até chegar num belo no ponto de chegada. Enquanto isso, somente digo ao final: uma boa viagem, José Saramago!
Conheci Saramago não propriamente por sua fama, conquistada apenas após os 60 anos de idade, mas de um livro que dei de presente a uma ex-companheira, há alguns poucos anos atrás, que, por sinal, não o leu. Pois é! Com o livro, que acabou ficando comigo após a separação, tive a minha disposição a leitura de Saramago pela frente, em um de seus livros mais célebres e mais polêmicos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
Pra quem não conhece o livro acima ou nunca ouviu falar de Saramago (Claro! Não cobro atestado intelectual das boas e vivas almas que lêem este blog), pelo título da obra parece até que Saramago escreveu um livro de teologia ou catequese. Nada mais errado, e também nada mais certo. Na verdade, dos três livros que li de Saramago, além daquele que citei acima (vale lembrar Ensaio sobre a Cegueira e as Intermitências da Morte), ao menos nessas obras que conheci encontra-se presente sempre o transcendente, o sagrado, o sobrenatural, o espiritual; não como algo distinto, onipresente ou onisciente sobre os homens, mas como algo que faz parte deles.
Saramago sabia escrever sobre Deus mesmo sem acreditar Nele. Ao menos é o que ele dizia ser: um ateu convicto, além de comunista na juventude. Foi pelo materialismo histórico marxista que Saramago conheceu o mundo e a injustiça, como jornalista e libertário, e foi a partir de seu materialismo que ele passou a exercer sua crença no homem, sua fé secular em valores absolutos como a justiça, a solidariedade, a tolerância e a liberdade, como atributos propriamente humanos. Saramago soube ser fiel e coerente às crenças políticas e filosóficas em que acreditava, não temendo, inclusive, romper com líderes e movimentos que apoiara no passado, denunciando os excessos do totalitarismo de esquerda, ao renegar seu apoio aos irmãos Castro em Cuba, a denunciar ditaduras de extrema-direita no continente latino-americano, ou a desafiar, com seu talento e verve, o imperialismo norte-americano e o sistema capitalista, participando de eventos significativos como o Fórum Social Mundial.
Mas Saramago também era um profundo crítico de uma das instituições mais tradicionais e antigas da humanidade, muito presente na sociedade portuguesa e na cultura ibero-americana: a Igreja Católica. Foi justamente criticando o monolitismo, a influência e os cânones católicos que Saramago desenvolveu sua literatura, apontando para uma nova forma de espiritualidade que poderia ser contemplada sem a necessidade especial de uma divindade punitiva e todo-poderosa. É por isso que digo que Saramago, de seu jeito, era um escritor crente, pois ao questionar a religiosidade cristã que aparecia a ele por meio da pujança católica, ao mesmo tempo, desta forma, pôde este escritor português desenvolver seus próprios “messias internos”, através dos personagens e das obras que escreveu.
Vejamos, por exemplo, em Ensaio sobre a Cegueira. Neste livro, adaptado para o cinema pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e tendo como principal protagonista a bela e talentosíssima atriz norte-americana Juliane Moore, Saramago se vale de um estilo e de um expediente típicos de sua escrita (além da célebre prolixidade, a que irei me referir nos próximos parágrafos), retratando personagens que não tem um nome e são o filho, a amante, o vendedor, a diarista, a prostituta, o executivo, por exemplo). No livro, acompanhamos a peregrinação da mulher do médico, que parece ser a única mulher que enxerga, em uma cidade acometida de uma bizarra e medonha epidemia de cegueira, que tolhe a visão de todos, menos da protagonista, que passa a ser uma espécie de guia de uma multidão de cegos, aprisionados não apenas pela cegueira dos olhos, mas pela cegueira de seus próprios corações e mentes. Através do mito da cegueira, Saramago nada mais faz do que recriar a passagem bíblica, vista nos Evangelhos em Mateus (20.29-34), Lucas (18:35-43) e Marcos (10:46-52), de quando Cristo cura um cego em Jericó. Assim como no personagem da Bíblia, o cego Bartimeu, que recupera a visão, pois, segundo Jesus, “sua fé o salvou”, a personagem da mulher do médico cego, no livro de Saramago, também busca a salvação por meio da fé, não porque acredita que, num passe de mágica, os enfermos recuperarão a visão, mas pela fé de que tem de prosseguir em sua missão de cuidá-los, já que é a única quem vê, e por isso, não pode perder a fé em salvá-los, mesmo que eles não consigam enxergar. Saramago une, neste belo livro e obra singular, o melhor da espiritualidade cristã, juntamente com a filosofia platônica vista no “mito da caverna”, narrado na República de Platão (acerca da libertação da cegueira da ignorância). Percebe-se o quanto os escritos de Saramago provocam uma tremenda e desconcertante reflexão intelectual, nem tanto pela beleza do texto, que, como disse, é bem complexo e arrastado, mas sim pela evocação da genialidade do tema, que faz toda a diferença, ao ler este autor português. Para mim, nesse sentido, Saramago foi o nosso “James Joyce na língua portuguesa”.
Saramago não explora propriamente em seus textos os dramas pessoais de seus personagens, apesar de eles estarem lá, pela fórmula secreta de um intimismo que ele conseguia imprimir em seus leitores, de forma quase mística. Seu detalhismo, na busca rebuscada da exposição de detalhes de certas cenas e ocasiões, mais do que os próprios personagens, numa linguagem por vezes, para muitos, cansativa, conseguia na verdade convidar o leitor a fazer uma verdadeira reflexão filosófico-espiritual em cada página. Algo que malfadados (mas famosíssimos) escritores por aí, que inauguraram uma celebridade e uma aura de sucesso misturando misticismo com autoajuda, ganhando reconhecimento internacional, nem sequer chegam perto (vocês devem saber de quem estou falando, não é?). Agora, é bem verdade, a leitura de Saramago nunca foi simples e própria para principiantes. E, também confesso, ler Saramago num primeiro momento me pareceu muito chato. Pois é! Não foi experiência fácil. Mas, também, não deixou de ser deliciosa a reflexão que pude ler a cada texto que lia deste singular escritor lusitano.
Por falar em escritor, creio que, para mim, Saramago era muito mais um filósofo que gostava de escrever, do que propriamente um romancista. Ele era uma espécie de metafísico que se valia do roteiro da exposição novelística para expressar suas reflexões existenciais. Foi assim em As Intermitências da Morte, um de seus últimos livros (e o último que li); onde, curiosamente, Saramago tratava de algo que para ele, em sua velhice prolongada e pelo corpo de ancião que começava a padecer com o peso dos anos, anunciava-se por acontecer, e que ele necessitava expurgar através de um realismo fantástico de proporções líricas: a iminência da morte e a pergunta que não quer calar acerca do mistério que seria, se ninguém conseguisse mais morrer. É disso que trata esse livro, quando, num povoado (lusitano) imaginário, ocorre que num belo e certo dia as pessoas deixam de morrer, deixando a cidade em polvorosa. Mas o que poderia parecer um milagre e motivo para festejo pela benção conferida da imortalidade, passa a se revelar como maldição, no momento em que os moribundos, estes sim, os principais destinatários da morte, simplesmente não podem alcançar o descanso definitivo, pois não podem morrer. A eles, compete o estado eternamente desagradável da agonia e do sofrimento que não tem mais a morte para lhe encerrar. Não demora para que a morte novamente se torne importante para a população do vilarejo onde ela não mais aparece, passando alguns até a ter saudades dela, procurando saber enfim: afinal de contas, por que a morte entrou em greve?
Esses e outros temas estão presentes na obra de Saramago. Ele, afinal, afirmou em entrevista num documentário que assisti a poucos anos, que não tinha medo da morte, apenas lamentava ter que ser levado por ela um dia. Saramago citou a experiência de sua avó (o que me chegou a ver lágrimas caindo de meus olhos) que dizia a ele, na sua juventude, que lamentava não o fato de ter de morrer um dia, mas sim o fato de que ao morrer, ela não teria mais a oportunidade de acordar no dia seguinte e ver no mundo tantas coisas bonitas. Pois é, para Saramago, apesar dos pesares, a vida valia ser vivida porque não era feita só de coisas ruins, como se houvesse apenas um contra o outro, um homem lobo de si mesmo, mas sim porque o homem, assim como poderia criar destruição, também poderia contemplar e criar coisas belas. Em seu estoicismo ou neoplatonismo, Saramago afinal acreditava na vida sob uma doutrina da beleza, que servia para explicar o sentido, a estética da vida. Assim como pensavam os gregos, o sentido da vida encontrava-se no belo, pois o belo era o bom. E assim a manifestação mais bela da beleza da vida seria envelhecer, ao menos, envelhecer bem. Deve ser por essa beleza que Saramago carregava em cada ruga, com seus 87 anos de experiência, que ele conquistou Pilar Del Rio, jornalista espanhola, amada e devotada esposa do escritor português, cerca de 30 anos mais nova, que o acompanhou numa apaixonada relação, em seus últimos anos de vida. Ou será que os velhos também não podem amar?
Ao morrer, Saramago faleceu não como um ateu empedernido, daqueles que não querem nem ouvir falar em Deus ou que pensam em queimar igrejas, mas sim como um crente devotado à vida, ou a menos em alguém que tinha fé na beleza de mundo, que se ele não reconhecia como criado à imagem e semelhança de um Criador, ao menos não questionava a grandiosidade e a transcendência de uma natureza que em seus últimos anos de vida, ele aprendeu a contemplar da janela de sua casa, nas Ilhas Canárias, saudando quase que religiosamente o nascer de um sol que um dia, seus envelhecidos olhos não iriam mais ver, no fechar definitivo de suas pálpebras pelo sono eterno. Se, de fato, ao contrário do que pensava, a vida não se encerra com o fim, e o paraíso (ou outro mundo transcendente), sagrado e possível pode existir, creio que agora Saramago deve ter descoberto isso. Ao menos, no caso de Saramago, essa é uma última experiência que somente ele pode compartilhar agora e não mais com seus leitores. Como ele mesmo disse, agora ele não pode mais contemplar as coisas belas que tanto viu por tantos anos. É uma pena!Mas, quem sabe, não exista agora outra beleza a contemplar? A resposta está com aqueles que partem e não com os que ficam, pois a nós, resta apenas a beleza do ponto de partida, até chegar num belo no ponto de chegada. Enquanto isso, somente digo ao final: uma boa viagem, José Saramago!
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