De Otavio Brum:
Não são meus parcos conhecimentos matemáticos que poderão levá-los ao prêmio de R$ 31 milhões da Mega Sena, ou a outras premiações milionárias futuras. Nada disso. Minha habilidade com os números se resumem nas 4 operações básicas, pelo amor à música e ao jogo de xadrez.
Tampouco irei oferecer algum esquema mirabolante, pois foi com Bukowski que aprendi o quanto isto não funciona. Inclusive, isso me levou ao meu primeiro divórcio – mesmo que não tenha levado adiante a minha ideia de virar um apostador costumaz em cavalos.
Desculpem o interlóquio. Mas sou virginiano, preso aos detalhes, e preciso me apresentar minimamente para tentar convencê-los da seriedade de minhas ponderações. Nunca fui um grande vitorioso em nada na vida. Portanto, também não é nenhuma história autobiográfica que lhes sirvam de exemplo que lhes ofereço.
O que vou lhes apresentar é algo da Toscana. Mais precisamente da Toscana de Sílvio de Abreu, por mais tosco que lhes pareçam. Mergulhando no universo da fantasia e aprendendo a ler nas entrelinhas da Arte, absorvendo o fulgor criativo das mentes brilhantes que produzem o que há de melhor na teledramaturgia brasileira, verão o quanto poderão aprender sobre o domínio da estatística. E é isto o que nos interessa: a passione pelos números!
E é esta a minha grande pretensão: conduzi-los e ajudá-los a desbravar este mundo da criação. Pois não é o domínio da estética mas o da estatística que eleva Sílvio de Abreu a condição de gênio. Verificaremos que não são só histórias magistrais que podemos esperar do autor. Não só queremos como esperamos muito mais: as 6 dezenas da Mega Sena, por exemplo.
Vamos aos fatos. O primeiro acerto é o de não precisar onde fica o sítio de Totó. Aqui já temos a primeira lição de freio à impulsividade imaginativa. Totó não é o cachorro, mas o personagem de Toni Ramos, como poderiam pensar àqueles acostumados ao era uma vez... Bom, o sítio fica em Toscana e cada um pode imaginar por si só qual o lugar mais adequado para situá-lo na região. Isto é uma delícia e faz com que cada um tenha seu sítio próprio, único, idiossincrático diria, como se estivéssemos lendo um livro ao invés de estar assistindo a novela das oito.
Sobre isso que disse agora, não estou muito certo. Alguém que assista diariamente a novela pode me alertar de que o sítio fica no lugar tal e tudo se ir por água abaixo. Mas isto também pode acontecer ao marcarmos o bilhete, tomem cuidado! Porém, ainda assim nada está completamente perdido. Afinal se errarmos em um ponto, ainda nos resta sonhar com a quina...
Pelo que entendi, Totó é filho de Bete Gouveia. Foi criado longe da mãe porque era um bastardo. A mãe não sabia que o filho estava vivo e que morava na Itália. Bete mora em São Paulo, aqui no Brasil. Ah, sim! Não podemos esquecer dos números. Afinal, nosso real interesse é o de ganhar na loteria. Portanto fiquem atentos: na região da Toscana vivem 3 milhões 619 mil e 872 habitantes, já na Itália há 60 milhões 303 mil e 800 pessoas. Mas acho que isso não importa muito. Nosso interesse é por apenas 4 italianos neste universo todo: Totó, Agnello, Agostina e Berilo.
Agnello e Agostina Mattoli são filhos de Totó. Berilo Rondelli casou-se com Agostina na Itália. Porém migrou para o Brasil. Para São Paulo, cidade de 11 milhões 37 mil e 593 habitantes. Maior cidade do hemisfério sul, sexta maior do mundo. Para não perder o embalo dos números, em nosso País vivem 191 milhões 480 mil e 630 indivíduos.
Toni Negri, também italiano, nos interessa muito. Mas não se trata de um quinto italiano em nossa lista. Deixamos de fora. É só por que lembrei de que era ele que falava o quanto fica impressionado com a criatividade das pessoas que lutam pela sobrevivência em países ainda em desenvolvimento. Mas nossa criatividade para descolar algum não nos interessa. Porque só nos resolve o aqui e agora e permanecemos sempre duros! Estamos mesmo de olho é no quinhão milionário das loterias acumuladas. Isto sim resolve definitivamente o problema de qualquer um!
Berilo, ao contrário de Negri, é um italianinho safado. Quando chegou à Terra da Garoa tratou de juntar seus trapinhos com Jéssica da Silva Rondelli. Jéssica é filha de Olavo da Silva. Olavo também é o pai de Totó, portanto avô de Agostina. Fiquem atentos pois são nestas entrelinhas todas que estão os segredos que devem ser desvendados para se tornar o maior vencedor de loterias que se possa ter notícia! Vencer quantas vezes quiser, ou melhor, apostar. É algo para deixar o falecido João Alves com suas duzentas e vinte e uma premiações no chinelo!...
Agnello quando chegou ao Brasil teve um affaire com Stela Gouveia. Estela é esposa de Saulo Gouveia. Saulo é irmão de Totó e tio de Agnello. Foi um romance rápido. Agnello tratou de sair por aí, pelas ruas de Sampa e procurar carne nova. Quem encontra? Lorena Gouveia! Lorena, filha de Stela e Saulo. Não é fantástico? Agora sim estamos quase no final. Algo sem muita relevância neste mundo de probabilidades, mas é mais um dado que temos que acrescentar. Afinal, não podemos deixar nenhum detalhe de lado se quisermos apreender bem as técnicas que irão nos transformar em grandes ganhadores! Olavo está de casa nova. Comprou um bela mansão. Se ganharmos o prêmio, poderemos fazer o mesmo. Agora Bete Gouveia tem vizinho novo: o pai de Totó mora na casa ao lado.
Agora me digam: alguém que escreve com tamanha propriedade este mundo de encontros possíveis, alguém que domina de tal forma o magnetismo dos afetos e os aproxima de forma tão nobre como o horário da novela das oito, enfim, alguém que desconhece o improvável e daí faz sua arte, alguém que manipula sonhos de maneira tão sutil, alguém que nos faz crer que tudo realmente é possível, não é mole para este alguém nos dizer quais as seis dezenas que serão sorteadas?
Sim, se querem ganhar o grande prêmio da loteria, escrevam para o Sílvio de Abreu e digam: ó grande Mago das Probabilidades em quais números devo apostar? Ou vocês acham que quem domina a probabilidade desta forma não vai saber quais os 6 números de um universo de 60 que serão sorteados?!? Mãos no telefone, dedos no teclado. Arranquem esta informação do autor e não esqueçam de meu quinhão – já que fui eu quem lhes deu a dica!
Não os deixem convencer de que o universo dos encontros possíveis dos personagens da Globo se dão por relações incestuosas onde todos – ricos e pobres – vivem uma relação por demais estreita só por causa do fato da Cidade Cinematográfica ser muito pequena. Não engulam esta desculpa! Sabemos o quanto o Projac é grande e a empresa rica e poderosa! Não é pelo tamanho da Cidade Cinematográfica que faz com que todos os personagens se encontrem e convivam novela após novela, seja na povoada Índia ou metrópoles como São Paulo, mas por que os autores são verdadeiros Magos da Probabilidade!
E não é só o Sílvio não. Todos eles sabem quais os números serão sorteados! Podem notar que isto se repete em todas as novelas, em todos os horários, em todos os autores! Escrevam e tirem deles esta informação! Se não disserem, twittem por aí: só não ganhei na loto porque a Globo não quis.
Ah, sim! Também não os deixem convencer de que tudo é licença poética. Por mais platônicos que sejam, por mais que expulsem a poesia e os poetas de suas repúblicas. Não é verdade! Sempre se utilizam desta desculpa para suas cagadas! Vão tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas que se utilizaram de licença poética... Isto é balela e a desculpa não cola mais! Digam: licença poética o caralho! Pode ir desembuchando os números logo, ó Mago da Probabilidade!
Mas cuidado, muito cuidado! Eles são seres muito imaginativos, apesar de não parecer tanto. Mas se assistirem ao Vídeo Show saberão o quanto são grandes, todos eles! Previnam-se! Poderão tentar inventar uma nova versão do “licença poética” quando perceberem que a casa caiu e que agora todos sabem que são Magos da Probabilidade!
Podem, por exemplo, tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas apenas autores. Meros operários das letras. Mas que no mundo da Literatura os personagens têm vida própria. Que os personagens da Globo, como qualquer ser, estão sob a Lei Divina. Que os personagens sofrem de um Karma coletivo muito grave e que são ignorantes, tendo que reencarnar já na próxima novela que segue para tentarem consertar seus erros. Mas são mesmo muito estúpidos e repetem os mesmos erros e assim nunca equilibram suas balanças e tornam a pecar nas mesmas coisas e, mais uma vez, reencarnam na outra novela e não há final feliz que amenize seus karmas. Que eles, os autores, há muito deixaram de representar a realidade social brasileira. Agora retratam a miséria espiritual de toda a humanidade... Eles falam isso só porque são magos e como todo mago que se preze têm seus conhecimentos cósmicos, oras! Não os deixem seduzi-los pelas palavras amenas, e insistam: tá, agora me inicie nos segredos da estatística, ó grande Mago da Probabilidade!
Um blog em forma de almanaque, com comentários sobre cultura, política, economia, esporte, direito, história, religião, quadrinhos, a vida do próximo, o que você desejar, ou que os seus olhos se permitam a ler e comentar, contribuindo para as reflexões desse humilde missivista, neófito nos mares internaúticos, em meio a esta paranoia moderna.
domingo, 22 de agosto de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
CINEMA: Em "À Prova de Morte", Tarantino é freudianamente pela vingança feminina.
Carros são objetos fálicos. No frenesi do automóvel já sabemos, nos melhores compêndios de psicologia, que veículos são transformados em extensão do falo masculino, como um exercício tosco de virilidade. Quantas e mais quantas propagandas e comerciais de televisão passam todos os dias, em que nós vemos que um carro novo, bonito e possante é visto como símbolo de prazer, exercício de autoestima e satisfação sexual? Lembro-me dos versos da música da banda Mundo Livre S/A, na voz de Fred Zero Quatro, quando ele canta: "todo mundo deveria ter um carro. Senão nem precisava ter testículo. De que serve um testículo, sem carro? Sem o carro, o testículo é um saco!".
Sobre testículos e carros é que me refiro ao filme "À prova de Morte" (Death Proof, no original), de 2007, tardiamente lançado nos cinemas brasileiros, do cineasta renomado e arrebatador Quentin Tarantino. O filme, tendo o ator Kurt Russel como protagonista e vilão, é a mais sublime homenagem aos filmes cult de perseguição de carros dos anos 70, e tem mostrado o inabalável talento de Tarantino nas releituras cinematográficas e na linguagem pop que o consagrou.
Tarantino de fato é o John Ford da pop art cinematográfica. O rei das colagens e metáforas subliminares revelando seus dez anos como balconista de videolocadora. O cara é um esteta, sem dúvida nenhuma. Mas é em prol de sua estética no ritmo de história em quadrinhos que conhecemos a cada flme personagens interessantes, e estórias tão inverossímeis quanto fascinantes. Tudo nos filmes desse diretor norte-americano é feito para chocar, para estimular nossos sentimentos mais juvenis e pueris num êxtase de video game, de ver vilões caricatos, sangue exageradamente espirrado, malabarismos excêntricos de tiros, lutas e danças; mas o que mais me chama a atenção na obra de Tarantino é o maior expediente que traduz o talento deste cineasta: os diálogos.
É nos diálogos que Tarantino demostra sua fama de ótimo roteirista e cinéfilo, além do existencialismo encontrado na sua forma de fazer cinema, que elevam seus filmes à obra de arte. Quem é que não viu certo lirismo e homenagem tanto a filmes japoneses de ação como aos de faroeste americano, ao ver Kill Bill, volume 1 e 2? Assim como Woody Allen, Tarantino tem as suas musas, quase sempre beldades loiras ou negras, como Uma Thurman na citada saga de violência e espadas de samurai, ou com Pam Grier no elogiadíssimo e cult Jackie Brown. A Shoshana judia, vingativa e sedenta de sangue nazista de Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios, ou a mesma sexy e totalmente underground Thuram em Pulp Fiction, demonstram isso. Agora temos Rosario Dawson, outra sereia de ébano, no sensual e carniceiro Á Prova de Morte, É Tarantino puro. É cinema de qualidade.
Death Proof é um projeto original montado por Quentin Tarantino, justamente com o diretor Robert Rodriguez, no projeto que não deu certo chamado Grindhouse. Este, tratava-se de uma homenagem aqueles velhas sessões duplas de fim de noite, dos cinemas de bairro, nos anos setenta, em que a plateia comprava um ingresso para ver dois filmes, um seguido do outro. Era uma verdadeira maratona só pra quem é aficcionado por filmes, não namora, e ficava lá sentado por horas a fio, sem um mísero trocado nos bolsos, além daquele usado pra pagar o ingresso, só pra ver os filmes de ação de que gostava. É claro que as novas gerações, embaladas na internet, jamais ouviram falar disso; mas é justamente dessas velhas referências históricas ao nascedouro da cultura pop que se debruça Tarantino, e com essas referências, juntamente com Rodriguez, ambos lançaram simultaneamente nos cinemas yankess: Death Proof e Planeta Terror (esse já lançado no Brasil e muito subestimado). Por conta exatamente da baixa aceitação de público acerca do velho formato apresentado pelos diretores, ao serem lançados no mercado internacional os dois filmes foram distribuídos separadamente, demorando À Prova de Morte, quase três anos pra chegar no circuito comercial brasileiro. Até que enfim!!
O filme, apesar de supostamente se passar nos dias de hoje, é todo montado na estética dos anos setenta (do figurino aos carros) e trata da estoria de Dublê Mike (interpretado por Kurt Russel), um ex-dublê de filmes de ação que se tornou um andarilho psicopata que passa os dias com seu carro, um Chevy Nova todo preto, estilizado com uma caveira no capô; circulando pelos bares das highways norte-americanas, procurando suas vítimas.Estas, são sempre mulheres jovens, bonitas e farristas, que em grupos de amigas saem pra festejar, beber, ouvir música, namorar e fumar maconha, enquanto seu algoz fica à espreita, aguardando a oportunidade de seduzi-las para um passeio de carro. É nessa hora que Stuntman Mike exerce sua fome assassina de terror e velocidade. Mike possuí um carro de testes,reforçado na lataria, totalmente à prova de acidentes, literalmente à prova de morte, e nele o assassino leva suas vítimas, satisfazendo-se em vê-las morrer estraçalhadas com o impacto da colisão. É nessa combinação de carne, ossos, sangue, óleo e metal, que Dublê Mike tem sua satisfação. É nela que o serial killer tem, verdadeiramente, o seu orgasmo.
É aqui que reside toda a reflexão freudiana no comportamento do personagem de Tarantino, e que revela também as próprias taras desse diretor de cinema; como, por exemplo, a obsessão pelos pés femininos (a cena da perna de uma das garotas sendo decepada, no momento da colisão dos automóveis é incrível). Tarantino faz uma elegia à sensualidade e o erotismo da mulher, com a cena da dança da personagem Butterfly (mais uma alusão à danças eróticas, como a de Uma Thurman em Pulp Fiction ou Salma Hayek, em Um drink no inferno (de Rodriguez, mas com colaboração de Tarantino). As mocinhas do filme são autênticas pin-ups da autoestrada, "anjos lindos" como diz o personagem do filme, que podem conhecer a morte por debaixo das rodas de Dublê Mike, ou se tornarem os anjos vingadores. "Há poucas coisas tão lindas quanto um anjo ferido em seu orgulho!", diz Stuntman Mike. É! Dublê Mike! Com mulher não se brinca!!
É aí que reside a outra face das heróinas de Tarantino. Apesar de estar por cima o tempo todo e castigar suas vítimas, valendo-se do carro como um falo para estuprar e massacrar suas vítimas, Dublê Mike não contava com a mesma fúria pela velocidade de outro grupo de garotas perseguidas pelo assassino, também como ele fanáticas por automóveis e com pé pesado no acelerador. Nessa hora, o filme até então voltado aos diálogos vira um autêntico cult movie de perseguição automobilística, bem ao gosto do cineasta, fã de clássicos dos anos setenta como Bullit, Perseguidor Implacável ou Encurralado de Steven Spielberg. Se Freud estava certo em 1922, quando disse que algumas mulheres tinham inveja do pênis, ao tratar do chamado "complexo de castração"; no filme, as mulheres de Tarantino tornam-se autênticas "pintudas" do volante, quando em sua sede de vingança invertem o jogo de gato e rato, quando transformam o caçador em caça. Em alguns sites de cinema, alguns críticos dizem que, na verdade, Death Proof trata da solidão feminina. Bom, vai entender a cabeça de mulher! Talvez tenha sentido, e todas aquelas mulheres perseguidas e dilaceradas, sob as rodas de Dublê Mike, sejam apenas mulheres jovens, bonitas e solitárias, que largadas pelo namorado, perambulam perdidas pela noite, como românticas almas sofridas, a bordo de seus carros e de sua tristeza, impediosamente esmagadas pelos pedais do acelerador de seu algoz. Sempre há filosofia nos filmes de Tarantino, por debaixo dos diálogos escrotos, sangue e pancadaria. Sempre dá o que se pensar ao ver esses filmes. Mas, de qualquer forma, cuidado ao sair pela estrada à noite, garotas! Principalmente se derem de cara com algum "barza azul ao volante". Aceleeeraaa, Airton!!!!
Sobre testículos e carros é que me refiro ao filme "À prova de Morte" (Death Proof, no original), de 2007, tardiamente lançado nos cinemas brasileiros, do cineasta renomado e arrebatador Quentin Tarantino. O filme, tendo o ator Kurt Russel como protagonista e vilão, é a mais sublime homenagem aos filmes cult de perseguição de carros dos anos 70, e tem mostrado o inabalável talento de Tarantino nas releituras cinematográficas e na linguagem pop que o consagrou.
Tarantino de fato é o John Ford da pop art cinematográfica. O rei das colagens e metáforas subliminares revelando seus dez anos como balconista de videolocadora. O cara é um esteta, sem dúvida nenhuma. Mas é em prol de sua estética no ritmo de história em quadrinhos que conhecemos a cada flme personagens interessantes, e estórias tão inverossímeis quanto fascinantes. Tudo nos filmes desse diretor norte-americano é feito para chocar, para estimular nossos sentimentos mais juvenis e pueris num êxtase de video game, de ver vilões caricatos, sangue exageradamente espirrado, malabarismos excêntricos de tiros, lutas e danças; mas o que mais me chama a atenção na obra de Tarantino é o maior expediente que traduz o talento deste cineasta: os diálogos.
É nos diálogos que Tarantino demostra sua fama de ótimo roteirista e cinéfilo, além do existencialismo encontrado na sua forma de fazer cinema, que elevam seus filmes à obra de arte. Quem é que não viu certo lirismo e homenagem tanto a filmes japoneses de ação como aos de faroeste americano, ao ver Kill Bill, volume 1 e 2? Assim como Woody Allen, Tarantino tem as suas musas, quase sempre beldades loiras ou negras, como Uma Thurman na citada saga de violência e espadas de samurai, ou com Pam Grier no elogiadíssimo e cult Jackie Brown. A Shoshana judia, vingativa e sedenta de sangue nazista de Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios, ou a mesma sexy e totalmente underground Thuram em Pulp Fiction, demonstram isso. Agora temos Rosario Dawson, outra sereia de ébano, no sensual e carniceiro Á Prova de Morte, É Tarantino puro. É cinema de qualidade.
Death Proof é um projeto original montado por Quentin Tarantino, justamente com o diretor Robert Rodriguez, no projeto que não deu certo chamado Grindhouse. Este, tratava-se de uma homenagem aqueles velhas sessões duplas de fim de noite, dos cinemas de bairro, nos anos setenta, em que a plateia comprava um ingresso para ver dois filmes, um seguido do outro. Era uma verdadeira maratona só pra quem é aficcionado por filmes, não namora, e ficava lá sentado por horas a fio, sem um mísero trocado nos bolsos, além daquele usado pra pagar o ingresso, só pra ver os filmes de ação de que gostava. É claro que as novas gerações, embaladas na internet, jamais ouviram falar disso; mas é justamente dessas velhas referências históricas ao nascedouro da cultura pop que se debruça Tarantino, e com essas referências, juntamente com Rodriguez, ambos lançaram simultaneamente nos cinemas yankess: Death Proof e Planeta Terror (esse já lançado no Brasil e muito subestimado). Por conta exatamente da baixa aceitação de público acerca do velho formato apresentado pelos diretores, ao serem lançados no mercado internacional os dois filmes foram distribuídos separadamente, demorando À Prova de Morte, quase três anos pra chegar no circuito comercial brasileiro. Até que enfim!!
O filme, apesar de supostamente se passar nos dias de hoje, é todo montado na estética dos anos setenta (do figurino aos carros) e trata da estoria de Dublê Mike (interpretado por Kurt Russel), um ex-dublê de filmes de ação que se tornou um andarilho psicopata que passa os dias com seu carro, um Chevy Nova todo preto, estilizado com uma caveira no capô; circulando pelos bares das highways norte-americanas, procurando suas vítimas.Estas, são sempre mulheres jovens, bonitas e farristas, que em grupos de amigas saem pra festejar, beber, ouvir música, namorar e fumar maconha, enquanto seu algoz fica à espreita, aguardando a oportunidade de seduzi-las para um passeio de carro. É nessa hora que Stuntman Mike exerce sua fome assassina de terror e velocidade. Mike possuí um carro de testes,reforçado na lataria, totalmente à prova de acidentes, literalmente à prova de morte, e nele o assassino leva suas vítimas, satisfazendo-se em vê-las morrer estraçalhadas com o impacto da colisão. É nessa combinação de carne, ossos, sangue, óleo e metal, que Dublê Mike tem sua satisfação. É nela que o serial killer tem, verdadeiramente, o seu orgasmo.
É aqui que reside toda a reflexão freudiana no comportamento do personagem de Tarantino, e que revela também as próprias taras desse diretor de cinema; como, por exemplo, a obsessão pelos pés femininos (a cena da perna de uma das garotas sendo decepada, no momento da colisão dos automóveis é incrível). Tarantino faz uma elegia à sensualidade e o erotismo da mulher, com a cena da dança da personagem Butterfly (mais uma alusão à danças eróticas, como a de Uma Thurman em Pulp Fiction ou Salma Hayek, em Um drink no inferno (de Rodriguez, mas com colaboração de Tarantino). As mocinhas do filme são autênticas pin-ups da autoestrada, "anjos lindos" como diz o personagem do filme, que podem conhecer a morte por debaixo das rodas de Dublê Mike, ou se tornarem os anjos vingadores. "Há poucas coisas tão lindas quanto um anjo ferido em seu orgulho!", diz Stuntman Mike. É! Dublê Mike! Com mulher não se brinca!!
É aí que reside a outra face das heróinas de Tarantino. Apesar de estar por cima o tempo todo e castigar suas vítimas, valendo-se do carro como um falo para estuprar e massacrar suas vítimas, Dublê Mike não contava com a mesma fúria pela velocidade de outro grupo de garotas perseguidas pelo assassino, também como ele fanáticas por automóveis e com pé pesado no acelerador. Nessa hora, o filme até então voltado aos diálogos vira um autêntico cult movie de perseguição automobilística, bem ao gosto do cineasta, fã de clássicos dos anos setenta como Bullit, Perseguidor Implacável ou Encurralado de Steven Spielberg. Se Freud estava certo em 1922, quando disse que algumas mulheres tinham inveja do pênis, ao tratar do chamado "complexo de castração"; no filme, as mulheres de Tarantino tornam-se autênticas "pintudas" do volante, quando em sua sede de vingança invertem o jogo de gato e rato, quando transformam o caçador em caça. Em alguns sites de cinema, alguns críticos dizem que, na verdade, Death Proof trata da solidão feminina. Bom, vai entender a cabeça de mulher! Talvez tenha sentido, e todas aquelas mulheres perseguidas e dilaceradas, sob as rodas de Dublê Mike, sejam apenas mulheres jovens, bonitas e solitárias, que largadas pelo namorado, perambulam perdidas pela noite, como românticas almas sofridas, a bordo de seus carros e de sua tristeza, impediosamente esmagadas pelos pedais do acelerador de seu algoz. Sempre há filosofia nos filmes de Tarantino, por debaixo dos diálogos escrotos, sangue e pancadaria. Sempre dá o que se pensar ao ver esses filmes. Mas, de qualquer forma, cuidado ao sair pela estrada à noite, garotas! Principalmente se derem de cara com algum "barza azul ao volante". Aceleeeraaa, Airton!!!!
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
EDUCAÇÃO: Um tapinha não dói. Sobre a Lei da Palmada.
Dentre alguns dias será votada a Lei da Palmada. A mensagem enviada pelo governo, baseada na iniciativa de projeto inicial da deputada Maria do Rosário (PT/RS), visa extinguir em definitivo uma instituição milenar: o castigo físico imposto pelos pais a seus filhos menores por conta de malcriação. Será que a lei pega??
O projeto visa alterar a Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e dentre outras medidas, prevê a proibição de castigos físicos tais como: palmadas, beliscões ou qualquer outro meio ou castigo físico que implique em dor na criança ou adolescente. As sanções vão desde acompanhamento psicológico ou psiquiátrico obrigatório até destituição da guarda ou do poder parental, impondo-se ao pai ou mãe severos o artigo 129 do Estatuto, que prevê quais são as medidas legais adotadas contra pais ou responsável. Fico me perguntando qual será a postura daqueles pais estressados que vão ao supermercado com as crianças após um dia estafante de trabalho, no momento em que os meninos começarem a pedir as coisas, o pai ou a mãe nega, e a criança começa a fazer um pleno escarcéu dentro do estabelecimento, sem que ninguém possa lhe dar um pito, ou mesmo um beliscão ou uma chinelada. É, tá faltando palmada, mas pode sobrar permissividade.
No seu livro clássico, A Cidade Antiga, publicado no século XIX, Fustel de Coulanges trata de diversas instituições sociais dos povos antigos, em especial a família. Na família romana, por exemplo, o pater familias, senhor de sua casa, autoridade patriarcal e chefe do lar, tinha poder absoluto sobre seus filhos. Ele poderia, inclusive, matar um filho se o desejasse, em caso de desonra ou desobediência. Dependendo do caso, os filhos poderiam até ser vendidos como escravos, para fins de cumprimento de uma dívida. É claro que o expediente desumano de se humilhar ou torturar filhos foi desaparecendo na era moderna, principalmente quando, após a Revolução Industrial e o advento do século XX, passaram a ser reconhecidos os direitos da criança e do adolescente, mediante tratados e convenções internacionais. As crianças não poderiam mais ser maltratadas e sua mão de obra não poderia mais ser utilizada na fábrica. É claro que o modelo de sociedade anglo-saxônica, simbolizada pelo padrão wasp da família norte-americana, era simbolizado nos anos 50 pelo seriado de televisão Papai sabe Tudo, em que no modelo conservador os pais combinavam severidade, respeito, mas obediência incondicionadas dos filhos, sob pena de levar umas boas palmadas.
Ocorre que o projeto de lei encaminhado pelo governo e que conta com uma boa alta de rejeição popular (ao menos entre os internautas, na última pesquisa, cerca de 70% dos ouvidos são contra a aprovação da lei) mexe com uma questão antiga, revisitada pela ideologia liberal: até que ponto pode o Estado se intrometer em assuntos privados, relacionados à educação dos filhos por seus pais, ingressando nas querelas típicas do ambiente familiar? Muitos pais se perguntam se não tem mais o direito de educar seus filhos como lhes convém, e alguns, baseados até em preceitos religiosos, justificam sua rigidez na educação de filhos, impondo-lhes, inclusive, maus tratos, como uma forma legítima de orientação de seus pimpolhos, baseada no poder parental tradicional.
Sobre autoridade e legitimidade do poder parental, é interessante fazer menção ao livro do educador Içami Tiba, intitulado Quem ama, educa. No livro, Tiba nos informa que na educação dos fihos não basta apenas o amor, pois o amor por si só não educa, mas sim a consciência que os pais incutem nos filhos de responder por suas próprias responsabilidades. "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades", como diria o personagem do Tio Ben a seu sobrinho Peter Parker (alterego do Homem Aranha, nos quadrinhos); e desta forma vemos que pais tem que se equilibrar na função de genitores, na corda bamba de nem ser autoritário demais, e nem permissivo demais. Onde está a justa medida? Talvez a resposta seja dada pela própria experiência de vida e de como nos sentimos enquanto crianças no tratamento que recebemos de nossos pais, e o que de positivo e negativo podemos extrair disso, para assim pensar uma forma de educar os nossos filhos, de modo que eles não se transformem em monstros carentes ou pedras de insensibilidade.
Penso que a dedicação do governo em ver aprovada a Lei da Palmada, deve-se muito ao próprio histórico do presidente, narrado de forma interessante e transformado em filme na elogiada biografia de Lula, escrita por Denise Paraná (Lula, o filho do Brasil). Hoje sabemos e é público e notório que nosso presidente não teve uma das infâncias mais felizes. Ao contrário, diante de um pai severo, alcoólatra e que lhe dava sucessivas surras, é natural que hoje Lula defenda a extinção dos castigos físicos em crianças e adolescentes até porque sentiu isso na pele, mas resta saber até que ponto os pais podem efetivamente castigar os seus filhos ou não.
Lembro-me de uma conversa interessante que tive com meu querido amigo Roger Rocha, hoje músico talentoso em Curitiba e pai de família, que me disse que em sua infância passada em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, ele fez amizade com crianças pertencentes a uma família de chilenos que morava no mesmo condomínio em que residia. Ele me disse que numa das travessuras comuns praticadas no universo infantil, onde crianças promovem algazarras para querer chamar atenção, ele foi repreendido por um dos pais dos meninos, chegando a ser, inclusive, puxado pela orelha pelos corredores do prédio. Ele me falou que era comum no Chile os adultos repreenderem as crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Fico imaginando essa cena nos corredores do Congresso Nacional, diante dos pasmos legisladores defensores do projeto da Lei da Palmada. Imagino a mesma cena em uma das diversas escolas católicas, de padres e freiras onde já estudei, onde a palmatória, as palmadas, os puxões de orelha e os beliscões são naturais dentro de um ambiente conservador e imensamente tradicional.Será que vamos reprimir também a educação severa nas escolas?
Pode-se dizer que tive uma educação rígida, pelo fato de ser filho de militar, mas quem na verdade me impôs mais castigos através de surras de cinturão, na minha infãncia, foi minha amada mãezinha. Hoje, compreendo enormemente as palmadas sofridas, até porque fico imaginando minha mãe, coitada, sozinha com um marido embarcado cheia de afazeres, tendo que administrar um lar com dois filhos pequenos e uma criança altamente hiperativa como eu fui. Daquele menino irascível que gostava de jogar pedras em ônibus e tacar fogo em casas e animais eu necessitava realmente de um corretivo, e a forma que minha mãe utilizou após muita conversa sem resultado foi realmente apelar para o cinturão. Não a recrimino, creio que hoje, depois de algumas chineladas, pude refletir o quanto ter passado ou não por castigos físicos fez o homem que agora sou. É claro que aqueles que lêem estas linhas deste blog devem ter histórias diferentes para contar, e muitos aqui sequer levaram um beliscão de seus pais ou tiveraam um modelo de educação bem diferente. Que bom que seja assim! Agora revelo que o fato de ter levado umas palmadas na infãncia não me tornou, por conta disso, um indivíduo traumatizado, doente ou que necessitasse de cuidados especiais por conta disso. Pelo contrário, até certo ponto, o castigo físico imposto se não foi desnecessário, ao menos contribuiu de certa forma para a minha formação de caráter. Posso ter agido sem limites, mas os castigos afligidos por meus pais me deram consciência desses limites.
O problema de estabelecer uma política punitiva de coibição de abusos, sem levar em conta uma legislação que promova um giro educacional, é o grande problema da produção de leis no Brasil. Tentou-se coibir o consumo desenfreado de álcool e os acidentes de trânsito com a Lei Seca, assim como foram atacados os casos de violência doméstica, com a Lei Maria da Penha, ou o fumo dentro de estabelecimentos fechados, com a Lei Antitabagismo, agora me pergunto até que ponto pode ser eficaz uma lei que lida com aspectos eminentemente privados e de foro íntimo das famílias brasileiras e até certo ponto insignificante do ponto de vista legal, como se trata do caso de meros puxões de orelha, palmadas ou beliscões. O que irá acontecer com os pais que resolvem dar umas palmadinhas nos filhos desobedientes, que se comportam mal? Teremos uma pilha de processos de destituição de guarda nas Varas da Infância e Juventude? Haverá um batalhão de psicólogos à disposição nos postos de saúde, para atender pais perturbados que decidiram dar um puxão de orelhas nos seus filhos? Na hora em que alguém se estressar com seu filho malcriado, será que vai ter olhar para os lados, para ver se não tem na espreita algum conselheiro tutelar? Ou será que birra de criança malcriada vai virar caso de polícia?
Conheci mães que de tão enérgicas com seus filhos chegavam a resolver a parada na base do tapa no pé do ouvido, como outras que de tão permissivas, chegavam a amolar a vizinhança inteira com a falta de autoridade perante seus filhos peraltas, que azucrinavam pessoas como eu que tentavam estudar em casa, com gritos e choros convulsivos de malcriação. Acredito que o ECA já esteja aí para impedir graves violações aos direitos das crianças e adolescentes, e tem feito bem seu o seu papel, agora não posso comparar à tortura ou violência física o simples fato de dar uns tapas no traseiro de uma criança desobediente, mimada e malcriada. Acredito que pais que agridem seus filhos geram adultos inseguros, medrosos ou revoltados, assim como pais permissivos contribuem no desenvolvimento de filhos que se tornam adultos inconsequentes, irresponsáveis, imaturos e insensatos. Não sou adepto da pedagogia da palmatória e longe de mim oferecer qualquer mal físico a quem quer seja, mas não tiro a razão dos pais que para manter sua autoridade, se valem da força física como meio de exercício da autoridade. Mesmo aqueles que não tem religião não conhecem o mandamento bíblico: "respeitarás teu pai e tua mãe"? Basta de agressões, basta de maus tratos, mas também não vamos incentivar a impunidade infantil!
Em tempo: não tenho filhos. Deve ser por isso que estou escrevendo este artigo!
O projeto visa alterar a Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e dentre outras medidas, prevê a proibição de castigos físicos tais como: palmadas, beliscões ou qualquer outro meio ou castigo físico que implique em dor na criança ou adolescente. As sanções vão desde acompanhamento psicológico ou psiquiátrico obrigatório até destituição da guarda ou do poder parental, impondo-se ao pai ou mãe severos o artigo 129 do Estatuto, que prevê quais são as medidas legais adotadas contra pais ou responsável. Fico me perguntando qual será a postura daqueles pais estressados que vão ao supermercado com as crianças após um dia estafante de trabalho, no momento em que os meninos começarem a pedir as coisas, o pai ou a mãe nega, e a criança começa a fazer um pleno escarcéu dentro do estabelecimento, sem que ninguém possa lhe dar um pito, ou mesmo um beliscão ou uma chinelada. É, tá faltando palmada, mas pode sobrar permissividade.
No seu livro clássico, A Cidade Antiga, publicado no século XIX, Fustel de Coulanges trata de diversas instituições sociais dos povos antigos, em especial a família. Na família romana, por exemplo, o pater familias, senhor de sua casa, autoridade patriarcal e chefe do lar, tinha poder absoluto sobre seus filhos. Ele poderia, inclusive, matar um filho se o desejasse, em caso de desonra ou desobediência. Dependendo do caso, os filhos poderiam até ser vendidos como escravos, para fins de cumprimento de uma dívida. É claro que o expediente desumano de se humilhar ou torturar filhos foi desaparecendo na era moderna, principalmente quando, após a Revolução Industrial e o advento do século XX, passaram a ser reconhecidos os direitos da criança e do adolescente, mediante tratados e convenções internacionais. As crianças não poderiam mais ser maltratadas e sua mão de obra não poderia mais ser utilizada na fábrica. É claro que o modelo de sociedade anglo-saxônica, simbolizada pelo padrão wasp da família norte-americana, era simbolizado nos anos 50 pelo seriado de televisão Papai sabe Tudo, em que no modelo conservador os pais combinavam severidade, respeito, mas obediência incondicionadas dos filhos, sob pena de levar umas boas palmadas.
Ocorre que o projeto de lei encaminhado pelo governo e que conta com uma boa alta de rejeição popular (ao menos entre os internautas, na última pesquisa, cerca de 70% dos ouvidos são contra a aprovação da lei) mexe com uma questão antiga, revisitada pela ideologia liberal: até que ponto pode o Estado se intrometer em assuntos privados, relacionados à educação dos filhos por seus pais, ingressando nas querelas típicas do ambiente familiar? Muitos pais se perguntam se não tem mais o direito de educar seus filhos como lhes convém, e alguns, baseados até em preceitos religiosos, justificam sua rigidez na educação de filhos, impondo-lhes, inclusive, maus tratos, como uma forma legítima de orientação de seus pimpolhos, baseada no poder parental tradicional.
Sobre autoridade e legitimidade do poder parental, é interessante fazer menção ao livro do educador Içami Tiba, intitulado Quem ama, educa. No livro, Tiba nos informa que na educação dos fihos não basta apenas o amor, pois o amor por si só não educa, mas sim a consciência que os pais incutem nos filhos de responder por suas próprias responsabilidades. "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades", como diria o personagem do Tio Ben a seu sobrinho Peter Parker (alterego do Homem Aranha, nos quadrinhos); e desta forma vemos que pais tem que se equilibrar na função de genitores, na corda bamba de nem ser autoritário demais, e nem permissivo demais. Onde está a justa medida? Talvez a resposta seja dada pela própria experiência de vida e de como nos sentimos enquanto crianças no tratamento que recebemos de nossos pais, e o que de positivo e negativo podemos extrair disso, para assim pensar uma forma de educar os nossos filhos, de modo que eles não se transformem em monstros carentes ou pedras de insensibilidade.
Penso que a dedicação do governo em ver aprovada a Lei da Palmada, deve-se muito ao próprio histórico do presidente, narrado de forma interessante e transformado em filme na elogiada biografia de Lula, escrita por Denise Paraná (Lula, o filho do Brasil). Hoje sabemos e é público e notório que nosso presidente não teve uma das infâncias mais felizes. Ao contrário, diante de um pai severo, alcoólatra e que lhe dava sucessivas surras, é natural que hoje Lula defenda a extinção dos castigos físicos em crianças e adolescentes até porque sentiu isso na pele, mas resta saber até que ponto os pais podem efetivamente castigar os seus filhos ou não.
Lembro-me de uma conversa interessante que tive com meu querido amigo Roger Rocha, hoje músico talentoso em Curitiba e pai de família, que me disse que em sua infância passada em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, ele fez amizade com crianças pertencentes a uma família de chilenos que morava no mesmo condomínio em que residia. Ele me disse que numa das travessuras comuns praticadas no universo infantil, onde crianças promovem algazarras para querer chamar atenção, ele foi repreendido por um dos pais dos meninos, chegando a ser, inclusive, puxado pela orelha pelos corredores do prédio. Ele me falou que era comum no Chile os adultos repreenderem as crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Fico imaginando essa cena nos corredores do Congresso Nacional, diante dos pasmos legisladores defensores do projeto da Lei da Palmada. Imagino a mesma cena em uma das diversas escolas católicas, de padres e freiras onde já estudei, onde a palmatória, as palmadas, os puxões de orelha e os beliscões são naturais dentro de um ambiente conservador e imensamente tradicional.Será que vamos reprimir também a educação severa nas escolas?
Pode-se dizer que tive uma educação rígida, pelo fato de ser filho de militar, mas quem na verdade me impôs mais castigos através de surras de cinturão, na minha infãncia, foi minha amada mãezinha. Hoje, compreendo enormemente as palmadas sofridas, até porque fico imaginando minha mãe, coitada, sozinha com um marido embarcado cheia de afazeres, tendo que administrar um lar com dois filhos pequenos e uma criança altamente hiperativa como eu fui. Daquele menino irascível que gostava de jogar pedras em ônibus e tacar fogo em casas e animais eu necessitava realmente de um corretivo, e a forma que minha mãe utilizou após muita conversa sem resultado foi realmente apelar para o cinturão. Não a recrimino, creio que hoje, depois de algumas chineladas, pude refletir o quanto ter passado ou não por castigos físicos fez o homem que agora sou. É claro que aqueles que lêem estas linhas deste blog devem ter histórias diferentes para contar, e muitos aqui sequer levaram um beliscão de seus pais ou tiveraam um modelo de educação bem diferente. Que bom que seja assim! Agora revelo que o fato de ter levado umas palmadas na infãncia não me tornou, por conta disso, um indivíduo traumatizado, doente ou que necessitasse de cuidados especiais por conta disso. Pelo contrário, até certo ponto, o castigo físico imposto se não foi desnecessário, ao menos contribuiu de certa forma para a minha formação de caráter. Posso ter agido sem limites, mas os castigos afligidos por meus pais me deram consciência desses limites.
O problema de estabelecer uma política punitiva de coibição de abusos, sem levar em conta uma legislação que promova um giro educacional, é o grande problema da produção de leis no Brasil. Tentou-se coibir o consumo desenfreado de álcool e os acidentes de trânsito com a Lei Seca, assim como foram atacados os casos de violência doméstica, com a Lei Maria da Penha, ou o fumo dentro de estabelecimentos fechados, com a Lei Antitabagismo, agora me pergunto até que ponto pode ser eficaz uma lei que lida com aspectos eminentemente privados e de foro íntimo das famílias brasileiras e até certo ponto insignificante do ponto de vista legal, como se trata do caso de meros puxões de orelha, palmadas ou beliscões. O que irá acontecer com os pais que resolvem dar umas palmadinhas nos filhos desobedientes, que se comportam mal? Teremos uma pilha de processos de destituição de guarda nas Varas da Infância e Juventude? Haverá um batalhão de psicólogos à disposição nos postos de saúde, para atender pais perturbados que decidiram dar um puxão de orelhas nos seus filhos? Na hora em que alguém se estressar com seu filho malcriado, será que vai ter olhar para os lados, para ver se não tem na espreita algum conselheiro tutelar? Ou será que birra de criança malcriada vai virar caso de polícia?
Conheci mães que de tão enérgicas com seus filhos chegavam a resolver a parada na base do tapa no pé do ouvido, como outras que de tão permissivas, chegavam a amolar a vizinhança inteira com a falta de autoridade perante seus filhos peraltas, que azucrinavam pessoas como eu que tentavam estudar em casa, com gritos e choros convulsivos de malcriação. Acredito que o ECA já esteja aí para impedir graves violações aos direitos das crianças e adolescentes, e tem feito bem seu o seu papel, agora não posso comparar à tortura ou violência física o simples fato de dar uns tapas no traseiro de uma criança desobediente, mimada e malcriada. Acredito que pais que agridem seus filhos geram adultos inseguros, medrosos ou revoltados, assim como pais permissivos contribuem no desenvolvimento de filhos que se tornam adultos inconsequentes, irresponsáveis, imaturos e insensatos. Não sou adepto da pedagogia da palmatória e longe de mim oferecer qualquer mal físico a quem quer seja, mas não tiro a razão dos pais que para manter sua autoridade, se valem da força física como meio de exercício da autoridade. Mesmo aqueles que não tem religião não conhecem o mandamento bíblico: "respeitarás teu pai e tua mãe"? Basta de agressões, basta de maus tratos, mas também não vamos incentivar a impunidade infantil!
Em tempo: não tenho filhos. Deve ser por isso que estou escrevendo este artigo!
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
COMPORTAMENTO: Quanto vale ou é por quilo?? Sobre a maldade dos jogos.
Semana passada, andando pela cidade de Natal, vi uma cena curiosa: um carro zero quilômetro empacotado pra presente na frente de uma famosa churrascaria da cidade. Perguntei para o colega ao meu lado se ele sabia do que se tratava, e ele me disse que aquela churrascaria tinha uma promoção inusitada: quem comesse até 8 kg de carne no almoço ganharia o carro. Soube de um turista gaúcho, um senhor de acentuado corpanzil que se sentou no lugar para comer e soube da promoção. Como sabemos, gaúcho é um povo acostumado a comer muita carne, e o serelepe gaudério inventou de topar o desafio das carnes, chegando a ingerir 6 quilos e meio de carne, até ser levado ao hospital, direto para uma lavagem estomacal. No que tange à carne vermelha, o organismo humano leva horas para digerir tanto alimento, podendo variar de um período de 24 horas numa boa churrascada até 3 dias. Isso acontece porque o alimento leva de seis a oito horas para sair do estômago e ir para o intestino delgado. Imagine então um estômago entalado, tal qual areia colocada no cano de escapamento de um carro. O estrago é grande, você não acha?
Fico imaginando pessoas que ameaçam morrer de tanto comer só pra conseguir um veículo novo, ou que fazem qualquer tipo de esforço físico sobre-humano tão somente para conquistar um prato de comida ou ganhar alguns trocados. Fico pensando naquelas provas imbecis do programa Big Brother, em que nove idiotas se submetem a testes vexatórios, como ficar acordado em pé uma noite inteira dentro de uma caixa de vidro ou de permanecer horas segurando a chave na porta de um carro, só para levar como prêmio o veículo ou dez, vinte ou trinta mil reais antes de ser eliminado no paredão, com um indefectível Pedro Bial ao fundo da tela. A cena ainda faz me lembrar outra, de um clássico filme do diretor Sidney Polack, de 1969, chamado A Noite dos Desesperados, que retrata a Grande Depressão americana, em que casais de jovens trabalhadores desempregados passavam horas dançando até caírem exaustos em concursos de dança, para ganhar algum dinheiro do prêmio. Quanto vale a dignidade humana por um prato de comida? Quando vale o orgulho, a autoestima, a autopreservação, a valorização da vida, quando se é permitido fazer tudo para conquistar um prêmio:um carro, uma casa, um cheque polpudo ou uma loteria? Quando é que separamos o verdadeiramente humano do inumano?
A lógica liberal-capitalista é a do laissez faire, ou seja, para o homem livre tudo é possível na busca do êxito pessoal, até mesmo machucar a si próprio. A lógica da automutiliação de alguns perfomers de piercing é de se pendurar com ganchos pelos mamilos, como fez o ator Vincent Harris, no filme Um homem chamado cavalo, simulando um ritual indígena.Às vezes penso que a lógica sadomasô explicitada na obra de terror Hellraiser, do cineasta britânico Clive Barker, aplica-se a alguns competidores dos bizarros torneios televisos, com Lucianos Huck, Bials ou Faustões no lugar de Pinhead e seus cenobitas. É necessário realmente sentir (muita) dor para se obter o prazer da satisfação pessoal de ganhar o prêmio? Pergunte isso para o glutão cliente da churrascaria que vomitou muitos dos quilos de carne que ingeriu, antes de descobrir que até seu estômago volumoso tem limites, e que mesmo os obesos hábeis na arte de comer não conseguem ganhar sempre, mesmo que isso signifique a perda de um carro.
Não sou contra os jogos, e, ao contrário, até os aprecio pois servem para muitas das reflexões filosóficas. Os poetas lidam com jogos afetivos ao tratar da paixão, da sedução, dos afetos, das emoções, assim como os filósofos da linguagem, como Wittgenstein, analisavam o jogo das palavras. O problema não está no jogo, na competição em si, mas sim no que se busca ao final de cada jogo. Se o velho lema que eu escutava da professora primária no colégio não serve mais, pois o importante é mesmo ganhar e não competir, lamento por outro lado que o sabor passional da competição e substituído pelo vício, pela ilusão tétrica da vitória a qualquer custo, mesmo que pagando o preço da própria vida. Sobre isso, recordo de outro filme, esse uma película espanhola, chamado Intacto, de 2001, do diretor Juan Carlos Fresnadillo; em que Tomás, (personagem do ator argentino Leonardo Sbaraglia), é um sujeito de extrema sorte, que ao conseguir ser o único sobrevivente de um desastre de avião, é chamado a participar de vários jogos e desafios no sentido de obter o prêmio máximo e derrotar o sagaz e experiente Samuel (Max Von Sidow, impecável), um velho judeu sobrevivente de um campo de concentração que é considerado "o senhor da sorte" e que costuma sair vitorioso em todos os jogos.
E porque não lembrar também do sanguinolento Jogos Mortais, que já virou uma repetitiva franquia com seis filmes, em que entre tripas, corpos despedaçados e sangue aos borbotões, podemos identificar com clareza o empobrecimento do espírito humano quando, ao invés de trabalhar o jogo como uma lógica natural das relações humanas, transforma a competição num combate infernal pela sobrevivência, cujas armadilhas inexoráveis não dão qualquer alternativa a não ser continuar jogando, para jogar e jogar cada vez mais.
Talvez na literatura eu ainda encontre Dostoievski, e sua formidável obra O jogador, onde seu personagem, Alexis Ivanochi, perde sua própria humanidade na jogatina, na busca de seu eterno amor por Paulina Alexandrovna. Em todos esses personagens, do comedor de churrascos do restaurante a Ivanovichi de Dostoievski, todos nós nos deparamos com dramas humanos, tão demasiadamente humanos, e vemos que o espectro de nossa fraqueza está revelada não no começar a jogar, mas no desaprender de jogar. Desaprendemos do jogo no momento em que nós deixamos tomar por ele e nos tormanos o próprio dado lançado na roleta, e não as mãos e dedos lançadores. Ser bom jogador depende de uma psicologia do sujeito, de um controle concreto de seu livre-arbítrio,e da disposição de jogar apenas se realmente o jogo valer realmente a pena. Eu digo isso porque continuo me perguntando pensando a cena inicial da churrascaria: pra que realmente jogar ameaçando ter um infarto por comer tanta carne, se o que me vale mais é o prazer de comer, e não o prazer de ter um carro ao me matar de comer? Talvez essa pergunta possa ser respondida pelo comilão que acabou no hospital, ou ele não tenha mais condições físicas de responder. E você? Encararia 8 kg de carne pra ter um carro novo? Se a resposta for afirmativa, só posso te dizer uma coisa: bom apetite!!!
Fico imaginando pessoas que ameaçam morrer de tanto comer só pra conseguir um veículo novo, ou que fazem qualquer tipo de esforço físico sobre-humano tão somente para conquistar um prato de comida ou ganhar alguns trocados. Fico pensando naquelas provas imbecis do programa Big Brother, em que nove idiotas se submetem a testes vexatórios, como ficar acordado em pé uma noite inteira dentro de uma caixa de vidro ou de permanecer horas segurando a chave na porta de um carro, só para levar como prêmio o veículo ou dez, vinte ou trinta mil reais antes de ser eliminado no paredão, com um indefectível Pedro Bial ao fundo da tela. A cena ainda faz me lembrar outra, de um clássico filme do diretor Sidney Polack, de 1969, chamado A Noite dos Desesperados, que retrata a Grande Depressão americana, em que casais de jovens trabalhadores desempregados passavam horas dançando até caírem exaustos em concursos de dança, para ganhar algum dinheiro do prêmio. Quanto vale a dignidade humana por um prato de comida? Quando vale o orgulho, a autoestima, a autopreservação, a valorização da vida, quando se é permitido fazer tudo para conquistar um prêmio:um carro, uma casa, um cheque polpudo ou uma loteria? Quando é que separamos o verdadeiramente humano do inumano?
A lógica liberal-capitalista é a do laissez faire, ou seja, para o homem livre tudo é possível na busca do êxito pessoal, até mesmo machucar a si próprio. A lógica da automutiliação de alguns perfomers de piercing é de se pendurar com ganchos pelos mamilos, como fez o ator Vincent Harris, no filme Um homem chamado cavalo, simulando um ritual indígena.Às vezes penso que a lógica sadomasô explicitada na obra de terror Hellraiser, do cineasta britânico Clive Barker, aplica-se a alguns competidores dos bizarros torneios televisos, com Lucianos Huck, Bials ou Faustões no lugar de Pinhead e seus cenobitas. É necessário realmente sentir (muita) dor para se obter o prazer da satisfação pessoal de ganhar o prêmio? Pergunte isso para o glutão cliente da churrascaria que vomitou muitos dos quilos de carne que ingeriu, antes de descobrir que até seu estômago volumoso tem limites, e que mesmo os obesos hábeis na arte de comer não conseguem ganhar sempre, mesmo que isso signifique a perda de um carro.
Não sou contra os jogos, e, ao contrário, até os aprecio pois servem para muitas das reflexões filosóficas. Os poetas lidam com jogos afetivos ao tratar da paixão, da sedução, dos afetos, das emoções, assim como os filósofos da linguagem, como Wittgenstein, analisavam o jogo das palavras. O problema não está no jogo, na competição em si, mas sim no que se busca ao final de cada jogo. Se o velho lema que eu escutava da professora primária no colégio não serve mais, pois o importante é mesmo ganhar e não competir, lamento por outro lado que o sabor passional da competição e substituído pelo vício, pela ilusão tétrica da vitória a qualquer custo, mesmo que pagando o preço da própria vida. Sobre isso, recordo de outro filme, esse uma película espanhola, chamado Intacto, de 2001, do diretor Juan Carlos Fresnadillo; em que Tomás, (personagem do ator argentino Leonardo Sbaraglia), é um sujeito de extrema sorte, que ao conseguir ser o único sobrevivente de um desastre de avião, é chamado a participar de vários jogos e desafios no sentido de obter o prêmio máximo e derrotar o sagaz e experiente Samuel (Max Von Sidow, impecável), um velho judeu sobrevivente de um campo de concentração que é considerado "o senhor da sorte" e que costuma sair vitorioso em todos os jogos.
E porque não lembrar também do sanguinolento Jogos Mortais, que já virou uma repetitiva franquia com seis filmes, em que entre tripas, corpos despedaçados e sangue aos borbotões, podemos identificar com clareza o empobrecimento do espírito humano quando, ao invés de trabalhar o jogo como uma lógica natural das relações humanas, transforma a competição num combate infernal pela sobrevivência, cujas armadilhas inexoráveis não dão qualquer alternativa a não ser continuar jogando, para jogar e jogar cada vez mais.
Talvez na literatura eu ainda encontre Dostoievski, e sua formidável obra O jogador, onde seu personagem, Alexis Ivanochi, perde sua própria humanidade na jogatina, na busca de seu eterno amor por Paulina Alexandrovna. Em todos esses personagens, do comedor de churrascos do restaurante a Ivanovichi de Dostoievski, todos nós nos deparamos com dramas humanos, tão demasiadamente humanos, e vemos que o espectro de nossa fraqueza está revelada não no começar a jogar, mas no desaprender de jogar. Desaprendemos do jogo no momento em que nós deixamos tomar por ele e nos tormanos o próprio dado lançado na roleta, e não as mãos e dedos lançadores. Ser bom jogador depende de uma psicologia do sujeito, de um controle concreto de seu livre-arbítrio,e da disposição de jogar apenas se realmente o jogo valer realmente a pena. Eu digo isso porque continuo me perguntando pensando a cena inicial da churrascaria: pra que realmente jogar ameaçando ter um infarto por comer tanta carne, se o que me vale mais é o prazer de comer, e não o prazer de ter um carro ao me matar de comer? Talvez essa pergunta possa ser respondida pelo comilão que acabou no hospital, ou ele não tenha mais condições físicas de responder. E você? Encararia 8 kg de carne pra ter um carro novo? Se a resposta for afirmativa, só posso te dizer uma coisa: bom apetite!!!
terça-feira, 3 de agosto de 2010
REFLEXÃO: Natal, Walter Benjamin e eu.
Walter Benjamin é um dos últimos grandes pensadores da filosofia alemã no século XX, sem falar da contribuição de Heidegger e das teorias de Habermas, este último, com mérito, considerado um colossal gigante filosófico ainda vivo. Entretanto, voltando a Benjamin, este fazia junto com Adorno, Horkheimer e Marcuse um grupo intitulado Escola de Frankfurt, que bem poderiam ser os Três Mosqueteiros do pensamento filosófico com sua teoria crítica, acompanhados de seu D'artagnan judeu.
Sim, Walter Benjamin era judeu, e numa Alemanha atingida pelas sombras do totalitarismo e a ascensão dos movimentos nazifascitas, Benjamin tinha tudo pra se dar mal, por combinar em sua biografia tudo o que os carrascos nazistas mais desprezavam: ele era judeu, intelectual, e socialista. Ocorre que, como marxista, Benjamin reformulou alguns aspectos da teoria política de Karl Marx, adaptando-a à cultura.É digna de nota sua compreensão do fenômeno artístico como um instrumento de conscientização das massas, ao tratar do papel do cinema e do significado de "aura" na obra de arte, em seu livro mais famoso “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Para Benjamin, à medida que arte tem dissolvida sua aura, seu manto de sacralidade, religiosidade ou dimensão aristocrática, ela se populariza, conferindo acesso às massas, e tende a se revestir de uma dimensão social, ou seja, pode mudar cabeças. Isso implica em dizer que no teatro a peça teatral revela-se na própria pessoa, na aura do ator, enquanto que no cinema e na televisão os atores se tornam secundários, acessórios, quando não dispensáveis, pois a relação do público não é mais com os atores, mas sim com o aparelho, com a máquina, com o aparato tecnológico que dissolve a aura da arte. Não é à toa que nos dias de hoje, com a chegada da tecnologia 3D e o sucesso comercial do filme Avatar nos cinemas, o estudo de Benjamin ganhe uma atualidade impressionante. Mas, voltemos à condição de Benjamim enquanto pessoa, e porque eu estou falando dele.
Como eu havia dito antes, apesar de toda sua sensibilidade, bagagem teórica e cultural, Walter Benjamin acabou por ser considerado um pária em seu próprio país, incapacitado de lecionar assim que os nazistas chegaram ao poder e se tornou mais uma vítima de um sistema opressor, assim como milhões daqueles que perderam a vida inutilmente no holocausto judeu. As circunstâncias que cercaram a morte do pensador berlinense ainda permanecem obscuras, mas tudo indica que ele se suicidou, ao tentar escapar do cerco nazista numa fuga desesperada pelos Pirineus tentando chegar na Espanha, vindo da França, país que o filósofo havia imigrado em 1933 após a chegada dos nazistas ao poder, mas que acabou sendo tomada pela avidez sanguinária de Hitler. Detido na fronteira franco-espanhola, ao saber que seguia entregue a Gestapo, Benjamin se suicidou.
Já falei aqui neste blog como as ditaduras podem seduzir os intelectuais, assim como estruturas de poder totalitárias podem, ao contrário, destruir qualquer tipo de oposição intelectual. Padecem sobretudo os sensíveis, aqueles realmente interessados na transformação e na revitalização de uma cultura considerada ultrapassada, e, por isso, são jogados no limbo do esquecimento ou nas galés dos maus tratos emocionais. Sei disso porque, assim como Benjamin, sinto agora isso na pele, ao me deparar com uma estrutura de Estado que não mais corresponde aos meus ideais e a um serviço que em muito me onera psica e intelectualmente, pois não é onde eu gostaria de estar. E sobre estar vivo, no paradoxo de viver agora em uma bela cidade, mas, ao mesmo tempo, não querer mais viver nela por sentir que a "aura" de que tratava Benjamin não existir mais pois que agora se despedaçou, vejo que isso me traz uma consciência dolorida de classe e que me torna, necessariamente, um rebelde, um pária em minha própria cidade e no meu próprio emprego.
Explicando, sinto a aflição de Benjamin, um estudioso da aura da arte e alguém que via de fato racionalidade na beleza, pois ao ver uma cidade tão bonita como Natal, eu pude descobrir o quão perversamente, nas mãos de seus governantes, de uma elite política e de uma camada burguesa provinciana, a cidade de minha juventude foi estragada por processos nefastos de urbanização, por uma multidão de carros novos, velhos ou importados que empesteiam e poluem a cidade de bela paisagem. Isso estraga qualquer cartão-postal, dissipando a aura de linda "cidade do sol", outrora imaculada na obra de arte, em verso, prosa, fotos e cantos.Num serviço público por vezes inoperante, e, sobretudo, ineficaz, vejo o quanto as trocas fisiológicas colocaram uma vez mais parvos ignorantes na chefia de órgãos públicos (de forma semelhante à ocupação de espaços no poder político pelos nazistas na época de Benjamin), de mentalidade ultraconservadora, extremamente burocrática, tecnicista, fordista, e que não aceitam contestação, transformação e, pelo contrário, lançam ao exílio de velhas e carcomidas repartições os interessados, todos aqueles que de alguma forma se tornaram diferentes, os exóticos, os esquisitos, os nerds. Natal é uma cidade de funcionários públicos, uma minimetrópole de interesses burocráticos e turísticos, onde se esconde por debaixo do tapete das belas dunas toda a perversidade oficial. Para todos os efeitos, quem sofre no serviço público são os intelectuais.
Algumas estruturas não são para intelectuais, e, dentre elas, considero para mim a segurança pública. Na qualidade de um servidor público que já sinto que não sou, sinto-me um judeu intelectualizado vítima de uma estrutura antissemita, de um fascismo dissimulado que se revela numa sicofântica "batidinha nas costas", de um bisonho método de extermínio de mentes através das câmaras de gás da indiferença. Sinto que minha fronteira através dos Pirineus da vida leva-me ao Rio de Janeiro, mas temo, mediante a perseguição que sinto que está sendo movida contra mim, se conseguirei alcançar a fronteira, antes de ser capturado, e ser entregue a Gestapo dos burocratas de plantão.
Assim como Walter Benjamin mantinha por influência familiar sua fé judaica, eu restabeleço minha fé cristã a cada derrapada do destino. Peço a Deus a libertação dos grilhões, a liberdade de consciência que me possa fazer tomar as decisões mais discernidas e acertadas possíves, mas, sobretudo, de ao mostrar meu peito aberto, não ser atingido pelas balas perdidas da intolerância, que os algozes de tocaia sempre se dispõem a disparar ao mover os dedos no gatilho, toda vez que sentem que algo diferente está por vir. Peço, apenas, aos meus queridos leitores do blog, sensíveis amigos e alguns conhecedores de meu problema que orem, ou torçam comigo, para que eu não seja mais uma cifra do holocausto de servidores públicos, jogados na humilhação do esquecimento ou banidos para sempre da existência, através de uma mera canetada dos agentes da opressão. Até breve e boa sorte para nós todos!
Sim, Walter Benjamin era judeu, e numa Alemanha atingida pelas sombras do totalitarismo e a ascensão dos movimentos nazifascitas, Benjamin tinha tudo pra se dar mal, por combinar em sua biografia tudo o que os carrascos nazistas mais desprezavam: ele era judeu, intelectual, e socialista. Ocorre que, como marxista, Benjamin reformulou alguns aspectos da teoria política de Karl Marx, adaptando-a à cultura.É digna de nota sua compreensão do fenômeno artístico como um instrumento de conscientização das massas, ao tratar do papel do cinema e do significado de "aura" na obra de arte, em seu livro mais famoso “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Para Benjamin, à medida que arte tem dissolvida sua aura, seu manto de sacralidade, religiosidade ou dimensão aristocrática, ela se populariza, conferindo acesso às massas, e tende a se revestir de uma dimensão social, ou seja, pode mudar cabeças. Isso implica em dizer que no teatro a peça teatral revela-se na própria pessoa, na aura do ator, enquanto que no cinema e na televisão os atores se tornam secundários, acessórios, quando não dispensáveis, pois a relação do público não é mais com os atores, mas sim com o aparelho, com a máquina, com o aparato tecnológico que dissolve a aura da arte. Não é à toa que nos dias de hoje, com a chegada da tecnologia 3D e o sucesso comercial do filme Avatar nos cinemas, o estudo de Benjamin ganhe uma atualidade impressionante. Mas, voltemos à condição de Benjamim enquanto pessoa, e porque eu estou falando dele.
Como eu havia dito antes, apesar de toda sua sensibilidade, bagagem teórica e cultural, Walter Benjamin acabou por ser considerado um pária em seu próprio país, incapacitado de lecionar assim que os nazistas chegaram ao poder e se tornou mais uma vítima de um sistema opressor, assim como milhões daqueles que perderam a vida inutilmente no holocausto judeu. As circunstâncias que cercaram a morte do pensador berlinense ainda permanecem obscuras, mas tudo indica que ele se suicidou, ao tentar escapar do cerco nazista numa fuga desesperada pelos Pirineus tentando chegar na Espanha, vindo da França, país que o filósofo havia imigrado em 1933 após a chegada dos nazistas ao poder, mas que acabou sendo tomada pela avidez sanguinária de Hitler. Detido na fronteira franco-espanhola, ao saber que seguia entregue a Gestapo, Benjamin se suicidou.
Já falei aqui neste blog como as ditaduras podem seduzir os intelectuais, assim como estruturas de poder totalitárias podem, ao contrário, destruir qualquer tipo de oposição intelectual. Padecem sobretudo os sensíveis, aqueles realmente interessados na transformação e na revitalização de uma cultura considerada ultrapassada, e, por isso, são jogados no limbo do esquecimento ou nas galés dos maus tratos emocionais. Sei disso porque, assim como Benjamin, sinto agora isso na pele, ao me deparar com uma estrutura de Estado que não mais corresponde aos meus ideais e a um serviço que em muito me onera psica e intelectualmente, pois não é onde eu gostaria de estar. E sobre estar vivo, no paradoxo de viver agora em uma bela cidade, mas, ao mesmo tempo, não querer mais viver nela por sentir que a "aura" de que tratava Benjamin não existir mais pois que agora se despedaçou, vejo que isso me traz uma consciência dolorida de classe e que me torna, necessariamente, um rebelde, um pária em minha própria cidade e no meu próprio emprego.
Explicando, sinto a aflição de Benjamin, um estudioso da aura da arte e alguém que via de fato racionalidade na beleza, pois ao ver uma cidade tão bonita como Natal, eu pude descobrir o quão perversamente, nas mãos de seus governantes, de uma elite política e de uma camada burguesa provinciana, a cidade de minha juventude foi estragada por processos nefastos de urbanização, por uma multidão de carros novos, velhos ou importados que empesteiam e poluem a cidade de bela paisagem. Isso estraga qualquer cartão-postal, dissipando a aura de linda "cidade do sol", outrora imaculada na obra de arte, em verso, prosa, fotos e cantos.Num serviço público por vezes inoperante, e, sobretudo, ineficaz, vejo o quanto as trocas fisiológicas colocaram uma vez mais parvos ignorantes na chefia de órgãos públicos (de forma semelhante à ocupação de espaços no poder político pelos nazistas na época de Benjamin), de mentalidade ultraconservadora, extremamente burocrática, tecnicista, fordista, e que não aceitam contestação, transformação e, pelo contrário, lançam ao exílio de velhas e carcomidas repartições os interessados, todos aqueles que de alguma forma se tornaram diferentes, os exóticos, os esquisitos, os nerds. Natal é uma cidade de funcionários públicos, uma minimetrópole de interesses burocráticos e turísticos, onde se esconde por debaixo do tapete das belas dunas toda a perversidade oficial. Para todos os efeitos, quem sofre no serviço público são os intelectuais.
Algumas estruturas não são para intelectuais, e, dentre elas, considero para mim a segurança pública. Na qualidade de um servidor público que já sinto que não sou, sinto-me um judeu intelectualizado vítima de uma estrutura antissemita, de um fascismo dissimulado que se revela numa sicofântica "batidinha nas costas", de um bisonho método de extermínio de mentes através das câmaras de gás da indiferença. Sinto que minha fronteira através dos Pirineus da vida leva-me ao Rio de Janeiro, mas temo, mediante a perseguição que sinto que está sendo movida contra mim, se conseguirei alcançar a fronteira, antes de ser capturado, e ser entregue a Gestapo dos burocratas de plantão.
Assim como Walter Benjamin mantinha por influência familiar sua fé judaica, eu restabeleço minha fé cristã a cada derrapada do destino. Peço a Deus a libertação dos grilhões, a liberdade de consciência que me possa fazer tomar as decisões mais discernidas e acertadas possíves, mas, sobretudo, de ao mostrar meu peito aberto, não ser atingido pelas balas perdidas da intolerância, que os algozes de tocaia sempre se dispõem a disparar ao mover os dedos no gatilho, toda vez que sentem que algo diferente está por vir. Peço, apenas, aos meus queridos leitores do blog, sensíveis amigos e alguns conhecedores de meu problema que orem, ou torçam comigo, para que eu não seja mais uma cifra do holocausto de servidores públicos, jogados na humilhação do esquecimento ou banidos para sempre da existência, através de uma mera canetada dos agentes da opressão. Até breve e boa sorte para nós todos!
sábado, 24 de julho de 2010
FILOSOFIA: Em Heidegger todo o recomeço é uma questão de vivência primordial.
Muitas vezes somos chamados à tortuosa tarefa de recomeçar, dar novamente o tiro inicial, um novo pontapé, seja na vida profissional, afetiva ou familiar. Recordo das minhas idas e vindas numa opção profissional ou num novo amor. Das pessoas que me apaixonei ou afeiçoei, daquelas que ficaram e as que partiram. Mas sempre a ideia de recomeço, o eterno devir esteve presente em minha caminhada, sustentada pelas leituras que nunca deixei de fazer.
Recentemente conversando com uma amiga, o papo realizado via internet me fez lembrar as leituras de Ser e Tempo, obra máxima de Heidegger, que, por debaixo da linguagem estritamente filosófica, revela muitas respostas a questionamentos que já fiz no passado, de coisas que afligiam meu coração, e, que de repente, podem servir de auxílio a esta amiga. Na ontologia filosófica heideggeriana podemos encontrar respostas para questões como a existência de Deus, a perpetuidade do amor, a temporalidade da vida e a dinâmica da aflição.
Vida e aflição. Somos seres aflitos porque vivemos, e na filosofia de Heidegger colhida na obra citada, já podemos aqui nos debruçar sobre dois conceitos básicos desenvolvidos pelo pensador da Floresta Negra: vivência e preocupação. Heidegger chama de vivência primordial um conceito extraído de Dilthey para dizer que quando surgimos no mundo, enquanto um "ser-aí" (dasein), já nos deparamos com um série de entes que nos cercam, nesse mundo circundante. É preciso apreender o sentido das coisas simplesmente vivendo, para se aprender a viver. Para isso o homem vive se "pré-ocupando", o que significa dizer que preocupação aqui não é vista como um mero sentimento aflitivo, mas sim como a essência da própria dinâmica da vida. Ao se preocupar o homem age, interage com o mundo circundante apreendendo significados, que depois ele traduzirá para seu conhecimento. Heidegger trabalha uma postura filosófica no caminho do conhecimento que é o caminho da autoconsciência, do conhecimento sobre si próprio. As coisas não existem só porque existem no mundo, mas existem porque eu existo, eu, ao viver, dou significado a essa existência. Pode parecer até simples (ou bem complicado) para quem lê esse jogo de palavras; mas, na verdade, Heidegger quer demonstrar com isso que sua filosofia surge como uma ruptura com a conduta intelectualóide racionalista e cartesiana, de querer sempre estabelecer um discurso sobre algo para se poder agir, quando na verdade é preciso primeiro agir para depois discursar.
Mas onde quero chegar e no que isso irá servir de contribuição ao caso de minha amiga? Digo, em especial nos conselhos afetivos em matéria de amor, que aí Heidegger também dá uma bola dentro, explicando no seu conceito de sentido de realização como complemento do sentido de ser, que em todos os momentos do agir, que caracterizam a vivência do ser, devemos ter uma postura de abertura à vida, de se apoderar da vida como um salto, independente de nossas mais intrigantes elucubrações. Isso significa dizer que não adianta perguntar "por que amar?" ou "amar a quem?", mas simplesmente amar. O jogador de futebol só pode discorrer sobre a importância da pelota se sente o gramado do campo sob seus pés, assim como para o flautista o som de sua flauta deixa de ser mero ruído se ele se abre para a beleza e imensidão da música. Amar algo ou alguém independe de nossas elaborações, mas só conseguimos efetivamente estabelecer a vivência do amor, estar vivendo amorosamente se nos desprendemos das amarras da intelecção cartesiana e nos abrimos num salto, saltamos no escuro, no êxtase de nossa disposição afetiva mesmo sabendo que o inesperado, o inconcluso, o não visto, o impoderável e invisível pode nos afligir, pode nos assustar. Mas Deus e o futuro não são assim??
Em outros textos deste blog já me referi a Heidegger como um pensador romântico, na concepção mais piegas do termo, não enquanto filósofo, mas enquanto homem. Pois parodiando Schopenhauer entendo que que os homens de ideias são também homens de ética; ou seja, é preciso uma disposição ética de querer conhecer a si próprio para querer conhecer o restante do mundo e da vida, que é a disposição do filósofo. Na procura de si próprio Heidegger filosofa tendo em vista o amor que nutriu durante anos por Hannah Arendt, talvez o verdadeiro e grande amor de sua vida. Não obstante a força avassaladora desse amor, Hannah preferiu seguir seu caminho e viver novos amores, casando-se com outra pessoa, tendo em vista que aquele homem mais velho e casado que ela tanto amou em seus encontros secretos, por ela não decidia. A inquietação do amor concretizado, mas não finalizado de Heidegger é a inquietude do dasein. Na dimensão aflitiva da vida somos por vezes chamados por ela a viver novas situações, conhecer novas pessoas, desfrutar de novos relacionamentos, e, sobretudo, abrir-se para novas perspectivas. Essa é a caminhada do filósofo-peregrino na sua vivência de suas ideias, essa é a nossa caminhada nos sucessivos saltos que somos convidados a dar, por uma vida inquieta, que por ser vida tem a função de nos inquietar.
Portanto, nessas curtas linhas o que desejo a essa querida amiga é que viva a sua vida abrindo-se à dimensão misteriosa mas ao mesmo tempo fascinante do dasein. Que possa em sua vivência desfrutar de novas amizades, novos amores, novas possibilidades de trabalho, novos lugares para conhecer, e, quem sabe, novos sabores e saberes de conhecer a si própria numa caminhada em que conhecer o mundo parte de conhecer a si mesmo. Viver acima de tudo, antes de conhecer é o ponto de partida para todo conhecimento, inclusive o conhecimento sobre o amor. Foi com isso que pude tantas vezes reativar o botão play de meu coração que por vezes permanecia na tecla pause ou no stand by, voltando a viver, voltando a me "pré-ocupar".Creio que com isso poderemos, enfim, entender o significado tão deslumbrante de existência, a que se debruçou em sua filosofia Martin Heidegger, e da vida ter bem menos medo dela. Adelante, compañeros!!!
Recentemente conversando com uma amiga, o papo realizado via internet me fez lembrar as leituras de Ser e Tempo, obra máxima de Heidegger, que, por debaixo da linguagem estritamente filosófica, revela muitas respostas a questionamentos que já fiz no passado, de coisas que afligiam meu coração, e, que de repente, podem servir de auxílio a esta amiga. Na ontologia filosófica heideggeriana podemos encontrar respostas para questões como a existência de Deus, a perpetuidade do amor, a temporalidade da vida e a dinâmica da aflição.
Vida e aflição. Somos seres aflitos porque vivemos, e na filosofia de Heidegger colhida na obra citada, já podemos aqui nos debruçar sobre dois conceitos básicos desenvolvidos pelo pensador da Floresta Negra: vivência e preocupação. Heidegger chama de vivência primordial um conceito extraído de Dilthey para dizer que quando surgimos no mundo, enquanto um "ser-aí" (dasein), já nos deparamos com um série de entes que nos cercam, nesse mundo circundante. É preciso apreender o sentido das coisas simplesmente vivendo, para se aprender a viver. Para isso o homem vive se "pré-ocupando", o que significa dizer que preocupação aqui não é vista como um mero sentimento aflitivo, mas sim como a essência da própria dinâmica da vida. Ao se preocupar o homem age, interage com o mundo circundante apreendendo significados, que depois ele traduzirá para seu conhecimento. Heidegger trabalha uma postura filosófica no caminho do conhecimento que é o caminho da autoconsciência, do conhecimento sobre si próprio. As coisas não existem só porque existem no mundo, mas existem porque eu existo, eu, ao viver, dou significado a essa existência. Pode parecer até simples (ou bem complicado) para quem lê esse jogo de palavras; mas, na verdade, Heidegger quer demonstrar com isso que sua filosofia surge como uma ruptura com a conduta intelectualóide racionalista e cartesiana, de querer sempre estabelecer um discurso sobre algo para se poder agir, quando na verdade é preciso primeiro agir para depois discursar.
Mas onde quero chegar e no que isso irá servir de contribuição ao caso de minha amiga? Digo, em especial nos conselhos afetivos em matéria de amor, que aí Heidegger também dá uma bola dentro, explicando no seu conceito de sentido de realização como complemento do sentido de ser, que em todos os momentos do agir, que caracterizam a vivência do ser, devemos ter uma postura de abertura à vida, de se apoderar da vida como um salto, independente de nossas mais intrigantes elucubrações. Isso significa dizer que não adianta perguntar "por que amar?" ou "amar a quem?", mas simplesmente amar. O jogador de futebol só pode discorrer sobre a importância da pelota se sente o gramado do campo sob seus pés, assim como para o flautista o som de sua flauta deixa de ser mero ruído se ele se abre para a beleza e imensidão da música. Amar algo ou alguém independe de nossas elaborações, mas só conseguimos efetivamente estabelecer a vivência do amor, estar vivendo amorosamente se nos desprendemos das amarras da intelecção cartesiana e nos abrimos num salto, saltamos no escuro, no êxtase de nossa disposição afetiva mesmo sabendo que o inesperado, o inconcluso, o não visto, o impoderável e invisível pode nos afligir, pode nos assustar. Mas Deus e o futuro não são assim??
Em outros textos deste blog já me referi a Heidegger como um pensador romântico, na concepção mais piegas do termo, não enquanto filósofo, mas enquanto homem. Pois parodiando Schopenhauer entendo que que os homens de ideias são também homens de ética; ou seja, é preciso uma disposição ética de querer conhecer a si próprio para querer conhecer o restante do mundo e da vida, que é a disposição do filósofo. Na procura de si próprio Heidegger filosofa tendo em vista o amor que nutriu durante anos por Hannah Arendt, talvez o verdadeiro e grande amor de sua vida. Não obstante a força avassaladora desse amor, Hannah preferiu seguir seu caminho e viver novos amores, casando-se com outra pessoa, tendo em vista que aquele homem mais velho e casado que ela tanto amou em seus encontros secretos, por ela não decidia. A inquietação do amor concretizado, mas não finalizado de Heidegger é a inquietude do dasein. Na dimensão aflitiva da vida somos por vezes chamados por ela a viver novas situações, conhecer novas pessoas, desfrutar de novos relacionamentos, e, sobretudo, abrir-se para novas perspectivas. Essa é a caminhada do filósofo-peregrino na sua vivência de suas ideias, essa é a nossa caminhada nos sucessivos saltos que somos convidados a dar, por uma vida inquieta, que por ser vida tem a função de nos inquietar.
Portanto, nessas curtas linhas o que desejo a essa querida amiga é que viva a sua vida abrindo-se à dimensão misteriosa mas ao mesmo tempo fascinante do dasein. Que possa em sua vivência desfrutar de novas amizades, novos amores, novas possibilidades de trabalho, novos lugares para conhecer, e, quem sabe, novos sabores e saberes de conhecer a si própria numa caminhada em que conhecer o mundo parte de conhecer a si mesmo. Viver acima de tudo, antes de conhecer é o ponto de partida para todo conhecimento, inclusive o conhecimento sobre o amor. Foi com isso que pude tantas vezes reativar o botão play de meu coração que por vezes permanecia na tecla pause ou no stand by, voltando a viver, voltando a me "pré-ocupar".Creio que com isso poderemos, enfim, entender o significado tão deslumbrante de existência, a que se debruçou em sua filosofia Martin Heidegger, e da vida ter bem menos medo dela. Adelante, compañeros!!!
sábado, 3 de julho de 2010
FUTEBOL: Nessa Copa do Mundo, a culpa foi do Mick Jagger e não da Jabulani.
Recordo que há poucos meses atrás, ainda morando em Porto Alegre, atravessei de carro a avenida Érico Verissimo e parei no sinal, próximo ao prédio do jornal Zero Hora. Pela faixa de pedestres notei que a única pessoa que atravessou era um senhor magro, cinquentão, bem alto, calvo, branco e meio enrugado. O sujeito era um cara extremamente conhecido e chegou a ser um dos ídolos do futebol nacional: Paulo Roberto Falcão, craque do Internacional, da seleção brasileira e do Roma.
Ao ver Falcão recordei da seleção de 1982, a clássica equipe de estrelas como Zico, Sócrates, Éder, Júnior e o próprio Falcão, que participou do festivo Mundial da Espanha. A seleção que foi sem nunca ter sido, capitaneada por um saudoso Telê Santana e sua maneira de cortar do esquema tático os laterais de campo (era a época da campanha midiática:"bota ponta, Telê!). A equipe do futebol bonito, uma verdadeira arte, de gols maravilhosos, da promessa de um dream team que honraria o país com o tetracampeonato mundial, após a mitológica conquista do México em 1970. Fazia apenas 12 anos que o Brasil tinha vivido a experiência de ser tricampeão mundial, nos pés de Pelé, Tostão,Rivelino, Jairzinho, Gérson e tantos outros fabulosos jogadores. Eu aguardava com ansiedade ver o Brasil campeão, pela primeira vez em minha vida, já que não havia ainda nascido na conquista de 70, e escutava curioso os feitos daquela seleção tricampeã, nos relatos de meu pai.
Naquele ano de 1982, eu, na minha pré-adolescência, começava a participar da festa futebolística que é uma Copa do Mundo, assistindo as fantásticas partidas disputadas por aquela seleção de sonho. Acompanhei com os olhos marejados o sonho terminar nos pés maldosos de Paolo Rossi, que naquele fatídico dia de julho, no estádio Sarriá, veio a desencantar. Aquele que seria o dia de Rossi, após cumprir uma longa suspensão e redescobrir seu futebol, assim como a Itália redescobriu a taça de campeão, após cinquenta anos. Parecia ser a vingança da Azurra, pela derrota sofrida por goleada nas mãos da seleção de Pelé, em 70.
Não gosto das quartas de final. Pra mim é a fase crítica de uma Copa do Mundo, onde as esperanças e os sonhos podem ir por água abaixo. É a fase crítica, o momento intermediário de um Mundial que irá definir quais equipes terão chances reais de conquistar um campeonato. Após as quartas somente quatro seleções poderão ostentar o título de serem as melhores do mundo naquele ano, e por isso, assisti a tantas quartas de final que o Brasil perdeu. Pra que chegar tão longe pra depois morrer na praia, numa quartas de final?
Pois foi nas quartas de final que a seleção de Telê e Zico descobriu o fracasso. Mesmo fracasso repetido nos pênaltis contra a França em 1986 na segunda Copa no México, e no mundial de 2006, também contra a França (arggg, os franceses de novo) num melancólico 1 x 0 para os franceses.
Pois agora, perdemos de novo nas quartas, desta vez para a Holanda. Justiça seja feita, a Holanda foi melhor e soube superar um trauma de duas Copas perdidas, exatamente nos pés de brasileiros. Com a derrota da Copa da África encerra-se, sem júbilo, a atormentada "Era Dunga". Pois é, o técnico e ex-jogador Dunga já era! Justiça seja feita, a Holanda tem um débito histórico a sanar indo novamente a uma semifinal de Copa, e Dunga, seja como treinador ou jogador, encerrou sua carreira da forma como começou: debaixo de polêmica e de uma saraivada de críticas.
Em artigo anterior neste blog, tratando da Copa da África, elogiei a coerência de Dunga na escalação de seus jogadores, sem que, com isso, eu dissesse que a seleção era boa. Não é esse o caso. Segundo o ex-jogador holandês Cruyff, craque da Copa de 74, em reportagem publicada pelo jornal O Globo, o futebol da seleção brasileira hoje peca pela falta de magia, pelo esquema burocrático e sem graça montado por Dunga. Ele tem razão. Na verdade, Dunga montou um time à imagem e semelhança de seu mentor na Copa de 94, Carlos Alberto Parreira. O mesmo que conduziu os sofridos Bafana Bafana sul-africanos à derrota, e que mostrou ao mundo um vexame histórico, ao liderar o pior fiasco de um time anfitrião em mundiais, e de ter seu aperto de mão recusado pelo também derrotado técnico da França, Raymond Dommenech. Mesmo com o tetracampeonato brasileiro conquistado à duras penas em 1994, nos Estados Unidos, nos pés da dupla Romário e Bebeto, Parreira nunca me convenceu. E ficou sem me convencer mais ainda com a empáfia da seleção que perdeu vergonhosamente para a França em 2006, após o júbilo anterior do pentacampeonato com a "família Scolari" e a redenção de Ronaldo Fenômeno. Essas quartas de final que nunca me saem das costas, como uma maldição.
Se perder é aprendizado, ao menos nesta Copa tiramos sábias lições quanto à ignorância humana e a voracidade capitalista, no comércio e difusão das horrorosas e barulhentas vuvuzelas. Essa Copa foi o torneio da vuvuleza, a Copa da Jabulani. E num torneio bem controvertido, não pelo preconceito contra o continente africano, mas pela desorganização mesmo, vimos toda a polêmica em torno da bola utilizada na competição: a já folclórica Jabulani, a temperamental bola que nunca é chutada na direção que se quer, e que parece ter vida própria. Essa Copa, que não terminou ainda, já ficou na história por conta de suas vuvuzelas e jabulanis, mas também pelo futebol bonito da seleção da Alemanha. Pois é! A Alemanha fazendo futebol bonito??? Mein Gott!! Mas isso não era atributo de sul-americano. Na Copa da terra do Mandela vimos, ao contrário, o colonizador branco europeu dar as cartas novamente no tabuleiro do mundo, seja com a derrota do Brasil para a Holanda, a desclassificação de todas as equipes africanas ainda na primeira fase do torneio (com exceção honrosa de Gana), e a tragédia argentina, com ares de tango, pela histórica goleada germânica nos pés de Klose, Podolski e tantos outros chucrutes talentosos e habilidosos com a jabulani. E olha que o craque deles, Ballack, nem foi pra Copa, por conta de uma contusão.
A vergonha brasileira só não foi maior que a vergonha italiana, francesa e inglesa, ou o vexame argentino, demonstrando o que já sabíamos: Maradona como treinador é somente um bom beijoqueiro. Sim, essa também foi a Copa em que antigos campeões beijaram a lona da forma mais massacrada possível. A seleção francesa sequer fez um gol, a da Itália, foi sonolenta até o último minuto, quando descobriu a necessidade de ganhar já tardiamente, quando a inexpressiva Eslovênia fez os azurri chorarem envergonhados, voltando antecipadamente pra casa, com seus ternos armani amarrotados pela atuação pífia e ridícula.
Mas não dá pra lavar a roupa suja falando mal só dos outros. Nós, brasileiros, fomos sim mal representados pela equipe de Dunga, pagamos o pato de ter um técnico inseguro e imaturo no comando de uma seleção. Achei até heroica a atitude de Dunga de peitar os meios de comunicação, desafiando a toda poderosa Rede Globo, literalmente batendo a porta na cara de Fátima Bernardes, para ódio de William Bonner e Cia, negando a entrada da imprensa nos treinos da seleção; mas a forma como ele se expôs ao mundo é que foi deselegante, bisonha e até risível, com sua ira fora do lugar, seus acessos de fúria durante as partidas, e sua xingada em jornalistas nas coletivas da imprensa. Essa Copa vai ser também o torneio do técnico mais bizarramente mal vestido, como o caso de nosso Dunga, com seu sobretudo futurista, desenhado pelo estilista retrô Alexandre Hercovitch. É a Copa do "Cala Boca Galvão", da ascensão do twitter como ferramenta útil para defenestrar locutores chatos, difundindo uma campanha cívica para que os brasileiros mudassem de canal, como forma de quebrar o monopólio da Globo na trasmissão da competição. Apesar de que, Galvão Bueno já conseguiu para a próxima Copa do Mundo um sucessor à altura, o também insuportável mas com pinta de galã, Tadeu Schimitt.
Se a Copa da África do Sul não vai deixar saudade para o torcedor brasileiro, ao menos descobrimos um novo talismã ao contrário, na hora de torcer pela derrota do time adversário: Mick Jagger. O eterno rolling stone, com cadeira cativa em todos os jogos importantes do Mundial,praticamente presenciou a derrota de todos os times que foi assistir e torcer: como a sua Inglaterra natal; Portugal, que levou outro canastrão da bola, Cristiano Ronaldo, de volta mais cedo pra casa; a própria seleção brasileira, na vergonhosa derrota para a Holanda; e a Argentina, essa sim que verdadeiramente se f... na goleada imposta pela Alemanha. Resta saber quem Jagger vai torcer na final do Mundial. Na minha opinião, tomara que seja pela Alemanha.
Pois é! Não adianta reclamar ou chorar. Nesta Copa do Mundo, Dunga e Maradona, Kaká e Messi encontram-se no mesmo barco, na qualidade de craques somente em seus próprios times, mas nunca verdadeiramente numa seleção nacional, ambos de volta para casa antes do fim da festa, e todos vestindo a mesma camisa, com um nome em letras garrafais bem estampado: vergonha. Só não vem torcer pelo meu Botafogo! Viu, Seu Mick Jagger!!!! Até 2014!!
Ao ver Falcão recordei da seleção de 1982, a clássica equipe de estrelas como Zico, Sócrates, Éder, Júnior e o próprio Falcão, que participou do festivo Mundial da Espanha. A seleção que foi sem nunca ter sido, capitaneada por um saudoso Telê Santana e sua maneira de cortar do esquema tático os laterais de campo (era a época da campanha midiática:"bota ponta, Telê!). A equipe do futebol bonito, uma verdadeira arte, de gols maravilhosos, da promessa de um dream team que honraria o país com o tetracampeonato mundial, após a mitológica conquista do México em 1970. Fazia apenas 12 anos que o Brasil tinha vivido a experiência de ser tricampeão mundial, nos pés de Pelé, Tostão,Rivelino, Jairzinho, Gérson e tantos outros fabulosos jogadores. Eu aguardava com ansiedade ver o Brasil campeão, pela primeira vez em minha vida, já que não havia ainda nascido na conquista de 70, e escutava curioso os feitos daquela seleção tricampeã, nos relatos de meu pai.
Naquele ano de 1982, eu, na minha pré-adolescência, começava a participar da festa futebolística que é uma Copa do Mundo, assistindo as fantásticas partidas disputadas por aquela seleção de sonho. Acompanhei com os olhos marejados o sonho terminar nos pés maldosos de Paolo Rossi, que naquele fatídico dia de julho, no estádio Sarriá, veio a desencantar. Aquele que seria o dia de Rossi, após cumprir uma longa suspensão e redescobrir seu futebol, assim como a Itália redescobriu a taça de campeão, após cinquenta anos. Parecia ser a vingança da Azurra, pela derrota sofrida por goleada nas mãos da seleção de Pelé, em 70.
Não gosto das quartas de final. Pra mim é a fase crítica de uma Copa do Mundo, onde as esperanças e os sonhos podem ir por água abaixo. É a fase crítica, o momento intermediário de um Mundial que irá definir quais equipes terão chances reais de conquistar um campeonato. Após as quartas somente quatro seleções poderão ostentar o título de serem as melhores do mundo naquele ano, e por isso, assisti a tantas quartas de final que o Brasil perdeu. Pra que chegar tão longe pra depois morrer na praia, numa quartas de final?
Pois foi nas quartas de final que a seleção de Telê e Zico descobriu o fracasso. Mesmo fracasso repetido nos pênaltis contra a França em 1986 na segunda Copa no México, e no mundial de 2006, também contra a França (arggg, os franceses de novo) num melancólico 1 x 0 para os franceses.
Pois agora, perdemos de novo nas quartas, desta vez para a Holanda. Justiça seja feita, a Holanda foi melhor e soube superar um trauma de duas Copas perdidas, exatamente nos pés de brasileiros. Com a derrota da Copa da África encerra-se, sem júbilo, a atormentada "Era Dunga". Pois é, o técnico e ex-jogador Dunga já era! Justiça seja feita, a Holanda tem um débito histórico a sanar indo novamente a uma semifinal de Copa, e Dunga, seja como treinador ou jogador, encerrou sua carreira da forma como começou: debaixo de polêmica e de uma saraivada de críticas.
Em artigo anterior neste blog, tratando da Copa da África, elogiei a coerência de Dunga na escalação de seus jogadores, sem que, com isso, eu dissesse que a seleção era boa. Não é esse o caso. Segundo o ex-jogador holandês Cruyff, craque da Copa de 74, em reportagem publicada pelo jornal O Globo, o futebol da seleção brasileira hoje peca pela falta de magia, pelo esquema burocrático e sem graça montado por Dunga. Ele tem razão. Na verdade, Dunga montou um time à imagem e semelhança de seu mentor na Copa de 94, Carlos Alberto Parreira. O mesmo que conduziu os sofridos Bafana Bafana sul-africanos à derrota, e que mostrou ao mundo um vexame histórico, ao liderar o pior fiasco de um time anfitrião em mundiais, e de ter seu aperto de mão recusado pelo também derrotado técnico da França, Raymond Dommenech. Mesmo com o tetracampeonato brasileiro conquistado à duras penas em 1994, nos Estados Unidos, nos pés da dupla Romário e Bebeto, Parreira nunca me convenceu. E ficou sem me convencer mais ainda com a empáfia da seleção que perdeu vergonhosamente para a França em 2006, após o júbilo anterior do pentacampeonato com a "família Scolari" e a redenção de Ronaldo Fenômeno. Essas quartas de final que nunca me saem das costas, como uma maldição.
Se perder é aprendizado, ao menos nesta Copa tiramos sábias lições quanto à ignorância humana e a voracidade capitalista, no comércio e difusão das horrorosas e barulhentas vuvuzelas. Essa Copa foi o torneio da vuvuleza, a Copa da Jabulani. E num torneio bem controvertido, não pelo preconceito contra o continente africano, mas pela desorganização mesmo, vimos toda a polêmica em torno da bola utilizada na competição: a já folclórica Jabulani, a temperamental bola que nunca é chutada na direção que se quer, e que parece ter vida própria. Essa Copa, que não terminou ainda, já ficou na história por conta de suas vuvuzelas e jabulanis, mas também pelo futebol bonito da seleção da Alemanha. Pois é! A Alemanha fazendo futebol bonito??? Mein Gott!! Mas isso não era atributo de sul-americano. Na Copa da terra do Mandela vimos, ao contrário, o colonizador branco europeu dar as cartas novamente no tabuleiro do mundo, seja com a derrota do Brasil para a Holanda, a desclassificação de todas as equipes africanas ainda na primeira fase do torneio (com exceção honrosa de Gana), e a tragédia argentina, com ares de tango, pela histórica goleada germânica nos pés de Klose, Podolski e tantos outros chucrutes talentosos e habilidosos com a jabulani. E olha que o craque deles, Ballack, nem foi pra Copa, por conta de uma contusão.
A vergonha brasileira só não foi maior que a vergonha italiana, francesa e inglesa, ou o vexame argentino, demonstrando o que já sabíamos: Maradona como treinador é somente um bom beijoqueiro. Sim, essa também foi a Copa em que antigos campeões beijaram a lona da forma mais massacrada possível. A seleção francesa sequer fez um gol, a da Itália, foi sonolenta até o último minuto, quando descobriu a necessidade de ganhar já tardiamente, quando a inexpressiva Eslovênia fez os azurri chorarem envergonhados, voltando antecipadamente pra casa, com seus ternos armani amarrotados pela atuação pífia e ridícula.
Mas não dá pra lavar a roupa suja falando mal só dos outros. Nós, brasileiros, fomos sim mal representados pela equipe de Dunga, pagamos o pato de ter um técnico inseguro e imaturo no comando de uma seleção. Achei até heroica a atitude de Dunga de peitar os meios de comunicação, desafiando a toda poderosa Rede Globo, literalmente batendo a porta na cara de Fátima Bernardes, para ódio de William Bonner e Cia, negando a entrada da imprensa nos treinos da seleção; mas a forma como ele se expôs ao mundo é que foi deselegante, bisonha e até risível, com sua ira fora do lugar, seus acessos de fúria durante as partidas, e sua xingada em jornalistas nas coletivas da imprensa. Essa Copa vai ser também o torneio do técnico mais bizarramente mal vestido, como o caso de nosso Dunga, com seu sobretudo futurista, desenhado pelo estilista retrô Alexandre Hercovitch. É a Copa do "Cala Boca Galvão", da ascensão do twitter como ferramenta útil para defenestrar locutores chatos, difundindo uma campanha cívica para que os brasileiros mudassem de canal, como forma de quebrar o monopólio da Globo na trasmissão da competição. Apesar de que, Galvão Bueno já conseguiu para a próxima Copa do Mundo um sucessor à altura, o também insuportável mas com pinta de galã, Tadeu Schimitt.
Se a Copa da África do Sul não vai deixar saudade para o torcedor brasileiro, ao menos descobrimos um novo talismã ao contrário, na hora de torcer pela derrota do time adversário: Mick Jagger. O eterno rolling stone, com cadeira cativa em todos os jogos importantes do Mundial,praticamente presenciou a derrota de todos os times que foi assistir e torcer: como a sua Inglaterra natal; Portugal, que levou outro canastrão da bola, Cristiano Ronaldo, de volta mais cedo pra casa; a própria seleção brasileira, na vergonhosa derrota para a Holanda; e a Argentina, essa sim que verdadeiramente se f... na goleada imposta pela Alemanha. Resta saber quem Jagger vai torcer na final do Mundial. Na minha opinião, tomara que seja pela Alemanha.
Pois é! Não adianta reclamar ou chorar. Nesta Copa do Mundo, Dunga e Maradona, Kaká e Messi encontram-se no mesmo barco, na qualidade de craques somente em seus próprios times, mas nunca verdadeiramente numa seleção nacional, ambos de volta para casa antes do fim da festa, e todos vestindo a mesma camisa, com um nome em letras garrafais bem estampado: vergonha. Só não vem torcer pelo meu Botafogo! Viu, Seu Mick Jagger!!!! Até 2014!!
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Até quando teremos que ver isso?







