quarta-feira, 16 de março de 2011

TRAGÉDIA: O dia em que todo o mundo virou japonês!

O NHK é um dos canais mais pitorescos da TV por assinatura. É a emissora japonesa mais conhecida do mundo, ofertada em vários pacotes de canais de televisão em TV fechada. Chega a rivalizar com sua célebre colega do Oriente Médio, a Al Jazeera, mas é muito curioso assisti-la aqui no Brasil. Afinal, fora a comunidade japonesa e de descendentes de orientais que residem em bairros como a Liberdade, em São Paulo, ninguém entende uma palavra do que se diz!

Pois eis que o NHK chamou mais uma vez a atenção do público, desta vez não por uma curiosidade cultural, mas sim por divulgar as espetaculares e arrasadoras cenas do último terremoto e dos tsunamis que se abateram sobre o Japão na semana passada. Como se não bastasse ter sofrido o mais violento e pior terremoto de sua história moderna, que provocou no mar ondas gigantescas que devastaram cidades e povoados inteiros, o povo japonês ainda vive sob a iminência de uma catástrofe nuclear, devido as usinas nucleares, próximas à costa, atingidas pelos devastadores tremores de terra. Não bastou Hiroshima e Nagasaki, agora o povo da terra do sol nascente corre o risco de viver uma nova Chernobyl!

Desde criança, quando somos advertidos em sala de aula sobre a necessidade de bom comportamento e disciplina, vemos um ou outro professor (geralmente de história ou geografia) falar da dedicação e da disciplina do povo japonês, que fez com que eles reconstruíssem um império destruído na II Guerra, e se tornassem uma das nações capitalistas mais ricas do planeta. Desde os seriados de TV, com seus Nacional Kid, Ultraman, Espectroman e Jaspion, passando por Pokemon, Dragon Ball Z, mangás, animês, hentais, os poemas haikay, e os filmes de artes marciais, além do sushi e sashimi comido nos restaurantes, a cultura japonesa invadiu o imaginário pop, fazendo com que nos acostumássemos com aqueles sorridentes turistas amarelos, dos olhos puxados, sempre com uma câmera fotográfica enrolada no pescoço, e com um jeito de falar engraçado, que nos lembra da sabedoria milenar de uma terra que já foi povoada por shoguns e samurais. Havia um lema jocoso nos banheiros da USP, segundo comentários de vestibulandos da FUVEST, zombando da forte concorrência estabelecida nos cursos de engenharia pelos descendentes de japoneses, na disputa de vagas da universidade: "mate um japa e ganhe uma vaga!". Isso denota bem a crença de que o povo japonês sempre foi extremamente dedicado, aguerrido em seus propósitos, ordeiro e até certo ponto comedido, na temperança cultivada com os ensinamentos do budismo e do xintoísmo.

Pois essa mesma mansidão e disciplina agora está sendo posta à prova, diante do cataclisma que se abateu sobre o arquipélago japonês, localizado numa área repleta de falhas geológicas, entre placas tectônicas conflitantes, que já fazem dos abalos sísmicos um cotidiano de um povo habituado com tremores de terra, por séculos e séculos. Sabe-se que no Japão, a população é rotineiramente treinada para lidar com terremotos e que as construções feitas no solo japonês tem a melhor qualidade do mundo, pelo seu nível de estabilidade e segurança, capazes de suportar abalos terríveis em sua estrutura. Mas será de que desta vez os japoneses estão preparados para tamanho infortúnio? No saldo final do último terremoto de 8.9 na escala Richter (considerado de proporções apocalípticas), ainda se contabilizam mais de 3.000 mortos, sem contar os desaparecidos, e o pior ainda está por vir: uma crise de abastecimento, com falta maciça de alimentos, por conta do tsunami surgido com o terremoto, ter alagado praticamente 1/3 das terras irrigáveis no Japão. Tragédia pouca é bobagem!

Ouve-se o "sábio" dito popular de que o brasileiro é um povo abençoado, porque aqui podemos ter de tudo: enchentes, queimadas, fome, miséria, os mais corruptos políticos e a mais rasteira criminalidade; mas ao menos não temos desastres naturais que afetam outros povos, como terremotos e furacões. Mas como será que está a situação de milhares de brasileiros, muitos deles dekasseguis (descedentes de japoneses, nascidos no Brasil, que decidem voltar à terra de seus ancestrais, em busca de trabalho e melhores condições de vida)? Conheço algumas pessoas, filhos e netas de japoneses,  e acredito que muitos que leem este blog também conheçam, e me pergunto o que dizer para essas pessoas quando a terra de seus familiares é abatida por um acontecimento horroroso, de tamanha proporção, e só resta a eles acompanhar de forma sofrida o noticiário. Ano passado, testemunhamos o sofrimento dos chilenos no terremoto no Chile, e depois com seus mineiros enterrados, e no trágico abalo no Haiti, vimos que a tragédia natural matou centenas, milhares de pessoas, numa proporção catastrófica, até mais do que são dizimadas populações inteiras em grandes guerras, e onde brasileiros ilustres perderam a vida, como a militante social Zilda Arns, além de muitos militares brasileiros (vide comentário sobre o terremoto no Haiti, escrito no ano passado, neste blog). Agora, pudemos apenas assistir como expectadores atônitos, com um frio na barriga, os dantescos acontecimentos no Japão, diante de cenas que beiram o pesadelo, numa situação em que podemos pensar:"puxa, isso poderia estar acontecendo aqui, comigo".

A meu ver, não resta outro caminho, diante da tragédia inevitável, do que a solidariedade. Sim, a boa e velha palavra bonita e manjada chamada solidariedade. Alguns mais caústicos, de humor ácido ou que simplesmente manifestam sua revolta, podem dizer que é falta do que fazer escrever sobre as vítimas do terremoto no Japão, mas, como cristão e humanista (lá vem as minhas autorotulações!), eu sempre chamo atenção para uma postura minimamente sensível, que podemos ter diante de tragédias como essa, que abatem o povo japonês; pois o sofrimento não é um sentimento exclusivo e próprio, exibido egoísticamente como unicamente nosso, com direito a exibir uma nota de compra ou um título de propriedade, dizendo que nós é que temos que chorar os nossos mortos, e os outros que se danem. É verdade que temos as nossas vítimas das enchentes, enxurradas e desabamentos aqui para chorar, mas sempre temos também um sentimento universal que nos diferencia enquanto gênero humano: a capacidade de se compadecer e compartilhar a dor da outro.

Acredito que os blogs, como qualquer outro meio de comunicação, também tem o seu papel social, e, diante disso, junto-me ao movimento de solidariedade e apoio às vítimas do terremoto e dos tsunami no Japão, enviando aqui alguns endereços e e-mails, sob respaldo da Aliança Cultural Brasil-Japão, a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo, a Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil, além de muitas outras organizações,  fornecendo conta bancária e contatos, para aqueles que se interessarem em contribuir com as vítimas da catástrofe japonesa, a partir dos seguintes dados:

e-mail: contato@bunkyo.org.br e telefone (11)3208-1755, assim como no endereço eletrônico info@kenren.org.br e nos números (11)3277-8569, (11)3277-6108 e (11)3399-4416.  Também é possível obter informações pelo e-mail: enkyodiretoria@enkyo.org.br e os telefones (11) 3274-6482, (11) 3274-6484, (11) 3274-6489 e (11) 3274-6507.

Bradesco - agência: 0131-7, contas-correntes 112959-7 e 131.000-3; Santander, agência: 4551, conta-corrente:130900004-4; Banco do Brasil, agência: 1196-7, conta-corrente 29921-9

Naturalmente, quem se interessar, ligue e confirme os dados, a fim de dar essa grande e importante contribuição para o povo japonês. Como fazem os budistas em suas meditações, proferindo as palavras rituais que atraem energias positivas e harmonia diante do sofrimento, entôo o daymoko: Nam-Myoho-Rengue-Kyo . Boa sorte, Japão!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

LIVROS: O incêndio no Cata Livros não transforma nossa memória em cinzas.

Cheguei para morar na cidade de Natal em 1987, e desde então oscilei minhas moradias num curto período em outras cidades (São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro), mas sempre, nesses intervalos, voltei a "Cidade do Sol". Recordo que em 87 eu era apenas um adolescente secundarista, vindo de Brasília, com seus primeiros discos do Legião Urbana debaixo do braço, totalmente deslocado na nova cidade, que achava (e ainda considero) extremamente provinciana. Tinha poucos amigos, passei meses morando numa cidade de interior, vindo para Natal pra estudar, e nas tentativas de um garoto tímido, de se ambientar na cidade, meu achado foram os sebos.

A palavra "sebo", apesar da denotação grosseira, faz referência aos primeiros estabelecimentos de livros usados, surgidos na Europa do Renascimento e fundados no Rio de Janeiro, no final do século XIX. Para alguns, o termo foi empregado para designar lugares que ainda não tinham luz elétrica, e a cêra das velas acesas para leitura acabava engordurando as páginas dos livros. Outros, consideram que sebo é um termo empregado para definir um livro velho, que já passou por várias mãos. De qualquer forma, sempre gostei desses lugares simples, meio empoeirados, onde a passagem do tempo congelou, entre livros, discos, revistas, gibis e coleções antigas. Até me lembro de um personagem dos livros do escritor Garcia Rosa, o delegado Espinoza, o qual me identifico, que em suas estórias, gostava de sair da delegacia e perambular pelos sebos. Depois das bibliotecas, os sebos para mim são os verdadeiros templos da cultura.

Eu já frequentava sebos atrás de estórias em quadrinhos que eu colecionava, no antigo Mercado de São Brás, em Belém do Pará, uma das cidades que residi na infância. Quando cheguei em Natal, nos meus momentos de solidão após o colégio, e, como disse, tentando me acostumar com a nova realidade e a nova cidade, descobri no bairro do Alecrim um simpático e pequeno sebo, ocupado então por um rapaz fortão e barbudo, chamado Jácio Torres. A memória já falha e não me lembro do nome do sebo na época; mas recordo que logo fiz amizade com aquele sujeito simpático, meio bonachão, com seus óculos de grau e jeito meio hippie, que com extrema simplicidade e simpatia atendia seus clientes, que logo percebi ser formada por uma fauna o mais diversificada de indivíduos de todas as partes da cidade; desde intelectuais, jornalistas, estudantes, até funcionários públicos, passando por artistas, donas de casa proletarizadas, que procuravam livros didáticos mais baratos, para atender à demanda de material escolar para seus filhos, assim como estudantes de cursinhos vestibulares ou concursos, procurando material para estudos.

Foi no sebo de Jácio que conheci desde coleções completas de obras de gênios da música, de composições clássicas de Bach a Mozart, até discos de Jimmy Hendrix, Bob Dylan e Janis Joplin. Vi e adquiri livros raríssimos, como uma edição encadernada, dos anos quarenta, em dois volumes, de Crime e Castigo, de Dostoievski, com sua capa dura velha e páginas amareladas, que ainda guardo na minha estante, sob os protestos de minha esposa, que não gosta que eu guarde coisas velhas (vá entender as mulheres!). De qualquer forma, com o passar dos anos, acompanhei a evolução de Jácio, junto com seus familiares, no negócio de sebos, e à medida que eles foram desenvolvendo seu trabalho, também fui me afastando. A última boa recordação que tenho daquele período, foi quando Jácio, acompanhado da esposa Vera, migraram para a Cidade Alta, e montaram um sebo cujo nome viria a se tornar antológico na cena cultural natalense: o Cata Livros.

Percebi que com os sebos, Jácio e seus familiares demonstravam não apenas um tino comercial para a venda de livros usados, mas sim uma verdadeira paixão pela cultura, e pelo resgate da memória intelectual, através da gostosa tarefa de viver entre amontoados de livros, discos e vídeos. Além de sua amável esposa, Vera, conheci e fiz amizade com os irmãos de Jácio (Janilson e Jailton, se não me falha a memória, que durante anos, mantiveram juntos um sebo no campus da UFRN), conheci o patriarca, Seu Torres, com seu sebo simpático montado no Camelódromo da Cidade Alta, assim como a irmã de Jácio, Jane. Fiz amizade de forma cordial e espontânea com todos, e os guardo na memória assim como guardo os livros, e os bons momentos que eles me fizeram recordar da juventude, passeando por entre os sebos, folheandos livros e revistas. Fazia um bom tempo que eu não tinha notícias deles.



Eis que nessa semana, enquanto eu arrumava minhas caixas de livros, ainda não retirados de minhas viagens, escuto minha mãe falando de um sebo que havia pegado fogo, num triste fato comunicado pela imprensa e cujo dono estava aceitando doações. Num primeiro momento, não me dei conta que se tratava do sebo do Jácio, até ler uma reportagem do jornal Tribuna do Norte. Fiquei pasmo e entristecido com o infortúnio que acometeu o antigo amigo da epopéia sebista, e antes de me dirigir até o local onde ele se encontra, decidi escrever esta homenagem. Diante das cinzas e da ruína que parte os corações, vendo tantos livros, obras raras e manuscritos destruídos, escrevendo neste blog, resolvi fazer o meu tributo ao Cata Livros e ao legado da família Torres.

Entendo que o Rio Grande do Norte (assim como todos os estados e regiões do Brasil) tem sua riqueza e diversidade cultural preservadas não por iniciativa do poder público (que, por sinal, nesse quesito é medíocre), mas sim pelo empenho carinhoso e pela dedicação de pessoas verdadeiramente devotadas à preservação da memória artística e intelectual de nosso povo, como são sujeitos do perfil de Jácio Torres. Estou inteiramente solidário a Jácio e sua família quanto à tragédia que se acometeu sobre sua maior paixão: os livros. Como também sou um apaixonado por livros, sinto na pele e no coração a tristeza de ver tanto trabalho desperdiçado sob as chamas de um trágico acidente, mas esse coração também se comove com as centenas de pessoas que estão indo ao encontro do sebista potiguar, doando livros, vindos de todas as regiões do país, refazendo o acervo do Cata Livros, numa campanha belíssima que faz meus olhos marejarem. Sei do bom humor, do otimismo e da disposição para o trabalho de Jácio e de sua esposa Vera, e tenho certeza de que, logo, em bem curto espaço de tempo, se o irrecuperável não pode mais ser resgatado, ao menos obras belíssimas Deus irá operar na vida desse simpático casal, montando um acervo de livros e discos muito melhor e maior, e de mais beleza ainda, pois aquilo que é construído com paixão não morre nunca. Convido nesse momento a todos, que leem este blog ou que tiverem notícia do que aconteceu com o sebo Cata Livros, que, se desejarem, efetuem também suas contribuições, doando livros, discos, filmes e o que acharem de mais interessante, para renovar esse importante espaço cultural de Natal. É só pegar o número dos telefones que tem na foto acima (lembre-se que o DDD de Natal é 84).Acredito que não é apenas um homem trabalhador como Jácio que merece isso, mas todo o povo potiguar.

Em relação ao sentimento pessoal que tenho pela perda do amigo Jácio, parodio aqui o eterno Raul Seixas, um dos músicos preferidos do sebista, cantando junto com ele que não desanime, e bola pra frente, pois: sonho que se sonha só, é apenas um sonho que sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade. Um grande abraço, Jácio e Vera!!! Boa sorte e que Deus os abençoe!!!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

REALITY SHOW: "Rupaul e a Corrida das Loucas" é a introdução do gay politicamente correto na TV.

Rupaul Andre Charles é um ator, cantor e transformista californiano que fez muito sucesso na comunidade gay nos anos 90, com o disco Supermodel of the World. Hoje em dia, o cinquentão Rupaul não saí da ribalta e permanece ativo na TV, enchendo as noites de cada semana, com  muito glitter, purpurina, lantejoulas e música para boates. Como dragqueen-mor de um programa de TV, Rupaul conseguiu se manter em evidência através de seu divertido "Corrida das Loucas" (Rupaul's Drag Race), apresentado na TV por assinatura, pelo canal VH1. No programa, o astro transformista seleciona 12 dragqueens norte-americanos, para disputar o primeiro lugar da corrida e obter o prêmio maior de U$ 25 mil, um fornecimento vitalício de cosméticos, além de contratos publicitários milionários (dentre eles, o de representar nas propagandas, a famosa marca de  vodka Absolut). Em síntese, na competição, os candidatos a maior dragqueen da América tem que saber se maquiar, produzir sua própria roupa transformando cortinas e tapetes em vestidos de noite, dançar, posar para fotos, sair pelas ruas fazendo perfomances, participar de comerciais e, sobretudo, fazer o que toda dragqueen de respeito sabe fazer, para honrar o nome: dublar. É através de uma pesquisa em boates, clubes, casas de espetáculos e festas da comunidade gay, que Rupaul recruta e seleciona seus pupilos, num programa que se tornou um grande sucesso de audiência nos Estados Unidos, e que já está na sua segunda temporada no Brasil, aguardando uma terceira.

O que parece, à primeira vista, um festival de besteiras e futilidades pra quem aprecia um pouco de cultura (será que tem mesmo?) na televisão, tendo em vista que os reality show, hoje, na nossa realidade, não são mais novidade (vide o tosco Pedro Bial e seu enjoativo Big Brother Brazil, na rede Globo), o bom de "Corrida das Loucas" não são as provas da competição em si (apesar de que todas, na verdade, são bem divertidas), mas sim seus bastidores, quando são observados os competidores sem maquiagem, e é analisado, pelos espectadores, o perfil de cada participante. Para os meus amigos da psicologia e da sociologia, interessante é notar o quanto o programa dá boas teses acerca de comportamento humano e convívio social, quando quem assiste o programa é convidado a conhecer mais de perto o universo gay, e os dramas e peripércias por quem vive neste mundo. Logo se percebe que os jovens rapazes que concorrem ao prêmio máximo de estrela drag, foram todos pessoas que, em 99% dos casos, descobriram-se homossexuais ainda na adolescência, tiveram uma série de dificuldades emocionais e sociais por conta disso, e se valeram da arte, do potencial artístico de se vestir de mulher, saber dançar e cantar, para driblar o preconceito, o desprezo familiar e a prostituição. No discurso de todos é possível notar menções recorrentes à figura materna, como acolhedora ou principal fonte de influência, e zero de comentários à figura do pai, num contraste que revela seu drama pessoal. Na verdade, o que o programa de Rupaul faz é humanizar a figura da dragqueen, mostrando realmente quem são aquelas pessoas debaixo de toneladas de perucas, enchimentos e maquiagem, revelando garotos que só querem sobreviver, vencer na vida e provar para o mundo que são capazes e podem se firmar como artistas.

Em Rupaul's Drag Race temos tipos altamente pitorescos: a gordinha Mystique; a latina Jessica Wild (um portoriquenho com problemas de idioma); a ensimesmada Sonique, a altiva Tyra (que desperta a antipatia das colegas); a ambiciosa Raven (com seu porte atlético e tatuagens); a pueril  Tattiana(um rapazote com cara de nerd, que ao se transformar, revela uma beleza de extrema feminilidade), a sempre alegre (mas nem sempre elegante) Pandora, a asiática e intelectualizada Jujubee, a desengonçada Nicole, a dedicada Morgan e a sem noção Sahara . O que esses garotos tem em comum, além do talento nos palcos, é a habilidade de superar todas as críticas que possam ser feitas acerca da condição deles. Naturalmente, numa visão chauvinista, tudo é "pura viadagem" ; mas para quem curte (principalmente mulheres) moda, maquiagem, música dançante ou simplesmente quer dar umas boas risadas, o programa de Rupaul é altamente divertido, por conta de sua excentricidade.

Temos uma paixão pelo burlesco, pelo kitsch, pelo exagero, caricato, carnavalesco ou algo que explora uma dimensão menos séria e mais lúdica de nossas personalidades. O universo das dragqueens é assim, circense, performático, como algo que não vem propriamente para chocar (como era, outrora, para horror do tradicionalismo, um homem se vestir de mulher), mas sim para animar a festa, como uma "ode a Dionísio", como uma celebração da alegria, em tempos de pesado preconceito, intolerância e cultura do ódio. As dragqueens celebram a alegria, dançando e cantando, dublando os seus ídolos, exibindo um glamour fake, de homens que sabem que não são mulheres, mas que exploram toda a feminilidade como uma via de expressão estética. Quem acha que curtir um programa de TV que mostra dragqueens é uma forma de apelação ou falta do que fazer, então digo que os japoneses também deveriam ser recriminados, por durante séculos apreciarem o teatro kabuki, onde não há a participação de mulheres, e alguns atores se vestem de mulher, maquiando-se, para interpretar seus personagens.

 Não me envergonho e não tenho o menor pudor de dizer que assisto ao programa de Rupaul, acompanhado de minha esposa (que não perde um episódio); pois meu olhar sobre um reality show envolvendo dragqueens é completamente assexuado, bem diferente da baixaria protagonizada por Pedro Bial e seu programa similar na Rede Globo, ao forçar a barra colocando uma travesti para competir (e dar em cima), dos incautos competidores homens do Big Brother. Na Corrida das Loucas, apesar do nome, o que vemos é menos um discurso sexista ou pró-gay, do que um grupo de meninos que se vestem como garotas, como parte de uma perfomance artística, que querem ser reconhecidos pelo seu trabalho e que estão pouco se lixando para os olhares conservadores e preconceituosos, que veem o Diabo em tudo, principalmente na opção alheia. Ou vocês vão me dizer que ninguém achou legal ou já assistiu na Sessão da Tarde, o filme australiano dos anos noventa, Priscila-a Rainha do Deserto, e não achou o maior barato?Nos dizeres de Rupaul, sempre ao final de seus programas,  ao som de Jealous of my Boogie (canção-tema do programa, de autoria do próprio apresentador), a Corrida das Loucas na verdade é um programa sobre amor-próprio, sobre como amar a si mesmo, apesar das adversidades e fazer valer suas opções, mesmo que os outros não as respeitem ou concordem com elas, para conquistar sua dignidade. Por isso, digo junto com Rupaul ao final de cada episódio: "Amém!".

EGITO: Revoluções por minuto-na tela do seu celular,no twitter ou olhando pela TV!

Hosni Mubarack é um tirano! Até pela cara feia dele, olhando pela TV, podemos reparar nisso (apesar de que quem vê cara, não vê coração). Durante 18 dias, o Egito e o noticiário do mundo todo foram sacudidos por um gigantesco levante popular, que cobrou democracia e a saída do velhor ditador, de 82 anos, do poder. Parece que 30 anos foi tempo suficiente para que toda uma juventude, crescida e educada conhecendo apenas um governante, enchesse o saco, e quisesse botar o velho faraó para correr. Mubarack já vai tarde! Mas quem vai ficar no poder?


Um dos maiores estudiosos da causa árabe, do pan-arabismo e da história das lutas anticoloniais do povo islâmico foi o finado pensador e ativista político palestino, Edward Said. Tenho em casa um de seus livros, o clássico Orientalismo, um livro que trata da história e da religião do povo árabe, feito por um palestino de uma família que abandonou o islamismo, tornou-se cristão (anglicano), e foi residir nos Estados Unidos; mas nunca renunciou as suas origens árabes e nem à defesa do povo palestino. Said tinha uma visão aguçada sobre a vida e a cultura do povo árabe, conhecia as ideosincrasias de pessoas acostumadas ao sol do deserto e aos cânticos do islamismo. O oriente tem sua sensibilidade, características próprias, um modo de vida singular, e para muitos de nós, ocidentais, é uma sociedade totalmente estranha e nova. A cultura árabe não se resume aos tabules, esfihas e quibes que comemos nas lanchonetes, graças à influência da imigração em nosso país e da presença de simpáticos senhores bigodudos ou senhoras de véu nas capitais do sudeste, e nem apenas na dança das  belas odaliscas, retratadas na caricatura de traços culturais de uma sociedade, apresentada nas novelas de Glória Perez. Os árabes são, até certo ponto, uns verdadeiros "ETs" para a nossa "civilizada" e Iluminista cultura ocidental. Uma sociedade altamente machista, conservadora, patriarcal, mas também com um forte sentimento de coletividade. É com esse sentimento que o povo egípcio ocupou as ruas do Cairo, querendo a renúncia de seu presidente.

Em certo sentido, utilizando-se o jargão sociológico, pode-se dizer que o mundo árabe vive uma revolução (em termos). Em primeiro lugar, deu-se no mês anterior a queda do ditador da Tunísia, Zein al Abidine Ben Ali, e, após, vive-se a conturbada cena política no Egito, que culminou com a queda de Mubarak.  Enquanto isso, em outras nações árabes, processos semelhantes começam a se agigantar. Se isso irá resultar em sucesso a longo prazo, só a história dirá.

Hegel, filósofo alemão do século XVIII, dizia que a razão conduz à história, e por debaixo desse conceito racional existe um espírito coletivo, que pode ser traduzido, no jargão popular, como a força do povo. Não é à toa que seduzido pela filosofia de Hegel, Karl Marx acabou por desenvolver sua teoria do materialismo histórico-dialético, trabalhando o conceito de luta de classes e revolução como fundamento básico. Hegel tornou-se um filósofo conhecido por subordinar o direito à política, e esta às peculiaridades culturais de cada povo, no seu processo revolucionário. Nesse sentido, para um hegeliano ou marxista desavisado, parece que o processo político no Egito assemelha-se a outros processos revolucionários que conduziram a humanidade no século passado, como a revolução soviética, chinesa e cubana. Ledo engano!

Vive-se hoje no mundo uma realidade globalizada distinta da primeira metade do século passado. Fora o aspecto econômico, com a situação de desemprego, miséria e preços altos por que vive o Egito, o processo político que parece se delinear naquele país árabe apresenta tinturas que envolve menos dimensões culturais e diferenças de classe do que aspectos superficiais da política. Apesar de quase metade da população egípcia hoje ter menos de 30 anos, e ter vivido toda uma existência com a figura de somente um presidente, é difícil para uma cultura fortemente enraizada no islamismo, pensar uma democracia em termos estritamente ocidentais. Os manifestantes nas ruas do Cairo pediram muito mais a saída de Mubarack do que uma transformação radical no sistem ou alteração abrupta de seu modo de vida. Afinal, com toda a crise econômica e política, o Egito ainda é tido como um dos roteiros turísticos mais visitados do planeta, com uma universidade bem desenvolvida, um comércio exterior nada desprezível e uma forte sociedade capitalista e de consumo, que convive ao largo da tradição. A melhor saída política para o Egito, se quer mesmo sair de uma ditadura e não chegar a se tornar uma teocracia, como se dá hoje no Irã (após uma conturbada revolução política há mais de 30 anos atrás), seria tornar-se um modelo de democracia islâmica, como hoje é na Turquia, e tenta ser (de forma mais turbulenta) o Líbano, após sucessivas crises internacionais.

E os Estados Unidos com isso?! É importante salientar que a manutenção de Mubarack no poder foi de interesse dos norte-americanos, pela sua clara guinada favorável ao poderio yankee e sua submissão ao acordo de paz com Israel, firmado por seu antecessor, Sadat, que pagou com a vida por isso. É de fundamental relevância para os americanos, que permaneça no poder um regime títere de seus interesses, como fiel da balança e motivo principal de equilíbrio na região, face à relação conturbada de Israel com seus vizinhos. A chegada ao poder de grupos religiosos radicais, no estilo do palestino Hamas ou do libanês Hesbollah, a partir de segmentos mais extremistas da Irmandade Muçulmana egípcia, seria um verdadeiro desastre na promoção das políticas de paz (e de submissão político-econômica aos EUA, leia-se: petróleo) nos países da região.

Além da Irmandade Muçulmana, único grupo político extremamente organizado dentre os fragmentados grupos de oposição ao governo, no Egito, algo que se tem a temer é a influência dos militares, como estamento dominante na política egipcia desde a sua independência da dominação britânica (todos os ex-presidentes do país eram militares ou tiveram apoio da caserna). É verdade que o processo político no Egito tem suas semelhanças e extremas diferenças com os processos ditatoriais que ocorreram na América Latina, no século passado. Mas também é verdade que a Junta Militar, que assumiu o governo após a saída de Mubarak, já disse que não tolerará mais distúrbios, e alertou a população de que os manifestantes deveriam voltar para casa, abandonando as ruas, aguardando o desdobramento do processo político, com novas eleições livres e democráticas, no mês de setembro vindouro. Poucos analistas acreditam que os militares, através do general Mohamed Tantawi, cumprirão a palavra, caso o processo eleitoral não seja acompanhado de perto pelo povo e por observadores internacionais. É muito cedo para se dizer o que acontecerá com o Egito nos próximos meses e nos próximos anos, para um povo que recém descobriu (ou ainda não descobriu de fato) o que é uma democracia, após tantos e tantos de dominação poderosa e submissão pelas armas, num governo extremamente corrupto e que fazia valer sua força pelo uso de eleições fraudadas, simulacros de um real processo democrático, ou por meio de regimes de exceção. A antiga terra dos faraós ainda parece temer o poderio magnético de suas esfinges, e ter meio que uma organização monárquica de viver, cultivada numa política baseada num extremo personalismo de seus líderes.

De qualquer forma, saúdo a iniciativa de milhares de jovens, homens e mulheres, que através das redes sociais na internet, organizaram-se em movimentos militantes, ocuparam as ruas, e por meio de celulares ou frases no twitter conseguiram impulsionar toda uma sociedade, para mudanças mais do que necessárias. Anseio que a juventude do Egito possa encontrar o seu caminho, ter a oportunidade de, ao menos, ser chamada para os processos decisórios e participar do debate democrático, construindo líderes e elegendo representantes. É tudo o que nós queremos em nossa mentalidade racionalista e ocidentalizada. Espera-se saber se isso que querem também os nossos parceiros árabes, sem que percam sua necessária e essencial identidade enquanto povo e nação. Que Alá os proteja!!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MÚSICA E LIVROS: "Eu sou Ozzy" é leitura e rock'n roll de primeira!

Fazia algum tempo que eu não tinha tempo de ler, num curto espaço, textos bacanas por pura diversão. Sempre atarefado com o trabalho ou com a produção acadêmica, acabei relaxando num dos hábitos mais deliciosos da minha vida: a leitura de livros. Gosto de contos policiais, crônicas, poesias, estórias de ficção científica, literatura beatnick, alguns clássicos e, especialmente, biografias. Minhas biografias prediletas são as dos ídolos do rock, e ainda me pesa na memória a excelente biografia de Jim Morrison, da banda The Doors, escrita pelos jornalistas Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, intitulada Daqui Ninguém saí Vivo (Ed. Almedina). Li o livro no começo dos anos noventa, e recordo que logo após a leitura, estreou o filme de Oliver Stone, contando a estória do grupo liderado por Morrison, com Val Kilmer interpretando o vocalista, e  recordo como fiquei impressionado com um texto tão bom, fluido, de uma história tão fascinante quanto a do cantor norte-americano, morto precocemente aos 28 anos, no começo dos anos setenta.


Passados vários anos, depois de ter lido de tudo um pouco, eis que me surge às mãos, no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, uma obra-prima de nonsense e puro estilo rock'n roll: a biografia de Ozzy Osbourne, intitulada Eu sou Ozzy (Ed. Benvirá). Voltando do Rio Grande do Sul, em direção a Natal,  meu voo fez uma escala em Belo Horizonte e durante o período de conexão, fiquei no saguão de embarque folheando o livro na livraria do aeroporto, e, seduzido pelo texto, acabei comprando o livro (assim como a biografia de Keith Richards, do Rolling Stones) e saboreei minha leitura durante todo o tempo de espera no aeroporto, assim como durante o voo.

Nas três horas seguintes que levaram até Natal, não consegui despregar os olhos do livro e de como a estória de um dos ídolos do rock e figura representativa do heavy metal era tão fascinante. A estória do menino nascido num bairro inglês pobre da cidade de Aston, nas proximidades de Birmigham, revelou-se ao mesmo tempo hilária, trágica e alucinante. É o próprio Ozzy quem destila suas memórias, em verdade muito prejudicadas pelo uso abusivo de álcool e drogas durante tantos anos, que ainda intriga muitos profissionais da medicina de como esse velho roqueiro inglês ainda permanece vivo. Pois eis que o hoje sexagenário John Michael Osbourne conseguiu sobreviver e se tornar não apenas um ícone da música mundial, como também um atabalhoado, mas arrependido pai de família, que fez, sim, muitas presepadas; inclusive arrancar a cabeça de um morcego, vivinho da silva, durante um show! (o que lhe rendeu meses de tratamento e injeções contra raiva e outros distúrbios colaterais).

Mas fora o mundinho de vivências centrado na tríade drugs, sex and rock'n roll, o que se pode tirar de lição do mundo de Ozzy é de como um grande artista surgiu, superou as adversidades, reinventou-se e se tornou, hoje,  uma referência na cultura pop global. Ozzy fez parte da mitológica banda Black Sabbath, e em seu livro, para os fãs, encontramos toda a história do grupo e das aventuras desses rapazes cabeludos fora dos palcos, durante os inventivos anos setenta; além de saber um pouco da história daquele gênero musical que até hoje seduz milhares de ouvintes em todo o mundo:o heavy metal. Sabemos um pouco da religiosidade e do misticismo de alguns componentes da banda, e de que Ozzy, com seu jeitão caipira de garoto do interior, de origem operária, que já trabalhou em fábricas e matadouros e que já tinha sido até preso em reformatórios juvenis por diversos furtos, na verdade fugia muito da figura de um líder satanista, interessado em pregar feitiços no palco ou invocar o diabo em cada show do Sabbath. Na verdade, descobrimos o que os menos incautos já sabiam há muito tempo: tudo não passava de jogo de cena. É hilariante a descrição que Ozzy faz dos fãs alienados, interessados em magia negra, que cercavam a banda e chegavam a ensair cultos satânicos nos lobbys de hotel, após cada show do grupo, e que para Osbourne não passavam de motivo de piada. É de extremo humor o episódio em que Ozzy cita, que cada vez que vinham aquelas pessoas esquisitas, vestidas de preto, com a cara pintada de branco, convidando-o para uma missa negra no cemitério, o vocalista do Black Sabbath respondia: "os únicos espíritos do mal que eu quero ter contato após o final do show são whisky, gim e vodka!", ou quando finalmente sentou ao lado deles, fazendo parte daquele circo patético, quando surpreendeu a todos, pulando no meio do círculo e cantando em cima de um pentagrama: parabéns pra você.

O álcool foi exatamente o maior demônio de Ozzy Osbourne. Substância que quase destruiu sua carreira (quando não sua vida), dizimou seus casamentos  e que o levou novamente para a cadeia. Ozzy ressente-se disso, e nesse momento vemos como o texto do livro ganha ares emocionantes e os contornos dramáticos de uma novela, quando o cantor fala da saudade de seus velhos pais, do apego à família e de como o suporte dado por sua segunda esposa, Sharon, foi fundamental para a superação dos traumas, e de como um garoto que sofria de dislexia pôde enfrentar a vida de cabeça erguida, ao chegar ao mundo da fama, da decadência física e moral, e do renascimento profissional, após ser expulso do Sabbath e ter conseguido engatar uma carreira solo (muito obtida através da esposa, fiel escudeira e empresária, Sharon, que acreditou no potencial do cantor, quando todos pareciam lhe fechar as portas).


Dentre os dramas do "principe das trevas",
 o que merece destaque e é um dos fatos trágicos que mais marcou a biografia de Ozzy, que foi a morte do guitarrista Randy Rhoads. Rhoads, um virtuose da guitarra e ex-estudante de música clássica, filho de uma concertista, sem dúvida fui um dos responsáveis pela ascensão de Osbourne na sua carreira solo, colaborador e autor dos riffs de guitarra, dos dois primeiros e até hoje melhores álbuns do cantor: Blizzard of Ozz e Diary of a Mad Man. O jovem guitarrista magricelo, baixinho e com cara de moleque não incorporava em nada os cacoetes dos músicos de rock da época (não consumia álcool e nem drogas, era religioso, gostava de fazer trabalhos sociais, era avesso à badalações e totalmente devotado à música) e a forma trágica como morreu, num estúpido acidente de avião, com apenas 25 anos, marcou indelevelmente a carreira do artista e ser humano Ozzy Osbourne, talvez tanto quanto a perda de seus outros entes queridos.

O bom de Eu sou Ozzy é mostrar sem retoques a visão de um artista sobre si próprio, desmistificado de toda sua aura de celebridade, demonstrado como um homem comum. As agruras de Ozzy são fatos corriqueiros de qualquer pessoa, que vive seus altos e baixos durante a vida, como eu vivi, poderei ainda viver e como todos nós vivemos ou viveremos um dia. Mas sua história de vida também serve como lição e advertência para os malefícios do abuso de substâncias lícitas ou ilícitas (afinal, o cara lutou contra a balança também!), e de como uma segunda chance pode ser dada para indivíduos abençoados. Acredito piamente, em minha religiosidade, que Deus foi muito misericordioso e condescendente com Ozzy Osbourne, dando-lhe a oportunidade de se redimir das mancadas passadas e se reinventar como músico e pai de família. Não deixa de ser notável perceber que o cantor de rock pesado da Grã-Bretanha só conquistou, definitivamente, a fama global que tem, por ter participado de um reality show onde mostrava o cotidiano de toda a sua família, e que se tornou um novo gênero de seriado, inaugurado com a MTV. Lá, foi possível ver e conhecer, além da rotina de Ozzy com a mulher, os filhos e os bichos de estimação, como a sua luta contra o álcool ainda estava presente, e de como ele quase morreu (das diversas mortes que experimentou) ao fraturar praticamente todos os ossos após um acidente de motocicleta. Porém, como um gato com mais de nove vidas ou simplesmente por ser o sujeito abençoado que é, Ozzy Osbourne mais uma vez ressuscitou.

Atualmente, Ozzy assina no jornal britânico The Sunday Times uma coluna médica (isso mesmo, pasmem!), onde dá dicas de saúde, inclusive falando dos riscos de medicação excessiva, uma vez que todo o tipo de remédio que já usou na vida (inclusive pra se livrar do álcool e das drogas), serviu para montar o tipo lesado que se viu nos programas de televisão. Ozzy diz claramente que a voz enrolada e o tipo tosco que por vezes aparecia nas câmeras, não era uma estratégia de marketing para montar a imagem do "vovô piradão"; mas sim demonstrar a realidade de que, realmente, devemos ter cuidado com a saúde e que meter o nariz (olha o ato falho!) onde não é chamado, não é lá boa coisa. Assim, até no meio médico o "Dr. Ozzy" acabou ganhando suas páginas de destaque.

Sei que muitos leitores do meu blog podem não gostar do gênero heavy metal ou torcer o nariz diante da figura errática de um assumido bebum e chapado músico como Ozzy Osbourne. Mas, além do preconceito e da crítica musical, é so escutar canções como Changes ou Mama, I'm coming Home, para mudar um pouco a opinião sobre o eterno ex-vocalista do Black Sabbath. Bueno! Pois saibam que, com certeza, em 2011 estarei em algum dos cinco shows que estão programados no Brasil, para ver o bom e velho Ozzy. Gostando ou não, vou aqui escutando Mr. Crowley, esperando nessa dura vida o que ainda está por vir, No More Tears, pois estou fora de qualquer Suicide Solution, e prefiro saudar a vida, Bark on The Monn! God bless you, Ozzy!!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

TRAGÉDIA REDIVIVA: Passou 2010, passa 2011, virá 2012, 2013,2014....e muita gente vai continuar morrendo nas chuvas de começo do ano.

No começo do ano passado escrevi sobre a trágica realidade das chuvas no Rio de Janeiro, que trouxe a tragédia do reveillon em Angra, que ainda está fresca na memória de muita gente que acompanha minimamente o noticiário. Além das chuvas do mês de janeiro e do desastre completo em Angra dos Reis, em maio foi a vez de Niterói, o morro de Santa Tereza e outras adjacências; e, agora, no começo de 2011, o pesadelo retorna novamente. Basta chover pra ter gente já especulando quantos cadávares vão ser recolhidos no intervalo das chuvas, porque morrem muitas pessoas mesmo.


Pessoas. Será que o conceito jurídico de ser humano pode ser empregado em sua totalidade diante de uma situação de desespero e desamparo que vitima tantas famílias no começo de todo ano, nas grandes metrópoles brasileiras? Em especial no Rio de Janeiro e São Paulo penso que a cada ano vale novamente minha frase registrada: a de que pobre, se não morre de fome ou de tiro, morre soterrado. Vocês podem perceber,que nas imagens de TV e nas dramáticas fotos dos jornais, todos vemos, ano após ano, centenas de pessoas chorando, com suas casas soterradas, parentes mortos em desabamentos, gente aos prantos molhada de chuva, repórteres alvoroçados e políticos indignados, cada um querendo responsabilizar a um e outro, empurrando a conta da tragédia para as prefeituras, os governos estaduais ou para o governo federal. Teve repórter que até insinou que a culpa foi do Lula (Ah,tá! A culpa não é mais de São Pedro, mas do ex-presidente barbudo, que se foi). Não importa quem são os culpados, não interessa o quanto a natureza castiga os morros, vales e restingas desse meu Brasil varonil. O que importa é que a cada chuva torrencial, além de lama, pedra e areia, o que vemos desabar junto com a água corrida dos penhascos e encostas, são os pobres que vem junto, numa chuva de corpos afogados, esmagados ou soterrados por incompetência, ganância imobiliária e falta de planejamento urbano. Chove não apenas água, mas falta de dignidade! É! Vamos ao velho jargão: a culpa é do sistema!


Dessa vez o palco da tragédia foi Teresópolis, Nova Friburgo  e Petrópolis, na região serrana do Rio. Parece que a cada ano a natureza ou a fúria divina escolhem a dedo um lugar, no mapa da região fluminense, para castigar mais incautos com pesadas chuvas. Mas não é nada disso. As razões de 2011 já ter começado com uma cifra de mortos maior que 2010, com as chuvas do começo do ano passado, não tem nada de sobrenatural. Pelo contrário, o problema é bem humano, previsível. Não adianta aqui eu repetir à exaustão minha crítica sociológica, dizendo que os males produzidos pelas chuvas são resultados dos males da economia capitalista, que gera uma exploração imobiliária gananciosa e facista, tíica do mais selvagem dos capitalismos. Não adianta insistir nas teses dos especialistas em Políticas Públicas e Planejanemto Urbano da USP, que, ao contar a história do desenvolvimmento urbano de metrópoles como São Paulo, já esclarciam que desde o começo do século passado, os ricos ocupavam as áreas mais seguras e altas da cidade, a salvo dos alagamentos; enquanto aos pobres só restava morar nos vales ou na beira de precipícios, à espera de que a próxima chuva não destruísse seus barracos ou moradias tão sofregamente construídas.

No Rio de Janeiro a situação é bem pior, pois com a existência de morros, serras e florestas repletas de montanhas, é natural que os mais frágeis economicamente, ou simplesmente aqueles que queriam construir sua casinha de campo à longe da exploração imobiliária e do IPTU alto, cravassem suas residências em áreas de risco, continuamente à mercê da erosão provocada pelas chuvas. Ora, sabemos que comunidades inteiras na periferia da Grande Rio vivem sob lixõees aterrados, e é comum encontrar a placa de imobiliárias de fundo de quintal, de escritórios de vendedores de terreno espertalhões, que com a maior cara de pau, oferecem domicílios à preço de banana, para aqueles que sempre mantiveram o sonho da casa própria. É, a vida é dura meus companheiros! Mais dura ainda quando você se vê soterrado por todos os lados!

Não sou candidato a prefeito, nem a vereador e nem faço parte de nenhuma ONG ou equipe de políticas públicas, que possa dar soluções para tragédias como essa do Rio de Janeiro. Amo o Rio, de coração e alma, e sei que a cada Carnaval, no mês subsequente, o carioca parece querer enxugar suas lágrimas de tanta tragédia, vestindo-se de folião e enchendo a cara, para esquecer durante quatro dias, das mazelas de sua realidade tão caótica diante da fragilidade do homem, perante às forças da natureza ou vítima da inoperância do poder público. Os norte-americanos tiveram seu furacão Katrina, enquanto que os asiáticos seu tsunami e os haitianos e chilenos seus terremotos; para dar vontade aos  seus sobreviventes de começar de novo.Agora, aqui no Brasil, pergunto-me pra que recomeçar, se todo recomeço na verdade é uma história de voltar para trás, negando os problemas, mantendo o que está errado, quando na verdade um novo governo e uma nova presidente devem se preocupar em pressionar o governador e o prefeito cariocas de revolucionar todo o cenário urbano do Rio de Janeiro, criando imensos lotes residenciais a salvo das chuvas, e uma complexa e dinâmica rede de drenagem e recepção de águas pluviais, a fim de que as tragédias de 2010 e 2011 se tornem coisa do passado. É, parece que estou sonhando! Mas o pior, é que meus sonhos são sempre pesadelos. Até quando??

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

TURISMO: Relatos de uma Lua de Mel:-Em Punta existem Hostels e Horrorestels.

Saudades de mim, meus queridos camaradas, leitores e leitoras? Se não; estou aqui de qualquer jeito (afinal, o blog é meu e lê quem quer!). Se, ao contrário, a recíproca é verdadeira, afirmo que tenho, também, saudades de quem lê meus escritos e de escrever neste espaço, abrindo 2011 com estado civil diferente. Pois é, casei! Acabei me enredando nos complexos, nem sempre fáceis (mas deliciosos) laços do matrimônio. Casei com uma figura bem legal! Pode-se dizer que o "C" de casado pode servir também para o “C” de minha cônjuge como um "C" de Companheira Certa pra Caralho. Bueno, até o presente momento, não tenho do que reclamar, e, afinal, se eu reclamasse na minha lua de mel seria o mais bronco dos caras, vocês não acham?
Pois é, mas falando de lua de mel, na verdade o quero escrever hoje é sobre turismo e relatar para os meus queridos leitores minha experiência em Punta del Este. Não!Não sou nenhum magnata ou sheik árabe e nem tenho milhões de dólares em conta corrente pra estourar nos cassinos uruguaios; mas com os poucos trocados que recebi no final do ano, uma vez recém-casado, resolvi dar de presente a mim mesmo e a minha esposa alguns dias de sol e mar fora do Brasil, num roteiro turístico na terra dos hermanos, bem conhecido da população brazuca ( e, principalmente, da população gaúcha, visto a quantidade de placas de carro vindos de Pelotas, Porto Alegre ou Rio Grande; a multidão tomando mate com suas cuias de chimarrão e a quantidade de "Bahhhsss" e "Tchêsss" que escutei pelo meio do caminho). Peguei a mulher e fomos de mala, cuia e......., claro, chimarrão para Montevideo, e de lá seguimos para Punta del Este: o paraíso de verão do cone sul, o ponto de encontro de chicos e chicas bronzeadas, bem nascidos e com seus carrões; que diante de prédios majestosos à beira-mar, numa estonteantemente bela península, tomam seus mojitos e fazem suas compras diante do sol caliente do verão platense. Fui com minha amada esposa à praia de Punta, empolgado como um pinto num galinheiro dentro de uma chuva de milho, crente de que receberia os melhores atendimentos gastronômicos, hoteleiros e turísticos da cidade. Porém, é de percalços que se faz uma boa aventura, não é mesmo?


Na minha epopéia de final de 2010 e início de 2011 tive do melhor e do pior em termos de viagem e tratamento, ao menos que no tange ao atendimento em minha empreitada turística. É necessário, antes de prosseguir no meu relato turístico (que poderá servir de exemplo a novos aventureiros), traçar algumas ilações acerca do Uruguai e de seus principais pontos turísticos.
Em primeiro lugar, eu já disse algumas vezes e continuo a considerar: para mim, o Uruguai é uma Paraíba que fala espanhol! E antes que os dignos cidadãos paraibanos da terra de Zé Ramalho e João Pessoa me atirem pedras, explico. A República Oriental do Uruguai é um país com aproximadamente 3,3 milhões de pessoas,sendo que 1,8 milhões vivem na capital, Montevideo. É uma região do tamanho mais ou menos do estado do Sergipe e como tem uma população pequena e concentrada na capital, pode-se dizer que o país se resume a um extenso pampa, com fronteiras com o Brasil e com a Argentina. Historicamente, o Uruguai tem relações de identidade e conflito profundas com os dois países vizinhos, e, antes de ser, provisoriamente, parte do Brasil ( a antiga província Cisplatina, disputada por portugueses e espanhóis desde o Tratado das Tordesilhas), desde o século retrasado, uruguaios e argentinos mantém uma relação de aproximação e distanciamento. Em relação a brasileiros e argentinos posso dizer que os uruguaios tem uma relação dúbia, tendo em vista que no verão é esse contingente de povos estrangeiros que vive a perambular pelas praias e shoppings uruguaios, consumindo nos bares,  comprando nos restaurantes e lojas, consistindo numa das maiores fontes de renda do país: o turismo. Percebi que os brasileiros são melhor vistos que os argentinos pelos uruguaios (ao menos nessa época do ano), tendo em vista que nos jornais locais (El País é o principal deles) é comum encontrar nas reportagens expressões referentes ao Brasil como um "gigante sul-americano". Já os argentinos, seja pela rivalidade esportiva ou cultural (os uruguaios culpam os argentinos por terem lhe roubado dois símbolos nacionais: o futebol e o tango), ou pelas disputas comerciais com os vizinhos de fronteira ( por conta da instalação de fábricas de papel), parecem ser objeto de certos comentários jocosos ou de piadas de mesa de bar. De qualquer forma, é em Montevideo e Punta del Este que gravitam a maior quantidade de brasileiros e argentinos, e foi pra lá que eu me fui, juntamente com minha companheira, neste final de ano.


Ao passar o reveillon em Montevideo, percebi que a queima de fogos de artifício, na passagem do ano, nem de longe lembra o glamour e a imponência da festa de ano-novo no Rio de Janeiro. Mas, é claro, o Rio é uma das melhores festas do planeta. Entretanto, não deixa de ter sensível beleza e euforia saber que os uruguaios sabem comemorar com entusiasmo a passagem de ano, e pude ver uma orla marítima repleta de fogos, com uma boa duração do foguetório por mais de vinte minutos. Foi realmente muito bonito poder ver e filmar com minha querida esposa a festa do reveillon uruguaio, apesar dos tropeços para chegar no local da festa. Acontece que no Uruguai, o povo local leva a sério a palavra feriado, e nem sequer táxis havia disponível para poder transitar. É isso mesmo, ao chegar em Montevideo me deparei com um comunicado do sindicato dos taxistas dizendo que na data festiva, era dia de folga para os taxistas. Mas como pode ser isso? Taxista de folga no dia do reveillon? Mas e quanto aos passageiros? Transporte não é serviço fundamental? Pois é, nem ônibus, nem metrô, nem táxi, nossa sorte foi ter encontrado um táxi perdido no meio da noite, que queria ganhar uns extras (como um bocado de trabalhadores autônomos, que não queria saber das determinações do sindicato), e através de um simpático e falante taxista, que era a cara do Fito Paez, pudemos, enfim, chegar ao nosso itinerário.

Montevideo não se compara a outras grandes e turísticas capitais sul-americanas: como Buenos Aires, Santiago do Chile ou Bogotá, mas tem seus atrativos. O centro da cidade no dia do feriado é intensamente sujo, com milhares de pedaços de papel espalhados pelo asfalto, além do contato na calçada com fezes humanas ou animais (a depender do dia, pois os animais de estimação caminham com seus donos durante o dia, e pela noite, a sujeira encontrada no dia seguinte é proveniente dos moradores de rua, que perambulam pela cidade); mas a parte histórica da cidade, a partir da avenida 18 de Julio, com seus monumentos históricos, praças e prédios antigos, é um passeio turístico-cultural bem interessante e divertido. É possível ver o quanto a influência brasileira ainda está presente, ao ver o Palacio Brasil, ou ver a quantidade de postos de combustível da Petrobrás, Banco Itaú e cervejas ou produtos brasileiros que são facilmente comercializadas no país. Também é curioso ver a bonita homenagem que os uruguaios fazem a Los Treinta e Tres, e como a palavra é nome de praça, rua e demais logradouros na metrópole uruguaia, tendo em vista que o nome corresponde aos pioneiros das lutas de independência do pais. Vale uma sacada na praça Artigas, onde fica o monumento desse importante personagem histórico, em frente ao prédio da presidência; que, diferente da Casa Rosada ou da Plaza de Mayo em Buenos Aires, tem uma estrutura arquitetônica bem moderna, ao invés de clássica. No mesmo lugar tem o imponente Teatro Solis, e logo abaixo, descendo por qualquer das ruas, chega-se à orla marítima de Montevideo: uma mistura das praias urbanas de João Pessoa com Boa Viagem, com seu lado mais bucólico e pouco movimentado, entre docas e trapiches, e outro mais movimentado e freqüentado, com banhistas locais que se deliciam com as águas frias do Atlântico Sul, pulando das pedras em direção à água, ou simplesmente se bronzeiam na areia meio avermelhada do local.

Depois de passar 3 dias em Montevideo segui para Punta del Este, ou melhor, a cidade que é seu alter ego menos famoso e de onde Punta se torna distrito: Maldonado. É em Maldonado que existe, de fato, a vida comum do cidadão uruguaio da região, longe da badalação da península, onde fica o centro de Punta del Este. Digamos que se os magnatas e ricaços descansam em Punta, o povão labuta em Maldonado. Confesso que gostei da cidade, cujo centro, pequeno e pitoresco, e a praça central, lembra-me a zona comercial de cidades como São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Lá fiquei hospedado no hotel San Fernando, em frente à praça central da cidade. Um hotel quatro estrelas, de somente dois andares, mas muito simpático, que, apesar do preço meio salgado para o período, demonstrou-se ser uma opção bem mais legal do que a roubada que eu e minha companheira nos metemos anteriormente, e que serve de título para esta matéria.

É isso, meus amigos e amigas! Quando procurei, no final de outubro, uma lista de possibilidades de hospedagem para minha viagem vindoura ao Uruguai, consegui facilmente a indicação do Day Inn Hotel, em Montevideo, atrás do terminal rodoviário de Tres Cruces, no centro da capital uruguaia e que é muito bom. Já quando me reportei às opções de hospedagem barata em Punta del Este, deparei-me de imediato com a dificuldade de encontrar lugares vagos, tendo em vista que já em outubro todos os hotéis e albergues da península já estavam lotados, sem qualquer opção de compra pela internet. Depois de muito chafurdar pela rede, encontrei uma opção que, pelas fotos, parecia-me inicialmente bem agradável: o Hostel del Patio, próximo ao centro de Maldonado, há cerca de 7 km do centro de Punta del Este. Que grande roubada me meti!

Pra começo de conversar, o preço cobrado pelos camaradas do hostel não perde em nada para os valores que são cobrados num bom hotel quatro estrelas. Além de caro, ao chegar no local, diferentemente do que me ocorreu no hotel em Montevideo, os jovenzinhos que me atenderam não conseguiram encontrar minha reserva, pois não me foi fornecido qualquer código de confirmação, tendo sido eu obrigado a vasculhar na internet deles um perdido e-mail de confirmação do próprio hostel, indicando que eu realmente tinha reservado um quarto para duas pessoas, no período que antecedeu a minha chegada. Mas o pior estava por vir.
Ora, eu sei que nos hostels a rotina é mais simples e diferente do que se vê na hotelaria tradicional, desde os mais modestos ao mais sofisticados hotéis, porque o espírito do albergue é outro daquele vivido pelo ambiente hoteleiro, mas cada um tem seus limites. Há mais de dez anos freqüento continuamente diversos hostels e alojamentos durante minhas viagens, seja dentro do Brasil ou no exterior, e já dormi em beliche, rede, quarto próprio ou coletivo. Frequentei albergues da juventude estilosíssimos em Buenos Aires e Santiago, e não tive maiores problemas na minha primeira estadia no Uruguai, quando também fiquei hospedado num albergue, bem no centro de Punta del Este. Agora, os apuros que passei no tal Hostel del Patio são dignos de um filme: de terror!

Pôxa! Tudo bem que o quarto que eu tinha com a minha esposa, apesar de modesto, não tivesse ar-condicionado e nem frigobar, mas como ficar num quarto que não tem sequer cortina na janela? Cadê a privacidade? O estado do colchão e da cama lembravam o tempo que os colonizadores espanhóis caminhavam sobre a região, e a quantidade de ácaros que se encontrava no meu travesseiro dava pra chamar uma equipe de entomologistas. Pra completar o martírio, numa área em que a temperatura ambiente era de 25 graus, mas que com os ventos litorâneos a sensação térmica caía pra 10, ir pra um banheiro coletivo sem chuveiro quente era o fim da picada. É normal ( e até regra) que nos hostels não se ofereça toalhas ou sabonetes, já que isso é por conta do cliente, mas geralmente, até por uma visão de mercado, esses estabelecimentos mantém um bazar, à disposição do cliente, onde é oferecido o aluguel de alguns utensílios de banho ou cozinha, e onde se pode comprar mercadorias, como refrigerantes e sabão. Pois é, lá não tinha! Ao contrário, além de ser convidado, em plena onze da noite, a visitar o supermercado local que acabara de fechar, após um dia inteiro caminhando ao sol por Punta del Este, fui obrigado a cumprir com o compromisso chato de ter de pagar 6 mangos pelo aluguel de uma toalha a uma funcionária do hostel igualmente chata. Cadê os direitos do consumidor? Cadê os direitos humanos? Não se trata de babaquice pequeno-burguesa querer tomar banho quente à noite. Pra quem vive na região sul do Brasil ou já experimentou o clima frio austral, banho quente é uma questão de sobrevivência. Ninguém quer pegar uma pneumonia!

Pois, restando-me no prejuízo, quando, enfim, consegui um hotel civilizado no dia seguinte para mim e minha esposa, ainda tive que amargar o prejuízo de não ver restituído o valor pago antecipadamente por três dias de hospedagem. Alegaram que como eu tinha feito uma reserva, o quarto já tinha sido separado para mim anteriormente, e assim o estabelecimento não poderia amargar prejuízo, já que tinham perdido a oportunidade de lucrar com a minha reserva. Porca miséria! Maldito espírito capitalista do direito contratual! Puto da vida, indignado, mas resignado, aceitei a rasgada de dinheiro que me foi imputada, restando a mim e minha atordoada companheira seguirmos em direção a uma cama e chuveiro quentinhos que nos esperava, há menos de dois quarteirões onde nosso inferno astral tinha começado. Parecia-me a noite de horrores tinha terminado.

Que nada! No retorno para casa ainda tive que pagar uma horripilante taxa de embarque, em dólares, que não me havia sido avisada pela companhia aérea quando comprei a passagem no site, e tive que desembolsar o valor de quase duas passagens aéreas Porto Alegre/São Paulo, para não ter que ficar preso na terra dos hermanos. Isso sem contar que em alguns lugares, os lojistas se recusavam a receber uma nota de 100 dólares que eu havia acabado de sacar do caixa eletrônico, por que estava rasgada na ponta. Pô! Tem transeuntes que caminham na praça que ao ver uma nota de cem dólares no chão podem até brigar e rolar no chão entre si pra pegar a grana, e as pedantes lojistas uruguaias não queriam receber o dinheiro que eu havia acabado de sacar em um de seus próprios bancos. Aí, haja paciência!!!

De qualquer forma, tenho um retrospecto mais do que positivo em minha lua de mel uruguaia e a esposa parece ter ficado mais do que satisfeita. Ótimo! Fiz a minha parte! Porque em casamento a gente aprende, meu amigo! É melhor satisfazer o outro a fim de obter a satisfação própria do que se prender no egoísmo do seu próprio prejuízo! No final das contas, quem lucra é o amor! Vocês não acham?? Até breve, meus camaradas queridos!

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?