sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ANIVERSÁRIO:Finalmente,40 (quarenta, forty, quarante, viertzig, quaranta,四十,).

Hoje é meu aniversário: 5 de agosto, e completo 40 anos! Do alto de uma idade tão significativa, pedindo licença aos entendidos no assunto, digo, para arrepio de meus amigos teólogos e sociólogos que o dilema do homem moderno não é a fome, as guerras, os conflitos globais, o apocalipse, a queda da popularidade do Obama, a falta de amor ou a intolerância. O dilema do homem moderno é a crise dos 40 anos!

O problema de chegar aos 40 anos não é sentir que está ficando velho, mas sim que não está mais ficando novo. Com 40 você chega na certeza de que continua a mesma pessoa que era quando tinha 20, mas não com o mesmo corpo. Começa a se acostumar de ser tratado de senhor ou senhora, das brincadeiras dos mais jovens, chamando de "tio" ou de "tia", ou se deparar com aquele carinha das antigas, que nem amigo seu é ou se finge de velho amigo e quando lhe vê, depois de vários anos, diz na cara, sem nem perguntar como você vai: "e aí, fulano, há quanto tempo! Puxa, como você ficou gordo!", ou então diz:"puxa, fulano, como vc ficou careca!" ou "quantos cabelos brancos!".

Quando se chega aos 40 anos você começa a ficar careta nos gostos musicais e estéticos, começa a ouvir cada vez menos as músicas que a garotada de 20 anda escutando (mesmo sendo do mesmo gênero de música de você tanto gosta). Aos 40 você fica mais nostálgico. Fala cada vez mais como eram bons os anos oitenta e setenta, porque naquela época é que existiam bandas e grupos de rock de verdade, enquanto que nos dias de hoje não aparece nada de mais. Aos 40 você adora assistir aqueles canais de TV retrô, com filmes das antigas e reencontra os amigos da mesma idade para relembrar os seriados que via na adolescência. Aos 40 você não consegue mais ir a todo show de rock em todo final de semana, não porque não tem grana, mas porque não aguenta mais ficar em pé junto com mil a cem mil pessoas, suando perto do palco, porque suas costas doem, vai ter uma crise de pânico com tanta gente ou porque suas pernas já não aguentam mais.

Aos 40 você prima por qualidade ao invés de quantidade; ou ao menos engana quanto a isso, dizendo que prefere um bom vinho com os amigos em casa, do que passar a noite inteira bebendo cachaça num boteco fedorento do centro da cidade.Você percebe que tem 40 anos quando não consegue mais virar da noite pro dia com os amigos, em algum bar badalado, boate ou rave, porque seu organismo não aguenta mais ficar sem água e sono por menos de cinco horas seguidas durante a noite.

Quando se é quarentão você percebe que chegou nas quatro décadas de existência quando reencontra os melhores amigos num churrasco na casa de um deles, e revê a cena de que há vinte ou quinze anos anos atrás, você estava ali, no mesmo lugar, com seus amigos todos solteiros, acompanhados das namoradas ou envolvidos em flertes ou paqueras, e agora vê todos eles casados, com suas respectivas esposas, muitos acompanhados dos filhos pequenos ou pré-adolescentes. Você chega aos 40 e olha pros seus pais e vê que eles sim é que estão ficando velhos, bem velhos, e com problemas de saúde, e que sua estadia pela vida, dentro de poucos anos, pode se esgotar.

Constata-se que se chegou aos quarenta anos, quando você relembra como foi a sua infância, e lembra que você e seus colegas ainda brincavam de pipa, subiam muros e árvores, jogavam pelada em terrenos de areia e que videogame era uma imensa novidade, só para as famílias de classe média alta e os aparelhos mais avançados eram Atari e Odissey, enquanto que nos dias de hoje os garotos não vivem sem internet, aparelho celular ou tablets.

Por fim, aos quarenta você tem a certeza de que vai ter que procurar um médico regularmente, fazer exames para ver as taxas de colesterol e trigliceres, a pressão alta, os batimentos cardíacos (além do infame exame de próstata, para os homens), começar ou voltar a usar óculos de leitura, e pensar em transformar a academia de ginástica ou musculação como seu destino final, ou um lugar para você eternamente se afastar, se quiser ou não se livrar de uma barriga de chope que pode lhe acompanhar até a cova. O quadro de preocupação do recém-quarentão só aumenta se ele lembrar que em grande parte das civilizações antigas da humanidade ou sociedades tribais, o nível de vida médio dos homens só chegava aos 40!

É! Não é fácil ter 40 anos! Como também não é difícil, quando você percebe que já conseguiu viver tanto tempo, tem uma boa carga de leitura sobre sua própria vida que já dá um bom livro autobiográfico (olha que o Justin Bieber escreveu o dele aos 16!) e que aos 40 você consegue recapitular todas as suas mancadas nos últimos vinte anos anteriores, e, ao se deparar com as mesmas situações, ver como é tão fácil o que você outrora achava tão difícil.

Portanto, nessa data em que completo 40 anos, que venham as comemorações, independente da passagem do tempo, das enfermidades ou curas futuras, dos quilômetros que teremos ou não teremos mais fôlego de correr e das pessoas e novos amigos que ainda possamos vir a conhecer. Se já cheguei aos 40, que venham agora os 50, os 60, os 70, os 80, os 90, os 100 e..... muito mais!!!!

terça-feira, 26 de julho de 2011

FUTEBOL: As lições do Uruguai.

Em 1950, no fatídico dia 16 de julho, no Rio de Janeiro, a seleção do Uruguai, liderada por seu capitão, Obdúlio Valera, ganhava a final da Copa do Mundo, no estádio do Maracanã, derrotando o anfitrião, Brasil, por 2 X 1, num episódio que ficou conhecido na história do futebol e na crônica esportiva uruguaia como maracanazo (ou "maracanaço" em bom português). Sobrou, durante anos, a culpa pela derrota para o injustiçado goleiro brasileiro, Barbosa, e no gramado silencioso ao final do jogo, de uma torcida brasileira emudecida nas arquibandas lotadas, restou a glória uruguaia e a cena que entraria para a posteridade, do craque uruguaio Máspoli, consolando o derrotado e em prantos jogador brasileiro, Augusto, ao final do jogo. Diz a lenda que foi um vitorioso Varela a comemorar solitário pelos bares da Lapa na noite carioca, a vitória uruguaia e a consequente derrota brasileira que, no orgulho nacional ferido, jamais deveria ter acontecido. Naquela época, ao menos naquele período, a festa no solo brasileiro era uruguaia!

Voltando o relógio do tempo para os dias atuais, Buenos Aires esteve em festa no último domingo, mais uma vez com a celebração de uma vitória futebolística, com o tradicional monumento do Obelisco, na avenida Nueve de Julio ocupado por.........uruguaios??? É que desta vez coube aos torcedores da nação vizinha a comemoração do campeão de 2011 da Copa América, que ao invés de ser sempre os favoritos Brasil ou Argentina, agora cederam o cetro para o Uruguai. Mais uma vez, o Uruguai comemorava uma vitória futebolística no terreno do adversário e vizinho. Coube aos dois países que fazem fronteira com a república gaucha o cenário para a comemoração de um dos países sul-americanos com mais tradição no futebol.

Tradição que sempre foi a marca do futebol uruguaio, apesar dos mal resultados nos últimos anos e um imenso jejum de décadas sem conseguir chegar às fases finais de um torneio mundial, como foi na última Copa do Mundo, e um período de imenso ostracismo da região no futebol internacional, apesar de dois títulos mundiais. Com o passar do tempo, mais precisamente nos últimos cinco anos, o futebol uruguaio passa por um processo de renovação, com o surgimento de novos craques, a consolidação de seus clubes esportivos em torneios internacionais (o vice-campeonato do Peñarol na última Taça Libertadores da América é exemplo cabal disso), a exportação de bons jogadores para clubes europeus e a recuperação da glória nacional, com a multidão de milhares de uruguaios concentrados em Montevideo ou nos países vizinhos, comemorando os feitos da equipe de seu país-natal, num país com menos habitantes que o estado da Paraíba.

A seleção de futebol do Uruguai, é bem verdade, não chega com ineditismo com a vítória do campeonato na Copa América, mas de fato e de direito se consagra como o maior campeão da história das Américas, com seu 15º título conquistado na partida final de domingo, dia 24 de julho. Contra um inexpressivo e inesperado Paraguai, a seleção de Lugano, Fórlan, Loco Abreu e Suarez, ergueu orgulhosa a taça de campeão, ao final dos 90 minutos de jogo, após uma bela e antológica vitória de 3 X 0 contra o adversário. Ao adversário Paraguai restou a comemoração de um vice-campeonato obtido quase por acidente, pois foi a única equipe a chegar à final do torneio sem ter ganho um jogo sequer. Com a derrota para o Uruguai na final, parece que a seleção paraguaia ficou no seu merecido lugar, fazendo com o que o país ficasse mais conhecido no torneio não pela qualidade dos seus jogadores, mas sim pelo que se viu nas arquibancandas, na beleza das curvas e nos seios siliconados da torcedora fanática e modelo paraguaia, Larissa Riquelme. Felizmente, no final da Copa América venceu o bom futebol e venceram, merecidamente, os uruguaios. Os deuses do futebol sorriram novamente!

O Uruguai ganhou porque demonstrou garra, teve espírito de equipe e valorizou o título obtido com a competição, num sentimento que somente rivalizou com a Argentina, país-sede do campeonato este ano, mas que nem de longe acometeu a seleção brasileira, liderada pelo técnico Mano Menezes. Ao contrário da apatia brasileira na humilhante disputa de pênaltis, nas quartas de final, que resultou na vitória do Paraguai e a consequente eliminação precoce do Brasil no torneio, a seleção do Uruguai não apenas valorizou a vitória na cobrança das penalidades máximas com a Argentina, como também levou seu espírito de equipe para o campo, nas duas partidas seguintes, na semifinal e na final, carimbando o título de forma merecida, numa fase histórica que demonstra o ressurgimento do Uruguai, bicampeão mundial, como um dos gigantes do futebol internacional, através de um respeitável quarto lugar na última Copa do Mundo da África do Sul. Até o momento, em termos de continente, é o Uruguai que chega mais longe nas competições internacionais, na frente dos tradicionais favoritos, Brasil e Argentina, mostrando que la mano de Diós também é uruguaia.

Foi bonito ver o Uruguai jogando nesta Copa América, como foram bonitos os gols da partida final, feitos pelo artilheiro da competição, Suarez, e os gols seguintes feitos por Fórlan, maior goleador da história recente da seleção uruguaia, um dos melhores do mundo e considerado o melhor jogador da Copa passada. Fórlan desencantou depois de uma série de partidas sem fazer gol pela seleção uruguaia, sendo responsável na final da Copa América pelos dois últimos gols da bela goleada feita pela Celeste contra a seleção do Paraguai. Para os amantes do futebol, como eu, só posso dizer: Vila el equipo del Uruguay!!!

Em relação ao futebol brasileiro, fica a lição e o respeito pela conquista uruguaia. Irrito-me com as opiniões arrogantes e o argumento derrotista carregado de oportunismo de alguns defensores do atual técnico brasileiro, dizendo que para um país pentacampeão do mundo como o Brasil, a conquista de uma Copa América é uma vitória de menos, pois corresponde a um título menos expressivo. Ledo engano! Hoje em dia, com a globalização e a mundialização do esporte, com centenas de telas de TV, celulares e computadores acessando pela internet torneios futebolísticos internacionais com mesmo grau de interesse e quantidade de anunciantes, competições como a Eurocopa e a Copa América, rivalizam com torneios globais como o Mundial Interclubes, a Copa das Confederações, o campeonato da Europa e a própria Copa do Mundo. Hoje em dia, é comum encontrar em diversos países e continentes, jovens das mais diversas nacionalidades ostentando camisetas do Barcelona, do Real Madri ou do Manchester United, com tanto orgulho ou fanatismo quanto torcedores flamenguistas, corintianos ou botafoguenses. Desta forma, cada torneio tem sua grau de importância equivalente, não cabendo a palpiteiros oportunistas considerar que por conta de uma vergonhosa e desastrosa derrota nos pênaltis para o Paraguai, poderá manchar a credibilidade de uma seleção "vitoriosa" como a brasileira. Ah! Tá!

Só sei que o peso da arrogância já comprometeu outras seleções, de outros países, que amarelaram feio e deram vexames históricos, como as derrotas respectivas, na primeira fase da última Copa, de equipes como as da França e da Itália. Certamente, por toda sua história, compromisso com a formação de craques e a dimensão cultural que o futebol tem no país, como modalidade esportiva mais praticada, faz do Brasil um fortíssimo candidato ao título no próximo Mundial, com a responsabilidade de fazer bonito na competição de 2014, onde, mais uma vez é anfitrião. Novos e maravilhosos craques, como Neymar, são emblemáticos exemplos de como o sangue novo poderá ser crucial para o êxito da seleção brasileira e a conquista do hexacampeonato mundial. Entretanto, se continuarmos a nos pavonear em nosso preconceito regional, e considerar como sendo títulos menores os conquistados pela atual seleção uruguaia, correremos o risco de experimentar amargamente mais um maracanazo. Portanto, te cuida Mano Menezes!!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

MÚSICA: Na morte de Amy Winehouse, o talento se desperdiça aos 27!

27 é um número cabalístico no cenário artistico. É a cifra negra da música popular, o número negro que simboliza morte, o fim de astros precoces da música, talentos geniais da arte que perderam a vida no auge da fama e popularidade, rodeados de fãs e de seus demônios internos. Foi assim com Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones e Kurt Cobain. Foi assim, no último final de semana, com  Amy Winehouse.

Quem me contou da morte da cantora foi um amigo das antigas, um ex-hippie, ex-doidão e ex-bon vivant que já percorreu o mundo, foi mordomo de Debbie Harry do Blondie nos anos oitenta, ainda muito ligado em música  e que hoje, vive da gastronomia em solo potiguar, atento ao noticiário na TV, enquanto eu começava a degustar o meu almoço. Foi na hora do almoço, num restaurante das redondezas de minha casa, num tórrido sábado de inverno tropical, que eu soube da morte de uma das maiores revelações da música pop britânica (e mundial) da última década, encontrada morta em sua casa pela polícia, numa acizentada Londres, tão cinzenta quanto a vida e as letras das canções de mais uma diva da música que se foi.

Por conta de sua vida exposta tão violentamente ao público, seu vício em drogas e bebidas, suas gafes nos últimos shows e a decadência física explícita, de quem não segurou a onda e está prestes a se acabar, assim foi pelo ralo a vida de Amy Winehouse, numa torrente de drogas, birita, remédios e amores mal resolvidos. Amy simbolizou o sofrimento da mulher moderna, que, ao mesmo tempo em que é autosuficiente e talentosa, adquirindo fama e sucesso, também não tem medo de se expor e de sofrer como homem, nem que seja lambendo, literalmente, a sarjeta. É aquela típica explosão de sentimentos da mulher que chega a pagar micos, bêbada ou drogada, chorando ou rindo confusamente, cantando o amor perdido e cafajeste, preso em alguma cela da vidinha presidiária na Grã-Bretanha.

Miss Winehouse cometeu uma série de erros em sequência, passou pelo processo humilhante de ser vaiada em público pelo que não demonstrou, do tanto do que já havia apresentado (e maravilhado) milhões de fãs em todo o planeta, seja no desapontamento de seus fãs brasileiros na sua passagem por aqui em janeiro no Rio (com direito a mostrar os peitos secos na sacada de um hotel em Santa Teresa), seja em maio passado, num patético show cancelado na Sérvia, mostrando uma Amy feia, desequilibrada (literalmente) aos tombos no palco, aparentando estar visivelmente bêbada ou drogada. É uma pena! A fama é, de fato, uma merda! Tão malcheirosa que do perfume da glória nos palcos, o cheiro muda em fração de segundos, para aquele que não aguenta o peso do sucesso e que acaba por desabar em seu próprio vômito, vítima dos excessos e da falta de limites que o show business pode conduzir. Definitivamente, a fama não é para os mais frágeis!

Foi como uma figura frágil, quase quebradiça, que uma moça branca, de volumosos cabelos negros, magricela e tatuada, de origem judaica, oriunda do subúrbio londrino, acabou encantando a todos com sua voz de negra norte-americana, de cantora de soul dos anos cinquenta, arrebatando multidões nas lojas de discos e na internet, baixando-se suas canções ou ouvindo-as nas FMs ou no Youtube, em dois discos que se tornaram antológicos. Durante um tempo, ao menos no ano de 2007, quando conquistou 4 Grammys numa mesma noite, Amy Winehouse era nosso Lionel Messi da música, ou se preferirem na minha alusão futebolística, nossa Marta. A melhor do mundo durante o ano. A cantora revelação que revelou não apenas o talento de uma voz magistral, única, irreverente, mas também revelou o poço fundo do âmago de uma alma atormentada, de um corpo presente no palco, mas de uma mente que não estava lá. Amy Winehouse era uma cantora de coração atormentado, tal como uma Billie Holiday, Janis Joplin ou tantas outras que sucumbiram cedo, tristemente apagadas da existência por não conseguir se livrar da depressão. É bem verdade que em relação a suas antecessoras, Amy produziu pouco. Já estava sendo superada por novas leoas da cena musical britânica, como Adele, mas é inquestionável o seu papel histórico para a música contemporânea, no curto espaço de tempo em que viveu. Muitos fãs inconformados podem dizer que se sentiram traídos pela fraqueza de seu ídolo, mas Amy Winehouse foi traída pelo seu próprio coração!

Um coração que deixou de bater depois de sofrer tantas porradas no corpo e no destino, devido a testes sobrehumanos por abuso de substâncias e pela imensa quantidade de drogas, tabaco, álcool e vida desregrada que vinha assumindo a cantora inglesa, a ponto de muitos apostarem que seu obituário era uma questão de tempo. E acabou acontecendo, sem que ao menos se esperasse que ela completasse 28 anos, agora perto do mês de setembro. A polícia britânica, que investiga a morte da cantora, ainda não publicou um relatório conclusivo, atestando a causa da morte por consumo de drogas, mas é inquestionável que o que vier a público, acerca das razões da morte dela, vai ter relação com todos os últinos anos vividos por Winehouse, de fama e de autodestruição. O coração de Amy Winehouse foi traído pelas drogas que consumiu, mas também pelo amor canalha que cultivou com o ex-marido, o aprendiz de cafa, traficante e atual presidiário, Blake Fielder-Civil, que, segundo muitos, foi o responsável por introduzir à ex-mulher ao maléfico mundo das drogas pesadas. Amy fazia o tipo das mulheres desafortunadas que parecia não saber escolher homem, mas também revelava ser uma simples garota de subúrbio que conquistou a fama muito cedo, e que só queria, na verdade, conquistar um amor para chamar de seu.

Não escutaremos mais, cantando ao vivo, a cantora de Rehab, Valerie ou Tears Drive on Their Own e isso realmente é triste. Como que pressagiando uma morte anunciada, a canção título do álbum Back to Black e o video que mostra Amy rodeada por seus músicos, toda vestida de preto e comparecendo a um funeral, parece retratar o futuro que seria o da própria cantora. Os vexames, bebedeiras, ataques de histerismo ou pitis da diva não serão mais motivos de piada em programas humorísticos ou na internet, pois só resta aos mortos a devida homenagem, e, com certeza, se seus discos não vendiam bem antes, agora voltarão a vender em escalada avassaladora, como se dá com todo grande artista da música morto recentemente (vide o que aconteceu com os discos de Michael Jackson). La Winehouse preferiu seguir o caminho de tantos que morrem jovens, exatamente na mesma idade de 27 anos, que agora vão figurar nos livros de história como fantasmas do mito da juventude que se eterniza no pós-morte. Eu bem preferia um futuro com uma Amy Winehouse velhinha, cantando bêbada nos botecos londrinos, talvez sem mais tanto sucesso, mas ao menos, feliz, definitivamente acompanhada do homem que amasse; mas, enfim, não deu. Para Amy Winehouse, unfortunately, a exemplo de suas canções: Love was a losing game!

terça-feira, 12 de julho de 2011

HQs: O jornalismo em quadrinhos de Joe Sacco é um chute no saco da hipocrisia generalizada das guerras.

Histórias em quadrinhos são algumas de minhas paixões, tendo a estante recheada de livros, CDs, DVDs, jornais, revistas em geral e, é claro, HQs. É uma arte literária que vem ganhando reconhecimento nos últimos anos, sobretudo pela chegada ao Brasil  de grandes editoras internacionais como a Panini e a Conrad, que distribuem em grandes livrarias, e não apenas em bancas de jornal ,uma forma de leitura que deixou de ser monopólio do público infanto-juvenil e conquistou um grande segmento social adulto, intelectualizado e de formação universitária. São os chamados quadrinhos adultos ou de temática social, e nesses, obras-primas como Maus, do quadrinhista norte-americano Art Spiegelman, ou  Gen-pés descalços, do japonês  Keiji Nakasawa, são apostas certas de vendas, nas prateleiras dos vendedores de livros. Ambas são obras que tratam de conflitos mundiais: o primeiro, da história da briga entre gatos e ratos para retratar, na verdade, como pano de fundo, o horror do holocausto e da ditadura nazista; o segundo se refere às memórias do autor, criança na época em que a bomba atômica explodiu em Hiroshima e Nagasaki.

Nesse horizonte de histórias em quadrinhos tão interessantes e didáticas, eu destaco o papel do jornalista e desenhista, nascido em Malta e radicado nos Estados Unidos, Joe Sacco, que esteve no Brasil recentemente, na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), passando por São Paulo, onde deu algumas palestras. Os quadrinhos de Sacco também retratam o horror dos conflitos bélicos. Nesse caso, o conflito árabe-israelense e a tragédia dos palestinos, nas graphic novels "Palestina", de 1996, ou "Notas sobre Gaza", de 2010. Sacco esteve nas principais áreas de conflito do globo, convivendo com famílias de refugiados e todas as sofridas vítimas dos últimos sangrentos conflitos mundiais, capturando nas suas histórias as imagens de dor, sofrimento, ódio e esperança que nutrem todos esses povos.

Joe Sacco conseguiu aliar a profissão de repórter com sua grande paixão:os quadrinhos, criando um novo gênero literário, segundo alguns, chamado de "reportagem em quadrinhos". Através de suas gravuras, Sacco consegue transmitir amplamente a notícia, de uma forma que não consegue ser captada pelas câmeras, até porque equipes de televisão são proibidas nos territórios ocupados, e qualquer jornalista que se arrisque a ir muito longe, nesse tipo de terreno perigoso, pode pagar com a própria vida. Pois foi enfrentando o medo, a intimidação de fuzis, a pressão de soldados e a desconfiança de simpatizantes de grupos terroristas, que Joe Sacco entrou em lugares tão díspares, mas semelhantes no cenário de caos e destruição, como Gaza, na Palestina, ou Goradze, nos Balcãs, na antiga Guerra da Bósnia, conseguindo transmitir histórias impressionantes. Foi nesses lugares que ele conviveu com diversas pessoas, e fez amigos que vivenciaram o conflito, ouviu e relatou conversas de mães que perderam seus filhos, jovens com pouca fé no futuro ou nutrindo algum tipo de ódio no coração. Ouviu os dois lados do conflito, conversando com jovens e intelectuais em cafés, em Israel ou Tel-Aviv, como também presenciou cenas dantescas, como a ação da repressão, num Estado-Policial que finge ser democrático.

Mas, o que há de mais interessante nos livros em quadrinhos de Joe Sacco é a fidelidade jornalística que ele tem com a informação, não deixando que sua obra se transforme numa peça de propaganda, preferindo retratar as imperfeições dos dois lados do conflito, permitindo que o leitor faça um julgamento isento. Ora, se o conflito é narrado do ponto de vista das pessoas palestinas que vivem nos territórios ocupados, essa é uma opção estética válida, tanto quanto para aqueles que preferem relatar o cotidiano das famílias judaicas, vítimas cotidianas do terrorismo em Israel. É difícil não ter uma certa compaixão e até mesmo cultivar um sentimento de revolta diante do sofrimento passado pela população palestina, uma vez que eles podem ser comparados a tantos povos vítimas da opressão ou da injustiça, vivendo em favelas ou bairros miseráveis, como são muitos que desfrutam o cotidiano da periferia das grandes metrópoles na América Latina ou mesmo nos Estados Unidos, com seus guetos étnicos, entre hispânicos, negros e asiáticos. A experiência de ter conhecido de perto esses povos marcou profundamente  a experiência do quadrinhista e jornalista, afetando suas crenças na humanidade e sua esperança na resolução há curto prazo de graves conflitos globais, adotando sempre o ponto de vistas dos excluídos.

Discordo, portanto, quando alguns patetas da "nova direita", do alto de sua pose intelectualóide, de intelectual burguês, com seus cachimbos refinados, saem nos meios de comunicação propagandísticos do pensamento neoliberal, como a revista Veja ou Folhas da vida, achando que é reducionismo de esquerdista satanizar os israelenses e beatificar os palestinos, como se antissemitismo e antissionismo fossem a mesma coisa. Na verdade, lamento o holocausto sofrido pelos judeus, assim como lamento o governo de um Estado judeu massacrar bairros e famílias inteiras, com lançamentos de mísseis, invasão de tanques e tiros de metralhadora, em Gaza e na Cisjordânia, sob o pretexto de combater o terrorismo. Se não retratam apenas os traços mais brutais da violência, os quadrinhos de Sacco também servem para demonstrar o terror psicológico que vivem essas famílias, quando passam pelo sentimento de impotência de ver um ente querido seu, detido pela polícia, sem saber se ele retornará, ou quando temem que seus filhos saíam à noite pelas ruas, principalmente quando há toque de recolher, pois não tem a certeza de que eles voltarão vivos para casa. É realmente uma situação muito triste!

Mas é o fascínio revolucionário de adotar a causa dos injustiçados, que faz tão bem para certas pessoas fazerem jornalismo, denunciando ao mundo atrocidades e tentando mostrar um lado que as grandes emissoras não vêem. Para isso é que o trabalho, a escrita e os desenhos de Sacco seguem como referência obrigatória, para quem quer entender melhor os motivos de conflitos como os entre israelenses e palestinos, e torcer sempre para que um dia exista um final feliz. Afinal de contas, se nos contos de fada, contados antigamente nos mais pueris gibis, contentávamos-nos com o mundo de faz-de-conta da Turma da Mônica ou das histórias do Tio Patinhas, agora se o mundo é triste e feio, pela dura realidade relatada nas graphic novels, ao menos podemos esperar se algum Super-homem pode aparecer, senão com uma sunga vermelha por cima de uma ceroula azul, que ao menos seja de paletó e gravata, numa grande sala oval fechada, acompanhado ou não de seu staff de assessores, mas que tenha ali à disposição uma caneta, já que não tem a visão de calor ou superforça, e ao menos tenha a dignidade de assinar um acordo de paz, ou um tratado, reconhecendo mutuamente o direito de exitir um Estado palestino, ou de que tantos povos possam ter definitivamente a paz, nem que seja para constatar tristemente que a necessidade de reconstrução de suas vidas vai depender de reconhecer seus próprios erros, e que essa reconstrução poderá levar vários anos. Torçamos para que, enfim, a Liga da Justiça consiga se sobrepor à Legião do Mal. Os quadrinhos de Joe Sacco estão aí para demonstrar isso.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

POLÍTICA: O fim da era FHC se dá com a morte de seus principais colaboradores.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sem dúvida, tem uma vida longeva. Aos 80 anos de idade, recém-comemorados, com direito a diversas homenagens, e até uma reabilitação política inédita pela presidenta Dilma Roussef, FHC retornou à ribalta e ao centro das atenções de que tanto gosta, seja por ter chegado à idade de um ancião, seja pela sua participação no polêmico documentário sobre a legalização da maconha, Quebrando o Tabu, ou por estar sempre presente no enterro dos amigos e aliados.

Por esse último fator, nas últimas décadas, FHC tem colecionado perdas. As primeiras dolorosas e inesperadas, ainda no tempo em que era presidente, com o falecimento de seu melhor amigo e principal articulador político, o antigo ministro das telecomunicações, Sérgio Motta. Se Fernando Henrique chorou com a perda do amigo Serjão, o presidente tucano sentiu ainda mais com a perda do grande aliado, do antigo PFL, o deputado Luiz Eduardo Magalhães, filho do dinossauro e coronelíssimo Antônio Carlos Magalhães (o finado "rei da Bahia"), morto precocemente aos 42 anos devido a um infarto fulminante, gerando um vácuo de poder com sua morte, pulverizando a eterna aliança entre tucanos e pefelitas (agora, chamados de democratas, alojados no DEM de José Agripino e cia). FHC aprendeu a conviver com a morte dos que lhe são próximos, tendo que digerir a morte por câncer de Mário Covas, em 2001, último baluarte ético de um partido surgido no começo dos anos 90, e que tinha a promessa de permanecer, no mínimo, vinte anos no poder (sabe-se agora que o PSDB só governou mesmo os oito anos de FHC, sendo superado pelos petistas).

Porém, mais tristeza ainda estava por vir, para atingir o sociólogo no poder ou o "príncipe dos sociólogos", como alguns de seus fãs bajuladores gostam de dizer. A morte de sua esposa e primeira-dama, Ruth Cardoso, em 2008, foi o mais duro golpe na vida pessoal de Fernando Henrique. Afinal, não morria apenas a apoiadora e primeira-dama, mas também a companheira de vida, alguém com quem o ex-presidente dividia ideias e afetos, além dos lencóis. Ruth teve uma participação política importante no governo do marido, chefiando a ONG Comunidade Solidária, e seu perfil acadêmico de antropóloga, condizia com o do esposo intelectualizado, que do alto de sua vaidade, queria ser uma espécie de Sartre no poder, acompanhado de sua Simone de Beuvoir. Foi muita pretensão de um sujeito pretencioso, mas este é FHC, e enquanto ele permanece vivo, seu séquito de apoiadores parece não ter a mesma longevidade, caindo um a um por doenças e ataques cardíacos repentinos, ou morrendo de velhice mesmo.

Um dos últimos a tombar foi seu ministro da educação e mentor intelectual na pasta, Paulo Renato de Souza. Aos 65 anos, bem menos que o ex-presidente, Paulo Renato sucumbiu após passar mal em uma aula de dança, na provinciana cidade paulista de São Roque, a poucos quilômetros da capital, São Paulo, vítima de um infarto, encerrando mais um capítulo da história do tucanato, com a morte de um componentes do núcleo duro do partido: um nicho de intelectuais burgueses e neoliberais, alguns oriundos da esquerda tradicional da década de 70, e que agora vestiam o figuro moderno da livre iniciativa, da abertura de mercado e da defesa dos interesses do capital. Com a morte de Paulo Renato, desaparece mais um dos queridinhos da Revista Veja, hoje, símbolo maior dos meios de propaganda do alto tucanato, e só resta a FHC a companhia indigesta de José Serra, seu correligionário que representa o segmento maiis raivoso, oposicionista e reaçonário do partido, ou a presença cândida de um Geraldo Alckmin, renascido das cinzas e das urnas, com mais uma governança tucana em seu reduto-mor, o estado de São Paulo. Com a morte de seus principais líderes e a ausência de renovação, sem lideranças mais jovens (com exceção de Aécio Neves, mas este representa um protetorado bem específico do partido), o partido de FHC fica cada vez mais atrelado moralmente à figura de seu velho timoneiro, além de algumas figuras carrancudas e inexpressivas, como o presidente da legenda, Sérgio Guerra, ou  o eterno escudeiro de Serra, o deputado José Aníbal, e a figura do surpreendentemente eleito, senador Aloísio Nunes Ferreira. Enfim, uma turma augusta de senhores idosos e vaidosos, que não dispensam um bom cafézinho num restaurante de luxo, de preferência no bairro dos Jardins, em São Paulo.

Até mesmo o ex-presidente Itamar Franco, morto neste final de semana, entra na conta. Pra quem não sabe ou é muito jovem para lembrar, Itamar catapultou FHC ao estrelato político, quando o brindou com o ministério da fazenda, e com ele veio a criação do Plano Real, que tirou definitivamente o país dos trilhos da inflação. FHC foi eleito no primeiro turno da eleição, contra um ainda inexperiente Lula, no sucesso do plano econõmico, mas graças à oportunidade que Itamar deu ao seu subordinado, passando FHC e não Itamar para a história, como o presidente brasileiro que domou a inflação. Itamar morreu angustiado e com um eterno rancor de seu ex-aliado, chegando a comentar uma semana antes de sua morte, aos 81 anos, que ninguém tinha vindo lhe cumprimentar ou render homenagens quando completou 80 anos, ao contrário de FHC.

Resta a FHC ver seus netos crescerem enquanto ainda cultiva uma boa saúde, com tantos anos de vida e tantos cabelos brancos a lhe ornamentarem a vasta cabeleira. Se não tem fôlego mais para uma nova disputa presidencial, FHC ainda está vivo para disputas políticas, envaidecido toda vez que os meios de comunicação lhe procuram, como uma espécie de oráculo do neoliberalismo, diante de um governo social-democrata ( o que o PSDB não é, apesar da sigla), e que nos oito anos de governo Lula, trocou mais o liberal pelo social. Não se sabe ao certo quem será o próximo a morrer, na longa lista de apoiadores e pessoas públicas que influenciaram a carreira política do ex-presidente e sociólogo, mas se sabe que o maior representante do tucanato ainda tem muito a dizer, mesmo que solitário, já que os seus mais próximos parecem não estar mais presentes nesse mundo, e os mais jovens  possam considerar que já estão lidando com um velho ancião. Ledo engano! Pois o ex-presidente ainda tem muito a dizer. Afinal, FHC ainda está vivo!!!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

FUTEBOL:A Taça Libertadores confirmou: 2011 é peixeeeeeeeeee!!!!!!!

Quem me conhece e sabe de minhas predileções futebolísticas sabe que sou um botafoguense doente, de carteirinha, além de um admirador e torcedor ocasional do Internacional, quando estou em terras gaúchas (com a  família da esposa sendo toda colorada, o caminho não poderia ser diferente). Agora, acima de tudo sou um amante do futebol, um admirador da nobre arte esportiva de fazer mover a pelota. Tenho até uma tese (e devo publicá-la futuramente, afirmo) que quem não gosta de futebol é semelhante a quem não gosta de samba: bom sujeito não é. Brincadeiras a parte, em relação aos meus amigos e leitores do blog que não gostam do esporte (afinal, sejamos democráticos), quem não gosta não precisa ler mais estas linhas, se acha-las desinteressantes, mas me permitam, por favor, falar sim sobre a maior sensação do futebol brasileiro nos últimos anos: o Santos Futebol Clube.

Acontece com o Santos em São Paulo o que ocorre de forma mais lenta com meu amado Botafogo, no Rio de Janeiro: a ressureição de um time. Assim como o Fogão que revelou Garrincha e que já conquistou diversos títulos nacionais e mundiais no passado, o Santos é notoriamente o time de Pelé, merecidamente o "rei", o maior jogador de futebol de todos os tempos, e também o time que, supostamente, está revelando um sucessor à altura, Neymar, "só mais um menino feliz brincando com a sua bola", como diz a propaganda da Nextel. Neymar é a jovem promessa do futebol nacional que agora, no final do ano, na disputa do Mundial Interclubes, pode desbancar o todo poderoso Messi ( o nº 1 do ranking mundial e queridinho de Maradona), ao jogar contra o Barcelona e, quem sabe, escrever seu nome definitivamente nas páginas da história do futebol.

Pois é, se Messi é o protegido de Maradona, el Dios argentino, Neymar é ancorado pelo prestígio de Pelé, que sem titubear, elegeu o garoto de 19 anos seu sucessor. O jovem Neymar conseguiu apagar o chato episódio do começo do ano passado, quando pela internet chegou a zombar de torcedores, autobajulando-se pela sua condição de craque, ou quando foi responsável pela saída do técnico anterior do time, que se queixava do excesso de estrelismo e da falta de disciplina do jogador. Tudo resolvido. Assim como Pelé, que também foi revelado precocemente ainda adolescente, inicialmente gerenciado pelo pai, Dondinho, ex-jogador, Neymar tem o sólido acompanhamento e firme condução de sua carreira pelo pai, do mesmo nome, também um jogador de futebol aposentado, que viu no filho a realização de um ideal de família, de conceber um craque do futebol. Neymar é querido não apenas por ser um bom jogador, mas por representar a juventude de um futebol alegre, meio irresponsável, mas genuinamente brasileiro. Um futebol que na década de 90 era representado por uma máquina de fazer gols, chamada Ronaldo Nazário, hoje um astuto homem de negócios, que encerrou a carreira num também mercantil Corinthians, e que apesar de ser mais conhecido hoje pelo semblante arredondado e rotundo, também foi o carequinha da "amarelada" no final da Copa do Mundo de 98, e o astro com a cabeleira de Cascão da Turma da Mônica, que atingiu a redenção, na conquista do Pentacampeonato no mundial seguinte, em 2002.

Porém, Ronaldo e Neymar tem diferenças de fundo, fundamentais para se entender o que se espera do futebol brasileiro nos próximos anos, principalmente para um país que aguarda sediar, pela segunda vez em sua história, uma Copa do Mundo, em 2014. A contribuição histórica de Ronaldo para o futebol brasileiro e mundial é inquestionável, tendo em vista que, assim como Romário, ele já foi considerado o maior jogador do mundo (por duas vezes consecutivas, diga-se de passagem). Porém, diferente de Neymar,  o "Fenômeno" foi concebido nos gramados estrangeiros, jogando por times europeus e assim consolidando seu nome, assim como foi com jogadores como Kaká e Alexandre Pato. Ronaldo Nazário foi um astro made outside, que somente tardiamente e após os 30 anos de idade, consolidou-se como uma lenda nos estádios brasileiros, ao largar a proposta do seu favorito Flamengo e abraçar um ávido por títulos, o Corinthians. Neymar, ao contrário, foi formado e construído no mesmo clube, o Santos, que revelou o segredo do sucesso do time, após tantos anos num jejum de títulos nacionais e internacionais: o investimento na juventude.

Assim como o Santos, há pouco mais de uma década, revelou jogadores do quilate de Robinho e Diego, o Santos de hoje revelou outra dupla de jovens goleadores inseparáveis: Neymar e Ganso. Um, a estrela ascendente, o novo "príncipe da bola" do ataque santista, e talvez o sucessor merecido de Pelé; o outro, o "cavaleiro da triste figura", o modesto coadjuvante no meio campo, injustamente maltratado pelo próprio clube, em desgastantes e desmoralizantes negociações para sua manuteção no time, mas que permanece fiel à torcida, mesmo com sucessivas contusões e problemas contratuais. A grande habilidade técnica da escola de jogadores do Santos é investir pesadamente  na formação de garotos, tirados de casa no início da puberdade, e numa formação espartana, transformá-los em verdadeiros guerreiros da bola. Também merece destaque no clube a ênfase em sempre proporcionar, no mínimo, uma dupla de protagonistas em campo, interligados com o restante do time, como uma entidade única, mas dotada de uma cabeça habilidosa, fazedora de gols, e que levou o time do litoral paulista à consagração nacional, com o título da Copa do Brasil, no ano passado, a conquista regional do Campeonato Paulista este ano, derrubando os darlings da capital (o temível São Paulo, o Palmeiras e o Corinthians), e, finalmente, a consagração final com a vitória de ontem, na Taça Libertadores do América, triunfando como mais um time brasileiro, tricampeão da Libertadores, igualado agora com o São Paulo. Sim, podem gritar santistas, o Santos agora é, pela terceira vez, após mais de quarenta anos, campeão das Américas! Relembrando o símbolo do clube da zona portuária paulista: É peixeeeeeee!!

A jornada do Santos na Libertadores foi épica porque se manteve como único time brasileiro a permanecer na segunda fase do campeonato, tendo em vista a derrota precoce de times já acostumados com o certame, tais como o competente Internacional,  seu rival Grêmio, o habilidoso Cruzeiro, o popular Corinthians, o Fluminense ( campeão brasileiro de 2010), e o tinhoso Flamengo. A conquista da Libertadores também foi a conquista pessoal do técnico Muricy Ramalho (preterido para chefiar a seleção brasileira na próxima Copa, substituído por Mano Menezes), e um cala-boca no seu antigo time, o Fluminense, que o demitiu no meio do campeonato, acusado de ser um técnico que "amarela" nas partidas decisivas. Gosto dos redimidos, pois são aqueles que ninguém acredita e que conseguem dar a volta por cima. Por isso que me tornei botafoguense, por isso que gosto de futebol , e, sobretudo, por isso que sei me curvar ao reconhecer um bom futebol.

É natural que após o final do ano, o Santos possa não contar mais com a habilidade e a alegria de Neymar, vestindo a camisa do clube (uma vez que já foi cortejado por centenas de vezes por ínúmeros clubes europeus, especialmente o milionário Chelsea, interessado no jogador), e o caixa do time paulista não será suficiente para mantê-lo durante muito tempo; mas o que ficará na memória é como esse notável time conseguiu manter entre suas paredes jogadores tão maravilhosos como Pelé e Neymar, que, na data de ontem (22 de junho de 2011. Que fique pra história, por favor!), mais uma vez, para os aficcionados por futebol, independente da camisa do time que vistam, impressionaram um país inteiro (talvez, menos os corintianos, ainda revoltados com a derrota anterior), mostrando um futebol que deseja apenas um objetivo: vencer. Como é bom vencer, sobretudo quando a vitória é merecida. Parabéns, Santos!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

POLÍTICA: Qual a relação entre a queda de Palocci e a aplicação da teoria dos sistemas de Luhmann?

Mediante os comentários de, praticamente, todos os meios de comunicação do Brasil acerca da queda do ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, pelos motivos mais do que óbvios de suspeita de enriquecimento indevido (ou ao menos acelerado) no tempo em que era apenas um deputado federal, envolvido na sucessão de Lula, me veio a ideia de introduzir uma discussão sociológica sobre o fato, utilizando um pouco dos referenciais teóricos que empreguei em minha tese de doutorado, sem, contudo, querer entediar o leitor ou transformar este idílico espaço virtual num local para profundas e prolíficas reflexões acadêmicas que só interessariam a mim mesmo. Na verdade,o que pretendo é tentar discorrer em linhas simples, e numa linguagem acessível, alguns pressupostos da teoria dos sistemas sociais autopoiéticos, atribuída ao sociológo alemão Niklas Luhmann (1927-1998).

O professor Luhmann,para muitos,é considerado um dos maiores pensadores das ciências sociais do século XX, e, apesar de incompreendido por alguns, que chegam a considerar sua teoria por demais formalista ou conservadora,eu, particularmente, como bom estudante de pós-graduação, fiquei seduzido pelo apelo dos chamados "sistêmicos",  e creio que é chegada a hora de prestar a devida homenagem a um teórico que já visitou, conheceu e admirou o Brasil, aplicando sua teoria na realidade brasileira, cabendo aqui uma homenagem a Luhmann através de comentários à crônica política nacional, valendo-se de seu referencial teórico, mormente em relação aos últimos controversos acontecimentos envolvendo o ex-chefe da Casa Civil.

Luhmann retira do conceito de "autopoiese", encontrado na biologia através dos estudos do bióloco chileno, Humberto Maturana, a chave para explicar a formação da sociedade e a dinâmica das relações sociais. Autopoiese significa, ao pé da letra, autoprodução, autorreprodução ou, para alguns, simplesmente, a autonomia de um sistema ou forma de vida de se manter por si próprio. Isso implica em dizer que determinados seres vivos tem vida própria, como as plantas, e assim como na natureza, na sociedade, pela teoria de Luhmann, os distintos sistemas sociais (econômico, político, jurídico, artístico, religioso), tem sua autonomia em relação a um e outro, com suas operações internas, códigos e programações próprios. Luhmann entendia que cada sistema funciona sob uma espécie de código binário, um vetor que orientasse as comunicações(relações sociais) que se dão no interior de cada sistema, baseado numa constante e sistemática diferenciação, como, por exemplo: no sistema econômico, em que o código é baseado na diferenciação entre ter X não ter; ou no sistema religioso, baseado no código sagrado X profano. O código serve para diferenciar o sistema dos demais sistemas sociais, uma vez que cada sistema permanece fechado nas suas próprias relações internas, em relação aos outros, como condição para que exista como sistema social. Assim, a diferenciação é fundamental para que um sistema seja reconhecido como distinto por outro sistema social. Entretanto, os sistemas não permanecem fechados sem se comunicar, pois acontece o que Luhmann define como "acoplamento estrutural", na medida em que um sistema se abre, a fim de proporcionar um canal de comunicação com outro sistema.

Traduzindo numa linguagem mais simples, a reação de Palocci diante das acusações de ter multiplicado seu patrimônio mais de vinte vezes, num tempo extremamente rápido, não foi suficiente para mantê-lo no cargo, não obstante não terem prosperado denúncias no aspecto jurídico, uma vez que todos os pedidos de ajuizamento de ação contra o ex-ministro foram arquivados pelo procurador-geral da república. Para explicar perante a opinião pública seu ganho espantoso de patrimônio, que o tornou um homem rico em menos de cinco anos, Palocci preferiu se valer do código lícito X ilícito presente no sistema do direito, valendo-se de argumentos jurídicos acerca do sigilo de suas transações comerciais com seus clientes, nas suas atividades de consultoria, sem conceber que as regras de direito privado, atinentes as suas atividades como consultor, não eram consentâneas com àquelas relacionadas com sua atividade de deputado federal, homem público sujeito não apenas às normas de direito público, mas também dependente de um sistema moral que se destaca do sistema jurídico, mas que se acopla ao sistema político. Em outras palavras, juridicamente Palocci se safou, politica e moralmente, não.

O ex-ministro Palocci não compreendeu, se eu for usar a terminologia luhmanniana, os acoplamentos necessários entre o sistema político e o sistema jurídico para que ele pudesse unir a virtu e fortuna tão presentes em sua carreira política desde a Prefeitura de Ribeirão Preto até chegar a Casa Civil, e que adornam o pensamento de Maquiavel acerca do político sagaz e astuto que soube aproveitar as boas oportunidades que lhe vieram. Ao invés disso, a imagem que permaneceu do ex-ministro para a opinião pública foi a de um político que cedeu às tentações do poder, principalmente no que tange ao enriquecimento e à acumulação de capital, em virtude dos bons contatos que estabeleceu na área econômica, no período em que foi Ministro da Fazenda no primeiro mandato presidencial de Lula, e na articulação da campanha da atual presidente, Dilma Roussef.

Assim como aquele político provinciano, do interior, que seduzido pelos encantos dos salões do poder, acaba por cometer gafes imperdoáveis, como a de se deixar levar pelas aduladores e pelo induzimento de seus subordinados, ao frequentar mansões suspeitas em Brasília, ou autorizar (ou ao menos aquiescer)  a quebra ilegal do sigilo bancário de um simples caseiro, Palocci cometeu seu segundo erro fatal, no sistema da política, ao tentar agir conforme o código poder X não poder, sem se aperceber que tal atitude não correspondia ao código de licítio X ilícito do sistema jurídico. Se no caso do caseiro, Palocci confundiu os códigos, no caso recente de seu enriquecimento mal explicado aconteceu o mesmo, valendo-se o ministro de argumentos jurídicos para não abrir o bico quanto à identidade de seus contratantes e a origem de tanto dinheiro em seu patrimônio, ao invés de se valer de argumentos pretensamente políticos, de provar que o que estava em jogo não era a presunção ética de sua conduta de homem público ao possuir um patrimônio tão elevado, mas sim os destinos da nação, diante da necessidade da manutenção no ministério de um articulador político que, de forma diligente, mantivesse unida no Congresso a bancada oposicionista. Palocci caiu por parecer titubeante, por não se deixar levar pelas comunicações típicas do sistema político, por ter permanecido na defensiva, quando lhe era exigido entrar em campo e contra-atacar, participando das operações internas do sistema que ingressara. Ficou o dito pelo não dito, a ausência de explicação do inexplicável.

Palocci não é o primeiro, nem último caso, do político de origem trotskista, que egresso do movimento estudantil, deixa de ser médico envolvido nas lutas sociais, e se transforma no empresário bem sucedido, deslumbrado com o vil metal. Porém, o PT, como partido surgido dentro das disputas internas do sistema político, na diferenciação entre poder X não poder, proferiu durante toda sua história um discurso de conquista legítima do poder, através do voto, da participação popular e democrática, unindo os segmentos subalternos mais organizados da sociedade brasileira, na busca do sonho possível de colocar um de seus iguais no comando da nação. Em síntese, ao levar um ex-metalúrgico à presidência, o Partido dos Trabalhadores fez valer seu slogan básico, herdado historicamente dos antigos movimentos socialistas: "trabalhadores no poder". Entretanto,  essa classe social parece ter se perdido, na medida em que seus militantes de classe média, como Palocci, acabaram por mudar de classe social, tornando-se os patrões, os banqueiros, empresários ou donos de fábrica, na perspectiva da aliança de classes pretendida por Lula e que muito contrariou os setores marxistas da esquerda brasileira.

Políticos de origem esquerdista e que caem momentaneamente em desgraça política, como Palocci, são resultado da forma como evoluíram as operações internas do sistema político no Brasil, e de como os subsistemas vinculados à atividade política dos grupos de esquerda evoluíram junto com o país, após a redemocratização. Invoca-se a chamada "fórmula de contingência", que é o que dá unidade ao sistema, segundo a teoria de Luhmann, conferindo-lhe sentido. O sentido da política é a busca do poder do Estado, assim como a fórmula de contingência do sistema do direito encontra-se na justiça. O Estado, como fórmula de contingência da política, implica em uma série de "irritações" nos demais sistemas sociais, se eu for aqui utilizar novamente a teoria de Luhmann, no sentido de afirmar que na busca pelo poder, partidos e siglas de esquerda como o PT apenas se submetem à programação das operações do sistema político, no momento em que se organizam com seus candidatos e ganham eleições; mas, a partir daí, passam a tecer toda uma rede de relações sociais de dependência, clientelismo e fisiologismo, que envolvem outros sistemas sociais, como o sistema econômico, que acabou por proporcionar todo um enriquecimento ou ganho de capital para o ex-ministro Antônio Palocci.

Em síntese, não quero afirmar aqui que os representantes da classe política são todos iguais, e por isso não vale à pena participar do processo democrático-eleitoral que se dá no âmbito do sistem político. O que quero dizer é que, sistemicamente falando, todos os últimos acontecimentos, da história recente das lutas de poder no Brasil, levaram políticos como Palocci a sofrer um duro revés em suas trajetórias de homens públicos, no momento em que passaram a confundir tomada do poder com legitimidade no exercício da função pública. Entretanto, que isso faz parte das comunicações internas do sistema político, assim como de seus acoplamentos com os demais sistemas sociais, não é novidade. Talvez, se determinados parlamentares ou ministros contassem com uma boa assessoria de sociólogos, o tamanho da queda não fosse tão grande, e seu ímpeto de reproduzir autopoieticamente as relações do sistema social que ingressaram não seria tão carente de reflexividade. Que ao menos sirva ao ex-ministro Palocci de lição, que não se pode querer obter o poder político e o poder econômico de uma só vez, sem acompanhar as evoluções e os acoplamentos necessários do sistema político e do sistema econômico. Para Palocci, só resta agora a próxima legislatura e uma boa atividade empresarial como consultor de negócios. Se fosse eu, com bons advogados, bons contadores e bons assessores políticos, da próxima vez, no mínimo eu comprava um apartamentinho básico em Santo Amaro, perto do povão, pra ninguém que meu olho cresceu, diante da possibilidade de lucrar tanto com o exercício do poder. Se cuida, Palocci!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?