Fica difícil imaginar aqui o que escrever levando em conta tudo o que já se escreveu, durante toda a semana, sobre a morte do fundador da Apple, Steve Jobs, considerando as homenagens, a cobertura midiática durante um dia inteiro em canais como a Fox e a Globo News, debates e entrevistas falando da contribuição do gênio irriquieto de Jobs para a humanidade, a romaria de fãs, admiradores, viciados em informática e consumidores, que lotaram as lojas dos produtos da Apple em todo o mundo, apontando os seus tablets em sinal de respeito, com a imagem de uma vela acesa no monitor. Parecia que tinha morrido um mártir, um santo, uma estrela de rock, um governante, um ídolo pop. Por trás do fascínio que o homenzinho alto e magro, de óculos de aro fino, nascido em San Francisco, California, exercia, estava um simples homem, mas um homem que mudaria para sempre a face do final de um século e do começo de outro.
Como todo blogueiro oportunista, que escreve de tudo, sobre todos os assuntos, os obituários de gente famosa ou importante são sempre o momento certo pra "tirar uma casquinha" e arrumar o que escrever pra preencher espaço. Confesso! Mas, para que a minha narrativa seja, ao menos, original, creio que devo legar neste texto minhas impressões pessoais sobre Jobs, a admiração que eu poderia ter (e milhares tem por ele) e fazer o honesto reconhecimento de sua contribuição para o capitalismo e para o avanço tecnológico. Sim, porque a tecnologia só se desenvolve no capitalismo (perdoem-me os companheiros socialistas). É preciso que exista algo para vender, algo decente, acessível, disponível para o mercado, para que conglomerados, holdings e empresas liberem financiamento para que pesquisas se desenvolvam, novos artefatos sejam inventados e testados, e assim o bonde da história continue sua caminhada, da evolução da roda até o software, sob o vaticínio do lucro e patrocínio do interesse econômico.
Foi numa das revistas símbolo do capitalismo que vi, pela primeira vez, nos anos oitenta, Steve Jobs, numa entrevista feita à revista Playboy (antes das gozações, afirmo, para quem acredita ou não, que mesmo na minha adolescência eu folheava a revista não só para ver belas mulheres nuas, mas também para ler as entrevistas). Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que seria a gigante que se tornou a Apple, de como uma dupla de jovens programadores (Jobs e seu xará Steve Wozniak) tinha revolucionado a tecnologia, criando o computador pessoal, e fazendo com que aquelas enormes geringonças dos filmes de ficção científica e do seriado Star Trek, deixassem de ser usadas apenas por militares e passassem a ser encontradas em qualquer escritório ou casa, na forma do tosco Apple II .Naquela época, o que vi foi mais um jovem com cara de cantor de rock, de banda new wave dos anos oitenta, com uma simpática gravatinha borboleta e um ar triunfante, de quem havia conseguido faturar milhões, a partir do desenvolvimento de uma engenhoca, que seria o primeiro computador pessoal: surgia a era do Macintosh.
Digo que é mentira aqui, se qualquer um dos leitores deste blog que viveu no Brasil nas décadas de oitenta e noventa, disser que passou a vida usando Macintosh. Na verdade, no Brasil e em muitos países da América Latina vivemos uma colonização da Microsoft, impulsionada pelas vendas do Windows, sistema operacional desenvolvido por Bill Gates e que passou a ocupar, gradativamente, todas as mesas das empresas e lares brasileiros, no decorrer dos anos, e que até hoje é o único software disponível em muitas lojas de computadores. O período de esquecimento de Jobs e de seus computadores (muito mais bonitos, modernos e velozes que as máquinas de Gates), tem haver com o período de declínio da Apple, e da saída de seu principal fundador, que, brigado com seus ex-sócios, decidiu sair da empresa que ajudou a fundar, tentando se aventurar (durante um tempo, sem sucesso) na criação da empresa NeXT, até comprar sua "galinha dos ovos de ouro" e mostrar a capacidade de se reinventar como empresário, comprando e revolucionando uma pequena empresa de animação que já se encontrava falida, a Pixar, transformada por ele num gigante da animação, com direito a filmes concorrentes ao Oscar e o sucesso do desenho Toy Story (quem é que não se lembra?), até ser comprada pela Disney por uma soma bilionária. Foi o suficiente para a Apple chamar seu antigo dono de volta.
Aqui vai minha segunda lembrança de Steve Jobs, agora já nos derradeiros anos da década de noventa, com uma aparência bem diferente daquele moleque cabeludo de 15 anos atrás, agora revelando um senhor maduro, meio calvo, ainda sóbrio e elegante, mas agora vestindo uma camiseta de gola mais informal, uma transada calça jeans, um par de tênis e os indefectíveis óculos. Agora, Jobs passava da imagem de cantor de rock para a de professor universitário, mostrando com didatismo seus novos inventos, revelando ao mundo aquela que seria, talvez uma de suas maiores criações, após ter criado o primeiro computador pessoal, ainda na década de setenta. Surgia o I-Pod, uma máquininha pitoresca, que mais parecia um telefone celular sem teclas, que revolucionou o consumo de música para sempre, a partir da criação do compartilhamento de músicas em arquivos de MP3. A contribuição de Jobs foi aproveitar o avanço dessa tecnologia, a necessidade de um novo mercado consumidor na internet, ávido por consumir música através de downloads, e sua criação praticamente aposentou o CD, como também fez com que artistas, gravadoras e donas de lojas de discos revissem suas estratégias de mercado, para continuar sobrevivendo. Como se não bastasse, Jobs aproveitou o I- Pod para criar o I-Phone, agora mexendo diretamente nas telecomunicações, revolucionando também, de forma semelhante, a comunicação telefônica, no momento em que no lugar do celular ele desenvolveu os smartphones, aparelhos que combinavam as funções de telefone, com o de tocador de MP3, gravação de áudio e video; ou seja, um I-Pod misturado com telefone. Sucesso arrebatador!
Mas a grande criação de Jobs ainda estava por vir, na terceira vez que eu vislumbrei o genial criador da Apple. Agora muito mais magro, abatido e sem o visual viril da juventude. Um Jobs já doente, mesmo corroído pelo câncer, anunciava ao mundo seu retorno ao jogo por cima da computação, através da criação do I-Pad; inaugurando a era dos tablets, que viriam a substituir os formais notebooks, assim como esses substituiram na vida doméstica, acadêmica e empresarial os antigos computadores de mesas, chamados de desktops. Através de uma dessas engenhocas, tão fina quanto a folha de um caderno, podiam ser unidas as funções de computador, comunicador e entretenimento multmídia. Foi o canto do cisne de um inventor que, num comovente discurso na Universidade de Stanford, em 2005, reprisado à exaustão nos canais de televisão após a morte do palestrante, demonstrou que distante da aura de gênio divino, estava um homem com todos os conflitos e inseguranças de uma pessoa comum, filho de pais adotivos e que largou a faculdade seis meses depois de ter entrado, e que, num momento tão delicado da vida ao descobrir a doença que o mataria, sabia da efemeridade de nossa passagem pelo tempo, e do fim de uma etapa convertida num ciclo vital de tantos êxitos, poucos fracassos e muitos sucessos. Não seria a fama, a fortuna ou a avalanche de bilhões de dólares que conseguiu com suas invenções, que Jobs driblaria a morte, evitando o fim iminente. Pelo contrário, o inventor do Apple II e do I-Pad, num raro momento de humildade, reconheceu a trajetória inteira de uma vida como errante e enigmática, e ao invés de glorificar a si próprio, percebeu o quanto a vida é passageira, enquanto que as obras que deixamos para trás podem durar uma eternidade. Assim se deu com outros grandes inventores, desde Arquimedes, passando por Tomas Edison e Santos Dumont. E assim se deu com Steve Jobs.
Jobs era programador de profissão, mas um artista por vocação. Sua grande contribuição para a tecnologia passa longe da simples criação de máquinas eficientíssimas e modernas, mas sim pelo design inspirado que reservou a todas elas. Foi isto que o tornou um ícone pop, transmutando as viagens lisérgicas da juventude, com a experiência com LSD e a adesão ao budismo, às suas obras tecnológicas. Não interessava apenas a Jobs o bom funcionamento de seus produtos, mas também a beleza de seus formatos, o requinte, e o conforto das formas, como que passando tranquilidade para seus usuários. Foi assim com o monitor de seus primeiros Macintoshs, foi assim com seus I-Pods, I-Phones e I-Pads, revelando os traços de alguém que mesclava ciência com arte. Se, como executivo, Jobs tinha a fama de chefe durão e quase insuportável, cobrando horas intensas de trabalho de seus pupilos, acompanhando rigidamente cada etapa do processo de criação de seus aparelhos, tal conduta pode ser justificada pelo perfeccionismo do artista que não se preocupava apenas em vender um bom produto no mercado, mas também encantar seus consumidores com verdadeiras obras de arte. E nesse sentido, o norte-americano teve sucesso absoluto.
Com a morte de Steve Jobs, ele passa de ídolo para lenda, recebendo homenagens até de seus concorrentes, como um aposentado Bill Gates, que outrora idolatrado pela mídia (até a Microsoft ser acionada na Justiça por acusação de monopólio), também reconheceu a genialidade do colega. Ou, afinal, o Windows seria ou não seria uma cópia simplificada do Macintosh? Polêmicas a parte, dificilmente aparecerá um gênio da computação com a versatilidade de Steve Jobs, mas também sabemos que os gênios, assim como as pessoas comuns, não são eternos. Felizmente, o que sobra para nós, pobres mortais, é a contribuição que esses grandes homens deram para a humanidade, e não foi pouco. Para os que acreditam, talvez Steve Jobs esteja num plano espiritual melhor, em outra dimensão ou então se converteu em alguma nova fonte de energia vital, que além da eletricidade, anima seus computadores. Quem sabe? A única coisa que sei é que cada vez que ligo um desses aparelhinhos não me esqueço de seu criador, aquele homenzinho de camisa preta, calça jeans, tênis e óculos de aro, que agora ficarão para posteridade, até o próximo "Click"!!
Um blog em forma de almanaque, com comentários sobre cultura, política, economia, esporte, direito, história, religião, quadrinhos, a vida do próximo, o que você desejar, ou que os seus olhos se permitam a ler e comentar, contribuindo para as reflexões desse humilde missivista, neófito nos mares internaúticos, em meio a esta paranoia moderna.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
SÉRIE:OS ANJOS CAÍDOS DO ROCK (Músicos que já foram astros e agora estão em decadência)-PARTE I- GUNS N'ROSES
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| Um símbolo que já foi campeão, mas agora virou peça de Museu do Rock. |
Muitas águas (e rosas) rolaram desde então, e o Guns N'Roses sofreu dois impactos grandes, que refundaram sua história: um, foi o advento do grunge, e o lançamento do disco Nevermind, do Nirvana, no começo da década de noventa (que agora completa 20 anos, lançado numa edição comemorativa), que redefiniu a história do rock e tornou o hard rock dos anos oitenta praticamente obsoleto; outro, foi a dispersão dos integrantes da banda no decorrer daquela década, devido às brigas internas e conflitos com o ego exaltado de Axel Rose, além de suas confusões com bebida, mulheres e drogas. Houve até quem redigisse o obituário do cantor norte-americano, ou mesmo que pensasse que ele teria passado uma temporada na cadeia, pelos sucessivos processos que sofreu de roadies, groupies, ex-empresários, ex-colegas ou ex-amigos, donos de bares ou hotéis e desafetos de toda monta na imprensa ou no meio musical, apesar do carismático vocalista continuar tendo um séquito frenético de seguidores no mundo todo, mas, principalmente, na América Latina.
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| Olha o rôdo aí, gente! Acho que Axel Rose carrega tantas tempestades na sua carreira errante que sobrou pro funcionário do Rock in Rio, enxugar tanta água de chuva no palco (foto:agência News). |
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| É o Zé do Caixão versão yellow? Após mais de duas décadas de drogas, sexo e rock'n roll, quanta diferença! (foto:agência News). |
Mesmo o oportunismo e o silêncio sabático que marcou a carreira de uma banda em extinção, não impediu que a organização do Rock in Rio 3 chamasse o Guns N' Roses para se apresentar após o show do Oasis, numa reerguida cidade do rock, em 2001. Eu também participei daquela edição do festival, e tive que ir embora logo após o encerramento da banda que antecedera Axel e seus asseclas, devido ao voo de retorno para casa. Mas, na verdade, eu poderia ter atrasado o meu voo, remarcado a passagem e ficado mais algumas horas no Rio de Janeiro, naquela ocasião. Não fiquei por uma simples razão: aquilo para mim não era mais Guns N' Roses. Era Axel Rose tentando viver do passado ou então uma tentativa bem oportunista de lograr uns trocados enganando o público, fazendo com que as pessoas pensassem que a mágica banda que tocou no Maracanã em 91 estivesse ali. Ledo engano!
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| A banda com sua formação clássica, quando estava no auge. Tempos que não voltam mais! |
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| Pelo menos mudanças de chapéu e óculos escuros em duas décadas. Mas a voz, não é a mesma! (foto:AP) |
Assim, penso que a organização do Rock in Rio, na pessoa da empresária Roberta Medina (a "filha do homem"), chamou o Guns N' Roses para mais uma edição do festival, apenas pra fechar a programação, por falta de contratado, ou porque sabia, através de pesquisa quantitativa, que muitos fãs saudosistas ainda iriam ao local assistir ao seu ídolo do passado. Valeu pela sessão nostalgia, mas não pela boa música. Eu não vi na imprensa musical do país, através de seus dois principais meios de comunicação, as revistas Rolling Stone e Billboard Brasil, qualquer menção à passagem pelo Brasil da banda de Axel Rose, e isso é um sintoma de como o segmento crítico, mais voltado profissionalmente pra música, vê que o Guns N' Roses é somente uma marca, do que uma banda de verdade. Pena! Deveria haver músicos com a dignidade de encerrar os trabalhos com altivez, pendurando as chuteiras enquanto estão no auge, ao invés de perpetuarem o que antes era divino e que agora se tornou esdrúxulo. Será que tenho que chamar os fãs do R. E. M. pra explicar isso? Após esse extenso artigo, peço apenas uma coisa aos dedicados fãs do Guns N' Roses: por favor! Não me linchem quando me verem na rua! All you need is just a litte patience! Sacou?!
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
TELEVISÃO: Quando o humor deixa de ser humor para virar mera grosseria.
O humor moderno, na língua portuguesa, é oriundo do trovadorismo. Tratava-se de um movimento literário baseado em cantigas, que podiam ter conteúdo lírico ou satírico. Nessas últimas, geralmente o trovador produzia um escárnio, uma gozação contra alguma personalidade pública da sociedade, usando e abusando de uma linguagem popular, chula, quando não obscena. Trava-se através da trova satírica de se efetuar uma crítica social, num momento em que era permitida a expressão do artista, dirigindo-se para o seu público de forma até rude ou grosseira, como forma de liberar uma expressão artística. Era o momento da arte, de uma manifestação estética, apreciada pelos fidalgos e pelas pessoas de fina educação das cortes portuguesas, pois era uma diversão dos nobres ouvir as piadas e os comentários jocosos de seus trovadores.
Em um filme francês que já não me recordo o nome (ajudem-me quem souber), e que assisti ainda no videocassete em VHS (imagina o quanto é antigo), o protagonista tenta sobreviver na França pré-revolucionária, valendo-se de um talento incomum para contar piadas. Ele passa a ser aceito na corte francesa, animando aristocratas em jantares e nos seus saraus ociosos, e enquanto lá fora a plebe morre de fome e urge por transformações sociais radicais, o herói de nosso filme começa a ascender socialmente, enquanto consegue arrancar riso da plateia, sofrendo a forte competição de outros piadistas como ele, até o derradeiro dia em que acabará por contar alguma piada que não tenha graça, culminando na sua expulsão sumária do palácio ou até mesmo em prisão.
Quando eu penso na frase infeliz (de muitas) do comediante gaúcho Rafinha Bastos, no programa de televisão CQC da rede Band, na última segunda-feira, fico me perguntando se Bastos não se encontra na mesma situação do comediante do filme francês, expulso do salão por ordem do rei, quando, até então querido pela plateia, comete a infelicidade de contar uma piada sem graça, ofendendo alguém. No caso do brasileiro, a piada sem graça veio num comentário sarcástico, quando numa passagem do programa, Rafinha faz um comentário sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo, exprimindo a seguinte frase: "eu comeria ela e o bebê". Foi o suficiente para que um ar de constrangimento se abatesse na tela da TV, com um visível ar envergonhado do líder do CQC, o apresentador Marcelo Tas, que rapidamente tentou corrigir a gafe do comediante, como também a postura de seu colega de auditório, o também comediante Marco Luqui, que preferiu colocar as mãos nos olhos, constrangido, do que esboçar outra reação.
Rafael Bastos já responde a um inquérito policial em São Paulo, instaurado a pedido do Ministério Público para apurar se em uma de suas apresentações no teatro, onde o artista tem um show de comédia stand up, ele teria feito apologia ao crime, ao fazer uma piada com as mulheres feias, dizendo que "o homem que estupra mulher feia não merecia cadeia, mas sim um abraço". Dentro de determinado contexto machista, a piada arrancaria risos, mas numa realidade social de violência contra a mulher, a piada soou de muito mal gosto. Eu soube do caso, inclusive, de um comediante francês, que foi obrigado a pagar 10.000 euros de indenização, por conta de piadas antissemitas, em um de seus shows. Comediante francês é obrigado a pagar 10.000 euros por insultos antissemitas em piada.
O caso de Bastos faz retomar a discussão sobre o tema da liberdade de expressão, que eu já havia desenvolvido aqui no blog. O problema no caso do comediante, é de que até que ponto a manifestação artística da comédia saí do engraçado e beira o grotesco. No caso de Bastos, o que mais ele está sendo acusado é de ter ofendido pessoas, ao invés de fazer rir, criando, inclusive, desafetos e inimizades, dentro do próprio meio artístico ou diante de pessoas públicas como o ex-jogador Ronaldo "Fenômeno", muito amigo de Tas e sua equipe, que já manifestou publicamente que estava se afastando dos integrantes do programa, uma vez que é sócio, em um empreendimento, do marido da cantora Wanessa Camargo, e que ficou profundamente constrangido com a piada desnecessariamente sem graça feita pelo comediante gaúcho.
Sobrou para a opinião pública a condenação sumária de Rafael Bastos através dos meios de comunicação e da internet, com a publicação de alguns posts de populares furiosos contra o apresentador do CQC, revelando o quanto, para alguns, Bastos representa um típo antipático, arrogante, prepotente, e que acha que na condição de artista pode esculachar e acabar com a reputação de quem ele bem entenda. Trata-se de uma questão eminentemente ética, antes de ser jurídica: a discussão sobre os limites da liberdade de expressão e a manifestação de uma arte, uma vez que a honra, a dignidade, e a credibilidade das pessoas passa a ser atingida por piadas maldosas. Ou será que toda piada é maldosa?
Se estivermos falando de uma democracia e de um Estado de Direito, que segue princípios constitucionais, entendo que, assim como diz a Constituição, todo mundo é livre para fazer ou deixar de fazer o que bem quiser, senão em virtude de lei. A lei deve servir para proteger as pessoas e não sumariamente puní-las, por isso considero precipitadas algumas acusações contra o comediante Rafael Bastos, dizendo que com suas piadas o rapaz faz alusão à criminalidade ou violência, pois muito do que se encontra hoje nos meios de comunicação, em novelas ou programas de televisão, é uma carga de violência, preconceito e apresentação de um grotesco estado de arte que, por si só, não correspondem a fatos criminosos.
Creio sim, que o referido comediante deve ser defenestrado ou advertido pelo seu próprio público, quando cair a audiência do CQC, quando alguns fãs do programa (assim como eu), em protesto, enviarem uma carta ou e-mails à direção do programa na rede Band, explicando que irão decidir por boicotar o programa, caso o artista não se retrate, ou ao menos seja transferido para outro programa da grade de programação da emissora. Sei que além de um talentoso comediante, nosso "Ricky Gervais" brazuca, Rafinha Bastos é também um ótimo jornalista, realizando o elogiadíssimo programa de reportagens A Liga, nas noites de terça-feira, no mesmo canal. Será que não seria o caso de transferi-lo do CQC, até mesmo para poupá-lo de um desgaste maior, por conta de seus comentários infelizes? Creio que, de qualquer forma, cabe ao próprio artista uma reflexão sobre sua forma de trabalhar, a ponderação racional sobre seus erros e acertos, até porque estamos falando de um ser humano talentoso, carismático e que tem uma das maiores quantidades de seguidores no Twitter; mas que também merece um puxão de orelhas ou calçar as já famosas "sandálias da humildade", quando comete suas besteiras em rede nacional. Rafinha Bastos não será o primeiro e nem o último comediante a cometer deslizes, a sair fora do tom em seus comentários e a falar bobagens, até porque faz parte de sua profissão de artista produzir gafes para arrebatar a audiência. Mas também é importante que esses artistas saibam que brincadeira tem hora, e a hora certa é a de fazer rir e não a de machucar os outros. Se liga, Rafael! Se for o caso, fica na Liga!
Em um filme francês que já não me recordo o nome (ajudem-me quem souber), e que assisti ainda no videocassete em VHS (imagina o quanto é antigo), o protagonista tenta sobreviver na França pré-revolucionária, valendo-se de um talento incomum para contar piadas. Ele passa a ser aceito na corte francesa, animando aristocratas em jantares e nos seus saraus ociosos, e enquanto lá fora a plebe morre de fome e urge por transformações sociais radicais, o herói de nosso filme começa a ascender socialmente, enquanto consegue arrancar riso da plateia, sofrendo a forte competição de outros piadistas como ele, até o derradeiro dia em que acabará por contar alguma piada que não tenha graça, culminando na sua expulsão sumária do palácio ou até mesmo em prisão.
Quando eu penso na frase infeliz (de muitas) do comediante gaúcho Rafinha Bastos, no programa de televisão CQC da rede Band, na última segunda-feira, fico me perguntando se Bastos não se encontra na mesma situação do comediante do filme francês, expulso do salão por ordem do rei, quando, até então querido pela plateia, comete a infelicidade de contar uma piada sem graça, ofendendo alguém. No caso do brasileiro, a piada sem graça veio num comentário sarcástico, quando numa passagem do programa, Rafinha faz um comentário sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo, exprimindo a seguinte frase: "eu comeria ela e o bebê". Foi o suficiente para que um ar de constrangimento se abatesse na tela da TV, com um visível ar envergonhado do líder do CQC, o apresentador Marcelo Tas, que rapidamente tentou corrigir a gafe do comediante, como também a postura de seu colega de auditório, o também comediante Marco Luqui, que preferiu colocar as mãos nos olhos, constrangido, do que esboçar outra reação.
Rafael Bastos já responde a um inquérito policial em São Paulo, instaurado a pedido do Ministério Público para apurar se em uma de suas apresentações no teatro, onde o artista tem um show de comédia stand up, ele teria feito apologia ao crime, ao fazer uma piada com as mulheres feias, dizendo que "o homem que estupra mulher feia não merecia cadeia, mas sim um abraço". Dentro de determinado contexto machista, a piada arrancaria risos, mas numa realidade social de violência contra a mulher, a piada soou de muito mal gosto. Eu soube do caso, inclusive, de um comediante francês, que foi obrigado a pagar 10.000 euros de indenização, por conta de piadas antissemitas, em um de seus shows. Comediante francês é obrigado a pagar 10.000 euros por insultos antissemitas em piada.
O caso de Bastos faz retomar a discussão sobre o tema da liberdade de expressão, que eu já havia desenvolvido aqui no blog. O problema no caso do comediante, é de que até que ponto a manifestação artística da comédia saí do engraçado e beira o grotesco. No caso de Bastos, o que mais ele está sendo acusado é de ter ofendido pessoas, ao invés de fazer rir, criando, inclusive, desafetos e inimizades, dentro do próprio meio artístico ou diante de pessoas públicas como o ex-jogador Ronaldo "Fenômeno", muito amigo de Tas e sua equipe, que já manifestou publicamente que estava se afastando dos integrantes do programa, uma vez que é sócio, em um empreendimento, do marido da cantora Wanessa Camargo, e que ficou profundamente constrangido com a piada desnecessariamente sem graça feita pelo comediante gaúcho.
Sobrou para a opinião pública a condenação sumária de Rafael Bastos através dos meios de comunicação e da internet, com a publicação de alguns posts de populares furiosos contra o apresentador do CQC, revelando o quanto, para alguns, Bastos representa um típo antipático, arrogante, prepotente, e que acha que na condição de artista pode esculachar e acabar com a reputação de quem ele bem entenda. Trata-se de uma questão eminentemente ética, antes de ser jurídica: a discussão sobre os limites da liberdade de expressão e a manifestação de uma arte, uma vez que a honra, a dignidade, e a credibilidade das pessoas passa a ser atingida por piadas maldosas. Ou será que toda piada é maldosa?
Se estivermos falando de uma democracia e de um Estado de Direito, que segue princípios constitucionais, entendo que, assim como diz a Constituição, todo mundo é livre para fazer ou deixar de fazer o que bem quiser, senão em virtude de lei. A lei deve servir para proteger as pessoas e não sumariamente puní-las, por isso considero precipitadas algumas acusações contra o comediante Rafael Bastos, dizendo que com suas piadas o rapaz faz alusão à criminalidade ou violência, pois muito do que se encontra hoje nos meios de comunicação, em novelas ou programas de televisão, é uma carga de violência, preconceito e apresentação de um grotesco estado de arte que, por si só, não correspondem a fatos criminosos.
Creio sim, que o referido comediante deve ser defenestrado ou advertido pelo seu próprio público, quando cair a audiência do CQC, quando alguns fãs do programa (assim como eu), em protesto, enviarem uma carta ou e-mails à direção do programa na rede Band, explicando que irão decidir por boicotar o programa, caso o artista não se retrate, ou ao menos seja transferido para outro programa da grade de programação da emissora. Sei que além de um talentoso comediante, nosso "Ricky Gervais" brazuca, Rafinha Bastos é também um ótimo jornalista, realizando o elogiadíssimo programa de reportagens A Liga, nas noites de terça-feira, no mesmo canal. Será que não seria o caso de transferi-lo do CQC, até mesmo para poupá-lo de um desgaste maior, por conta de seus comentários infelizes? Creio que, de qualquer forma, cabe ao próprio artista uma reflexão sobre sua forma de trabalhar, a ponderação racional sobre seus erros e acertos, até porque estamos falando de um ser humano talentoso, carismático e que tem uma das maiores quantidades de seguidores no Twitter; mas que também merece um puxão de orelhas ou calçar as já famosas "sandálias da humildade", quando comete suas besteiras em rede nacional. Rafinha Bastos não será o primeiro e nem o último comediante a cometer deslizes, a sair fora do tom em seus comentários e a falar bobagens, até porque faz parte de sua profissão de artista produzir gafes para arrebatar a audiência. Mas também é importante que esses artistas saibam que brincadeira tem hora, e a hora certa é a de fazer rir e não a de machucar os outros. Se liga, Rafael! Se for o caso, fica na Liga!
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
LIBERDADE DE EXPRESSÃO: Regular é preciso! Viver não é preciso!!
Fico me perguntando como o apelidado PIG (Partido da Imprensa Golpista) reage com a maior cara de pau, através dos meios de comunicação que compõem essa sigla imaginária, acerca das revelações bombásticas sobre as atividades criminosas, de tudo o que o centenário jornal britânico, News of The World, fazia para garantir manchetes em seus tablóides, mostrando toda a sujeira de que é capaz um órgão de comunicação. O velho magnata Rupert Murdoch, toda sua turma e até sua belíssima esposa chinesa (mistura de femme fatale e guarda-costas do marido) estão enrolados até o pescoço com denúncias que fizeram o chefe fechar um jornal com mais de 150 anos de existência. E no Brasil?
Quando alguns veículos de comunicação, não vinculados aos interesses do grande capital ou do Antigo Regime tucano, como a CAROS AMIGOS ou CARTA CAPITAL, denunciam os abusos de seus colegas de imprensa, parece que a casa caiu e corremos o risco de se ter uma fujimorização do país, como aconteceu há alguns anos atrás com o país vizinho, o Peru; ou melhor, uma allendecização, uma vez que os atuais governos de esquerda que governaram o país, estão muito mais identificados com Salvador Allende, o lendário presidente chileno, assassinado pelo ditador Pinochet, do que com os representantes da Velha Direita que ainda assombram o país, disfarçados sob uma roupagem social-democrata ou neoliberazante. De acordo com o cerco produzido por algumas raposas da velha imprensa, que gostam mais é de ver o circo pegar fogo, pululam notícias em jornais e na imprensa tucana, querendo desestabilizar o governo petista de Dilma Roussef, enquanto que no espectro adversário, seu principal intelectual, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, preocupa-se mais em incrementar sua biografia, no final da vida, pregando a defesa da legalização da maconha, do que lançar petardos contra o petismo, enquanto que um José Serra furimbudo, amarga o ostracismo, ao menos até a próxima eleição para o governo paulista.
Veículos da grande imprensa, como a revista VEJA e a FOLHA DE SÃO PAULO, vira e mexe metem o pau no governo, nos seus editoriais, tecendo a teoria conspiratória da trama suprema, em que stalinistas enrustidos de dentro do governo tentariam a ferro e fogo destruir a liberdade de expressão, estabelecendo uma lei da mordaça para imprensa, que ressuscitaria a famigerada censura, do tempo da ditadura militar. Os expedientes demagógicos da grande mídia recalcada dizem respeito às tentativas de aprovação por setores do governo do controle social da mídia, ou, se preferirem (segundo seus detratores), da ameaça à democracia, como falam os representantes intelectuais da "nova direita", como o filósofo Denis Rosenfield ou o sociólogo Demétrio Magnoli.
Na verdade, falar de um controle da mídia através de uma regulação por expedientes democráticos e transparentes previstos em lei, com participação popular, coibindo os abusos, parece ser inconcebível para os que concebem como "clásula pétrea" o cânone liberal da ausência completa do Estado na fiscalização das atividades da mídia. Para os detentores dos meios de comunicação, a imprensa deve funcionar como o mercado, onde somente uma "mão invisível" deve atuar, num laissez faire em o que vale-tudo implica, inclusive, em praticar crimes através dos meios de comunicação, como Murdoch e sua turma parecem agora ter sido acusados.
Um caso recente de dúvida acerca dos limites do direito à informação e a ética jornalística se deu no caso da tentativa de invasão do quarto de hotel, em Brasília, do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, por repórteres da VEJA, sob o pretexto do furo jornalístico; onde, numa manchete de qualidade duvidosa, a revista publicou matéria sobre o suposto "governo paralelo" montado por Dirceu, sob as barbas do governo, como uma forma de desestabilizar o governo de Dilma Roussef. Dirceu é apresentado como " O poderoso Chefão", um don corleone da esquerda nacional que, apesar de ter seus direitos políticos cassados pelo processo do "mensalão", continua dando as cartas nos jogos de poder em Brasília, através de uma bem sucedida atividade de consultoria, onde todos os cardeais do governo, de diversos escalões, vem a ele se consultar; além do ex-ministro ter cadeira cativa na direção do PT, e ainda ser responsável pela articulação política dentro do partido. Resumindo:Dilma seria uma ingênua, colocada convenientemente por Lula em seu lugar, enquanto que seu principal braço direito continuaria governando de fato, à revelia da atual presidente. Enfim, uma baita teoria da conspiração!
Não questiono aqui se Dirceu é mensaleiro ou não (seu julgamento pelo STF é que definirá seu destino). Até considero o cara bem antipático. Mas independente da pessoa, fico me perguntando até onde vai a fome de Veja em querer vender tablóides, à custa de informações baseadas em vídeos capturados ilegalmente dos corredores de um hotel em Brasilia, mostrando diversas personalidades da República, entre ministros, deputados e representantes de estatais, vindo se consultar com o suposto "oráculo Dirceu", como uma espécie de pai de santo por onde os orixás conduziriam os caminhos do governo. Parece risível, se não fosse preocupante.
O golpismo de parte da imprensa, na manipulação de informações, querendo a fórceps forjar uma opinião pública contrária ao governo, ou, ao menos, contrária a determinadas personalidades da política, faz parte da ânsia dos meios de comunicação de lidar com a notícia como se fosse um espetáculo, e nesse sentido, o livro de Luhmann ( A realidade dos meios de comunicação. Editora Paulus) é emblemático a respeito. Não interessa à mídia informar, mas sim veicular notícias como se elas fossem informação, e assim, por ausência de um controle externo, todas as atividades dos órgãos de imprensa destinados a produzir notícia, violam quaisquer disposições legais, ultrapassam os limites ou barreiras da ética, prejudicam ou distorcem à realidade acerca dos noticiados, pois, diferente do que prega o jargão dos telejornais, o compromisso da mídia não é com a verdade, mas sim com a notícia.
Por isso que me pergunto:se para o petróleo, para as telecomunicações, para a energia, para a aviação e para diversos setores de atividade pública no Brasil, existem agências reguladoras dos serviços prestados por cada um dos órgãos ou empresas vinculados a cada área, por que é que a imprensa não pode ter uma agência reguladora? A vida de milhares de pessoas é exposta todos os dias à sanha de notícias dos paparazzi da imprensa de plantão, invadindo privacidades, violando imagens, cotidianos e vidas pessoais, tudo em busca da notícia. Não adianta de nada dizer que a imagem, assim como a honra, a intimidade e vida privada são invioláveis, porque se tratam de direitos fundamentais, consagrados no art. 5º, inciso X da Constituição Federal, uma vez que os repórteres da VEJA acham que isso de nada vale, quando se trata de, segundo eles, "prestar um serviço à sociedade, garantindo o direito à informação". Afinal, o leitor merece saber, mesmo que seja de forma enviesada, invadindo os corredores de um hotel, grampeando as câmeras do local, tão somente para captar (sem autorização) a imagem de políticos e pessoas públicas que se encontravam no local, sob o pretexto de se produzir notícia. O limite entre o bom jornalismo e a canalhice parece manter uma relação difícil na redação da revista.
Por isso, fico me perguntando se as estripulias dos jornalistas do News of The World é só punição para "inglês ver", apenas como coisa da imprensa estrangeira que saiu do tom, e se aqui no Brasil não temos também os nossos Murdochs, com seus impérios de comunicação, que não dão à mínima para a legalidade ou para o Estado de Direito, pois a única coisa que lhes interessa é o lucro. Hoje em dia, o pior capitalismo é aquele em que os meios de produção se encontram na acumulação de um capital de ideias, mais do que um capital de riquezas materiais, e nesse sentido, periódicos como a Veja só aumentam o jogo do disse me disse de informações desencontradas e fraudulentas, que não contribuem em nada para informar ou conscientizar a sociedade. Na busca de seus vilões, alguns órgãos de imprensa acabam por se confundir com seus principais inimigos, alvos de suas denúncias. Para mim, é tudo farinha do mesmo saco!
Quando alguns veículos de comunicação, não vinculados aos interesses do grande capital ou do Antigo Regime tucano, como a CAROS AMIGOS ou CARTA CAPITAL, denunciam os abusos de seus colegas de imprensa, parece que a casa caiu e corremos o risco de se ter uma fujimorização do país, como aconteceu há alguns anos atrás com o país vizinho, o Peru; ou melhor, uma allendecização, uma vez que os atuais governos de esquerda que governaram o país, estão muito mais identificados com Salvador Allende, o lendário presidente chileno, assassinado pelo ditador Pinochet, do que com os representantes da Velha Direita que ainda assombram o país, disfarçados sob uma roupagem social-democrata ou neoliberazante. De acordo com o cerco produzido por algumas raposas da velha imprensa, que gostam mais é de ver o circo pegar fogo, pululam notícias em jornais e na imprensa tucana, querendo desestabilizar o governo petista de Dilma Roussef, enquanto que no espectro adversário, seu principal intelectual, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, preocupa-se mais em incrementar sua biografia, no final da vida, pregando a defesa da legalização da maconha, do que lançar petardos contra o petismo, enquanto que um José Serra furimbudo, amarga o ostracismo, ao menos até a próxima eleição para o governo paulista.
Veículos da grande imprensa, como a revista VEJA e a FOLHA DE SÃO PAULO, vira e mexe metem o pau no governo, nos seus editoriais, tecendo a teoria conspiratória da trama suprema, em que stalinistas enrustidos de dentro do governo tentariam a ferro e fogo destruir a liberdade de expressão, estabelecendo uma lei da mordaça para imprensa, que ressuscitaria a famigerada censura, do tempo da ditadura militar. Os expedientes demagógicos da grande mídia recalcada dizem respeito às tentativas de aprovação por setores do governo do controle social da mídia, ou, se preferirem (segundo seus detratores), da ameaça à democracia, como falam os representantes intelectuais da "nova direita", como o filósofo Denis Rosenfield ou o sociólogo Demétrio Magnoli.
Na verdade, falar de um controle da mídia através de uma regulação por expedientes democráticos e transparentes previstos em lei, com participação popular, coibindo os abusos, parece ser inconcebível para os que concebem como "clásula pétrea" o cânone liberal da ausência completa do Estado na fiscalização das atividades da mídia. Para os detentores dos meios de comunicação, a imprensa deve funcionar como o mercado, onde somente uma "mão invisível" deve atuar, num laissez faire em o que vale-tudo implica, inclusive, em praticar crimes através dos meios de comunicação, como Murdoch e sua turma parecem agora ter sido acusados.
Um caso recente de dúvida acerca dos limites do direito à informação e a ética jornalística se deu no caso da tentativa de invasão do quarto de hotel, em Brasília, do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, por repórteres da VEJA, sob o pretexto do furo jornalístico; onde, numa manchete de qualidade duvidosa, a revista publicou matéria sobre o suposto "governo paralelo" montado por Dirceu, sob as barbas do governo, como uma forma de desestabilizar o governo de Dilma Roussef. Dirceu é apresentado como " O poderoso Chefão", um don corleone da esquerda nacional que, apesar de ter seus direitos políticos cassados pelo processo do "mensalão", continua dando as cartas nos jogos de poder em Brasília, através de uma bem sucedida atividade de consultoria, onde todos os cardeais do governo, de diversos escalões, vem a ele se consultar; além do ex-ministro ter cadeira cativa na direção do PT, e ainda ser responsável pela articulação política dentro do partido. Resumindo:Dilma seria uma ingênua, colocada convenientemente por Lula em seu lugar, enquanto que seu principal braço direito continuaria governando de fato, à revelia da atual presidente. Enfim, uma baita teoria da conspiração!
Não questiono aqui se Dirceu é mensaleiro ou não (seu julgamento pelo STF é que definirá seu destino). Até considero o cara bem antipático. Mas independente da pessoa, fico me perguntando até onde vai a fome de Veja em querer vender tablóides, à custa de informações baseadas em vídeos capturados ilegalmente dos corredores de um hotel em Brasilia, mostrando diversas personalidades da República, entre ministros, deputados e representantes de estatais, vindo se consultar com o suposto "oráculo Dirceu", como uma espécie de pai de santo por onde os orixás conduziriam os caminhos do governo. Parece risível, se não fosse preocupante.
O golpismo de parte da imprensa, na manipulação de informações, querendo a fórceps forjar uma opinião pública contrária ao governo, ou, ao menos, contrária a determinadas personalidades da política, faz parte da ânsia dos meios de comunicação de lidar com a notícia como se fosse um espetáculo, e nesse sentido, o livro de Luhmann ( A realidade dos meios de comunicação. Editora Paulus) é emblemático a respeito. Não interessa à mídia informar, mas sim veicular notícias como se elas fossem informação, e assim, por ausência de um controle externo, todas as atividades dos órgãos de imprensa destinados a produzir notícia, violam quaisquer disposições legais, ultrapassam os limites ou barreiras da ética, prejudicam ou distorcem à realidade acerca dos noticiados, pois, diferente do que prega o jargão dos telejornais, o compromisso da mídia não é com a verdade, mas sim com a notícia.
Por isso que me pergunto:se para o petróleo, para as telecomunicações, para a energia, para a aviação e para diversos setores de atividade pública no Brasil, existem agências reguladoras dos serviços prestados por cada um dos órgãos ou empresas vinculados a cada área, por que é que a imprensa não pode ter uma agência reguladora? A vida de milhares de pessoas é exposta todos os dias à sanha de notícias dos paparazzi da imprensa de plantão, invadindo privacidades, violando imagens, cotidianos e vidas pessoais, tudo em busca da notícia. Não adianta de nada dizer que a imagem, assim como a honra, a intimidade e vida privada são invioláveis, porque se tratam de direitos fundamentais, consagrados no art. 5º, inciso X da Constituição Federal, uma vez que os repórteres da VEJA acham que isso de nada vale, quando se trata de, segundo eles, "prestar um serviço à sociedade, garantindo o direito à informação". Afinal, o leitor merece saber, mesmo que seja de forma enviesada, invadindo os corredores de um hotel, grampeando as câmeras do local, tão somente para captar (sem autorização) a imagem de políticos e pessoas públicas que se encontravam no local, sob o pretexto de se produzir notícia. O limite entre o bom jornalismo e a canalhice parece manter uma relação difícil na redação da revista.
Por isso, fico me perguntando se as estripulias dos jornalistas do News of The World é só punição para "inglês ver", apenas como coisa da imprensa estrangeira que saiu do tom, e se aqui no Brasil não temos também os nossos Murdochs, com seus impérios de comunicação, que não dão à mínima para a legalidade ou para o Estado de Direito, pois a única coisa que lhes interessa é o lucro. Hoje em dia, o pior capitalismo é aquele em que os meios de produção se encontram na acumulação de um capital de ideias, mais do que um capital de riquezas materiais, e nesse sentido, periódicos como a Veja só aumentam o jogo do disse me disse de informações desencontradas e fraudulentas, que não contribuem em nada para informar ou conscientizar a sociedade. Na busca de seus vilões, alguns órgãos de imprensa acabam por se confundir com seus principais inimigos, alvos de suas denúncias. Para mim, é tudo farinha do mesmo saco!
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
CINEMA: Em "Melancolia" de Von Trier, o mundo se acaba e pronto!!
O Dogma foi um movimento cinematográfico europeu, iniciado por diretores de cinema dinamarqueses na década de 90, através de um manifesto publicado em Copenhague, em 1995, tendo como um dos principais signatários, o então jovem cineasta Lars Von Trier. O movimento pregava uma ruptura com o cinema comercial, uma crítica ferrenha aos chamados blocksbusters e tudo o que vinha da indústria. Em sua estética, os adeptos do movimento pregavam um cinema que deveria ser feito muito mais de ideias, do que de parafernálias ou efeitos especiais. Voltava-se ao discurso de que, com uma câmera na mão, poderia se fazer uma revolução. Assim era o cinema para Von Trier.
Passados 16 anos, muito do que era o movimento original já se dissipou e, naturalmente, cineastas como Lars Von Trier não desperdiçam mais efeitos especiais ou uma mãozinha aqui ou acolá de computadores. Afinal, não é a tecnologia a grande inimiga da arte. "Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro"(já dizia finado Chico Science), mas o que mais se nota na genialidade, no estilo e na polêmica do diretor dinamarquês é que em sua profícua obra, geralmente alvo de prêmios (principalmente em Cannes) ou de insultos, fica demonstrado que Lars Von Trier é um depressivo profissional!
Von Trier se vale da depressão, da ironia e do ceticismo quanto à humanidade como artifício estético, como pano de fundo de seus filmes que brincam com diversos estilos cinematográficos. Se em "Dançando no Escuro", o diretor fazia uma paródia dos musicais, em "Godville" ele relembrava filmes de gângster, assim como em "Anticristo" seu foco eram os filmes de terror. Agora em "Melancolia" (Melancholia, no original), parece que Lars Von Trier vale-se dos filmes apocalípticos de ficção científica, para esmiuçar sua depressão, exercer um de seus alteregos, através das atrizes de seus filmes, que são suas musas sofredoras. Von Trier adora torturar suas atrizes (fazendo com que muitas delas façam apenas um filme seu), fazendo com que elas explorem em suas interpretações o ápice do sofrimento (ponto pra Charlotte Gainsbourg, que conseguiu fazer seu segundo filme com o diretor). Não é diferente com Kirsten Dunst em Melancholia, assim como não é diferente nos outros filmes da obra do diretor o grande teor de ironia, mais do que de desilusão. Afinal, são filmes de Von Trier, e se não fossem assim, não seriam filmes dele, não é mesmo?!
Em Melancholia vemos que o filme se divide em duas partes, centrado em duas protagonistas: duas irmãs, sendo que uma, Justine, interpretada por Dunst, é a tristeza pura em estado bruto; enquanto que sua irmã, Claire, feita por Gainsbourg, é o estado puro da resignação, o pragmatismo diante do imediatismo de uma vida curvada às convenções. O filme inicia-se com o casamento de Justine, na tentativa de ser "normal", de se adequar às convenções sociais, casando com um homem que ela não ama, mas que pode significar a saída para sua tristeza. Ledo engano. Quando a festa de casamento se desenvolve, percebemos aos poucos os reais traços depressivos da personalidade de Justine, seus medos e angústias, e do quanto eram forçados seus olhares apaixonados e sorrisos para o noivo e convidados da festa, quando na verdade, por debaixo das aparências, estava alguém ali louco para gritar. Destaque para a atuação dos pais de Justine, interpretados pelos equilibrados e consagrados John Hurt e Charlote Rampling, além de Kiefer Sutherland (sim, ele mesmo, fazendo filme de arte! Na tentativa de se firmar como ator "sério" e retornar ao cinema depois de anos na série de TV, 24 Horas), interpretando o marido de Claire, cunhado de Justine, e responsável pela festa de casamento.
Justine, através da brilhante atuação de Kirsten Dunst (vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz), é a tristeza personificada, a verdadeira "melancholia" do filme, e não o planeta de mesmo nome, que descoberto pelos astrônomos, em breve, deverá colidir contra a Terra, provocando uma iminente e inevitável destruição. O suposto "filme de ficção científica", na verdade serve como metáfora dos nossos mundos: um, o imaginário, inatingível, imperecível, que acaba por se chocar com o mundo real, dos destinos, das regras, rituais e convenções sociais que, um belo dia, somos obrigados a seguir. O filme de Von Trier é um drama existencial ao extremo, assim como é a personalidade complexa do diretor, permeada por surtos maníaco-depressivos. A depressão é a tônica do filme, pois Justine logo será assombrada pela doença, prostrada a ponto de não conseguir sequer caminhar ou tomar banho sozinha, sendo auxiliada pela irmã, enquanto a Terra se aproxima de sua destruição. É no apocalíptico momento do final que Justine recupera o sentido da vida, ou, ao menos, o sentido do fim da vida, enquanto que a tristeza passa agora a tomar conta de sua irmã, inconformada com o fim iminente, já que acha injusto que toda a existência acabe assim, de uma hora para outra. Ela tem uma família e sua única preocupação de mãe é salvar seu filho da destruição. É o que toda mãe faria, mas sente a impotência do destino final, por ter as mãos atadas é não poder remar contra o inevitável, o armagedon que está por vir. Não é à toa que o nome da protagonista é Justine, o mesmo nome, na literatura, da personagem do Marquês de Sade, que estava fadada a uma vida de dor, privações e sofrimentos. A Justine do filme também é uma figura sofrida, a partir de seus lindos, mas sorumbáticos olhos, mas é um sofrimento que surge bem antes do mundo se acabar, por uma total consciência do absurdo de se estar nesse mundo.
Se em Dogville, a personagem de Nikole Kidman era a versão de um Cristo vingativo, que não redime mas pune a humanidade ingrata e pecadora, em Melancholia a humanidade é vítima do próprio universo, quando um planeta aparece por detrás do sol, numa trajetória mortal em direção à Terra. Tudo porque, segundo Justine: "a humanidade é ruim, e se estamos sozinhos no universo, pois só há vida aqui, logo em breve nenhuma vida existirá". Triste? Sim, é triste sim, mas antes de mais nada a metáfora sobre o fim do mundo, ou sobre o juízo final onde não haverá final feliz, é o recado de Von Trier para uma Cannes que o expulsou com quatro pedras na mão, ao não entender suas piadas sem graça sobre o nazismo ou Hitler, e ter menosprezado a arte de um gênio que é ao mesmo tempo genial e estúpido, seja porque decide largar seus remédios de vez em quando, para liberar toda sua potencialidade criativa, outrora entorpecida pelos medicamentos, seja para meter o dedo na ferida, e falar com extrema ironia da natureza humana, que merece ser desvelada em seus aspectos mais sombrios. Talvez Lars Von Trier seja tão e simplesmente um puritano desencantado, daqueles que amaldiçoam uma humanidade que deveria ser tão boa, por viver num mundo tão bom, e não é. Talvez ele seja apenas um diretor de cinema arrogante, preocupado em fazer cinema de autor, com seus disparates e leviandades intimistas. Não sei! Só sei que ele faz bons filmes, e se bons filmes são aqueles que te apanham para pensar, creio que filmes como Melancholia fazem a gente pensar até demais!
Melancholia é um bom filme, que naturalmente deverá ser visto por muitos psicólogos e psicanalistas, que estudam o fenômeno da depressão. Porém, o filme também merece ser visto por todos aqueles que acreditam que existam pessoas que simplesmente não se preocupam com o fim do mundo, porque, no fundo, querem que isso aconteça. Vá entender certas pessoas! Vá entender cabeças como a de Lars Von Trier. Desta vez, o pessoal de Cannes não quis entender!
Passados 16 anos, muito do que era o movimento original já se dissipou e, naturalmente, cineastas como Lars Von Trier não desperdiçam mais efeitos especiais ou uma mãozinha aqui ou acolá de computadores. Afinal, não é a tecnologia a grande inimiga da arte. "Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro"(já dizia finado Chico Science), mas o que mais se nota na genialidade, no estilo e na polêmica do diretor dinamarquês é que em sua profícua obra, geralmente alvo de prêmios (principalmente em Cannes) ou de insultos, fica demonstrado que Lars Von Trier é um depressivo profissional!
Von Trier se vale da depressão, da ironia e do ceticismo quanto à humanidade como artifício estético, como pano de fundo de seus filmes que brincam com diversos estilos cinematográficos. Se em "Dançando no Escuro", o diretor fazia uma paródia dos musicais, em "Godville" ele relembrava filmes de gângster, assim como em "Anticristo" seu foco eram os filmes de terror. Agora em "Melancolia" (Melancholia, no original), parece que Lars Von Trier vale-se dos filmes apocalípticos de ficção científica, para esmiuçar sua depressão, exercer um de seus alteregos, através das atrizes de seus filmes, que são suas musas sofredoras. Von Trier adora torturar suas atrizes (fazendo com que muitas delas façam apenas um filme seu), fazendo com que elas explorem em suas interpretações o ápice do sofrimento (ponto pra Charlotte Gainsbourg, que conseguiu fazer seu segundo filme com o diretor). Não é diferente com Kirsten Dunst em Melancholia, assim como não é diferente nos outros filmes da obra do diretor o grande teor de ironia, mais do que de desilusão. Afinal, são filmes de Von Trier, e se não fossem assim, não seriam filmes dele, não é mesmo?!
Em Melancholia vemos que o filme se divide em duas partes, centrado em duas protagonistas: duas irmãs, sendo que uma, Justine, interpretada por Dunst, é a tristeza pura em estado bruto; enquanto que sua irmã, Claire, feita por Gainsbourg, é o estado puro da resignação, o pragmatismo diante do imediatismo de uma vida curvada às convenções. O filme inicia-se com o casamento de Justine, na tentativa de ser "normal", de se adequar às convenções sociais, casando com um homem que ela não ama, mas que pode significar a saída para sua tristeza. Ledo engano. Quando a festa de casamento se desenvolve, percebemos aos poucos os reais traços depressivos da personalidade de Justine, seus medos e angústias, e do quanto eram forçados seus olhares apaixonados e sorrisos para o noivo e convidados da festa, quando na verdade, por debaixo das aparências, estava alguém ali louco para gritar. Destaque para a atuação dos pais de Justine, interpretados pelos equilibrados e consagrados John Hurt e Charlote Rampling, além de Kiefer Sutherland (sim, ele mesmo, fazendo filme de arte! Na tentativa de se firmar como ator "sério" e retornar ao cinema depois de anos na série de TV, 24 Horas), interpretando o marido de Claire, cunhado de Justine, e responsável pela festa de casamento.
Justine, através da brilhante atuação de Kirsten Dunst (vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz), é a tristeza personificada, a verdadeira "melancholia" do filme, e não o planeta de mesmo nome, que descoberto pelos astrônomos, em breve, deverá colidir contra a Terra, provocando uma iminente e inevitável destruição. O suposto "filme de ficção científica", na verdade serve como metáfora dos nossos mundos: um, o imaginário, inatingível, imperecível, que acaba por se chocar com o mundo real, dos destinos, das regras, rituais e convenções sociais que, um belo dia, somos obrigados a seguir. O filme de Von Trier é um drama existencial ao extremo, assim como é a personalidade complexa do diretor, permeada por surtos maníaco-depressivos. A depressão é a tônica do filme, pois Justine logo será assombrada pela doença, prostrada a ponto de não conseguir sequer caminhar ou tomar banho sozinha, sendo auxiliada pela irmã, enquanto a Terra se aproxima de sua destruição. É no apocalíptico momento do final que Justine recupera o sentido da vida, ou, ao menos, o sentido do fim da vida, enquanto que a tristeza passa agora a tomar conta de sua irmã, inconformada com o fim iminente, já que acha injusto que toda a existência acabe assim, de uma hora para outra. Ela tem uma família e sua única preocupação de mãe é salvar seu filho da destruição. É o que toda mãe faria, mas sente a impotência do destino final, por ter as mãos atadas é não poder remar contra o inevitável, o armagedon que está por vir. Não é à toa que o nome da protagonista é Justine, o mesmo nome, na literatura, da personagem do Marquês de Sade, que estava fadada a uma vida de dor, privações e sofrimentos. A Justine do filme também é uma figura sofrida, a partir de seus lindos, mas sorumbáticos olhos, mas é um sofrimento que surge bem antes do mundo se acabar, por uma total consciência do absurdo de se estar nesse mundo.
Se em Dogville, a personagem de Nikole Kidman era a versão de um Cristo vingativo, que não redime mas pune a humanidade ingrata e pecadora, em Melancholia a humanidade é vítima do próprio universo, quando um planeta aparece por detrás do sol, numa trajetória mortal em direção à Terra. Tudo porque, segundo Justine: "a humanidade é ruim, e se estamos sozinhos no universo, pois só há vida aqui, logo em breve nenhuma vida existirá". Triste? Sim, é triste sim, mas antes de mais nada a metáfora sobre o fim do mundo, ou sobre o juízo final onde não haverá final feliz, é o recado de Von Trier para uma Cannes que o expulsou com quatro pedras na mão, ao não entender suas piadas sem graça sobre o nazismo ou Hitler, e ter menosprezado a arte de um gênio que é ao mesmo tempo genial e estúpido, seja porque decide largar seus remédios de vez em quando, para liberar toda sua potencialidade criativa, outrora entorpecida pelos medicamentos, seja para meter o dedo na ferida, e falar com extrema ironia da natureza humana, que merece ser desvelada em seus aspectos mais sombrios. Talvez Lars Von Trier seja tão e simplesmente um puritano desencantado, daqueles que amaldiçoam uma humanidade que deveria ser tão boa, por viver num mundo tão bom, e não é. Talvez ele seja apenas um diretor de cinema arrogante, preocupado em fazer cinema de autor, com seus disparates e leviandades intimistas. Não sei! Só sei que ele faz bons filmes, e se bons filmes são aqueles que te apanham para pensar, creio que filmes como Melancholia fazem a gente pensar até demais!
Melancholia é um bom filme, que naturalmente deverá ser visto por muitos psicólogos e psicanalistas, que estudam o fenômeno da depressão. Porém, o filme também merece ser visto por todos aqueles que acreditam que existam pessoas que simplesmente não se preocupam com o fim do mundo, porque, no fundo, querem que isso aconteça. Vá entender certas pessoas! Vá entender cabeças como a de Lars Von Trier. Desta vez, o pessoal de Cannes não quis entender!
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
CINEMA: Em "Gainsbourg" o hino à vida é hedonista,mesmo que isso custe um pulmão!
Serge Gainsbourg (1928-1991) era um cantor e compositor francês, mais conhecido internacionalmente pela canção Je t'aime...... moi non plus que até hoje é trilha sonora de muitos shows de strip tease ou quartos de motel do mundo inteiro. Confesso que até saber do filme que conta sua história, eu não sabia nada sobre a obra e existência desse artista, a não ser que ele é pai da talentosa atriz e cantora francesa Charlotte Gainsbourg, conhecida pelos filmes de Lars Von Trier: Anticristo (de 2009, onde ela atuou com William Dafoe) e o mais recente Melancolia, ainda a estrear nos cinemas brasileiros.
Pois através do filme "Gainsbourg:o homem que amava as mulheres" (Gainsbourg-Vie Heroique), dirigido por Johan Sfar, ficamos sabendo da vida, da obra e das mulheres de um dos maiores compositores populares da Europa, da segunda metade do século XX. Ele chegou a ser considerado uma lenda na cultura francesa, tanto quanto os brioches, queijos ou vinhos franceses, além de ser considerado um dos artistas mais mulherengos de sua geração. Porém, não obstante sua fama de "pegador", o que mais me interessou, no personagem interpretado pelo ator francês Eric Elmosnino, foi a personalidade única de um sujeito que nunca pensou ter chegado tão longe quanto chegou, e que, diante da fortuna, portou-se como um afortunado hedonista, um homem que fumou, bebeu e transou muito, como se, ao ligar um fuck you para o estabilishiment, ele quisesse dar o seguinte recado: "já que cheguei até aqui, vocês vão ter que me engolir".
O filme demonstra que na história de Gainsbourg, o cara tinha tudo pra ser um mero zero à esquerda. Nascido Lucien Ginzburg, oriundo de uma família de judeus russos imigrados para a França, vemos numa Paris ocupada pelos nazistas, o pequeno menino Lucien brincando entre soldados e militantes da resistência francesa, alheio ao conflito mundial que destruiria a Europa e chacinaria os judeus, rodeado de seus amigos imaginários e fantasias, entre aulas de piano que já detestava, e as fugas para fora da cidade nas gazeadas do colégio, para poder acender um cigarrinho entre as árvores dos bosques vizinhos, enquanto desenhava suas musas e fantasias. O filme é rodeado de um certo realismo fantástico e um clima de historia em quadrinhos ao mostrar os fantasmas ou alteregos do cantor, seja durante a infância quando é perseguido pela imagem de um boneco gigante de um judeu gordo, em formato de círculo, quando é criança; ou quando, já adulto, faz contato com a imagem de seu outro eu, já famoso (na verdade, um boneco de papelão com nariz, orelhas e mãos enormes, retratando o cantor, na visão dele mesmo).
Um sujeito feio, narigudo, magricelo, com orelhas de abano e fumante inveterado, foi visitado pela sorte e pela fortuna desde quando largou os estudos de belas artes e seguiu carreira como músico, levando para bares os conhecimentos de piano adquiridos durante a infância, treinado rigidamente por um pai que sonhava ter um filho pianista clássico. Gainsbourg saiu dos botecos parisienses para as altas rodas dos compositores franceses, para teatros lotados, cassinos e direto para as rádios e gravadoras, não apenas mudando de nome, adotando o apelido Serge (mais adequado à visão estética de requinte que queria ter de seu trabalho) no lugar do simplório nome de batismo, mas também mudando de estilo, mesclando diversos elementos da música popular. No começo da carreira, Gainsbourg flertou com o jazz, o blues e a bossa nova, vindo posteriormente a se firmar como um cantor de música romântica, com sua voz grave e meio rouca, até aderir ao rock, à psicodelia e à guitarra elétrica na década de 70, mas sem descuidar da sonoridade de seu original pianinho. Na década de 80, o cantor ainda viajaria para o Caribe, num autoexílio após uma década de excessos e sucessivas desilusões amorosas, juntando-se com músicos jamaicanos e produzindo músicas com uma linha voltada para o reggae (sua versão em ritmo de reggae da Marseillaise, hino da França, gerou protestos violentos e quase provocou quebra-quebras e conflitos de rua na França). Pois é, o cara era conhecido pelo ecletismo e pela excentricidade nas suas canções. Uma mistura de Frank Zappa, Mick Jagger e Reginaldo Rossi.
Apesar da feíura, Gainsbourg conseguiu encarnar aquele tipo de homem que compensa a falta de beleza física com um charme irresistível do chamado "come quieto", com seus ares de discreta elegância e uma certa dose de machismo dosado, sem perder o cavalheirismo. Pela cama do rapaz passaram algumas das mulheres mais belas do mundo, tendo ele tido um tórrido romance com Brigitte Bardot (interpretada no filme pela ex-modelo e atriz Laeticia Casta) , o que escandalizou a sociedade francesa da época, uma vez que se tratava de uma mulher casada (no caso, o sorteado que levou um belo par de chifres era o cineasta francês, Roger Vadim). Além de Bardot, Serge Gainsbourg teve um sólido relacionamento com a atriz inglesa Jane Birkin (interpretada no filme pela linda atriz britânica Lucy Gordon, que, infelizmente, após o filme se matou, aos 28 anos, em Paris. Que desperdício!), com quem manteve um relacionamento de 13 anos, o que lhe rendeu duas filhas. Além de nutrir uma paixão pelas mulheres, Gainsbourg era fumante compulsivo, um adepto incontrolável da nicotina, com seu cigarrinho ao seu lado, como uma muleta eterna no canto da boca, além de um copo de uísque em uma das mãos. Com a outra mão o cantor ou alisava os cabelos de alguma bela dama ou empunhava um microfone, cantando algumas pérolas do cancioneiro popular francês.
Se Charles Aznavour, para muitos, é considerado uma espécie de "Roberto Carlos da França", Serge Gainsbourg era seu vice-rei, ou um Wilson Simonal branco que acabou virando Raul Seixas. Metáforas e comparações à parte, a verdade é que a obra de Gainsbourg é considerada hoje uma referência para muitos estudiosos de música popular, ou para quem simplesmente gosta de uma boa música cantanda em francês. Foi no sentido de chocar e aproveitar a onda da revolução sexual que explodia no final da década de 60, que Gainsbourg compôs seu maior clássico, Je t'aime... moi non plus, com seus gritos e sussuros no decorrer da música, entre a voz dele cantando e a de sua ex-esposa, Jane Birkin, numa canção que pode ser vista hoje como brega, mas que, na minha infância, consistia num hino de acasalmento essencial pra quem queria viver uma grande noite de amor. Entre seus drinques, idas ao hospital pelos excessos de álcool e tabaco ou pelo sexo frenético, mas romanticamente intenso que viveu com todas as suas amantes, Serge Gainsbourg entra no panteão daqueles que, por amar demais, não puderam amar uma só, tal como Vinícius de Moraes, Marcelo Mastroiani ou Pablo Picasso, ou por amarem demais a si mesmos não puderam viver na plenitude o amor, num pleno culto narcísico de um narcisismo que, para os feios mas charmosos só faz bem, ao invés de aniquilar a alma. Au revoir, mon ami Serge!!
Pois através do filme "Gainsbourg:o homem que amava as mulheres" (Gainsbourg-Vie Heroique), dirigido por Johan Sfar, ficamos sabendo da vida, da obra e das mulheres de um dos maiores compositores populares da Europa, da segunda metade do século XX. Ele chegou a ser considerado uma lenda na cultura francesa, tanto quanto os brioches, queijos ou vinhos franceses, além de ser considerado um dos artistas mais mulherengos de sua geração. Porém, não obstante sua fama de "pegador", o que mais me interessou, no personagem interpretado pelo ator francês Eric Elmosnino, foi a personalidade única de um sujeito que nunca pensou ter chegado tão longe quanto chegou, e que, diante da fortuna, portou-se como um afortunado hedonista, um homem que fumou, bebeu e transou muito, como se, ao ligar um fuck you para o estabilishiment, ele quisesse dar o seguinte recado: "já que cheguei até aqui, vocês vão ter que me engolir".
O filme demonstra que na história de Gainsbourg, o cara tinha tudo pra ser um mero zero à esquerda. Nascido Lucien Ginzburg, oriundo de uma família de judeus russos imigrados para a França, vemos numa Paris ocupada pelos nazistas, o pequeno menino Lucien brincando entre soldados e militantes da resistência francesa, alheio ao conflito mundial que destruiria a Europa e chacinaria os judeus, rodeado de seus amigos imaginários e fantasias, entre aulas de piano que já detestava, e as fugas para fora da cidade nas gazeadas do colégio, para poder acender um cigarrinho entre as árvores dos bosques vizinhos, enquanto desenhava suas musas e fantasias. O filme é rodeado de um certo realismo fantástico e um clima de historia em quadrinhos ao mostrar os fantasmas ou alteregos do cantor, seja durante a infância quando é perseguido pela imagem de um boneco gigante de um judeu gordo, em formato de círculo, quando é criança; ou quando, já adulto, faz contato com a imagem de seu outro eu, já famoso (na verdade, um boneco de papelão com nariz, orelhas e mãos enormes, retratando o cantor, na visão dele mesmo).
Um sujeito feio, narigudo, magricelo, com orelhas de abano e fumante inveterado, foi visitado pela sorte e pela fortuna desde quando largou os estudos de belas artes e seguiu carreira como músico, levando para bares os conhecimentos de piano adquiridos durante a infância, treinado rigidamente por um pai que sonhava ter um filho pianista clássico. Gainsbourg saiu dos botecos parisienses para as altas rodas dos compositores franceses, para teatros lotados, cassinos e direto para as rádios e gravadoras, não apenas mudando de nome, adotando o apelido Serge (mais adequado à visão estética de requinte que queria ter de seu trabalho) no lugar do simplório nome de batismo, mas também mudando de estilo, mesclando diversos elementos da música popular. No começo da carreira, Gainsbourg flertou com o jazz, o blues e a bossa nova, vindo posteriormente a se firmar como um cantor de música romântica, com sua voz grave e meio rouca, até aderir ao rock, à psicodelia e à guitarra elétrica na década de 70, mas sem descuidar da sonoridade de seu original pianinho. Na década de 80, o cantor ainda viajaria para o Caribe, num autoexílio após uma década de excessos e sucessivas desilusões amorosas, juntando-se com músicos jamaicanos e produzindo músicas com uma linha voltada para o reggae (sua versão em ritmo de reggae da Marseillaise, hino da França, gerou protestos violentos e quase provocou quebra-quebras e conflitos de rua na França). Pois é, o cara era conhecido pelo ecletismo e pela excentricidade nas suas canções. Uma mistura de Frank Zappa, Mick Jagger e Reginaldo Rossi.
Apesar da feíura, Gainsbourg conseguiu encarnar aquele tipo de homem que compensa a falta de beleza física com um charme irresistível do chamado "come quieto", com seus ares de discreta elegância e uma certa dose de machismo dosado, sem perder o cavalheirismo. Pela cama do rapaz passaram algumas das mulheres mais belas do mundo, tendo ele tido um tórrido romance com Brigitte Bardot (interpretada no filme pela ex-modelo e atriz Laeticia Casta) , o que escandalizou a sociedade francesa da época, uma vez que se tratava de uma mulher casada (no caso, o sorteado que levou um belo par de chifres era o cineasta francês, Roger Vadim). Além de Bardot, Serge Gainsbourg teve um sólido relacionamento com a atriz inglesa Jane Birkin (interpretada no filme pela linda atriz britânica Lucy Gordon, que, infelizmente, após o filme se matou, aos 28 anos, em Paris. Que desperdício!), com quem manteve um relacionamento de 13 anos, o que lhe rendeu duas filhas. Além de nutrir uma paixão pelas mulheres, Gainsbourg era fumante compulsivo, um adepto incontrolável da nicotina, com seu cigarrinho ao seu lado, como uma muleta eterna no canto da boca, além de um copo de uísque em uma das mãos. Com a outra mão o cantor ou alisava os cabelos de alguma bela dama ou empunhava um microfone, cantando algumas pérolas do cancioneiro popular francês.
Se Charles Aznavour, para muitos, é considerado uma espécie de "Roberto Carlos da França", Serge Gainsbourg era seu vice-rei, ou um Wilson Simonal branco que acabou virando Raul Seixas. Metáforas e comparações à parte, a verdade é que a obra de Gainsbourg é considerada hoje uma referência para muitos estudiosos de música popular, ou para quem simplesmente gosta de uma boa música cantanda em francês. Foi no sentido de chocar e aproveitar a onda da revolução sexual que explodia no final da década de 60, que Gainsbourg compôs seu maior clássico, Je t'aime... moi non plus, com seus gritos e sussuros no decorrer da música, entre a voz dele cantando e a de sua ex-esposa, Jane Birkin, numa canção que pode ser vista hoje como brega, mas que, na minha infância, consistia num hino de acasalmento essencial pra quem queria viver uma grande noite de amor. Entre seus drinques, idas ao hospital pelos excessos de álcool e tabaco ou pelo sexo frenético, mas romanticamente intenso que viveu com todas as suas amantes, Serge Gainsbourg entra no panteão daqueles que, por amar demais, não puderam amar uma só, tal como Vinícius de Moraes, Marcelo Mastroiani ou Pablo Picasso, ou por amarem demais a si mesmos não puderam viver na plenitude o amor, num pleno culto narcísico de um narcisismo que, para os feios mas charmosos só faz bem, ao invés de aniquilar a alma. Au revoir, mon ami Serge!!
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
ANIVERSÁRIO:Finalmente,40 (quarenta, forty, quarante, viertzig, quaranta,四十,).
Hoje é meu aniversário: 5 de agosto, e completo 40 anos! Do alto de uma idade tão significativa, pedindo licença aos entendidos no assunto, digo, para arrepio de meus amigos teólogos e sociólogos que o dilema do homem moderno não é a fome, as guerras, os conflitos globais, o apocalipse, a queda da popularidade do Obama, a falta de amor ou a intolerância. O dilema do homem moderno é a crise dos 40 anos!
O problema de chegar aos 40 anos não é sentir que está ficando velho, mas sim que não está mais ficando novo. Com 40 você chega na certeza de que continua a mesma pessoa que era quando tinha 20, mas não com o mesmo corpo. Começa a se acostumar de ser tratado de senhor ou senhora, das brincadeiras dos mais jovens, chamando de "tio" ou de "tia", ou se deparar com aquele carinha das antigas, que nem amigo seu é ou se finge de velho amigo e quando lhe vê, depois de vários anos, diz na cara, sem nem perguntar como você vai: "e aí, fulano, há quanto tempo! Puxa, como você ficou gordo!", ou então diz:"puxa, fulano, como vc ficou careca!" ou "quantos cabelos brancos!".
Quando se chega aos 40 anos você começa a ficar careta nos gostos musicais e estéticos, começa a ouvir cada vez menos as músicas que a garotada de 20 anda escutando (mesmo sendo do mesmo gênero de música de você tanto gosta). Aos 40 você fica mais nostálgico. Fala cada vez mais como eram bons os anos oitenta e setenta, porque naquela época é que existiam bandas e grupos de rock de verdade, enquanto que nos dias de hoje não aparece nada de mais. Aos 40 você adora assistir aqueles canais de TV retrô, com filmes das antigas e reencontra os amigos da mesma idade para relembrar os seriados que via na adolescência. Aos 40 você não consegue mais ir a todo show de rock em todo final de semana, não porque não tem grana, mas porque não aguenta mais ficar em pé junto com mil a cem mil pessoas, suando perto do palco, porque suas costas doem, vai ter uma crise de pânico com tanta gente ou porque suas pernas já não aguentam mais.
Aos 40 você prima por qualidade ao invés de quantidade; ou ao menos engana quanto a isso, dizendo que prefere um bom vinho com os amigos em casa, do que passar a noite inteira bebendo cachaça num boteco fedorento do centro da cidade.Você percebe que tem 40 anos quando não consegue mais virar da noite pro dia com os amigos, em algum bar badalado, boate ou rave, porque seu organismo não aguenta mais ficar sem água e sono por menos de cinco horas seguidas durante a noite.
Quando se é quarentão você percebe que chegou nas quatro décadas de existência quando reencontra os melhores amigos num churrasco na casa de um deles, e revê a cena de que há vinte ou quinze anos anos atrás, você estava ali, no mesmo lugar, com seus amigos todos solteiros, acompanhados das namoradas ou envolvidos em flertes ou paqueras, e agora vê todos eles casados, com suas respectivas esposas, muitos acompanhados dos filhos pequenos ou pré-adolescentes. Você chega aos 40 e olha pros seus pais e vê que eles sim é que estão ficando velhos, bem velhos, e com problemas de saúde, e que sua estadia pela vida, dentro de poucos anos, pode se esgotar.
Constata-se que se chegou aos quarenta anos, quando você relembra como foi a sua infância, e lembra que você e seus colegas ainda brincavam de pipa, subiam muros e árvores, jogavam pelada em terrenos de areia e que videogame era uma imensa novidade, só para as famílias de classe média alta e os aparelhos mais avançados eram Atari e Odissey, enquanto que nos dias de hoje os garotos não vivem sem internet, aparelho celular ou tablets.
Por fim, aos quarenta você tem a certeza de que vai ter que procurar um médico regularmente, fazer exames para ver as taxas de colesterol e trigliceres, a pressão alta, os batimentos cardíacos (além do infame exame de próstata, para os homens), começar ou voltar a usar óculos de leitura, e pensar em transformar a academia de ginástica ou musculação como seu destino final, ou um lugar para você eternamente se afastar, se quiser ou não se livrar de uma barriga de chope que pode lhe acompanhar até a cova. O quadro de preocupação do recém-quarentão só aumenta se ele lembrar que em grande parte das civilizações antigas da humanidade ou sociedades tribais, o nível de vida médio dos homens só chegava aos 40!
É! Não é fácil ter 40 anos! Como também não é difícil, quando você percebe que já conseguiu viver tanto tempo, tem uma boa carga de leitura sobre sua própria vida que já dá um bom livro autobiográfico (olha que o Justin Bieber escreveu o dele aos 16!) e que aos 40 você consegue recapitular todas as suas mancadas nos últimos vinte anos anteriores, e, ao se deparar com as mesmas situações, ver como é tão fácil o que você outrora achava tão difícil.
Portanto, nessa data em que completo 40 anos, que venham as comemorações, independente da passagem do tempo, das enfermidades ou curas futuras, dos quilômetros que teremos ou não teremos mais fôlego de correr e das pessoas e novos amigos que ainda possamos vir a conhecer. Se já cheguei aos 40, que venham agora os 50, os 60, os 70, os 80, os 90, os 100 e..... muito mais!!!!
O problema de chegar aos 40 anos não é sentir que está ficando velho, mas sim que não está mais ficando novo. Com 40 você chega na certeza de que continua a mesma pessoa que era quando tinha 20, mas não com o mesmo corpo. Começa a se acostumar de ser tratado de senhor ou senhora, das brincadeiras dos mais jovens, chamando de "tio" ou de "tia", ou se deparar com aquele carinha das antigas, que nem amigo seu é ou se finge de velho amigo e quando lhe vê, depois de vários anos, diz na cara, sem nem perguntar como você vai: "e aí, fulano, há quanto tempo! Puxa, como você ficou gordo!", ou então diz:"puxa, fulano, como vc ficou careca!" ou "quantos cabelos brancos!".
Quando se chega aos 40 anos você começa a ficar careta nos gostos musicais e estéticos, começa a ouvir cada vez menos as músicas que a garotada de 20 anda escutando (mesmo sendo do mesmo gênero de música de você tanto gosta). Aos 40 você fica mais nostálgico. Fala cada vez mais como eram bons os anos oitenta e setenta, porque naquela época é que existiam bandas e grupos de rock de verdade, enquanto que nos dias de hoje não aparece nada de mais. Aos 40 você adora assistir aqueles canais de TV retrô, com filmes das antigas e reencontra os amigos da mesma idade para relembrar os seriados que via na adolescência. Aos 40 você não consegue mais ir a todo show de rock em todo final de semana, não porque não tem grana, mas porque não aguenta mais ficar em pé junto com mil a cem mil pessoas, suando perto do palco, porque suas costas doem, vai ter uma crise de pânico com tanta gente ou porque suas pernas já não aguentam mais.
Aos 40 você prima por qualidade ao invés de quantidade; ou ao menos engana quanto a isso, dizendo que prefere um bom vinho com os amigos em casa, do que passar a noite inteira bebendo cachaça num boteco fedorento do centro da cidade.Você percebe que tem 40 anos quando não consegue mais virar da noite pro dia com os amigos, em algum bar badalado, boate ou rave, porque seu organismo não aguenta mais ficar sem água e sono por menos de cinco horas seguidas durante a noite.
Quando se é quarentão você percebe que chegou nas quatro décadas de existência quando reencontra os melhores amigos num churrasco na casa de um deles, e revê a cena de que há vinte ou quinze anos anos atrás, você estava ali, no mesmo lugar, com seus amigos todos solteiros, acompanhados das namoradas ou envolvidos em flertes ou paqueras, e agora vê todos eles casados, com suas respectivas esposas, muitos acompanhados dos filhos pequenos ou pré-adolescentes. Você chega aos 40 e olha pros seus pais e vê que eles sim é que estão ficando velhos, bem velhos, e com problemas de saúde, e que sua estadia pela vida, dentro de poucos anos, pode se esgotar.
Constata-se que se chegou aos quarenta anos, quando você relembra como foi a sua infância, e lembra que você e seus colegas ainda brincavam de pipa, subiam muros e árvores, jogavam pelada em terrenos de areia e que videogame era uma imensa novidade, só para as famílias de classe média alta e os aparelhos mais avançados eram Atari e Odissey, enquanto que nos dias de hoje os garotos não vivem sem internet, aparelho celular ou tablets.
Por fim, aos quarenta você tem a certeza de que vai ter que procurar um médico regularmente, fazer exames para ver as taxas de colesterol e trigliceres, a pressão alta, os batimentos cardíacos (além do infame exame de próstata, para os homens), começar ou voltar a usar óculos de leitura, e pensar em transformar a academia de ginástica ou musculação como seu destino final, ou um lugar para você eternamente se afastar, se quiser ou não se livrar de uma barriga de chope que pode lhe acompanhar até a cova. O quadro de preocupação do recém-quarentão só aumenta se ele lembrar que em grande parte das civilizações antigas da humanidade ou sociedades tribais, o nível de vida médio dos homens só chegava aos 40!
É! Não é fácil ter 40 anos! Como também não é difícil, quando você percebe que já conseguiu viver tanto tempo, tem uma boa carga de leitura sobre sua própria vida que já dá um bom livro autobiográfico (olha que o Justin Bieber escreveu o dele aos 16!) e que aos 40 você consegue recapitular todas as suas mancadas nos últimos vinte anos anteriores, e, ao se deparar com as mesmas situações, ver como é tão fácil o que você outrora achava tão difícil.
Portanto, nessa data em que completo 40 anos, que venham as comemorações, independente da passagem do tempo, das enfermidades ou curas futuras, dos quilômetros que teremos ou não teremos mais fôlego de correr e das pessoas e novos amigos que ainda possamos vir a conhecer. Se já cheguei aos 40, que venham agora os 50, os 60, os 70, os 80, os 90, os 100 e..... muito mais!!!!
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