segunda-feira, 26 de março de 2012

HOMENAGEM: E lá se foi o Chico!!

Em uma de suas últimas apresentações, ao lado de
Tom Cavalcante, um de seus discípulos.
A meu ver, existem duas formas de envelhecer. Uma delas é serenamente, aproveitando o restante dos dias que a vida ainda lhe proporciona, desfrutando de forma especial cada momento, olhando sempre para o amanhã, mesmo que o passado seja mais convidativo, e, assim, quando a hora final chegar, simplesmente morrer, desaparecer, deixando de respirar. Alguns conseguem até a proeza da morte desejada, pois, como num sonho, morrem dormindo, sem dor (o sonho de qualquer um que fica velho ou de quem viu seus velhinhos doentes partir em meio a doença). Outros envelhecem e passam o final de seus dias doentes, amargurados, amargos, pensando no passado e não conseguindo se encontrar livre dele. Geralmente essas pessoas já foram gigantes ou pessoas de longa estatura social. O filme A Dama de Ferro, que oscarizou pela terceira vez a veterana atriz norte-americana, Meryll Streep, este ano, é um exemplo disso; ao relatar os dias atuais da ex-dama de ferro, Margareth Thatcher. Aqueles que tinham um brilho anterior quando jovens, agora só lançam pequenas faíscas da chama que os animava, mas não conseguem viver a aposentadoria em paz, por serem chamados diariamente a ressuscitar o tempo em que eram tão bons, em tempos que já não voltam mais. Creio que assim como Thatcher, pessoas como Chico Anysio eram assim, que morreu no último dia 23 de março.

O Professor Raimundo e sua Escolinha. Um dos personagens
icônicos de Chico que atravessou várias gerações de brasileiros.
Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho, no nome de batismo, havia nascido em Maranguape, Ceará, há oitenta anos atrás (12 de abril de 1931), vindo de uma família de comerciantes outrora prósperos, mas em derrocada econômica.Em função disso,  Chico acabou indo bem cedo para o Rio de Janeiro, ainda na infância, quando passou a adotar a terra carioca como seu segundo lar. Foi lá que ele estreou em programas de rádio, na platinada e varguista década de 50 do século passado, quando nas tentativas mal sucedidas de se tornar galã de novela, acabou virando comediante. E que comediante! Nas décadas seguites, Chico Anysio tornou-se o maior representante da comédia e do humor nacionais. Por três décadas ele reinou quase que absoluto, ao ser contratado pela Rede Globo no final da década de 60, e passar a estrelar por lá o humorístico Chico City. Depois vieram o Chico Anysio Show, na década de 80 e a Escolinha do Professor Raimundo, na década de 90. Este último, por sinal, uma reedição de um antigo sucesso do rádio, feito ainda no início da carreira do artista, quando a figura do professor nordestino, com uma turma de alunos atrapalhados, já rendia boas risadas no rádio, há mais de cinquenta anos atrás.

Coalhada. Outro dos personagens de Chico
que no país do futebol fez história.
Na minha opinião, de toda a trajetória de Chico, acredito que a mais esfuziante se deu na década de 70. Lá, assim como os Rolling Stones eram estrelas absolutas na música, aqui no Brasil, o humor de Chico Anysio reinava absoluto.É só ver pelo youtube as caras e as caretas do humorista versátil que era Chico naquela época, no auge da sua juventude, criatividade e maturidade como artista, com um programa semanal no Fantástico da Rede Globo, onde, de cara limpa, despido de suas caricaturas, Chico desfilava crônicas do dia a dia com o mesmo sucesso que interpretava seus personagens, e que personagens! Por mais que humoristas de sua época, como Jô Soares e Renato Aragão também compartilhem do panteão da risada nacional, foi Chico quem se eternizou com sua galeria de mais de duas centenas de personagens: do Bozó, funcionário da Rede Globo a Roberval Taylor, o loutor de rádio. Do velho Popó, com seu pão-durismo judaico a Bento Carneiro, o vampiro brasileiro. Havia o Pantaleão, nordestino mentiroso compulsivo e contador de histórias, assim como ríamos das malandragens do negro carioca Azambuja, aplicando mais um de seus golpes que nunca dava certo ou das profecias do Profeta ou as mandingas do Véio Zuza. Tínhamos ainda o Coalhada, jogador perna de pau que sonhava em jogar na seleção brasileira, até o Nazareno, com sua mulher horrorosamente feia, gritando: "Caladaaaaaa!!!" (para arrepio das feministas). Havia o "Jovem", com suas estripulias de playboy ou o alcoolismo de Tavares e sua "Biscoito". As frescuras abaitoladas do pai de santo baiano Painho, ou os conselhos a presidentes da gaúcha Salomé. Ainda tínhamos o encanto irresistível do Silva, com seu sotaque sertanejo e óculos de grau, ou Cascata e Cascatinha, com seu bordão "meu garoto, meu paipai!". Podíamos rir de Haroldo, o ex-gay que virou hétero e machista, ou de Bruce Kane, personagem de filme americano, propositadamente dublado, que vinha dos filmes policiais de Cincinatti, Ohio ou dos faroestes spaghetti (uma sátira aos filmes Clint Eastwood), ou tínhamos o talento pseudoshakesperiano do ator casca grossa, Alberto Roberto.

"Minha vingança saráaa maligrinaaaaa".
Dizia o Vampiro Brasileiro.
Enfim, em todos os seus personagens podíamos ver a cara do Brasil, os mais diversos e regionalizados tipos humanos espalhados em milhares de caricaturas, onde podíamos rir de nós próprios como um Narciso invertido (quando podíamos, inclusive, ceder lugar ao riso, no lugar da revolta, na crítica social velada que o humorista fazia da corrupção no país, com seu personagem histrionicamente histórico, o deputado Justo Veríssimo. Aquele que odiava pobre; ou Tim Tones, pastor evangélico pop, norte-americano, que só queria saber de "carregar a sacolinha", ao final de cada culto. O humor de Chico Anysio era de uma genialidade ímpar porque ele soube, como ninguém, caracterizar o Brasil nascente do século XX, um país que atravessou uma redemocratização forçada após a II Guerra, passou por momentos altamente turbulentos diante de governos populistas, até sucumbir finalmente nas mãos dos militares, linha-dura, mediante um golpe de Estado e um regime ditatorial que durou vinte anos. O humor de Chico perpassa essas fases, até chegarmos novamente a nos tornar uma democracia (ou, ao menos, ser pela primeira vez, democracia de fato). Em suas piadas e seus personagens captamos os movimentos da história, com as incertezas e fragilidades de uma democracia jovem, nascente, aprendendo  a engatinhar. Levando suas quedas nos primeiros passos, quando da precipitada eleição de Collor, o confisco posterior das cadernetas de poupança e a consequente queda do poder do presidente do "aquilo roxo", após um movimento cívico por impeachment, devido a denúncias de corrupção. Nesse meio tempo, Chico Anysio estava lá, e ele correu o risco, até mesmo, de se casar com sua própria piada, quando se apaixonou e casou com a ex-ministra da economia de Collor, Zélia Cardoso de Melo, após esta ter sido defenestrada do governo (e de nossos bolsos), mediante a impopular medida de confisco das poupanças.

"Assim eu não garavooooo...."
O gênio complicado do galã Alberto Roberto.
Chico era tudo isso, mas também era humano. Com seus defeitos e virtudes ele foi sendo o representante da alma nacional. Um "Macunaíma moderno" poderão dizer alguns, do herói sem caráter, que galgou fama, fortuna, mulheres, vários casamentos e filhos tão rápido quanto fazia uma piada. Em suas últimas entrevistas, um já doente Chico reclamava da falta de reconhecimento da emissora que, outrora, o galgava como um dos príncipes da comédia ou rei do humor nacional. Para alguns, realmente Chico foi uma espécie de "Coronel do Riso", manipulando esquetes, aprovando ou desaprovando roteiros, contratando ou levando ao ostracismo certos artistas, e, de uma forma até um pouco ranzinza, criticando seus parceiros no humor, que viriam a lhe suceder, como os atores-humoristas da TV Pirata ou os hoje consagrados integrantes do grupo Casseta & Planeta. O pessoa do Casseta (como humor também está em transição, dando espaço para novas gerações) merece comentários a parte, em outro texto, mas compete aqui dizer que o grupo de Hubert, Reinaldo, Hélio de La Peña, Claudio Manoel e Cia, está com moral para as Organizações Globo, assim como Chico já esteve com o todo poderoso patriarca da emissora, o lendário e já falecido Roberto Marinho. Chico reclamava que, no tempo em que o "Dr. Roberto" era vivo, ele se sentia mais prestigiado na casa, uma vez que o velho já teria lhe dito que cada pilastra da Rede Globo devia alguma coisa a Chico Anysio. O problema é que a piada sempre acaba!!

"Mas, Bahhh, tchê!!" Nâo é que é a Salomé de Passo Fundo?!
É por arrancar o riso que o artista mede seu tempo de vida, sabendo que um dia a piada pode perder a graça, o humor fica datado ou corresponde a uma época. Por mais que se esforçasse, o tempo e a idade acabaram por amarelar também as piadas de Chico Anysio. E se a idea de revitalizar a Escolinha do Professor Raimundo foi genial no começo da década de 90 (quando o seriado passou, inclusive, de ser semanal, para ser diário), acabou se revelando ultrapassada no final da mesma década, no começo do novo milênio; quando aquela agradável trupe de artistas bem velhinhos, comediantes já decadentes, ressucitados pelo chefe, acabaram perdendo a graça (e a audiência), fazendo com que, finalmente, a Rede Globo lhe fechasse as portas. Que triste fim o dos humoristas: passam a vida inteira ganhando o pão de cada dia fazendo rir, mas quando a piada perde a graça, caem no ostracismo. Chico Anysio permaneceu os últimos anos da última década encostado, recebendo seu salário com respingos de dignidade, mas sem ter mais o fôlego e o sucesso que lhe tornavam, antes, onipresente. Infelizmente, para o velho comediante e humorista, a hora de fechar as cortinas já estava próxima. E foi um Chico amargurado que eu vi pela última vez e que me marcou, reclamando de tudo e de todos, ao lado de uma sensível e jovem esposa, aos prantos diante do declínio fisico e profissional do artista, que eu vi nas páginas de uma revista semanal que tratou de seu estado de saúde, dois anos antes de ele partir de fato, como agora partiu, com a impressão de que, de certa forma, ele já tinha partido antes, quando a televisão lhe rendeu a última homenagem, num emocionante programa realizado no ano passado.

Enquanto isso: "é o salário óooooo!!!".
E descem as cortinas para o Chico. Adeus! Ou será um até breve, um até logo, um até as próximas risadas que ainda se perpetuarão ao vê-lo reprisado na TV? Às vezes penso que Chico não morreu, o que o morreu foi apenas seu corpo físico, porque a presença de seus personagens estará marcada indelevelmente na cultura nacional. Desta forma, Chico é eterno!!

quarta-feira, 7 de março de 2012

POLÍTICA: O Antilulismo é tão ou mais visceral que o lulismo!

Os sociólogos e cientistas políticos brasileiros adoram um neologismo, e se não aproveitam o que diz a imprensa, ao menos inventam termos ou codinomes que ficariam bem num jornal. A última da vez foi a distinção entre "petismo" e "lulismo", que, para alguns estudiosos (principalmente os historiadores), até faz sentido, levando-se em conta o tempo em que o Partido dos Trabalhadores não tinha chegado ao poder, e após os oitos anos de governo Lula, quando o expoente maior do partido chegou, finalmente, à presidência da República.

Petismo não se confunde com lulismo porque este último é um efeito direto da repercussão da primeira chegada de Lula (e não do PT) ao poder. O lulismo é resultado de 8 anos de uma política acentuadamente social, mas de cunho populista, que carregada por um líder extremamente carismático e de apelo popular, fez com que milhões de cidadãos, adeptos ou não do bolsa-família, torcessem pelo êxito governamental do "ex-sapo barbudo". De fato, para muitos economistas, mesmos àqueles que não são alinhados com o governo, o crescimento do país foi notável. A "marola foi boa", como diria o próprio Lula no seu esbanjamento de expressões populares em seus discursos, e, sobretudo, ao garantir a eleição de sua assessora direta, a ex-chefe do Gabinete Civil, Dilma Roussef, à presidência da república, Lula fez mais do que eleger uma sucessora, ele se credenciou, de vez, como uma histórica (e lendária) liderança política nacional. Lula passou a figurar nos panteões da República como um dos grandes estadistas da história nacional, como foram (ou tentaram ser) em épocas distintas, Vargas, Dutra e Juscelino. Quanto ao petismo, restou ficar com a burocracia partidária, algumas prefeituras e governos estaduais, e com sua ideologia.

Agora, o que me chama mais atenção na mídia nacional não é petismo, mas sim seu inverso, sua contraparte, o "antilulismo". Se o antipetismo era um sentimento ideológico típico, com nítidos contornos de classe, do eleitorado de classe alta e classe média alta do eixo sul e sudeste que repugna o discurso socialista ou social-liberal do petismo; agora o que se nota nos editoriais e artigos da grande imprensa nacional é o predomínio do antilulismo, direcionado, em grande parte, ao governo da sucessora do intrépido e falastrão líder metalúrgico que virou presidente. Para alguns jornalistas, por mais que mostre personalidade própria, Dilma é  apenas o alterego de Lula; e o bem avaliado governo federal, nada mais do que um resquício recalcitrante do lulismo.

Guilherme Fiúza. Um dos jornalistas da
grande imprensa nacional, forte candidato a crítico
do governo e agente da oposição da Nova Direita brazuca.
Dentre os notórios antilulistas de carteirinha, posso destacar o articulista da Revista Época, o escritor e roteirista Guilherme Fiúza, que escreve semanalmente seus impropérios contra o governo de Dilma Roussef, querendo atingir na verdade, seu verdadeiro desafeto (?): o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Fiúza tem um estilo galante de escrever:ácido, violento,  virulento,mas também discreto. Diferentemente de seu colega que escrevia na Veja, Diogo Mainardi, Guilherme Fiúza destila suas profundas impressões críticas sobre o lulismo, por vezes desancando seu principal expoente, sem parecer, ao menos, tão direitista. Não há dúvidas de que Fiúza é um liberal (ou até neoliberal, se coubesse a um jornalista um jargão tão minúsculo), mas de forma diversa da burrice de alguns articulistas da Editora Abril ou Folha, que acabam por insultar frontalmente personalidades públicas, divulgar dôssies falsos ou fornecer falsas informações nas páginas de suas revistas e jornais, o jornalista autor de Meu nome não é Johnny, consegue se manter firme nas páginas semanais de Época por atirar sem machucar ninguém. É pelo puro exercício da crítica que Fiúza desenvolve seu antilulismo e não para querer destruir imagens ou reputações, como outros meios de comunicação gostam de fazer. Afinal, poderia dizer o Fíuza: Meu nome não é Mainardi.


Contra a dinheirama vomitada dos cofres públicos,
a Nova Direita reclama. Mas será que eles fizeram diferente?
O antilulismo de Fiúza reflete o antilulismo de uma classe média que há muito tempo antipazara com o estilo bonachão do ex-presidente da República, colocado no lugar da imagem de sindicalista radical, barbudo, malcheiroso e subversivo. Para algumas pessoas, independente da forma como Lula se apresenta, este será sempre o "sapo barbudo", o inimigo de classe ou demagogo oriundo da classe operária, que com seus maus modos e seus anos passados "sem trabalhar", pagos às custas do partido ou do sindicato, ainda atazana a política nacional, mesmo depois de ter sido quase corroído por um câncer. Lula expressa o tipo do líder carismático, esboçado em Maquiavel e dissecado por Weber, que não consegue ser uma unanimidade, mas sim provoca reações de aprovação ou desaprovação, pois, se não agradar, que ao menos seja lembrado. Para observadores argutos como Fiúza, Lula sempre será Lula e o PT sempre será PT, com sua romaria de conchavos, acordos políticos exitosos ou fracassados, maracutaias, populismo de esquerda, aparelhamento do Estado em prol de sindicatos e corporações, além dos mensalões. Na visão liberal do citado articulista, Lula é um caudilho (assim como Hugo Chavez o é, na Venezuela ou Peron foi, na Argentina), cuja conduta centralizadora nos rumos da política nacional só contribui para prejudicar os avanços da democracia brasileira, que prega a alternância de poder. Se o antipetismo é burro, o antilulismo é, no mínimo, equivocado, por achar que Lula pode se converter num Fidel ou que o Brasil é uma ilha distante dos ventos da globalização, e que a abertura do mercado e crescimento econômico do começo de século na gestão de Lula ainda não é suficiente para dizer que o país mudou, ou que ao menos saiu de um lamaçal.

Para os críticos, o mal do governo Dilma vem de berço, por conta
de seu "lulismo".Será que isso é defeito ou será ainda ressaca eleitoral da
eleição passada?
Não sou aqui conivente com desmandos ou ilegalidades e nem sou tão fã de carteirinha do ex-presidente brasileiro, para afirmar que acredito piamente em tudo o que se publica de favorável ou desfavorável ao governo do presidente antetior. Acho que no lulismo do governo passado muito se transigiu com a corrupção em troca de apoio político, mas o petismo da atual presidente Dilma tem afastado em demasia essa corrupção. Também sei que o velho pragmatismo da esquerda, assim como seu radicalismo, são ambos prejudiciais para o projeto de credibilidade politica de partidos que se arvoram como sendo de uma base socialista. Agora, ideologicamente, sei que as críticas de jornalistas como Fiúza são tão ideologizadas quanto as iniciativas governamentais e mancadas do governo anterior e passado, que merecem receber suas canetadas. Como eu disse, gosto do estilo de Fiúza, assim como gosto dos méritos e reconheço os deméritos do governo que apoio. É importante ter jornalistas que escrevam contra o governo, para não parecermos um país de partido único, uma ditadura como na Coréia do Norte, onde só existe uma voz oficial. Na democracia o embate de ideias é extremamente válido, principalmente se elas forem as mas díspares ou estapafúrdias, e os teóricos da nova direita devem sim, ter espaço cedido nos meios de comunicação, para manifestarem sua opinião, nem que seja para serem também críticados e esquecidos posteriormente pelo eleitorado.

Agora, se Guilherme Fiúza quiser realmente se notabilizar como jornalista puro-sangue e não ficar conhecido  apenas como o autor de um livro só (aquele que virou filme), sugiro que não dê as escorregadelas que deu anteriormente seu colega da sucursal de Veja, ao querer fazer de Lula sua anta (e quebrar a cara por isso!). Diogo Mainardi, ao invés de colecionar leitores adeptos, colecionou processos de desafetos, que lhe custaram a coluna anteriormente escrita no citado semanário do Grupo Abril. Ao mesmo tempo que defendo imprensa livre no Brasil, também acredito na existência de uma imprensa responsável. Não se pode transformar o ódio inconsciente ou antipatia por determinada personalidade política ou candidato em avaliação política de todo o contexto de um governo ou de uma sociedade. Nesse sentido, o antilulismo pode deixar de ser uma mera posição política, para se transformar numa doença. Cuidado, Fiúza!!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MÚSICA: I Have Nothing-A morte de Whitney Houston é o adeus fatal das divas trágicas


Mais uma celebridade que morre tragicamente.
Whitney Houston não está mais entre nós.
 Vou estar mentindo se eu disser que era um fã de carteirinha, do trabalho da cantora Whitney Houston, encontrada morta sábado, dia 11 de fevereiro, tragicamente em um dos quartos do hotel Hilton, em Beverly Hills, dentro de uma banheira, com sinais aparentes de ter morrido por afogamento. Quando a cantora estourou, na segunda metade da década de 80, eu já gostava de algumas artistas oriundas da soul music ou da fase disco da música negra norte-americana, como  Diana Ross, Aretha Franklin ou Donna Summer. Eu preferia muito mais Tina Turner, já veterana, uma quarentona com sua vasta cabeleira encorpada, tingida de loiro, voz forte, meio rouca e seus requebrados geriátricos com um belo par de pernas ainda para mostrar. Já a Whitney eu achava pop demais (se é que pode existir algo que não seja excessivamente pop nos dias de hoje). Mas tenho de reconhecer: Whitney Houston legou uma voz, e uma legião de fãs, e fez parte da história da música popular nas últimas décadas. Por isso, sua obra merece ser homenageada.


Uma jovem e linda Whitney Houston, simbolizava a nova
face da Black Music nos anos oitenta
 Talvez como muitas das lendas da música pop, como o recente falecimento há poucos meses de outra estrela, Amy Winehouse, a morte de Whitney Houston seja marcada por uma história de fama, prestígio, sucesso mundial, prêmios, vários discos vendidos e aparições no cinema, tão fascinante quanto o histórico de excessos, as brigas homéricas com o ex-marido, o alcoolismo e o vício em drogas pesadas, a decadência pública com a perda da voz e o desaparecimento da vendagem de discos, a anorexia produzida à base de álcool e barbitúricos, além da tentativa de redenção, que nunca chegou. Michael Jackson, Amy Winehouse e Whitney Houston tem muito em comum, falecendo cada no seu ano respectivo, numa ciranda macabra de estrelas decadentes que subiram bem alto no hall da fama das celebridades e que se eternizaram tanto pelo sucesso que fizeram em vida, quanto pelas circunstâncias trágicas em que morreram. No caso de Whitney (assim como Michael) já fazia anos que o sucesso não batia a sua porta, revelando que a ex-estrela já estava distante do auge e fora de forma há muito tempo. Whitney Houston simboliza uma década e uma América que já não voltam mais, mas que deixaram marcas indeléveis no show business de hoje.


Na época do seu segundo álbum, nos anos oitenta,
Whitney já era considerada imbatível.
 Só para se ter uma ideia: Whitney Houston estava para os anos oitenta e noventa como Beyoncé está para os dias de hoje. Ao surgir na década de 80, lançada pela indústria fonográfica, Whitney representava o modelo bem sucedido da fábrica de hits , astros e estrelas que era a gravadora Motown e suas congêneres da música negra norte americana: linda, negra, oriunda do ambiente gospel e com uma voz maravilhosa. Foi com sua beleza física e de voz, aliada a um carisma inegável nos palcos que a jovem Whitney saiu dos corais da Igreja Batista onde congregava, para brilhar como estrela principal nos clipes da MTV, nas festas do Grammy, ou em shows apoteóticos em estádios, teatros e intervalos do Superbowl nos Estados Unidos(os jogos televisionados de futebol americano, vistos no país inteiro). Ela cantou até na final da Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato em solo ianque.


Mais madura. A cantora tentava outros caminhos, no final
da década de 90.
 Whitney estava com tudo. Se sua prima Dionne Warwick tinha sido a duquesa do pop, Whitney tinha se tornado a sua rainha, vendendo discos como quem vendia picolés na praia em dias quentes de verão, contabilizando mais de 200 milhões de discos vendidos, segundo dados da Wikipédia. Recordo-me que na época do seu auge, a cantora estampava quase que semanalmente as capas de revistas de música e celebridades, e sua ida para o cinema foi só uma questão de tempo. Depois de uma pequena participação em um filme na década de oitenta, em 1992 Whitney estrelou com o ator Kevin Costner, o filme O Guarda-Costas (The BodyGuard). Filme que todo mundo já viu e que é reprisado até hoje nas Sessões da Tarde.  Na época, a formação de um par romântico entre um astro de cinema (também agora decadente) oscarizado e uma diva consagrada da música pop, foi a combinação irresistível para um filme esquecível do ponto de vista da crítica; mas imperdível para quem gostava de louvar seus ídolos pop. As pessoas iam ao cinema porque ali estava Whitney, interpretando uma personagem que era ela mesma, uma cantora de sucesso, cantando a música-tema do filme, I Will Always Love You, que nem era dela (mas baseada num sucesso das antigas, cantada por Dolly Parton, nos anos setenta), mas que se tornou inconfundível através de sua voz, sendo escutada até hoje nas FMs do mundo inteiro.


O casamento com Bobby Brown, para muitos críticos,
foi o começo da decadência da cantora.
 Mas, assim como colheu duas décadas de êxitos, Whitney conheceu a derrocada na vida profissional e pessoal, com a chegada dos anos 2000. Ela teve um casamento conturbado com o rapper Bobby Brown, outro remanescente dos grupos de sucesso dos anos oitenta (era um dos integrantes do New Ediction, boy band muita ouvida na época). As idas e vindas do relacionamento repleto de brigas, chegada da polícia e baixarias em público faria corar Ike e Tina Turner (outro casal cujo talento musical era diretamente proporcional aos casos de violência doméstica). Após 7 anos de convivência e a concepção de uma filha, Bobby Cristina, Whitney separou-se de Brown; não sem antes reconhecer de público seu alcoolismo e vício frenético em cocaína, suposta razão pela qual a cantora teve um casamento tão atribulado.


Uma Whitney envelhecida e irreconhecível, após uma das
idas e vindas dos centros de reabilitação para drogados.
 Eis que as drogas cobraram seu preço. Não tendo mais a mesma voz de antes, Whitney Houston aparecia cada vez mais magra e pálida diante das câmeras nos eventos, e sua degradação era visível. Ela ainda tentou um retorno no final da década passada, lançando o álbum I Look to You, em 2009, mas ela não apresentava mais o carisma e o vigor de antes. Apesar das intervenções estéticas, discursos otimistas, afirmando estar livre das drogas após passar por clínicas de reabilitação e os esforços dos produtores, Whitney parecia uma pré-senhora de meia idade cansada, ainda bonita apesar dos percalços da vida, mas bem distante daquela musa negra cheia de vida e beleza que tinha brilhado vinte anos antes.O fim, que parecia estar proximo, finalmente chegou aos 48 anos.


Apesar de supostamente recuperada, a aparência magra ainda
retratava os traços da dependência química.
 As primeiras estimativas da imprensa e da polícia norte-americana acerca das causas da morte da cantora são uma combinação de álcool e drogas que culminou em afogamento. Sabe-se que em seus últimos dias, Whitney Houston utilizava muito de antidepressivos, e isso pode ter contribuído para abreviar sua vida. Mesmo que não tenha se drogado horas antes de sua morte, a verdade é que o corpo da cantora já tinha sido muito castigado pelos anos recentes de excessos e pelo uso indiscriminado de várias substâncias químicas. De qualquer forma, sofrimento maior devem estar passando seus familiares, especialmente sua filha de 18 anos, obrigada a conhecer a tragédia de perder uma mãe bem no começo de sua vida adulta; bem como do ex-marido da cantora, Bobby Brown, que a essa hora lamenta publicamente a perda da mulher que pode ter sido a mulher da sua vida. Enfim! Quando eu soube da morte de Whitney Houston, martelou-me a cabeça um de seus sucessos, que simboliza bem a vida e a morte da célebre cantora norte-americana. Afinal, para mulheres que falaram tanto de amor em suas músicas, a cantora Whitney Houston parecia em sua fama, ser uma mulher muito sozinha. Assim, tal como Whitney, não temos nada, se quem mais amamos fica longe de nós, e não temos mais a quem amar. Afinal:

Don't walk away from me
Don't you dare walk away from me
I have nothing, nothing, nothing
If I don't have you!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

EDUCAÇÃO: Onde os Especialistas não tem vez!

Participando de uma recente reunião docente na instituição de ensino onde leciono, fui informado pela coordenação do curso que os professores que tinham apenas o título de especialista não teriam turmas nesse semestre. A alegação da faculdade foi que as orientações do MEC para as instituições privadas de ensino superior no Brasil, este ano, seria a de que todo o corpo docente das instituições deveria ser formado por mestres e doutores; e que, além disso, tais professores só poderiam lecionar disciplinas que tivessem aderência; ou seja, fossem formados ou pós-graduados, especificamente para aquela área de conhecimento. Isso implica em dizer que um professor com mestrado em Direito Tributário, somente poderia lecionar a disciplina do mesmo nome, e nunca Direito Processual ou qualquer disciplina de Direito Público, enquanto que um profissional com pós-graduação em Direito Penal não poderia dar aula de Direito Constitucional e vice-versa.

Percebi a celeuma que tais medidas adotadas pela faculdade tiveram numa série de professores especialistas da casa (o que não é o meu caso); mas não deixei de me solidarizar com um corpo docente de professores jovens e esforçados, que foram responsáveis pelo erguimento do curso, nos primórdios da faculdade, e que agora estavam sendo colocados de lado, jogados ao escanteio, pelo fato de não terem uma pós-graduação strictu sensu. Percebi  que parte das demandas do Ministério da Educação tinha haver com a necessidade de se cobrar um maior empenho e qualidade acadêmica dos cursos jurídicos das instituições de ensino privadas, de nível superior. O que é louvável. Mas, percebi que, nas determinações do MEC, ao menos no que tange à aderência de discipllina, algumas injustiças ou mesmo impropriedades acadêmicas foram cometidas.


Para o filósofo Edgar Morin, esse papo de
"aderência" do Ministério da Educação,
na exigência de qualificação de professores,
é conversa fiada!
 Edgar Morin, pedagogo de fama mundial reconhecidíssima e filósofo da teoria da complexidade, diz que a multiplicidade de formações técnicas num diálogo entre conhecimentos faz com que haja uma pulverização das especializações, onde cada um tem que conhecer um pouco de cada coisa. Chama-se a isso de transdiciplinariedade, algo que vai se encontrar presente na pedagogia de Morin e que irá nortear as técnicas de ensino mais modernas. Desta forma, pela pedagogia transdiciplinar de Morin, o papel da escola é propiciar a comunicação entre as diversas áreas do saber, a fim de possibilitar a liberdade criativa que a ciência proporciona, com seu leque de possibilidades, e, desta forma, construir um conhecimento mais rico e diversificado, levando em conta as várias áreas do conhecimento estudadas conjuntamente. Nos termos apontados pela transdiciplinariedade, o propósito de "aderência" defendido pelos think tanks do MEC, não faria o menor sentido. Para que um profissional é obrigado a aderir a determinada área, ficando preso num âmbito de conhecimento, se  a ciência é multidisplinar e pode envolver várias formas de saber? Será que um professor especializado em Direito Econômico não poderia, por exemplo, dar aulas de Direito Penal, enfatizando na disciplina o conteúdo dos crimes econômicos? Ou será que um constitucionalista não poderia lecionar Direito Civil, se toda a legislação civilista encontra-se presa a dispositivos constitucionais?

Compreendo que deve ser cobrada a contrapartida das instituições privadas no tocante à excelência do ensino, tendo em vista a autorização do MEC para o seu funcionamento. Muitas faculdades e universidades privadas recentemente criadas ou desenvolvidas nas últimas duas décadas já lucraram muito e ganharam muito dinheiro. Afinal, está na hora dessas instituições mostrarem serviço e revelarem sua relevância pública, formando alunos bem formados. Entretanto, creio que isso não pode ser feito simplesmente demitindo-se professores especialistas, ao invés de lhes ser dada a oportunidade de capacitação, através de mestrados e doutorados incentivados pelas próprias instituições de ensino onde esses profissionais trabalham. Ter uma instituição de ensino bem avaliada, com uma grande produção técnico-científica, repleta de professores mestres e doutores, é o sonho de qualquer empreendedor educacional e reitor de universidade minimamente comprometido com a edução; mas o caminho até chegar a isso depende do aproveitamento e valorização do corpo docente que ainda é especialista, a fim de que esses profissionais do ensino obtenham a reconhecida e desejada titulação. Não creio que mandar jovens especialistas para o olho da rua contribua para o aprimoramento da educação de nível superior nacional, e, pelo contrário, acredito que isso possa gerar um coro de ressentimentos que faça com que muitos profissionais frustrados deixem de lecionar, apesar da vocação despertada em sala de aula, e, desgostosos, venham a desempenhar outras atividades. É uma pena! Quando comecei a lecionar ninguém me disse que para entrar numa sala eu tinha que concluir um mestrado ou doutorado primeiro, mas sim que precisavam de alguém que soubesse (e gostasse) de ensinar. Apesar disso, e para aqueles que entendem que ensinar é uma arte, mais do que uma profissão, não esmoreçam! O verdadeiro artista muitas vezes não tem sua arte reconhecida, mas acaba por criar belas obras, de qualquer forma, pois seu ofício de artista o obriga a criar. Traduzindo essas palavras: estudem e ensinem, meus caros professores especialistas, dediquem-se à profissão que escolheram e se pós-graduem, pois o reconhecimento profissional, mais cedo ou mais tarde, irá acontecer!

Parodiando o romance célebre de Cormac McCarthy , cuja versão cinematográfica rodada pelos irmãos Cohen ganhou até Oscar com o ator espanhol Javier Bardem, se o título inicial do livro No Country for Old Men fosse aplicado à realidade dos professores especialistas nas instituições de nível superior do país, eu diria que, no Brasil, para o Ministério da Educação: No Country for Specialists! What a Shame!

Revista Samuel - nº 1 - Livraria Última Instância

Revista Samuel - nº 1 - Livraria Última Instância

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

TELEVISÃO: Parece que o BBB de Pedro Bial já foi longe demais, no Festival de Mediocridades que Assola a Nação!


Desde que surgiu, há mais de dez anos, o BBB
está aí, na televisão brasileira, para azucrinar a
paciência de muita gente.
 Confesso que gosto de ver televisão. Sobretudo no período da noite, quando chego cansado do trabalho, e fico interessado em pegar a resenha das informações do dia, vendo o noticiário da CNN ou da Globo News, ou então me divirto com os programas culturais e curiosidades que posso encontrar no Discovery Channel, no History, National Geographic ou no Travels Channel; pois este último tem sempre uma programação interessante sobre viagens, mostrando a cultura e a paisagem de países e lugares novos. Gosto também dos canais de música, de ver esportes, desenhos animados do Cartoon Network e filmes. E para a alegria dos vendedores de TV por Assinatura, sou também fã dos seriados (ou sitcoms) que proliferam nos diversos canais do gênero, como Fox, Warner, Sony, AXN ou Showtime Channel (destaque para Two and a Half Man e meu protesto sentido pela falta do Charlie Sheen!).


Sorry! Mas no mês de janeiro de cada ano, chega-me a dar
calafrios no que vou ver pela frente, na televisão nacional, com
a divulgação de mais uma edição do BBB. É a Rede Globo
apelando pela mediocritização nacional!
 Mas uma coisa que eu não suporto é a programação da TV aberta. Nem as novelas eu tolero mais; com exceção da novela O Astro, refilmagem da clássica obra de Janete Clair, que fez sucesso com Francisco Cuoco nos anos setenta, e que na sua versão 2011 teve um impagável Rodrigo Lombardi interpretando as peripércias do personagem Herculano Quintanilha, um típico herói de folhetim (que poderia ter uma série própria) que adorei. Mas, tirando isso, entre Faustões e Lucianas Gimenez da vida,  tirando o Jornal da Globo, da Band e o humoristico CQC, não consigo assistir a mais nada, pois acho tudo uma imensa porcaria. A pior delas é o BBB (Big Brother Brasil), liderado há mais de dez anos pelo (ex) jornalista e tentativa de apresentador Pedro Bial.


O FEBEAPÁ: um  clássico da literatura
nacional. Se estivesse vivo, provavelmente
Stanislaw Ponte Preta teria dificuldades
em listar tanta mediocridade encontrada
no BBB.


 Nos anos sessenta e setenta, o genial escritor Sérgio Porto utilizou o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta para publicar suas engraçadas crônicas nos jornais, e lançar em livro o seu antológico FEBEAPÁ: O Festival de Besteiras que Assola o País. Se Ponte Preta tinha o FEBEAPÁ, eu digo que Bial no Big Brother tem o seu FEBEMEARDÁ: Festival de Baixarias e Mediocridades que Assola a Realidade Diariamente no Ano. Eu pensava que já tinha visto tudo, em termos de imbecilidade na televisão (até porque, infelizmente, TV não é apenas um veículo de difusão de cultura, mas também é um espaço para o exercício das mais absurdas expressões humanas jamais vistas); mas, depois da última edição do BBB, acabou-se meu estoque de paciência diante de tanta mediocridade, estupidez e falta de respeito com o público. Demorei anos para escrever qualquer coisa sobre esse programa, já que muito já foi escrito (e esculachado) sobre ele. Resta aqui agora a minha indignada manifestação.

Semana passada, li o inteligente artigo escrito por Nirlando Beirão, na Revista Carta Capital (edição nº 680), intitulado: O império da indigência. Nele, até com uma certa compaixão pelo personagem, Beirão desanca Bial e sua trupe, denunciando a usina de mediocridades que se tornou o programa BBB, comandado pelo seu (outrora) consagrado apresentador-mor. Pelo tom da excelente matéria escrita por Beirão acerca de Bial, dá pra se perceber que aquele jovem, austero e bonito jornalista de olhos verdes, que além de réporter também era escritor e compositor (com direito à participação e classificação no longínquo MPB Shell do começo dos anos oitenta), que ficou conhecido por matérias jornalísticas históricas e reportagens sensacionais, como a narração da Queda do Muro de Berlim, em 1989, não mais existe. Aquele bom jornalista tornou-se agora um bobo da corte, um clown a serviço dos interesses das Organizações Globo, que nos tempos do patrão ainda vivo, esmerou-se em publicar uma biografia de qualidade duvidosa de Roberto Marinho, exaltando as enormes qualidades do falecido chefe; mas sem esboçar uma única linha de críticas ou fato desabonador da personalidade pesquisada. Bial passou a representar o jornalismo lacaio, que se submete de forma quase prostituída ao grande empregador, mesmo sendo a opinião pública sabedora do comprometimento de "doutor Roberto" com a ditadura militar e a sabotagem feita pela Rede Globo no último debate entre presidenciáveis, na primeira eleição para presidente em 1989, no histórico embate entre Lula e Collor, garantindo a vantagem para este último, para desgraça do país, na célebre piscada do globo azulado, fazendo "plin-plin".


Pedro Bial: ele já foi " o cara" algum dia, mas
agora, rendeu-se às vantagens do bom salário
para apresentar o "inapresentável", na sua
filosofia tico-tico no fubá do vale-tudo
na televisão nacional.
 Que pena que um ex-grande jornalista, leitor ávido de Guimarães Rosa e conhecedor de Roland Barthes, deixe de lado seu conhecimento universitário, para pôr no lugar versos de poesia chula e oportunista, através de seu sotaque carioca, de brasileiro criado nas praias fluminenses, para louvar não a expoentes da cultura nacional (como fazia em suas antigas entrevistas), mas sim para adular Analices, Ronaldos, Mayaras, Moniques, Yuris e Laísas. Tais criaturas são apresentadas por Bial aos olhos de seu criador (o agora triturado pelo mídia, José Bonifácio Sobrinho Jr.: o "Boninho") tirados pelo primeiro nome de agências de modelo, academias de musculação, festas de solterio, ou de books pornográficos para revistas masculinas.





Pessoas comuns, gente normal, representantes de nossa
"gloriosa juventude nacional"? A verdade é que, com o tempo,
o BBB não consegue mais se justificar pelos tipos rasos que
seleciona, propositadamente, recrutados muito mais pela
bela aparência. Só que cada vez mais fica dificil tentar encontrar
quem é o menos pior (retirado de blogs.pop.com.br)
 Como afirma em seu bem escrito artigo, Beirão considera que a propositada escolha esculachada dos tipinhos mais rasos e mais imbecilóides da sociedade nacional (dentre bíceps, pernas e bundas de fora), acabou por revelar saudáveis (e raras) exceções, como a feliz consagração de um, hoje deputado, Jean Willis, em uma das edições do programa, que não se conformou em fazer o papel da "bicha barraqueira", como é comum nos estereótipos trazidos pelo BBB, pois soube dar a volta por cima naquilo que poderia ser burlesco ( a reveleção de sua homossexualidade, ao vivo, perante as câmeras de televisão), revelando-se mais do que todos ali, um tipo interessante, um sujeito boa praça, centrado, intelectualizado e, sobretudo, esperto, e que diferente de seus desmiolados colegas de confinamento,  soube conquistar com astúcia e muito carisma o desejado prêmio de um milhão de reais. Porém, foram apenas Jean,  a suburbana e gordinha Cida, ou o cowboy Rodrigo, em outras edições do BBB, as raras exceções do programa, dentre um ex-vendedor de côcos, Kleber "Bam Bam" , musculoso e sem noção (que acabou virando capa de revista masculina), e um Dourado, que em sua homofobia e tatuagem de suástica, conseguiu aproveitar o lado negro do público brasileiro, que acabou por elegê-lo o vencedor do prêmio máximo, como o menos medíocre dos medíocres.


Tem certas coisas que ficam difíceis de explicar, ate para
o carismático apresentador do BBB (retirado de
humorpolítico.com.br)
  Por conta de um bom salário, Pedro Bial é capaz de manchar sua biografia, como um Fernando Henrique Cardoso que mandou que esquecessem tudo o que escreveu ( e que agora tenta recuperar sua imagem defendendo, oportunisticamente, a legalização da maconha), deixando para trás seu passado jornalístico para virar um apolegeta da vergonha nativa. Sim! Pois é vergonhoso o papel que Bial vem desempenhando na condução do Big Brother Brasil, como um maestro da ópera de horror da baixaria em rede nacional. Mas, mais vergonhoso ainda é um filho ser criticado publicamente pelo próprio pai, como ocorreu na crítica feita  pelo ex-todo poderoso Boni (pai de Boninho, responsável pelo BBB) ao seu fllho, organizador do programa, em recente reportagem publicada na revista Veja, acerca do descrédito nacional do público brasileiro sobre o BBB. A polêmica nacional se deu diante da suspeita de ter havido um estupro dentro do programa, entre o modelo Daniel (expulso do BBB depois do episódio) e a suposta vítima, a estudante Monique; enquanto esta se encontrava alcoolizada, depois de tantas festas e tentativas de suruba na "casa mais observada do Brasil"( como diz com forjada alegria, seu apresentador, Pedro Bial). Se o modelo afrodescendente passou dos limites, saindo do tom, fazendo mais do que deveria na alcova, após uma paquera mais ou menos entabulada com Monique durante a festa, e se aproveitou de sua semi-inconsciência debaixo dos edredons para violá-la sexualmente (se isso é possível); agora, somente a polícia civil carioca poderá averiguar, levando em conta que as baixarias e apelações do programa saíram dos canais de entretenimento para virar assunto das páginas policiais.


Pego com a "boca (ou será com o dedo?) na botija", só resta
ao modelo Daniel explicar o ocorrido no BBB com acusações
de racismo. Enquanto isso, dentro da casa do programa, a
polêmica rola solta (retirado de pipocamoderna.com.br)
 Dentre um Ratinho da Vida, um Programa do Gugu, as palhaçadas do Pânico na TV e a escória televisionada por um Wagner Montes ou Datena, parece que Pedro Bial e Boninho somam-se ao time dos maestros do freak show nacional, vendendo a alma ao diabo do patrocínio a todo custo. Tudo em prol da audiência. Se business is business, nem me dou ao trabalho de me juntar ao movimento iniciado na web, pedindo o boicote nacional à programação da Rede Globo, no atual dia 25 de janeiro, como forma de protesto contra a falta de ética na TV. Afinal, eu não assistia há décadas a programação da rede Globo (com exceção dos telejornais e O Astro) e só vi o Big Brother Brasil em poucas ocasiões, somente por acidente, dentro de um restaurante ou bar, ou no saguão de um aeroporto. Mas não se preocupem! Desta vez não serei mais vítima dos empregados das Organizações Roberto Marinho no âmbito da televisão brasileira, e não perderei meu tempo (nem neurônios), sequer orando para a figura caricata de um apresentador que só tem a nos legar peitos e bundas, encontráveis na esquina em qualquer revista erótica, dedicada ao público gay ou heterossexual. Se determinadas personalidades preferem deixar para a posteridade o currículo manchado por sua participação em atrocidades na TV, o problema é delas, e não meu. "Basta mudar o canal!", podem dizem muitos deles. Entretanto, quando vejo a sociedade brasileira sendo levada a picos de uma humilhação coletiva, mesmo sem assistir a tais baixarias, ainda me solidarizo com a patuléia chocada com o óbvio da estupidez (apesar do seu conservadorismo fajuto), e acho que até o mau gosto tem limite. Fora com o Big Brother Brasil! E fora com tanta gente que só tem veneno e porcaria para nos mostrar na televisão!! Sorry, Bial! Cansei!!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ECONOMIA: A Europa não é mais o que era antigamente, o problema é voltar a ser pior do que era.

Estamos acostumados, em nossa cultura, a usar o jargão: "cada um com seus problemas", e, assim, considerar que os problemas dos outros são somente dos outros e não nossos problemas também. Ao menos em relação ao que ocorre na Europa, isso se revela um ledo engano. Vivemos num mundo globalizado, e como num "efeito borboleta", o que acontece a milhares de milhas daqui, como o tsunami no Japão do ano passado,  provocando um risco de desastre nuclear em Fukushima, pode ter repercussões graves, no comércio de sapatos em Franca, no interior de São Paulo, por exemplo, ou na manutenção da produção de barris de petróleo no litoral do Bahia, no pólo de Camaçari. Tudo o que abala a economia de lá, acaba por ter repercussões diretas aqui, e um exemplo cabal disso é o recente expediente dos países ricos (ou ex-ricos?) de pedir dinheiro emprestado aos países emergentes, dentre eles o Brasil.

O Euro, a moeda única européia, está em crise; mas não é apenas a moeda, mas sim a Europa inteira. A reação em cadeia da economia capitalista, com suas crises sucessivas e a última grave derrocada
 dos países ricos, em função da decadência que passa a Grécia, e o consequente efeito dominó da crise, derrubando a economia dos países restantes, como Espanha, Portugal, Itália e França, anuncia um período de recessão, indefinição e muita insegurança para toda a comunidade européia. A incerteza quanto a sobrevivência do Euro pode significar a incerteza quanto à manutenção de uma Europa unida, depois de tantos séculos (ou até um milênio) de guerras, conflitos e disputas comerciais entre os diversos países da Europa, que outrora, tinham cada um sua moeda própria.

No início da Era Moderna, no conceito de Estado nacional, o princípio da soberania pressupunha a existência de um exército e moeda nacionais. Até a última década do século XX, acostumamo-nos nas aulas de história e geografia a descrever os países da Europa por suas moedas. Lembro-me bem quando era adolescente, que nas minhas aulas eu gostava de ler a edição anual do Almanaque Abril, onde eu memorizava a moeda de cada país, para diferenciá-lo dos outros. Assim, a Inglaterra tinha a sua libra esterlina, a Itália a lira, enquanto que na Alemanha a moeda nacional era o marco alemão, a França dispunha de seus francos, e na Espanha se usava a peseta. Por conta do vil metal, todas essas nações lutaram em guerra umas contra as outras, e foi preciso duas grandes guerras mundiais, que praticamente devastaram a Europa, para que os povos europeus, com suas diversas etnias e idiomas se sentassem juntos nas mesas de negociação, firmassem tratados internacionais, para que então, das ruínas surgisse uma nova entidade que representasse os interesses de uma Europa Unida. Nascia a União Européia, a partir do Tratado de Maastricht, em 1992, e dali nascia também a promessa de que os dias de conflito e destruição ficariam definitivamente para trás, enquanto uma nova Europa se via surgir.

Vi recentemente um comovente drama histórico chamado Feliz Natal (Joyeux Noel), com um elenco estelar de jovens astros do cinema europeu, de diversas nacionalidades. O filme conta os reais e inusitados episódios da confraternização entre soldados britânicos, franceses e alemães na I Guerra Mundial, no dia de Natal, quando os contendores saíam das trincheiras, largavam as armas, numa trégua firmada no front, e diante de um capelão rezavam, cantavam músicas de Natal, bebiam entre si e até jogavam bola, trocando fotografias dos familiares e confidenciando correspondências, como se a Guerra, naquele momento não existisse. O filme retrata fielmente uma Europa que até existia no começo do século passado, que não tinha uma moeda única. Uma Europa em guerra que contrastava com a Europa idealizada pelo filósofo Imanuel Kant, na sua obra A Paz Perpétua, escrita dois séculos antes, em que o filósofo pressagiava o surgimento de uma comunidade internacional, formada uma federação européia de nações, com o próposito de estatuir uma monarquia universal, com um governo e moeda únicos, mas que sabia respeitar a língua e as diversidades culturais de todos os povos que compunham aquela democrática comunidade de interesses. A União Européia nasceu como a concretização do ideal de Kant, e para que ela se mantenha, é fundamental que sua moeda permaneça forte, para unir povos que, outrora, eram inimigos e destruiam uns aos outros.

Se Marx ou Trotsky não conseguiram levar adiante o seu sonho de uma comunidade universal, dotada de uma mesma economia socialista, unindo as nações pela abolição dos meios de acumulação do capital, como defendia Trotsky na sua "Revolução Permanente", ao menos o capitalismo globalizado está tentando unir os diferentes por conta da economia. É cíclico que crises violentas do capital ocorram, como previu Karl Marx, mas também é previsível que o fracasso da moeda européia pode resultar na volta dos nacionalismos, e no retorno de um sentimento muito ruim na Europa, como o totalitarismo. Os novos velhos perigos que surgem para a Europa são o fortalecimento dos neofascismos, com a extrema direita italiana da Liga do Norte, os partidos de ideologia totalitária se desenvolvendo na Holanda e na Escandinávia, assim como o fortalecimento de discursos xenófobos de conteúdo racista, que agora culpam os imigrantes árabes e africanos (e não mais os judeus) como responsáveis pela crise, recessão e desemprego, que assola um em cada três cidadãos europeus em pleno colapso da economia em países como a Espanha e Portugal. Até a Grã-Bretanha foi chamada, e muito a contragosto da fleuma britânica de não querer se envolver nas confusões da Europa continental, o jovem primeiro-ministro conservador, David Cameron, foi obrigado a ir contra seu partido e seu próprio governo, na atual crise cambial, anunciando o apoio da Inglaterra ao pacto firmado pelos países da zona do Euro, como forma de manter a sobrevivência da moeda.

Pois é! Se nos meses que antecederam a Revolução Francesa, com uma economia européia em colapso, Maria Antonieta teve a audácia de sugerir que o povo faminto comesse brioches ao invés de pão, parece que no Palácio do Eliseu, um mais do que preocupado Sarkosy, aliado da Kayser teutônica Angela Merkel, vai ter que recorrer a sua badalada esposa, Carla Bruni, para lhe cantar uma de suas canções folk  ao violão, enquanto a economia da França parece desmoronar, como uma Roma em chamas diante de um Nero a tocar sua harpa. Talvez a cena fosse mais sugerida para Berlusconi na Itália, mas como o capo italiano já saiu de cena, pulverizado por uma dezena de processos de corrupção e abusos sexuais, resta ao povo europeu ver até onde vai dar a ópera bufa que se tornou a manutenção do Euro, e até onde o velho continente, surrado de guerras, vai suportar mais uma visita à lona, na perdição do capitalismo mundial. O mundo assiste aturdido ao desmoronamento da Europa.

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