terça-feira, 18 de março de 2014

MEIOS DE COMUNICAÇÃO: Na contramão da história está Raquel Sheherazade e uma multidão de conservadores brazucas

Nos primeiros meses deste ano comentou-se muito sobre as opiniões da jornalista, apresentadora âncora do noticiário do SBT, Raquel Sheherazade, emitidas nos meios de comunicação (televisão e jornais) sobre diversos temas que são caros aos movimentos sociais, setores progressistas da sociedade e defensores dos direitos humanos. No seu telejornal, a apresentadora já falou de tudo um pouco: criticou o extremismo reaçonário do deputado Jair Bolsonaro, mas também atacou o ativismo pró-movimento gay do deputado do PSOL, Jean Willys, ao criticar um beijo gay dado num protesto durante um culto realizado pelo polêmico deputado, Marco Feliciano. Raquel também condenou à legalização da maconha no Uruguai e manifestou ojeriza aos chamados "rolézinhos", chamando os jovens da periferia que frequentam shopping centers de "arruaceiros". Sobrou críticas da apresentadora e jornalista até mesmo ao Carnaval, considerado por ela uma festa elitista e pornográfica, o que lhe garantiu alguns segundos de fama nacional, quando saiu das câmeras do telejornalismo local da TV Tambaú, em João Pessoa, e passou a trabalhar no telejornal nacional do SBT, emissora do célebre apresentador Silvio Santos.

Mas o que chocou mesmo neste ano foram as opiniões da jornalista, manifestadas em rede nacional, acerca do problema social da criminalidade e a situação do sistema carcerário em nosso país. Nesses aspectos, a apresentadora do SBT manifestou boa parte de seu desconhecimento sobre o tema, uma ignorância raivosa e uma reprodução do senso comum, que apenas atiçam o discurso do ódio e a opção reaconária de se criminalizar os pobres, e até mesmo de exterminá-los. Num recente noticiário, e na publicação de um artigo seu na Folha de São Paulo, Sheherazade espinafrou as organizações defensoras dos direitos humanos, desmereceu a Constituição e o Judiciário brasileiro, valendo-se de um slogan de qualidade duvidosa, ao empregar o termo "adote um bandido", para desferir uma série de argumentos preconceituosos, racistas e conservadores sobre os autores de pequenos delitos nas ruas das grandes cidades. Além disso, o ápice dos comentários jocosos de Sheherazade culminaram com uma foto da jornalista numa capa sugestiva na revista Carta Capital; além do início de um duelo verbal com o deputado Jean Willys nos meios de comunicação, além de uma representação criminal promovida pelo deputado do PSOL de São Paulo, Ivan  Valente, alegando que a jornalista propagou o ódio e fez apologia ao crime, ao defender a iniciativa de jovens musculosos, de classe média, que saem às ruas do Rio de Janeiro atacando mendigos e potenciais infratores. Os últimos fatos repercutiram nacionalmente e mundialmente, quando Raquel tentou (sem sucesso) justificar a atitude de alguns desses jovens, ao espancar e humilhar um adolescente negro e pobre no Rio de Janeiro, acusado de ter praticado um furto, preso, nu, no meio da rua, acorrentado a um poste com um cadeado de bicicleta preso em seu pescoço.

A imagem de ver um garoto, preto e pobre acorrentado, recordando os tempos da escravatura, num pelourinho urbano, talvez não seja tão chocante quanto às afirmações da senhora Sheherazade, que em poucos segundos de sua fala na TV invocou o sentimento reaçonário de muita gente no país que pensa de forma semelhante a da jornalista. Para se ter uma ideia, no próximo dia 22 de março estão programadas grandes manifestações nos principais centros urbanos do país, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde seus organizadores pretendem reeditar a Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, realizada em 1964, nos dias que antecederam o golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder. Os conservadores participantes da marcha são exatamente os milhares de telespectadores e fãs da apresentadora do SBT, que se valendo de sua imagem, irão comemorar os 50 anos de um movimento de extrema-direita, de uma classe média elitizada, que impulsionou o advento de um regime autoritário no Brasil, sob o pretexto de combater o comunismo, pregar os bons costumes e, segundo eles, "salvar a família brasileira".

A polêmica apresentadora virou atração fácil em talk shows e programas jornalísticos, por conta de suas afirmações, revelando-se em toda momento uma pessoa sorridente, educada, que, na verdade, teria sido incompreendida num universo onde não se tolera a liberdade de expressão. Em si, em suas entrevistas, Raquel Sheherazade revela-se uma mulher jovem, nordestina (oriunda de uma TV da Paraíba, quando foi descoberta por Silvio Santos), de bons modos e voz adocicada, que não se acha nem um pouco atrasada politicamente, e tem uma queda musical por heavy metal (ela já demonstrou por diversas ocasiões gostar de bandas como  Iron Maiden e Metallica). Sob essa aparência, Raquel apresenta o figurino da mulher represante da Nova Direita: conservadora, bem sucedida e sem papas na língua. Acredito sinceramente que Raquel Sheherazade seja uma criação da TV. Uma espécie de Golem conservador, criado sob a forma de uma bela e educada mulher, que por detrás da aparência de boa moça destila ódio através das mais virulentas e politicamente incorretas afirmações. Se na democracia brasileira só faltava o surgimento de uma Direita que não tem medo de dizer o seu nome, ela finalmente apareceu sob o nome da apresentadora do SBT e de um séquito de neoidiotas que pretendem entulhar as ruas do país com sua ignorância e discursos racistas, homofóbicos e reaconários, em manifestações públicas que deverão reunir às claras milhares de apoiadores do deputado extremista Jair Bolsonaro, que finalmente vão sair das sombras e revelar a cara e o perfil social da Nova Direita no Brasil.

Celebridade instantânea: entrevistada no programa de Danilo Gentili.
Eu entendo que personalidades como Raquel Sheherazade tem uma missão. Sua missão é a mesma dos acólitos da grande mídia conservadora norte-americana, encastelada em grandes meios de comunicação como o canal Fox News: transmitir a mensagem ideológica de um pensamento conservador, de extrema direita e de linhas autoritárias, intolerante com as minorias, principalmente se elas são formadas por negros e homossexuais. Nada errado quanto a isso. Afinal, estamos numa democracia! Se eu quisesse uma sociedade somente composta de gente igual a mim eu viveria o paradoxo de defender a convivência democrática no discurso; mas em verdade ser totalmente antidemocrático. A democracia que estabelece o convívio entre os diferentes nas suas diferenças, também é a democracia em que eu tolero ou convivo no espaço público  com aqueles com quem eu não conseguiria conviver no mesmo teto ou que não me toleram, mas deviam tolerar. Quando Silvio Santos chamou a senhora Sheherazade para apresentar em cadeia nacional o telejornal de sua emissora, acredito que, de caso pensado, ele pensou em transmitir essa mensagem ideológica que lhe tanto caiu bem nos tempos em que apresentava a Semana do Presidente, nos intervalos de seu programa dominical, nos tempos da ditadura militar. Acredito que Silvio Santos usufrua de uma mensagem compartilhada por todos os grandes barões da mídia; uma vez que em tempos de black blocs e de  uma presidente ex-guerrilheira, ser conservador também aumenta o Ibope. Raquel apenas afirma verborragicamente seu pensamento atrasado, porque tem carta branca da emissora de seu chefe para fazer isso. Os conservadores precisam de eco nos meios de comunicação, e se os âncoras da Fox News fazem isso com tanto sucesso perante o eleitorado republicano na terra do Obama, porque não fariam isso aqui, na terra de Dilma, Jean Willys e Bolsonaro?

MARCHA PELA FAMÍLIA:Pessoas como Sheherazade querem de volta isso.
Raquel Sheherazade teria, portanto, uma função educativa. Através da divulgação de seus pontos de vista, que representam as idiossincrasias de um  segmento da população, a jornalista do SBT consegue expor à luz do dia milhares de vampiros ideológicos que se fingiam de mortos ou pareciam adormecidos durante anos, e que só surgiam de vez em quando, nas urnas em época de eleições, para eleger as mais estapafúrdias e anacrônicas personalidades políticas. Ao identificar um reaconário eu tenho como combatê-lo, a partir do direito ao debate, numa condição ideal de discurso que somente uma sociedade genuinamente democrática pode me conceder, como diria o filósofo alemão Jurgen Habermas. É através da transparência conferida apenas numa democracia, com liberdade de imprensa, que eu tenho como contra-atacar e denunciar o quanto é autoritário e antidemocrático o discurso daqueles que se acham acima do bem e do mal, na sua ilusão de classe, e que, assim como Sheherazadade, só trafegam na metrópole do trabalho para a casa e de casa para o shopping center, sem ter um pingo de conhecimento da realidade social. Pela democracia eu identifico os autoritários de plantão em seu discurso vazio do "adote um bandido" ou "bandido bom é bandido morto", com toda alienação inerente a esse tipo de discurso.

Por mim, que fiquem as "Sheherazades" com seus comentários idiotas nos meios de comunicação, justificando amarrar na rua adolescentes pretos e pobres com cadeados de bicicleta, como os brancos da Casa Grande justificavam os presos acorrentados no Pelourinho. Tais pessoas existem, nos dizeres do deputado Jean Willys, para serem combatidas, e é em nome desse bom combate que eu saúdo a todos os conservadores, direitistas e reaconários que agora corajosamente assumem sua posição política, e sem medo de bate-boca vão as ruas e fazem seus comentários nos meios de comunicação, deixando de lado o anonimato covarde da internet. Que venham Raquel Sheherazade e sua turma!! Como diziam os revolucionários na Guerra Civil Espanhola, que eles venham para o enfrentamento. No pasarán!!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

COTIDIANO:Preconceito

Início o primeiro post do ano neste blog para falar de um tema muito feio: o preconceito. Creio que desde crianças, em determinada fase de nossa formação, ouvimos falar dessa palavra, que ao pé da letra significa um "pré" (antes) do conceito, ou seja, uma espécie de conceito superficial, mal formado acerca de pessoas e coisas, antes de termos um conceito propriamente dito sobre algo. Implica em dizer que não podemos "julgar um livro pela capa", como se diz no adágio popular, ou não podemos nos deixar levar por ideais pré-formuladas, ou por "minhoquinhas" que entram ou já estão em nossa cabeça, antes de propriamente conhecer algo ou alguém. Na Sociologia do Direito alguns autores chamam isso de "metanorma", uma norma pré-concebida no inconsciente de quem julga que compromete, de certa forma, a formulação de seu juízo. De qualquer forma, o que me interesse aqui falar é do preconceito que todos nós, eu, você e o próximo já podem ter recebido ou cometido, por diversos fatores.

Essa semana li na coluna do dramaturgo Walcyr Carrasco, na Revista Época, um artigo onde ele fala de preconceito, citando um colega seu: o novelista Aguinaldo Silva. Walcyr tomou as dores de Aguinaldo (apesar dele mesmo falar de que ambos tem lá suas desavenças), relatando o preconceito que Silva, negro, sofreu ao entrar em um determinado restaurante do Rio de Janeiro, e, segundo o que relata o texto, ser vítima dos piores dos preconceitos. Silva teve dificuldade de encontrar uma mesa para sentar, uma vez que estava sozinho (daí Carrasco aponta o primeiro preconceito que existe nas grandes cidades: contra os sozinhos); e além da dificuldade de mesa, teve o novelista que aguentar o descaso no atendimento, sendo recebido por garçons mal educados e zombeteiros, que inclusive ficaram rindo do cliente, fazendo chistes enquanto um dos garçons tinha espirrado (segundo ele diz) acidentalmente num prato que o novelista acabou comendo.

O preconceito é algo tão grave, tão nefasto, mas tão comum, que o presenciamos desde tenra infância, especialmente na prática do chamado bullyng, tão comum hoje nas escolas. Basta que um aluno seja diferente, mais gordo, mais magro, mais alto ou mais baixo, que tenha orelhas de abano, um nariz muito grande, ou que fuja um milímetro do padrão que nosso senso comum nos aliena, para que alguém seja vítima do escárnio, de piadas, zombarias, violências; ou seja simplesmente ignorado como alguém inferior. Recordo de ouvir numa conversa casual o relato da irmã de um colega meu, bem afortunada financeiramente, que na sua rotina de classe média disse que ficou espantada com a reação da filha dela, uma garotinha de 5 anos de idade, que ao ver na escola uma coleguinha deficiente física, numa cadeira de rodas, desandou a rir e fazer gracejos da menina, como que na sua inocência infantil a outra criança estivesse numa condição muito engraçada. Essa jovem mãe me disse que chegou a ser chamada pela direção do colégio de sua filha por conta disso; mas ela mesmo tentou se justificar, dizendo que nunca tinha ensinado sua filha a ser preconceituosa. Creio que o problema foi o contrário: ela não ensinou sua filha a não ser preconceituosa.

Eu posso dizer que, infelizmente, também recentemente, senti-me vítima de preconceito. Curiosamente no mesmo dia em que um desembargador envolveu-se numa confusão em uma padaria da cidade, por conta de um suposto mal atendimento de um garçom, que levou a toda uma discussão sobre racismo ou abuso de autoridade, em um fato ocorrido num domingo (dia 29 de dezembro) do ano passado. Nessa época, após o Natal e perto dos festejos do Ano Novo, saí para a praia com meus familiares, e depois deixei minha esposa e minha mãe em casa, quando decidi dar uma volta, no período da tarde, pelo centro da cidade. Como eu só tinha feito um lanche na praia e ainda estava com fome, dirige-me a um badalado bar e restaurante do bairro de Petrópolis, na capital potiguar, onde nunca tinha ido antes, e ao lá chegar presenciei como a força dos estereótipos e preconceitos pode não somente estragar uma tarde, como também doer na alma e na dignidade de quem sabe que é e se sente cidadão.

Em primeiro lugar, é preciso que o leitor saiba como eu me encontrava naquele momento, para poder compreender no relato a força dos estereótipos e da estigmatização. Como eu tinha vindo da praia, ainda estava com os pés um tanto quanto cobertos de areia, o que é normal para quem vive em cidades litorâneas, num dia de domingo, próximo à praia, em pleno e abrasador verão. Além disso eu estava bem à vontade, vestido conforme a temperatura: de camiseta, bermuda, boné e sandálias havaianas, e como eu estava com os braços descobertos, dava para se ver as duas grandes tatuagens que ostento em ambos os braços. Além disso eu estava barbudo e de brinco em uma das orelhas. Gostaram do visual? Além disso sou negro. Não daqueles do tipo "azulão", mas com uma característica étnica bem definida que me diferencia bastante de um europeu loiro de olhos azuis, do tipo caucasiano.

Pois bem! Era exatamente 16 horas e 30 minutos de uma tarde quente, num estabelecimento que não tem as portas fechadas, e, pelo contrário, é bem aberto, com um visual convidativo e agradável, localizado em uma das ruas mais tradicionais da elitista classe média alta natalense, num bairro que possui os percentuais de IPTU mais caros da cidade. Ao entrar no local, educadamente eu perguntei aos primeiros funcionários (um deles parecia músico, uma vez que toca música ao vivo no bar), se o restaurante ainda estava aberto, pois eu pretendia pedir alguma refeição e quem sabe uma cerveja gelada ou refrigerante. De imediato, um dos presentes me disse que o local estava aberto, e me dirigindo a uma mesa, a garçonete que me atendeu confirmou a informação, dizendo que o lugar só fecharia depois das 18 horas.

Satisfeito de início com o atendimento, a garçonete me separou uma mesa, sentei-me e ainda pude presenciar uma alegre família, em torno de umas dez pessoas, de diferentes idades e gêneros divertindo-se numa mesa próxima, como se fosse o aniversário de alguém, ou uma lúdica reunião de família qualquer. O que pude notar em diferença a minha mesa em relação à barulhenta mesa vizinha é que, além de eu estar sozinho em uma mesa, e a outra estar repleta de gente, pude perceber que os outros clientes do restaurante onde eu me encontrava eram bem diferentes de mim em termos de cor da pele: eram todos brancos, muito bem vestidos e, aparentemente muito bem de vida. Se de um lado havia um cliente solitário, negro, mal vestido e calado; do outro havia uma dezena de clientes falastrões, alegres, brancos e todos acompanhados. Até aí eu não via problema nenhum pois pensava: "cada um no seu quadrado".

Ocorre que, além de demorar o atendimento da mesa, enquanto eu segurava um cardápio nas mãos, depois de uns dez minutos de espera presenciei outro garçom que veio até minha direção, no lugar da solícita garçonete que até então tinha me atendido. O garçom foi curto, objetivo e enfático ao me dizer que o local já estava fechado. Como é que é? Lugar fechado? E o que tinham me dito antes? Além de estupefato, fiquei desorientado inicialmente com a negativa do atendimento, e como quem não tinha entendido direito a primeira mensagem, perguntei em desalento: por que? O garçom limitou-se a dizer que tinha recebido a ordem de me informar que o lugar já estava fechando as portas. Ordem de quem? Mas não haviam me dito que o restaurante só fechava às 18 horas? O que foi que aconteceu?

Agora, menos surpreendido do que indignado, retirei-me bruscamente da mesa, procurando não deixar que a fúria tomasse conta diante de tal despropósito contra o consumidor, passando pelos mesmos funcionários que haviam me atendido na entrada do bar, no momento de minha chegada, inclusive pela mesma garçonete que inicialmente me atendeu, observando o olhar atordoado destes, que também se perguntavam: o que aconteceu? Lembro que eu simplesmente disse a eles que, diante da falta de atendimento e da forma abrupta que fui despejado, eu nunca mais iria naquele estabelecimento, e ao pegar meu carro estacionado na rua, ainda parei em frente ao lugar da afronta e disse a um dos seguranças que eu podia até não processar o restaurante, mas com certeza iria divulgar em todas as redes sociais em que eu participasse o tamanho da falta de respeito e flagrante insinuação de preconceito que sofri. Será que foi por eu ser negro? Ou porque eu estava mal vestido? Ou por estar sozinho em uma mesa? O que me chamou atenção nessa rápida, mas desagradável saída do bar, foi constatar de relance apenas um último e significativo dado acerca do que me aconteceu: as pessoas da outra mesa continuavam rindo e se divertindo dentro do bar, sem que o bar fechasse as portas, sem que eu sequer existisse.

São essas chatas e incômodas situações cotidianas que nos fazem lembrar sobre o peso do preconceito. O que fazer numa hora dessas? Esbravejar, fazer um escarcéu, chamar a polícia ou as câmeras de televisão? Se eu fosse utilizar de qualquer prerrogativa minha de funcionário público, nível escolar, titulo acadêmico ou cargo de importância, liderança ou autoridade, poderia ser acusado de abuso de poder, de ser arrogante, um boçal que gosta de dar carteiradas em lugares de acesso ao público, ou de me valer do mesquinho expediente de classe identificado pelo famoso antropólogo Roberto Da Matta, no seu célebre livro Carnavais, malandros e heróis, indagando aos meus interlocutores aquela popular frase: "Você sabe com quem está falando?". Mas não foi o que ocorreu. Naquele momento preferi me calar, no silêncio constrangedor das vítimas. Para não me parecer com o indelicado desembargador Dilermando Mota, que ocupou as páginas da mídia local e das redes sociais, após ter destratado um garçom e um empresário no mesmo dia, em uma padaria de Natal, por supostamente não ter sido bem atendido, eu preferi ser mais discreto e me valer deste espaço, que é meu e de meus leitores, para um salutar debate de ideias, porque como professor creio que o diálogo e a abertura de consciências são muito mais lucrativos a curto prazo do que uma celeuma que renda imprensa e processos judiciais. É óbvio que, sabedor de meus direitos, eu poderia muito bem ter acionado todos os canais legais competentes para denunciar um suposto abuso, ou mesmo a prática de um racismo por parte de funcionários, clientes ou da gerência do citado estabelecimento. Mas numa história em que não se procurou "dar nome aos bois", prefiro a credibilidade do meu relato, informando aos que leem esse blog do que aconteceu, do que ficar cultivando rancores e desentendimentos desnecessários com quem quer que seja.

Preferi me valer do silêncio constrangido do novelista Aguinaldo Silva, como conta em sua crônica Walcyr Carrasco, que também gostaria este último que seu colega processasse o estabelecimento que o tratou mal. Prefiro numa sociedade civil e democrática que a vergonha e a perda moral seja maior do que a perda legal para os donos ou responsáveis pelo estabelecimento onde presenciei uma pequena humilhação. Prefiro que o episódio relatado sirva de lição, e que dessa lição possamos manter a cabeça erguida, e combater preconceitos, que constrangem, machucam; mas, sobretudo, cultivam o ódio e a dor, e por isso precisam ser combatidos por meio da educação e da consciência cívica. Que possamos ser nessa vida, ao menos, menos preconceituosos!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CRÕNICA SENTIMENTAL: Amores Perros

Quem assistiu ou leu o livro best seller Marley e Eu, com certeza deve ter se comovido com a história do cãozinho Marley, um labrador cuja vida é contada pelo seu dono, de seu nascimento até sua morte. O cinema já se valeu muitas vezes do apelo canino, transformando em heróis animais como o Rin-Tin-Tin ou Lassie. Em Vidas Secas, obra-prima literária de Graciliano Ramos, nos comovemos com a trágica morte da cadela Baleia, assim como no filme Sempre ao seu Lado, nas salas de cinema multidões choravam aos borbotões, com as cenas do ator Richard Gere com um cachorro da raça Akita, interpretando um personagem duma história real, ocorrida no Japão, onde mesmo com a morte de seu idoso dono, o cãozinho da história continuava todos os dias a esperá-lo na estação de trem, aguardando que ele chegasse do trabalho. Até mesmo em tintas menos singelas, o filme Amores Perros, do diretor mexicano Alejandro Gonzales Inãrritu, relevava a inusitada relação de um matador de aluguel com um cão rottwelleir, usado por seus antigos donos em uma rinha de cães. Em todas essas dimensões cinematográficas podemos ver a mesma coisa: o homem ama seus animais.

Mas, afinal, o que tem esses animais que, em sua irracionalidade, comprovada por biólogos, são simples seres dotados de instinto, que não falam ou raciocinam, que se aproximam dos humanos muitas vezes em busca apenas de água e comida, mas são tão queridos e tão bem tratados que, em muitas casas, são tratados quase como parentes? A morte recente de Leopoldo, cãozinho de estimação de minha mãe, revela o quão emocionante é o gênero humano. O quanto somos capazes de fazer coisas absurdas e até mesmo cruéis em prol de um interesse maior (a cura dos problemas de saúde de uma coletividade ou simplesmente o avanço da ciência), fazendo experiências genéticas e dissecando cães da raça Beagle ou enviando cachorrinhas para o espaço, como fizeram com a finada cadela russa Laika, permitindo com seu sacrifício que surgissem os astronautas e as missões espaciais; ao mesmo tempo que somos capazes de fazer festas de aniversário para nossos bichinhos de estimação, ou montarmos verdadeiros complexos hospitalares veterinários para tratar dos males de saúde desses bichinhos, como também chegamos a construir cemitérios para esses animais, com direito a lápides e cruzes, honrando sua memória, relevando que o respeito aos mortos não se dá apenas aos humanos.

Eternizado no blog, Léo ainda vive!
Léo (como era apelidado) pertencia outrora a minha irmã, e quando esta partiu há mais de dez anos para trabalhar em São Paulo, deixou Leopoldo ainda filhote aos cuidados de minha mãe. Ela tinha duas opções: entregar o filhote para outra pessoa assumir seus cuidados ou ela mesma assumir a responsabilidade (e os aborrecimentos) de ter um animal em casa, num apartamento pequeno, onde viviam apenas um casal maduro e uma jovem adolescente (minha irmã caçula). Inicialmente relutante, tanto minha mãe como meu pai acabaram se apegando ao bichinho, e, assim como John, dono de "Marley", contou em seu livro, pude presenciar como testemunha daqueles tempos como Léo mudou o ambiente familiar. Tornou-se aquele poodle preto mais um membro (peludo) da família, e assim como Marley e seus donos, nesses quase 14 anos de vida Léo viveu, junto com meus pais, grandes aventuras.

Fico imaginando o tempo médio da vida de um cão, e do quanto um intervalo de tempo que dura praticamente uma década e meia em nossa história de vida implica em tantas transformações. Do tempo em que vi Leopoldo brincar ainda filhote no pátio da casa de minha irmã, até seu falecimento, velado morto dentro de uma caixa, na garagem da casa de meus pais, muitas coisas aconteceram em minha vida, culminando para eu me tornar o homem que sou hoje. Viajei e morei em lugares diferentes indo a outras regiões e países, conheci novas pessoas, estabeleci novos estudos, tive encontros e desilusões amorosas, fiz novos e valorosos amigos, passei por sérios problemas de saúde, recuperei-me, aprimorei minha formação acadêmica acumulando pós-graduações, escrevi artigos, dissertação, teses, publiquei um livro, vi pessoas queridas morrerem enquanto outras nasceram, assisti a três Copas do Mundo, envelheci, e finalmente encontrei o amor, casando-me e constituindo minha própria família. Durante todo este tempo estava lá o cãozinho Leopoldo, carregado pela coleira pela minha mãe, em seus passeios matinais com seu bichinho de estimação, deixando-o correr pelo condomínio onde morava, brincando com outros animais ou pessoas, importunando os vizinhos, urinando na calçada, em postes ou mesmo no pneu dos carros de outros moradores, mas mesmo assim conquistando toda uma vizinhança. O que pude perceber, pela pequena quantidade de pessoas que se aproximou dele e lhe rendeu uma última homenagem, em sua morte, como num pequeno velório, onde pessoas familiares iam e vinham para consolar minha inconsolável mãe.

Dizem que os bichos não tem alma. Ao menos é isso que aprendemos nos catequismos, nos estudos bíblicos ou nas escolas dominicais. Creio que isso seja apenas uma meia verdade. Acredito que o amor e todos os bons sentimentos que sentimos por esses animaizinhos é o que os torna genuinamente humanos e eternos, pois se a alma persiste quando o corpo se vai, é a alma do afeto e do amor que tivemos por nossos bichos de estimação que perdura, como lembrança de que ainda somos seres dotados de amor. Na Bíblia, em  Provérbios 12.10, lê -se: " O justo olha pela vida dos seus animais; porém as entranhas dos ímpios são crueis". Em Gênesis 8:16-17, quando Noé sai da arca, com todos os animais que ele havia protegido durante o dilúvio, Deus abençoa a espécie humana, assim como todos os animais, dizendo: " Sai da arca, tu, e juntamente contigo tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos.  Todos os animais que estão contigo, de toda a carne, tanto aves como gado e todo réptil que se arrasta sobre a terra, traze-os para fora contigo; para que se reproduzam abundantemente na terra, frutifiquem e se multipliquem sobre a terra."

Em 2011, Léo ainda aprontava no Natal daquele ano.
Não sei se um dia, em um outro plano espiritual,  voltarei a rever o caõzinho Léo, que tantas alegrias deu a minha família, especialmente a minha mãe. Somente sei que, assim como se diz na passagem bíblica em Mateus 25: 32-45, acredito que tudo o que fazemos aos nossos "pequeninos", sejam pessoas ou animaizinhos, alegra a Deus. Minha mãe assumiu a responsabilidade de cuidar de um cachorrinho que tinha ficado sem lar, quando sua primeira dona foi embora, e com isso não apenas teve que assumir várias obrigações de alimentação, moradia e cuidado de um animal, mas também pôde exercer o amor em sua plenitude para uma das criaturinhas de Deus que mais necessitava. Acho que é desta forma que admiro minha mãe, e a todos os donos de animais que não são apenas pets, simples mascotes ou brinquedos vivos que servem para nos alegrar, mas também são seres de um mundo criado por Deus que necessitam de nosso afeto e proteção. Em minha fé agradeço a Deus pelos anos em que pude presenciar o cãozinho Léo pulando, latindo e farejando na residência dos meus pais e nas viagens que fez conosco, assim como agradeço o aprendizado de amor que o tempo em que minha família esteve com ele proporcionou, dando-lhe muito carinho e acolhida no tempo em que ele necessitou. Será um Natal mais triste passar uma ceia em família sem os latidos ou resmungos de Leopoldo, mas também será um Natal feliz, por comemorar um tempo tão bonito em que pudemos constatar o quanto que "o melhor amigo do homem" foi, para nós, realmente um amigo. Adeus (ou até breve) Léo!!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ESPORTE: Campeonato Brasileiro 2013-Avaliações

Ontem, dia 8 de dezembro de 2013, encerrou-se mais uma edição do Campeonato Brasileiro, com a relação dos times que, na tabela de resultados, alcançaram a glória de chegar ao patamar máximo dos times que irão disputar a Taça Libertadores da América de 2014, e aqueles que amargarão o rebaixamento, sendo transferidos da Série A para a Série B do campeonato nacional. Como amante do futebol, senti-me levado a comentar os resultados do Brasileirão 2013, tecendo algumas considerações sobre as equipes vencedoras e perdedoras, que no ano que vem, respectivamente, tentarão manter os seus acertos ou aprender com seus erros.


CRUZEIRO: campeão merecido, apesar do pouco futebol.
Se eu começar a falar do início da tabela do campeonato, eu poderia começar pelo campeão, o Cruzeiro, que com um time mediano, e sem nenhuma estrela nacional ou internacional, conseguiu ganhar o campeonato por antecipação, isolando-se dos demais times nas rodadas anteriores do campeonato, com uma pontuação respeitável, que o levou ao primeiro lugar, sem que o time fosse brilhante, mas sim disciplinado. O Cruzeiro simplesmente fez o dever de casa, atuou como deveria atuar, ganhando jogos importantes, sabendo se distanciar de seus rivais na disputa do título, aproveitando as irregularidades de equipes como Grêmio e Botafogo para chegar ao patamar final de Campeão Brasileiro de 2013. O time mineiro, já experiente em torneios internacionais com duas taças Libertadores em sua história, mereceu ser campeão, mas não conseguiu igualar o feito do São Paulo, até hoje a equipe nacional com o maior número de pontos conquistado na era dos torneios de pontos corridos. Resta saber se no torneio continental do próximo ano, o Cruzeiro mais uma vez amargará a condição de mero coadjuvante, ou se terá força suficiente para a disputa do título de campeão das Américas.

RENATO E SEUS PUPILOS: em 2014, vai ter que agradar o exigente clube.
Em relação ao segundo colocado, o vice-campeão Grêmio, algumas considerações críticas que levam em conta a entrevista dada por seu técnico, o eterno ídolo do clube, Renato "Gaúcho" Portaluppi. Segundo ele, sem esboçar sorriso algum para os jornalistas, o momento agora é de comemoração pela classificação para a Libertadores, apesar do time não conseguir alcançar o sonhado título de campeão nacional .É hora de férias, segundo ele, e, nos dizeres do próprio Renato: " a diretoria do clube tem meu telefone, se quiser  me ligar!". Esse foi um recado claro, exposto à mídia de todo o Brasil e, principalmente para a torcida gremista e a diretoria de seu clube, que não obstante o papel desempenhado por seu técnico, o Grêmio teve uma atuação irregular em todo o campeonato, perdendo jogos importantes, apesar de ter recuperado posições, muito mais por vacilos de seus principais concorrentes (leia-se, principalmente, o Botafogo e Atlético Paranaense), do que por méritos do clube portoalegrense. O Grêmio não chegou a ameaçar nem de longe o líder Cruzeiro, e contentou-se com uma segunda posição, sabendo que o time tem muito o que melhorar no seu plantel de jogadores, se quiser passar da primeira fase do importantíssimo e dificílimo torneio da Libertadores de 2014.

O Atlético Paranaense fez também seu dever de casa, mostrando que no G4 do torneio nacional, onde ficam as equipes mais qualificadas para disputar uma Libertadores, os times das regiões sul e sudeste foram onipresentes nessa edição do campeonato brasileiro; deixando, entretanto, os times paulistas de fora, como bem será comentado abaixo, em relação ao desempenho fraquíssimo este ano de fortes equipes tradicionais do torneio, como o campeão mundial Corintians, o São Paulo e o Santos. Por falar em Santos, este foi o time que, ironicamente, mais se destacou na fase final do campeonato, ganhando todos os últimos jogos, culminando com uma goleada no Goiás, na casa do adversário, no Serra Dourada, eliminando qualquer possibilidade da equipe do centro-oeste de conquistar uma sonhada vaga no torneio da Libertadores da América. O Santos terminou com um honroso  sétimo lugar, levando em conta o desempenho insignificante das demais equipes paulistas, sem contar com a ausência do Palmeiras, rebaixado no ano anterior, e que em 2014 retornará a Série A repaginado, renascido das cinzas, depois de ter conquistado o título nacional pela Série B este ano, e ter economizado energias e arrecadado dinheiro com patrocinadores na versão mais modesta do Brasileirão, disputando com equipes mais fracas, até retornar à elite do futebol nacional.

TRISTEZA TRICOLOR:não teve jeito, o Flu foi rebaixado!
Em relação às equipes cariocas que participaram do Brasileirão 2013, aqui vai o meu comentário: a cada ano percebe-se a decadência constante dos times do Rio de Janeiro e não obstante o Fluminense te sido campeão brasileiro no ano passado, o mesmo time conseguiu bater o recorde histórico de ser a primeira equipe de futebol a ser campeã em um ano e ser rebaixada no ano seguinte. Isso mesmo! O Fluminense foi rebaixado para a Segunda Divisão, assim como também o Vasco. Outrossim, pela primeira vez na história dois gigantes do futebol carioca descem junto para a Série B do Brasileirão. Tristeza de cruzmaltinos e tricolores, alegria dos adversários e daqueles torcedores locais em estados no norte, nordeste e centro-oeste, que agora vão ter a oportunidade de ver esses times e seus ídolos de perto, no modesto campeonato de times mais fracos como o ABC e o América RN, mas em estádios novos e bem equipados para a Copa do Mundo, como o Arena das Dunas em Natal. Ao menos os torcedores potiguares vão ter grandes atrações nos jogos da Segundona no ano que vem.


Apesar da ameaça de rebaixamento,o Flamengo riu por último.
Dos times cariocas, apenas Flamengo e Botafogo tiveram um sucesso relativo, cada um a seu modo e de formas não menos dramáticas. A equipe rubro-negra, apesar da campanha pífia no campeonato nacional e o risco de rebaixamento nas primeiras rodadas do certame, conseguiu se recuperar a ponto de evitar o vexame de cair na tabela, ficando em 11º lugar, sem chance de disputar uma Sul-Americana, mas com o sorriso maroto de ter feito quase o impossível: ter ganho paralelamente ao Campeonato Brasileiro a Copa do Brasil, conseguindo automaticamente a vaga na Libertadores da América. No final das contas, com um time fraco, sem nenhum jogador respeitável e nem com um técnico de destaque, o Flamengo terminou 2013 rindo dos demais, permanecendo na elite do futebol nacional e conquistando vaga no torneio mais desejado nos sonhos das torcidas dos maiores clubes do Brasil.

SEEDORF:demonstrou em campo porque é o atual herói do Botafogo.
Quanto ao Botafogo, mesmo com o lendário holandês Seedorf, a equipe de General Severiano e meu time do coração, campeão carioca de 2013, só conseguiu (provisoriamente) a vaga na Libertadores no último jogo do campeonato, fazendo uma campanha épica contra o Criciúma, numa vitória que convenceu a torcida, na goleada de 3 X 0 feita, em sequência, nos pés de Lodeiro, Elias e o próprio Seedorf. O final do jogo teve direito ao choro do craque ao sair de campo, abraçado pelo técnico Osvaldo de Oliveira, ambos  de saída do time da Estrela Solitária, caso o Botafogo não confirme sua vaga no torneio continental, uma vez que precisa "secar" o já rebaixado Ponte Preta, na final da Copa Sul Americana, contra o Lanús da Argentina, para não perder a vaga da cobiçada Libertadores. Assim como o Grêmio, o Botafogo veio numa campanha irregular, demonstrando o que eu sempre disse aqui no meu blog acerca do meu time: o Botafogo é o time mais bipolar do futebol nacional. É uma equipe que ganha onde tem que ganhar, mas perde onde não podia perder! Por conta disso, o Fogão passou quase que o campeonato inteiro perseguindo o Cruzeiro entre os primeiros colocados do campeonato, até ceder espaço nas rodadas finais para times como  o Grêmio, Atlético Paranaense e o espevitado Goiás. No final, apesar de ter feito o seu dever de casa, e ter tido a sorte de "Papai do Céu" lhe sorrir, na goleada sofrida pelo Goiás, o time de Seedorf, Lodeiro, Rafael Marques e companhia ainda terá que esperar sofregamente pela derrota da Ponte Preta, próxima quarta-feira, atestando o ditado que botafoguense é um torcedor fadado a sofrer.

QUE FEIO ISSO!No rebaixamento do Vasco, violência, muita violência!
Mas, se o sofrimento do Botafogo é a dúvida se vai ou não vai disputar a Libertadores do ano que vem, ao menos, dos times cariocas, sua situação é bem mais confortável do que a do Vasco, rebaixado fragorosamente após uma massacrante goleada do Atlético Paranaense no jogo final, por 5 X 1, com direito a queimas de bandeiras do clube pelos torcedores, ameaças a sua diretoria e as tristes cenas no estádio em Joinville, palco da disputa, quando enraivecidos torcedores vascaínos foram massacrados não apenas em campo, mas também nas arquibancadas, em cenas de violência que chocaram o Brasil e o mundo, levando ao menos quatro torcedores para o hospital em estado grave. O desespero cruzmaltino revela a agonia de um time outrora campeão, maior rival do Flamengo, que agora amarga tristemente o inferno do rebaixamento pela segunda vez em sua história recente. O final do Brasileirão de 2013 foi um verdadeiro requiém para um time que já se encontrava desenganado desde os torneios iniciais do campeonato.

INTERNACIONAL: outrora equipe forte, esse ano desapontou.
Outras equipes, outrora de peso no campeonato, como o Internacional, este ano não disseram a que vieram, numa campanha decepcionante para o time gaúcho, campeão mundial e bicampeão da Libertadores. Não obstante ser um dos times mais ricos do Brasil, ter sido regido durante a temporada pela batuta de técnicos talentosos, mas controversos, como Dunga, e ter um dos melhores plantéis de jogadores do país, o Inter não fez jus ao nome, e fez também uma campanha fraca, que deixou muito a desejar. Nesse ano vindouro, em que o estádio Beira-Rio será uma das sedes de jogos da Copa do Mundo, espera-se que o time se reorganize, com a esperada chegada do técnico Abel Braga, herói do time na sua conquista do Mundial de 2006 e quem tem a dura obrigação de, assim como Felipão na Seleção Brasileira, reeditar com o Internacional uma parceria vitoriosa, para alegria de milhares de colorados espelhados por todo o país.

E, por fim, o Atlético Mineiro, campeão da Libertadores da América deste ano e time que vai disputar o Mundial Interclubes enfrentando, possivelmente, o poderoso Bayern de Munique, atual campeão da Champions League da UEFA. Com uma atuação apenas regular, muito mais preocupado com o torneio internacional que poderá colocar seu nome na história, a equipe do técnico Cuca pouco jogou nesse Brasileirão, ganhando ou empatando apenas jogos chave, para não ter que, como o Fluminense, amargar num mesmo período a glória e a decadência sucessivas. O time passou o ano totalmente focado na Libertadores, foi campeão do torneio latino-americano mediante uma campanha épica, passando por equipes fortíssimas pênalti após pênalti, e no fim terminou o ano apenas querendo saber do Mundial Interclubles, a fim de fechar com chave de ouro uma escrita iniciada com o título do estadual no começo do ano, completada com a Libertadores, e que pode culminar com o ano de maior êxito da história do clube, a fim de satisfazer a torcida (e o ego de Ronaldinho Gaúcho!).

A torcida do Vasco encerra o ano de luto!
2014 será o ano da Copa e com o término do Brasileirão deste ano, os olhos do Brasil e do mundo voltam-se totalmente para esse megaevento mundial, realizado novamente no Brasil após mais de 60 anos. Até lá creio ser difícil estabelecer qualquer prognóstico para saber quem vai se dar bem e quem vai cair no Campeonato Brasileiro do ano que vem, mas o que posso dizer de 2013 é que nenhum time está livre do azar de cair, como também da glória de chegar ao título. De qualquer forma, que os resultados deste ano sirvam como lição e elemento de crítica para como os clubes brasileiros estão organizando o calendário das partidas de seus times, e de como isso deve ser reformulado, a fim de que grandes injustiças não sejam cometidas com treinadores e jogadores. Que o digam Vasco e Fluminense, que o diga o São Paulo e uma infinidade de times que poderiam estar erguendo a taça e não estão, como outros que só conseguiram isso por mera sorte, disciplina, mas sem muito talento. Que em 2014 o Brasil seja campeão da Copa, mas que também o Campeão saiba mudar o futebol que se desenvolve em sua própria terra. FORÇA, BRASIL!!!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DESCANSE EM PAZ: Manoca Barreto (1964-2013)

O luto é um sentimento sempre inesperado. Nunca sabemos quando ele vai surgir, e quando surge é sempre devastador. O luto consome a alma, mas é luto para ser vivido, e como todos nós podemos ter esse sentimento, o sentido do luto é sempre  passar por ele.

Mas o que é pior é o que antecede ao luto: a surpresa. E foi com extrema surpresa ( e sentido luto) que eu soube da morte do músico, artista e professor potiguar, Manoca Barreto. As notícias ainda são desencontradas. Fala-se mais do enterro, que aconteceu ontem, no Cemitério Morada da Paz, em Natal, do que das causas da morte. Muitas são as homenagens, dos amigos, artistas locais e pessoas que conheciam o mestre da guitarra e multi-instrumentista falecido. Ele  foi encontrado morto em seu apartamento, por volta das sete horas da manhã do dia 25 de novembro. Algumas notícias indicam que ele deixou uma carta, e a polícia descarta homicídio. Manoca morreu com apenas 49 anos. Muito pouco para uma vida dedicada à musica, arte de alguém que a carregou na alma, levando a guitarra no braço como sua segunda pele, ensinado gerações e mais gerações de novos instrumentistas.

João Barreto de Medeiros Filho nasceu em Natal, no ano de 1964. Filho de uma família tradicional de classe média, Manoca veio de uma família em que a maior parte de seus familiares tinha algum tipo de vinculação com a música. Ele deixou dois irmãos também músicos: o guitarrista Carlinhos e o baterista Fernando Suassuna. Manoca integrou o Fluidos, importante banda potiguar de rock progressivo dos anos oitenta, que gravou disco e chegou a fazer shows em cidades como o Rio de Janeiro. No final dos anos oitenta, após conhecer o Sudeste, Manoca decide sair da banda e se especializar no emprego da guitarra, matriculando-se na Escola de Musica e fazendo Mestrado pela Unicamp, onde pesquisou sobre o uso da guitarra no Brasil. Professor da Escola de Mùsica da Universidade Federal do Rio Grande  do Norte, Manoca era, sobretudo, um educador, mas também participou como guitarrista de tudo de bom na produção musical brasileira dos últimos vinte anos. Ele já tocou com artistas conhecidos nacionalmente, como Toninho Horta e Leila Pinheiro, e ganhou vários prêmios durante sua vida. O último deles foi o Prêmio Hangar da cultura potiguar, concedido a ele neste ano, além de uma série de vídeos e participações importantes na cena local. Para mim, Manoca não era apenas um dos maiores músicos do Rio Grande do Norte, Manoca era um dos maiores artistas do Brasil!

Da minha experiência pessoal com Manoca, lembro-me de tê-lo conhecido na década de noventa, quando eu era aluno iniciante de piano no Instituto de Música Waldemar de Almeida, no bairro de Petrópolis, em Natal. Na época, eu tinha uma banda de rock, o Jus Causae, e meu amigo Roger Rocha era o guitarrista da banda e aluno de Manoca. Eu me recordo da simpatia e humildade do cara. Do seu sorriso largo, perguntando a mim como é que estava a banda e dos paternais puxões de orelha que dava em Roger, toda vez que ele não se empenhava como devia nas lições de guitarra. Manoca era, sobretudo, um cara que transmitia uma paz enorme, seja ao conversar com seus amigos, seja ao tocar suavemente a sua guitarra. Era um egresso de bandas de rock que abraçou o jazz e toda a musicalidade oriunda desse riquíssimo estilo musical. Eu me recordo que ele gostava especialmente de grandes instrumentistas como Pat Metheny, e eu já escutei por mais de duas  vezes suas perfomances tocando em barzinhos de Petrópolis, tocando covers em sua guitarra de sucessos jazzísticos como Dave Brubeck e Stanley Jordan. A música de Manoca parecia espelhar o seu espírito sereno, viajante, de suaves cordas dedilhadas num instrumento que parecia ter uma sonoridade mais gostosa quando era tocada por um cara que era um autêntico artista de sua geração.

Mas, talvez, a maior participação que Manoca teve na minha vida (e que não irei esquecer), eu deixo registrado aqui no blog, quando, em 1996, eu participei do Festival de Música do SESC, com uma música que eu e Roger gravamos, baseada num poema de Giovana P. A música tinha sido selecionada entre as 15 melhores de mais de uma centena de gravações enviadas à organização do festival, e eu e meu amigo tivemos a oportunidade de cantá-la para uma multidão, no auditório do SESC de Ponta Negra, contando com uma banda de apoio que era liderada por Manoca nas guitarras. Foi ele o responsável pelo arranjo e pelos ajustes finais numa música que ficou monumental, maior do que eu havia concebido, com o som da guitarra dele, aliado ao timbre da minha voz. Eu não podia acreditar, eu, que era um moleque de vinte e poucos anos, recém saído da faculdade e integrando uma banda de garagem, sendo acompanhado num festival por um músico do calibre de Manoca. Pena que não havia vídeos da época para registrar esse momento; mas aconteceu. Com isso, Manoca Barreto deixou de vez, como legado, uma participação sua em minha (curta) vida de músico.


Fico realmente triste e muito desanimado por saber que Manoca partiu tão cedo. Fazia anos que eu não via o cara, desde que nossos caminhos desencontraram e eu fui fazer minha pós-graduação fora, afastando-me do RN e retornando após o meu doutorado. De qualquer forma, de pessoas como Manoca eu esperava uma vida mais longeva, no mínimo encontrando o cara bem velhinho, mas mantendo seu sorriso simpático, tocando sua guitarra debaixo do alpendre de alguma casa de praia, enquanto via as ondas, como o astro mexicano Carlos Santana, outro grande guitarrista a quem Manoca tinha sincera admiração. Quero crer que pessoas como Manoca são tão importantes que Deus decidiu chamá-lo mais cedo, encerrando o belíssimo trabalho que ele fez neste mundo. Quero pensar que agora Manoca está no céu entre os anjos, fazendo-os sorrir, tocando sua guitarra celestial. É por isso que nesse texto faço minha sincera homenagem a Manoca Barreto, a sua obra e que novas gerações, pessoas de fora do RN, e todos aqueles que não o conheceram, possam ter uma ideia de quem ele foi, pois se em vida ele não recebeu todo o reconhecimento que ele merecia, agora com sua partida, com certeza, Manoca jamais será esquecido. Adeus, meu bom e talentoso Manoca Barreto!!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

IN MEMORIAM: Lou Reed

Lou Reed morreu! Lou Reed tinha tudo para ter morrido bem antes. Poderia ter morrido de overdose de drogas, nos anos setenta; de AIDS, nos anos oitenta, quando a doença se disseminou relevando o perigo de práticas sexuais libertinas. Lou poderia mesmo ter morrido assassinado, vítima de algum traficante a quem não pagou a dívida ou de um fã ensandecido, dos muitos que ocupavam a cena artística daquela época, e que poderiam ter atirado em Lou, como Marc Chapman fez com John Lennon em 1980. Mas não, Lou Reed ainda viveu muito tempo: exatos 71 anos, e em sete décadas de existência tornou-se mito, uma lenda que permanece apesar da morte do ídolo. E a morte de Lou, apesar de anunciada com discrição, como foi quase toda a vida do músico, ainda chocou muita gente.



Nascido Lewis Allan Reed, em 2 de março de 1942, no bairro do Brooklyn, em Nova York, o cantor e guitarrista norte-americano viveu na cidade praticamente a vida inteira, salvo longos períodos sabáticos em sua juventude, quando o jovem músico excursionava pela Europa ou gravava álbuns com sua antiga banda dos anos sessenta, o The Velvet Underground, ou então em produções solo. Foi através do Velvet, inclusive, que Lou ganhou popularidade, numa banda formada nos Estados Unidos, mas que fracassou em vendas de discos na sua terra natal, ganhando, entretanto, aspectos cult ao ser celebrizada na Europa. O Velvet Underground foi, desta forma, uma das primeiras bandas de art rock da história, famosa por sua formação clássica contando com Reed no vocal e guitarra, o baixista galês John Cale ( parceiro musical e poético), o guitarrista Sterling Morrison, e a baterista Mauren Tucker. Além desses integrantes, o Velvet teve como segunda vocalista, a cantora e modelo alemã Nico (na verdade, Christa Pffägen), indicada pelo artista plástico Andy Warhol, um dos produtores e grande incentivador da banda, idealizador da Factory e responsável pela antológica capa da banana, do primeiro álbum do grupo.

Lou Reed e o Velvet Underground
Recordo-me de escutar Lou Reed pela primeira vez, vivendo em Natal, com vinte e poucos anos de idade. Fui introduzido ao som dele e do Velvet pelo extinto grupo de jovens artistas e intelectuais locais chamado Sótão 277. Foi no grupo integrado por amigos interessantes, como o hoje poeta, filósofo e escritor Pablo Capistrano e o cineasta Aristeu Araújo, que eu conheci, nas festinhas daquela rapaziada universitária, o som do Velvet Underground, nas vozes de Lou Reed e de Nico, como também toda a inspiração beat que fluía em sua música. Lembro-me de comprar na extinta Aky Discos o antológico disco de Reed, Transformer, até hoje um clássico, gravado por David Bowie. Lá, naquele que ainda considero o melhor (e também o mais pop) disco do músico, vê-se verdadeiras pérolas que são escutadas até hoje, como o hino underground Walk on The Wild Side, ou a subversiva e agitada Vicious, além da triste balada A Perfect Day, utilizada na trilha sonora do filme de Danny Boyle, Trainspotting, que fez a história da minha e de outras gerações. Recordo de me sentar sozinho no apartamento de uma amiga, que havia me cedido o espaço enquanto viajava de férias, e eu, ainda um moleque querendo sair da casa dos pais, ouvindo a voz de Reed tomando goles de whisky como supremo ato de transgressão juvenil, sentado numa cadeira de balanço,  na minha depressão romântica, típica desta canção.

Lou Reed não era bom cantor e nem fez muito sucesso a ponto de ser considerado pop. Muito pelo contrário. Avesso a jornalistas, no decorrer de sua vida o artista gravou raríssimas entrevistas, e nelas quase sempre se apresentava entediado com as perguntas, proferindo respostas monossilábicas. Parecia que o cara queria mostrar a si próprio através de sua arte, com sua música e poesia cantadas no palco, e não mediante microfones para prestar racionalizadas declarações. Quem queria conhecer Lou Reed deveria conhecê-lo pela música, que na verdade era muito mais uma prosa poética cantada do que propriamente canções. Com letras fáceis e cruas, diferente de outro grande poeta e cantor como Bob Dylan, Reed expunha a alma americana e o cotidiano de aflições e desventuras de um típico cidadão novaiorquino, através de suas canções. Creio que após Transformer e a ópera-rock  Berlin, um dos melhores álbuns do artista que traduzem isso é o ótimo New York, de 1989, com sua balada Dirty Boulevard e a imagem de um casal de amantes junkies, percorrendo a metrópole de motocicleta, surgindo na cabeça ao se ouvir Romeo & Juliet. Por falar em drogados, esse era o universo urbano das músicas de Lou Reed ao falar da cidade que tanto amou. A Nova York de Lou Reed era bem diferente da metrópole limpa e republicana de hoje, reconstruída após o ataque das Torres Gêmeas. A New York dos anos setenta, dos melhores álbuns de Reed era a urbe violenta dos subúrbios escurecidos, das ruas sujas e empoeiradas, lotadas de mendigos, vagabundos de toda estirpe, viciados, traficantes, prostitutas e travestis. Por falar em travestis, este é um capítulo aparte na vida de Lou Reed.

Conhecido não só pelo consumo abusivo de heroína, como também pela bissexualidade, Lou Reed simbolizava também a época do sexo louco, desvairado, sem limites e errante que caracterizou bem a ressaca da contracultura, numa década de crise, desemprego e Guerra Fria, como foi a década de setenta. Ele chegou a casar com um travesti, e a contracapa do disco Transformer apresenta duas versões de seu amante, numa versão masculinizada, e outra travestida. O próprio músico nessa época apresentava-se com visual andrógino, sendo também um dos paladinos do movimento glam, encabeçado na época por músicos consagrados como David Bowie e Marc Bolan, do T-Rex, além do pessoal do New York Dolls. Uma excelente biografia da época e da história da música no período é ler a obra Mate-me, por favor, escrito pelos jornalistass Larry Mcneil e Gilliam McCain, que saiu no Brasil em dois volumes pela LPM Pocket, contando a história dos precursores do punk. Lá, tem passagens curiosas e até engraçadas, lembrando de personagens como Lou Reed, e de como aqueles tempos loucos faziam que, para um músico intelectualizado e interessado em experimentos, não restasse outros caminhos a não ser o caminho das drogas e do sexo sem compromisso. Algo que também se tornou tema nas canções de Lou.

Ex-junkie,  depravado sexual, pai (ou avô) do rock alternativo, precursor do movimento punk. Na verdade, as diversas facetas e personas que Lou Reed assumiu são pequenas para o gigantismo de sua obra e as dimensões que ela tomou. Sóbrio desde os anos oitenta, o cara passou seus últimos anos tendo uma vida bem mais tranquila do que nos seus anos turbulentos, vivendo, segundo ele, como um "velhinho de supermercado". Casado com a também cantora e artista performática Laurie Anderson, Lou Reed parece ter vivido seus últimos anos de vida com certa paz. Praticante do tai-chi-chuan, o músico norte-americano só não conseguiu conter os problemas com o fígado, causa de sua morte, após ter passado meses sem se recuperar propriamente de um transplante, realizado no começo do ano.

Em 2010, Lou Reed fez sua última apresentação no Brasil. O que não foi grande coisa, segundo dizem, pois ele estava muito mais interessado em divulgar seu álbum de músicas experimentais, do que tocar antigos sucessos seus ou do Velvet Underground. Quem esperava, serelepe, que o músico fosse tocar uma alegre Sweet Jane, no Credicard Hall, decepcionou-se ao escutar um alarido de sons distorcidos produzidos por guitarra e microfonia, que revelavam os últimos (e bizarros) experimentalismos musicais do artista novaiorquino. Lou Reed sempre gostou de subverter, e como um homem formado em literatura e cinema pela universidade de Syracuse e que gostava de ler Goethe, Rilke e Bertold Brecht, cada uma de suas apresentações, nos últimos anos, assemelhava-se mais a um sarau literário ou a um experimento científico do que um show de música. O cara chegou a fazer em 2011, um disco junto com os integrantes do Metallica, na ópera-rock Lulu, que encontrou uma recepção fria da crítica e um quase esquecimento entre os fãs da famosa banda de heavy-metal. Mas,  quer saber?  Lars Ulrich e James Hetfield adoraram trabalhar com o cara, e isso é que importa!


Com Laurie Anderson, a viúva oficial de milhares de fãs enviuvados.
Eis que Lou Reed se foi. Para muitos, parece incrível, porque ídolos (ou, ao menos, um mestre), não deveriam morrer. Mas como todo ícone da música, Lou demonstrou ser apenas uma pessoa de carne e osso. Com ele vai-se embora mais um pedaço do século XX e da música popular produzida nos últimos cinquenta anos. Mas não se preocupem! Lou se foi, mas não desapareceu. Acredito que durante muitos anos sua obra será cultuada. Valendo-se do velho jargão tantas vezes batido: Lou Reed "saiu da vida para se eternizar na história". Goodbye, Lou! Welcome, Lou!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TELEVISÃO:O fim da MTV, o renascimento da MTV. Tudo mais do mesmo?

A MTV (Music Television) entrou no ar oficialmente em 1º de agosto de 1981, nos Estados Unidos, como um canal de TV a cabo que só passava músicas e videoclipes, e em plena década de oitenta marcou a história da cultura popular do século XX. Lançada em 1985, a canção Money for Nothing, da banda de rock Dire Straits, do célebre guitarrista Mark Knofler (juntamente com os backing vocals do cantor Sting), marcou época com o refrão que emulava a emissora, cantando "I want my, I want my, I want my MTV!". Para a minha geração de adolescentes naquele tempo, e para as demais gerações que viriam depois, podíamos não ter acompanhado a British Invasion na década de sessenta da geração de meus pais, que viu o surgimento de Beatles ou Stones, ou talvez fôssemos muito pequenos para digerir a musicalidade dos anos setenta, quando bandas como  Led Zeppelin e Pink Floyd, ou músicos como David Bowie e Raul Seixas, reinaram absolutos, junto  com a música alternativa  de Frank Zappa e dos Mutantes. Mas se os anos oitenta eram a época mágica do BRock no Brasil, da New Wave e de todas as bandas e músicas legais que surgiram no período, os anos oitenta e noventa foram a era de ouro da MTV.

No Brasil, a MTV surgiu em sua versão nacional em outubro de 1990. Portanto, até a morte definitiva de sua versão antiga, a MTV que deixou de transmitir o seu sinal na rede aberta de televisão no último dia 30, completaria exatos 23 anos de existência. Foram duas décadas de muita coisa (e também muita porcaria), que pude presenciar na emissora sediada no bairro do Sumaré, em São Paulo, que representava a TV caçula, ou ao menos a TV que efetivamente representava o público mais jovem da sociedade urbana brasileira, e que gostava de ritmos populares, como o rock, o hip-hop e a música pop em geral. No começo, era um canal de televisão mais voltado exclusivamente para o rock clássico e poucos, mas emblemáticos artistas pop, como Michael Jackson e Madonna; mas perto de seu fim, a MTV, principalmente em sua versão brasileira, passou a flertar com vários estilos musicais populares; dentre eles a Axé-Music, defendida por cantoras baianas de sucesso, como Ivete Sangalo e Claúdia Leite, ou grupos mais rock-pop-farofa, como o Jota Quest. Foi essa MTV aquela que, ao perceber descerem os níveis de sua audiência, apelou para todo tipo de fórmulas, algumas com sucesso, outras nem tanto, o que acabou por matar antecipadamente o canal, já alguns anos antes de sua extinção oficial, no mês passado. Mas, de qualquer forma,  a MTV fez história, e muito dela pode ser contada por mim neste momento. Afinal de contas, "se tudo passa, tudo passará".

Mas como tudo passa, acaba ou se transforma, o canal musical que eu vi pela primeira vez, em sinal UHF, apenas no longínquo ano de 1995,  encantou-me à primeira vista, ao ver em sua primeira imagem um documentário sobre Led Zeppelin, onde mais se escutava do que ouvia, devido a chiadeira e a imagem borrada do fraco sinal de minha antena de televisão, mas que não me demovia de ficar em frente a TV, curtindo aquilo que, para mim, era um grande barato. Entretanto, aquele canal de maravilhas musicais agora desapareceu, desconfigurou-se e se tornou com o passar dos anos algo totalmente diferente do que foi a MTV na sua origem. Ainda me lembro daquela tarde nos anos dourados de minha juventude, quando reunido com a minha galera da banda de garagem e algumas latinhas de cerveja, nos amontoávamos no chão de meu apertado quarto para ver, na cidade de Natal, pela primeira vez ser reproduzido naquela cidade do Nordeste o sinal da MTV. O canal ainda era bacana na programação, apesar do sinal ser péssimo e as imagens só pegarem bem para quem morasse no centro da cidade. De qualquer forma, o que valia a pena era escutar o som dos diversos clipes que fizeram história na emissora, antes da difusão da internet e do Youtube. Minha educação musical partiu de diversas fontes, mas, sem dúvida, parte dela veio daquele processo de alfabetização cultural que me passou a MTV, com seus diversos clipes e programas legais, voltados inteiramente para a música, e seus DJs carismáticos e afetados, que representavam parte da juventude de um Brasil urbano, recém globalizado, que após vinte anos de ditadura e um mal sucedido começo de democracia na era Collor, finalmente tocava o som de uma galera que cresceu vendo os clipes do Red Hot Chili Peppers ou do Metallica, após o antológico álbum preto, que presenciou o advento do Manguebeat com Chico Science e Mundo Livre, ou que viu bandas prodigiosas como Smashing Pumpkins e Stone Temple Pilots fazer sucesso através dos clipes produzidos no famoso canal de músicas. O problema (ou talvez a solução) é que a MTV mudou assim como mudou o perfil da juventude que veio depois, e que agora atravessa as ruas do país, participando de protestos estudantis pela redução do preço das passagens, com cartazes nas mãos competindo com seus smartphones nos bolsos. A MTV de hoje em dia não tem quase nada haver com a MTV de antigamente.

A começar pelos VJs, acredito que os apresentadores da MTV são um capítulo aparte na história da emissora. Antes do fim oficial da antiga MTV Brasil, agora no dia 30 de setembro, eu pude ver a apresentação de um programa de despedida com uma retrospectiva bem nostálgica de todos os artistas, jornalistas, músicos e comediantes que já passaram pelo extinto canal, a começar por um hoje respeitável apresentador da Rede Globo, Zeca Camargo, até um revolucionário e pós-punk Gastão, com seu elevado sotaque paulistano apresentando bandas promissoras, e a seriedade combinada com o despojamento e o jeito meio "papai e mamãe" garotões, de apresentadores como Edgar e a hoje militante política Soninha. Quem não se lembra da beleza juvenil daquela gata, mistura de modelo com apresentadora, meio menina e meia mulher que era Sabrina Parlatore, além do jeito desengonçado, mas também engraçadinho da simpática apresentadora Cuca. Até Astrid, vinte anos mais jovem fazia parte do time da MTV, e uma Penélope Nova ainda realmente nova, e nem tão marombada, já adornava com suas tatuagens o programa, apresentando de vez em quando os clipes da banda de seu pai, Marcelo Nova, da hoje lendária e oitentista Camisa de Vênus.

É! Passou gente muito boa pelo canal pertencente ao grupo Viacom e exibido aqui graças ao dinheiro do Grupo Abril. O que seria da MTV sem o Thunderbird? Alguém ainda se lembra dele? Quem diria que hoje, repórteres sérios como Casé Pescini e o cantor Lobão, que no passado eram a cara da geração esbórnia MTVniana, agora dão as caras na televisão fazendo jornalismo-verdade no denso "A Liga" da TV Bandeirantes; ou que anarcopunks juramentados, como João Gordo, do Ratos de Porão, fossem hoje tão "sistema", tendo passado por uma fase em que eram a cara da juventude que curtia rock e  assistia o canal na televisão brasileira, a partir dos programas que estes caras apresentavam, com toda fúria e todo gás. A MTV tornou-se onipresente na indústria da música, antes da pirataria e do surgimento do MP3, com o surgimento das premiações já conhecidas na MTV norte-americana: os chamados MTV Awards. Com o tempo, tais eventos anuais, cheios de pompa como uma festa de gala, acabaram por se tornar menos divertidos e mais chatos, no momento em que o "jabá" das rádios passou a proliferar, e só os mesmos queridinhos da mídia e das rádios passaram a faturar os mesmos prêmios todos os anos. De qualquer forma, pra quem é dessa época, quem não se lembra do célebre pito, que um irritado Caetano Veloso deu na plateia e nos apresentadores do evento, numa das versões da premiação, em que seu som falhou, ao cantar junto com o ex-Talking Heads, David Byrne, e ao ser objeto de vaias, expondo em bom baianês a sua indignação, metendo o pau na emissora, após proferir (ao vivo na TV) vários palavrões?!

Saiu também com o fim da MTV a época dos históricos shows acústicos, onde o selo "Acústico MTV" passou a ser sinônimo de sucesso para bandas e gravadoras, consagrando o talento e o legado musical histórico de bandas como Legião Urbana e Ira, ou reativando a carreira de bandas esquecidas, como o Capital Inicial, que deve toda a sua volta e vitalidade permanente no rock nacional, aquele programinha acústico que levou músicos como Dinho Ouro Preto a cantar para novas gerações. Nesse sentido, a MTV conseguiu fazer reparações históricas e reabilitar o talento e o sucesso de muita gente boa. Obrigado por isso, antiga MTV!

Hoje, acontece algo estranho na TV brasileira, assim como é estranho (mas previsível), o caminho que este tipo de mídia tomou no Brasil. Seguindo uma tendência global, é cada vez mais comum um nicho específico da sociedade chamado cruamente de "classe média", preferir assistir a programação de canais fechados, por meio do acesso a TV paga, pagando assinaturas de canais por via satélite ou mediante a compra da programação de canais a cabo. Assim, tardiamente o Brasil da globalização viu chegar aqui um tipo de mídia que já era onipresente, há muitos anos antes no hemisfério norte. Somado ao desenvolvimento da TV por assinatura, a MTV Brasil viu também se consolidar o uso da internet numa nova sociedade da informação, onde a busca e download de clipes e o emprego do Youtube, sepultou de vez a curiosidade de um fã, de ver a sua banda ou músico predileto através de um canal de televisão, se ele pode ver tudo isso na hora que quiser, num único clique do seu celular. Nesse sentido, o fim da antiga MTV e o surgimento de seu novo modelo, adequado segundo dizem alguns, a nova realidade, já era dado como favas contadas. Até mesmo programas humorísticos outrora promissores, como "Hermes & Renato", sofreram cortes e a intervenção desse novo modelo de TV, quem não poupou sequer antigos astros do humor da emissora, como Marcelo Adnet, finalmente comprado pelo esquema multimilionário das grandes emissoras de TV aberta do país, como a Rede Globo, adequando-se a um novo tipo de humor tão inteligente quanto suas piadas, mas menos jovem, menos rebelde e menos livre de amarras, como eram os esquetes humorísticos da antiga MTV.

Agora, ao menos o que vi na propaganda de lançamento da "Nova MTV", foi um canal totalmente diferente, muito mais uma simples franquia do atual canal original norte-americano, com programas chatinhos e a reprise de algumas séries antigas, como Dawson Creek e Beavis & Butthead (meu Deus, alguém ainda se lembra disso?), além de apresentadores questionáveis e que de VJs, não tem nada de original, como Fiuk e Supla (fala sério). Talvez eu esteja um quarentão velho e não entenda mais "p.nenhuma" de juventude ou adolescência (já que a minha já se foi há mais de vinte anos), mas ao menos o que eu posso relatar como parte da juventude que viu a MTV nascer, é que sua versão década de dez do século XXI é bem mais chata e mercadológica do que a inovadora TV que eu vi nascer, ao som de Money for Nothing. Se, no final, nessa economia capitalista que faz os meios de comunicação trabalharem mais com mercadorias do que com bens culturais,  onde "tudo é dinheiro", que ao menos o dinheiro seja empregado pelos anunciantes e investidores de forma mais inteligente, buscando atrações inovadoras e programas tão interessantes quanto, que despertem a audiência de uma juventude que, longe de ser tachada de alienada por conta das traquitanas tecnológicas, ainda consegue pensar tão bem, a ponto de ocupar as ruas e exigir a retirada de governantes do poder (como acontece hoje, nas sucessivas manifestações que ocorrem no Rio de Janeiro). Por que então não explorar uma nova MTV que reproduza o som dessa juventude em fúria que está nas ruas? A juventude é moderna e evolui com o passar dos anos, mas nossa elite dos meios de comunicação, ainda é muito conservadora.

Espero poder voltar a gostar da MTV, se é que ela ainda vai existir, ao menos utilizando o velho nome. Acho também, por outro lado, que aquela antiga MTV que eu conhecia simplesmente morreu, já faz alguns anos, assim como minha própria juventude; permanecendo apenas as lembranças e os videoclipes para baixar, com o logotipo da emissora, através de downloads e nos vídeos que passam no Youtube. De qualquer forma, espero que as novas gerações curtam a sua maneira uma boa música, boas imagens e uma boa programação, assim como eu curti, nos tempos em que ficava em casa curtindo os clipes da minha velha MTV. Para relembrar os velhos tempos ainda ouço ecoar nos meus ouvidos a musiquinha do Dire Straits: "I want my, I want my, I want my MTV!".


Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?