terça-feira, 12 de agosto de 2014

MÚSICA: Far From Alaska é uma das melhores novidades do rock nacional. E veio, quem diria, do Nordeste, da cidade de Natal!

Não um grupo de jovens nerds, e sim uma potente banda de rock.
Caras como eu, que já passaram dos 40 anos, gostam de rock e ouviram um pouco de tudo da infância até a vida adulta, em ao menos quatro gerações, ficam meio ranzinzas ou rabugentos diante de novidades. Eu canso de escutar amigos da mesma idade, meio saudosistas, dizendo que nunca se fará música igual ou melhor  a que foi feita nos anos oitenta ou noventa do século passado, ou que o rock'n roll já morreu; ao menos o rock brasileiro. Afinal, já faz quase 30 trinta anos do primeiro Rock in Rio, em que o Brasil revelou ao mundo bandas antológicas que fizeram a cena musical (e as FMs) do país inteiro anos antes, no final da ditadura,  apresentando roqueiros que hoje já morreram ou encontram-se cinquentões, como Barão Vermelho, Legião Urbana, Ira, Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso. Com a chegada dos anos 2000, com a cantora Pitty, os moleques do Restart e bandas mais adolescentes e inexpressivas, como NX Zero e Fresno, além do fim da MTV Brasil no começo da segunda década desse século, parecia que nada de novo e realmente interessante parecia restar no front do rock nacional. Parecia, apenas parecia!

Confesso que eu havia me juntado há alguns anos ao coro dos descontentes dos jovens rockers e groupies das antigas, que agora viraram senhores ou senhoras pais ou mães de família, não muito atentos aos músicos mais jovens que despontavam no cenário musical nacional nos últimos dez anos. Porém, nunca é tarde para acreditar que enquanto há vida há esperança, e enquanto existir rock and roll haverá vida inteligente na terra. Das bandas estrangeiras, eu já tinha escutado excelentes grupos de artistas recentes da última era, com cantores e instrumentistas que ainda estão na faixa dos 20 ou 30 anos, como Interpol ou Muse. Porém, no Brasil, depois do manguebeat dos pernambucanos do Nação Zumbi na década de noventa, o rock setentista e meio Ramones dos gaúchos do Cachorro Grande, e a pegada meio rock, reggae e hip-hop dos cariocas do Rappa, tocados nos últimos anos, eu ainda não tinha visto uma banda de rock tão boa, quanto os potiguares do Far from Alaska, a grande sensação das bandas lançadas no último ano.

É certo que, para os que conhecem, o Rio Grande do Norte não é apenas a terra de belas paisagens paradisíacas de praias tropicais, dunas e Mata Atlântica, com imagens capturadas à exaustão em portfólios de agências de turismo ou novelas da Rede Globo, ou lugar onde se escuta somente forró, pagode ou grupos de axé-music, como os que lotam a cidade no mês de dezembro, por conta do Carnatal, uma das maiores micaretas (carnavais fora de época) do país. A terra do escritor Luís da Câmara Cascudo, do cantor brega Carlos Alexandre,  da modelo internacional  Fernanda Tavares e da atriz global Titina Medeiros, também é berço seminal de grandes bandas de rock, pop e blues que marcaram a cena cultural da cidade nos últimos trinta anos. Desde a época de bandas como Fluidos, Modus Vivendi e Canto Calismo, nos anos oitenta, até Alfândega, General Junkie, Flor Bela Espanca, Zaratustra, Cantus do Mangue, Deadly Fate, Jus Causae, Jane Fonda e tantos outros bons grupos na década seguinte, Natal viu bares, festivais e campus de universidades repletos de bandas novas, dos mais diferentes estilos, que já tocaram em rádios, apareceram em matérias de jornais, deram entrevistas em programas de televisão e até tiveram clipes reproduzidos pela MTV. É de Natal o Du Souto, uma das mais competentes e criativas bandas surgidas no Brasil na cena musical dos últimos anos, formada por músicos experientes como Paulo Souto e Gustavo Lamartine, egressos do antigo General Junkie, que já se apresentaram no programa do Jô Soares na Rede Globo e estão prestes a viajar em turnê internacional. Entretanto, pouca atenção eu dava para as novas bandas, de músicos com idade para serem meus filhos, até ter escutado o Far From Alaska.

O Far From Alaska em plena atividade.
Formado por Emmily Barreto nos vocais, Chris Botarelli nos teclados, Edu Filgueira no baixo, Rafael Brasil na guitarra e Lauro Kirsch na bateria, o grupo formado em Natal/RN foi fundado em 2012, lançando um EP chamado Stereochrome, que já deu boa repercussão para quem o escutou. Eles foram vencedores no mesmo ano de um festival, que lhes garantiu participar nacionalmente do Planeta Terra, grande evento televisionado, com bandas nacionais e internacionais, patrocinado entre outros por grandes companhias de telefonia como a Claro e a Vivo, realizado em São Paulo, e que contou, entre outras, com atrações como a famosa banda britânica dos anos noventa, Garbage. Conhecendo no backstage a carismática e simpática vocalista do grupo, Shirley Manson, os músicos potiguares conquistaram uma influente garota propaganda, pois ao escutar o som da banda, Manson divulgou o Far From Alaska nas redes sociais, catapultando a garotada a um automático estrelato pela internet. Do esforço de seus integrantes, surgiu dois anos depois seu primeiro álbum, disponibilizado para venda no I-Tunes, e com uma excelente resenha crítica na conceituada revista de música, Rolling Stone. Na Copa do Mundo deste ano, realizada no Brasil, e durante os jogos que ocorreram em Natal, os músicos também foram convidados para tocar na Fan Fest, e deram seu  recado como uma das mais promissoras novas bandas a surgir no horizonte do rock brasileiro nos últimos anos.

Shirley Manson: a musa do Garbage gostou do som da banda natalense.
É dum reducionismo extremo definir a banda de Natal como indie, apesar de ser esse o epíteto usado em muitos meios de comunicação para definir a sonoridade do grupo. No wikipédia é possível ver que o grupo é definido como uma banda meio stoner, meio hard rock. Eu diria que, antes de tudo, o Far from Alaska é uma excelente banda de rock, com todos os componentes que caracterizam o gênero. Está lá os vocais femininos bem definidos de Barreto, que às vezes faz recordar uma Joan Jett de um Runaways revivido, assim como as guitarras a la Black Sabbath de Rafael Brasil, a cozinha operada pela bateria competente de Kirch e o baixo encorpado e bem marcado de Filgueira. Valendo-se do uso de sintetizadores operados por Chris Botarelli, o grupo consegue fazer um som original, valendo-se de suas raízes rockeiras, mantendo uma alternância entre músicas ligeiras e outras mais viajantes, que combinam referências que vão do progressivo até o pós-punk. Optando por compor e cantar todas as suas músicas em inglês, o Far from Alaska não fez mais do que adotar a posição globalizada de fazer rock'n roll no idioma universal da terra de Shakespeare, que legou a humanidade outras feras da arte, como os Beatles, os Stones, The Who e Led Zeppellin, para ficar só por aí entre os clássicos do gênero. 

Lançado em julho de 2014, Modehuman é o primeiro álbum oficial da banda natalense,  combinando faixas já tocadas em Stereochrome com novas aquisições. Escutar esses garotos é uma experiência saborosa de ouvir, como se ainda fosse novidade, um bom e velho disco de rock. Impossível não balançar a cabeça ao som de Greyhound, um dos singles do disco, aliando a potência vocal de Miss Barreto com o peso dos instrumentos de seus companheiros de banda, que faria um vovô Tonny Iommi sorrir de gratidão, ouvindo o som de sua cadeira. Outra canção superlegal é Dino Vs Dino, uma divertida mistura de blues rasgado com hard rock, lembrando um pouco Queens of Stone Age, ótima para se tocar ao vivo. Só falta o Dave Grohl do Foo Fighters  aparecer para dar uma canja com a molecada! Mama segue a mesma pegada (o que talvez faça com que alguns críticos definam a banda como stoner). Agora talvez uma das grandes (e arriscadas)  experiências estéticas do grupo seja a canção-título de seu primeiro EP, Monochrome, um verdadeiro hino psicodélico, com direito a vários efeitos durante uma viagem sonora que ultrapassa os sete minutos de canção, combinando  em seu som a singeleza de grupos mais antigos como Yes, ao peso de nomes fortes do heavy metal recente, como Mastodon. Óbvio que, comercialmente falando, para se aventurar numa proposta de, já no primeiro disco, fazer uma música com mais de quatro minutos, os músicos tiveram que ter colhões (e saias) para isso. O que demonstra que, apesar de pouca idade, os jovens componentes do Far From Alaska revelaram ter sido bem produzidos, e confiaram na aposta de fazer um som que é, ao mesmo tempo, simples e adoravelmente complexo.

Aguardo ansiosamente os próximos capítulos da saga dos músicos natalenses do Far From Alaska. Creio que eles tem tudo para brilhar em outras paragens, valendo-se do inglês bem cantado que utilizam e da universalidade da linguagem do rock. Se, há mais de vinte anos antes, os mineiros do Sepultura conseguiram fazer quase o impossível, brilhando internacionalmente como banda de heavy metal, a ponto de ficarem situados no panteão das históricas bandas do gênero, na mesma posição de bandas como o Iron Maiden e Metallica, por que não investir no Far From Alaska como uma das futuras grandes bandas do novo milênio? Ora, para mim eles já conseguiram surpreender o Brasil, saindo da pitoresca Natal para ou ouvidos de gente como o pessoal do Garbage. Para conquistar o mundo agora, basta só mais um pouquinho de sorte e umas gotas de ambição, pois talento, eles já tem de sobra. Boa sorte, garotos!!



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RELIGIÃO E POLÍTICA: Os evangélicos e Israel (ou COMO A TRAGÉDIA PALESTINA SERVIU PARA DIVIDIR POLITICAMENTE ESQUERDA E DIREITA NO BRASIL)

A tragédia do povo palestino na Faixa de Gaza, refém da força bruta do Estado de Israel, infelizmente, não é novidade. Ao menos de cinco em cinco anos ou até menos vemos na TV a dura realidade do povo palestino, principalmente de suas crianças, dizimadas pela força militar israelense, a pretexto de combater militantes muçulmanos extremistas, que querem a todo custo a destruição de Israel.

Dessa vez, o pretexto do governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para invadir Gaza e dar um verdadeiro banho de sangue na região, foi o de combater os terroristas palestinos do Hamas, responsáveis pela morte de três adolescentes israelenses, sequestrados, assassinados e enterrados no deserto, após terem saído de uma aula de ensino religioso durante a noite. O crime em si foi bárbaro e brutal, mas a reação desproporcional de Israel encheu os olhos de quem viu incessantes bombardeios de mísseis oriundos de Israel, que destruíram bairros inteiros, hospitais, escolas, deixando um rastro de terror que pode ser visto à exaustão no Youtube, para quem tem estômago suficiente para ver isso. São corpos carbonizados, enterrados ou mutilados de crianças, velhos, mulheres, enfermos, numa contabilidade macabra da morte de mais de mil pessoas da população civil de Gaza, a pretexto de vingar a morte de três adolescentes. Será que matar mais de mil palestinos justifica a morte de três israelenses?

É claro que quem lê este blog e tem um posicionamento mais favorável a Israel vai achar que eu estou sendo parcial demais, e injusto em demasia com os israelenses, vendo apenas um lado da moeda. Soldados israelenses também foram mortos (muitos deles alvo de "fogo amigo", atingidos por balas ou morteiros do próprio exército israelense), e o Hamas também tem seu grau de responsabilidade nas mortes, pois, segundo o governo de Israel, a segurança e a vida de milhares de cidadãos israelenses encontra-se comprometida pelas bombas e mísseis lançados pelo grupo islâmico, através de esconderijos subterrâneos. Israel alega que está em guerra, e na guerra o objetivo é derrotar, aniquilando o inimigo. O problema é que desde a Convenção de Genebra, após a II Guerra Mundial, convencionou-se entre os povos que os ataques a população civil, além de intoleráveis, são verdadeiros crimes, cabendo a responsabilização dos governantes por crimes de guerra. Quem vai responsabilizar Netanyahou por esse massacre? Israel alega que o Hamas utiliza pessoas inocentes como escudos humanos, manipulando suas mentes a ponto de fazer com que elas sejam atingidas de propósito pelas armas de Israel, sob a alegação de que morrerão como mártires. De um lado e de outro judeus e muçulmanos procuram explicar o massacre, enquanto que na comunidade cristã também é possível ver quem adota uma posição mais favorável e outra mais contrária a Israel. Até que ponto pessoas com alguma fé religiosa ou posicionamento político irão compreender uma realidade tão caótica?

No Brasil, depois que começou a ação militar israelense e cenas horríveis de crianças mortas ou mutiladas apareceram na internet, as redes sociais, além dos meios de comunicação tradicionais como televisão, jornais e revistas mostraram o holocausto palestino, e a reprovação da comunidade internacional, inclusive dos Estados Unidos, aliado há décadas do governo de Israel. Entretanto, tanto no jornalismo da Nova Direita brasileira, bem como em segmentos religiosos conservadores, muitos identificados com o pentecostalismo, há uma defesa às vezes velada e muitas vezes aberta de Israel e seu povo. O debate, em pleno ano eleitoral, acabou dividindo esses segmentos num eleitorado de um lado mais à esquerda e governista (por conta da candidatura à reeleição da presidente Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores), e do outro lado um eleitorado de oposição mais vinculado às teses da direita (o neoliberalismo e o neoconservadorismo que estampa o candidato do PSDB, Aécio Neves, ou entre os candidatos nanicos, como o pastor Everaldo, do Partido Social Cristão: o mesmo do polêmico deputado evangélico Marco Feliciano). Crentes da Assembleia de Deus, bem como representantes da Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, também fazem uma defesa entusiasmada de Israel, condenando não apenas as ações do Hamas, mas também toda a crítica midiática que é feita ao governo israelense, por conta da ação atroz do exército israelense. Por que essa diferença política e religiosa?

O pentecostalismo, e, principalmente, o neopentecostalismo no Brasil, tem adotado uma posição teológica cada vez mais judaicizante, e a construção recente do Templo de Salomão, em São Paulo, pela Igreja Universal, e o novo visual adotado nas liturgias do culto e na aparência de seu principal líder, Edir Macedo, tem revelado que, por serem mais simpáticos ao Antigo Testamento do que outras denominações religiosas, os evangélicos pentecostais tem sido, naturalmente, mais favoráveis a Israel. O Antigo Testamento, seguido pelos judeus na forma da Torá, seu livro sagrado, ou Pentateuco, prega uma linha de conduta pessoal e coletiva mais moralmente conservadora e extremamente legalista. Como adeptos dessa religiosidade cristã tendem a ser mais fundamentalistas, os textos do Antigo Testamento que se referem a comportamento e costumes tendem a ser interpretados e cumpridos literalmente, ensejando em termos políticos um discurso mais ortodoxo e mais fechado às inovações progressistas pregadas pela esquerda, como, por exemplo, a legalização do aborto ou do casamento de pessoas do mesmo sexto, até a descriminalização do uso de determinadas substâncias, como a maconha. Além disso, diferentemente dos esquerdistas presentes no governo Dilma ou incrustados em legendas menores como o PSOL, muitos dos eleitores evangélicos pentecostais defendem um Estado mínimo, com severas críticas ao modelo econômico adotado pelo governo do PT, exigindo uma alternância de poder. Isso, somado à manifestação do governo brasileiro, que por meio de sua diplomacia, rechaçou a conduta do governo de Israel, não registrando em nenhuma vírgula as ações do Hamas, acabou por gerar a antipatia israelense, cujo porta-voz chegou a se reportar ao Brasil como um "anão diplomático".

Para o eleitorado evangélico e conservador que adota as teses da direita brasileira, como são avessos ao governo Dilma, é natural que endossem o entendimento de Israel, também estabelecendo críticas ao governo petista, bem como endossando todo o apoio a seu povo e as ações militares praticadas pelo governo israelense. Afinal, trata-se de proteger o povo escolhido por Deus, segundo a leitura do Antigo Testamento, e, afinal de contas, Jesus Cristo não tinha nascido judeu? Por essas e outras entende-se como muitos cristãos evangélicos avessos ao governo do PT defendem entusiasmadamente Israel, seu modelo de governo e seu modelo econômico neoliberal, enquanto os militantes das organizações de esquerda e o governo de Dilma repudiam a todo custo as ações de Israel. Como diria o finado pensador italiano, Norberto Bobbio, o horizonte da esquerda e da direita voltam a ser redefinidos em cada ciclo da histórica política dos povos.

Como democrata, respeito o posicionamento pró-Israel de boa parte da comunidade dos evangélicos, especialmente dos pentecostais que demonstram sua simpatia para com o povo judeu. Por outro lado, em nome da racionalidade e defendendo o fim da
barbárie, entendo também que tanto a extrema-direita israelense, encastelada no gabinete do primeiro-ministro Netanyahou, como os sanguinários e fanáticos militantes extremistas do Hamas devem ser severamente criticados e combatidos. A Autoridade Nacional Palestina, representada por seu chefe político, Mahomoud Abbas, bem como milhões de judeus e muçulmanos de bom senso de todo o planeta, são contrários à ação genocida do exército israelense na Faixa de Gaza, e pedem paz urgentemente, a fim de que mais crianças e inocentes não sejam mortos de maneira totalmente desnecessária. Creio que os cidadãos cristãos brasileiros devem voltar um pouco seus olhos para o Novo Testamento, onde Cristo prega o perdão, o amor ao próximo e a tolerância, e não o contrário, no que uma visão deturpada e fundamentalista do Velho Testamento possa levar a pensar diferente. Os palestinos que estão na Faixa de Gaza não são os cananeus que os israelitas, liderados por Josué dizimaram, na passagem bíblica que narra a Batalha de Jericó, e que é usada como referência pelos judeus fundamentalistas e pela extrema-direita israelense para justificar as atrocidades do exército de Israel, na chacina de mulheres e crianças palestinas. Se Deus tinha ordenado que seu povo destruísse os inimigos de Israel no Antigo Testamento, por que não agora também aqueles que querem atacar o Estado judaico não possam ser destruídos? É, definitivamente, uma forma muito tenebrosa de pensamento.

Todo o fundamentalismo religioso e radicalismo político é anticristão. Cuidado ao defender um governo que gosta de lançar bombas contra crianças, meus amigos pentecostais!!

terça-feira, 15 de julho de 2014

ESPORTE: A VIDA APÓS UM 7 x 1 E A CONSEQUENTE GERMANOMANIA NO POVO BRASILEIRO

Tenho 42 anos de existência, prestes a completar 43, e meu pai tem 70, prestes a completar seu septuagésimo primeiro ano de vida. Acredito que tanto as minhas ainda jovens quatro décadas, assim como o mais de meio século do meu pai, não viram algo tão aterrador no futebol brasileiro, tão inusitado, humilhante e vexatório do que ver a seleção brasileira perder em um Mundial pela goleada de sete gols a um. Foi exatamente isso que aconteceu, e vingou a humilhação dos anciãos ainda vivos, que presenciaram o Brasil ser humilhado pelo Uruguai na Copa de 1950, quando num Maracanã lotado perdemos em casa a final da Copa por 2 X 1. Ora, 2 X 1? Quem dera fosse um 2 X 1! Em menos de vinte minutos de jogo, vimos este ano o Brasil sofrer 5 gols da Alemanha (além dos dois gols a mais que viriam no segundo tempo) de Müller, Schewensteiger, Klose, Boateng  e mais uma dúzia de craques germânicos que representaram brilhantemente nesta Copa a vitoriosa nova geração do futebol alemão, que levou a taça de campeão do torneio, no último domingo, dia 13 de julho. Eles mereceram, numa data histórica em que derrotaram aos vinte e cinco minutos da prorrogação a Argentina, do craque Lionel Messi, com o gol salvador de Göetze. A Alemanha festeja agora não apenas o título mundial, mas também a consagração de ser o país  que possui,  hoje, o melhor futebol do mundo. Alguém se lembra que até poucos anos atrás esse título era do Brasil? Pois é, meus caros leitores! Não é mais!!

O dia 8 de julho de 2014 figurará na história nacional como o dia da infâmia. A goleada nas semifinais contra a Alemanha foi o nosso Pearl Harbor do futebol brasileiro, quando alemães, e não japoneses, invadiram os gramados brasileiros, como um panzer de chuteiras, uma blitzkrieg futebolística, montada pelo eficiente técnico, Joachim Löw, que estruturando uma equipe organizada, conseguiu fazer com que a terra de Wagner, Göethe, Heidegger, a banda de rock Scorpions e os neonazistas, conseguisse enfim o sonhado tetracampeonato que não vinha desde a Copa de 1990, e foi surrupiado dos germânicos em 2002, quando os alemães (lembram-se?) perderam de 2 X 0 para o Brasil de um redimido Ronaldo Nazário. Quem, maior de dezesseis anos, não se lembra do animado atleta dentuço, com penteado do personagem Cascão, da Turma da Mônica, que tirou o título dos alemães, evitando que eles se igualassem ao Brasil, levando a seleção canarinho a conquistar o pentacampeonato mundial no Japão?! Que bons tempos eram aqueles! Que saudade dos "4R" (Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho), o dream team que venceu todos os jogos de forma invicta, em campo nos 90 minutos de jogo, sem depender de disputa de pênaltis ou prorrogações. Infelizmente, o Brasil que encantou o mundo em 2002 foi o mesmo que o assustou, exatos 12 anos depois. O que aconteceu com a seleção brasileira? O que houve com o futebol ( e o orgulho) nacional?

Os meios de comunicação já exploraram à exaustão, na última semana, os motivos da derrocada no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, local da tragédia. Programas de TV fomentaram debates com jornalistas e ex-jogadores ou técnicos e especialistas sérios, no ESPN, FOX SPORTS, BAND SPORTS e SPORT TV, assim como em jornais impressos ou virtuais, colunistas de grosso calibre como Juca Kfouri comentaram a triste goleada brasileira e os motivos da seleção ter saído totalmente do prumo. O técnico Luiz Felipe Scolari e seus jogadores falaram inicialmente num apagão, num transe coletivo. Mas será que foi somente isso que justificou a seleção brasileira sofrer a mais grotesca e gigantesca goleada de seus 100 anos de história? É algo que ficará para sempre na memória visual e afetiva brasileira, quando pais e filhos choraram no estádio, enquanto outros riam ironicamente, vendo a desgraça da equipe de Neymar, David Luiz, o goleiro Júlio César e os demais. Ver tal jogo como eu vi (e gostaria de não ter visto) foi tão ruim, mas tão ruim, que imaginávamos, por um momento, que se tratava apenas de um pesadelo, uma alucinação decorrente do excesso de cerveja (servida à exaustão nessa Copa), ou simplesmente uma singela brincadeira. Não era, era realidade, e a seleção não apenas perdeu o título, como também perdeu toda sua credibilidade internacional.

Os erros que agora vem à tona apenas revelam a Matrix midiática que vivíamos nas vésperas do torneio em solo nacional. Escravos subjugados ideologicamente pela propaganda, tentávamos em nosso orgulho nacional achar que éramos invencíveis; pois, dizia a lógica fria das estatísticas, o retrospecto brasileiro era muito bom. Afinal, jogávamos em casa, tínhamos ganho anteriormente cinco torneios mundiais, tínhamos alguns dos melhores jogadores do mundo, muitos neófitos em Copas, mas jogando nos melhores clubes do mundo. Tínhamos Neymar, o novo gênio atacante, daqueles que surge de tempos em tempos na safra ininterrupta de craques nacionais. Ganhamos a Copa das Confederações no ano anterior, vencendo de goleada a favorita Espanha. O técnico escolhido para liderar o escrete canarinho era o mesmo da conquista do pentacampeonato, contando com grande apoio popular, escudado na comissão técnica por Carlos Alberto Parreira, técnico do tetracampeonato de 1994. Pelé ( e Deus ) era brasileiro. Então por que perdemos? Como tivemos um resultado negativo tão acachapante?

Posso listar um livro (dos muitos que ainda serão escritos pelos apaixonados por futebol) contendo a série de deficiências, falhas e incorreções da seleção brasileira neste Mundial, dedicando um capítulo inteiro a cada um desses temas. Deixo isso para os especialistas. Porém, dando minha contribuição para o debate nacional, manifestando aqui neste blog a minha opinião, creio que as mancadas apontadas acima podem ser definidas nos seguintes tópicos:

a) AUSÊNCIA DE ORGANIZAÇÃO TÁTICA: qualquer torcedor de futebol minimamente atento percebeu que, nesta Copa, a seleção brasileira demonstrou uma disciplina tática medonha, quase inexistente. O técnico Scolari montou uma equipe praticamente sem meio campo, apostando em volantes que levassem a bola diretamente da defesa para o ataque, em lançamentos longos, que quase nunca davam certo. A desorganização defensiva também era imensa, como se percebeu logo no primeiro jogo, contra a Croácia, estatisticamente um dos jogos mais fáceis para a seleção, que apesar de ter ganho de virada o jogo, demonstrou a inaptidão de alguns jogadores, perdidos numa formação em campo que deixava imensos furos e permitia até absurdos, como o gol contra do zagueiro Marcelo, logo no começo da partida, o primeiro do Brasil na história das Copas, e primeiro de muitos erros e mancadas que levariam à goleada final. No jogo da semifinal a goleada de sete gols germânicos foi possível, principalmente porque, além de não conseguir acompanhar os atacantes alemães, os jogadores brasileiros jogavam sem posição definida em campo, permitindo que o adversário avançasse continuamente e sem resistências. Um exemplo disso é que, mesmo com a presença de Neymar nas quartas de final, os dois gols decisivos brasileiros foram feitos contra a equipe da Colômbia por zagueiros, como Tiago Silva e David Luiz. Sem marcar devidamente por área ou pressão e sem armadores criativos no meio campo, não adiantava nada optar apenas pela força de jogadores como Hulk ou a velocidade de Jô ou Fernandinho. Deu no que deu!

b) POUCOS BONS E EXPERIENTES JOGADORES: a seleção de 2014 foi uma das que mais teve poucos jogadores experientes ou devidamente destacados em suas equipes de origem. Com exceção de Neymar (descoberto nas categorias de base do Santos e consagrado no time paulista, antes de ir para o Barcelona de Messi), nenhum dos outros jogadores tinha tanto brilho ou tanta experiência para ser escalado como membro da seleção brasileira. A aposta reiterada no goleiro Júlio César, que já atuou sem sucesso em duas Copas, quase em fim de carreira e jogando num inexpressivo time canadense, também demonstrou ser uma opção errada ou ao menos questionável. A comissão técnica brasileira nem quis apostar suas fichas em jogadores mais velhos e anteriormente consagrados, que atuaram em outras Copas como Kaká ou Ronaldinho Gaúcho, tidos como obsoletos, mas que ainda dominavam com brilho os fundamentos de meio campo. Na história da seleção brasileira, era comum o escrete canarinho ter ao menos dois atacantes de peso, harmonizados, que autocompletavam a jogada um do outro, como foi Pelé com Amarildo na Copa de 1958 ou Garrincha e Nilton Santos, na Copa do Chile de 1962, Pelé e Jairzinho na Copa de 1970, Zico e Sócrates na de 1982, Romário e Bebeto no tetracampeonato de 1994 ou Ronaldo e Rivaldo em 2002. Em 2014, isso não aconteceu, e  a aposta num contundido Fred, para dar apoio a Neymar no ataque, demonstrou ser mais bisonha do que errada. Fred teve uma atuação pouco menos que pífia e sua participação nos jogos da seleção durante a Copa chegou próxima do zero. Sem Neymar, o time praticamente desmantelou.

c) DEFICIÊNCIA  TÉCNICA DO TREINADOR: Luiz Felipe Scolari foi o responsável por uma das maiores glórias do futebol brasileiro quando em 2002 conquistou o quinto título mundial do Brasil, mas também será tristemente conhecido por eras como o técnico do fiasco de 2014. Logo após treinar a seleção de Portugal, na década passada, quando conquistou o vice-campeonato da Eurocopa, Felipão praticamente não teve mais relevância alguma como treinador nas equipes que treinou, e não conquistou mais nenhum título internacional. Seu retrospecto recente podia ser lembrado por ganhar a Copa do Brasil com o Palmeiras, levando o time paulista a Libertadores do ano seguinte, mas também sendo o responsável na mesma temporada pelo rebaixamento do time para segunda divisão. Antes de assumir a seleção brasileira como um presente da CBF, após  a péssima experiência da seleção com Mano Menezes (um novato em torneios internacionais), Felipão só tinha treinado a equipe do Uzbequistão. Como é? Onde? Isso mesmo, no Uzbequistão! Quem não sabe onde é o país que procure no google ou visite um mapa-mundi! Scolari revelou-se um técnico ultrapassado, com uma visão limitada (e até ignorante) sobre o futebol mundial, organizando uma equipe de maneira preguiçosa, desperdiçando treinos (diz-se maldosamente nas redes sociais que os jogadores e o treinador da seleção fizeram mais comerciais do que treinamentos), permitindo uma ingerência até mais do que indevida da imprensa (e dos olheiros adversários), sem se preocupar, efetivamente, em estudar a tática dos demais times. Felipão chegou a revelar em entrevista que desconhecia mesmo a organização dos times europeus, não obstante ter treinado (por um curtíssimo período) a equipe britânica do Chelsea, antes de ser demitido, sabe-se lá pelas dificuldades de se manifestar em inglês, seja porque a direção do clube não gostou do seu jeito turrão mesmo. Felipão é um treinador à moda antiga, que gosta de falar grosso em momentos de dificuldade, mas que procura agir como paizão durante as crises. Infelizmente, os jogadores da seleção brasileira precisavam menos de um pai e mais de um treinador durante os jogos da seleção, o que não aconteceu. Ele mesmo reconheceu ser o maior responsável pelo fracasso do seu time, mesmo que muitos se indaguem se seria diferente, caso o Brasil tivesse ganho o jogo com os alemães, ou tivesse perdido ao menos por uma margem pequena de gols. Acho difícil! O descontentamento com Felipão e sua equipe veio desde o primeiro jogo. A pior impressão é a primeira, que geralmente fica.

d) IMATURIDADE EMOCIONAL DA EQUIPE: Durante todo o torneio, a seleção canarinho demonstrou a fragilidade e carência emocional de seus jogadores. No jogo contra o Chile, nas oitavas de final, (o mais difícil da seleção antes do massacre alemão), o empate de um a um da partida inicial e o resultado que se manteve na prorrogação, obrigando a decisão por pênaltis, fez muitos jogadores chorarem. Dentre eles o goleiro Júlio César, que pôde ter se redimido do fracasso contra Holanda na derrota na África do Sul, quatro anos atrás, mas não sabia o que estava lhe esperando no jogo subsequente com os alemães. Além disso, outros jogadores como Tiago Silva, capitão do time (mas muito jovem para função), também demonstraram desequilíbrio emocional, quando se recusou a bater os pênaltis e ficou sentado em lágrimas, aguardando o final da disputa.  A imagem que ficou na imprensa internacional e nos times adversários, é que a seleção canarinho não passava de um bando de garotos assustados, que diante das adversidades comportavam-se como bebês chorões. Ora, jogadores são emotivos e choram quando ganham ou perdem uma partida difícil, mas chorar antes de dar um chute? Faça-me o favor!! Quando perdeu Neymar, seu melhor jogador, no jogo contra a Colômbia, na ocasião em que o zagueiro colombiano Zuñiga, acabou com as costas do atacante brasileiro, fraturando uma vértebra de sua coluna, parecia que um edifício tinha desabado sobre a seleção que perdeu seu astro, o principal referencial, a quem caberia carregar o time nas costas e efetuar os tão necessários gols que levariam o Brasil a final. No final do jogo anterior, pegando uma psicóloga de sopetão, chamada às pressas para trabalhar o emocional da equipe após o jogo com o Chile, revelou-se que a comissão técnica brasileira não procurou auxílio profissional adequado antes do início do torneio, e o que é pior: tudo indica que lidou com péssimos profissionais do ramo.

e) ARROGÂNCIA: pesou na seleção brasileira também a arrogância típica de uma comissão técnica e mesmo de parte da mídia que achava que, na condição de pentacampeões mundiais, não tínhamos que dar ouvidos a ninguém e tão somente confiar na força da esmagadora torcida nacional, que levaria naturalmente e com facilidade a seleção canarinho ao hexacampeonato. Ledo engano! A desgraça do Mineirão fez com que muitos não apenas acordassem, como outros passassem a cultivar o contrário: um sentimento de inferioridade que levou muitos, inclusive, a torcer pela seleção rival, autora da goleada, como muitos brasileiros que viraram, do dia para a noite, torcedores alemães. Não bastasse a memória de passarinho do torcedor brasileiro, ou mesmo sua alienação diante de uma realidade que lhe bate a porta (vide a edição deste ano da Taça Libertadores, sem nenhuma equipe brasileira disputando as semifinais do torneio continental), a arrogância brazuca foi seriamente fustigada pelos gols do artilheiro Müller e companhia. Nem o locutor Galvão Bueno, conhecidíssimo pelo bordão da torcida "Cala a boca, Galvão!", e pela sua predisposição de transformar uma narração de jogo numa peça de propaganda, não resistiu a débaclê da seleção brasileira, e anunciou, antes do sexto gol dos alemães no jogo das semifinais, que o futebol brasileiro estava acabado. Quem te viu, quem te vê! Há pelo menos um jogo antes, contra a Colômbia, Galvão falava, com o peito de pombo empolado, que a seleção brasileira era a melhor do mundo. Quanta hipocrisia! Quanta arrogância! Ao esquecer de mencionar o jogador Rivaldo dentre os grandes que outrora compuseram o histórico de glórias da seleção, Galvão acabou comprando com o ex-jogador uma briga nas redes sociais. Briga de cachorro grande, poderão alguns dizer. Briga de Vira-latas, se pensarmos que o brasileiro, com a derrota do dia 8, perdeu toda sua arrogância.

f) MÁ GESTÃO DO FUTEBOL NACIONAL PELOS SEUS DIRIGENTES: não é de hoje que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), dirigida outrora pelos controversos Ricardo Teixeira e José Maria Marin, é alvo de críticas da imprensa esportiva especializada, de jogadores e técnicos de futebol avessos ao aparelhismo e negociatas da entidade, bem como é objeto de desafeto do próprio governo federal. A CBF hoje é uma instituição vetusta, anacrônica, com dirigentes conservadores, portadores de uma visão ultrapassada sobre o futebol e gerenciamento de clubes. Fruto de uma gestão tosca, o futebol brasileiro não consegue se atualizar, atuando os clubes mais como máquinas de ganhar dinheiro, com a venda de jogadores para o exterior. A desumana rotina dos jogadores dos clubes brasileiros, obrigados a cumprir rotinas fisicamente extenuantes, como a participação em jogos no meio e no final de toda a semana, e o despropósito dos treinamentos entre competições nacionais e internacionais, apenas expõe a fase de uma corporação que funciona mais como empresa, do que como entidade representativa do futebol nacional. A ausência de compromisso e fiscalização da realização de campeonatos, além da falta de fiscalização no endividamento de clubes também demonstra o ambiente fisiológico e clientelista do órgão gestor máximo do esporte. Ao vir à tona as mazelas da entidade, não é de se espantar que muitos pensem que não seria diferente o destino da seleção brasileira e do futebol do Brasil, no vexame que se apresentou nesta Copa.

g) AUSÊNCIA DE RENOVAÇÃO: Além de não renovar a geração de jogadores, o futebol brasileiro não renova suas técnicas (consideradas por muitos como ultrapassadas). Não se joga mais o futebol bonito do tricampeonato e nem o futebol força ou pragmático, das Copas de 1994 e 2002. Perdido em sua deficiência técnica, o futebol brasileiro ainda não passou por uma revolução tática, principalmente pela resistência de técnicos e dirigentes, em aceitar treinadores de fora, como aconteceu com seleções de outros países, ou mesmo em modalidades esportivas diferentes, que encontraram seu eixo após anos de crise, como o voleibol. Pouquíssimos são os técnicos que vão se especializar fora, em estudos sobre o esporte na Europa, bem como não há no país investimento nas categorias de base, com exceção de poucos times, como o Santos. Além disso, o endividamento dos clubes não permite que jovens jogadores talentosos sejam mantidos no país, pois devem ser vendidos pelos seus clubes, a fim de pagar dívidas em salários atrasados de outros jogadores ou mesmo de um time inteiro, ou sirvam simplesmente para quitar débitos trabalhistas na Justiça. O fosso é imenso quando se pensa a realidade do futebol brasileiro e se vê a realidade de países de futebol forte e rico economicamente e taticamente, como Alemanha e Espanha. Se não quiser desaparecer, o futebol brasileiro necessitará se renovar.

h) UMA LEGISLAÇÃO QUE NÃO AJUDA: pra completar, a goleada do dia 8 de abril fez também se repensar a necessidade de uma reforma da legislação em vigor, em especial da Lei nº 9.615, de 1998,  conhecida como " Lei Pelé". Publicada na época com a intenção de democratizar o esporte brasileiro, com a inspiração fortemente neoliberal da época do governo do então presidente, Fernando Henrique Cardoso, a Lei Pelé transformou entidades esportivas e ligas em empresas, passando não mais as federações, mas sim empresários individuais, agenciadores de jogadores, a negociar contratos e a entrada e saída destes de clubes, transformando o futebol num grande negócio, praticamente sem intervenção estatal alguma, como bem defendiam os acólitos da ideologia liberal-capitalista. O prejuízo disso para o esporte é que, sem controle estatal, a vida de centenas de jovens e promissores novos jogadores passa a ser ditada pelas exigências do mercado, e não pelo que ele pode dar em prol de sua equipe ou seleção nacional. Ao transformar o futebol em moeda de troca, a legislação atual ignora o seu papel social, e de como a formação de equipes nacionais coesas depende em certo grau, pequeno mas ativo, de intervenção estatal.

Conseguimos demonstrar diante da derrota para os alemães que, inversamente a eles, não tínhamos nada que eles desenvolveram. A seleção alemã também passou por maus bocados na história do seu futebol, no fiasco da Eurocopa de 2000, e o fracasso do goleiro Oliver Khan nos pés do atacante Ronaldo na Copa de 2002. Algo precisava mudar por lá e efetivamente mudou. Com o protagonismo assumido por suas equipes nacionais nos mundiais interclubes, como os títulos do Bayern de Munique, por exemplo, na última década, o futebol alemão mostrou não apenas força, como também expressividade. Os caras simplesmente passaram a investir mais em suas categorias de base, inibiram a influência deletéria da cartolagem nas decisões sobre gestão do futebol, o Estado teve um papel interveniente, cobrando dos clubes incentivos à educação e formação de jovens atletas nas escolas, e uma legislação austera proibiu que times endividados participassem dos campeonatos, honrando os direitos trabalhistas dos jogadores. O futebol alemão, com seu choque de gestão e responsabilidade passou a ser adotado como modelo ideal. A tática de sua seleção, organizada muito mais em prol de um time e não de individualidades destacadas, também foi o diferencial, que superou, sobretudo, o esgotado modelo de futebol "tiki-taká", adotada pela derrotada seleção espanhola, campeã mundial de 2010, na África do Sul. Os alemães, definitivamente, tornarem-se os caras.

Esse padrão de excelência, como uma Mercedes ou um Wolkswagen de primeira qualidade, talvez justifique a atual germanomania que tomou conta de boa parte dos torcedores brasileiros. Para se ter uma ideia, no dia da final contra a Argentina, eu, torcedor dos argentinos (esquecendo a rivalidade com os portenhos, simplesmente pela paixão e homenagem ao futebol latino-americano), fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que, seja pela rivalidade com nossos hermanos vizinhos, seja pelo encantamento com a força e virilidade da equipe alemã, decidiu torcer pelos germânicos, assim como outrora torcia pela seleção brasileira. Tomou-me de espanto ver um pai de família, todo serelepe e pimpão ao lado do filho, ambos  vestidos com a camiseta da seleção alemã, torcendo pelos chucrutes como se ele mesmo estivesse na Bavária ou numa taberna de Munique, com direito a chope e salsichão. A imprensa argentina não perdoou essa inusitada adesão germânica do povo brasileiro, e no editorial do Olé, famosa revista esportiva do país, chegou-se a comentar que os torcedores brasileiros sofreriam de algum tipo de Síndrome de Estocolmo (aquela em que os aprisionados acabam se afeiçoando aos seus captores). Afinal de contas, como torcer por um time que na semana anterior lhe humilhou, impondo-lhe uma derrota de sete gols? Será que os torcedores brasileiros não saberiam o que significavam as palavras "orgulho" ou "dignidade"?

A verdade é que, com a derrota para os alemães nos apequenamos. Colocamos o rabo entre as pernas e vivemos a Síndrome do Vira-lata, que tão bem definiu no século passado o dramaturgo carioca Nelson Rodrigues. Em termos de futebol deixamos de ser reis, largamos o cetro da monarquia futebolística, e voltamos para a taba de nossos ancestrais, para nossa aldeia no meio da floresta, antes da chegada dos colonizadores. Outrora os ingleses, que no início do século passado inventaram o futebol e o trouxeram para essas paragens, agora foi a vez de nossos índios receberem os alemães, que ao invés de espelhos, trouxeram uma bola de futebol como objeto de troca. A alusão indigenista é tão forte e cabível que, no começo desta Copa, foi possível ver na imprensa imagens de alegres e sorridentes jogadores alemães, visitando uma aldeia indígena na Bahia, pintando-se e vestindo-se como índios numa cerimônia com direito a pajé; além de afagarem e brincarem com crianças carentes baianas, nas proximidades da hospedagem da seleção germânica, em território baiano. Parecia que os jogadores alemães vieram para cá apenas para fazer um passeio tropical, como efetivamente fizeram, ganhando uma Copa do mundo.  Dá até pra imaginar um deles sorrindo e dizendo: Alles Gutt, brasilianer!! Danke!! Obrigado pela hospitalidade. Foi muito bom golear vocês!!!

Agora, só nos resta lamber as feridas e seguir a vida que segue. Felipão não é mais o técnico da seleção brasileira. Muitos jogadores considerados vilões por sua pífia participação no torneio e péssimo estado físico, como Fred, não deverão mais estar na equipe nacional nos próximos meses e a CBF deverá ter um novo presidente em pouco tempo. São várias as especulações sobre o novo técnico, que pode até mesmo ser um estrangeiro (para arrepio dos futebolistas tradicionalistas e xenófobos), e que terá a incumbência não de vingar um vexame histórico, mas ao menos deixar uma equipe minimamente competitiva para a Copa América do ano que vem, no Chile, e as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Seria uma boa oportunidade para o Brasil curar o remorso e a ressaca de 2014, ganhando uma medalha de ouro olímpica para o futebol brasileiro, nunca antes conquistado, e que competiria finalmente com os dois títulos consecutivos da Argentina; agora, merecidamente, vice-campeã mundial. Só o tempo dirá qual será o futuro da seleção brasileira. O futuro a Deus pertence, mas compete ao povo brasileiro prepará-lo da melhor forma possível, cobrando responsabilidade de jogadores, treinadores, gestores e mesmo do Estado, na reformulação do futebol nacional. Temos que reaprender a jogar futebol. Caso contrário, veremos novas (e tristes) goleadas. PRA FRENTE, BRASIL!!


quarta-feira, 18 de junho de 2014

ENSINO: Notas sobre a mendicância estudantil

Quando o célebre pensador suíço, Jean Piaget, desenvolveu na década de 40 do século passado sua teoria dos estágios, ele defendeu que, no processo de aprendizagem de crianças, os professores deveriam estar preparados para os quatro estágios de desenvolvimento cognitivo humano: do sensorial, passando pelo pré-operatório até o operatório concreto e por fim o operatório formal. Isso significava, em síntese, que as crianças só estariam preparadas para aprender o que elas teriam condições de assimilar, conforme o estágio de evolução de sua aprendizagem. Acredito que isso esteja mais aplicado ao processo de educação de crianças e jovens, e menos em adultos; mas não descarto que, no que tange ao ensino superior, ainda existe todo um processo de descoberta cognitiva que pode ser impulsionado pelos professores, para que os alunos universitários (agora chamados de acadêmicos) possam também ter uma experiência educacional rica e que dê frutos positivos.

Em mais de dez anos de experiência docente no ensino superior, eu já vi diversas situações, mas, recorrentemente, sempre ao final de cada semestre, eu percebo tanto em instituições públicas quanto privadas a reiteração de um fenômeno que eu agora denomino figurativamente como "esmola acadêmica" ou "mendicância estudantil". Trata-se do expediente comum a alguns alunos (com a conivência de alguns professores), de se atribuir aleatoriamente notas, com aumento ou distorção das pontuações originais obtidas pelos alunos, para que os mesmos possam passar em determinada disciplina ou matéria. Eu chamo de esmola porque esses aumentos de nota sempre dizem respeito a décimos ou a um máximo de um ou dois pontos que são atribuídos a mais a determinados alunos, que geralmente chegam aos seus professores com alguma história triste, para justificar um desempenho acadêmico ruim. São desculpas e justificativas variadas, que vão desde motivos de doença pessoal ou em pessoa da família, viagens em serviço e atribulações de trabalho ou   até a perda de um emprego, o insucesso financeiro, o fim de um casamento, problemas com os filhos, a morte de um familiar ou até mesmo a perda de uma namorada.

Alguns professores, compadecidos com os problemas pessoais desses alunos, transigem e alteram suas notas. Alguns devem pensar: "Afinal de contas, isso não é nada demais, o que custa auxiliar o próximo num momento difícil!" (nesse momento, colegas professores optam pela saída cristã do problema); ou então se saem com a alternativa pragmática: "Tanto faz se eu aprovo ou reprovo ele por aqui, pois, no final das contas, quem vai reprovar a atuação dele é o mercado quando ele sair daqui, e não eu!". De qualquer forma, o efeito que isso produz no aluno que consegue escapar por pouco da arapuca do sistema educacional é geralmente sempre o mesmo: a sensação de que passou na matéria apenas por uma ajuda, uma "mãozinha" do professor. No sistema interno e semestral de avaliação de professores por alunos, principalmente nas instituições privadas, a impressão que fica é que os professores mais bem avaliados sempre são os mais "caridosos"; ou seja, aqueles que passam de qualquer jeito todos os seus alunos.

Ora, o sistema de avaliação brasileiro ainda segue, na maciça maioria de suas instituições de ensino, o anacrônico sistema de notas por pontos e não por conceitos. Geralmente os alunos são avaliados de 0 (zero) a 10 (dez) pontos, totalizando em testes escritos uma média suficiente para que sejam considerados aprovados. Numa sociedade capitalista onde prevalece o ideal liberal-individualista de sucesso por méritos próprios, o sistema de pontos reproduz a lógica individualista do Do it yourself, materializando-se na escola o que acontece nas relações econômicas, no tocante a livre iniciativa e livre concorrência. Na seleção natural das escolas somente os mais bem pontuados (os mais fortes) são aprovados, ocorrendo o mesmo fenômeno nos concursos para a obtenção de cargos públicos.

O método de ensino pregado por teóricos e professores como Piaget ou Paulo Freire levava em conta a participação do professor na vida do aluno, durante o processo de aprendizagem. Nada mais justo e interessante. O problema é que no modelo do ensino superior brasileiro, principalmente no que tange ao ensino noturno (por si só uma verdadeira aberração pedagógica, porque ninguém deveria ser obrigado a vir estudar de noite), essa participação docente é quase impossível, uma vez que as cargas horárias das disciplinas são limitadas, o tempo que o aluno tem com o professor é exíguo fora de sala de aula, e por mais que o professor faça atividades que despertem o aluno cognitivamente, ainda existe a barreira biológica do stress e do cansaço a que estão submetidos milhares de estudantes de faculdades e universidades com cursos noturnos no Brasil; pois são eles majoritariamente trabalhadores subalternos do setor privado ou funcionários públicos de cargos modestos ou de baixo escalão. São homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras que chegam muitas vezes cansados em sala de aula, e se não dormem durante a aula não conseguem de outra forma interagir com seus professores. Como resolver isso?

Em seu livro "Pensando o ensino do direito no século XXI", o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Horácio Wanderley Rodrigues, propõe um método de avaliação que leve em conta o discernimento e a capacidade do aluno de solucionar problemas e tomar decisões, assim como fazem os membros da comunidade jurídica, nos estudos de casos levados ao conhecimento de juízes, promotores e advogados. O problema é que, muitas vezes, os alunos nas instituições de ensino não conseguem se comportar como juristas, e muitas vezes, não tem sequer o que Piaget define como uma aptidão cognitiva para desenvolver uma experiência sensorial que lhe dê a ideia de algo. Traduzindo em simples palavras eu diria que o estudante de Direito não sabe que é estudante de Direito. O Zé, a Maria, a Raimunda ou o Joaquim que trabalha durante o dia na loja, na repartição, no banco ou no supermercado, não consegue à noite, na sala de aula, transformar-se no acadêmico que tem diante de si casos e soluções jurídicas que precisam ser adotadas por um futuro protagonista do Direito. Na verdade, na sala de aula, no lugar de estudantes de Direito, o professor tem diante de si o mesmo Zé da loja, a Maria da repartição, a Raimunda do banco ou o Joaquim do supermercado, e com eles, todos os problemas que eles trazem consigo como repertório pessoal e que levam para a aula, atrapalhando o seu processo de aprendizagem.

Sou totalmente favorável a um sistema de avaliação que não se limite a apreciação do rendimento acadêmico do aluno baseado tão somente em pontos atribuídos a um teste escrito, como um exame simulado da Ordem dos Advogados ou uma cópia de prova em concurso público. Acredito que a participação em seminários, o debate em sala de estudo de casos, a redação de peças escritas em exercícios práticos, a resenha de livros e a feitura de artigos ou projetos supre bem as deficiências cognitivas de quem quer realmente se dedicar ao estudo de temas jurídicos e ser um futuro profissional do Direito ou das Ciências Humanas com uma boa e sólida formação intelectual. Porém, eu alerto para os obstáculos traçados acima, principalmente no que diz respeito ao perfil social e cultural dos estudantes que chegam aos milhares, todos os semestres, nas portas das faculdades pelo Brasil afora.

Temos o desafio como educadores de transformarmos milhares de Josés e Raimundas em verdadeiros "Doutores Josés ou Doutoras Raimundas". Para isso, é necessário que uma barreira cultural aparentemente intransponível seja superada pelos professores universitários diante de seus alunos nas faculdades de Direito. A superação de papeis sociais estigmatizados e interiorizados por alunos no momento em que entram no ensino superior, que os leva a uma conduta de submissão não apenas econômica, mas também existencial (alguns na sociologia chamam isso de biopoder), limitando seus processos de aprendizagem, a ponto dos alunos ingressarem num curso tão importante como um curso jurídico com o comportamento de quem está ali fazendo apenas um passeio, ou lidando com tipos exóticos de paletó e gravata, tão diferente dos tipos que eles encontram na realidade do seu dia a dia.

Tal dilema, a meu ver, só poderá ser inicialmente concretizado se conseguirmos, como educadores, formular através dos textos de estudo não apenas um aprendizado, mas também um convite. Alunos devem ser convidados a serem acadêmicos, a fazerem parte do riquíssimo universo cognitivo das ciências humanas, dentre elas o Direito, seja mediante atividades de pesquisa e de campo, estudo de casos, e, principalmente, o desenvolvimento de uma relação afetiva com a biblioteca. Os livros devem ser vistos não como obstáculos, mas sim como artefatos sedutores de uma gama de conhecimentos que podem ser descobertos, numa experiência prazerosa em que a sala da biblioteca deixa de ser um ambiente frio e anódino, por conta do ar condicionado ou o mofo de papeis e jornais, e passe a ser um ambiente onde a responsabilidade da aprendizagem a ser cobrada através da avaliação não seja vista como um fardo, mas uma conquista. Obviamente que, nesse sentido, só será possível operar com tais transformações se as instituições dispuseram de uma estrutura física e material mínima, além de um pessoal devidamente habilitado, que tenha condições de conduzir o aluno convidado ao conhecimento, durante sua caminhada de descoberta.

Acredito que somente através da aprendizagem alunos se tornem autossuficientes a ponto de preservarem a autoestima e superarem os problemas pessoais, não deixando que eles atrapalhem ou confundam sua vida acadêmica. Como um Demiurgo, no processo de aprendizagem o professor atua numa construção de mundos, onde o mundo do Zé ou da Maria não é mais o mundo da família ou do ambiente de trabalho, mas sim o mundo acadêmico. Eles tem que saber que esse mundo existe e qual é o seu papel nele. Somente assim, creio, poderemos superar o triste e constrangedor fenômeno da "mendicância estudantil" que aparece em todo final de semestre, após o processo de avaliação, quando estudantes chorosos, com um olhar pedinte, que lembra o personagem do Gato de Botas dos filmes do Shrek, aparecem implorando para ser passados em uma disciplina. Enfim, o estudante deveria se lembrar sempre do adágio popular ao assumir uma posição de pedinte diante de seus professores: "esmola demais o cego desconfia". Ao invés de esmolas de pontos, vamos dar conhecimento aos nossos alunos!!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

ESPORTE: VAI TER COPA....SERÁ QUE DO JEITO QUE IMAGINAMOS?

Após vinte e quatro horas chegamos a mais uma data histórica para o esporte mundial: dia 12 de junho 2014, o dia dos Namorados, mas também o dia onde, após 64 anos, temos novamente uma Copa do Mundo no Brasil e em 24 anos um novo evento desse tipo na América Latina (o último Mundial num país latino-americano foi no México, em 1986). De lá pra cá muita coisa mudou, obviamente. Se há 60 anos atrás tínhamos no pós-guerra uma geopolítica dividida entre dois grandes blocos econômicos e políticos (o capitalista, liderado pelos Estados Unidos e o socialista, sob o comando da hoje extinta União Soviética), o que temos hoje é um mercado capitalista global que passa pela terra dos yankees de Obama, atravessa a União Europeia, formada pela maioria dos países que participam do torneio mundial, até a Rússia de Putin, não obstante a crise na Ucrânia e a ocupação da Crimeia pelos russos lembrar um pouco o clima de "Guerra Fria" de décadas atrás. Na verdade, em termos econômicos o futebol mudou muito, tornando-se de esporte uma empresa. Se, na Copa de 1950, quando os jovens brasileiros da época do meu pai, choraram o "Maracanazzo" na final conquistada pelo Uruguai, os jogadores pobres e semiprofissionais das equipes de várzea ou clubes pequenos daquela época, que amargaram a perda do título, hoje foram substituídos pelos milionários jogadores de times galácticos e europeus como Neymar e Messi, pertencentes a clubes europeus bilionários e estrondosamente bem sucedidos no futebol mundial.

Independente da época,seleção é sempre seleção!
A Copa do Mundo hoje é, acima de tudo, um grande negócio. E como negócio que mexe com milhões de dólares e patrocinadores, sua instituição-mor, a FIFA, avança em cada país sede de um evento tão importante, voraz como um enxame de gafanhotos. Assim foi na África do Sul, há quatro anos atrás, e está sendo no Brasil de agora. O traço em comum ao se tratar de eventos mundiais comuns, nestas duas nações emergentes (outrora denominadas de subdesenvolvidas), é que, tanto em cidades como Brasília, São Paulo e Curitiba, quanto em Pretória, Johanesburgo ou Cidade do Cabo, os jogos se iniciaram com obras inacabadas, uma crítica pesada por parte da população aos gastos do evento e movimentos sociais de protesto que geraram nas redes sociais o famoso hashtag: #nãovaitercopa. 

Marcelo foi o responsável pelo primeiro gol contra do Brasil da história
Na verdade terá Copa, e para a presidente brasileira, Dilma Roussef, essa será a "Copa das Copas". Afinal de contas, nunca antes na história dos países que participaram desses torneios mundiais, a equipe anfitriã do evento foi tão favorita e com um retrospecto tão bom de títulos e partidas. A "seleção canarinho", como é conhecida a equipe brasileira liderada pelo técnico, Luiz Felipe Scollari, conta com a responsabilidade de ganhar o torneio não apenas por ter em seu plantel alguns dos melhores jogadores do mundo, mas também por ser a única das equipes de todos os 32 países que disputam o torneio a ter participado de todas as Copas, ter ganho cinco títulos, e ser a única que ergueu o troféu de campeão nos quatro continentes: 1958 na Europa com a Copa da Suécia; 1962 na América do Sul ao vencer o torneio no Chile; em 1970 e 1994 na América do Norte, ao ganhar, respectivamente, o tri e o tetracampeonato nas Copas do México e dos Estados Unidos; e em 2002, no Japão, quando o país foi novamente campeão na final disputada contra a Alemanha, graças aos chutes potentes de um recuperado e renovado "Ronaldo Fenômeno" no auge da forma, e os vacilos no gol do até então imbatível goleiro alemão, Oliver Khan. Todos os brasileiros sabem disso, o técnico e toda a equipe da seleção sabem disso, e os adversários também!

Nas ruas,apesar da Copa,os protestos continuam!!
Entretanto, esta também será a Copa dos protestos e das críticas aos desmandos da FIFA, a desorganização dos governos estaduais e municipais ao realizar obras de mobilidade urbana inacabadas e malfeitas e os gastos exacerbados para se realizar um Mundial no Brasil, num país com tantas dificuldades de infraestrutura em áreas chave, como nos serviços públicos de saúde, segurança, transporte e bem-estar social. A Copa no Brasil serve para mostrar o país ao mundo, não apenas nos festejos de seus sorridentes torcedores, em paisagens de praias paradisíacas, vestidos de verde e amarelo, mas também na revolta violenta dos ativistas a fomentar o caos urbano, nas suas versões mais comportadas de militantes sindicalistas ou estudantis, protestando como nunca pelas ruas, ou na sua versão mais hardcore, através dos mascarados vestidos de preto, a jogar coquetéis Molotov na polícia, no estilo black bloc. É uma Copa do Mundo que antecede o período eleitoral, e que pode significar o fim do predomínio petista de poder após 12 anos, desde a eleição de Lula em 2002, e uma volta ao neoliberalismo tucano do PSDB de Aécio Neves,  ou pode implicar na opção por uma terceira via, liderada pelo ex-governador pernambucano Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, ladeado pela ex-senadora e líder ambientalista, Marina Silva.

Se em 94 tínhamos Romário e 2002 Ronaldo, 2014 agora é Neymar!!
O Brasil já entrou em campo neste dia 12 com uma vitória consistente sobre o time da Croácia., num destacado 3 X 1 para os brasileiros. Algo tão esperado que se tornou até enfadonho. A novidade mesmo foi o gol contra, no início do jogo, cometido pelo lateral-esquerdo Marcelo (o primeiro gol contra do Brasil em 84 anos de história das Copas), que por alguns instantes ameaçava estragar a festa brasileira, que finalmente explodiu em grito e coro nas arquibancadas do Itaquerão e no país inteiro, quando Neymar marcou o primeiro de uma série de futuros gols que poderá dar nesta Copa, mostrando porque ele é um jogador tão fundamental para que o Brasil ganhe o torneio. Afinal, foi através do protagonismo de Neymar no restante da partida, fazendo os dois gols que selaram a história do jogo, é que ficou marcada  qual  será a realidade da seleção brasileira nos próximos desafios do torneio (além de severas críticas à leniência da arbitragem). Muitos esperam que essa Copa não seja a Copa do "arrumadinho", como muitos caracterizam a Copa de 1978, na Argentina, quando em plena ditadura de Videla, os argentinos foram campeões contra a Holanda, sob a acusação da seleção peruana ter facilitado a vida dos argentinos, ao ser eliminada por goleada nas semifinais. Espera-se que, para evitar um novo Maracanazzo, a seleção brasileira conquiste a taça com seu esforço próprio e não com o apelo dos governantes. É isso que não só os torcedores brasileiros, mas os amantes do futebol querem para essa Copa.

Estamos contigo, Felipão!!
Não sou daqueles de torcer pelo fracasso brasileiro no torneio, e nem também sou um dos torcedores mais entusiasmados. Na verdade, como amante de futebol, alegra-me ver belas partidas, com jogadores tão famosos e habilidosos, de diversas partes do mundo, dando um verdadeiro show nos gramados, numa apoteose catártica da multidão que lembra os anfiteatros romanos. Entretanto, ser entusiasta da seleção brasileira não significa estar cego aos problemas nacionais ou ser conivente com a roubalheira, desvios e equívocos dos governos, a nível federal, estadual e municipal. Fazendo um jogo duplo, mas eticamente aceito, eu fico dos dois lados da cancela: seja apoiando os torcedores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, que de forma verdadeiramente apaixonada estão defendendo seu time e pátria de coração aberto; assim como estou junto e solidário aos manifestantes que estão fora dos estádios, protestando contra as injustiças sociais, dotados de plena razão.  Nesta Copa não me vestirei de verde e amarelo, pois meu coração já é assim; mas com certeza estarei torcendo não somente pela seleção canarinho, mas também estarei torcendo por um Brasil melhor. Pra frente, Brasil!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

HOMENAGEM: Marinho Chagas-O craque que preferia andar descalço pela Praia do Meio

Na madrugada do domingo, dia 1º de junho de 2014, há exatos doze dias do início da Copa do Mundo no Brasil, após mais de sessenta anos, não só o país, mas também o mundo perdeu mais um de seus eternos craques: morreu Marinho Chagas!

Na seleção, ele foi o cara.
Para os mais jovens que sequer o conheceram, Marinho para muitos se tornou uma lenda. Ele era o maior lateral esquerdo que a história do futebol brasileiro já conheceu, nos anos setenta do século passado, e jogou como titular da seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974, quando se destacou no torneio, marcando quatro gols. Entretanto,  o Brasil acabou vencido nas semifinais pela Holanda  e acabou ganhando apenas o 4º lugar. O popular camisa 6 ainda marcou sua participação histórica no torneio por um lance polêmico, quando então brigou nos vestiários com o furibundo goleiro, Emerson Leão, após a derrota para os poloneses, do craque da época, o jogador Lato. Nessa época, a fama de jogador indisciplinado, mas talentoso, já corria solto nas jornais da crônica esportiva da época. Mas se não fosse louco, meio indisciplinado, não seria Marinho. Assim como Romário foi nosso bad boy dos anos noventa, Marinho era o encrenqueiro sedutor e goleador ágil das décadas anteriores. Para muitos um ídolo, mas para outros, nunca foi reconhecido devidamente.

Com a camisa do Botafogo, ele foi ídolo.
Francisco das Chagas Marinho nasceu em Natal, no bairro do Alecrim, em 8 de fevereiro de 1952. Tinha nascido pouco tempo depois do Maracanazzo, a histórica derrota da seleção canarinho no final do torneio, tombando diante do Uruguai, do artilheiro Obdúlio Varela, naquele que seria o segundo e último título mundial da Celeste. Iniciando sua carreira no minúsculo ABC, time local de sua região, tradicional campeão potiguar, que cresceu e hoje duela com outros times nacionais o G4 da Série B do Campeonato Brasileiro, Marinho jogou também no Náutico de Pernambuco, mas sua estrela foi brilhar mesmo junto a estrela solitária do meu Glorioso Botafogo, do Rio de Janeiro, onde ele se tornou um dos grandes craques. Intuitivo, Marinho era o tipo do lateral muito comum hoje em dia, mas raro em sua época, que não se limitava à defesa de sua posição, partindo para o ataque, assim como fez seu antecessor, Nilton Santos, outro ídolo botafoguense e da seleção brasileira, campeão em 1958. Apelidado de "Bruxa" pela torcida, por conta do longo cabelo loiro, despenteado, ou de "Canhão Nordestino" pela potência de seu chute, Marinho ficou no time alvinegro carioca por cerca de quatro temporadas. Não demorou para que o estilo de Marinho chamasse a atenção do técnico Zagallo, outro botafoguense fanático, que sabendo da fama do lateral no time carioca, decidiu convocá-lo para a seleção brasileira.

Em plena Copa do Mundo, contra a Polônia.
Mas foi a Copa de 1974 que deu fama e celebridade eterna a Marinho. Eleito um dos melhores jogadores do torneio, apesar do Brasil não ter conquistado o esperado tetracampeonato, Marinho cultivou a fama como todo jogador deslumbrado, nordestino e de origem pobre, que quando ganhou se torna um astro, passa a conviver com o melhor e o pior do sucesso, vivendo um ciclo inevitável de apogeu e decadência. Marinho ficou milionário com os contratos que passou a firmar com clubes famosos, disputou inúmeros torneios nacionais e internacionais, viajou muito, adquiriu bens, comprou carros e imóveis, e saiu com algumas das mulheres mais bonitas do mundo. Nos anos setenta, onde a moda pós-hippie era usar cabelo grande, calça boca de sino, fumar cigarro Continental e andar de Maverick, ao som de Rolling Stones (no auge naquela época) e Roberto Carlos, Marinho Chagas foi o estereótipo do bon vivant. Antes de Romário ou Adriano, ou das farras dos jogadores pagodeiros de hoje em dia, Marinho já tinha seu histórico de drogas, (muito) sexo e rock'n roll. Junto com a fama e os chutes vieram carreiras e carreiras de cocaína, nos embalos de sábado à noite que pareciam não ter fim, e nas baladas veio o álcool, muito álcool.

Marinho envelhecido, mas em uma de suas fases mais saudáveis.
Talvez o álcool tenha sido o grande vilão na história da "Bruxa" potiguar; ou, ao menos, o fator crucial para que sua vida se abreviasse no último final de semana, aos 62 anos, completados em fevereiro deste ano. Marinho não escondia de ninguém o seu vício, e mesmo sua família já estava acostumada aquele tipo  atlético que foi ficando esquálido com o passar do tempo, devido a doses cavalares diárias de bebida alcoólica. Assim como Garrincha, Marinho encontrou seu fim na garrafa, e se as complicações de tantos anos de alcoolismo não comprometessem seu organismo, a ponto de ele morrer por hemorragia intestinal, após passar mal em um evento de figurinhas da Copa, com certeza a cachaça o teria destruído de outra forma, fisicamente e moralmente. O Marinho, que turistas ou moradores da cidade de Natal viam nos últimos anos, era um Marinho bem diferente do sedutor lateral loiro da década de setenta. Mas com seu alcoolismo, Marinho era feliz do seu jeito. Recordo-me de uma das últimas imagens que tenho dele é ao passar pela Praia da Redinha, e vê-lo caminhando calmamente, passo trôpego e sem camisa pelo calçadão da praia, a pele branca e enrrugada avermelhada pela ação inclemente do sol e a aparência de quem era a sombra do que já foi. Marinho não queria mansões, mulheres ou carrões no seu fim de vida como jogador. Para ele bastava a areia quente e fofa da Redinha ou da Praia do Meio, seus lugares prediletos. Para ele bastava ser aquele garoto do bairro do Alecrim que gostava de ir a praia, e um dia descobria que podia rodar o mundo com seu talento.

Na época do Cosmos, em que ele estava no auge.
Marinho Chagas ainda jogou nos Estados Unidos, no Cosmos, junto com Pelé, além do Augsburg da Alemanha, o Fluminense e o São Paulo, quando encerrou a carreira, em 1988. Em todos os seus times ele deixou sua marca de gols, o carisma e uma profunda irreverência. Ficou para a história o lance em treinamento em que Marinho deu um "chapéu" no próprio Rei Pelé, com um sorriso maroto, como que dizendo: "no campo todo mundo é igual". Sem fazer a menor questão de aparecer, Marinho apareceu muito, e se tornou a idílica cara do futebolista de sua época. Porém, engana-se quem pensa
que Marinho tornou-se mais um daqueles jogadores ricaços, empreendedores, que a exemplo de Pelé construíram toda uma imagem e um patrimônio empresarial com base na carreira bem sucedida que tiveram como jogadores. Marinho está mais para outro gênio que sucumbiu a ignorância quase inocente sobre seus próprios vícios: Garrincha. Assim como Mané, o gênio das pernas tortas, terminou a carreira na decadência do alcoolismo, ou acabou sofrendo com os efeitos deletérios da bebida, como Sócrates, Marinho também perdeu a vida pelo resultado de anos e mais anos de birita. Mas seu alcoolismo tem algo de romântico, se é que alguém consegue conceber um vício dessa forma, sem apresentar asco, ojeriza ou ferir algum imperativo moral. Digo isso porque, apesar da bebida, Marinho simplesmente morreu fazendo as coisas que gostava, na cidade que nasceu e amava e foi reverenciado como o ídolo que sempre foi, ao ser descoberto nos gramados.


A capa do Novo Jornal, no dia  de sua morte.


Irrita-me, portanto, ouvir alguns dizerem que Marinho não passava de um bêbado, e seu nome só voltou a ser lembrado depois que morreu, como acontece com qualquer celebridade. Apesar do fantasma do alcoolismo a sempre espreitá-lo como a sombra fantasmagórica da morte, nos últimos anos, com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil, Marinho Chagas passou a ser redescoberto e seu trabalho relido. Ele viu a construção de uma estátua em sua homenagem, virou comentarista da versão local do canal Band Sports, era chamado para eventos, onde se falava de futebol e da contribuição histórica que deram ele e outros craques. Afinal, foi num evento de figurinhas da Copa do Mundo que Marinho assumiu sua última função prazerosa em torno do esporte, antes de passar mal e vir a morrer no hospital. Acima de tudo, Marinho percebia que era querido, e morreu sendo querido.

Lembro-me da última recordação vívida que tenho de Marinho, das diversas vezes que eu saía para trabalhar e passava em meu trajeto pela Avenida Café Filho, na Praia do Meio. Numa dessas andanças avistei Marinho Chagas caminhando, de óculos escuros, com a camisa retirada e guardada acima do ombro, apenas de bermuda e de pés descalços na calçada quente, da orla da praia ao meio dia. Sua pele, pálida mas avermelhada e enrugada, surrada pelo sol, combinava com os velhos cabelos loiros desgrenhados, demonstrando um senhor de meia idade em fim de festa, aposentado, mas vivendo dos feitos do passado. Sei do relato de outro amigo que me disse que uma das diversões de Marinho era pescar peixinhos na praia para seu aquário, caminhando pelo calçadão com um saco plástico cheio de água, repleto de pequenos e coloridos peixes. Não era de carros, iates, mulheres bonitas ou mansões de que gostava Marinho Chagas. Marinho gostava mesmo era de perambular, tomando sua cachaça e pescando seus peixes, nas praias do Meio ou da Redinha.

Tchauuuu, Marinho!!
Que me fique na memória, portanto, não aquele jogador pujante, cuja imagem já está marcada no imaginário de milhares de amantes do futebol, e registrada como uma das mais belas páginas da história do esporte. Por conta disso Marinho já está consagrado. Para mim, ao menos nesse texto, que fique na minha lembrança aquele senhor de meia idade loiro, de pele avermelhada de sol e enrugado, que gostava mesmo era de caminhar pela praia, tomando sua caninha. Que pena que ele não viveu suficiente para ver a Copa do Mundo ser realizada em sua própria terra natal. Descanse em paz, Marinho Chagas!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?