segunda-feira, 29 de agosto de 2016

ARTIGO: Se o marxismo é o ópio dos intelectuais, o capitalismo é a cocaína dos neoliberais!

Recentemente foi relançada  a grande obra "O Ópio dos Intelectuais", do célebre sociólogo francês do século XX, Raymond Aron (1905-1983). No livro, escrito originalmente em 1955, Aron expõe nas entrelinhas porque rompeu com grandes intelectuais de sua época, como Sartre e Merleau-Ponty, e sob o pressuposto de denunciar os abusos totalitários do stalinismo e diante da adesão de muitos pensadores europeus ao chamado eurocomunismo, ele tentou dissecar os porquês da simpatia de boa parte da academia e do segmento universitário às posições políticas de esquerda.

Antes de ser um crítico da esquerda, Aron era um crítico do marxismo, principalmente na sua forma mais partidarizada e autoritária, representada pelo Partido Comunista Soviético e seus métodos de recrutamento, baseado num stalinismo que identificava a luta de classes como uma verdadeira crença religiosa a ser seguida, e a vanguarda revolucionária, representada pelo partido, como os santos da Revolução proletária. O livro foi publicado, antes da descrição dos crimes praticados durante o regime totalitário de Stalin, na União Soviética, por seu sucessor, Nikita Kruschev, no XXII Congresso do Partido Comunista, e parecia ter um tom premonitório: os comunistas eram os inimigos da democracia. Só que, aqueles que hoje reeditam e propagandeiam sua obra, na tentativa de criticar duramente todos os que assumem posições políticas de esquerda, esquecem-se da conjuntura e do todo o contexto político global em que foi publicada a obra do pensador francês, bem diferente dos dias globalizados de hoje.

Na época de Raymond Aron, os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, estavam no apogeu da "Guerra Fria"; período conhecido nos livros de história como o de uma tensão geopolítica constante, de conquistas de territórios, por meio da revolução, da contrarrevolução, espionagem e fomento de conflitos, competição desmedida, e, principalmente, da propaganda entre dois mundos ideológicos gravitados em torno de nações com visões de mundo e sociedade totalmente diversas. Como peças em um tabuleiro, as nações do planeta, inclusive o Brasil, viam-se disputados por esses dois grandes grupos, que como num jogo de futebol, representavam, de um lado, o "império do mal" comunista, pintado nas cores totalitárias do stalinismo, ou o "reino da liberdade" capitalista dos norte-americanos, da riqueza, democracia e do livre consumo dependendo do ponto de vista e posição política adotados.

Entretanto, apesar de diagnosticar com sensatez e acuidade histórica todos os abusos do sovietismo, e denunciar as revoluções populares que desaguaram em ditaduras, como o caso emblemático de Cuba e da própria União Soviética, creio que Aron peca, principalmente, por uma falta de honestidade intelectual, como pensador de seu tempo. É inquestionável que a intensidade das paixões políticas do século XX, fermentadas por ideologias, serviu para um certo emburrecimento, quando não uma cegueira de boa parte da comunidade acadêmica internacional. A esquerda militante classista, inspirada em grandes líderes de seu tempo, como Stalin na Rússia, Mao-Tsé-Tung na China, Fidel Castro em Cuba ou Ho-Chi-Min, no Vietnã, viu o sonho de uma sociedade mais justa terminar sob a bota de tiranos, na formação de ditaduras que eram somente engrenagens opressoras de um partido sobre o povo, e não do proletariado sobre seus algozes. No Brasil, durante décadas, Luiz Carlos Prestes foi a expressão mais imediata do líder político da vanguarda, que, como um grande timoneiro, conduziria a classe operária ao paraíso do fim da opressão burguesa-industrial. A História mostrou um resultado diferente, é verdade, mas a direita conservadora ou neoliberal, também teve seus ídolos, que também fracassaram na tarefa de conduzir uma sociedade de "homens livres" à glória da acumulação individual de capital, no reino da felicidade do mercado. Seus ícones como Ronald Reagan, nos Estados Unidos da América, Margareth Thatcher, na Inglaterra, ou Jacques Chirac, na França, não conseguiram demonstrar que os sistemas que defendiam eram melhores, seja pela intensa desigualdade social que criaram e mantiveram (a greve dos mineradores contra o governo Thatcher, na Grã Bretanha, foi um exemplo disso), seja pelos governos autoritários que respaldaram, financiando ditaduras militares e grupos contrarrevolucionários somente para desestabilizar (ou até mesmo destruir) governos de esquerda, democraticamente eleitos, nos países latino-americanos e africanos, como foi o caso do financiamento do sangrento golpe no Chile, em 1973, com a deposição e morte do presidente democraticamente eleito, o socialista Salvador Allende, e ascensão do ditador Augusto Pinochet.

Para mim, a principal observação que faço à crítica de Aron é que, em sua preocupação de querer parecer um brasileiro instruído, militante político tucano de classe média supostamente "em cima do muro",  e espectador da rede Globo,o pensador francês acabou por omitir talvez um dos maiores dilemas e a grande sacanagem do capitalismo, que o tão criticado Karl Marx pôde diagnosticar tão bem: o fenômeno da exploração.

É a exploração, seja a econômica nos tempos da revolução industrial de Marx, ou mesmo a que se dá hoje em tantos outros aspectos, como a exploração social, cultural, midiática e até sexual, que o capitalismo, enquanto sistema econômico, encontra seu cerne e seu grande motor motivador. Hoje, os teóricos e jornalistas da Nova Direita brasileira ou setores neoliberais de todo o mundo exortam o quanto a Inglaterra, país que deveria ter sido o berço do proletariado revolucionário, protagonizado por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", e que poderia ter sido a grande vanguarda, a grande nação porta-voz do Novo Mundo da utopia socialista, tornou-se uma emergente e forte nação capitalista, onde a exploração do homem pelo homem cedeu espaço à pujança e a obtenção de direitos sociais, como saúde, moradia, emprego e educação, sem que fosse necessário abolir a propriedade privada e instituir uma ditadura. Esses mesmos defensores do modelo capitalista britânico ficaram chocados quando os ingleses decidiram em plebiscito não mais participar da União Europeia (e agora, José?). O problema é que esses mesmos leitores e divulgadores dessa crítica jogam para o tapete um outro segmento tão ou mais explorado, que fomenta hoje a maior parte dos problemas da Europa atual: os imigrantes.

Assim como os pensadores e intelectuais esquerdistas teriam o marxismo como sua pseudoreligião, cegados ideologicamente, segundo a crítica de Aron, a um determinismo irracional, quase positivista, de aceitar como crença uma inevitável condução da sociedade ao socialismo, os apologistas da direita, especialmente os representantes de doutrinas liberais e economicistas, acreditam ainda hoje que o capitalismo é a solução natural para resguardar um reino da felicidade baseado na liberdade individual, pelo incentivo à livre iniciativa. Permeada de um completo darwinismo social, encontrado antes na teoria de Spencer, a doutrina liberal ou neoliberal demonstrou que, de moderna não tem nada, e na verdade é tão antiga como o pensamento escravagista ou feudal, uma vez que pressupõe uma ordem social entre dominadores e dominados. Afinal, enquanto alguém lucra e desfruta das benesses materiais, outro tem que trabalhar e produzir pra sustentar esse lucro. Não existem banqueiros sem funcionários, não existe a fábrica e nem os industriais sem os operários e não existe o escritório do chefe, sem seus subordinados, numa estrutura supostamente imutável, como pensava o filósofo conservador Edmund Burke, onde uns nasciam para servir, outros para dominar. Até mesmo no cinema, diversos filmes de ficção científica, clássicos ou inspirados em histórias em quadrinhos, revelavam essa visão natural de uma sociedade de classes dividida entre interesses antagônicos, onde uns subjugam para não serrem subjugados. Entretanto, no lugar da aliança de classes pensada no filme Metrópolis do cineasta alemão Fritz Lang (1927), deu-se a rebelião e o conflito, como aquele observado nas cenas do filme Expresso do Amanhã (2013), do cineasta coreano Jo-Hoo Bong. Filmados em épocas distantes, estas duas obras cinematográficas representam bem uma realidade de revolta com o sistema capitalista que vinha desde a Comuna de Paris, do século XIX, passando pela revolta dos marinheiros russos no Encouraçado Potenkin, em 1905, até chegar aos Occupy Wall Street, contra a expansão capitalista globalizada dos dias de hoje, gerando um futuro distópico, onde, mais uma vez, os menos abastados economicamente são os mais oprimidos politicamente, porque são continuamente escravizados, dentre as engrenagens medonhas de um sistema que, na paródia da máquina (um robô, no filme de Lang, e um trem, no filme de Bong),em contrapartida, lhes vende a imagem de um sistema democrático e protetor.

E qual a solução para o livro de alguém que denuncia um embuste, quando na verdade sua própria crítica do embuste também é embusteira? O  "Ópio dos Intelectuais" denuncia uma droga que entorpecia o pensamento dos intelectuais do século passado, sem lhe mostrar o antídoto, revelando, na verdade, uma postura passiva de aceitar as coisas como elas são, limitando-se a simplificar o debate, ao dizer que a história não se resume a luta de classes. Ora, ao elogiar o americanismo, menos como ideologia e mais como um sistema de conceitos como o de respeito à Constituição e à liberdade individual, o culto da ciência e da eficácia, Aron desdenha do pensamento europeu (notadamente o Francês) e exorta um modo de produção que, também não deixa de ter ares de um culto. Nesse sentido, o teórico francês propõe substituir, tão e simplesmente, um ópio por outro.

Ora, sou mais simpático ao livro "Multidão" do pensador italiano Antonio Negri, feito às quatro mãos juntamente com o pesquisador norte-americano, Michael Hardt. Nesse livro, os autores reconhecem que a velha dicotomia marxista entre burguesia e proletariado é insuficiente para se compreender as diversas facetas da desigualdade entre os homens nos dias de hoje, face a pluralidade cultural e social. Mas, ao falar que hoje é mais conveniente falar de uma estrutura social em redes do que em classes, os teóricos citados não retiram da pauta da sociedade a luta contra a exploração e todas as formas opressoras de dominação. Isto implica em falar de uma opressão tanto do capital econômico, quanto de um capital imaterial, intelectual. A opressão de gênero, racial e de orientação sexual soma-se a opressão de classe, e a crítica marxista sobre as formas de opressão ainda persiste, mesmo que Raymond Aron tentasse "tapar o sol com a peneira", ao propor a solução individualista do "intelectual responsável", aquele que participa dos partidos, mas prioriza aqueles que mais valorizem o homem. O intelectual de Aron é aquele que não limita a assinar manifestos contra as injustiças, participa das ações políticas, mas não se vincula a partidos ou Estado algum. Essa alegoria poderia estar presente nas "Marchas de Junho" de 2013, quando milhões de pessoas, sem vínculos de ideologia ou preferência política, lotaram as ruas dos grandes centros urbanos do Brasil, numa onda espontânea de grande manifestações e protestos de rua. Entretanto, tal figura seria suficiente num período de radicalização política? Não teria ele que assumir um lado?

Insisto em dizer que a obra de Aron é datada, por conta de que o vibrante sociólogo francês não teve tempo de viver para observar o apogeu da globalização, o fim do bloco soviético e da Guerra Fria, o rearranjo de forças políticas com a formação da União Europeia, a Guerra na Bósnia, o surgimento do terrorismo fundamentalista islâmico e nem os atentados às Torres Gêmeas no World Trade Center. Se ele tivesse visto tudo isso, talvez se juntasse a toda uma nova categoria de intelectuais, que descrentes tanto dos ideais da velha esquerda quanto da nova direita assumida, buscariam traçar terceiras vias possíveis, como teóricos da linha de Antony Giddens, ou mais radicais como Slavoj Zizek. Destaco aqui, como contrapartida ao pensamento esboçado no "Ópio", a relevante obra do pensador húngaro, Istváz Mészaros, "Para Além do Capital". No livro, o filósofo discute que o capitalismo fundou-se num tripé, formado pela aliança entre capital, trabalho e Estado. Assim, criticar o socialismo por defender um Estado social forte, é de uma incoerência suprema, tendo em vista que o capitalismo também necessita do Estado para sobreviver. Isso significa dizer que, se os bolcheviques, na Revolução Russa, tomaram de assalto o poder do Estado, para estabelecer um governo opressivo, os capitalistas neoliberais burgueses também não fizeram diferente, ao se impor pelo poder dos lobbies dos bancos e das grandes corporações capitalistas, vencendo eleições e estabelecendo governos protecionistas e predatórios do capital dos países vizinhos, especialmente os da América Latina, que resultam hoje num surto de imigrações clandestinas, dos expropriados mexicanos até seu poderoso país vizinho, atravessando a fronteira em busca de emprego e comida.

Também merece destaque para compreender melhor nossos tempos (e também saber como pensam os intelectuais de hoje) ler a célebre obra "O Capital no século XXI", do economista francês Thomas Piketty, além da obra de seu compatriota, mais à esquerda, Alan Badiou, autor de "A Hipótese Comunista". Em ambos os livros, seus autores buscam demonstrar que o capitalismo não é o "reino da felicidade" como apregoam seus defensores neoliberais. Na obra de Piketty, observamos que 10% dos mais ricos detém 60 a 70% da riqueza global. Isso significa dizer que, enquanto uma família passa fome na Somália, sem ter um pedaço de pão para comer, bilionários multiendinheirados, como Rupert Murdoch, do extinto semanário inglês News of the World e um dos magnatas da mídia mundial, sorvem vinhos caríssimos a bordo de jatinhos. Felicidade de uns, tristeza de outros? A ordem natural das coisas? Basta se esforçar para conseguir o que quer? Essa lorota liberal foi pregada deste os tempos de Adam Smith, o que demonstra que a cantilena capitalista de nova, não tem nada. Nem é nova a forma como a ideologia dos mais poderosos faz ver que errados são aqueles que se prendem a uma teoria política e econômica que propôs uma intensa revolução social, como se fosse uma crença, e não aqueles que defendem a manutenção de um modelo brutal e absolutamente injusto de exploração. "Não existe almoço grátis", dizem os capitalistas e articulistas de revistas como a "Veja". O almoço pode não ser de graça, mas a solidariedade é. Nesse sentido, até o Papa Francisco junta-se em sua crítica a uma cruzada anti-capitalista. Será que o Vaticano, com seu poder milenar, também foi contaminado pelo "ópio intelectual" do marxismo?

Já o livro de Badiou é excelente, por instilar no leitor uma curiosidade intrépida, ao propor uma retomada do termo "comunista", não mais como adjetivo, mas sim como um novo conceito histórico. Conterrâneo mais jovem de Aron e ainda em atividade, juntamente com Zizek e Negri, ao analisar os fracassos da experiência soviética e da Revolução Cultural chinesa, no século XX, Badiou utiliza-se de uma comparação científica com o "Teorema de Fermat", na matemática, que permaneceu sem solução durante três séculos, após várias experiências. Nesse sentido, fracasso não se confunde com abandono, no momento em que reiterar ou insistir numa experiência não significa necessariamente que se vá novamente incidir em erro. O "comunismo" enquanto hipótese é uma ideia política que ganha novos contornos no século XXI, e que não passa mais necessariamente por Estados ou partidos. É na mobilização social e nas novas formas de convivência civil que se pode conceber uma nova experiência que dê lugar a velhos esquemas opressivos de exploração.

Portanto, diante de um arcabouço teórico tão ou mais intenso do que aquele propagado pela Nova Direita e seus meios de comunicação, acredito ser um chamado à inteligência ter acesso a pontos de vista diferenciados, aguçados com a realidade atual de conflitos que vivemos, do que, simplesmente, reeditar e propagandear uma obra antiga, de um pensador que não concebeu os tempos vividos neste século, pois não teve tempo de viver pra isso. Isto é melhor do que, simplesmente, utilizar um livro  antigo de Aron como instrumento político, tão somente para desmoralizar o pensamento de esquerda. Nesse sentido, enquanto os intelectuais marxistas entorpecem-se de seu ópio ideológico, os de direita, defensores do capital, buscam endinheirados sua cocaína mental, achando que um sistema baseado na exploração é a única e melhor saída para a humanidade. Prefiro ficar nos meus vícios ideológicos do que ventilar nos meios de comunicação tanta besteira!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS: TÃO LONGE, TÃO PERTO!

A XXXI edição dos Jogos Olímpicos, em 2016, aconteceu pela primeira vez em um país do Hemisfério Sul. Para ser mais exato, no Brasil, na América Latina. O Rio de Janeiro, com sua paisagem paradisíaca (além da caótica e violenta vida urbana) foi cenário da edição mais marcante das Olimpíadas, para os brasileiros, desde sua primeira edição na era moderna, em Atenas, no ano de 1896, quando o barão Pierre de Coubertin teve a brilhante ( e diplomática) ideia, de reunir os povos mundialmente num evento que reproduzia os jogos realizados pelos gregos antigos, numa celebração esportiva que tomaria o lugar das guerras e proporcionaria uma abertura nas relações e trocas comerciais. O negócio deu tão certo que continua até os dias de hoje, com uma avalanche grandiosa de marketing e investimento público e comercial. Historicamente, o legado dos Jogos repercute no desenvolvimento econômico e social dos países que lhe foram sede de maneira positiva, e no Rio de Janeiro, mesmo com todos os nossos problemas, isso não poderia ser diferente.

São diversos e tantos aspectos que podem ser explorados, como retrospectiva e avaliação dessas Olimpíadas, exibidos à exaustão pelos meios de comunicação, que eu me vali de comentários distribuídos em 15 itens, para maior compreensão do leitor. Por isso, eu listo aqui, esquematicamente, os que, para mim, foram os fatos mais marcantes dessa Olimpíada:

1) O QUADRO DE MEDALHAS: A delegação brasileira de 462 atletas ( a maior da história) fez pouco em relação às Olimpíadas de Londres, em 2012, quando então o Brasil atingiu a sua marca histórica da maior quantidade de medalhas (seguindo o critério do Comitê Olímpico Internacional-COI), perfazendo, este ano, um recorde de 19 medalhas, sendo que 7 foram de ouro (em comparação com 5 de ouro em Londres), 6 de prata e 6 de bronze. A meta do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) era de que no Rio de Janeiro, o país ficasse no seleto grupo, entre as dez maiores nações do mundo, ganhadoras de medalhas nos Jogos. Nesse sentido, batemos na trave, ficando numa honrosa 13ª colocação, atrás de Austrália, Holanda e Hungria,  mas na frente de países europeus ou do hemisfério norte, alguns primeiro-mundistas e com grande investimento no esporte, tais como Espanha, Croácia e Canadá, e outros com tradição de medalhas,  como Quênia, Jamaica, e Cuba. Em relação a Jamaica e Quênia, vale salientar os destaques tradicionais de atletas africanos e jamaicanos no atletismo, nas corridas de curta ou longa distância, sempre disputando (e ganhando) medalhas de ouro, o que os bem posiciona no ranking, e ajudou seus países a crescer no quadro de medalhas; com a consagração de atletas como os velocistas Usain Bolt e Elaine Thompson, nos 100 metros rasos, e os quenianos, Asbel Kiprop, nos 1.500 metros e Vivian Cheruyot, nos 5.000 metros, nas modalidades masculinas e femininas, respectivamente. Cuba, por sua vez, vem demonstrando historicamente uma decadência esportiva no quadro de medalhas, que corresponde a profunda crise econômica que assola continuamente a ilha dos irmãos Castro, principalmente após o fim da Guerra Fria e a morte de seu principal apoiador, o líder venezuelano Hugo Chavez.

2) O "JAPA" DO TIRO: Assim como Guilherme Paraense foi o primeiro brasileiro a conquistar medalha para o Brasil (ouro) na história, em uma Olimpíada, atirando de uma pistola (nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em, 1920, no tiro esportivo), a primeira medalha olímpica para o Brasil, no segundo dia dos jogos, foi obtida por um jovem militar, descendente de orientais, com cara de jogador de "Pokemon Go", que conquistou a medalha de prata no tiro, na pistola de ar de 10 m, sendo superado apenas por um vietnamita. Felipe Wu bateu continência com satisfação ao receber sua medalha, enquanto a bandeira brasileira descia na cerimônia de entrega aos três maiores atiradores do torneio, e escreveu com seu prodígio mais um capítulo da participação dos brasileiros nos Jogos Olímpicos.

3) A CONQUISTA DA MOÇA QUE VEIO DA FAVELA REABILITA O JUDÔ: Se Sarah Menezes decepcionou no Rio de Janeiro, e o judô, modalidade esportiva que tradicionalmente traz medalhas para o Brasil em Olimpíadas, não teve lá seus melhores resultados, ao menos uma medalha de ouro foi pendurada no pescoço de uma moça negra, de origem extremamente humilde, que foi salva da pobreza na Cidade de Deus através de um projeto governamental, que a transformou em campeã olímpica. Rafaela Silva redimiu-se da decepção passada, quando foi desclassificada em Londres, para subir no pódio mais alto no tatame, conquistando a medalha de ouro. Assim como Felipe Wu, Rafaela ingressou nas Forças Armadas e foi aproveitada pelo Estado brasileiro para desenvolver seu potencial olímpico. Graças  a ela, deu-se mais uma prova de que inclusão social no esporte não é mero projeto, mas realidade. Que se continue assim!

3) A CONSAGRAÇÃO DOS SEMIDEUSES DO ESPORTE: A Olimpíada do Rio de Janeiro também ficará para a história como o evento esportivo em que se aposentaram no auge da fama e do vigor físico dois gigantes de suas respectivas modalidades: o nadador norte-americano Michael Phelps e o corredor jamaicano Usain Bolt. O primeiro, um verdadeiro super-humano nas águas, além de já ter sido considerado o maior atleta olímpico da história, com a maior quantidade de vitórias conquistadas, na Olimpíada de Londres, e que, no Rio, viu aumentar seu quadro impressionante de medalhas, conquistando o inédito tetracampeonato na natação, com medalha de ouro nos 200 metros medley, além de 23 medalhas conquistadas no total. Agora, se Phelps é considerado insuperável na água, o homem mais rápido do mundo em terra é Bolt. Com forma física impecável, disputando sua última Olimpíada, Bolt praticamente voou nas pistas da arena carioca, encantando o mundo inteiro com sua força física e carisma (a pose do "raio" que o celebrizou, não podia faltar). Ambos os atletas chegaram à maturidade, após passarem dos 30 anos de idade, ricos, famosos e consagrados, com famílias a sustentar e um séquito incalculável de fãs. Nesta Olimpíada Phelps e Bolt despediram-se do público de forma épica. As cenas do nadador norte-americano, chocando o mundo com suas impressionantes marcas na piscina, e Bolt, correndo com um sorriso no rosto, nos metros finais que o aproximavam da vitória, nos 100, 200 e 400 metros, são imagens que ficarão na memória de gerações para sempre, e eu tive o privilégio de viver para ver esses superatletas darem o melhor de si e transformar o esporte num verdadeiro espetáculo. Obrigado por tudo, Phelps! Obrigado, Bolt!! Com personalidades distintas, mas ambos carismáticos, estes dois esportistas são, de longe, os maiores e mais honrados personagens desta Olimpíada.

4) A DECEPÇÃO DAS ATLETAS BRASILEIRAS NAS MODALIDADES FEMININAS, COLETIVAS E INDIVIDUAIS: As apostas eram grandes, a esperança infinita, o rendimento alto, a torcida enlouquecida, e os resultados anteriores, impecáveis. Mesmo com todos esses ingredientes, as seleções de futebol, voleibol e handebol femininas não conseguiram chegar longe nessas Olimpíadas, perdendo a oportunidade de disputar medalhas. A seleção de futebol de Marta e Cristiane, bem que tentou, em duas dramáticas e consecutivas decisões de pênaltis, contra a Austrália, nas quartas de final, e contra a Suécia, na semifinal, mas não conseguiram, na segunda oportunidade, evitar a derrota e a perda de oportunidade de disputar a final olimpíca, além de desperdiçarem a possibilidade de obter a medalha de ouro, quando, desmotivadas após um retrospecto de vitórias, perderam a disputa da medalha de bronze para a seleção do Canadá. Talvez o único gostinho de consolação para as jogadoras brasileiras foi ver a fragorosa derrota das algozes norte-americanas, na primeira fase do torneio, com direito a um "frango" da tão bonita quanto desbocada goleira Hope Solo. 

Mas a derrota sempre tem um gosto ruim, principalmente para o basquete brasileiro. Nem chegando à sombra do que era uma seleção olímpica nos áureos tempos de Paula, Marta e Hortência, o time  brasileiro de basquete feminino, que veio para as Olimpíadas, somente veio para perder. Não conseguiram ganhar um jogo sequer, sendo eliminadas precocemente na primeira fase do torneio.  O handebol feminino, campeão mundial, fez mais bonito, chegando a ganhar três partidas consecutivas, até ser eliminado nas quartas de final pela forte seleção dos Países Baixos.

Entretanto, o caso mais traumático de derrota de uma equipe feminina nos esportes coletivos foi a inesperada queda diante da seleção de vôlei contra a China, nas quartas de final do torneio olímpico. A equipe das bicampeãs olímpicas Sheila, Jacqueline e Fernanda Garay tinham eliminado por 3 sets a 0 todas as equipes que pegaram pela frente, na primeira fase (inclusive a China), e foi impressionante como a equipe do vitorioso técnico José Roberto Guimarães viu o sonho do tricampeonato desabar diante da eficiência do contra-ataque chinês. A comovente cena de ver o neto de 6 anos de Guimarães, descer chorando as arquibancadas do ginásio Maracanãzinho, coberto com uma bandeira do Brasil e correndo em direção ao avô para abraçá-lo, também resistiu nas minhas retinas e na minha mente, como uma das imagens dessa Olimpíada.

Até mesmo no vôlei de praia, carro-chefe de uma modalidade que nasceu nas areias das praias cariocas, as mulheres não tiveram sucesso em ganhar uma merecida medalha de ouro. A dupla Ágatha e Bárbara sucumbiu na final diante das alemãs Ludwig e Walkenhorst, que, muito melhores, venceram a disputam por dois sets a zero, deixando as brasileiras com o mérito de permanecer apenas com a medalha de prata. Mesmo na disputa do bronze, o Brasil também não conseguiu se impor, com a dupla Larissa e Talita, perdendo a disputa para a dupla feminina norte-americana, não conquistando medalha.

Mas, talvez, a meu ver, a maior decepção individual feminina desses jogos não foi a derrota da judoca Sara Menezes, medalhista de ouro em Londres e primeira brasileira campeã olímpica da modalidade, que, desta vez, não conseguiu repetir o feito e acabou saindo contundida na disputa dos pesos ligeiros do judô. O que mais me impressionou foi mais uma derrota retumbante no salto com vara da saltadora Fabiana Murer, campeã mundial em 2011, na sua modalidade. As expectivas eram grandes em relação a ela, até porque sua principal e célebre adversária, a campeã olímpica russa Yelena Ysimbaeva, foi proibida de participar dessa edição dos Jogos, por conta das denúncias de dopping no atletismo de seu país e a polêmica proibição do COB da participação da Rússia, por conta dessas revelações. Talvez por conta disso, muitos esperassem que Murer viesse à forra, após duas decepcionantes participações nas Olimpíadas de Pequim e Londres, onde, em ambas, a atleta brasileira era favorita. Desta vez, não foi por conta do desaparecimento de suas varas e nem por conta do vento, que a saltadora Fabiana Murer não viu a cor de uma medalha. Aos 35 anos, lesionada com uma forte hérnia de disco e quase sem condições de competir, a paulista não conseguiu sequer passar da fase eliminatória, errando seus três saltos e anunciando, desapontada, sua possível aposentadoria. Realmente, uma pena!

5) A DECEPÇÃO BRASILEIRA NA NATAÇÃO: Enquanto norte-americanos como Michael Phelps e Ryan Lochte brilhavam na natação, nossos nadadores, tanto na equipe masculina quanto na feminina, decepcionaram nos jogos, sem levar medalha alguma. O esforço de Thiago Pereira e a atuação de Joanna Maranhão nas piscinas olímpicas merecem respeito e reconhecimento, mas a grande falta sentida foi mesmo de César Cielo, primeiro brasileiro campeão olímpico dos 50 metros, em Pequim. O drama de Cielo começou antes dos Jogos, quando ele sequer atingiu a marca para ser classificado para as Olimpíadas em seu próprio país, o que levou a um período de depressão e reclusão, recusando-se até mesmo a carregar a tocha olímpica. Num país de herança subdesenvolvida, ter medalhistas olímpicos em modalidades nobres e tradicionais do evento esportivo mais importante do mundo, como a natação, ginástica e atletismo é quase uma questão de honra, e, não ter ganho uma medalhinha sequer na citada primeira modalidade, deve ser motivo de preocupação (e muito bronca) para o Comitê Olímpico Brasileiro.

6) O CHORO DO FRANCÊS E A FORÇA ATERRORIZANTE DAS VAIAS: De um lado, um campeão mundial destemido, europeu, oriundo de um país desenvolvido, aos 28 anos no auge do vigor físico, arrogante, concentrado, sabedor de seu talento e limitações, mas seguro da vitória, após superar um recorde histórico em sua modalidade, que tinha permanecido intocável por mais de vinte anos. Do outro, um jovem de origem humilde, nascido e criado num país da subdesenvolvida América Latina, egresso das categorias juvenis, com ótimos resultados, munido de um bom treinador, e aos 22 anos cheio de energia e aberto às oportunidades, inclusive, de ganhar uma medalha de ouro. Nesse duelo improvável, onde surgiu de forma fascinante mais um campeão olímpico, pude acompanhar, como num roteiro de filme, a espetacular vitória do saltador Thiago Braz, sobre o favorito francês Renauld Lavillenie, no salto com vara. Como todo brasileiro que assistia os jogos, sabedor da falta de tradição e da raridade do Brasil em conquistar medalhas de ouro no atletismo, eu jamais imaginaria que, para minha (grata) surpresa, o competidor brasileiro iria tão longe, e, pior, geraria uma das cenas mais extraordinárias que já vi numa arena olímpica. E começou tudo de forma tímida, mas marcante, precisa, progressiva. Enquanto o brasileiro procurava manter e superar suas marcas, junto com os demais competidores, pulando 4,90; 5,20; 5,80 metros, o competidor francês permanecia impassível, sem cumprimentar ninguém, introspectivo, sereno até, como que aguardando o resultado inevitável que lhe daria a vitória. Nesse dia, pularam, entre várias nacionalidades, competidores que vinham da Polônia, China, Rússia, Ucrânia, mas, nos últimos saltos, somente ficaram entre os três últimos a ganhar medalha, um norte-americano, um francês e um brasileiro. Da arquibancada, o técnico de Thiago Braz, o idoso e experiente técnico Vitaly Petrov (que tinha sido o mesmo de Sergey Bubka, até hoje uma verdadeira lenda do esporte, ganhador da medalha nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e 11 vezes campeão mundial), orientava seu jovem pupilo entre os saltos, permanecendo sem esboçar emoção alguma, enquanto seu atleta pulava. Até que veio a mágica do esporte. Pedindo para saltar uma altura que nunca havia superado, os 6,6 metros, Thiago conseguiu a proeza de superar o salto de seu adversário francês, que já havia pulado 5,98. Lavillenie sentiu a pressão. Enquanto Thiago Braz marcava um recorde olímpico, o competidor francês, campeão mundial em sua modalidade, tentou fazer a mesma marca que já havia feito in door, de 6, 16m, superando o recorde anterior de 6,15m de Bubka. Não deu certo. Na única chance que tinha, o francês perdeu, e o Brasil explodiu em festa com mais uma medalha de ouro olímpica. Não ajudou o fato de Lavillenie ter culpado a torcida brasileira, que o vaiou constantemente, enquanto ele tentava acertar seu último salto, ao tentar repreender o povão, mostrando sua indignação, com o dedo polegar voltado para baixo. O que se seguiu, então, foi um espetáculo de glória para o atleta brasileiro, e de vergonha para o francês.

Não adianta explicar ao brasileiro que, em eventos esportivos internacionais realizados no mundo, o silêncio da plateia é fundamental, em algumas modalidades, principalmente no salto com vara, que, praticado ao ar livre, além de contar com a direção e força do vento, ainda precisa contar com a concentração de seus competidores. Revoltado e inconformado com a derrota que o levou a medalha de prata, Renaud Lavillenie chegou a comparar, com frases infelizes na imprensa, as vaias da torcida brasileira as do público alemão, nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, quando o atleta negro, norte-americano, Jesse Owens, conquistou a medalha de ouro no atletismo, sob reprovação de Hitler e do todo o staff nazista. Ora, os brasileiros não tem nada contra Lavillenie e nem contra os franceses, e, na verdade, não tem nada contra jogador algum. Aqui, vaia-se na hora em que nossos atletas estão em campo e não correspondem ao esperado, assim como vaiamos o time adversário, como forma de dar força ao nosso time e não para desmerecer ou desprestigiar o rival. Faltou essa lição de antropologia ao nosso pobre Lavillenie, que acabou pagando o pato por toda sua empáfia antes e depois da derrota para o brasileiro. Na entrega de medalhas, cheguei a ter pena do coitado que, um dia, queria ser campeão olímpico nos jogos brasileiros, e, ao ser vaiado na premiação, caiu em prantos, não resistindo à pressão, na cerimônia de entrega de medalhas. Foi preciso o próprio Sergey Bubka, em pessoa, aparecer na área, diante das câmeras de jornalistas do mundo inteiro, para desfazer o mal estar, reconciliando o francês com o brasileiro, ao menos temporariamente. Fica a lição para o campeão francês, que uma medalha de ouro não se ganha de véspera; e para o brasileiro: aproveite a oportunidade, pois muitas ainda estão por vir.

7)  A REDENÇÃO DE DIEGO HYPÓLITO E A CONSAGRAÇÃO DE ARTHUR ZANETTI NA GINÁSTICA: Devido ao seu alto grau de exigência, a ginástica olímpica não é fácil pra ninguém. Principalmente para um ginasta experiente, bicampeão mundial, como Diego Hypólito,  na busca de uma medalha em Olimpíadas, que viu dois fracassos olímpicos em duas edições anteriores dos jogos, estragarem seu favoritismo de forma dramática. Em Pequim, ele caiu de bunda, na final do solo masculino no tablado, e, em Londres, caiu novamente, durante a execução de suas manobras acrobáticas, o que levaram a perder o sonho de levar uma medalha para casa. Oito anos depois do vexame de Pequim, que lhe rendeu "memes" e zombarias em programas humorísticos, finalmente Diego se superou no Rio de Janeiro, e mostrou o grande ginasta que é. Aos 30 anos, tornando-se o mais velho competidor da final, Diego Hypólito conseguiu a medalha de prata, numa execução quase perfeita de seu solo (digo, quase, por conta da pontuação dos juízes, visto que sua apresentação foi impecável). Depois de muita terapia e superando uma depressão, Diego deu uma lição para o Brasil e uma bofetada moral nos seus críticos, dando a volta por cima, fazendo a alegria não apenas de sua família, como sua emocionada irmã, a ex-ginasta, Daniele, mas de toda a torcida brasileira, que soube reconhecer, finalmente, o seu astro. Parabéns, Diego! Medalhista olímpico. Ele, seu colega no solo Arthur Nory, que conquistou a medalha de bronze na mesma prova e  o ginasta Arthur Zanetti (medalha de ouro em Londres) que conseguiu também a prata nas argolas, são o exemplo de atletas brasileiros que, hoje, compõem um seleto e pequeno grupo dos melhores ginastas do mundo, de renome internacional. Pode-se dizer que atualmente o Brasil é uma das potências olímpicas na ginástica.

8) DESCENDENTE DE ÍNDIO, E ASTRO BRASILEIRO DA CANOAGEM COM TRÊS MEDALHAS: O nome dele é Isaquias Queiroz. Além do cabelo engraçado, com a franja alisada, ele tem a pele morena, cor de urucum, herdada de seus descendentes indígenas no interior da Bahia, um rim a menos, e, oriundo de uma família de pescadores,  o atleta brasileiro da canoagem renovou a modalidade para o povo brasileiro. Nas 3 provas que participou (um bronze canoa individual 200 metros, e prata na canoa individual 1000 metros e canoa dupla, 1000 metros, juntamente com o conterrâneo, Erlon de Souza Silva), Isaquias tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas numa mesma Olimpíada (duas de prata e uma de bronze). O ouro não chegou ainda para ele, apesar de ter chegado perto, mas, com somente 22 anos, tudo leva a crer que ouviremos falar muito de um rapaz que representa uma das faces (e a alma) do povo brasileiro.

9) QUANDO O SOBRENOME (E O TALENTO FAMILIAR) FAZ A DIFERENÇA: Foi criada muita expectativa quanto à derradeira participação do veterano velejador e campeão olímpico brasileiro, Robert Scheidt, nesta Olimpíada, que, aos 43 anos, tentaria igualar os feitos nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e Atenas, em 2004, no iatismo. Infelizmente, não houve mais condições para o citado atleta conquistar medalhas nas águas da Baía da Guanabara. Entretanto, na modalidade da vela, o Brasil não ficou de mãos abanando, e coube a Martine Grael, acompanhada de Kahena Kuzne, formarem a dupla vitoriosa de velejadoras que conquistaram a medalha de ouro do iatismo, na classe 49 FX. Martine, filha de outro campeão olímpico, Torben Grael, honrou não apenas o sobrenome familiar, provando que "filha de peixe, peixinha é!", mas também honrou o país com seu feito histórico. Assim, uma dinastia de velejadores mantém-se firme para disputar o ouro em outros jogos.

10) FINALMENTE O RECONHECIMENTO DO BOXE: Nos Jogos Panamericanos as medalhas de ouro já tinham chegado, mas foi preciso ter uma Olimpíada no Rio de Janeiro, para que o boxe brasileiro fosse finalmente reconhecido como potência olímpica mundial, com a conquista da medalha de ouro pelo pugilista Robson da Conceição, na categoria de peso ligeiro. Em Londres, o Brasil tinha chegado perto da cobiçada medalha dourada, com dois irmãos lutadores: Esquiva (prata) e Yamagushi (bronze) Falcão. Mas, desta vez, na Cidade Maravilhosa, foi a vez de Robson levar para o Brasil um merecido ouro, após derrotar o favorito, o cubano e campeão olímpico Lázaro Álvarez, nas semifinais da competição. Aliás, a rivalidade entre Cuba e Brasil já se tornou histórica com os últimos confrontos olimpícos, e o êxito de nossos lutadores revela um futuro de glórias futuras na modalidade.
11)O ESCÂNDALO DE RYAN LOCHTE: Belo, talentoso, medalhista olímpico, amigo de Michael Phelps e a segunda maior estrela da natação mundial, o nadador norte-americano Ryan Lochte tinha tudo para ter saído do Brasil deixando uma boa impressão, com as medalhas de ouro conquistadas no revezamento 4 X 200 metros e prata nos 200 metros medley. Entretanto, um incidente com ares de reality show tornou-se um dos maiores escândalos de celebridade do ano, capaz até mesmo de ofuscar, durante alguns dias, a festa olímpica de Phelps, dado o caráter tragicômico do ocorrido. Numa suposta "saidinha" para a farra, da Vila Olímpica, Lochte fez tudo o que faz um cara jovem, bonito e famoso, quando está de folga, após ter ganho medalhas olímpicas: festejar (e, no caso dele, acompanhado de uma bela mulher). O problema é que ele se esqueceu de avisar a noiva nos EUA, e além de ter pulado a cerca, o norte-americano meteu-se numa enrascada policial desnecessária, ao mentir para as autoridades no seu retorno ao alojamento, pela madrugada, após ter voltado embriagado de uma festa, onde, alegou que ele e seus companheiros de equipe tinham sido assaltados e mantidos reféns por um curto período, sob o cano de uma arma. Tudo mentira! A molecagem só durou o tempo suficiente para que a Polícia Federal entrasse no caso, tivesse acesso a imagens de vídeo, e tivesse constatado que tudo não passou de uma farsa, montada por Lochte e seus amigos, com direito a cenas de uma loja de conveniências e um posto de gasolina depredados, além da briga com seguranças. Por conta da mentira, já desembarcado em solo americano, o nadador teve que pedir desculpas publicamente, além de perder, de cara, três patrocínios importantes, constranger todo o Comitê Olímpico norte-americano pelo vexame em terras cariocas e estar sujeito a suspensão de suas atividades esportivas. Creio que Ryan Lochte é um cidadão estrangeiro que não vai querer pousar no Rio de Janeiro nem tão cedo!


12) O ÊXITO BRASILEIRO ( E AS DERROTAS) NOS ESPORTES COLETIVOS: Qual brasileiro que gosta de jogos não fica feliz quando o principal esporte coletivo nacional conquista a medalha de ouro numa Olimpíada? Qual brasileiro não se alegra mais ainda se, no dia seguinte, o segundo maior esporte coletivo nacional também ganha o ouro? Foi isso que aconteceu no penúltimo e último dia dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No sábado, dia 20 de agosto, às 17 horas, a seleção brasileira de futebol, capitaneada pelo astro do Barcelona, Neymar, finalmente desencantou e fez às pazes com a torcida brasileira, após um fatídico 7 X 1 na Copa do Mundo, também em solo brasileiro, em 2014, que entrará para os livros de histórica como a maior vergonha nacional de um país numa partida em um Mundial de futebol. Deus (e para os cronistas, os "deuses" do futebol) quis que a final olímpica fosse justamente com a Alemanha, o algoz de 2014, e, atuando não mais como meninos chorões, mas sim como jogadores profissionais de uma equipe nacional, a seleção brasileira empatou no tempo normal em 1 X 1, com direito a gol de Neymar, e na disputa de pênaltis prevaleceu o Brasil, sendo Neymar, novamente, o autor do último gol que levou o Brasil, pentacampeão mundial de futebol, a finalmente carregar no pescoço a medalha de ouro, que os brasileiros deixaram escapar ao menos outras quatro vezes, em Jogos Olímpicos. O Rio de Janeiro foi palco, portanto, de uma redenção nacional no futebol.

Redenção também é a palavra que deve ser aplicada ao voleibol masculino, treinado mais uma vez pelo técnico campeão Bernardinho, em uma quarta final consecutiva da seleção brasileira, em Olimpíadas. Depois de Atenas, em 2004, quando o Brasil foi bicampeão olímpico, o país não conseguia a medalha de ouro, ficando com a prata, tanto em Pequim em 2008, quanto em Londres, em 2012, perdendo, respectivamente, para os Estados Unidos e para a Rússia. Mas foi justamente contra duas potências esportivas que o grupo de Bernardinho, contando com jovens atacantes, da nova geração do vôlei, como Wallace e Lucarelli, comandados por Bruninho, e uma atuação brilhante do experiente jogador Lipe, que, assumiu o protagonismo com seus saques matadores e elevou o moral de uma equipe inexperiente, o Brasil do voleibol reencontrou seu jogo.  Diferentemente das meninas da equipe feminina, que eram favoritas, os homens do voleibol saíram de fracassos seguidos em Olimpíadas e Ligas Mundiais, desacreditados na primeira fase do torneio no Rio, correndo o risco de serem desclassificados, antes de uma dramática partida contra França, e depois de uma atuação redentora contra a Argentina, quando os brasileiros recuperaram a moral perdida, ganhando a semifinal e final do vôlei de forma inesquecível, vencendo todos os sets dos jogos, com os resultados de 3 X 0 tanto contra a Rússia, quanto contra a poderosa Itália, na final do domingo, dia 21 de agosto. Enfim,o Brasil tornou-se tricampeão olímpico no voleibol masculino e potência mundial incontestável na modalidade. Foi a consagração não só do técnico, mas também do veterano líbero Serginho, retirado da aposentadoria para jogar mais uma (e a última Olimpíada), que, aos prantos, e abraçado ao filho pequeno, foi outra imagem singela do vôlei (somada a do técnico derrotado José Roberto, com o neto, no vôlei feminino), que deve ser gravada como imagem eterna e emocionante destes Jogos.

Também no vôlei, mas agora no vôlei de praia, finalmente a dupla Alison "Mamute" e Bruno Schmitt honrou  a fama e a tradição da modalidade, na terra em que ela nasceu, conquistando a final e a medalha de ouro, ao derrotar a dupla adversária italiana, tornando-se, também, campeões olímpicos. Com a proeza, a dupla brasileira conquistou um ouro olímpico que não vinha desde a dupla vitoriosa Ricardo e Emanuel, últimos campeões da modalidade na Olimpíada de Atenas, em 2004.

Agora, o que melou mesmo nesses jogos, desapontando muita gente (inclusive eu), enquanto fã de basquete, foi a seleção masculina, treinada pelo recém-demitido técnico argentino Rubén Magnano. A seleção campeã panamericana de 2013 não foi páreo para a Austrália, Croácia e Argentina, e acabou eliminada do torneio na primeira fase, ganhando apenas de Espanha e Nigéria. Ao menos o que valeu foi que a seleção de Nenê, Marcelo Huertas e Benite, e que perdeu Anderson Varejão (contundido antes da competição), foi a emocionante vitória contra a Espanha, vice-campeã da Olimpíada passada, liderada pelo famoso e veterano pivô, Paul Gasol. Também nesse caso, o fator torcida foi fundamental, e os desestabilizados jogadores espanhóis acabaram entregando o jogo aos brasileiros, nos segundos finais da partida. Quase que conseguíamos a classificação contra a campeã olímpica Argentina (famosa por ter o feito histórico de já ter derrotado os consagrados Estados Unidos numa Olimpíada), em duas prorrogações, mas acabamos deixando que eles vencessem no final, perdendo o sonho olímpico de mais uma medalha. O Brasil necessitará de muito trabalho até conseguir reerguer o basquete nacional.

No handebol masculino e no polo aquático, apesar da participação louvável de nossos jogadores, ganhando jogos importantes, não passamos das quartas de final, e o Brasil ainda deve medalhas importantes em ambas as modalidades, onde ainda não tem grande tradição.

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13) ESTRELAS DO PASSADO, COMO COMENTARISTAS NA SPORT TV: Só mesmo nessa Olimpíada tive a oportunidade de desfrutar de um end of the night de gala, após as transmissões dos jogos, acompanhando pela madrugada o programa de comentários sobre os jogos da Sport TV, que contratou como comentaristas internacionais, com direito a dubladores e tudo, algumas das maiores estrelas olímpicas do esporte na história. Nas noites destes Jogos, pude ver e escutar a inesquecível e simpática Nadia Comaneci, a lendária ginasta romena, campeã das Olimpíadas de Montreal, em 1976 (única nota "10" nas barras assimétricas, com execuções absolutamente perfeitas). Também foram convidados para comentar os Jogos do Rio, o velocista norte-americano Carl Lewis, campeão olímpico dos 100 metros na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, e seu compatriota, o mítico nadador Mark Spitz, campeão da natação nos Jogos de Munique, em 1972. Para completar o quadro de ilustres figuras que vi, já envelhecidas, mas ainda campeãs e carismáticas, participou dos programas de TV o grande campeão do salto em altura, o cubano Javier Sotomayor, ouro na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Quer time de comentadores melhor do que esse?

14) FESTAS DE ABERTURA E ENCERRAMENTO INESQUECÍVEIS: Afinal, não houve atentado terrorista, e nem a violência do crime organizado no Rio de Janeiro proporcionou surpresas desagradáveis, como uma escalada aterradora de crimes contra turistas ou atletas. Mantida em um forte esquema de segurança, a Vila Olímpica não se viu atacada por arrastões de bandidos, e, tirando o triste episódio midiático envolvendo o nadador Ryan Lochte, a imagem do Rio e do Brasil não ficaram arranhadas e apareceram bem na fita, em luzes, som e cores, para a imprensa internacional. Na verdade, para os gringos, a imagem do brasileiro enquanto povo festeiro, que gosta de samba e de um bom carnaval, acabou prevalecendo no cenário da maior festa carnavalesca do mundo, com direito a uma explosão da alegria esfuziante do povo brasileiro, na enorme festa nunca antes vista no estádio do Maracanã, cenário da abertura e do encerramento dos Jogos. Quem foi, gostou muito e, quem não foi, apreciou as imagens pela televisão, elogiando a organização. No final das contas, tudo acabou em festa, samba, suor e carnaval!! Ainda bem para nós!

15) AS LIÇÕES PARA O FUTURO: Agora, que venha Tóquio. A realização da Olimpíada no Japão já é um sólido projeto em 2020 para os brasileiros em geral e especialmente para o COB. Até deu vontade de conhecer pessoalmente a "Terra do Sol Nascente". Até lá, muito tem que ser refletido, sobre nossas derrotas e vitórias, e sobretudo qual será o principal legado que a Olimpíada deixou para o Brasil e para o Rio de Janeiro. Muito dinheiro foi gasto, investimentos foram feitos nos atletas olímpicos (e paraolímpicos), num país em crise política e econômica, e, resta saber, se dias melhores virão também para o esporte brasileiro. A meu ver, uma das lições mais importantes dos Jogos Olímpicos no Rio é que somos capazes, e não obstante a roubalheira na gestão dos negócios públicos, por administrações de governos duvidosos, tanto na seara municipal, quanto estadual e federal, somos capazes de fazer bonito com todas as críticas, e saímos daquele "complexo de vira-lata" nelsonrodrigueano. Agora, antes que eu me esqueça, "Fora Temer" e nos preparamos para conquistar medalhas no Japão. Até lá, Sayonara!!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

POLÍTICA: O DIA EM QUE TODOS FOMOS FEITOS DE PALHAÇOS (OU, O VOTO DO TIRIRICA NO IMPEACHMENT DA PRESIDENTE)

Francisco Everardo Oliveira Silva, artista, político, compositor e humorista cearense, exerceu em um domingo, o dia 17 de abril de 2016, o papel que mais o celebrizou nacionalmente. Na votação na Câmara dos Deputados que autorizava o Congresso brasileiro a instaurar um processo de impeachment contra a Presidente da República, Dilma Roussef, Francisco Everardo preferiu votar como o Palhaço Tiririca. Ele não precisou usar as vestes coloridas que o notabilizaram na televisão ou em sua campanha para ser eleito deputado federal, ou o indefectível chapéu loiro e boné que caracterizam o seu personagem; mas, de cara limpa, paletó e gravata, não deixou de exercer um papel executado com maestria por, ao menos, um terço dos parlamentares que se encontravam diante do polêmico, conservador e fleumático Presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (réu em processo criminal por corrupção e outros crimes). Ao dizer "sim" ao afastamento de uma presidente democraticamente eleita, Tiririca apenas demonstrou ser o bobo de uma corte de palhaços, que disfarçados de legisladores, desempenharam um papel horrendo, numa ópera bufa que mais parecia um filme trash de terror.

Foram tantos apelos à família, à ética, ao Juiz Sérgio Moro (responsável pela "Operação Lavajato", polêmica ação policial e judicial que resultou na prisão de vários empresários poderosos e instauração de processos contra uma série de políticos de partidos que apoiavam a Presidente Roussef), xingamentos contra adversários e até uma homenagem a um falecido coronel do exército, responsável por montar um centro de torturas na ditadura militar (obra do reaçonário deputado de extrema-direita, Jair Bolsonaro), que a votação parlamentar de domingo pareceu uma espécie de freakshow da política nacional.  Para muitos, que assistiram a votação que culminou nos 342 votos necessários para instaurar o processo de afastamento da presidente, mesmo para os que apoiavam um golpe legislativo travestido de processo legal, parece que a lição foi dura, quando milhões de brasileiros puderam observar, por 30 segundos a cada voto, a olho nu e despidos de qualquer assessoria de marketing ou maquiagem, diversos homens e mulheres, eleitos para a Câmara Federal na função de representar o povo, sendo, simplesmente, eles mesmos: uma expressão do eleitorado que os elegeu.

Agora, sabemos que parte do eleitorado que compõe a nação brasileira é conservador, homofóbico, machista, autoritário, hipócrita, fundamentalista religioso, oligarca, clientelista, ufanista, xenófobo, com forte preconceito de classe, semialfabetizado, ou mesmo ignorante em muitos assuntos e temas. O episódio da votação de Tiririca apenas expôs como, um artista popular de humor rasteiro, idiotizado, e de qualidade duvidosa, que durante anos assombrou os adoradores do bom senso, em programas de TV em rede nacional, conseguiu chegar a um dos mais proeminentes postos do poder, chegando ao status de legislador, ao ganhar uma vaga de deputado no Parlamento brasileiro. Tal proeza foi conquistada pelo mesmo processo democrático defendido por democratas genuínos, revolucionários, humanistas, militantes políticos e sociais perseguidos pela ditadura, intelectuais e artistas engajados, religiosos comprometidos com causas sociais e toda a esfera de pensadores, juristas, profissionais liberais, sindicalistas e estudantes, que, trinta anos antes, estavam nas ruas clamando pelo fim de uma ditadura de 20 anos, por eleições diretas para presidente e por uma nova carta constitucional que resultou numa Assembleia Nacional Constituinte, e a promulgação da vigente Constituição de 1988. Se a luta dos movimentos sociais e partidos encampados por pessoas tão interessantes nos trouxe um país melhor e mais democrático, por que Tiririca e seu voto, junto com o de uma maioria oportunista ou equivocada comprometeu a própria democracia que eles, parlamentares, juraram tanto defender? O que deu errado?

Importante salientar de onde veio Tiririca e de onde partiu seu eleitorado, para compreender que, em 14 anos de lulo-petismo, os sucessivos governos democráticos e de esquerda, do ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-guerrilheira, Dilma Roussef, foram incapazes de propor autênticas reformas institucionais no país, que não passassem apenas por políticas graduais de inclusão social na economia. Consciências não foram modificadas, apesar dos bolsos sim. Aproveitando-se de momentos bem sucedidos no mercado internacional (com a crise da economia norte-americana e o crescimento do mercado chinês), países da América Latina como Brasil e Argentina esperavam lograr êxito com uma expansão dos commodities (principais matérias primas brasileiras) no comércio global e uma balança comercial provisoriamente favorável, esquecendo-se que reformas intensas teriam que ser feitas, principalmente para os menos favorecidos, estabelecendo-se uma verdadeira ruptura institucional com os mais ricos. Como os personagens do clássico filme Metrópolis, de Fritz Lang, Lula esperava, que com seu alto grau de carisma e articulação política, conseguiria conciliar para sempre os interesses do capital e do trabalho, numa aliança entre patrões e empregados que levasse a um país de brasileiros "que não desistiam nunca". 

Ao contrário disso, a fonte secou. Eleitores do deputado Tiririca são muitos daqueles beneficiados pelo boom econômico dos primeiros anos do século, que saíram da pobreza extrema, auxiliados por programas assistenciais, em sua maioria analfabetos, que conseguiram prover os filhos de certo grau de instrução, e, em alguns casos, chegaram a condição de formar uma nascente classe média baixa, que conseguiu até mesmo colocar os filhos na universidade, no mercado de trabalho e ter acesso a uma gama de bens de consumo, graças à flexibilização dos juros. Lula e Dilma fizeram em pouco tempo um exército de novos consumidores para o capital, mas não "novos ricos", numa estrutura frágil que poderia se romper (como se rompeu), na primeira grande crise econômica que o país passou a contrair. 

Hoje, eleitores de Tiririca sequer sabem o que é FIES (que pode ser confundida com a palavra "festa", regada a forró, funk ou as músicas sexistas e de conteúdo racista que Tiririca tanto expôs nas rádios e programas de televisão). O jargão prolixo, intrincado e aborrecido dos economistas foi incapaz de ser transmitido ao povão, através dos arautos do governo que cai, fazendo com que milhões aplaudissem a iniciativa midiática de um juiz autoritário e senhor de si, valendo-se de uma Polícia Federal composta por vários autoridades e agentes opositores do governo e comprometidos com uma ideologia de lei e ordem avessa ao garantismo constitucional, que passaram a tratar apoiadores do governo e seus representantes não como investigados ou réus, mas como culpados por todo tipo de corrupção que assolasse a República (e destruísse a empresa estatal mais bem sucedida do país, a petrolífera Petrobrás). 

O que dói mais talvez não seja o voto de Tiririca no Congresso Nacional, mas sim a forma como, dias depois, caçoou da nação, num momento de descontração captado por uma câmera de celular, que ganhou as redes sociais e o conhecimento público. No vídeo, o deputado bissexto e artista full time faz uma brincadeira com as homenagens que os deputados mais exaltados fizeram em seus votos. Daria até para rir, se não fosse motivo para chorar!! Ao escarnecer de sua própria função pública, e comprometer a importância do mandato parlamentar, Tiririca prestou um verdadeiro desserviço a todos que o achavam ao menos engraçado. Ao dizer que, ao expulsar Dilma do Palácio do Planalto, votando "sim", o deputado diz que votou "pelo coração", é o meu coração e o de muitos democratas que dói ao ver tanta inconsequência e alienação. Nunca estivemos tão mal representados. Ao compor um Poder Legislativo dos mais conservadores desde o golpe de 1964, o deputado Francisco Everardo demonstra porque, na primeira vez em que falou num microfone na Câmara, que na verdade estava ali o bom e velho Tiririca, a zombar com humor de tudo, até mesmo da própria República. Ali, expressando seu "sim" na Câmara dos Deputados, Tiririca demonstrou que, de político, ele não passa de um bom palhaço (ou seriam os dois conceitos a mesma coisa?).

terça-feira, 15 de março de 2016

SAÚDE E MÚSICA: A surdez de Brian Johnson do AC/DC e de como devemos cuidar de nossos ouvidos!!

Desde que eu comprei meu primeiro aparelho de som, com o dinheiro do primeiro emprego, eu ouvia som alto. Adorava me trancar no meu quarto e ouvir o som dos preferidos discos de rock a todo volume. Para desespero de meus pais que viviam na mesma casa, eu era um jovem de 20 anos de idade, no começo dos anos noventa, que gostava de música barulhenta, deixando estourar as caixas de som escutando os discos de bandas de  hard rock ou heavy metal como Metallica, Iron Maiden e, principalmente, AC/DC.

Passados vinte e cinco anos, eis que sou surpreendido com a notícia divulgada nos meios de comunicação que o AC/DC cancelou parte dos shows de sua turnê de 2016, por conta da perda de audição do seu vocalista, o cantor Brian Johnson. Segundo os médicos, se Brian continuasse a se apresentar ininterruptamente com sua banda em apresentações pelo mundo afora, a tendência é de que ele ficasse completamente surdo até o final do ano. Quem é fã de rock de verdade, e acompanhou grandes grupos de antigamente, desde o comecinho dos anos oitenta e final dos setenta do século passado, naturalmente associava a famosa banda australiana não só com seu carismático guitarrista, Angus Young, mas também com seu vocalista, com seu indefectível boné de caminhoneiro. Pois é, quem soube que o cara estava ficando surdo, não deixou de ficar triste e chocado. Brian passou os últimos 36 anos de sua extensa e barulhenta vida cantando com o AC/DC e vê-lo fora dos palcos é realmente lamentável.

A história de Brian Jonhson, sua dedicação ao rock'n roll e a forma como está perdendo a audição, não deixa de se identificar com a minha. Há mais ou menos um ano, quase dois meses antes de nascer o meu filho, fui diagnosticado com perda auditiva. O sintoma que em mim decorreu afeta diariamente muitas pessoas que trabalham com som alto (principalmente músicos), e é chamado na medicina de tinnitus. Trata-se de um zumbido característico, com sons diversificados, dependendo de cada um que tenha o problema, que só a pessoa consegue escutar. Pode vir sob diversas formas, sob a forma de um chiado como uma panela de pressão ou um antigo televisor fora de  sintonia, ou mesmo se assemelhar a um tambor ou canto de uma cigarra. Isso se deve pelo fato de que uma parte das células auditivas já não responde mais ao estímulo externo, e para compensar o ouvido fabrica sons próprios para suprir o espaço vazio deixado por alguns sons que não são mais percebidos no ambiente, fazendo com que o cérebro leia isso como um zumbido.

Em casos avançados, com a falta do tratamento devido e com o passar dos anos, o zumbido pode tomar o lugar da audição por completo, até o indivíduo ficar totalmente surdo. Um dos casos mais célebres, é do guitarrista Pete Towshend, da icônica banda de rock, The Who. Segundo Towshend, ele sofria do problema desde os trinta anos, mas só foi ligar pra valer nos anos mais recentes, quando viu que sua saúde auditiva estava realmente prejudicada, chegando ao ponto de ele só ensaiar os sons de sua guitarra, se estiver bem próximo do amplificador. Recentemente, o ex-guitarrista do Oasis e atual líder do Hying Flying Birds, o britânico Noel Gallagher, também declarou a imprensa que padece do mesmo problema. No meu caso, os primeiros meses foram dramáticos, e tive que me acostumar com uma nova medicação para aliviar algo que permanecerá no meu ouvido até o final de minha vida, além de ter de usar esporadicamente aparelho para surdez. É chato, mas nunca tão terrível como perder a audição definitivamente, como se deu com compositores da estirpe de Ludwig Beethoven; mas é suficientemente desagradável para você poder rever o tempo que passou estragando sua audição, maltratando seus ouvidos, ouvindo som no volume máximo, seja dentro de casa, usando um fone de ouvido, escutando música dentro do carro, ao lado de potentes caixas de som durante shows de rock, ou até mesmo frequentando diariamente uma barulhenta sala de aula.

Brian Johson já está com 68 anos e, praticamente demitido do AC/DC, não se sabe se ele buscará a justa aposentadoria ou ainda se envolverá em outras aventuras sonoras, cantando altos rocks com seu falsete inesquecível. Sei que sentirei falta de um cantor como ele nos palcos, mas sentiria muito mais a falta de qualquer coisa se eu não pudesse simplesmente mais escutar. Que minha mensagem sirva de alento para quem sofre do mesmo problema, mas que lhe traga também esperança e tranquilidade, pois, ao me tornar "amigo do silêncio", convivendo relaxadamente com minha perda auditiva, fui me descobrindo uma pessoa melhor, chegando a ignorar por completo alguns ruídos estranhos que aparecem de vez em quando no meu ouvido, principalmente porque reaprendi a escutar. Isso mesmo, pra quem gosta de som alto, e não perde de jeito nenhum assistir a um show do Metallica, do Ozzy ou do Ramstein no mais alto e bom som, não custa nada levar um protetor auricular, caso você não queira realmente se afastar do palco, pra proteger os ouvidos. Trata-se de uma autêntica reeducação sonora. Agora, pensando melhor, creio que custa, sim, muito caro, ir para um show desses com as orelhas desprotegidas ou escutar som no seu fone, sem adotar as devidas precauções. Trata-se  do custo de sua audição ficar definitivamente comprometida, como agora comprometeu tristemente nosso querido Brian Johnson. Que isso sirva de lição,  a todos nós, e que o som não deixe de rolar nas caixas por conta disso! Boa sorte, Brian!!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

MORREU DAVID BOWIE (ou melhor, Ziggy Stardust retornou ao seu planeta)

Mal estava eu lamentando na semana anterior o falecimento de Lemmy Kilmister, da cultuada banda Motorhead, eis que mais um personagem símbolo do rock do século XX bateu as botas!! Morreu David Bowie. Reservado em sua vida pessoal e distante (como se fosse possível) dos holofotes durante um bom período (ele passou quase dez anos sem gravar um disco, até o lançamento de Next Day, em 2013), Bowie morreu domingo (dia 10 de janeiro), após ter completado recentemente 69 anos, no dia em que meu filho fez exatamente nove meses de idade. Segundo o que foi divulgado oficialmente, ele lutava contra um câncer há pelo menos 18 meses, e acompanhado de seus entes queridos, faleceu em casa, contando apenas com a presença de seus familiares. Ainda luto para acreditar, apesar de saber o quão mortais são as pessoas, mesmo que sejam seus ídolos musicais da juventude.

Alguns ignorantes não sabem da força de um ídolo. Não se trata de se emocionar por alguém que sequer você conheceu pessoalmente, ou de se valer de idolatria. Nada disso!! Quando chorei a morte de outros grandes artistas, como Freddie Mercury, Renato Russo, Cássia Eller e George Harrison, chorei não por ser parente ou amigo pessoal, mas sim pelo triste fato de saber que pessoas tão talentosas não estarão mais vivas para cantar e tocar as canções tão bonitas que fizeram minha geração. David Bowie, assim como outros grandes artistas que ainda estão aqui ou que já partiram, representam uma juventude que não retorna mais, de um tempo que não volta mais, e que ficará para os mais jovens datado apenas nos livros de história. 

Recordo da primeira vez que vi David Bowie, nos anos oitenta, na minha adolescência em Brasília, quando Let's Dance explodiu nas paradas de sucesso, com música tocada em exaustão nas rádios e clipe divulgado na TV. Na época não havia internet e nem celular, e a divulgação dos artistas de fora era feita toda pela mídia descrita acima.  Além das descobertas que fiz, perambulando entre prateleiras de discos de vinil, nas lojas de música,  observei que o Bowie da minha juventude, era então o Bowie da década de 1980, com a febre da New Wave, a participação do cantor nos filmes Labirinto e Furyo-em nome da honra. Quando eu vi  David Bowie, em sua primeira aparição, logo me deparei com a androginia tão associada ao cantor nos anos 1970. Com aquele cabelo loiro oxigenado, mas o visual frágil e ao mesmo tempo elegante, eu me indagava se quem estava cantando, com aquela voz grossa de intenso barítono, era  realmente um homem ou uma mulher, tamanho o impacto de sua figura. Vieram outros clipes que também fizeram a minha cabeça, como China Girl, Absolute Begginers e Modern Love, além de Dancing on the Street, onde pela primeira vez vi Bowie cantando em parceria com Mick Jagger, dos Rolling Stones (na parceira que iria fomentar durante anos a fofoca da suposta "ficada" sexual entre os dois). Foi com essas músicas e clipes que, à medida que fui crescendo, fui tomando conhecimento e admiração pela obra de um artista tão performático. Bowie também representava para mim a associação com outro ídolo, Freddie Mercury, do Queen, no famoso dueto em que ambos esbanjam graça vocal, na clássica canção Under Pressure, até hoje tocada à exaustão nas rádios, festas e pubs do mundo inteiro. Sobre essa última música, cabe aqui o belíssimo registro da parceria de Bowie com a cantora Annie Lenox, do Eurithmics, cantando essa linda canção em homenagem ao vocalista do Queen, após sua morte por Aids, em 1991, num clássico show tributo em Wembley.

Mas foi nos anos noventa, já um jovem adulto e universitário, que me elevei da condição de curioso para a de fã, ao escutar as músicas de David Bowie. A década tinha passado com a reviravolta musical rockeira do grunge de bandas como Nirvana, Alice and Chains e Soundgarden, e com a MTV ainda bombando e com seu sinal de televisão propagado por todo o Brasil, pude assistir a mais clipes e ao lançamento de novos discos de Bowie. O loirão tinha se voltado agora para uma pegada mais techno, antecipando-se ao caminho da música eletrônica, que outros artistas do rock vieram a aderir, como o U2, no célebre disco Pop; mas menos no avanço tecnológico de sua fase digital  e mais em seu passado no glamrock, é que eu passei a admirar ainda mais David Bowie.

Ainda no cinema, eu não poderia me esquecer da atuação de David como ator  no cult movie, Fome de Viver, com Catherine Deneuve e Susan Sarandon, com direito a trilha sonora da banda de rock gótico Bauhaus. Bowie interpretava o marido vampiro da protagonista, papel exercido por madame Deneuve, num filme de terror erótico dirigido pelo cineasta Tony Scott, extremamente classudo.Mais recentemente, nos últimos anos, Bowie pôde ser visto mais envelhecido, interpretando um personagem real, o inventor Nikolai Tesla, no filme O Grande Truque, estrelado por dois dos grandes e ótimos atores dos últimos anos, Hugh Jackman e Cristian Bale.



Agora, um marco cinematográfico ajuda a explicar essa minha admiração por Bowie, principalmente para quem gosta do (bom) cinema. Em 1998 assisti ao filme Velvet Goldmine, do diretor Todd Haynes e estrelado pelos atores Jonathan Rhys Meyers, Christian Bale  e Ewan MgGregor. Trata-se de uma cinebiografia não autorizada de Bowie, e no filme, não obstante o músico não ter autorizado qualquer canção para a película, é possível ver o quanto o astro era magnético na sua dupla persona de cantor andrógino e space boy. O filme me despertou a curiosidade para conhecer os discos mais saudados dele pela crítica, nos anos setenta, e através deles eu pude conhecer obras que escuto e cantarolo até hoje, como Life on Mars, Alladin Sane, Starman,e, principalmente, obras-primas como Space Oddity e Ziggy Stardust. Eu, fã de filmes de ficção científica, vi-me aproximando-se mais e mais do som de David Bowie por conta de seu alterego estelar, nos palcos e shows dos anos 1970, quando Bowie subia aos palcos fantasiado de Ziggy, um alienígena que tinha chegado a Terra, e, desolado com as guerras e conflitos inexplicáveis da época, decidiu montar uma banda e tocar sua guitarra. Ziggy Stardust era a mais plena expressão da minha genuína alegria nerd, numa fase juvenil em que eu já me empolgava com Star Wars e filmes como ET-o Extraterrestre. Vi em suas performances, como a experiência de Bowie como mímico e estudante do teatro japonês Kabuki, dava um ar de pura classe em suas interpretações musicais e performances de palco, e entendi como, anos antes, aquele jovem moleque londrino, nascido no violento subúrbio inglês de Brixton, sem conseguir emplacar nenhum sucesso com seus discos iniciais na segunda metade dos anos 1960, tornou-se um ídolo pop na década seguinte, contando com parceiros importantes ao longo da carreira, como o exímio guitarrista Mick Ronsom e o produtor musical Tony Visconti (responsável, inclusive, pelo último disco do artista).

Ao se conhecer melhor a história do artista, é possível conhecer, mais ainda, a própria história da música nas últimas décadas do século passado. Aquele ouvinte, que se apresente como novato em Bowie, poderá descobrir que o cara não foi apenas um músico de carreira inicialmente mediana que se tornou um astro poderoso anos depois, apesar de nunca ter sido uma unanimidade no ambiente artístico (Caetano Veloso, no Brasil, por exemplo, quando já era famoso com o Tropicalismo, desdenhava das músicas de Bowie, por considerá-las sem graça). Na verdade, na década de 1970, atuando também como produtor musical, David Bowie catapultou a carreira de músicos como Lou Reed, ao produzir o antológico álbum Transformer (que eu já comentei aqui quando do falecimento do próprio Reed, ano passado). Iggy Pop foi outro músico redimido pela ajuda do amigo de um olho azul e outro castanho, quando ao sair da banda punk Stooges e estar completamente falido,  afundado na heroína e na birita, Bowie deu uma mãozinha, produzindo o disco do indomável rockeiro norte-americano, lançando o ótimo álbum, Lust for Life (que acabou virando trilha sonora do filme Trainspotting, aquele que lançou mundialmente o ator escocês Ewan MgGregor).


Bowie era um multiartista, e como músico instrumentista em seu saxofone, ora como cantor, ator, arranjador e produtor musical, enveredou pelas mais extensas vertentes da música, sem perder a originalidade. Sua sonoridade ia do glam até o hard rock, passando pela música negra do soul , até chegar na música eletrônica e flertar com o jazz, como fez em seu disco testamento BlackStar, lançado no dia de seu aniversário e dois dias antes de sua morte. São 50 anos de talento musical espalhados em 26 discos, muitos deles memoráveis. Num excelente artigo escrito para o site Uol, o famoso crítico, músico e radialista Kid Vinil, explicou que muitas vertentes musicais contemporâneas, como o punk rock, tiveram influência da música de David Bowie. Se Bowie não tivesse existido, a cena musical internacional teria sido muito mais chata e previsível. Grupos distintos em diversas décadas, como o Sex Pistols, Siouxsie and the Bansheess, Bauhaus, Pixies, Radiohead, Placebo, Nine Inch Nails, Muse, The Killers, beberam da influência do "camaleão do rock". Não obstante eu insistir que David Bowie não era apenas um cantor de rock, mas sim um músico mais amplo, com composições de músicas ora alegres ou soturnas, mas ao mesmo tempo irônicas e enigmáticas. Como diria o  falecido sociólogo alemão Niklas Luhmann, Bowie era uma espécie de "observador de segunda ordem", que observa um distante planeta Terra, ao mesmo tempo fazendo parte e não fazendo parte de nosso universo terrestre. Como Bowie fazia uma música do tipo "espacial", até o astronauta inglês Tim Peake, que está em órbita, numa missão na Estação Espacial  Internacional, lamentou a morte do cantor, publicando em seu twitter um trecho da música Starman, um dos maiores sucessos do artista, regravado no Brasil pela banda gaúcha Nenhum dos Nós, sob o título Astronauta de Mármore.

Para aqueles que querem, verdadeiramente, iniciar-se na música de Bowie, e compreender as sutilezas, genialidade, e riqueza das melodias e letras de suas canções, encantando-se com  a complexidade do finado artista britânico, recomendo os ótimos discos Low, Heroes e Lodger, que, juntos, compõem a chamada "trilogia de Berlim", tempo em que o músico ficou exilado na capital da Alemanha, entre 1976 e 1978, enquanto tentava se livrar do vício em cocaína e da turbulência da vida de rockstar vivida em Los Angeles. Se quiser, o ouvinte pode ficar escutando, antes disso,o também excelente álbum Station to Station, considerado para muitos críticos  a  obra-prima do cantor e compositor inglês (apesar de os fãs mais puristas preferirem Hunky Dory, da fase pré-Ziggy Stardust do cantor), produzido por uma das lendas do rock, o ex-músico do Roxy Music e futuro produtor de bandas como U2, o célebre Brian Eno.

Encerro aqui essas linhas, rendendo a homenagem que achei devida a um de meus grandes ídolos na música e no estilo, que merecem ser lembradas de forma perene, através do registro dessa postagem. Como eu já havia dito no twitter, prefiro pensar que David Bowie transformou-se novamente em Ziggy Stardust e retornou para seu planeta de origem. Quanto a mim, continuo aqui na Terra como o Major Tom de Space Oddity, esperando também sua hora (longínqua) de partir: Ground control to Major Tom!! The Planet Earth is blue and there's nothing I can do!!!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?