sexta-feira, 27 de setembro de 2019

CASO GUSTAVO NEGREIROS: Liberdade de expressão ou o suposto direito de ser desagradável?

Gustavo Negreiros é um jornalista e famoso blogueiro potiguar, que até pouco dias atrás participava de um programa da rádio 96 FM, bem como era contratado da TV Tropical. Negreiros se comunica bem com seu público, não tem papas na língua, faz comentários críticos e aguçados, principalmente contra os adversários. O radialista gabava-se de ser uma das vozes minoritárias no Rio Grande do Norte contra a governadora petista, Fátima Bezerra, fazendo questão de se identificar como blogueiro de oposição. Seu blog na internet tem um largo acesso entre seus leitores e passou a ser um dos veículos de comunicação do eleitorado conservador ou de extrema-direita, do estado potiguar.

Conheço e admiro diversos jornalistas e comunicadores do Rio Grande do Norte, tanto de velhas quanto novas gerações. Cito aqui, publicamente, talentosos profissionais como Woden Madruga, Vicente Serejo, Osair Vasconcelos, o finado e saudoso amigo Carlos de Souza (falecido precocemente e que esteja agora entre os anjos, celebrando sua genialidade e espirituosidade com uma devida recepção no céu), Ana Ruth Dantas, Daniela Freire, Margot Ferreira, Ailton Medeiros, Roberto Guedes, dentre tantos outros. Gustavo Negreiros era bem conhecido entre esse meio, bem como nas suas posições políticas e ideológicas. Num regime democrático, onde o direito e conflito de opinião é salutar, e como sou contrário ao pensamento único, ter blogueiros e jornalistas com posições políticas diferentes do governo de ocasião é sempre bom, para fomentar o debate. O problema é quando o debate cede espaço à exibição do comentário grotesco e do mau gosto.

Por conceito de Estado de direito, pegando a célebre definição do jurista e filósofo norte-americano, Ronald Dworkin, entende-se um Estado onde tanto o governo quanto os cidadãos são obrigados a seguir regras públicas, até que elas sejam mudadas; ou seja, são estabelecidos limites tanto em relação aos governantes com os governados quanto em relação aos governados entre si. O direito vale para todos, sendo o limite do exercício do direito de um o começo da obrigação do outro e vice-versa. Em termos populares, é como se eu dissesse que todos tem direitos (inclusive o próprio Estado), mas ninguém pode abusar do direito que tem.

Transpondo essa questão conceitual para o mundo do jornalismo e das redes sociais, percebo que muitos comunicadores da chamada "Nova Direita" brasileira, agora se apegam ao tema do exercício da liberdade de expressão, como um direito fundamental, para justificar uma série de insultos a outrem, proferidos publicamente, disfarçados sob o apelido de pensamento crítico. Segundo eles, a esquerda e seus acólitos não admitiria a crítica, por ter sido governo no país por quase 16 anos e ter comprometido a mentalidade acadêmica, a imprensa e a comunidade artística durante décadas, num termo, que os seguidores de Olavo de Carvalho chamam, em sua teoria conspiratória, de "marxismo cultural". Ao revés, qualquer reação indignada de alguém tocado pelo insulto (epa!! digo, "pensamento crítico"!), seria mero "mimimi", apego ao politicamente correto, ou demagogia oriunda de esquerdopatia mesmo, uma vez que na sua cegueira ideológica e bolivariana, o suposto atingido não se permitiria enxergar que todos tem o direito hoje de serem grosseiros, como forma de demonstrar sua indignação aos corruptos tempos do petismo; pois, segundo essa visão, tudo o que tenha ou revele um pensamento de esquerda significa tudo de ruim que pode existir na história do mundo.

Creio que ao menos pensa (ou pensava até ontem) assim, o blogueiro Gustavo Negreiros em sua mordacidade, engenhosamente construída, a partir de seus comentários políticos, seja no seu blog ou nas suas falas na rádio. Talvez ele tenha como inspiração ícones jornalísticos do antiesquerdismo ou do antipetismo, como Diogo Mainardi, do Antagonista; ou tenha predileção por um certo e polêmico Augusto Nunes, da Jovem Pan. Ambos tem um estilo cáustico e irônico de comentar, não pesam as palavras, e, mesmo que seus críticos acreditem que eles digam absurdos, exercem seu papel de jornalistas ao comunicar, ao menos que seja ideologicamente de uma determinada forma e direcionados para um público que irá receber seus comentários como um bálsamo de sabedoria. Até agora, reitero, nada contra isso!! Numa democracia cada um fala para o seu público.

O problema é quando, eventualmente, um jornalista de renome ou grande audiência comete deslizes éticos, pois gafes supostamente imperdoáveis, cometidas diante de câmeras ou mediante um uso de microfone, parecem significar o atestado de óbito da carreira profissional, ao proferirem frases ou comentários infelizes durante um programa ou nos bastidores de um evento jornalístico. Foi assim que caiu em desgraça William Wack na Rede Globo, por comentário infeliz sobre raça durante uma transmissão de jornal em Washington, e foi assim como o apresentador e comediante Rafinha Bastos foi penalizado na televisão, no extinto programa CQC da Band, quando falou em rede nacional que "comeria" determinada cantora grávida e seu bebê. Momentos infelizes que revelam  a fraqueza humana, mas, principalmente, momentos que identificam propriamente o DNA ideológico de uma pessoa, quem ela realmente é ou quem ela se revela do seu próprio inconsciente. Numa palavra pomposa, suas idiossincrasias, ou, no popular, seu jeito de ser.  Todos temos, em larga ou menos escala, nossos esqueletos no armário; mas alguns parecem ter um guarda-roupa com ossadas inteiras!

Neste momento, a gafe cometida por Gustavo Negreiros saiu dos meios de comunicação locais e foi parar no noticiário nacional, quando foi anunciada sua demissão de dois veículos jornalísticos, após ter se referido maldosamente, num programa de rádio, à ativista sueca, ambientalista, Greta Thunberg, chamando-a de "histérica", "mal amada" e alegando que a sueca "estava precisando de sexo".  O jornalista ainda insinuou que a ativista seria consumidora de drogas, ao afirmar que a garota deveria fumar seu baseado de maconha e voltar para a Suécia. Após a repercussão da fala, cujas imagens foram viralizadas exaustivamente na internet, no mesmo dia, no site da Revista Fórum, foi revelado que o jornalista já havia se referido pejorativamente à ativista num comentário da TV Tropical, chamando a moça de "vagabundinha".  O detalhe é que Greta tem apenas 16 anos, é diagnosticada como portadora de um tipo de autismo, já recebeu diversos prêmios internacionais por conta de seu ativismo, ao pregar contra às mudanças climáticas resultantes da ação humana e é uma das indicadas ao Prêmio Nobel da Paz. Para seus críticos, principalmente para os conservadores e para aqueles que criticam a militância ambientalista, Greta é apenas uma inocente útil, um escudo humano para alguns, uma oportunista, ou, simplesmente, uma garota com problemas mentais que só quer aparecer. Seu protagonismo e a fama mundial deu-se também por conquistar a antipatia de chefes de Estado como Donald Trump, que se juntou ao coro de críticos, com comentários sarcásticos contra ela nas redes sociais, procurando desqualificar a jovem sueca, seja pela sua pouca idade, seja pelo problema de saúde que ela tem.

Entretanto, parece que ninguém até agora tinha se referido a Greta Thunberg de forma tão insultante quanto Gustavo Negreiros. Seus comentários grosseiros repercutiram tanto que a rádio cujo programa ele participava com seus comentários perdeu patrocinadores, diversos movimentos sociais e coletivos virtuais organizados iniciaram campanha contra sua falas na internet, viralizando o vídeo das frases infelizes, resultando em sua demissão, e o próprio jornalista foi obrigado a se retratar publicamente em seu blog. Durou pouco tempo o arrependimento. Após reconhecer que tinha se excedido e ter formulado comentários infelizes, o jornalista nordestino voltou a atacar seus desafetos, dirigindo todo seu ódio aos militantes de esquerda e ao governo estadual petista, como se fossem os reais causadores de seu infortúnio. Não demorou para dizer que estava sendo perseguido por uma patrulha ideológica, como se os insultos dirigidos contra Thunberg não tivessem partido de sua própria boca. Como eleitor devotado do presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, Gustavo Negreiros só faltou utilizar frase que já ficou célebre entre os inimigos do petismo, militantes conservadores da Nova Direita brazuca, que diante das mais estapafúrdias situações ou para justificar qualquer barbaridade verbal, bradam em uníssono: "a culpa é do PT!".

A ativista adolescente já foi atacada nas redes sociais por ninguém menos que Eduardo Bolsonaro, deputado federal, candidato a embaixador nos Estados Unidos e filho do presidente brasileiro, ídolo político de Negreiros. O ódio dos Bolsonaro a Thunberg, bem como de Trump e de qualquer outro líder conservador que acredite que aquecimento global é lorota de esquerdistas, é justificável, principalmente depois que o Brasil se meteu numa enrascada diplomática histórica, com direito à briga com o presidente da França, por conta das questões das queimadas na Amazônia e a fala polêmica do presidente nas Nações Unidas, onde só faltou acusar os índios caiapós ou ianomâmis de serem os reais causadores dos incêndios florestais. Talvez por isso, o jornalista potiguar tenha se sentido à vontade para destratar a moça nos meios de comunicação, mesmo sem ter tido o cuidado de saber o mínimo de sua biografia. Afinal, como diz o jovem radialista da Jovem Pan, Caio Coppola, comentários agressivos seriam apenas exercício de liberdade de expressão. Será?

Liberdade de pensamento é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal no seu artigo 5º, inciso IV, que além de dizer que é livre o pensamento e vedado o anonimato, ainda se refere a uma consequência direta desse direito, que é a liberdade de expressão, prevista no artigo 220 do mesmo texto constitucional, ao tratar da comunicação, informando que nenhum pensamento ou expressão sofrerá restrição, na forma da Constituição.

Ocorre que expressar pensamento não se confunde com injúria, com o ato de insultar alguém, esse sim, um ato reprovável, tipificado como crime no Código Penal Brasileiro e uma conduta ilícita, que pode gerar indenização no âmbito civil. Se eu defendo um Estado de direito, e se nesse conceito eu defino esse Estado como uma situação jurídica em que todos tem limites (inclusive o próprio Estado), eu tenho também que impor limites ao exercício de um direito, no momento em que percebo que esse direito não está mais sendo exercitado, mas sim abusado. Qualificar o outro como fascista ou comunista, em termos pejorativos, pode até se dar no nível do acalorado debate político e ideológico, mas não pode servir como pretexto para a prática de ilícitos. No exercício da minha expressão, seja ela jornalística-profissional, artística ou meramente como opinião individual, tenho todo direito de ser agradável para umas pessoas e desagradável para outras, pois a Constituição também estabelece que é um direito fundamental meu fazer ou não deixar de fazer algo, senão em virtude de lei (art. 5º, inciso II). Assim, se algo não me é proibido é porque é permitido, e posso ser a pessoa mais desagradável do mundo para alguns, que discordam do jeito que eu penso, mas isso não me dá o direito de sair do limite, e prejudicar a honra ou imagem de outro alguém. Ao me manifestar criticamente quanto aos posicionamentos do jornalista Gustavo Negreiros, em nenhum momento me valho de minhas palavras para insultá-lo ou desmerecê-lo, utilizando quaisquer adjetivos que venham do feio ao bonito, mas posso, democraticamente, dizer que discordo dele politicamente e que a forma como exerce seu conservadorismo não seria a forma que eu acharia adequada ou elegante para conservadores se expressarem. 

Tudo parece ser uma questão de palavras, mas não é. Desde a polêmica linguística travada na filosofia no século XX entre Popper e Wittgenstein, com direito até a briga com atiçador, fica a discussão se palavras são apenas palavras que, quando tiradas do contexto, não revelam realmente o que o interlocutor queria dizer; ou se, ao contrário, as palavras são reais veículos de comunicação daquilo que é, daquilo que existe além daquilo que foi dito, ou que revelam exatamente aquilo que se quer dizer. De qualquer forma, na minha opinião, desqualificar o outro pelo insulto, menos do que um livre exercício do pensamento ou forma de expressão, é tão e simplesmente grosseria mesmo, falta de educação, e, no limite legal, até mesmo um delito. Extrapola-se o direito de ser desagradável no palco conflituoso do debate de ideias entre diferentes, na disputa entre adversários no jogo argumentativo. No meio jornalístico tem-se um agravante, pois se a ideia é informar, comunicar, não se informa nada, não há comunicação alguma, só bate-boca, só palavras de mau gosto proferidas com o único sentido de impactar, de causar (má) impressão para o ouvinte, mesmo que seja um ouvinte convertido ao credo político ou doutrinário do locutor.

Creio que tal episódio serviu como amargo aprendizado para o citado jornalista potiguar. Creio que o Rio Grande do Norte não pode se prender ao pensamento único, e necessita de vozes diferentes, que exponham suas críticas a governos, seja de direita, esquerda ou centro, da União, Estados ou municípios. Entretanto, sinto falta de vozes de oposição qualificadas, da união da eloquência, senso crítico e escárnio conservador que existia num certo Paulo Francis, que eu podia discordar ideologicamente, mas louvar suas tiradas altamente espirituosas. Acho que muitos de nossos comunicadores, independentemente do governo ou de partidos a que se vinculem, necessitariam ter maiores lições de sabedoria, e tais lições só ocorrem sabendo valorizar verdadeiramente a democracia. A democracia começa quando um não quer exterminar o outro, a partir de sua reputação, pela arte do diálogo no lugar da arte do insulto. Creio que tanto os apoiadores de Greta, como seus detratores, merecem isso!

domingo, 26 de maio de 2019

Carta aberta a um amigo que se tornou fascista

Querido amigo! Sei que para você pode parecer inesperado eu escrever estas linhas, e talvez não seja apenas você que pense isso, mas muitos amigos de outros amigos que podem se sentir identificados com o que escrevo. Não se trata de expor pessoas, mas de expor ideias, e, principalmente, a ideia de um país.
Você deve saber que muito se fala o quanto esse nosso Brasil está em crise, quase em ruínas, pois se encontra fraturado, dividido, talvez como nunca jamais estivesse em sua história (isso se eu não entrar no argumento histórico da divisão entre monarquistas e republicanos no século XIX), ao menos de forma tão radical.  Você deve ter percebido que após as eleições de 2018, a posse e o exercício de mais de 100 dias do mandato de um novo presidente, parece que ainda não perdemos o clima da campanha eleitoral.
Creio que eu e você vemos isso nas ruas, esporadicamente, ao se demonstrarem em manifestações de rua, convocadas pelas redes sociais, dois Brasis: um Brasil verde e amarelo, conservador, religioso, preocupado com progresso e altamente moralista, que se preocupa muito com o bolso e com as possibilidades de ascensão social. Em tese, esse Brasil é privatista, é liberal na economia, mas defende um Estado forte ao se voltar para o tema da segurança, defendendo uma repressão penal atroz e punição severa aos corruptos e autores de crimes violentos. Um Brasil que cultua a ordem, o respeito à autoridade, como era no tempo dos nossos pais, mais voltado para a família e defesa de valores familiares. É um Brasil militarista, que cultua as Forças Armadas como a principal instituição nacional e se volta para o passado, acreditando que uma ditadura nunca existiu e que a Guerra Fria ainda existe, pois os inimigos de verdade e destruidores da pátria seriam os comunistas. É um Brasil que fez opção por um líder autoritário, martirizado depois de uma facada em plena campanha eleitoral e pela demonização de um ex-presidente preso e de seu partido político. Geralmente, esse é um Brasil voltado mais para os shopping centers e sua prosperidade consumista, elegendo os Estados Unidos da América e Miami como uma espécie de "cidade luz", enquanto que o resto da América Latina se resumiria a uma autoritária Cuba ou uma decadente e destrutiva Venezuela. Por outro lado, amigo, você deve ter percebido também as manifestações de pessoas que simbolizam um outro Brasil: o Brasil do Estado social, do desenvolvimentismo, da integração latino-americana e da crítica ao gigante norte-americano, tratado como espoliador. Um Brasil mais plural, tanto nas crenças das religiões, quanto na identidade de gênero e opção sexual. Um Brasil, é verdade, que demoniza um tanto o capitalismo, ao menos no seu aspecto mais predatório, que defende um Estado interventor, que alavanque o desenvolvimento através de investimentos em educação, obras públicas e contratação de pessoal. Esse Brasil que você deve ter visto é um país metido a politicamente correto, que defende direitos humanos, que prega o respeito a minorias étnicas como indígenas e quilombolas e condena a homofobia. Um Brasil que, em manifestações de rua, trocou o verde e amarelo por outra cor, preferiu vestir as cores vermelha ou branca, que pode representar ideologias, partidos políticos ou religiões marginalizadas, ou de um arco íris que identifica uma orientação sexual, e que também caminha nas ruas, erguendo faixas e portando camisetas com estampas de revolucionários e líderes do passado. Trata-se de um Brasil que se agarra à memória de um passado autoritário nem tão distante e insiste em criticar uma velha e decadente ditadura militar. Esse Brasil que estou falando a você é o Brasil que ainda considera golpe um fraudulento e tendencioso processo de impeachment contra uma presidente democraticamente eleita e que não concorda que um ex-presidente, de tão popular, esteja preso por conta de um processo judicial injusto.  Um Brasil que critica a repressão policial e o autoritarismo, que ainda acredita na ressocialização dos autores de delitos e que acha que segurança se resolve preventivamente com mais escolas e menos fuzis. Um Brasil de sindicalistas, estudantes de escolas públicas e moradores de periferia que frequentam mais botecos do que casas de show. Esses dois Brazis são um mosaico do que somos e um pouco da história que vivemos em tantos anos de amizade. O que foi que deu errado?
Durante a eleição, preocupou-me quando você começou a postar vídeos em nossa rede social, lá de onde você mora depois que se mudou pra outra cidade, contendo informações falsas, que hoje chamam de fake news, ou que exortavam pessoas de verde e amarelo revoltadas ou com muito ódio, lotando um shopping center e cantando o hino nacional, defendendo um candidato como se ele fosse um mártir, uma espécie de "mito". Até aí, pensei em nossos tempos de juventude, do quanto você era identificado com as causas que eu pensava, apesar de eu nunca ter te obrigado a pensar do mesmo jeito, só pelo fato de torcemos pelo mesmo time e gostarmos das mesmas músicas.
Entretanto, o que me preocupou mesmo foi seu silêncio, quando eu descobri que o que nos distanciou não foi o tempo e nem a separação geográfica, mas sim a forma de ver a vida e a política. Sim, pois a política, apesar de parecer um assunto chato para muitos (e deve ser para você também), assim como as religiões, define muito quem somos e o que queremos ser. Fiquei triste e chocado, é verdade, por ter descoberto no teu silêncio, ao não me responder em quem iria votar, naquele fatídico domingo de outubro, que nós estávamos muito, mas muito distantes enquanto pessoas e brasileiros. Nos meses vindouros, vim descobrir, tristemente, que não se tratava apenas de uma opção que eu, democraticamente,  discordava da que você tinha ao apertar um botão numa cabine eleitoral. Vim descobrir o quanto você tinha mudado! Ou será que me enganei, e na verdade você sempre foi todo um caldeirão ambulante de recalques, ignorância e contradições?
Digo isso e peço, desde já, minhas desculpas se minhas tintas estão pesadas, mas, pelo que soube, você se portou com a indiferença daqueles que acham trágico, mas nada de mais e muita balbúrdia midiática, a comoção com repercussão nacional e internacional do assassinato a tiros de uma vereadora negra e defensora de favelados, da cidade onde você nasceu, por considerar que cidadãos de bem são assassinados todos os dias por marginais e a imprensa não diz nada, fazendo coro com aqueles que acham que a defesa dos direitos humanos (a principal bandeira da vereadora assassinada) é a defesa de bandidos. Entristece-me saber, amigo, que você acredita na reforma da previdência apresentada pelo governo que você ajudou a eleger, pois crê, assim como os que pensam parecido contigo, que tal reforma só é necessária para acabar com a mamata dos funcionários públicos, que assim como eu, teriam muitos privilégios, já que você teve que suar a camisa, sendo explorado no setor privado onde você conseguiu emprego, e nunca fez ou teve a oportunidade de passar num concurso público.
Mas tudo isso poderia passar batido se eu não soubesse que você defende um presidente e manifestantes que o apoiam, que destroem faixas em universidades, cuja única e singela mensagem é a defesa da educação. Claro! Como você nunca teve a oportunidade de chegar a uma universidade pública, talvez você ache que lá é só um espaço de professores esquerdopatas que tentam doutrinar cegamente seus alunos (por isso que você defende uma Escola sem Partido) e que os estudantes são todos uns desocupados, com raras exceções, que se preocupam muito mais em vestir camisetas e botons de partidos como se fossem times de futebol do que estudar e que se divertem em festas no campus, regados a cerveja e muita maconha, desperdiçando dinheiro público, enquanto você tem que ralar de ônibus todos os dias para arcar no fim da noite com o ensino pago, às custas da mensalidade que você tem que pagar.
Você tem amigos gays, assim como eu, e muitos são nossos amigos comuns, mas você deve achar hoje que é só mimimi, vitimização ou coitadismo demais falar em combater ou criminalizar a homofobia, até porque os gays já teriam direitos demais e você acharia insuportável a ideia de ter um filho homossexual; pois, afinal de contas, você o educou bem!!
Você deve ser contra as cotas na universidades, claro! Até mesmo porque, assim como no futebol, onde craques negros ou mestiços se destacam pelo talento próprio e nato com a bola nos pés, como Pelé e Neymar, a ascensão social de cada um deve ser vista somente pelos seus méritos e não por uma injustiça histórica ou desigualdade econômica, até porque, esse papo de desigualdade para atacar as injustiças é papo de derrotado, de quem não teve competência para se estabelecer., não é mesmo?!
Eu poderia até concordar com alguns de seus argumentos e tolerar outros, porém o que não me passa na garganta é você acreditar piamente que o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal devem ser fechados, pois seriam entidades inúteis, repletas de privilegiados e ladrões. Mais do que isso, como você acredita que bandido bom é bandido morto, você acha normal e necessário armar a população, e que a polícia esteja autorizada a abater bandidos sem responsabilização penal. Você deve achar que aqueles caras que uns chamam de milícias, na verdade são policiais que se voltaram contra a hipocrisia do Estado em defender bandidos, prestam um auxílio, fornecendo água mineral, TV a cabo e segurança privada mais barato, protegendo a comunidade dos marginaizinhos e é natural pagar uma gratificação para eles, já que ganham tão mal. Sobre armar a população, você considera um acidente ou uma exceção por problemas mentais ou má formação familiar, proliferarem atiradores em colégios, pois o problema está nas pessoas e não nas armas.
É, amigo! O que me entristeceu também foi saber que você deve compartilhar do preconceito regional, por achar que o Norte e Nordeste do país é inferior intectualmente ao restante do país ou que os nordestinos pobres são massa de manobra, de um governo de esquerda corrupto, que os financia com esmolas, apelidadas de bolsa-familia, por que a maioria do eleitorado da região não fez a opção pelo seu candidato.
O que eu penso que é pior, e o que verdadeiramente nos distancia, é saber que quem pensa diferente de você e critica a sua opção, pode ser minimamente chamado de chato, mas na hora da raiva de petralha ou comunista.
É nesse ódio ao outro que o teu candidato (na verdade, agora, teu presidente) espera crescer e mantém seu rebanho de apoiadores fervorosos, alegando que o país estava ingovernável porque alguns (como eu) não estariam dispostos a colaborar, como bom patriota.
Amigo! É por fazer parte de ambientes distintos que nos distanciamos, mas, principalmente, porque esses ambientes tornaram-se tóxicos demais para que se mantivesse nossa convivência. Nesse sentido, preocupa-me se, no Brasil de hoje, eu ainda posso chamá-lo de amigo!

sábado, 15 de dezembro de 2018

FILME: Bohemian Rhapsody-um tributo imperfeito, mas que vale a pena ser visto

Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
Com os primeiros versos da primeira estrofe de uma das canções mais ouvidas no século XX (segundo a revista portuguesa Blitz, já ultrapassou 'Smells Like Teen Spirit' do Nirvana), para as novas gerações 'Bohemian Rhapsody' não é apenas uma das mais belas e emblemáticas músicas, de um dos grupos ícones do rock do século passado, mas também é o título do filme do diretor Bryan Singer, massificado nos cinemas de todo o mundo, com o carismático ator de origem egípcia, Rami Malek, interpretando um monstro sagrado da música: o inigualável, incomparável, extraordinário e inesquecível cantor Freddie Mercury.
Quem nunca ouviu falar da banda inglesa Queen, provavelmente ou viveu numa floresta inexplorada por décadas ou não veio deste planeta. Assim como os Beatles, os Rolling Stones, o The Who e o Led Zeppelin, o Queen merece, com louvor, o título de ser uma das maiores bandas da história. Seu estilo musical prodigioso, poderoso, unindo ópera com rock, somando três personalidades igualmente carismáticas a de Mercury, de músicos virtuosos, como Brian May na guitarra, John Deacon no baixo e Roger Taylor na bateria, demonstrou que o grupo, formado em 1970, das migalhas do que seria a banda Smile, pudesse escrever sua história no panteão da música, com canções originais, que perdurarão por toda uma eternidade. É isso que o filme de Singer procura trazer, e talvez essa seja a melhor qualidade de uma película irregular. Senão, vejamos o que eu posso lhes dizer do filme!
Em linhas gerais, 'Bohemian Rhapsody' é apenas um bom e muito agradável filme de sessão da tarde, e não uma épica cinebiografia de uma banda épica. Apesar de toda licença poética de uma história posta na tela de forma romanceada e não um documentário, são muitas as distorções, informações erradas, até inverídicas e invenções dos roteiristas, sobre o passado do grupo e acerca da vida pessoal de Freddie Mercury. Tirando Malek, a interpretação dos demais atores é tão somente mediana, muito pelo fato do roteiro ser todo centrado na principal estrela do grupo, sem dar espaço ou margem para que as personalidades dos demais membros fossem devidamente exploradas. O único papel feminino de destaque, da atriz norte-americana Lucy Boynton, interpretando Mary Austin, interesse amoroso e noiva do cantor do Queen antes que este assumisse sua sexualidade homoafetiva, aparece com pouca consistência no filme e de forma deslocada. Não se sabe se Mercury (nascido Farrokh Bulsara, na Tanzânia, de uma família conservadora de origem indiana) era um gay com curiosidades heteroafetivas ou se era realmente bissexual, mas o que se sabe de verdade, na vida do vocalista do Queen, é que ele teve vários amantes, dentre homens e mulheres, e isso é pouco explorado no filme de Singer.
Não há tempo para o desenvolvimento de um arco dramático consistente, que explorasse as dubiedades afetivas e sexuais de Mercury, apesar do filme não deixar de explorar isso, mas de forma muito superficial. A ideia que se dá é que por ser um projeto totalmente focado em Freddie Mercury, o diretor Singer preferiu mostrar muito mais os excessos e farras de uma estrela do rock, que era tratada com uma aura de semideus. Outro dos personagens essenciais na vida do cantor foi seu namorado até o fim de seus dias, Jim Hutton, tratado de forma simpática, mas limitada pelo ator Aron McCusker. A cena em que os dois se encontram pela primeira vez é totalmente inverossímil e pura invenção do roteiro, e pela pressa em apresentar os fatos num filme de duas horas e quinze minutos de duração, o essencial de uma relação amorosa também significativa na vida do cantor se perde, como quase tudo no filme com algum potencial dramático. A própria doença de Mercury, acometido do vírus da AIDS que o matou, é tratada de forma pequena, apesar de Malek conseguir imprimir certa melancolia ao personagem, mas nos momentos finais da película e de forma descompensada. Não me sai da cabeça que muitas cenas poderiam ter sido melhor aproveitadas.
Que Mercury era extraordinário, disso não há a menor dúvida; mas todos os outros músicos também eram, e nada isso é explorado com galanteza no filme. O filme também peca nas suas imprecisões históricas que, para um bom fã do Queen, parecem até grosseiras ou forçadas demais, ou provam que simplesmente quem fez o filme não leu a biografia da banda. Fazer um Freddie Mercury cantar a singela 'Love of my Life', no Rio de Janeiro, com sua clássica roupa de lantejoulas, ainda sem bigode, quando eu, que era guri na época, já sabia que tal show ocorreu em São Paulo, na histórica turnê brasileira de 1981, e não no Rio, e que o Rock in Rio, da segunda aparição do grupo por aqui, ocorreu em 1985, e não em 1979, como retratado no filme, é de doer o coração! Haja paciência!
Tonight, I'm gonna have myself a real good time
I feel alive and the world I'll turn it inside out, yeah
And floating around in ecstasy
So don't stop me now don't stop me
'Cause I'm having a good time, having a good time
Mas afinal, o que há de bom no filme e por que vale a pena vê-lo? Por que um longa-metragem que não é tão bom conseguiu bater um recorde, tornando-se a cinebiografia de uma banda de música mais vista e mais lucrativa da história do cinema? Parece paradoxal, mas o que 'Bohemian Rhapsody' acerta é justamente naquilo que ele peca: ser um extenso videoclipe da vida do cantor do Queen. Por se preocupar com a música tanto quanto as cenas, o filme se torna um revival dos shows mais antológicos da banda, desde seus primórdios até a consagração, na lendária apresentação no estádio de Wembley, no Live Aid. Talvez esse seja o ponto mais forte do filme: uma celebração da voz de um dos maiores cantores da história. Como seria impossível reproduzir o talento vocal do dentuço vocalista do Queen, Malek se vale da dublagem e de uma prótese tão exagerada, para imitar o personagem, que parece risível, mas ele se sai bem no teste. Os minutos finais do filme que reproduzem com fidelidade o show de Wembley, reproduzido à exaustão até hoje no youtube, é uma das melhores experiências de ver (e ouvir) no cinema. De tão perfeita a performance de Malek, que treinou à exaustão com exímios coreógrafos, todos os trejeitos e  movimentos de Mercury no palco, consegue-se ter realmente uma experiência agradável de uma cinematográfica banda cover no telão, que rende ali uma sincera e emocionada homenagem. 
I want to break free
I want to break free
I want to break free from your lies
You're so self satisfied I don't need you
I've got to break free
God knows, God knows I want to break free
'Bohemian Rhapsody' está longe de ser uma obra-prima, mas tem suas qualidades e, com certeza, despertará cem por cento do interesse dos fãs abnegados do Queen. Acredito que Rami Malek será, merecidamente, indicado ao Oscar de melhor ator, fato que não ocorrerá apenas se os membros da Academia foram declaradamente antirockeiros. Não faz mal! O filme sobre Freddie Mercury e seus parceiros de música merece outras versões cinematográficas, mas nem por isso aquilo que está hoje nos cinemas cairá no reles esquecimento. Afinal, como defenestrar um filme que trata de um sujeito tão inesquecível como o bom e bigodudo Freddie, e sua voz de barítono, que encantava multidões. Ouvindo o Queen, de quem cheguei a participar do fã-clube internacional na adolescência, sei que, nas minhas fragilidades, ainda posso me sentir um campeão ao ouvir a banda, e é bom matar as saudades de um dos meus cantores favoritos, vendo um filme sobre ele. We are the champions, my friend!!
I've paid my dues
Time after time
I've done my sentence
But committed no crime
And bad mistakes
I've made a few
I've had my share of sand kicked in my face
But I've come through
And we mean to go on and on and on and on
We are the champions, my friends
And we'll keep on fighting till the end
We are the champions
We are the champions
No time for losers
'Cause we are the champions of the world

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

IN MEMORIAN: minhas corridas com Seu Maguila!!

Foi na noite de uma quinta-feira, dia 29 de novembro, que eu soube do falecimento de José Pereira de Souza, mais conhecido como "Maguila", taxista, que no desempenhar de sua profissão não era apenas mais um motorista que escutava os "causos" de seus clientes, mas que se tornou o amigo de toda uma geração de boêmios.

Confesso que só fui saber de seu nome de batismo quando foi anunciado por sua família o seu velório. Até então, só o conhecia pelo apelido, que o tornou famoso entre os passantes e fregueses dos barzinhos em frente a Praça Ecológica, em Ponta Negra; especialmente o Wesley's Bar (antigo Gringo's). Eu soube que nos últimos meses Maguila padecia de um câncer, cheguei a ver uma foto sua no hospital, muito debilitado. Soube também de sua melhora, e de que já estava em casa, esperando visitas. Fiquei de visitá-lo. Promessa que nunca cumpri e me arrependo! E se não posso dar minhas condolências pessoalmente a sua família e amigos enlutados, no dia do seu enterro, por estar em outra cidade trabalhando, fica aqui minha pública homenagem.

Recordo-me de Maguila como aquele sujeito que revelava uma anedota no próprio apelido, pois se tratava de um sujeito de meia-idade, baixinho, franzino, magro como um graveto, de óculos e cabeleira grisalha e um bigodinho aparado, com aparência muito distante do seu homônimo famoso. Maguila compensava a esqualidez da fisionomia com uma abundância de simpatia, afeto e simplicidade. Era um cara divertido, e se divertia com os passageiros bêbados que pegava todas as noites na rua, percorrendo com seu táxi, em busca de clientes, nas noitadas natalenses. Antes mesmo da Lei Seca, já havia o Maguila. E com ele a certeza não apenas de um transporte seguro, que te levaria com tranquilidade até sua casa, mas também a garantia de uma boa conversa. 

De tanto fazer ponto em frente ao bar do Wesley, ele acabou sendo a referência e o companheiro de fim de noite de toda uma geração, principalmente do meu grupo de amigos, frequentadores do estabelecimento, carinhosamente chamados de "diretoria". Cansou-se de ouvir as histórias (e lamúrias) de seus clientes, assim como eu, que contava os trocados no bolso e sempre tentava pechinchar nas corridas, pois no final da noite a grana do fim do mês já estava curta e gasta na última cerveja ou dose de whisky. Já não consigo contar quantas vezes Maguila me levou pra casa no 0800, pois eu já estava liso, sem um tostão no bolso, na época ele não passava cartão e, na pendência de carona dos amigos, ele se oferecia para me levar pra casa, dizendo que eu pagasse depois. O problema é que na maioria das vezes eu já estava tão cansado e biritado que não tinha a menor ideia de quanto lhe devia, ele não cobrava, e constrangido, eu encontrava com ele de novo, pedindo pra ele me cobrar, e ele me falava, dando uma risada, que eu desse o que pudesse, que nas próximas corridas eu compensava o valor da viagem. Maguila era taxista não porque necessitasse, mas porque gostava da profissão, exercida durante décadas. Diferente do Uber, onde hoje você vê muitas pessoas trabalhando como se fosse um bico, ou como um trabalho temporário, para um "pé de meia" para dias melhores, Maguila encarava rodar no seu táxi como um verdadeiro ofício, e por isso valia pena circular pelas ruas cada dia mais violentas de Natal, porque ele me dizia que era aquilo que ele gostava e sabia fazer.

Maguila não só ouvia, mas também tinha suas histórias pra contar. Não me esqueço nunca quando ele me contou de uma tentativa de assalto, quando pegou um passageiro suspeito e o deixou nas proximidades da Zona Norte, e assim que o sujeito desceu, ele puxou uma arma e anunciou o roubo, quando Maguila saiu em disparada no seu carro, e metros depois sentiu apenas uma forte dor no braço. Tinha sido baleado! Por uma questão de centímetros uma tragédia não tinha acontecido, e com o braço ensanguentado, ferido pelo projétil, teve o sangue frio de ainda chegar em casa, valer-se dos primeiros socorros e depois seguir para um hospital. Maguila fazia relatos da vida de um taxista que revelavam uma crônica diária de alegrias e tristezas, de cenas divertidas, mas também de infortúnios. Parecia uma das cenas do filme do cineasta Jim Jarmusch, "Uma noite sobre a terra", de 1990, onde taxistas, em cidades e histórias diferentes, viviam situações inusitadas. Para mim, Maguila representava não apenas um homem e um veículo, mas sim o representante de uma cidade e uma cultura que revelava o povo natalense. O taxista Maguila era a cara de Natal!

Vou guardar para sempre na memória e no meu coração a imagem e o sorriso do Maguila, sua simpatia, generosidade e humildade, revelando que taxistas não são apenas aqueles sujeitos estressados, mercenários ou mal educados, mas que também podem ser pessoas polidas, agradáveis e amigas, como em qualquer profissão que exija atender pessoas. Ele chegou a me dizer que só pararia de trabalhar quando não tivesse mais saúde para sair de casa no seu táxi, e parece que foi isso que realmente ocorreu. Vitimado pela doença, nosso pugilista do asfalto acabou tombando, mas não antes de deixar uma grande saudade e admiração para quem o conheceu e pôde compartilhar algumas horas de sua companhia. Creio que Maguila apenas partiu para mais uma viagem, agora no seu táxi celestial! Fico triste por não poder mais vê-lo, mas o terei sempre na memória, como tenho o de tantas pessoas queridas e amadas, que já passaram para outro plano de existência. Acredito que um dia nos veremos novamente, e, até lá, fico no aguardo, Maguila, de fazermos mais uma corrida!!

terça-feira, 10 de julho de 2018

No show do Depeche Mode

O Depeche Mode é um dos pouquíssimos grupos de rock eletrônico dos anos oitenta que ainda permanece relevante até hoje. Tive o privilégio de assistir o único show no Brasil, da última turnê da banda, no Allianz Park, em São Paulo, no dia 27 de março. Um dia atípico, uma terça-feira de trânsito enlouquecido, como é de hábito na metrópole paulistana, pra completar com uma forte chuva que começou à tarde e durou praticamente a noite toda. No começo da tarde, quando eu e minha esposa saímos do hotel, pegamos uma tempestade, com direito a ruas alagadas, até chegar próximo a Barra Funda e permanecemos por uma hora ilhados dentro do estacionamento de um shopping, aguardando que a chuva passasse e a inundação das ruas entupidas de água e carros não chegasse aos nossos pés. Por fim, no começo da noite, sob a forma de uma fina garoa que caía sobre o estádio, pudemos finalmente chegar ao local do show.

Mas, mesmo com as intempéries climáticas, quem disse que não foi emocionante, um tanto bucólico e pitoresco, ver o que David Gahan, Martin L. Gore e Andy Fletcher ainda conseguem fazer?? Engana-se quem pensa que o show foi uma reprodução daqueles eventos caça-níqueis, onde rockeiros cinquentões ou sessentões voltam à ativa, cantando somente sucessos antigos, em busca de alguns trocados. Durante esses trinta e poucos anos, o Depeche Mode permaneceu ativo, lançando periodicamente vários discos, tornando-se, assim como o New Order, uma competente banda de rock eletrônico, com elementos de Devo e influências de Kraftwerk e David Bowie, mas com um certo tom soturno que se igualava somente à capacidade dançante de suas canções. O show em São Paulo foi da turnê do mais recente disco, Spirit, e também de um dos mais políticos. Em Going Backwards, canção do disco novo que abriu o show e é exaustivamente tocada em rádios on line ou em plataformas como o Spotify, os vocais de Gahan declamaram versos declaradamente de protesto e desilusão com a era Trump e todo o retrocesso da democracia e dos direitos, com o aumento dos extremismos (não só na Europa, mas inclusive no Brasil), o Brexit e outras desgraças mundiais, corroborando que a globalização parece não ter dado muito certo. Ao cantar em seguida a clássica It's no good, o Depeche sacudiu a plateia com uma das canções da fase já consagrada do grupo, mas que também revelava a decadência pessoal de seus integrantes, alguns a experimentar o fundo do poço ou algo bem mais profundo do que isso, como sofreu Dave Gahan, que escapou da morte por um triz, seja por ter ficado desacordado por mais de um minuto por conta de uma overdose de heroína que quase o matou, uma tentativa de suicídio ou a descoberta e o tratamento de um câncer, que acabou por se curar. É! Se acredita ou não em Deus, o vocalista do Depeche Mode tornou-se um afortunado, com direito a um recomeço, à construção de uma família com esposa e filha, a sobriedade e o retorno ao grupo de amigos ingleses que começaram como uma espécie de boy band de tecladinhos, nos anos oitenta, até fazerem o mundo descobrir que eram bem mais do que isso, a começar pela densidade de suas letras, que não eram nada bobinhas. De fato, o Depeche Mode tornou-se uma banda de respeito, a ponto de se tornar antológica.

A terceira canção do setlist, também do último álbum, Where's the revolution também repousa na forte crítica política e social, caçoando dos falsos ou velhos militantes, que nos protestos de outrora, diante de tanta injustiça e barbárie renovada no mundo, parece que só acordaram agora lentamente, começando a retirar suas bandeiras e faixas do armário. A canção fala em perder ou não o trem da história: 
The train is coming
The train is coming
The train is coming
The train is coming
So get on board
Get on board
Get on board
Get on board


O show seguiu com mais e mais músicas da discografia da banda, desde as mais clássicas até as dos discos mais recentes. Quem é que não dançou uma vez na vida (ou várias) ao som da célebre Enjoy the Silence, talvez a música mais famosa dos caras, do disco Violator, até hoje o mais vendido desses senhores da região inglesa de Essex, cujo vinil eu comprei saindo das lojas, no longínquo ano de 1990? O mais legal além das músicas foi ver o corpo esguio de Gahan rodopiando no palco como um bailarino,  enquanto cantava a clássica e dançante World in my Eyes, revelando a disposição física de um homem que já chegou aos 55 anos, com suas jaquetas e coletes estilosos, como um dândi moderno. A simpatia e carisma de Martin L. Gore, o loiro guitarrista e maior compositor do grupo, com seu famoso sorriso tímido, cantando à capela junto com a plateia algumas das mais belas e profundas baladas que o Depeche já criou, não podia deixar de ocorrer na noite. Enquanto isso, como uma esfinge, o terceiro e ilustre membro da formação clássica, Andrew Fletcher, permanecia compenetrado, com seus óculos escuros, ao fundo, fazendo toda a base musical e tradicional que marca o som da banda, conduzindo ondas sonoras como o comandante musical de um navio, ao som de seu teclado. O som dos caras naquele show me fez voltar em flashbacks a 1988, quando eu, então um moleque adolescente de 17 anos, recém conhecendo a noite, fui conhecer e escutar pela primeira vez o som dos caras no antigo bar Chernobyl e na boate Vicious, que ficava nas proximidades, na Praia do Meio, em uma Natal onde os jornalistas do caderno de cultura gostavam de chamar de "Londres nordestina", por conta da juventude universitária da época, muitos do bairro vizinho de Petrópolis, que colecionavam discos e gostavam de escutar rock inglês e música eletrônica europeia. Lembro-me naquela época da sedução quase hipnótica de escutar na penumbra a gótica Behind the Wheel, com sua célebre entradinha do som de uma calota rodopiando, seguida de uma irresistível batida techno que me obrigava a dançar nem que fosse com minha própria sombra.


Outras músicas se seguiram num setlist com mais de vinte canções. Duas horas de somzeira garantida ou seu dinheiro de volta. Como não sapatear ao som da quase marcial Walking in my shoes? Afinal, com sua letra menos sombria do que profética, cujo refrão aparece como um conselho ou provérbio, ouve-se e percebe-se nas letras quase um relato autobiográfico da sofrida vida do vocalista inglês:


Now I'm not looking for absolution
Forgiveness for the things i do
But before you come to any conclusions
Try walking in my shoes
Try walking in my shoes

You'll stumble in my footsteps
Keep the same appointments i kept
If you try walking in my shoes
If you try walking in my shoes
Por fim, no bis, Never Let me Down, um dos primeiros singles oitentistas da banda pareceu fechar a noite, trazendo três décadas atrás de volta, nos primórdios de uma MTV que não existe mais. Mesmo debaixo de uma capa de chuva que me limitava os movimentos, eu podia sentir que, naquele show, eu tinha voltado a ser aquele menino de 17 anos chegando aos poucos na vida adulta e deixando a timidez de lado para dar os primeiros passos desengonçados numa pista de dança. Foi bom ouvir no antigo e novo repertório do Depeche Mode como a banda amadureceu, assim como seus jovens fãs de três décadas atrás.

É bem verdade que, para os mais puristas, o som do Depeche Mode saiu, nos últimos anos, do techno mais dançante para um eletrônico industrial mais pesado, um tanto quanto melancólico, mas com profunda qualidade técnica e poesia, porém pouco pop e muito mais intimista e autoral. É como se a meia idade e os anos de excesso repercutissem no som da banda; mas com sabedoria. Uma das principais características da música do Depeche Mode de 1980, quando surgiu, até hoje, é que eles não perderam um elemento principal em seu som: a sensualidade. Mesmo na reflexiva Cover me, do último álbum, que tem um clipe muito bacana, homenageando claramente David Bowie, com Gahan como um starman, vestido de astronauta, sentado no banco de uma praça, com seu olhar meio que entre o exausto ou o perdido e contemplativo, percebe-se elegância e até um certo erotismo na poesia e som eletrônico, propositadamente psicodélico da canção. É como se Eros e Tanatos fossem chamados para dançar, quando rola um som do Depeche Mode. Desta forma, eles se tornaram senão o único, talvez um dos pouquíssimos grupos na história do rock que souberam conjugar melancolia com tesão ao mesmo tempo. 

Fiz parte, portanto, de um seleto grupo de brasileiros de diversas gerações que foram a São Paulo assistir o show, encantados pela sonoridade de um grupo que, para mim, já havia se tornado lenda. Experiência edificante, com direito a muitos selfies no ambiente urbano paulista, cenário ideal para a apresentação da mescla de sensualidade e dor que para mim representa o Depeche Mode, na sua poesia eletrônica que agrada até mesmo o silêncio. Afinal: 
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CRISE POLÍTICA: O RN QUE AFUNDOU

Nos seus escritos póstumos, após a Genealogia da Moral, o filósofo
Friedrich Nietzsche formulou sua crítica sobre os  direitos e o Estado moderno da seguinte forma:

"direitos aquele que tem mais poder estabelece os funcionários públicos uns em relação aos outros; e deveres aquele  tem mais poder estabelece os administradores para o seu próprio proveito."

Eu não poderia então deixar de imaginar Nietzsche ao me deparar com a atual situação caótica do Rio Grande do Norte, manchete do noticiário nacional, seja na web, nos jornais impressos ou nos meios de comunicação de massa, como a televisão. O desgoverno a que chegou a terra do camarão e de Câmara Cascudo apareceu na tela do Jornal Nacional, e o quadro mostrado para todos os brasileiros, ao menos essa semana, é de desalento, confusão e muita insegurança.

Com os serviços públicos essenciais praticamente paralisados, o estado da federação de responsabilidade do governador Robinson Faria tem seus principais hospitais públicos em greve, a universidade parada, sem data para retornar, e, principalmente, uma crise sem precedentes na segurança pública, com a Polícia Militar paralisada sem sair as ruas, uma Polícia Civil operando com apenas 20% do seu contingente, bombeiros e a defesa civil insuficientes e uma perícia criminal quase inexistente, sem peritos ou legistas, tudo atribuído a uma gestão que há meses não paga seu funcionalismo. Aproxima-se a virada do ano, e até o reveillon, milhares de servidores do Poder Executivo não receberam sequer suas remunerações do mês de novembro e o décimo terceiro constitucional, não tem nem mesmo previsão de pagamento.

A crise é generalizada, e as consequências dela são sentidas por toda parte entre a população. Arrastões constantes em estabelecimentos comerciais, uma curva de homicídios em frenética e assustadora ascensão, assaltos a transeuntes diuturnos, furtos e roubos em residências, falta de policiamento em pontos turísticos e de grande movimento. O Rio Grande do Norte vive um cenário de incerteza e uma realidade de penúria financeira que me faz recordar postagem feita aqui neste blog, anos atrás, quando eu comentava os derradeiros e infelizes últimos dias do governo municipal da Prefeita Micarla de Souza, e a decadência da gestão pública na cidade do Natal.

Eis que a crise agora assola  todo o estado do Rio Grande do Norte e não somente sua capital. Coube de cair no colo do governador Robinson Faria, que, quando candidato, derrotou o representante máximo da oligarquia que dominou durante anos a região, o ex-deputado Henrique Eduardo Alves, sob o slogan de que seria o "governador da  segurança", o triste destino de talvez ser o maior responsável pelo colapso do mesmo aparato de segurança, que um dia o atual mandatário prometeu modernizar.

Mas quais as razões de tamanha crise? Será apenas um reflexo da crise nacional? Um resultado direto das nefastas reformas trabalhista e previdenciária patrocinadas pelo governo golpista de Michel Temer? Seria tudo somente produto de má gestão administrativa? O dinheiro teria sumido pelo esgoto por pura roubalheira? O Rio Grande é tão ou mais arrasado financeiramente que o Rio de Janeiro? Foi a Copa do Mundo que fez com que os recursos financeiros deslizassem pelo ralo? Na verdade, a atual e mais tétrica crise político-financeira potiguar tem razões muito mais profundas de ser.

São diversos prognósticos, mas todos convergem para a constatação de que o RN foi para o fundo do poço devido a uma conjunção de fatores associados a um mesmo perfil de gestor público: tecnocrata, vinculado a interesses oligárquicos, com uma visão limitada e provinciana do emprego efetivo de recursos públicos e a ausência de uma política regionalista, que favorecesse verdadeiramente o interesse público e não tão somente interesses privados. Antes das corporações ligadas às empreiteiras, bancos ou agronegócio havia as famílias, e assentada numa forma clânica de exercício do poder familiar, durante décadas (e em alguns casos, há mais de um século), o Rio Grande do Norte foi governado por famílias que, numa visão tosca do velho coronelismo, mantiveram a região atrasada num velho modelo agrário-exportador. Nunca foi dado espaço ao desenvolvimento, no sentido de se montar um parque industrial para o estado (hoje, fala-se muito no aproveitamento de energia eólica). A indústria têxtil algodoeira, que há mais de trinta anos mostrava-se produtiva, especialmente na região do sertão do Seridó, sob o pretexto de ter sofrido com as pragas naturais que destruíram sua principal matéria-prima (algodão consumido pelo surto do bicudo), não mais vingou e o grupo Guararapes, até então formador de empregos em larga escala, preferiu mudar-se para outras regiões, firmando-se na região sudeste como a vitoriosa rede de lojas de departamentos Riachuelo. As linhas férreas foram desmanteladas, a exemplo do que ocorreu no restante do país, e o excedente da produção agrícola local não mais chegava com pontualidade às regiões portuárias. Preferiu-se dar valor ao agronegócio, especialmente à promoção de incentivos fiscais à produção de sucos, incentivando a fruticultura. A promissora exploração de barrilha (minério extraído do sal), na região de Macau, sede da região salineira do estado, acabou por naufragar face décadas de descaso, culminando com o fechamento da antiga empresa estatal responsável por tal setor, a Alcanorte. A exemplo do que ocorreu no Rio de Janeiro, a exploração de petróleo em regiões como Mossoró e Guamaré não se mostrou mais rentável para o estado, principalmente no que tange à parca distribuição de royalties, contribuindo-se para a ausência de desenvolvimento na região, principalmente por conta da falta de uma refinaria. Focando-se muito mais na exportação de matéria prima e no turismo, o Rio Grande do Norte passou a ser conhecido mais por sua bela natureza, com geografia privilegiada que possibilitava um bom turismo ambiental, do que como uma região evoluída, apresentando altos traços de desenvolvimento.

Contribuiu para essa estagnação a forma tacanha de gestão dos recursos públicos por sua elite política, pouca afeita à defesa do interesse público e mais próxima dos interesses particulares de um grupo ou casta. Com resquícios feudais do velho fisiologismo e clientelismo que remontam os tempos da colonização portuguesa, no Brasil república a distribuição do poder permaneceu em sinecuras locais, donde, numa troca de favores eram distribuídos cargos entre grupos familiares, que ora se digladiavam, ora se revezavam no poder, transformando uma disputa oligárquica num embate eleitoral. Nesse sentido, a compra de votos e os currais eleitorais eram escancarados, e famílias de latifundiários e empreendedores dependentes das alianças com o Estado, acabavam por disputar campanhas políticas, conquistando cargos eletivos elevados, tanto nas esferas do Poder Executivo, quanto do Legislativo.

Com a prisão de Henrique Alves enfraqueceu-se uma oligarquia.
Adotou-se a velha prática provinciana de se votar pelo sobrenome. Desta forma, por gerações, aqueles que compartilhavam do nome Maia, Alves ou Rosado ocupavam cargos que outrora eram distribuídos entre os Mariz ou os Maranhão, culminando com o fato de que na última eleição proporcional, realizada há quatro anos antes, os 8 (oito) representantes eleitos para a bancada federal de deputados, tinham sobrenome que revelam algum tipo de parentesco ou vínculos de ascendência, descendência ou casamento com algum chefe político local ou seu familiar, driblando a vedação constitucional e a legislação eleitoral. Atualmente, outra oligarquia que acabou se formando foi as do Faria, representados pelo pai, Robinson, governador do estado, e Fábio, o filho, deputado federal, ambos do PSD, partido de Gilberto Kassab, que cravou uma faca nas costas da presidente Dilma Rousseuf num golpe travestido de impeachment.

Tais grupos passaram a ser legitimados por diversos tentáculos espalhados, ou ramificados no interior da administração pública. Dentre os agentes políticos, poucos não tinham alguma vinculação com um representante dessas poderosas famílias. O RN notabilizou-se pelos seus oligarcas, assim como em outros estados do Nordeste, que, em alguns casos, conseguiram romper com isso e apresentar algum grau de desenvolvimento, tais como a Paraíba, Pernambuco, Bahia, Piauí e Ceará. Até o Maranhão passou a conhecer dias melhores desde que o clã Sarney foi apeado do poder pela força das urnas, sendo o estado hoje administrado pelo governador do Partido Comunista, Flávio Dino. Já no RN, até por conta de seu arraigado coronelismo, tradicionalmente o Poder Executivo foi ocupado por um Alves ou um Maia, e até mesmo a falecida ex-governadora Vilma de Faria, que tentou no começo dos anos 2000 firmar-se como terceira via, era associada ou foi durante anos casada com o ex-senador Lavoisier Maia e teve como padrinho político o senador e ex-governador José Agripino Maia. Já no clã dos Alves o golpe em sua estrutura política foi severo, com a prisão do ex-deputado, ex-presidente da Câmara e ex-candidato a governador, Henrique Alves, do PMDB, outrora oponente de Robinson na eleição. O eleitor do Rio Grande do Norte teve que lidar com duras alternativas eleitorais no ano de 2014: eleger aquele que acabou se tornando um dos piores governadores da história do estado, ou votar em um oligarca que hoje encontra-se preso, envolvido em vultosos escândalos de corrupção, sem a menor previsão de quando irá sair da cadeia. Henrique é representante do mesmo clã político latifundiário e dono de meios de comunicação que, durante décadas, valeu-se da estrutura do poder público para bancar os projetos pessoais de seu ambiente familiar, em prejuízo dos interesses populares.

Mas e os outros poderes em relação a isso? Na sanha de conquistar apoios, legitimar e manter seus próprios privilégios e interesses, numa aliança espúria, representantes do Poder Executivo acabaram por vender regalias aos membros dos outros poderes, inflando a folha de pagamento do Estado, com uma série de adicionais, gratificações e auxílios incorporáveis à remuneração. Com isso, magistrados, procuradores, auditores e deputados estaduais passaram a ganhar o equivalente a jogadores de futebol profissional, em times de primeira divisão. Os repasses institucionais eram feitos com escancarada prodigalidade, a ponto de beneficiar deputados e desembargadores com profícuas verbas para seus gabinetes. Ao mesmo tempo, até por conta do modelo previdenciário existente, muitos servidores com altas remunerações acumuladas passaram a se aposentar, inflando ainda mais os gastos do Poder Executivo. Na iminência desses desajustes e sem ser feito nada para corrigir esses populismos, o estado foi continuamente se endividando, comprometendo a folha de pagamento, e sem ter como recorrer mais aos recursos existentes na previdência.

O atual governador nas redes sociais administrando o prejuízo.
A bola de neve foi avolumando até se transformar em avalanche. Décadas de desperdício de dinheiro público no pagamento de gratificações e adicionais criados propositadamente com a intenção de beneficiar apaniguados entre os poderes, ausência de uma cobrança efetiva de tributos de grandes fortunas de segmentos responsáveis pelo financiamento privado de campanhas eleitorais, uma política econômica voltada para atender os interesses do agronegócio, em detrimento do desenvolvimento local, tudo isso pode ser colocado num liquidificador e resultar numa terrível gororoba, formada por policiais insatisfeitos, repartições vazias, servidores sindicalizados em greve e a população, principal destinatária dos serviços públicos, abandonada, sem acesso a hospital, escola ou uma viatura policial.

O futuro não parece nada alentador para os potiguares, mas muito menos para o seu funcionalismo. Se 2018 promete mais recessão, só resta ao servidor e a servidora endividado pensar numa nova opção de emprego, já que há dois anos vê seu meio de subsistência minguando num espaço de meses cada vez maior. A crise do funcionalismo é a crise de um Estado por completo e essa crise não é boa pra ninguém, nem para quem está encastelado em sua mansão ou apartamento de luxo, nem para quem vive somente num casebre. Aguardemos ainda os próximos capítulos de um conto de terror chamado governo Robinson Faria!



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

COMPORTAMENTO: Por que os artistas se matam tanto?

Era para eu ter escrito essa postagem há alguns meses atrás este ano, logo após ter tomado conhecimento do trágico suicídio do cantor norte-americano Chris Cornell, após um show de sua banda, uma das lendas do grunge, o Soundargen. Eis que no mês seguinte, no aniversário da morte de Cornell fui surpreendido por outro suicídio: a morte de Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, morto, assim como Cornell, por enforcamento. O cantor do Soundgarden tinha 52 anos e três filhos, e Bennington, 43, e quatro filhos. Ambos experimentaram o sucesso, venderam milhares de discos com suas bandas, suas vozes eram reconhecidas nas rádios do mundo todo e ninguém pode dizer que algum deles estivesse atolado em dívidas ou passando necessidades materiais. "Foi as drogas!", muitos dirão, até porque ambos os vocalistas tiveram um passado nebuloso de uso de drogas pesadas. "Foi a depressão!", outros podem dizer, uma vez que tanto Cornell quanto Bennington lutavam há anos com seus demônios internos, tiveram infâncias difíceis em disfuncionais famílias proletárias da costa oeste americana, e, geralmente, relatavam toda sua dor e seu pranto nas letras de suas músicas. Será que foi apenas isso?

Na verdade, entre a vontade e a ação, senti-me tocado a finalmente escrever umas linhas de texto neste blog, quando, passando numa livraria, vi alguns textos do poeta russo Vladimir Maiakovski, e me surpreendi com uma foto dele morto, aos 32 anos, jovem, bonito, elegante em seu terno branco, mas com uma expressão de lamento, com os olhos fechados e a boca aberta num último gesto, como que ao proferir o último grito, enquanto uma mancha de sangue escorria de seu casaco, revelando que o artista havia dado um tiro no próprio peito. Entre Maiakovski na Rússia da década de trinta, Torquato Neto no Brasil dos anos setenta e Cornell a Bennington em pleno século XXI, pude notar a semelhança de que todos eram jovens, todos tinham família, todos tinham sua obra, mas diante de um mundo que, para eles, era tão caótico, parece que não conseguiram segurar a onda.

Ao mesmo tempo, ao escrever este texto me recordo da frase atrevida de Gene Simmons, vocalista e baixista da antológica banda Kiss. Quando Kurt Cobain, do Nirvana, matou-se, em 1994, Simmons publicou uma nota na imprensa, onde só lamentava que o cantor do grunge não tivesse deixado um bilhete, deixando toda sua fortuna para ele. Apesar da indelicadeza típica de um membro do Kiss, Simmons comentou logo após a polêmica frase que não admitia que alguém não segurasse a onda do sucesso e da fama, já que era aquilo que ele (bom rockeiro capitalista e eleitor do Partido Republicano) sempre quis quando resolveu ser músico nos anos setenta, quando, segundo ele, nos tempos de pobreza tinha uma banda miserável que não dava grana sequer pra comprar um bife.

Na verdade, Simmons e Cobain são de universos e gerações distintos da cena do rock, e apesar de ambos terem contribuído, ao seu modo, para a história da música, o suicídio de Cobain tem muito mais haver com outros personagens célebres da vida musical, como os próprios Cornell e Bennington, seus contemporâneos. Somados a eles, nessa macabra estatística, podemos citar o cantor Ian Curtis, líder e vocalista do lendário Joy Division, banda inglesa pós-punk do final da década de setenta, que se enforcou aos 23 anos, há mais de trinta anos, quando sua banda já tinha se tornado antológica, dias antes de embarcar para aquela que seria a primeira turnê norte-americana do grupo de Manchester. Epilético, com acesso a álcool e drogas, e uma vida doméstica complicada, Curtis foi mais um que sucumbiu, pendurado em uma corda, a ingressar na triste lista de bons artistas que tiraram a própria vida. Assim como os vocalistas do Soundgarden e do Linkin Park, Ian Curtis também tinha família, deixando uma filha orfã. Seriam essas pessoas todos uns fracos egoístas, que, deliberadamente, deixam filhos sem pais??

Mas o que leva essas à solução final e mais trágica? Fora os efeitos deletérios da dependência química e o consequente mal estar físico e psicológico, o que levaria esses bem sucedidos músicos a não ver mais sentido em respirar e tirar a própria vida? Creio que seria muito simplismo dizer que gestos tão tristes como esses seria apenas um ato de egoísmo. Na verdade, se formos contabilizar aqueles que se foram como integrantes de uma geração perdida, concebida na segunda metade do século passado, alguns anos após o surgimento do rock, teremos uma tese sociológica e literária sobre esse fato: trata-se de uma geração de mal do século.

Historicamente, o mal do século é um movimento do século XIX, que se desenvolveu nas letras e nas artes de uma Europa e, posteriormente, de uma América que vivia a ressaca do romantismo. Segundo a definição de Massaud, o mal do século pode ser definido como uma estética de: “Pessimismo extremo, em face do passado e do futuro, sensação de perda de suporte, apatia moral, melancolia difusa, tristeza, culto do mistério, do sonho, da inquietude mórbida, tédio irremissível, sem causa, sofrimento cósmico, ausência da alegria de viver, fantasia desmesurada, atração pelo infinito, “vago das paixões”, desencanto em face do cotidiano, desilusão amorosa, nostalgia, falta de sentimento vital, depressão profunda, abulia, resultando em males físicos, mentais ou imaginários que levam à morte precoce ou ao suicídio”.

Tivemos no Brasil diversos representantes dessa estirpe, como Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, mas talvez Goethe seja um dos maiores expoentes desse movimento artístico, com seu clássico romance: "O sofrimento do jovem Werther", que  incitou uma onda de suicídios em toda a Europa, devido ao destino do seu protagonista, chegando a ser mesmo considerada durante anos uma obra maldita ou proibida. Pois é, meus amigos! Tristeza não é sentimento fácil e pior ainda é falar dele ou cantar sobre isso. Se, há dois séculos atrás, um coletivo de jovens artistas via o fracasso da revolução industrial, com a pujança capitalista dos grandes proprietários de um lado, a confrontar com a miséria e a exploração de milhares de assalariados e desempregados do outro lado, num cenário de guerras, perseguições e conflitos, na segunda metade do século XX, após os primeiros alegres acordes da guitarra de Chuck Berry, os rebolados de Elvis, e a rebeldia intrépida da invasão britânica, que trouxe os Beatles e os Rolling Stones, o rock das décadas seguintes nunca foi o mesmo, sacudido pelo som pesado e sombrio do Led Zeppelin e Black Sabbath ou de discos falando sobre discos voadores ou  gnomos, no rock progressivo de bandas como Genesis ou Pink Floyd.Era o fim da flower generation e as mensagens de paz, amor e esperança do movimento hippie, cuja inocência foi encerrada abruptamente pela chacina da família Manson. Era tempo agora da música popular, especialmente o rock, voltar-se em suas letras para um lado mais sombrio, escuro, depressivo, como que chegando ao fundo da alma, explorando toda a tristeza e o desencanto com aqueles tempos. Para contribuir para o clima geral de pessimismo traduzido em musicalidade, poemas e estilo, surgiu o punk, e com ele atitudes totalmente niilistas, de "não estar nem aí pra todo o mundo" ou de "foda-se o mundo", por meio dos rocks de protesto do Sex Pistols ou do The Clash.

Foi ouvindo as músicas desses grupos que surgiram cantores como Kurt Cobain, Chris Cornell e Chester Bennington.  Já imersos numa cultura pessimista de autodestruição, esses artistas foram criados em ambientes que apenas pulverizaram em forma de arte sentimentos que já estavam sendo carregados com eles desde tenra idade. No caso de Cornell, sabe-se que era um garoto solitário, filho de um farmacêutico e de uma contadora, que abandonou a escola na adolescência após uma forte depressão que o impossibilitava, inclusive, de sair de casa. Chris gostava de leitura e tinha apreço especial pelos poemas de Silvia Plath (outra artista que se suicidou jovem). Nesse sentido, a música foi a válvula de escape natural para quem já alimentava muitos monstros internos, e tais criaturas já eram descritas, de forma semelhante ou em mensagens cifradas em letras de música sobre o desencantamento do mundo e das pessoas, diante de uma sociedade industrial e tecnológica em crise, como nas músicas do Joy Division. Chester Bannington, por sua vez, teve também sua cota de dor transmitida por meio das letras de suas músicas. Vítima de bullying e abuso sexual na infância, Chester buscou durante anos no álcool e nas drogas as fugas para seus dramas pessoais, e sempre teve o vocalista do Soundgarden, quase dez anos mais velho, como grande ídolo e referência, já que provinham do mesmo ambiente. Desta forma, é mais aceitável para alguns reconhecer que o suicídio do amigo músico foi o catalisador final de um processo mórbido que já havia se iniciado há anos no inconsciente do músico norte-americano, e que culminou com sua morte, da mesma forma que seu ídolo, cerca de um mês antes. No contexto de músicas que falavam do absurdo da indiferença, do reconhecimento da impotência, da exaustão de ser quem é, e da tristeza quanto à insensibilidade do mundo, não é tão estranho pensar agora que intérpretes que levam sua arte a sério, podem levá-la até às ultimas consequências, transformando em realidade, o que antes era apenas esboçado nas letras de suas músicas.

Encerro, assim, estas linhas, ao tratar da trágica morte desses célebres artistas, reproduzindo em português os versos do refrão da canção Numb, umas das clássicas do Linkin Park, cantada na saudosa e lancinante voz de Chester Bennigton, que eu espero tenha encontrado a paz que nunca encontrou em vida, junto ao seu amigo Chris Cornell, desejando eu que mais almas tão atormentadas não nos deixem tão cedo, ao menos não antes de deixarem algo de bonito, que talvez não consigam ver em suas próprias vidas, como a beleza de suas canções.

Eu me tornei tão indiferente
Não posso sentir você aí
Me tornei tão cansado
Muito mais consciente
Estou me tornando isto
Tudo o que eu quero fazer
É ser mais como eu sou
E menos como você é

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?