sábado, 21 de março de 2020

EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS: Suportar o insuportável

Começo essas linhas com uma sensação de incômodo emocional. Creio que para uma pessoa medianamente sã, não passa batido tanta preocupação, assombro, pânico e, finalmente, tristeza, diante de uma pandemia que estremeceu o planeta, após vinte anos de um ainda jovem século XXI. Do dia pra noite, uma simples sigla médica, o COVID-19, tornou-se familiar ao mundo inteiro, com consequências terríveis.

Vivo um roteiro de um daqueles filmes apocalípticos de terror e ficção científica. A diferença é que, desta vez, faltam apenas os zumbis; mas está tudo ali, numa sequência de fatos que comprovam uma humanidade devastada por uma catástrofe global: isolamento social; estabelecimentos como escolas, bancos, restaurantes, bares, cinemas, academias e igrejas completamente fechados; ruas e praças desertas; gente assustada dentro de carros com lenços ou máscaras hospitalares nos rostos; desemprego e incertezas quanto ao recebimento futuro de salários; aeroportos e fronteiras obstruídos; noticiário na tv e na internet somente tratando do mesmo assunto calamitoso; redes de solidariedade entre pessoas na vizinhança, cantando nas janelas de prédios, rezando ou protestando contra um governo; ausência do Estado, ou quando muito sua presença mal e porcamente, revelando a dificuldade de governantes e gestores públicos em lidar com um mal invisível, desconhecido. Ufa!! Será que o coronavírus veio mesmo para destruir a civilização, ou ao menos o que entendíamos dela, para, depois, erguer-se outra? Será que foi uma enfermidade originada inicialmente na China, a responsável por extinguir de vez a globalização? Ou será que servirá para fortalecê-la?

Vivo, pela primeira vez, uma realidade que eu então só concebia nos filmes, e que deve ser inédita também para meus pais e para as novas gerações que nunca tinham sofrido os efeitos tão intensos de uma pandemia. Como um observador de primeira ordem, infelizmente, sou de uma categoria de indivíduos que está diretamente exposta ao contágio: a dos profissionais da segurança e da saúde pública. Como trabalho em escala de plantão, num serviço essencial de atendimento ao público, não tenho como trabalhar ou permanecer em isolamento, como milhares de pessoas, que voluntariamente se trancaram em casa, ou porque foram pra lá porque seus empregos fecharam. Isso significa que não tenho a menor possibilidade de ter contato físico com meus pais já idosos e fragilizados da saúde. É doloroso! Mas já imagino ter que passar meses sem vê-los pessoalmente, e perder datas importantes, como aniversários, páscoa, dias das mães e dos pais, cujos festejos terão de ser adiados. É da vida! Diante de uma doença com tão elevada carga de contágio e um óbito gigantesco entre os mais velhos e mais frágeis, não me resta outra opção, por questões de sobrevivência. Não se trata apenas de um ato de isolamento, mas também de um ato de amor. Já imaginou o sentimento de culpa, por ter sido você o responsável por contaminar seus pais ou filhos? Sem dúvida, é um desgaste emocional de proporções tão agudas quanto os efeitos maléficos de uma febre, tosse seca ou falta de ar, comuns nos sintomas do coronavírus.

Por falar em amor, imagino que, se podemos pensar o lado otimista de toda catástrofe, podemos perceber o que há de melhor dentro do que há de pior. De ver beleza mesmo na ruína. É ver o quanto as pessoas podem parecer egoístas de um lado: recusar um abraço, um beijo, um aperto de mão em quem merece ou necessita, por medo do contágio; como também podem ser altamente solidárias do outro: enviar livros digitais ou canções pela web, cantar juntos ou fazer orações simultâneas, cada um na janela ou sacada de seu apartamento, ou mesmo simplesmente compartilhar sentimentos nas redes sociais por meio de mensagens de whatsapp, facebook e twitter, ou fazer como eu eu faço, escrevendo neste blog esta pequena crônica da pandemia. Todo o exercício mental é possível e devido, como forma de passar o tempo, diante da falta de opções no dia em que a Terra parou (parodiando a célebre canção de Raul Seixas). 

O que me passa pela cabeça nesses dias difíceis e permeia os sentimentos é a indagação de como suportar. Não se trata de suportar o isolamento, suportar a ansiedade ou medo pelo risco de ficar doente, suportar a possibilidade de que senão você, mas seus entes queridos possam ficar enfermos, suportar as consequências econômicas nefastas de um período tão longo de suspensão das atividades do comércio, indústria e setor de serviços. Trata-se de suportar a incompetência, negligência ou mesmo cumplicidade com a pandemia de gestores, daqueles que são legalmente responsáveis pelo nosso bem-estar, e foram eleitos ou são pagos pelo erário público para resolver o problema, custe o que custar.

Todos aqueles que me conhecem sabem de minhas posições políticas e opções ideológicas. Mesmo aqueles que não conhecem, percebem facilmente ou ao menos desconfiam ao ler meus textos, ou ver minhas manifestações ao vivo nas redes sociais ou em um programa de rádio que participo. Não escondo, portanto, de ninguém, que não gosto de quem nos governa nacionalmente, assim como não gosto de seus familiares e apoiadores, numa oligarquia política acompanhada de um séquito extremista. Faz parte da democracia! Assim como eu podia perceber o asco que alguns integrantes conservadores da classe média tinham de Lula e seu partido, nos tempos áureos da governança petista, eu agora posso perceber o quase irracional e furibundo sentimento de repulsa que muitos liberais e progressistas como eu, tem, da figura do senhor Jair Bolsonaro. 

A diferença é que o ódio que há décadas muita gente nutria por Lula traduzia-se num ódio de classe, e a esquerda brasileira contribuiu, é verdade, para intensificar esse ódio, por meio do discurso do nós X a elite. O bolsonarismo, por sua vez, tira a classe social da dicotomia e no seu lugar coloca a pátria, num velho ufanismo e enrugada xenofobia militarista, saudosa da ditadura. Os verdadeiros patriotas, que apoiam o presidente e sua agenda são, portanto, os que vestem o verde-amarelo, como se todo dia de protesto político fosse dia de jogo da seleção brasileira, e com o uniforme canarinho deu-se o direito (na democracia que tanto defendo), a que babacas ou ignorantes assumidos ocupem as ruas, a praça pública, mesmo em plena evolução da pandemia, para defender absurdos, como o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal ou a volta do AI-5. Quer pandemia pior que um vírus mental? 

A diferença do ódio bolsonarista do ódio petista é que, por não se tratar de um ódio a uma classe social específica, o ódio do extremismo de direita brasileiro é direcionado ao outro, a todo aquele que é diferente. É um ódio para todo aquele que não professe o credo conservador, reacionário, ufanista, fanático religioso ou olavista do bolsonarismo; ou seja, ódio contra jornalistas, feministas, negros, indígenas, ambientalistas, homossexuais, sindicalistas, artistas, professores e estudantes universitários, além de militantes de esquerda e de causa progressistas. 

Imagine, portanto, um ódio desses a obliterar a mente de um presidente da república, aquele que é responsável pelos destinos de uma nação, diante de um vírus avassalador, que contamina milhares, matando centenas, num piscar de olhos? Na Itália, novo epicentro global da doença, a ausência de cuidados de contenção nos primeiros dias de contaminação custou caro ao povo italiano, registrando-se mais casos, em termos absolutos, do que a China, onde se iniciou a pandemia. Imagine então uma doença se alastrando em seus primeiros dias num país com um presidente populista, mal avaliado, que parece estar sempre em campanha a governar somente para seu eleitorado, cometendo o gesto irresponsável de cumprimentar uma multidão de apoiadores, enquanto seu ministro da saúde já pregava uma semana antes que contatos físicos deviam ser evitados. Imagine, depois do coronavírus já definitivamente espalhado no Brasil, o filho deputado desse mesmo presidente se valer das redes sociais para insultar a China (isso mesmo! A China!), criando uma crise diplomática sem necessidade, como para desviar o foco da atenção do problema do governo em lidar com a pandemia, tão e simplesmente para criar assunto nas redes e demonstrar o quanto a linha política do governo é subalterna aos Estados Unidos, e ao seu presidente topetudo tão populista quanto. Imagine, ainda, um presidente comprar briga com os governadores, já que o país se trata de uma federação de estados, cada um com sua autonomia administrativa, depois que os chefes do executivo local decidiram tomar medidas para contenção do vírus, já que o presidente titubeante não as tomou. Imagine como suportar isso!!

Difícil de suportar os Bolsonaro e a ideologia política populista que os acompanha. Difícil suportar nesse governo seu ministério, uma verdadeira legião do mal de tipos caricatos, medíocres, mesquinhos, hipócritas ou culturalmente toscos, como os ministros da fazenda, justiça, educação, direitos humanos, meio ambiente e relações exteriores, só pra citar como exemplos iniciais, poupando, por enquanto, uma controvertida e famosa atriz transformada em secretária de cultura. Difícil suportar os males causados por um coronavírus diante de um governo que não elegi, não confio, não dou credibilidade, e, o pior, temo que possa contribuir para que a doença se alastre ainda mais. O exercício de viver no Brasil, desde a eleição de 2018, já era, antes da chegada do coronavírus, um ato de suportabilidade que prescindia de máscaras, luvas, muito álcool gel e equipamento de proteção. Com a chegada do Covid-19 parece que o quadro apocalíptico que já vivíamos (e que alguns incautos não percebiam), apenas se agigantou. O que esperar do futuro, se o coronavírus pode ir embora dos nossos organismos, mas o estrago institucional trazido pelo bolsonarismo e sua mediocridade política pode comprometer muito mais os alicerces da economia, da cultura, das relações sociais e das regras de civilidade entre os brasileiros que sobreviverão à pandemia? 

Não tenho respostas prontas e acabadas. Não tenho sequer respostas, pois persiste a minha indagação: como suportar? É claro que na minha crença cristã, que muito me dá a esperança, se Deus nos trouxe a pandemia, como uma espécie de castigo divino, talvez Bolsonaro e seus asseclas sejam o nosso castigo político. Se não aprendemos a lavar as mãos corretamente durante anos, e fomos obrigados a aprender tardiamente um hábito tão basilar de higiene pessoal, para evitar doenças, talvez aprender a votar seja o próximo estágio de nossa evolução, após o cataclismo que nos atingiu. Enquanto isso, sigo vivendo (ou sobrevivendo), sigo suportando. Senão por mim, pelo futuro do meu filho. Senão pela minha saúde (física e mental), ao menos pela minha dignidade. Por isso escrevo, por isso desabafo. E se essas linhas que acabaram extensas puderam ao menos te distrair no teu isolamento, enquanto o vírus ainda persiste, pelo menos fiz meu papel. Tenhamos todos a força suficiente para suportar!! Nos vemos no final da pandemia! Assim espero!


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CRÔNICA: Nem Regina, nem Malu, nem Helena

Regina é atriz. Disseram-me que Regina vai assumir um ministério. Ministério, não!! Palavra pomposa, que remete a uma missão divina (ministério de Deus, por exemplo), mas sim uma Secretaria. Talvez, no português moderno, não se confunde o termo citado com outro, com a função que se vale da mesma palavra, mas com acento, lembrando uma profissão antiga dos escritórios e gabinetes, que não se limita a receber telefonemas, anotar nomes numa agenda, receber pessoas para conversar com uma autoridade ou levar numa reunião café com uns bolinhos. De qualquer forma, Regina agora é Secretária. Não de qualquer um, mas do povo brasileiro. E seu ingresso no cargo não é em qualquer um, mas na (outrora) respeitada área da Cultura. Há tanto espaço para Regina???
Conheci outra Regina, que foi namorada de um país. Eu mesmo me enamorei dela quando criança. Via minha mãe, diante da TV, encantada com os personagens que ela fazia nas novelas, enquanto brincava com meus carrinhos de brinquedo na sala. Regina era uma heroína de folhetim: ora a donzela injustiçada, ora a vingadora destemida, que encerrava cada história dando a volta por cima, casando-se com seu príncipe encantado. A Regina dessa época era uma bonequinha, cujos sonhos eu teimo em não esquecer.
Mas, depois, à medida que fui crescendo e meu país também, a Regina mudou de nome. Na entrada da adolescência, Regina agora era Malu! E que Malu!! Vivendo eu num condomínio residencial de famílias de militares "bem" casados, na felicidade monogâmica de meu idílio de classe média, com pai e mãe em casa, Malu desafiava a família patriarcal, como mulher independente, sem marido, com filhos, "desquitada". Sim! Porque a palavra " desquite" era quase um tabu, e falar em divórcio, então, apesar de aprovado no Congresso alguns anos antes, por um certo senador Nelson Carneiro, ainda era um bicho de sete cabeças. Foi a primeira vez que ouvi falar na palavra "feminismo". Foi vendo na TV uma Malu premiada, contemporizando com um sujeito cubano, barbudo e de uniforme, chamado Fidel Castro, é que percebi, nos meus olhos de moleque de uns 12 anos, que meu país estava mudando. Vi essa mudança mais de perto na capa de uma revista, já que a televisão não mostrava, um comício enorme, cheio de gente importante, chamado de Diretas Já, que pedia o fim da ditadura, com uma Malu bonita e sorridente como sempre, mas aguerrida como sua personagem na TV, ao lado de um professor que foi candidato a Prefeito de São Paulo, chamado Fernando Henrique, e de um certo metalúrgico, nordestino, de barba e voz grossa, chamado Lula.
Aí, o tempo passou rápido, e a Regina que virou Malu transformou-se em outro personagem: Malu virou Porcina. 
Lembro-me bem da risada que meus pais nordestinos davam ao ver na tela uma viúva perua, cheia de adereços, que imitava o sotaque deles. Mas também me lembrei de momentos tristes, quando estava no corredor de um hospital militar em Brasília, enquanto meu pai padecia num leito, adoentado, recuperando-se de um princípio de AVC que quase o matou. Apesar do ambiente, lembro-me da TV ligada, na recepção, e de como enfermeiros e médicos paravam de vez em quando para ver e gargalhar com cenas da Viúva Porcina na novela, num momento em que a dor e a doença davam lugar à diversão.
O tempo continuou passando, fui crescendo, tornei-me um jovem adulto e universitário. E aquela Regina, que um dia foi Malu, transformou-se em Porcina, e, num curto período, viveu ao som de lambada uma "Rainha da Sucata", chamada Maria do Carmo, e, agora ,era Helena. Por uma década, até o final de um século, vi uma Regina ser chamada de Helena, assim como Virgílio em Troia uma vez chamou por uma princesa do mesmo nome. O nome belo registrado para meninas que nasciam em todo o território nacional, durante uma década, tinha sua inspiração numa heroína agora madura, mas igualmente trágica. Como não chorar diante da história inusitada da mãe quarentona, que engravida juntamente com a filha, e num roteiro dramático bem novelesco, troca no berçário da maternidade seu filho vivo recém nascido pelo da filha, morto ao nascer, a fim de que ela não sofra tamanha perda e luto?Ahhh, Helena (ou será Regina?)!! Como você sabia de emoção e interpretação!!E como suas atuações, na TV ou no teatro, fizeram-lhe rivalizar com a maior atriz que esse país já teve: como a indicada ao Oscar Fernanda Montenegro!
Pois esse meu Brasil, que continuou mudando a cada novela, viu uma Helena se tornar Regina de novo, quando aquele sindicalista e torneiro mecânico dos comícios de décadas atrás, viu chances reais e conseguiu, historicamente, ser eleito Presidente da República. Estranhou-me quando, na véspera da eleição, uma Regina apareceu na TV, no programa do candidato adversário, dizendo que tinha medo, caso a oposição ganhasse. Que medo haveria de existir?? De que país ou governo deveríamos ter medo de mudar, se uma Regina ousou ser Malu, num tempo que os militares ainda governavam, e se de uma ditadura tínhamos saído há décadas, para abraçar uma opção democrática, sufragada nas urnas? Naquele momento, percebi que a Malu não ia mais voltar! Que a Helena pragmática, de classe média, que sacrifica egoisticamente a ética para proteger a própria filha na novela, havia assumido de vez uma personalidade pública, que transpunha, em muito, os folhetins.
Mas a história não parou aí. Num Brasil em constante transformação, quando eu pensava que tínhamos chegado a um certo "fim da história", como havia alardeado antes um economista com sobrenome japonês, passamos por uma ilusão trabalhista, um fenômeno de otimismo e commodities chamado Luiz Inácio Lula da Silva, e vimos com sua sucessora, uma das piores crises desde o Estado novo ou os sequiosos anos que antecederam o golpe civil-militar. Por fim,com manifestações que lotaram as ruas do país depois de um controvertido processo de impeachment, vi uma agora idosa Regina aparecer de novo, celebrando a deposição de uma presidente democraticamente eleita. Até aí, tudo bem!! Mas......e depois??!!!!
Deparo-me hoje, num Brasil que restabeleceu pelas urnas o autoritarismo, de ministros (ministros, não, secretários!), que reproduzem na maior cara de pau discursos de ministros da propaganda nazista, e de como equivocadas ministras evangélicas pregam a abstinência sexual como panaceia para a saúde pública, ou de ministros da Educação, que além de escrever errado, tem ojeriza a professores e universidades e fazem um simples exame nacional de cursos se tornar um vexame nacional. Percebo, nisso tudo, que a Regina do passado agora quer ser mais Regina do que nunca. Mas, Regina do governo! Regina de uma alternativa criptofascista.
Pergunto-me se essa Regina tem alguma coisa haver com a Regina dos novelões que eu via com minha mãe, há mais de quarenta anos, ou com a Malu forte vigorosa e independente de minha adolescência, ou mesmo com a Helena pueril de minha vida adulta. Pergunto-me do direito sagrado, inalienável e constitucionalmente assegurado a cada um, como liberdade individual, que é o direito de mudar, mesmo que seja pra pior! Mas, sobretudo, pergunto-me em plenos e tenebrosos tempos de bolsonarismo: é isso mesmo???
Diante da resposta e aceitação de Regina a um projeto de governo e poder que só me faz vomitar, lembro-me de uma celebre frase do dramaturgo Konstantin Stanislawsky sobre a profissão do ator: "aprendam a amar a arte em vocês mesmos e não vocês mesmo na arte!". Diante de uma atriz que há décadas nos encantou e que agora não se sabe se é uma atriz protagonizando uma burocrata ou uma burocrata protagonizando uma atriz, será que Regina ama a si própria ou a sua arte?? Desse roteiro, num filme de terror chamado governo Bolsonaro, ainda se espera um final feliz, como todo final de novela!!



Gates e Jobs

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GAZA

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