sexta-feira, 3 de abril de 2009

LULA & OBAMA NA CONFERÊNCIA DO G20:É namoro ou amizade?

O atual bafafá da política internacional é a "rasgação de seda" flagrante do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama para o presidente Lula, na conferência dos vinte países mais importantes do mundo (o G20), realizada ontem, dia 2 de abril, em Londres. A reunião, convocada para discutir a crise financeira mundial, antes de seu início, parecia mais um encontro de camaradas, com direito a brincadeiras, tapas nas costas, risadas, brincadeiras, e poses para fotos. Parecia mais um encontro de ex-colegiais numa festa de aniversário da turma ou uma roda de bate-papo diante do churrasco, após uma pelada de futebol. A descontração, a intimidade e a desinibição mais evidentes e impressionantes, foram justamente do recentemente empossado presidente norte-americano e o presidente brasileiro, e contrastavam com o sentimento global de medo, insegurança e ansiedade diante de um incerto e desolador quadro de colapso das finanças mundiais, com onda galopante de desemprego, recessão, quebradeira de empresas e bancos e encarecimento de produtos.

Filmados pelas câmeras de TV do mundo inteiro, o que ganhou mais destaque na mídia brasileira, do que a própria conferência, foi o elogio espontâneo conferido por Obama a Lula, no encontro dos dois no evento. Se o presidente brasileiro já se mostrava bem à vontade, e andava de braços dados com o presidente da França Nicolas Sarkozy (parece que a visita dele ao Brasil, acompanhado da estonteante primeira-dama Carla Bruni, o sol da Bahia e a caipirinha fizeram muito bem ao presidente francês), a cena posterior com a chegada de Obama parecia o reencontro de velhos e queridos amigos. Lula não disfarçou o contentamento de sorriso largo, e recebeu o novo "amigo" norte-americano com direito a longos abraços e amistosas conversas de compadre (naturalmente acompanhadas de perto pelo intérprete oficial do Palácio do Planalto). Ao apresentar Lula ao secretário do tesouro americano, Timothy Geithner, Obama deixou sair um comentário elogioso típico dos brothers negros do bairro do Harlem, quando reconhecem um parceiro ou um bom chapa ao reencontrá-lo. Foi o comentário do "sangue bão": Obama referiu-se a Lula como "this is the man"(esse é o cara), "I love this man", dizendo ao secretário do tesouro, que ele estava falando com "o político mais popular do mundo". E ainda completou a amigável brincadeira, dizendo que Lula deveria ser mais importante que ele, Obama, por ser "mais boa-pinta".He,he,he,he,he,he,h,e. Ué? Alguém não achou graça??

Imagino o senador Artur Virgílio do PSDB, inflamado crítico do governo, assistindo o episódio na TV e cuspindo na hora o cafézinho que tomara em seu gabinete, afirmando: "Obama tá dizendo isso porque não é brasileiro". Que o diga então a parcela do eleitorado brasileiro antilulista (especialmente aquele majoritário sediado em São Paulo, por que será?), que se não pulou de raiva pelo elogio rasgado a nível planetário de Obama a seu maior desafeto, deve ter feito coro junto aos parlamentares de oposição no Congresso, fazendo desdém do elogio do presidente norte-americando, e afirmando em tom impessoal:"ele tava apenas brincando". Que será que vai dizer o Diogo Mainardi? Tô me coçando pra saber! Bom! Pelo que eu saiba, ele não gosta de Obama também! Na verdade, acho que o nobre articulista da Veja não gosta de ninguém "pop" que não seja ele mesmo. É o "meio bronzeadinho" sujo (como disse Berlusconi, da Itália, presente no evento) falando da mal lavada "anta" do Mainardi. Aguenta essa Revista Veja!

Na verdade, desde o primeiro encontro oficial entre Lula e Obama em Washington, no mês passado, havia ficado mais do que evidente a mútua simpatia entre ambos. Lula e Obama naturalmente tem histórias diferentes, mas ambos são produto de seu tempo, sendo autênticos representantes de transformações extraordinárias no processo político global dos últimos tempos, e fruto do amadurecimento da democracia e da nova consciência despertada no eleitorado. Há pouco mais de vinte anos atrás, em plenos anos oitenta do século passado, seria inconcebível ou mesmo loucura considerar que um iracundo torneiro mecânico barbudo, líder de um partido de sindicalistas de esquerda, chamados na época de radicais ou de "xiitas", e um negro, filho de um queniano, pudessem ser, respectivamente, presidentes de uma nação de dimensões continentais e passado autoritário e populista como o Brasil, e da maior potência econômica, bélica e política, da mais poderosa nação do planeta. É, foi um avanço e tanto!

Emblemática e digna de nota na imprensa nacional foi, não apenas os comentários sobre as impressões de Lula, acerca do primeiro encontro do brasileiro com o presidente norte-americano na Casa Branca, mês passado, mas também o simbólico gesto de Lula, feito naquela ocasião, ao segurar com uma das mãos o peito de Obama, desejando-lhe sorte e sucesso em sua administração, aconselhando-o a "ouvir seu coração". O gesto, apesar de ser precipitadamente retratado por alguns como uma espécie de "viadagem" sentimentalóide ou pura demagogia, na verdade sintetiza a forma como ambos os presidentes se relacionam entre si e com o povo ao seu redor. Lula e Obama podem ser taxados de serem populistas, mas não o são por seus simples atributos pessoais, uma vez que carisma pode ser confundido com populismo, toda vez que o detentor dessa característica moral comporta-se como mais um do povão.

Longe dos gestos requintados, professorais ou academicistas de um Fernando Henrique, ou menos que "um Sartre", mas muito mais comportando-se como um "encanador"(como se referiu desdenhosamente a viúva do jornalista Roberto Marinho, na primeira eleição que Lula concorria com FHC), o atual presidente brasileiro popularizou-se ou tornou-se a liderança mais popular do mundo, como apregoa Obama, justamente por manter em sua postura condutas avessas ao protocolo tradicional dos chefes do Estado. Lula usa frases feitas, é claro, mas estas condizem muito mais a um repetitivo cacoete de alguém que procura se expressar da forma mais direta e clara possível ao seu eleitorado ( e ele consegue isso como ninguém), do que a um discurso pronto arquitetado por marqueteiros. Se Lula fosse artificial não teria vingado sequer como liderança no sindicato. Da mesma forma, Obama manifestou ter personalidade semelhante, seja pelo bom humor, pela boa lábia ou pela humildade. "Nunca antes nesse país" um presidente brasileiro foi tão bem elogiado pelo líder de uma grande potência.

Em seus traquejos, virtudes e erros, Lula e Obama firmaram-se como líderes não apenas como personagens já consagrados nos livros de história por sua impressionante trajetória pessoal, mas também pela sua inegável capacidade de cativarem seus interlocutores, utilizando a simplicidade da conversa informal como eficaz arma de retórica política convincente. Ambos são hábeis e ágeis comunicadores, muitas vezes falando em seus discursos de improviso, cultivados pela genuína convivência com as camadas populares, que lhes deram vivência e aguçada articulação política, durante o percurso de suas vidas. Lula e Obama nem sempre seguem a orientação de seus assessores, colhendos os frutos e dividendos políticos de suas opções, como também pagam o preço de suas gafes eventuais (vide a repercussão da declaração feita por Lula, dias antes, diante de um estupefato Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, ao atribuir à crise mundial a um bando de "banqueiros brancos de olhos azuis", num suposto racismo às avessas. Olha o que tu falas, Lula!!!).

Agora o que importa mesmo saber depois de tantos afagos, é se a simpatia cultivada naturalmente como um "amor à primeira vista" entre os dois presidentes, vai ser revertida em benefícios para a nação e para o povo brasileiro por meio de medidas menos protecionistas por parte do presidente yankee. Não podemos esquecer que Obama está a serviço de seu país e dos interesses de seus empresários, investidores e produtores, naturalmente vinculado (como deve estar) plenamente aos interesses nacionais. Não acredito que a amizade entre esses presidentes fará ceder um milímetro a intransigência norte-americana quanto à abertura das importações e o fim das reservas quanto ao etanol brasileiro. Ao mesmo tempo foi dada uma trégua para Obama, em função da inegável e evidente responsabilidade a que ele está submetido, em virtude de ter que carregar nas costas o fardo de ter de ajustar as contas globais, sob pena do cataclisma absoluto, em função de um legado maldito herdado por seu antecessor. Como se não bastasse, Obama tem que ligar com guerras, o combate ao terrorismo internacional, a necessidade de reparação da imagem dos EUA no cenário internacional, e ainda tem que aguentar as pressões internas e externas quanto ao anacrônico e pesado bloqueio econômico ainda imposto a Cuba. Obama não tem tempo para a América Latina, e nem sei se terá, mesmo que consiga se eleger para um segundo mandato. Creio que o máximo que podemos esperar dele em seu carisma de figura histórica, é livrar o mundo do colapso econômico ( se conseguir), além de sua sincera cordialidade.

O fato de ter recebido um elogio do presidente americano de fazer corar, e que o faria ficar sem dormir de tanto orgulho e excitação, não significa necessariamente que Lula esteja imune à crise. Pelo contrário, um dos traços mais marcantes da globalização é a sua lógica de contrastes entre o global e o local, e, de forma bem dialética, quanto mais a crise cresce, mais a popularidade de Lula sobe entre seus pares nas relações internacionais, pela postura do presidente brasileiro de não mostrar abatimento, mesmo com uma economia precária como a brasileira, diante de consagradas potências mundiais presentes no G-20; ao mesmo tempo que seus índices de aprovação no Brasil começam a apresentar desgaste, revelando a dificuldade que terá o mais prestigiado presidente da história nacional de eleger sua sucessora, sobretudo num dantesco ambiente de crise econômica. O tempo não é para deslumbramentos e Lula sabe disso.

Se uma coisa podemos atestar como legado do governo Lula foi, sem dúvida, o sucesso da diplomacia presidencial, fazendo com que uma outrora "república das bananas" fizesse jus ao tamanho de seu continente, merecendo destaque na política internacional. Sob os auspícios do governo Lula, o Brasil deixou de ser um país apenas reconhecido pelo antológico futebol no cenário mundial ou pelas belas mulatas, mas também se revelou um franco e combativo candidato a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Hoje, é impensável e inconcebível, no contexto da globalização, realizar qualquer fórum mundial sem a presença do presidente brasileiro, e pegando carona, seu tímido vizinho argentino, nas discussões de temas caros à humanidade e necessários para a segurança e estabilidade globais. O Brasil é um país rico, eu sei, mas com inúmeras deficiências como se apressa em dizer a oposição; e Obama, por mais negro ou simpático que seja, ainda é um representante do imperialismo yankee e da burguesia internacional, como apregoam os representantes da extrema-esquerda, conforme o virulento discurso da aguerrida e destemidade ex-senadora Heloísa Helena, do P-SOL. Mas, permitindo-me um rasgo nacionalista e uma plena manifestação de orgulho nacional, mesmo sob pena de pieguice, é muito bom ver Lula ou qualquer presidente brasileiro na mesma condição, divindo espaço na foto, sentado, ao lado da rainha da Inglaterra, e tendo o presidente americano em pé, bem atrás, como numa fotografia da seleção dos 20 mais importantes, onde os craques ficam agachados e bem na foto, justamente ao lado dos melhores artilheiros. Inveja mata, FHC! E para todos os críticos do presidente brasileiro, que na campanha de 89 chamavam o cara de analfabeto e objeto de vexame para o Brasil caso assumisse a presidência, não deixa de ter um gostinho de "cala a boca" ver o quanto o atual presidente brasileiro é respeitado, mesmo não tendo feito faculdade na USP, pós-graduação na Sorbonne e nem falar quatro ou mais idiomas.

O Brasil ganhou respeitabilidade internacional pelo fato de ter seguido à cartilha da economia global, mantendo uma política econômica interna de austeridade, investindo nas exportações, regulando o capital, mas mantendo a personalidade, sem se deixar subjugar pelos desmandos dos bancos internacionais e nem ter gastado muito, como outrora fizeram milhares de vezes os governos anteriores. Enquanto o capitalismo no berço dos neoliberais naufragou, pela ganância de seus próprios investidores no famigerado governo Bush, o governo brasileiro não cometeu irresponsabilidades como os argentinos e nem comprou brigas desnecessárias com parceiros raivosos no continente, como Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai, e estreitou seus laços com potências emergentes como a China, os países árabes, além de manter um pé na União Européia, com uma relação mais do que proveitosa com a França. A chegada de Obama ao poder apenas revelou-se uma cereja no bolo, num histórico de relações que transpôs em muito os ritos protocolores da cordialidade, uma vez que até mesmo com Bush em suas trapalhadas, Lula soube tirar proveito mantendo uma boa relação, prosseguindo com laços comerciais intactos, imunes à crises, que só tenderam a se fortalecer.

Podem me acusar de ser "lulista" ao extremo ao estabelecer aqui meus comentários acerca do peculiar elogio feito por Obama ao presidente brasileiro. Mas retruco, dizendo, nessa altura do campeonato, que quem é mais lulista é Obama! This is the man!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

NEM LUXO, NEM LIXO: No "Caso Daslu", como se desenvolveu a nova mania nacional de prender rico!

Foi tema das manchetes nacionais na última semana o exagero ou justiça (será?) da ultrasevera condenação a 94 anos de reclusão e posterior prisão da socialite Eliana Tranchesi, dona da Daslu, uma das maiores lojas de alto luxo do país, pelos crimes de sonegação fiscal, contrabando, descaminho e falsidade ideológica. A juíza que decretou a sentença, qualificou a condenada como chefe de uma organização criminosa, e, em sua decisão, explicitou que a conduta de Tranchesi "era proveniente da cobiça em busca de acumulação de riqueza proveniente de meios ilícitos". Ué?! Será que a maciça maioria da burguesia brasileira e seus representantes políticos no Congresso não fazem a mesma coisa?? Tem que prender todo mundo, então!

Pra quem não conhece o caso, em primeiro lugar cabe aqui uma referência ao mundo da high society, e, pra quem entende do mundo fashion (especialmente através de amigos meus vinculados ao setor da moda), conto um pouquinho da estória da Daslu, uma mitológica loja de roupas sediada em São Paulo, capital, que, assim como a famosa butique de Malcom Mclaren e Vivienne Eastwood na Inglaterra dos anos 70, tornou-se a referência da alta moda, do luxo e do bom gosto a que acorriam os bem nascidos e endinheirados playboys e dondocas paulistanas. A loja comprava e revendia, no mercado brasileiro, roupas e acessórios de moda de grifes importadas famosas e reconhecidas mundialmente, como Versace, Dior, Rolex, Chanel, Louis Vutton. Era comum no ambiente da loja encontrar políticos, empresários, damas da alta sociedade, apresentadores de programa de televisão, atores globais, modelos, e todos aqueles que pudessem bancar o glamour e a ostentação típicos de quem vive da visibilidade social. Para se ter uma ideia, em seu auge, a empresa despontou em reportagens feitas por revistas aclamadas internacionalmente e mundialmente conhecidas, como a Vogue, New Yorker e a Vanity Fair. A Daslu era uma loja de grã-finos para grã-finos, e não deixa de ser simbólica a prisão de sua maior proprietária.

Pois é, a Daslu tornou-se mitológica porque figurou nos anos noventa do século passado como parte da paisagem paulistana, na meca do capitalismo verde-amarelo. A loja ajudou a redefinir conceitos e papéis sociais (vejam minha "tese") porque galvanizou atenção popular depois que até a filha do ex-governador Geraldo Alckmin chegou a trabalhar lá, como vendedora da loja. É, meus amigos! Dona Eliana Tranchesi, sem querer, ajudou a redefinir o papel social do comerciário, no momento em que as colunas sociais achavam "the best" ter a filha do então governador do estado como funcionária de um tão respeitável estabelecimento. Professor universitário como eu?? Que nada!!! O negócio é ser vendedor de butique de grã-fino.

O problema é que a rapaziada de alto garabito e grana no pente descobriu que todo luxo, ostentação e aura de celebridade da loja Daslu era movido à base de sonegação de impostos. Como um "Al Capone de saias", a senhora Tranchesi e seus sócios (inclusive seu irmão, seu braço-direito), encomendavam produtos de grife do exterior; porém, na hora de declará-los ao Fisco, subfaturavam os preços, revelando ao Estado valores bem inferiores ao que tinha sido comprado, pagando uma ninharia de impostos. Pra se ter uma ideia, de acordo com reportagem da Revista Época de 30 de março, camisas de seda italiana e sapatos de couro da marca Gucci, vendidos no Brasil entre 2.000 a 4000 reais, eram declarados ao Fisco entre valores de R$ 12,00 a R$ 9,00 (parece brincadeira). O absurdo não é tanto a diferença astronômica entre valores reais e os declarados dos produtos obtidos, que proporcionaram ganhos ilícitos estrondosos na conta bancária dos sócios da Daslu, mas sim a "cegueira" ou incompetência do Estado em não ter visto isto há mais tempo. Imagino a cena ficctícia em que a dona da Daslu encontra-se com seus comparsas, conversando no escritório da loja sobre suas fraudes, reiterando os crimes, dizendo assim: " vamos fazer dessa forma, subfaturar todos os produtos, pois esse pessoal do Fisco e da Polícia federal são todos uns "jecas", uns pobres de pai e mãe que não sabem reconhecer uma camisa italiana de uma calça comprada na 25 de março!", ou "funcionário público não entende de moda. Eles nem vão notar a diferença. Afinal de contas, esse povinho do Estado não sabe se vestir. Você viu como o Protógenes se veste?(referindo-se ao delegado da Polícia Federal responsável pela prisão do banqueiro Daniel Dantas)". Sob o vento da impunidade, Tranchesi e sua trupe foram constituindo sua fortuna.

Porém, enche os olhos o tamanho da condenação a que a dona da Daslu foi submetida. 94 anos! Puxa, 94 anos! Em termos comparativos, nem Marcola, líder do PCC, um dos "vilões número um" do país recebeu uma pena tão grande(só pra constar, 40 anos). O Judiciário paulista talvez quis dar uma lição a sua alta burguesia, afirmando que nem eles estariam livres do "braço longo da lei". Uma série de prisões espalhafatosas e midiáticas, como a do ex-prefeito paulista Celso Pitta, saindo algemado e de pijamas na Operação Satiagraha da Polícia Federal, na mesma operação que culminou na prisão de Daniel Dantas, e agora a prisão de Tranchesi, mesmo que liberada horas depois por força de um habeas corpus, refletem bem o espírito que trabalha hoje o Judiciário brasileiro, mormente os magistrados paulistas (vide o caso do ano passado do assassinato da menina Isabela); ou seja, boa parte das decisões e das medidas judiciais são movidas por mídia, por interesse midiático, por pressão da opinião pública!

Num ano que precede uma eleição para presidente, em que o candidato da oposição, vinculado ao tucanato paulista, aparece como favorito nas pesquisas, e embalado pelo discurso capitalista, visto na reportagem da edição de 1 de abril de Veja sobre o caso, exortando a doutrina neoliberal dizendo que a prisão de Eliana foi justa, e que: "a riqueza, no mundo capitalista moderno, é fruto de trabalho, ousadia e criatividade"(ahh,tá!), não é de se estranhar que parte da elite econômica brasileira (leia-se: metade dela residindo em São Paulo), deseje figurar na opinião pública não como canibais e arrogantes capitalistas, viciados em ludibriar a cobrança de tributos, com o intuito de multiplicarem seus lucros, mas sim como ardorosos defensores da legalidade e da fixação de penas pesadas contra os seus pares. Ora, sabe-se que na cultura nacional são comuns fraudes fiscais, desde pequenos até grandes empresários. A rotina tributária no país nunca foi vista com bons olhos. Ninguém paga imposto com um sorriso no rosto! Desta forma, é natural pensar que, desde um megaempresário até um dono de padaria, quando podem, maqueiam ou subfaturam o preço de seus produtos, a fim de pagar menos ou quase nada para a turma do Leão do Imposto de Renda. O problema do caso da Daslu é que o rombo foi grande demais(cerca de 600 milhões sonegados ao Fisco). Como o direito não socorre aos que dormem, chegou uma hora que o leão adormecido do Fisco teve que acordar!

Pois bem! Sofrendo de um câncer ósseo e de pulmão, e, segundo seus advogados, fazendo quimioterapia, uma abatida Eliana Tranchesi cruzou a carceragem da ala feminina do Presídio do Carandiru (quem diria!), para ser libertada horas depois, face a suposta "desumanidade"da decisão judicial, alegada pela defesa, e por não oferecer ela perigo à sociedade. De fato, fico me perguntando de que adianta prender e condenar a quase um século de pena uma socialite trambiqueira, que das mais graves das coisas que fez foi ludibriar o Fisco, pela flagrante falta de discernimento dos auditores fiscais, em diferenciar uma camisa de moda de uma blusa de camelô. 94 anos, repito 94 anos! Gostaria de saber se 94 anos de pena vão reaver a centena de anos de escravidão, exploração econômica e expropriação das camadas mais pobres e segregadas da sociedade brasileira. Se 94 anos vai tornar o nosso Estado mais democrático, menos policiesco, com suas milícias privadas, esquadrões da morte, torturas e violência policial, alvejando pretos e pobres desse país, todos os dias nas favelas carioras e na periferia das grandes cidades. Seria bom se esses 94 anos marcassem o fim de um sistema carcerário falido, medieval e animalesco, onde, naturalmente, presos do porte da senhora Tranchesi nunca terão o desprazer de cumprir sua pena numa daquelas fétidas celas de nossos presídios. Pergunto se 94 anos de pena vão resolver, como num passe de mágina, os problemas de impunidade e morosidade na Justiça Brasileira, tornando nossos processos mais céleres, e propiciando aqueles que mais precisam mais eficazes e justas decisões judiciais. Pra mim essa nova mania de prender rico é mais um "fogo de palha" da ação de nossos juízes, movidos pela pressão da opinião pública nacional, do que decisões com fundamento, na verdade, em autênticos preceitos constitucionais. Gostaria de estar errado! Será que estou?

Enquanto isso, o senhor Geraldo Alckmin e família, assim como toda a grã-finagem paulistana, com seu Luciano Huck de relógio Rolex dado pela esposa, ou a risonha vovó Hebe Camargo, tiram o seu corpo fora, talvez não querendo nem de longe, serem reconhecidos como mais um dos consumidores da célebre loja de grifes da metrópole nacional. Como na música de Rita Lee, Eliana Tranchesi não queria nem luxo, nem lixo, mas no final não teve nem mesmo saúde para gozar a vida com tranquilidade. Se eu fosse crente pentecostal poderia até dizer que as enfermidades, assim como as prisões, vem como resultado de um castigo divino. Mas ainda me pergunto se o castigo está reservado aos mais ricos, só pelo fato de serem ricos, ou pelo fato de serem pobres em dignidade, querendo, como apregoa a célebre Lei de Gerson, "apenas levar vantagem em tudo".

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A TRILOGIA DO EGOÍSMO-Parte III- Amor, morte e futebol na vida de Janken Ferraz


Eu disse que o mês de março foi o mês das rupturas afetivas, lares desfeitos, disputas sobre filhos, com forte cobertura da mídia, que serviram de pivô para a prática de crimes. Chamei esses casos de "trilogia do egoísmo", e agora, finalizo a série tratando do terceiro fato que se tornou manchete dos jornais, assim como os casos que o antecederam, a respeito da prisão do ex-jogador de futebol Janken Ferraz Evangelista, pelo homicídio de sua ex-mulher, a jovem Ana Claúdia Silva, de apenas 18 anos, há duas semanas.

As câmeras do circuito interno do condomínio onde vivia Ana Cláudia registraram quando Janken, Ana e o pequeno filho do casal, retornaram na data do crime de um jogo no Pacaembu. Minutos após o casal ter entrado no edifício, as câmeras captaram Janken retornando ao elevador, agora sem Ana, acompanhado apenas do filho pequeno nos braços, e vestindo outra camisa. Horas depois, Ana Cláudia foi encontrada morta no apartamento, vítima de várias facadas.

Desaparecido e procurado pela polícia, tendo sumido com o garoto, Janken foi acusado do homicídio de Ana, além do sequestro do filho, e foi descoberto, entregando-se às autoridades no dia 25 de março, na cidade de Teixeira de Freitas, na Bahia, onde viviam familiares do acusado. Janken confessou o crime aos policiais, e disse que teria matado Ana, após uma discussão, por causa de ciúmes.

Ana Cláudia era uma bela e jovem garota loira de 18 anos que conheceu Janken na adolescência, quando passaram a namorar. Ela veio a engravidar e mesmo com a sugestão do então namorado de fazer um aborto, Ana veio a ter a criança e os dois se casaram, passando a jovem mãe a ter uma série de atritos com o marido, como também com a família dele. Os dois iniciaram um processo de separação e uma disputa pela guarda do filho. Janken, segundo depoimentos de familiares da moça e de amigos, não teria concordado com o fim da relação e nem com a distância de seu filho, reagindo violentamente às sucessivas negativas da ex-mulher de reatar a relação.

Junken Ferraz foi jogador de futebol, tendo jogado nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Independente de seus dons futebolísticos, é inegável que Janken perseguiu a carreira de jogador, tendo inclusive praticado outro crime além do delito cruel do qual é agora acusado. Logo após sua prisão, descobriu-se que Janken falsificou há alguns anos sua identidade, adotando a identidade do irmão, então um adolescente de 16 anos na época, para poder ingressar no renomado time de futebol brasileiro. Janken precisava mentir sobre a idade para ser aceito no clube, e num caminho de mentiras consolidou sua carreira e casamento, ambos fracassados. Segundo depoimento da irmã de Ana Cláudia no programa da Record, do último domingo, a mentira quanto à idade foi mais um dos motivos da decepção de Ana em relação ao seu suposto "príncipe encantado", e mais um fator que acrescentou razões para a inevitável separação.

Chovem denúncias quanto à conduta de Janken após sua prisão. Uma ex-namorada alega ter sido vítima de tentativa de homicídio por Janken, quando este a atropelou após uma briga, passando por cima dela com uma motocicleta, quando era adolescente. Parece que os depoimentos colhidos são unânimes em dizer que o ex-jogador do São Paulo era um tipo instável, de comportamento explosivo, agressivo, que reagia mal diante de negativas, e que seria capaz (como foi) de matar alguém, sobretudo se essa pessoa fosse mãe de seu filho.

Não deixo de verificar aqui as tristes semelhanças e inevitáveis conexões entre os casos apresentados aqui neste blog no mês de março, compondo minha aludida "Trilogia do Egoísmo". Nos 3 casos apresentados ( o de David Goldman X Bruna Bianchi pela posse do menino Sean; a tragédia de Goiânia com a morte de Kleber Barbosa e sua filha Penélope; e o homicídio praticado por Janken Ferraz contra sua ex-mulher Ana Claúdia, após brigas pela posse do filho) estão presentes os seguintes componentes: casais com relações afetivas desajustadas que tendem ao fim; a disputa pela guarda ou posse de crianças, que acabam se tornando vítimas involuntárias dos sentimentos egoístas de seus pais; a transformação do conflito familiar em crime e consequente caso de polícia ou conflito judicial( a acusação de sequestro feita pelo pai de Sean contra a ex-mulher, a falecida Bruna; o homicídio de Penépole praticado pelo próprio pai, que se suicida na queda de um avião, além da tentativa de homicídio contra a ex-mulher; o homicídio da ex-mulher por Janken Ferraz, além do sequestro do filho).

É verdadeiramente impressionante o quanto a chamada pós-modernidade e a necessária releitura de conceitos tradicionais tão sacramentados, quanto à manutenção da família e a consequente felicidade familiar, são tão questionados e tão descontruídos diante da tragédia cotidiana, da ruptura violenta de relacionamentos afetivos frustrados. Os tristes fatos, que acabaram compondo a triste trilogia a que me refiro, são apenas um recorte de sofrimentos rotineiros de todos os dias na vida de casais ou de famílias em crise. A constatação de que o amor acabou, os laços que outrora uniam não mais subsistem, que a disputa injusta e cruel pela guarda de filhos irá ocorrer, como se eles fossem troféus de uma luta ensandecida de recuperação da auto-estima e do amor-próprio, apenas refletem aquele sentimento de orgulho ferido daqueles que se separam, transformado no mais puro e viciante egoísmo. O egoísmo é o veneno que mata a sensatez, afugenta o amor, inibe a compreensão e torna turva a visão, fazendo com que cegos pais não percebam o quanto de sofrimento estão repassando para seus filhos.

Fico me perguntando até quando inúmeros "Janken Ferraz" estarão à solta por aí, disfarçados na figura caricata de bons moços, bons maridos e bons pais de família, e dali, como numa transformação de Doutor Jeckyl para Mister Hyde, saem das sombras para mostrar sua verdadeira face doentia, destruindo não apenas seus relacionamentos afetivos, mas também a própria vida das pessoas. Fico imaginando, como querem alguns psicanalistas, se não seria tudo culpa das mães??!! Ou se não seria alguma deficiência de tratamento desde a tenra infância, encoberta sob mimos excessivos ou pseudozelosos, que transformariam crianças irriquietas, ou incapazes de assimilar um "não", em futuros adultos raivosos, inconstantes, possessivos, cegos, autoritários, que não conseguem lidar sozinhos com suas frustrações e acabam por compensar nos próprios filhos suas dores interiores, quando decidem massacrar ex-maridos ou ex-esposas, seja figurativamente ou mesmo pela prática do extermínio, nas sucessivas notícias de assassinatos e crimes passionais divulgados pela mídia, na sua sede de sangue por mais e mais informações sensacionalistas.

Sobre isso recordo um interessante estudo feito por Boris Cyrulnik, em seu livro "Falar de Amor à beira do Abismo". O célebre psicólogo e pedagogo francês fala em uma passagem do livro, acerca do que o homem machucado pelo sofrimento pode agravar ou reparar com sua perda afetiva, afirmando: "para não se deixar assassinar, é preciso buscar nas significações escondidas as estruturas invisíveis que possibilitam o funcionamento desse sistema absurdo e cruel".

Ora, fico imaginando se não é na fé, na crença da justificação mais racional dada por Deus aos sofrimentos mais absurdos é que podemos ter a capacidade de recomeçar ( a chamada "resiliência" ou recuperação de que trata Cyrulnik). Da nosse fome por relacionamentos perfeitos, por um modelo pronto e acabado de vida afetiva e familiar estável e feliz, por construir narcisicamente nossos quadros, pintando nossa realidade na realidade do outro (como afirma Comte-Sponville), acabamos por destruir o próprio quadro construído, pela força impactante, irracional e intragável de nossos desejos reprimidos, de nossa ânsia por respostas prontas e acabadas, pela sedução do nosso próprio egoísmo. Esquecemos que a vida foi feita para ser vivida, seja lá como, e não por um modelo pré-concebido que estabelecemos como ideal (aí eu retorno a chamada "consciência do absurdo" retratada por Albert Camus, no texto anterior publicado neste blog). Enquanto em nossa arrogância tratarmos como adultos as nossas crianças, que dependem de nós e nosso afeto, quando nós mesmos nos transformamos em crianças irriquietas, birrentas e egoístas, que choram quando nos tiram o nosso doce ( no caso, o doce do desejo, da vontade animal de querer ficar com o outro), não poderemos, na verdade, nos auto-intitular de verdade como adultos.

Ou será que não seria nada disso e pessoas como Kleber Barbosa ou Janken Ferraz seriam apenas esses seres uns francos psicopatas? Segundo o psicólogo canadense Robert Hare, em entrevista publicada recentemente na edição de 1 de abril da Revista Veja, o psicopata não nasce psicopata, e sim, nasce com tendências para a psicopatia. Assim, todos nós, dependendo da forma como interagimos com os outros e como fomos criados, podemos nos tornar ou não psicopatas, ou sermos tidos pelos outros (especialmente por nossos ex-relacionamentos ou ex-namoradas) como psicopatas. Um psicopata não é incapaz de sentir amor, e na verdade pode até amar muito, mas de uma forma tão egoísta ou tão ausente de moralidade que esse amor pode resultar em morte. Lembremo-nos que se o egoísmo passional nos torna loucos, a psicopatia nos torna "loucos morais", ou seja, tornamo-nos pessoas incapazes de sentir remorso, dor ou arrependimento, após termos saciado um certo sentimento de vingança ou revanche muito típico, sobretudo quando ganhamos a guarda judicial de um filho, ou conseguimos que aquele que nos amou mas não ama mais, se estrepou de alguma forma: ou com uma facada, ou morrendo numa sala de cirurgia, ou levando um extintor de incêndio na cabeça, como vimos nos casos retratados neste blog.

É, meus amigos, os cães ladram mas a caravana passa! Queira eu não me tornar refém de meus egoísmos, das minhas próprias psicopatias, para não ter o mesmo triste fim que um Kleber Barbosa ou um Janken Ferraz! Pobres crianças! Pobre Ana Claúdia! Que Deus tenha misericórdia de todos! Amém!

terça-feira, 31 de março de 2009

A TRILOGIA DO EGOÍSMO-Parte II: "Papai, o avião tá caindo!"

Parece que o mês de março de 2009 passou por nós como um furacão de eventos midiáticos envolvendo tragédias sobre a guarda de filhos, fins de relacionamentos amorosos frustrados e a trágica "solução final" para aqueles que anulam a existência do próximo, ou anulam a si mesmos sob o fardo da dor, da incapacidade de se reerguer, pela falta da vontade de recomeçar e pelo extremo egoísmo, que leva alguém a ceifar vidas ou terminar com a sua própria.

Fui isso que ocorreu tragicamente no dia 12 de março, no pátio do estacionamento do maior shopping de Goiânia, quando Kleber Barbosa e sua filha pequena Penélope, de 5 anos, voaram para a morte, após o pai ter roubado um avião monomotor e depois de ter voado por alguns minutos pela capital goiana, ao espatifar sua aeronave no shopping. Antes disso, Kleber tinha agredido gravemente sua mulher, Érika, numa rodovia da cidade, com um extintor de incêndio, e sequestrado a filha.

Pelos depoimentos vistos na TV, de amigos, familiares e pessoas que presenciaram o episódio, Kleber era uma pessoa sensivelmente perturbada, falava corriqueiramente em suicídio, tinha prazeres mórbidos como assistir em DVD a tétrica série "Faces da Morte", e teria elogiado a suposta "coragem" dos terroristas islâmicos, que foram responsáveis pela morte de milhares de pessoas nos atentados de 2001, do 11 de setembro, nos Estados Unidos.

Fora a piração de Kleber, e o fato simples e acabado de alguém, num momento de loucura, ter acabado com a própria vida e com a vida da filha, fica a indagação aqui não apenas de quem fica atônito com as inúmeras tragédias cotidianas trazidas pelos canais de televisão, mas sim pelos motivos que levam pessoas a tirar a vida e a de seus entes queridos por caminhos que chegam a apresentar um padrão: o velho esquema dos crimes passionais e das mortes causadas por conflitos afetivos e familiares.

Lembro-me que na unanimidade dos fatos relatados sobre a conduta de Kleber, capta-se um fato específico, que foi aquele que antecedeu a tragédia: Kleber teria brigado com a mulher antes de golpeá-la com um extintor de incêndio e raptado a filha, e já manifestava na sua relação afetiva fortes traços de perturbação, num relacionamento familiar que teria tudo para ser abençoado em virtude da concepção de uma nova vida: o surgimento da pequena Penépole. Infelizmente, isso não ocorreu, e sobrou mesmo para aquela triste criança, que teve a vida precocemente tirada, pela loucura ou pelo surto egoístico de um pai psiquicamente perturbado, que não conseguiu fugir das barras da prisão que acorrentava a si próprio.

As prisões da alma ou do espírito talvez sejam piores do que os cárceres gelados, feios, sujos e mal acabados dos presídios brasileiros. Como disse o escritor Albert Camus, em seu livro "O Mito de Sísifo": "Descubro, agora, por conseguinte, que a esperança não pode ser evitada para sempre e que pode assaltar até aqueles que supunham estar livres dela". Camus procura em sua obra discorrer sobre um problema filosófico em especial, acentuadamente sério: o suicídio. Para ele, julgar se a vida vale a pena ou não ser vivida é uma questão fundamental da filosofia. Afirmo que a "consciência do absurdo" de que trata Camus engendra a formação dessas prisões psíquicas. O enfermo da alma, ao se deparar com o absurdo da manutenção de sua própria existência ou da falta de sentido na vida dos outros, por vezes não se liberta através da fé ou da religião, como gostaria Platão, ao filosofar sobre as soluções do oráculo e a sacerdotisa Diotima sobre a falta de amor, em o "O Banquete", mas sim acaba por aumentar o concreto das paredes que o encerram em si mesmo. Só isso, a meu ver, para explicar posturas desesperadas como a do "piloto" Kleber, que no auge de seu delírio de não se sentir um ser amado, por não amar a si próprio, mas como num último gesto de apego, como querendo uma companhia para sua triste caminhada solitária rumo à morte, ele leva consigo a pureza perdida refletida nos pequenos olhos da pequena Penépole, que hoje, infelizmente, adormeceram para sempre deste mundo, mediante o último gesto desesperado de seu pai.

Kleber queria morrer no ar, como disse sua ex-mulher em depoimento à polícia e aos telejornais. Na verdade, talvez em sua loucura, ele quisesse desaparecer nas nuvens, como aquele temporal ou aquela chuva de mal tempo, que não conseguiu regar o que colheu como deveria, e por isso estaria fadada a desaparecer. Kleber inundou-se em sentimentos de fim de seu mundo, e achou que somente nas nuvens poderia ele deixar seu último recado de sua tão atormentada vida. Que pobre alma infeliz! Que triste lamento de soluços tão contidos que ninguém conseguiu ou ele deixou que se pudesse escutar! Kleber foi vítima do egoísmo de seus sentimentos, ao não possibilitar que nem sua família compartilhasse de seu sofrimento, ou mesmo alguém da esquina viesse a acudir o seu choro e dar-lhe consolo! Que Deus lhe tenha misericórdia!

Fico imaginando ali no alto, na hora do acidente. Os pequeninos olhos da garota Penélope ao fitarem seu pai, contemplando o contraste da beleza do céu azul e das nuvens, com a paisagem de Goiânia embaixo, em comparação com o olhar frio e vazio de seu pai nos controles do avião, acompanhado de perto pelos caças da FAB, que sem sucesso, não conseguiram evitar o pior. Imagino aquele avião descendo veloz, em direção ao estacionamento do shopping, enquanto vejo a criança Penépole, em toda sua inocência e ingenuidade infantil, dizendo para seu algoz: "Papai, o avião tá caindo"!

E a vida suspensa no ar acaba por se espatifar!

terça-feira, 10 de março de 2009

TRILOGIA DO EGOÍSMO-Parte I: A GLOBALIZAÇÃO DO RANCOR:QUANDO A MÁGOA VALE MAIS QUE A FELICIDADE DE SEUS FILHOS

O Brasil anda se especializando em polêmicas diplomáticas com outros países, em casos que envolvem inicialmente problemas entre particulares. Após o vexame do Itamaraty com o caso de Paula Oliveira na Suiça, chegou a vez do presidente Lula e da diplomacia brasileira se ver às voltas com o problema da guarda do menino Sean Goldman, criança de dupla nacionalidade(nascido nos EUA, mas registrado no consulado brasileiro), filho de pai norte-americano e mãe brasileira. O caso do menino é uma pérola de estudo para os aficcionados em Direito de Família e Direito Internacional, mas também é audiência certa nesses programas de auditório apelativos, onde a massa popular criada na era do "Big Brother", adora ver a "lavagem de roupa suja alheia", em mais um dos tristes casos de conflitos familiares, que só geram tristeza, caos e desunião.

Ganhando especial destaque na mídia nos últimos dias, com direito à reportagem de 30 minutos no Fantástico da Rede Globo e matéria de Capa na Revista Época, o caso do menino Sean reacende o velho dilema dos filhos de casais separados, e, em especial, dos filhos de casais de nacionalidades diferentes. O que quase sempre gera extensas, prolongadas, caríssimas e extenuantes pendengas judiciais, que geram desgaste não apenas financeiro, mas principalmente emocional.

Sean é filho de Bruna Bianchi, uma estilista carioca, que em 1997, ao fazer um doutorado de moda em Milão, conheceu o bonitão modelo norte-americano David Goldman. A estória tinha tudo para resultar num conto de fadas: a jovem brasileira e o modelo americano se apaixonaram na romântica paisagem italiana, Bruna engravidou e os dois decidiram se casar. Indo para os Estados Unidos, a cerimônia foi realizada em Nova Jersey e logo depois nasce Sean, registrado como norte-americano em Nova York e como brasileiro no Rio de Janeiro. Um típico cidadão do mundo desde o nascimento, mais um dos filhos da globalização.

O que ia bem, como o risco de toda relação, começa a ficar mal. Bruna alegava que o casamento ia mal depois do nascimento de Sean, as despesas da família ficavam por conta dela, e reclamava da ausência de sexo na relação com o marido. Segundo ela, nas discussões, David aparentava ficar mais e mais violento. Triste, com saudades do Brasil e dos pais, Bruna decide então voltar para o Brasil, alegando que precisava visitar a família e leva Sean, com autorização do pai. Ao chegar no Rio, Bruna decide não mais retornar, telefona para o atônito marido e informa da decisão, pedindo o divórcio. David, podemos imaginar, numa previsível cena de desgosto, se não quebrou tudo o que viu pela frente dentro de casa, depois do telefonema, provavelmente deve ter chorado à beça. O inferno familiar estava apenas para começar!

Começam as pendengas judiciais. David, inconformado com a separação e a partida do filho, inicia ações judiciais contra Bruna. Acusa-a de ter sequestrado o filho. O ex-marido norte-americano invoca a lei dos EUA, pedindo a guarda da criança, tendo em vista tratar-se Sean de um garoto americano. O Direito Internacional é mencionado pelos advogados de David, citando a Convenção de Haia, que trata do sequestro de crianças por seus pais, no caso de saída da criança de seu país de origem e refúgio em outra nacionalidade. Nos tribunais do Rio de Janeiro, em contrapartida, Bruna consegue a guarda de Sean. Nesse ínterim, Bruna conhece o advogado João Paulo, os dois se apaixonam e Bruna consegue um segundo marido. João Paulo vai residir com Bruna e Sean junto à família de Bruna, e passa a ser o segundo pai de Sean. A briga entre Bruna e seu ex-marido dura então quatro dolorosos anos.

Nesses anos, com as negativas de David de visitar Sean no Brasil, face a negativa de seus advogados, a imagem do pai norte-americano começa a adotar ares de vaga lembrança para o menino Sean, que vai crescendo no ambiente familiar carioca, como toda criança de classe média, rodeada do carinho da mãe e do padastro, dos avós maternos, dos tios, dos coleguinhas na escola, decidindo se vai escolher como time de futebol o Flamengo ou o Botafogo (espero que a segunda opção), e imerso nas suas brincadeiras infantis entre seus brinquedos, os bichinhos de pelúcia na parede de seu quarto, e os deveres de casa da escola. A situação poderia ficar por aí, nesse tão comum e previsível cotidiano, se não fosse a tragédia!

Bruna engravida pela segunda vez. Agora está esperando uma menina. A alegria da família acaba e logo se transforma numa tristeza profunda quando, inesperadamente, como bom roteiro de novela, Bruna morre durante o parto de Chiara, irmã de Sean. A família, profundamente triste e abalada pela morte de Bruna, não tem tempo nem de chorar os seus mortos, pois, dez dias depois da morte de Bruna, o condomínio da família Bianchi é cercado por agentes da polícia federal brasileira, membros do consulado americano e repórteres, acompanhados de cinegrafistas da rede de televisão yankee NBC. É o pai de Sean, voltando ao Brasil e querendo o filho de volta. Assim como no episódio da busca do garoto cubano Elian Gonzales em Miami (vide foto), no ano de 2000, (cumprindo decisão da Suprema Corte Americana, a pedido de seu pai em Cuba), a busca de uma criança e o desespero de seus familiares torna-se um espetáculo midiático. Felizmente para a família de Bruna e infelizmente para David, não foi daquela vez. O menino Sean não estava em casa para rever seu pai.

Se o ingrediente até agora, de filme de drama de tribunal, já não continha ingredientes mais do que explosivos, agora é que a estória começa pra valer em seus capítulos mais tensos, quando uma pitada mais apimentada de discórdia é acrescida nesse "vatapá de ressentimentos". Como querendo ver "o circo pegar fogo" nessa batalha de decisões judiciais, após a morte de Bruna, a Justiça Brasileira concede a João Paulo, padrasto de Sean, a guarda provisória da criança, alegando a "paternidade socioafetiva" (lógico, até porque nos últimos anos, quem Sean chama de "pai", não é seu progenitor americano, mas sim o padrasto brasileiro, que o acompanhou nos últimos anos). Se o duelo estava 2 X 1, com leve vantagem para os brasileiros, aguardem o devastador contra-ataque de David!

Não se dando por vencido, nos EUA, David Goldman agora se vale do que toda a sociedade adepta do chesseburguer gosta, apelar para os meios de comunicação! David inicia uma verdadeira campanha nacional para o retorno do filho, com direito à camisetas, bonés, copos, todos eles estampados com a foto de Sean (até imagino as frases lapidares, tipo: "volta Sean"!), e o que é melhor, com direito a faturamento para seu "aflito pai", com direito a copyright, e até avental com a foto da finada Bruna ( a "bruxa malvada" sequestradora de filhos, como deve estar no imaginário americano, que de tão má, acabou "batendo as botas"). David aparece choroso nos programas de Larry King no canal CNN e recebe comentários no programa de Oprah Winfrey, a maior apresentadora de TV americana do mundo (uma espécie de "Silvio Santos de saias" e negra, que é praticamente uma semideusa na mídia norte-americana). No Brasil, a família de Bruna começa a receber e-mails ameaçadores de indignados cidadãos norte-americanos, compadecidos com o suposto sofrimento de David. Na terra dos serial killers e psicopatas, chega-se ao cúmulo de um espectador anônimo, após assistir o programa de televisão de Larry King (segundo teve acesso a reportagem de Época) ameaçar diretamente um dos tios brasileiros de Sean, em um telefonema, dizendo:"nós americanos sabemos onde vocês brasileiros moram. Nós vamos pegar vocês"!

A campanha de David bate as portas da Casa Branca. A Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, doida pra aparecer, se manifesta indignada com a disposição da justiça brasileira de não entregar o garoto à custódia norte-americana, cumprindo, segundo ela, a Convenção de Haia. Sobrou pro Celso de novo! O ministro das relações exteriores, o chanceler Celso Amorim, vivendo um começo de ano que, definitivamente, não é o dele, mais uma vez vira o "saco de pancadas" da imprensa internacional, ao levar um puxão de orelha da mulher de Bill Clinton. A polêmica familiar chega ao cúmulo de virar ponto na pauta do esperado encontro entre os presidentes Lula e Barack Obama. Já pensou? Com tantos assuntos pra conversar, com a fome em Darfur, o terrorismo dos talibans, o genocídio na África e a crise econômica internacional, agora Lula e Obama vão falar da guarda de uma criança!? De fato, TV faz bem! Quando tiver um problema e quiser resolvê-lo não chame a Justiça! Chame as câmeras! É assim que se resolvem as coisas numa sociedade universalmente midiática e globalizada.

É! E parece que o drama familiar do menino Sean está longe de acabar! Enquanto essa atordoada criança, em sua pureza e ingenuidade infantil, acha tudo isso um absurdo, os americanos: um povo muito esquisito, e os adultos: gente muito complicada de entender, milhares e milhares de casais no mundo vivem a dimensão de lares fraturados, pais separados, filhos lançados em diferentes regiões do globo, principalmente se são fruto de uniões binacionais. Entendo que o amor não tem fronteiras, e você não escolhe o idioma de quem vai se apaixonar. Mas uma coisa é certa, quando se tem filho na jogada, a situação fica bem mais complicada, e quase sempre sobra pra criança. E quem vai se importar com as crianças?

As relações afetivas, como todas as relações humanas, são tão complexas e imprevisíveis como o retorno das marés, uma chuva de granizo inexplicavél, o Grêmio perder quatro partidas seguidas, um tsunami devastador ou os intempestivos furacões. Nunca se sabe o que vai passar nas cabeças e nos corações daqueles que se relacionam, sobretudo quando um deles, ou os dois, de forma simultânea, descobrem que o amor acabou, aquela love story não deu mais certo e agora é hora de cada um pegar a mochila e seguir o seu caminho. Os filhos geralmente ficam como que náufragos isolados, a mercê das marés, ou a espera de que o bom senso de seus progenitores conduza sua formação da forma mais civilizada e harmoniosa possível. É muito difícil para muitos exercer o amor, mesmo sabendo que o amor pelo outro não deu mais frutos, pois se trata aí não mais daquele amor eros (como diriam os gregos), típico das paixões e que une os amantes, mas sim o amor filia, aquele baseado no companheirismo e na compreensão, que deve prevalecer não pelo amor a uma mulher ou a um homem amado que se foi, mas sim o amor ao fruto daquele amor que um dia existiu: o amor a um filho. Os pais, em sua ânsia rancorosa de recuperar o irrecuperável, tornam visíveis suas feridas internas, suas dores, suas fraturas expostas produzidas pela sua incapacidade de esquecer, e dessa falta de esquecimento permanecem ressentimentos que por anos conduzem as relações entre atores do teatro da vida já separados fisicamente, mas vinculados indissoluvelmente a uma pequena vida gerada, que um dia há de crescer e se deparar com esse mundo por vezes tórrido, violento e tão incompreensível da forma mais dolorosa, vendo o ódio que persiste entre seus próprios pais.

Polêmicas vividas por crianças como o menino Sean, apenas lembram o quanto do ego e do egoísmo resultante dele deixamos que fique gravado em nossas consciências, nos tire a razão e o bom senso e sirva tão somente para nossos interesses pessoais, esquecendo-nos de quem mais amamos. Em nome do amor já foram praticados os atos mais vis. Pessoas sofreram, familiares viram se perder entes queridos, homens e mulheres, outrora sãos, transformaram-se em loucos psicopatas, criminosos, infratores, que matam, ferem, iludem, saqueam, tudo em prol de um sentimento de revolta, de indignação sem volta, onde, cegos por suas paixões, esses seres humanos encontram-se incapazes de perceber o quanto de mal e o quanto de tristeza estão provocando naqueles mais inocentes a quem tanto dizem que amam: seus tristes filhos; que não tem nada haver com a confusão provocada pelos adultos, a não ser terem sido produto, num belo dia, da união de um espermatozóide com um óvulo.

Falta muito para os adultos aprenderem que as crianças não são tão inocentes, ingênuas ou burras como eles pensam, incapazes de perceber a discórdia em sua volta, o egoísmo de seus familiares, e a ausência de paz e de amor entre seus entes queridos. Enquanto continuarmos a achar que o problema é sempre do outro, e não nosso problema, e que renunciarmos aos nossos próprios sentimentos de desilusão com o amor do outro, em prol de nosso amor-próprio, e, principalmente, em prol do amor a nossos filhos, não veremos nunca acabar a triste ciranda da vida que acaba de forma trágica e vergonhosa sob os aplausos bisbilhoteiros de estranhos, ávidos por uma cultura do escândalo, difundida gananciosamente pelos instrumentos da mídia. Ao expandirmos o nosso ódio, globalizamos o rancor, como um produto ruim, do que restou de nossas relações, num amor globalizado, quando, ao contrário, deveríamos celebrar a vida e a boa convivência, como resultado desse amor que, como eu disse, desconhece fronteiras.

Pobres crianças, filhos de seus pais egoístas! Pobre Sean!

quarta-feira, 4 de março de 2009

POR UMA DOUTRINA FILOSÓFICA SOBRE A BOÇALIDADE

Segundo o dicionário Aurélio, a pavra "boçal" refere-se aquele indivíduo estúpido, rude, grosseiro, ignorante. No dicionário Houaiss, vemos a mesma palavra sendo utilizada para definir aquele indivíduo rude ou insensível. A palavra vem do latim, sendo extraída do verbete bucceu, ou bucca, que significava ao pé da letra "bochecha". Parece-me crer que a origem da palavra tem haver com o ato do indivíduo rude ou grosseiro de inflar as bochechas, quando não entende algo ou aparenta sinal de reprovação. Na época da escravidão, empregava-se o termo para definir aquele negro ladino, astuto, esperto, sonso, que recém-chegado da África e sem conhecer o idioma português, se fazia de desentendido para não cumprir ordens. Se fazia de doido, ou simplesmente, diante das ordens de seu senhor, virava de ombros.



Hoje em dia o termo evoluiu, e eu poderia classificar aqui vários tipos humanos, de diferentes raças, credos, gêneros, castas ou classes sociais, que mereceriam o uso da palavra na forma de adjetivo, fazendo valer o termo "boçal". Na verdade a sociedade brasileira está repleta deles, quem sabe até o mundo, o universo, a existência humana. Um típico boçal pode estar dentro da sua casa, na esquina, no vizinho ao lado, entre os colegas de trabalho, na sua escola, no momento em que você reza dentro da sua igreja, naquele churrasco de confraternização de amigos ou num evento acadêmico, na praia, no futebol, na mesa de bar ouvindo aquele pagode com a rapaziada. Os boçais podem estar em todo canto, escondidos ou bem vistos, ostentando sua boçalidade.



Portanto, existem vários tipos de boçal. Eu citaria em primeiro o boçal altruísta: aquele que alega ser o "boa praça", o bom menino comportado que toda mãe gostaria de ter em casa como genro, sem vícios e adepto fervoroso de alguma religião. O jogador Kaká, não obstante seus inegáveis dotes futebolísticos, parece ter encarado essa forma pitoresca de boçalidade, ao doar parte de seu milionário salário como dízimo para a Igreja Renascer, do encrencado e trancafiado casal de "apóstolos" Estevão e Sônia Hernandes, cujo templo em São Paulo desabou recentemente. Kaká chegou a dizer que agradecia ao bispo Estevão e a bispa Sônia (e não a Deus) a premiação que recebeu como melhor jogador do mundo. Haja boçalidade!



Em segundo vem o boçal totalitário: aquele que por se encontrar investido num cargo de poder, de alta visibilidade, que confere ao seu titular notórios saberes em nobres áreas de conhecimento, considera que ele mesmo é o espírito da República, podendo, através de suas prerrogativas, brecar atos que são considerados pela sociedade como necessários e fundamentais para a democracia. Poderíamos ver como atos de extrema boçalidade deste tipo a ação de agentes públicos, como a do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, que do alto de suas bochechas infladas, libertou por duas vezes o banqueiro boçal abonado Daniel Dantas, desfazendo duplamente a iniciativa cidadã, porém precipitada, daqueles que, para uns, poderão passar para a história como a figura de boçais justiceiros, tais como o delegado Protógenes Queiroz, ou para outros, como bem poderia ser o nobre juiz federal Fausto De Santis, ser catalogado na categoria dos boçais paladinos: aqueles que consideram que a grandeza de seus atos é insensível a qualquer pedido racional de moderação na prática desses atos, tal como prender um banqueiro enrascado até as cuecas com escândalos de corrupção, mesmo com o apelo de seus advogados. Na verdade, o juiz De Santis poderia ser, ao contrário, um agente antiboçal: aquele que extermina a boçalidade dos corruptos diante da impunidade, mandando pra cadeia os boçais abonados (aqueles que boçam na jactância de seu poder econômico), sem dó nem piedade.

O boçal totalitário gera uma subespécie na política nacional, que poderíamos definir como o boçal coronelista, ou o boçal totalitário nordestino. Esse fenômeno de boçalidade, já antigo, tradicional e que faz parte da história do país desde os tempos de colônia, implica num exercício de rudeza, ignorância, antipatia e insensibilidade digna daqueles detentores do poder absoluto, de regiões atrasadas e de origem agrária, onde prevaleciam os chamados currais eleitorais. É uma boçalidade que advém da formação da cultura de casta, onde a posição na hierarquia social, e não necessariamente o notório conhecimento, levam esses indivíduos a se tornarem autênticos representantes de uma boçalidade com requintes feudais. Nesse aspecto incluem-se todas as grandes oligarquias nordestinas, desde o Maranhão até a Bahia, incluindo-se nomes como os Sarney no Maranhão, os Maia no Rio Grande do Norte (com seu mais ilustre membro, José Agripino), os Collor de Mello em Alagoas, ou os Magalhães na Bahia (sob o legado de seu finado patriarca ACM). É aquela boçalidade brejeira, com cheiro de perfume francês, mas gosto de cacto, e os espinhos cultivados na forma das balas desferidas por jagunços ou pistoleiros, comprados a preço de ouro, pelos chefes políticos locais.



Temos o boçal acadêmico. Ah! Nesse caso não poderia deixar de figurar em nossa lista como possível figura deste tipo, o intelectual e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde seus saudosos tempos de sala de aula na USP, até sua histórica passagem pelo Palácio do Planalto, tornou-se folclórica a boçalidade do ex-presidente, caracterizada pelo excesso de vaidade intelectual, a crença em si mesmo como solucionador das pendengas nacionais, face a seus reconhecidos méritos e talentos acadêmicos, até hoje considerado por seus seguidores tucanos, como o presidente cujo governo foi responsável pela modernização do Brasil, pela entrada do país canarinho na globalização, através do Plano Real, das privatizações e da quebra do monopólio das telecomunicações. O bossal acadêmico tem uma qualidade interessante: a da suma sapiência auto-afligida, mas também tem mania de pedir, de vez em quando, que esqueçam tudo o que ele havia escrito. É o tipo do sujeito que até é convidado para festas, mas desde que as festas sejam, é claro, feitas em homenagem a ele, ou ele seja um dos ilustríssimos e esperados convidados.



Também citaria o boçal teológico ou eclesiástico, caso em que pode se inserir clérigos do quilate de um Bento XVI, ou aqui no Brasil do reverendíssimo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que, recentemente, pelo que li no "Blog da Branquinha" e em matéria publicada no Jornal do Comércio, manifestou-se favoralmente a excomungar uma jovem estuprada, de 9 anos, vítima de violência doméstica e que abortou de gêmeos, como também toda a equipe médica que a assistiu, mesmo restando comprovado o risco de morte para a mãe grávida. O boçal eclesiástico, em sua rudeza ou ignorância, acredita piamente ser o detentor das chaves do paraíso celestial, o dono das verdades sagradas, a secretária eletrônica de Deus, guardando as mensagens do Altíssimo, que devem ser repassadas para a toda a humanidade, como forma de obter o arrependimento das "pobres almas pecadoras".



Em quinto, há o boçal sonoro. Ahhh! Destes, a história da MPB tem férteis exemplos, sendo a Bahia quase que a capital nacional da boçalidade em termos musicais e artísticos. Nesse sentido é legítimo revenciar talentosos e polêmicos boçais como Caetano, Gil e Carlinhos Brown, ou seu grande precursor João Gilberto, ou, se preferirem, para não ficar num Clube do Bolinha, a boçalidade toda cheia de ginga e com belas curvas de uma Ivete Sangalo. No Carnaval da Bahia deste ano, ficou registrada na crônica carnavalesca o "piti" dado pela cantora baiana, "ex-rainha" da festa do povo do gueto, quando seu trio elétrico quebrou, enquanto sua turbinada rival Claúdia Leite arrebentava pelourinho acima, acrescentando uma nova era na cultura musical do horror, chamada axé music. O boçal sonoro, como o próprio nome diz, considera-se o cântico dos cânticos do mais belo cisne da mais bela lagoa do Abaeté (se é que lá tem cisne). Considera-se, portanto, a maior experiência musical já vivida pelo Brasil desde "O Guarani" de Carlos Gomes ou o "Trenzinho Caipira" de Villa Lobos. Roberto Carlos com sua boçalidade carola, metido agora em roupas de almirante, cantando em cruzeiros marítimos para simpáticas e gorduchas donas de casa sessentonas, é outro exemplo que poderia entrar na trupe. No lado mais POP, levando em conta às contribuições do rock nacional, não poderíamos esquecer jamais, mas simplesmente jamais, o nobre boçal da zona sul carioca, o indefectível e inesquecível Lulu Santos: "Por isso que souuuuuu, sincero!" E quem disse que os boçais sonoros estão apenas na música? Na televisão, e, principalmente na locução esportiva, sim.....o troféu vai pra ele!! Saí que é tuaaaaaaaaaaa..... Galvão Bueno!!! Éeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, é do Brasillllllllllllllllll!!!!!



Não poderia me esquecer do boçal natureba!! Aquele que usa aquelas camisetas com a estampa Save the Planet ou "Não Matem as Baleias", enquanto joga na calçada a embalagem do cachorro-quente que acabou de comer, na esquina da repartição, sendo um típico defensor de energias alternativas não poluidoras, enquanto se dirige para o seu carro movido a.......... gasolina! Seus representantes ilustres encontram-se em Brasília, na Esplanada dos Ministérios ou no Congresso Nacional, seja pelo colete lustroso e florido de um Carlos Minc, seja pela inconstância e volatidade político-eleitoral de um Fernando Gabeira, ora apoiando os tucanos, ora os pemedebistas, ora ele mesmo. A boçalidade intelecto-ambiental de Gabeira lhe custou caro a eleição à prefeitura do Rio, desde que ele revelou ao celular que "suburbanas" vereadoras só poderiam mesmo ter voto na periferia, onde nem as políticas sociais, quanto mais as ambientais, chegaram, como nas favelas, morros e becos cariocas, não tão lindos quanto as ecologicamente preserváveis Pedras da Gávea ou do Arpoador, frequentadas pelos militantes "verdes".

Tem o boçal cineclubista: aquele que se considera o fino dos mais finos dos expertises em cinema, sem saber nem como se pronuncia Abbas Kiarostami. É o caso de críticos como Rubens Ewald Filho ou da insossa crítica da revista Veja, Isabela Boscov. Seus discípulos geralmente são como aquele que fica no pátio do Espaço Unibanco, na fila de ingressos, na rua Augusta, em São Paulo, recitando sobre a arte e a poesia conceitual da cinematografia japonesa, enquanto a namorada verifica se o troco do ingresso é suficiente pra tomar pelo menos um cafézinho. É o tipo do sujeito que curte assistir o canal People & Arts, se a gambiarra da antena parabólica do vizinho funcionou, mas é incapaz de dissertar sobre um filme do Mazzaropi ou sobre o último do Tom Cruise.



Por último, na minha teoria sobre a boçalidade, eu me referiria ao boçal hedonista. Aquele que do alto de sua fama ou popularidade, está mesmo é a fim de brincar e se divertir, e não está nem aí para as cobranças, como as da torcida corintiana e da direção do Timão acerca da necessidade de empenho do jogador Ronaldo, ainda enrrolado em noitadas (agora na noite paulistana), enquanto seu novo time ainda não disse a que veio no Campeonato Paulista. O hedonismo em meio à boçalidade, pode ser visto também, até em nosso bem avaliado presidente da República, que durante o Carnaval, num camarote carioca em meio a Sapucaí, acabou por não temer nem às vaias e caiu no samba, da "bateria do c..."(expressão presidencial) da Mocidade Independente de Padre Miguel, não dando bola alguma para as cobranças de seu partido o PT, de ter sido sumariamente garfado do poder por um faminto PMDB, que ainda querendo mais, conseguiu colocar Fernando Collor de novo no epicentro da política, dando-lhe de presente através do senador Renan Calheiros, a comissão de infraestrutura do Senado Federal, responsável pela tramitação das obras do PAC.


Se houvesse um sistema filósofico da boçalidade, creio que o seu princípio fundador seria o da falta de enxergar a si próprio para descobrir os seus próprios erros. O método filosófico da boçalidade consiste no emprego da autoignorância em proveito próprio, e seu objeto é a paciência alheia. Até perceber que não está agradando, o boçal leva tempo, ahhhh, mas muito tempo!


Putz! Será que sou boçal? Acuda-me São Paulo Francis!!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

ESSE BALAIO GIGANTE CHAMADO PMDB






O PMDB é um partido engraçado. É a agremiação político-partidária nacional que a imprensa já atribuiu um sem número de significados. Desde "partido ônibus", "Centrão", "partido-noiva", simplesmente "monstro", e quantos adjetivos você quiser atribuir à tradicional legenda, oriunda do antigo MDB.

Vamos refrescar a memória! O Movimento Democrático Brasileiro foi parido pelo golpe militar de 64 após a estupenda machadada contra a democracia, a liberdade e os direitos fundamentais, que foi o AI-5 (Ato Institucional número 5), dissolvendo os partidos políticos existentes até então e toda a estrutura política-social que se firmava no país, até os militares obrigarem a nação a bater continência e entrar em ordem unida, perante o novo governo da turma de farda. Com a permanência no sistema político de apenas dois partidos: a governista ARENA e o oposicionista MDB, só restou a todos os demais grupos e militantes políticos, contrários à ditadura ou não agraciados pelos generais, migrar para uma legenda fabricada por decreto, que tinha tudo pra ser apenas uma mera figura decorativa num cenário político ditatorial, totalitário e de repressão ferrenha à liberdade de pensamento e de associação.

Contudo, o MDB cresceu e apareceu. Sob a batuta de políticos como Franco Montoro, Mário Covas e Ulysses Guimarães, na década de setenta a agremiação conseguiu obter algumas pequenas vitórias, dentro dos limites e de um surreal quadro possível de atuação política, dentro de um parlamento amordaçado, juízes amedrontados e promotores revoltados, diante de abusos e mais abusos da chamada "linha dura" do Exército, nos chamados "anos de chumbo" da ditadura militar. Estávamos nos primórdios da década de 70, e antes que a calça boca de sino desaparecesse da moda, a comemoração da vitória da Copa tivesse terminado, as discotecas chegassem e o comercial da pilha Rayovac fosse o mais visto, o pau comia solto, a cipoada era grande em torno de estudantes, artistas e intelectuais, a tortura com choques elétricos e pau-de-arara transformara-se num monótono expediente de repartição, e Lula e seus companheiros de sindicato nem sonhavam ainda em fazer greve entre os metalúrgicos do ABC paulista. Ficou antológica a candidatura extraoficial de Ulysses à presidência da república em 1974, mesmo sabendo que, pela Constituição da época, era impossível se candidatar, tendo em vista as cartas marcadas do colégio eleitoral, num país onde inexistia democracia. Era o anti-candidato, contra os "gorilas fardados" que estavam na selva de pedra, abatendo a tiros os Tarzans comunistas que se atreviam por gritar pela volta da democracia e da liberdade.

Agora, vemos em 2009 a volta do PMDB à cena política com todas as forças, voltando a dominar o parlamento, tanto na liderança da câmara com Michel Temer, quanto no senado, com José Sarney. É a volta do propalado "Centrão" de anos atrás, dizem alguns. Pra quem não é da época, esteve em Marte nos últimos 20 anos, ou nunca ouviu falar no termo, "Centrão" era o termo empregado pela velha "Nova República" para definir o grupo político majoritário que dava as cartas no Congresso Nacional, após a redemocratização, sendo responsável por todo nível de articulações políticas, conchavos e maracutaias que propiciavam o exercício do poder. Era um grupo formado por políticos sem muita afinidade ideológica ( ou seja, ora à direita, ora à esquerda), muito mais interessados em seus interesses particulares e corporativos, que poderiam tanto ficar em cima de muro, quanto apoiar uma proposta progressista de um grupo A, quanto outra proposta reaçonária de um grupo B, desde que isso resvalasse na consecução de seus interesses. O PMDB incorporou como ninguém esse apelido de "Centrão", tendo em vista que sua base política sempre foi uma colcha de retalhos, cabendo de tudo, desde arautos da democracia e combatentes da ditadura como Ulysses Guimarães, até espertalhões populistas e metidos até o pescoço com escândalos de corrupção e enriquecimento ilícito, como Orestes Quércia em São Paulo, Newton Cardoso em Minas Gerais e Antony Garotinho no Rio de Janeiro.

Com o ressurgimento do PMDB como grande força política nacional (na verdade, já era, porém uma força estilhaçada), não demorou para que o ex-governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, dissesse o óbvio: sim, o PMDB afunda na lama da corrupção, seus postulantes são todos interesseiros, interessados tão somente na disputa de cargos e o que vale mesmo para o partido é o poder, seja como for, mas tão e intensamente o poder, mesmo que pela porta dos fundos. Com a reforma partidária de 1979 e a volta da democracia na década de 80, o antigo MDB virou PMDB. Do que sobrou do partido histórico da década de 70 foi apenas o discurso de democratização mobilizado nas campanhas da Diretas Já, a formação de uma nova Assembléia Nacional Constituinte que gerou a atual Constituição de 1988, e o slogan da "Nova República", que o partido do velho Ulysses pretendia criar após a redemocratização, com Tancredo Neves na presidência. Quem ainda recorda dos livros de história sabe que, no último caso, o projeto dos pemedebistas babou!

O PMDB é uma pérola, uma jóia de originalidade no cenário político brasileiro, pela sua astúcia de ser o eterno postulante ao cargo maior da presidência, sem nunca o querer ter. Na verdade o PMDB é um partido parlamentarista por excelência, vide que nunca assumiu a chefia do Executivo federal de verdade. Depois que Tancredo bateu as botas, e um hesitante Sarney na fase do Plano Cruzado via-se às voltas com gado escondido nos pastos, pelo boicote dos fazendeiros e o ágio no preço da carne, uma desastrosa ocupação da siderúrgica de Volta Redonda pelo exército, durante uma paralisação de grevistas, que resultou na morte de operários, e tudo isso em meio a uma inflação galopante, o PMDB se viu na necessidade de não perder o bonde da história, se aliando a tudo o que é governo, seja ele qual fosse, numa estratégia que enfatizava muito mais a barganha com o poder, do que a conquista desse poder. Isso resultou no grande cisma que quase produziu a extinção do partido, no momento que seus notáveis na política paulista, pemedebistas históricos como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e José Serra pularam fora do barco, abandonando a nau aos ratos, à mercê de Orestes Quércia e sua trupe, formando uma nova sigla partidária: o Partido da Social Democracia Brasileiro (PSDB, ou simplesmente tucanos) . Na debandada, depois os tucanos foram acompanhados de Aécio Neves, neto de Tancredo e ex-porta-voz da presidência, que hoje, como sabemos, iniciou meteórica carreira política nas Minas Gerais, tornando-se governador do Estado e hoje, é um dos postulantes do PSDB na sucessão de Lula, ao posto máximo do Palácio do Planalto.

O PMDB nunca elege um presidente pela legenda porque, na verdade, não precisa. Em seu parlamentarismo oficioso "à brasileira", as velhas raposas pemedebistas sempre estiveram no topo, movendo as peças do tabuleiro no xadrez político dos jogos de poder. Com a quantidade imensa de prefeitos e vereadores, do Oiapoque ao Chuí, formando exércitos de acochados, em milhares de currais e redutos eleitorais, o PMDB soube como ninguém posar de progressista quando não era progressista, ou aparecer como conservador, sem nunca ter sido conservador. Suas diferentes facções seja à esquerda, ou direita, ou se preferir, jogando dos dois lados, sempre constituíram o DNA político da legenda como partido da situação e da oposição vigente, tudo ao mesmo tempo. Quem acompanha as peripércias de nossos deputados nos bastidores de Brasília, sabe indicar nos dedos quem é a turma que aparece como petista dentro do partido, e aqueles cujos narizes ostentam aduncamente seus atributos tucanos. Se fosse no futebol, Michel Temer seria o típico líbero, aquele que você pode colocar até como goleiro, jogando em qualquer posição, cobrando os pênaltis de cada escândalo de corrupção de seus partidários, com um detalhe: você pode colocar ele pra jogar tanto no seu gol, quanto no gol adversário.

O PMDB não é partido de líderes carismáticos e centralizadores, como um PT com seu Lula da Silva, um PDT com seu finado Brizola ou até mesmo um PC do B, à sombra do fantasma de seu lendário líder morto, João Amazonas. O partido é uma confraria de interesses, um imenso agrupamento de corporações, um consórcio de interesses econômicos, políticos e privados de seus grupos internos. Um balaio de gatos onde quem canta de galo acaba por se ver sozinho, voltando cabisbaixo como um pinto molhado de volta para a casca do ovo. Que o diga Antony Garotinho, quem diria, o típico político espertalhão, o Romário da política fluminense, o "estuprador das esquerdas" no dizer de um indignado Brizola, que tentou impor sua candidatura pela segunda vez àquela agremiação política, fazendo até greve de fome, num episódio hilariante que não serviu para engordar seu capital eleitoral, e nem para emagrecer sua rechonchuda silhueta. Na época, a malandragem do garotinho custou caro, e a esperteza dos adultos prevaleceu, num puxão de orelha que resultou na saída do partido do ex-governador do Rio de Janeiro, pois para o PMDB, política não é brincadeira de garotinhos. Se anos antes o PMDB deixou a embarcação de Ulysses à deriva, nos 4% que resultou de sua pífia atuação eleitoral na polarizada eleição de 89 entre Collor e Lula, quanto mais ceder apoio da legenda a um neófito como Garotinho.

Eis que isso é o PMDB! Um retrato da realidade brasileira. O retrato pronto e acabado de seus políticos e das velhas formas de fazer política. Uma política preguiçosa, sem proposta de renovação ou transformação social nenhuma, mas tal como comida de hospital, algo que não escolheríamos e nem comeríamos, mas quando menos esperamos nos desce goela abaixo!

Não podemos esquecer do clã Sarney. Na verdade, o PMDB é um partido tão multifacetado, que conseguiu em seu interior agrupar as velhas oligarquias e clãs que dominavam a política do Nordeste, num coronelismo pop travestido de democrático, agrupando famílias que há decadas consomem nacos do poder na administração pública de estados nordestinos, transformando-os em verdadeiros feudos, suseranias onde a vassalagem dos súditos revela-se no clientelismo na distribução de cargos, no fisiologismo e nepotismo na acomodação de parentes, amigos e aliados em cargos do serviço público, contratos com lícitações fraudulentas ou privilegiadas, e um intenso jogo de "cartas marcadas", onde o interesse privado é de mais, e o interesse público é o de menos ou quase inexistente. Assim, o PMDB agrupou em seu berço as grandes famílias, como os Alves no Rio Grande do Norte (não sou parente deles, apesar de meu sobrenome), os Sarney no Amapá, outrora os Cunha Lima na Paraíba, assim como antigamente os Jereissatti, no Ceará, o grupo de Mão Santa no Piauí, e muitos outros grupelhos familiares espalhados em prefeituras e mais prefeituras dos cafundós do país. Sarney, ex-integrante da ARENA e de seu genérico, o antigo PDS, e vice na chapa de Tancredo, face uma composição com os militares, ao sair da presidência e posteriormente retornar à vida pública, abraçou a legenda de seus antigos adversários como seu novo lar. Pelo PMDB Sarney conseguiu o improvável, que foi burlar a lei eleitoral em sua época, elegendo-se senador pelo inexpressivo estado do Amapá, enquanto seus parentes conduziam a máquina política no Maranhão, e de lambuja presidiu o senado, gerando uma tradição de que ele, enquanto estivesse vivo, seria sempre o virtual ocupante da cadeira, sempre que as disputas políticas do senado, levassem o PMDB a indicar alguém para o controle da casa.

É bem verdade que é chato, e até mesmo ofensivo à democracia, ver que depois de tantos conchavos, alianças e jogos de interesses, o PMDB volta com tudo no cenário político, abocanhando de novo pedaços preciosos do poder, comandando novamente as duas casas do Congresso Nacional. Os caras praticamente hoje tornaram-se donos do parlamento, com direito à demarcação de terra e fixação de placa. Fica um gosto de laranja chupada pela segunda vez, após ter sido guardada na geladeira, ter que aguentar de novo (no, no, not again!) o Sr. Michel Temer com sua fala mansa de curió paulista, agindo como aquele zelador de prédio, que vê toda manhã o "Ricardão" sair mais cedo do prédio da patroa, e dizer que não viu absolutamente nada, diante do atônito marido preocupado, diante do rastro de cuecas estranhas e camisinhas jogadas pela janela ou pelo corredor do condomínio. Ou então ver o Sr. José Sarney, eterno"imortal" da egrégia Academia Brasileira de Letras, e também mitológico caudilho maranhense, a espraiar as tintas de sua caneta não apenas em seus contos da prosa telúrica do Nordeste, mas também para assinar a autorização para tramitação de projetos, com liberação de verbas para empreiteiras, destinação de recursos para a educação ou merenda escolar de seu estado, que nunca chegarão à boca de suas esfomeadas, esquálidas e desnudas crianças, das casas de taipa de Imperatriz ou Bacabal. Ver esses dois senhores novamente no comando do Congresso, é como ver a reprise daquele filme de sessão da tarde, pela enésima ducentésima vez, justamente na hora da fila do banco ou do dentista, sem ter nem um jornal ou revista Caras pra ler. Não dá, nem tem o maior tesão! Nesse caso: "Não vale a pena ver de novo"!

É o encontro do velho com o novo no eterno paradoxo da "Nova República". E eu que pensava que a república nova tinha começado de fato quando um ex-metalúrgico sindicalista tinha, por um partido de esquerda, chegado à presidência. Na lógica de aliancismos do governo de hoje, do alto de sua popularidade, em nome da tal governabilidade, vale para o governo conceder o Poder Legislativo inteiro a um partido, cujos integrantes tem tanta veracidade e tanta integridade de intenções quanto uma nota de três reais. Vão me dizer que o PMDB ainda tem pessoas distintas, administradores competentes e políticos sérios, de reputação ilibada, como um José Fogaça ou um Pedro Simon no Rio Grande do Sul, porém, eu retruco não falando mal e em particular de quesitos individuais deste ou outro personagem público ( a imprensa e a opinião pública já fazem isso direto), mas sim de um projeto político global que é representado pelo PMDB hoje. O PMDB em seu aliancismo a todo custo, tira da política tudo o que lhe restava de iniciativa militante pela mudança, de busca da transformação social ou, ao menos, de crítica a velhas formas de exercício do poder. O PMDB tira o tesão da política para aqueles que ainda consideravam que, mesmo tendo morrido o sonho da revolução de que tratava John Lennon, ainda fosse possível por passos minguados, fazer uma república ou trazer um novo Brasil mais atraente socialmente e menos feio que o nosso para as novas gerações. Com o retorno da velha guarda pemedebista à posse das chaves do portão de nossa democracia, só nos resta esperar quando é que alguma novidade vai aparecer nas ondas do rádio, pois nessa frequência, só escuto música repetida.

É, Doutor Ulysses! A exemplo do personagem homônimo, da Odisséia de Homero, foi bem melhor ficares no fundo do mar, junto às sereias, do que retornar a Ítaca para conviver com as górgonas, as medusas da política nacional! Quem saca literatura sabe do que estou falando!http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/2009/03/01/0402356CD0897326.jhtm?pmdb-e-zona-de-indistincao-de-psdb-e-pt-0402356CD0897326

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