Enganam-se quem pensa que o gaúcho seja o representante do povo brasileiro mais separatista do país. Bairrismo não se confunde com separatismo, e nisso, nem os gaúchos e nem os pernambucanos (assim como os gaúchos, um povo altamente fiel as suas tradições locais) podem ser considerados como brasileiros que querem deixar de ser brasileiros pra ser outra coisa (um novo país, uma nova nacionalidade, uma nova cultura). Na verdade, atribuo aos paulistas o mérito de ser o povo mais separatista da nação e explico isso sem temer as vaias da brava população bandeirante; seja de palmeirenses, santistas, são paulinos ou corintianos.
Pra quem não acredita ou duvida de mim, basta fazer uma pesquisa rápida no google ou ler a matéria do jornalista Fábio Fujita, da revista Piauí, http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao_40/artigo_1220/Kosovo_bandeirante.aspx
para ver que não estou dizendo nenhuma bobagem ou aleivosia direcionada à terra de Oswald e Mário de Andrade, Adoniran Barbosa ou Marío Covas. Existe em São Paulo o tal de MRSP (Movimento República de São Paulo), com página na internet e tudo (somente acessível a quem for convidado), que prega, entre outras coisas, a separação de São Paulo do resto do Brasil. O movimento, localizado na Vila Esperança, Zona Leste de São Paulo-capital, reune-se mensalmente com a proposta de virar partido político e de ter representantes que efetivamente despreguem São Paulo do restante da nação. Alegam seus militantes que a "locomotiva histórica" da nação que é São Paulo já descarrilhou do trem do atraso nacional e deve tomar rumos próprios, devido ao descaso que diversos governos federais tiveram com o estado e com a metrópole paulista. Assim como os militantes nazi-fascistas culpavam os judeus pelo desemprego e pela crise econômica, para os separatistas o problema são os nordestinos, que ao fazer a vida na cidade grande, deixaram a ver navios os verdadeiros paulistas, nascidos de berço, ocupando os empregos que os paulistas teriam o direito inato de ocupar e prosperar, na sua própria terra. Em sua luta regional, não são apenas os nordestinos o alvo, mas também os mineiros; pois, diga-se de passagem: foram eles que surrupiaram uma iguaria culinária tipicamente paulista e que foi usurpada por Minas Gerais como prato local: a feijoada é paulista!! Reclamam ainda da carga tributária injusta que é reservada ao estado pela federação, e da insuficência da representação parlamentar no Congresso Nacional, já que pelo seu tamanho, o estado de São Paulo deveria ter muitos mais parlamentares (e não os 55 que lhe outorga a Constituição). Afirmam que o crescente processo de injustiças por que sofre o estado e sua capital apenas prejudicam o crescimento e a pujança econômica de uma região que nasceu para brilhar e conquistar a meca do capitalismo latino-americano.Afinal! São Paulo não pode parar!!
É bem verdade que essa lógica provinciana de defender o local não é atributo apenas de São Paulo e já atingiu diversas regiões no país no decorrer de sua história. Quem nunca abriu os livros para se recordar de revoltas contra o poder central como a Cabanagem no Pará, a Balaiada no Maranhão ou a Sabinada na Bahia, ou ainda a Confederação do Equador, em Pernambuco, todas constituídas de revoltas de cunho separatista contra um poder central, e que pregavam o desligamento total de uma região e sua independência enquanto Estado-nação? A Guerra dos Farrapos, liderada por Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, demorou uma década, e foi resolvida na base de um armistício, onde latifundiários foram agraciados com o perdão de dívidas, enquanto negros escravos serviam de bucha de canhão nas batalhas como lanceiros, revelando que as comemorações que se fazem até hoje, no sul, na semana farroupilha, apenas servem pra turista comer churrasco e conhecer melhor a cultura gaúcha, do que comemorar efetivamente um fato cívico, já que a revolta daquela época foi gerada por elites fundiárias que perdiam lucros e privilégios junto à Coroa.
Já outros movimentos, dentre eles, o desencadeado em São Paulo no período republicano, que derrubou os interesses das oligarquias paulistas, com a ascensão ao poder de Getúlio Vargas, já recorreu a uma maior mobilização popular, de um povo sujeito a discursos políticos de identidade regional ,que quase equivalem a um nacionalismo.Durante décadas, políticos carismáticos tentaram resgatar certos "valores paulistas" como à dedicação ao trabalho, o mito da ascensão social e acumulação de riquezas, extraídos plenamente da ideologia liberal-burguesa, como uma forma de "educar" o eleitorado paulista aos ditames de um "modo paulista de ver" a realidade nacional. Nesse sentido, a figura do político que "rouba, mas faz", herdada da década de 50 do governo de Ademar de Barros e recepcionada nos anos oitenta e noventa por Paulo Maluf, fez com que o paulista visse a imagem do governante como a do gestor, do bom administrador, que mesmo "metendo a mão na cumbuca" de vez em quando, realiza grandes obras. Eu já disse aqui no ano passado, num dos artigos deste blog, que, a meu ver, analisando a cena política em São Paulo, eu digo que por ser a referência do capitalismo nacional, a política é vista como uma extensão da fábrica no cenário eleitoral paulista, e por isso, o eleitor tende a votar em partidos e políticos que vendam a ideia da austeridade, da racionalidade weberiana da empreitada capitalista, presa à figura do bom gerente; pois a prefeitura, assim como o governo do Estado, seriam "empresas públicas"( a exemplo do empreendimento privado), que necessitariam de figuras virtuosas, bons pais de família (como a figura carola de Alcmin procura encarnar) e efetivos gestores que conduzissem o Estado rumo ao lucro, à prosperidade, ao desenvolvimento.
É nesse momento que o discurso separatista dos gatos pingados do MRSP soma-se ao discurso do bom gestor, quando percebemos que, nessa eleição para a presidência e governos dos estados, partidos como o PSDB procuram vender a imagem do bom administrador, ressaltando os feitos de Serra na condução do governo de São Paulo, a fim de arrecadar tímidos votos, difíceis no momento em que se avizinha uma derrota retumbante para a oposição, e a vitória da candidata de um presidente vitorioso, que, "nunca antes na história desse país", tinha conseguido fazer uma sucessora com tanta facildade, diante do alto de seus 80% de popularidade. Para os eleitores paulistas serristas, a vitória de Serra é também a vitória de São Paulo, a vitória de um candidato que é a cara e a alma do paulista, pois, além de nascido na região, ainda percorreu todo o trâmite do mito ideologizado do self made man do pensamento liberal-capitalista: foi o cara que "saiu de baixo", de origem humilde, que sofregamente com seu esforço e dedicação próprios conseguiu chegar até a universidade (coisa que Lula não fez), tornou-se um doutor e depois da passagem por um ministério, e pela prefeitura e governo paulistas, agora estaria talhado para ser o governante do país. "Serra governou bem São Paulo e agora governará o Brasil", poderão dizer seus acólitos bandeirantes. Para uns, é inadmissível que um candidato que represente tão bem São Paulo seja derrotado por uma candidata mineira, que fez carreira no Rio Grande do Sul e é patrocinada por um presidente nordestino. Creio que para os separatistas, a derrota de Serra na eleição para presidente deverá ser a derrota paulista, dentre muitas e muitas intempéries e injustiças que vem sofrendo o povo paulista graças ao impiedoso Leviatã da União Federal. Seria mais um caso de injustiça com os paulistas, de tantos outros que servem apenas para justificar o sentimento paulistocêntrico de querer deixar de estar no Brasil. Parece delírio, mas é só utopia, mas uma utopia perigosa! Como disse uma militante do movimento separatista: "diga qual paulista ou paulistanto nunca pensou na ideia de São Paulo separado do Brasil?".
O paulistocentrismo na verdade é um vírus ideológico, uma bactéria mutante que surgiu do aproveitamento demagógico dos aspectos mais alienados de uma cultura local em formação. Como poderia dizer finado Paulo Francis: "São Paulo é uma província com elefantíase". É apenas no provincianismo barato que podemos encontrar as razões de um falso regionalismo que busca, pelo bairrismo e pelo preconceito, alienar todo um povo local dos reais problemas que assolam uma população. Assim como Nova York ou os Estados Unidos inteiro, São Paulo (seja mais na capital e também em seu interior) é uma das regiões mais miscigenadas do planeta, onde pode se encontrar de tudo, de todas as raças, regiões do país, etnias e nacionalidasdes. São Paulo é ao mesmo tempo de brasileiros, brancos, negros, indígenas, judeus, católicos, muçulmanos, nordestinos, orientais, italianos, árabes, portugueses, imigrantes argentinos, bolivianos, peruanos e latino-americanos, numa multiplicidade de convivências que gera várias cidades dentro de uma só. São Paulo é também uma cidade de guetos, tribos, turmas, clãs, comunidades, mas também é formada por uma miríade de supostos diferentes que apenas se identificam como pessoas ecléticas, sem se identificar como paulistas ou brasileiros, mas apenas "cidadãos do mundo". É impossível estar em São Paulo sem desfrutar de sua cultura, encantar-se com seu pluralismo, dialogar com suas várias multiplicidades e fazer parte dela de alguma forma. A globalização, ao invés de fazer mal, fez muito bem a São Paulo; mas isso, para aqueles que se fecharam provincianamente a esse processo, é apenas um fator de medo e insegurança, e não uma benção, para um povo que efetivamente vive o desenvolvimento.
Acredito, naturalmente, que o separatismo não é um sentimento que engloba todo o simpático povo paulista e acomete só uma minoria, apesar de não deixar de ser curioso que, a exemplo da comunidade conservadora wasp nos EUA, aqui também temos uma parcela da população branca, quatrocentona, de família tradional, nascida e criada num determinado lugar, que invoca o exemplo dos antepassados para resgatar algum tipo de pertencimento a uma região ou etnia. Isso é antropologicamente previsível. Apenas o que questiono é como um estado da federação, num momento eleitoral onde a polarização entre governo e oposição nunca foi tão alta, pode possuir parte de um eleitorado que estabelece um discurso às beiras do separatismo. É como se ser pró-Serra, no interesse da oposição, seria votar por São Paulo, enquanto que os votos pró-Dilma significariam a renúncia do ideal paulista em prol da União. Nessa "Guerra da Secessão" tupiniquim entre os paulistas confederados e os paulistas da União, eu diria que quem perde é o cidadão brasileiro, num momento em que uma disputa nacional se resume a uma briga de uma região com um país inteiro. Temo que o "oba-oba" eleitoral provocado por alguns assessores do PSDB comece a pregar o fantasma golpista da Revolta de 32, e logo vejamos paulistas pegando em armas para defender a identidade local.Se alguns paulistas já manifestam preconceito contra nordestinos ou com o fato de um torneiro mecânico ter chegado à presidência, o que dizer quando um dos maiores expoentes políticos do estado é humilhado nas urnas por uma mulher que já foi terrorista, uma inimiga do capitalismo?
Contra meus argumentos acerca do paulistocentrismo, alguns podem dizer que meu antipaulistismo vem de berço, já que meu avô materno lutou na Revolução Constitucionalista de 32, e muito a contragosto foi um nordestino que teve que dar uns tiros nuns "uaii" , "porrrta e porrrteira" , "ôrra, meu" e "manos" da vida. Outros que me conhecem, podem alegar que minha crítica ao separatismo paulista vem de meus traumas quando vivi na capital paulista, já que ao morar por três anos em Sampa, decidi posteriormente sair da cidade por não aguentar seu excesso de urbanização. Mas não é o caso! Respeito e admiro São Paulo pelo fato daquela região do Brasil ser tão brasileira, porque é impossível deixar de pensar no Brasil quando se está em São Paulo. Para meus olhos que já conheceram quase todo o país, a imagem de São Paulo pela visão da Avenida Paulista me faz refletir o Brasil, assim como a imagem do Rio provoca a mesma coisa, do Rio Grande do Sul, onde recentemtente vivi, do Distrito Federal, lugar de minha adolescência, ou do Nordeste, onde passei tantos anos. Para mim, assim como São Paulo em sua singularidade é multifacetada, também o Brasil assim o é, com suas várias regiões, sotaques e culturas. Portanto, não me peça para ser separatista assim como não me pedes pra renegar ser brasileiro. Gostar de São Paulo é gostar do Brasil e vice-versa. Por isso, meu recado aos eleitores chatos, preconceituosos, racistas e eleitores de Maluf, do PSDB, e defensores do separatismo paulista: procurem a Albânia ou ex-Iugoslávia, talvez em Kosovo vocês consigam ser felizes separatistas!!
Um blog em forma de almanaque, com comentários sobre cultura, política, economia, esporte, direito, história, religião, quadrinhos, a vida do próximo, o que você desejar, ou que os seus olhos se permitam a ler e comentar, contribuindo para as reflexões desse humilde missivista, neófito nos mares internaúticos, em meio a esta paranoia moderna.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
ELEIÇÕES:Artistas e política: A Tonga da Milonga do Kabuletê
Na campanha para presidente de 2002, na disputa entre Lula e Serra, a veterana atriz Regina Duarte, outrora uma "ex-namoradinha do Brasil", impressionou o país pagando o mico histórico de detonar a campanha do candidato rival (no caso, o vitorioso Lula), propagando no horário eleitoral da TV a difusão de uma campanha do medo, nefasta e antiética, dizendo na televisão que tinha medo do que seria do Brasil com a eleição de Lula. Oito anos depois, parece que o presságio nefasto previsto pela atriz global não se concretizou; ou, ao contrário, ocorreu o inversamente previsto, com o êxito do mandato presidencial do candidato do PT, no auge dos seus mais de 80% de popularidade no fim do segundo mandato, e o país irreversivelmente colocado numa onda de prosperidade, autoestima e otimismo, que "nunca antes na história desse país" se tinha visto.
Agora, em 2010, mais uma vez, como faz parte da democracia, artistas de diferentes matizes e colorações ideológicas aparecem no horário eleitoral gratuito ou nas inserções televisivas, pedindo voto, de forma justa e legítima para seus candidatos, ou eles mesmo sendo candidatos. Veja-se o caso do palhaço Tiririca, execrado por parte da opinião pública e por um bom segmento da classe política, ao aparecer caracterizado na sua propaganda na TV e se tornando conhecido pelo questionável jargão :"pior do que está não fica". Polêmicas a parte, o fato é que não é de agora que nas eleições brasileiras, artistas de renome, com elevado prestígio social e uma imensa corrente de fãs, aparecem para pedir votos para seus candidatos ou se apresentam como uma alternativa real no cenário eleitoral, largando os palcos ou mudando de cenário, para um outro palco que não é o de um show, ou de um estúdio de TV. E como disse, isso é justo. Trata-se de um direito democrático e de uma opção que tem e deve ser respeitada. Apenas teço algumas considerações sobre esse curioso fenômeno político-social, e faço aqui alguns comentários, que podem ser compartilhados com os leitores deste blog.
Em primeiro lugar, na eleição de Collor em 1989, derrotando um então politicamente imaturo Lula, vimos uma das campanhas mais esperadas e mais apaixonantes no início do processo de redemocratização do país, e que muito marcou minha juventude, não apenas pela minha participação militante na campanha (e a participação de milhares de brasileiros), mas também pelo séquito de artistas e intelectuais que acompanharam o pleito eleitoral. Lembro-me da acirrada polarização entre bem e mau, entre esquerda e direita, entre o "sapo barbudo" e o "caçador de marajás" das Alagoas, e de como algumas celebridades do meio artístico se posicionaram. Jamais eu poderia me esquecer da adesão de verdadeiros ícones da música brasileira, como Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Beth Carvalho, e tantos outros na campanha de Lula, assim como de músicos sertanejos e atores e atrizes de talento questionável, como Alexandre Frota e sua então mulher, Claudia Raia, na campanha de Collor. Na época dos ânimos politicamente acirrados e do patrulhamento ideológico, vi que alguns personagens do meio artístico foram absurdamente colocados na marginalidade por seus próprios pares de profissão, por conta de sua predileção eleitoral. Já na eleição de 2002, achei correta e respeitável a atitude da atriz Marília Pêra, defendendo sua amiga e colega de profissão, Regina Duarte, devido às vaias da opinião pública, favorável a Lula, por conta da desastrosa participação da atriz na campanha eleitoral. Ora, artista pode errar feio na escolha de seus políticos, mas ainda tem o direito de escolha, e não se pode, de forma alguma, repudiá-lo por conta disso!!
Ocorre é que vi, ao menos na categoria dos músicos, fatos interessantes. Enquanto que na campanha de 89 a polarização poderia se encontrar situada entre os reais e portentosos artistas, representantes da MPB, com seu passado de luta histórica de esquerda e perseguição na ditadura, apoiando a campanha de Lula; por outro lado, o artista-eleitor do candidato do estabilishment, desse outro Brasil real capitalista, de mentalidade neoliberal e ansioso por ascensão social, defendia as candidaturas de Collor, e posteriormente FHC. Ocorre que, logo após Chitãozinho e Xororó dizerem que estavam na campanha de Fernando Henrique em 1994 e 1998 por adesão espontânea as ideias do candidato tucano e não por grana; na campanha de 2002 foi a vez de Lula receber o maciço apoio do meio artistíco situado na música sertaneja, através de seus dois principais ícones: Zezé de Camargo e Luciano. Lembro-me de ter assistido um comício de Lula naquele ano, no Campo de Marte, em São Paulo, e ter assistido entusiasmado a um show dessa dupla sertaneja em homenagem ao seu candidato, em fotos que possuo até hoje. Eu, do alto de meus francos conhecimentos e predileções pelo rock, jazz, MPB e música erudita, estava ali curtindo dois artistas de origem humilde e cantando canções de amor de apelo fácil e letras risíveis, apenas porque aqueles caras estavam apoiando o candidato que eu gostava. É uma das maravilhas da democracia: gostar daquilo que não se suporta ouvir, só porque os caras que cantam são bacanas e compartilham dos teus compromissos ideológicos.
Esse ano, na campanha presidencial atual, percebo que a participação dos artistas em comícios e na televisão (até por conta da legislação eleitoral) encontra-se rarefeita e poucos são os que participam efetivamente e declaram seu apoio de público a esse ou aquele candidato. Com exceção de Marina Silva na propaganda eleitoral, apresentando artistas como Lenine ( que gosto muito) ou do cineasta premiado Fernando Meirelles, são poucos os que se apresentam dedicados, declarando empolgadamente seu apoio a um candidato numa eleição presidencial. Ainda é válido ver as declarações do rapper Mano Brown, do grupo Racionais MC, cujo video do youtube está disponível aqui neste blog, eleitor declarado de Dilma Roussef e fã de Lula, que expõe suas razões de porque não apoia Serra e de como ele vê o contexto político-eleitoral no país. No tocante a opção de alguns hoje por Marina, tais como Caetano Veloso, entendo que a predileção pela candidata verde tem muito haver com a visão que o artista tem da política, um pouco romanceada e até dotada de uma certa poética, talvez por possuírem certos candidatos um encanto arquétipo que seduz determinados artistas a se engajarem na política.
Dos artistas candidatos nesta última eleição, de longe o que assombra as mentes mais escolarizadas e está se configurando como o "Macaco Tião" do pleito eleitoral atual é o palhaço Tiririca. Encarnando, por uma veia oportunista, o chamado voto de protesto, Tiririca corre o risco de ser eleito o deputado federal mais votado do estado de São Paulo, assim como foi outrora o ex-apresentador e estilista Clodovil, e o ex-candidato à presidência Eneás Carneiro (ambos falecidos, mas, ao menos, o Eneás tinha uma plataforma política bem estabelecida). Isso demonstra um pouco o quanto,para muitos eleitores em sua alienação ideológica, a política se torna um desdobramento da televisão, um novo palco para o espetáculo, e no caso de Tiririca, de um show de humor de gosto duvidoso. Outras figuras da música ou da teledramaturgia já tentaram cavar seu espaço em mandatos políticos, como o finado Carlos Imperial, como vereador no Rio de Janeiro, ou Gilberto Gil como vereador em Salvador e Ministro da Cultura, mas das nuances que podemos encontrar em todos esses artistas-candidatos é que, sempre de certa forma, podemos ver uma certa estética, que pode ou não ser de boa qualidade.
Parodiando o filósofo Kierkgaard, eu diria que o arista vê a política muito mais numa dimensão estética, do que numa dimensão ética, como vêem os intelectuais, pois para ele o político representa muito mais o universo platônico do mal ou do bom, do que aquele perfeitamente razoável ou possível. Marina com seu semblante zen, e passado de militância histórica pelo meio ambiente, além da biografia admirável, seduz aqueles que consideram em termos imagéticos a candidada do PV como a representante "do bem", e com ela seguem acreditando piamente num novo mundo possível, moderno e globalizado, não mais nas tintas do velho marxismo ou do esquerdismo histórico, tão sedutor, outrora, aos artistas que militavam contra a ditadura e que vivenciaram as passeatas e movimentos civis de 68. O neotropicalismo embalado na candidatura de Marina anima os "bicho-grilos" e faz com que eles defendam a candidata como algo cool e perfeitamente adequável a um partido que promove uma renovação de costumes, valores e posturas em relação à sociedade e o meio ambiente, mesmo que, contraditoriamente, a candidata seja integrante de uma igreja ultraconservadora e que não compactua de forma alguma com as bandeiras defendidas pela agremiação a que ela pertence, tais como o casamento gay ou a legalização das drogas.
Ainda tenho saudade dos tempos em que a cantora Fafá de Belém cantava em lágrimas o hino nacional nas campanhas das Diretas Já, em 1984 e no funeral do recém-empossado presidente Tancredo Neves, numa época em que o mundo era diferente, bipolarizado, e quem fosse artista ou intelectual só podia se agrupar em ou outro grupo, sem tergiversações, ou de esquerda ou de direita. Se hoje, diferentemente do que previa Bobbio, ou conforme o pensamento de Antony Giddens, vivemos uma era em que, ser de um lado ou de outro no espectro político, já não significa grande coisa, acredito que a participação de artistas, nos grandes momentos políticos de uma nação, ainda seja interessante no sentido de uma formação de opinião, mas não fundamental nos rumos de uma democracia. Artistas trabalham com o espetáculo, mas não podemos fazer espetáculo da política e sim analisá-la friamente em seus aspectos éticos e com a hombridade necessária, pra quem vai depositar, com um mínimo de consciência, o seu voto. Pelo menos é assim que penso antes de votar num Netinho de Paula para Senador ou em Agnaldo Timóteo para deputado, ou para garantir uma vaga na Câmara a um finado Clodovil, ou promover a ascensão política de Romário ou do Tiririca. Bons artistas podem ser bons ou maus políticos, e tudo isso depende não do talento na interpretação ou da bela voz, mas sim do talento que devermos ter na hora de dar o nosso voto, pra não sermos taxados de otários. Portanto, usando o velho e batido jargão: NESSA ELEIÇÃO, VOTE BEM, MEU BEM!!
Agora, em 2010, mais uma vez, como faz parte da democracia, artistas de diferentes matizes e colorações ideológicas aparecem no horário eleitoral gratuito ou nas inserções televisivas, pedindo voto, de forma justa e legítima para seus candidatos, ou eles mesmo sendo candidatos. Veja-se o caso do palhaço Tiririca, execrado por parte da opinião pública e por um bom segmento da classe política, ao aparecer caracterizado na sua propaganda na TV e se tornando conhecido pelo questionável jargão :"pior do que está não fica". Polêmicas a parte, o fato é que não é de agora que nas eleições brasileiras, artistas de renome, com elevado prestígio social e uma imensa corrente de fãs, aparecem para pedir votos para seus candidatos ou se apresentam como uma alternativa real no cenário eleitoral, largando os palcos ou mudando de cenário, para um outro palco que não é o de um show, ou de um estúdio de TV. E como disse, isso é justo. Trata-se de um direito democrático e de uma opção que tem e deve ser respeitada. Apenas teço algumas considerações sobre esse curioso fenômeno político-social, e faço aqui alguns comentários, que podem ser compartilhados com os leitores deste blog.
Em primeiro lugar, na eleição de Collor em 1989, derrotando um então politicamente imaturo Lula, vimos uma das campanhas mais esperadas e mais apaixonantes no início do processo de redemocratização do país, e que muito marcou minha juventude, não apenas pela minha participação militante na campanha (e a participação de milhares de brasileiros), mas também pelo séquito de artistas e intelectuais que acompanharam o pleito eleitoral. Lembro-me da acirrada polarização entre bem e mau, entre esquerda e direita, entre o "sapo barbudo" e o "caçador de marajás" das Alagoas, e de como algumas celebridades do meio artístico se posicionaram. Jamais eu poderia me esquecer da adesão de verdadeiros ícones da música brasileira, como Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Beth Carvalho, e tantos outros na campanha de Lula, assim como de músicos sertanejos e atores e atrizes de talento questionável, como Alexandre Frota e sua então mulher, Claudia Raia, na campanha de Collor. Na época dos ânimos politicamente acirrados e do patrulhamento ideológico, vi que alguns personagens do meio artístico foram absurdamente colocados na marginalidade por seus próprios pares de profissão, por conta de sua predileção eleitoral. Já na eleição de 2002, achei correta e respeitável a atitude da atriz Marília Pêra, defendendo sua amiga e colega de profissão, Regina Duarte, devido às vaias da opinião pública, favorável a Lula, por conta da desastrosa participação da atriz na campanha eleitoral. Ora, artista pode errar feio na escolha de seus políticos, mas ainda tem o direito de escolha, e não se pode, de forma alguma, repudiá-lo por conta disso!!
Ocorre é que vi, ao menos na categoria dos músicos, fatos interessantes. Enquanto que na campanha de 89 a polarização poderia se encontrar situada entre os reais e portentosos artistas, representantes da MPB, com seu passado de luta histórica de esquerda e perseguição na ditadura, apoiando a campanha de Lula; por outro lado, o artista-eleitor do candidato do estabilishment, desse outro Brasil real capitalista, de mentalidade neoliberal e ansioso por ascensão social, defendia as candidaturas de Collor, e posteriormente FHC. Ocorre que, logo após Chitãozinho e Xororó dizerem que estavam na campanha de Fernando Henrique em 1994 e 1998 por adesão espontânea as ideias do candidato tucano e não por grana; na campanha de 2002 foi a vez de Lula receber o maciço apoio do meio artistíco situado na música sertaneja, através de seus dois principais ícones: Zezé de Camargo e Luciano. Lembro-me de ter assistido um comício de Lula naquele ano, no Campo de Marte, em São Paulo, e ter assistido entusiasmado a um show dessa dupla sertaneja em homenagem ao seu candidato, em fotos que possuo até hoje. Eu, do alto de meus francos conhecimentos e predileções pelo rock, jazz, MPB e música erudita, estava ali curtindo dois artistas de origem humilde e cantando canções de amor de apelo fácil e letras risíveis, apenas porque aqueles caras estavam apoiando o candidato que eu gostava. É uma das maravilhas da democracia: gostar daquilo que não se suporta ouvir, só porque os caras que cantam são bacanas e compartilham dos teus compromissos ideológicos.
Esse ano, na campanha presidencial atual, percebo que a participação dos artistas em comícios e na televisão (até por conta da legislação eleitoral) encontra-se rarefeita e poucos são os que participam efetivamente e declaram seu apoio de público a esse ou aquele candidato. Com exceção de Marina Silva na propaganda eleitoral, apresentando artistas como Lenine ( que gosto muito) ou do cineasta premiado Fernando Meirelles, são poucos os que se apresentam dedicados, declarando empolgadamente seu apoio a um candidato numa eleição presidencial. Ainda é válido ver as declarações do rapper Mano Brown, do grupo Racionais MC, cujo video do youtube está disponível aqui neste blog, eleitor declarado de Dilma Roussef e fã de Lula, que expõe suas razões de porque não apoia Serra e de como ele vê o contexto político-eleitoral no país. No tocante a opção de alguns hoje por Marina, tais como Caetano Veloso, entendo que a predileção pela candidata verde tem muito haver com a visão que o artista tem da política, um pouco romanceada e até dotada de uma certa poética, talvez por possuírem certos candidatos um encanto arquétipo que seduz determinados artistas a se engajarem na política.
Dos artistas candidatos nesta última eleição, de longe o que assombra as mentes mais escolarizadas e está se configurando como o "Macaco Tião" do pleito eleitoral atual é o palhaço Tiririca. Encarnando, por uma veia oportunista, o chamado voto de protesto, Tiririca corre o risco de ser eleito o deputado federal mais votado do estado de São Paulo, assim como foi outrora o ex-apresentador e estilista Clodovil, e o ex-candidato à presidência Eneás Carneiro (ambos falecidos, mas, ao menos, o Eneás tinha uma plataforma política bem estabelecida). Isso demonstra um pouco o quanto,para muitos eleitores em sua alienação ideológica, a política se torna um desdobramento da televisão, um novo palco para o espetáculo, e no caso de Tiririca, de um show de humor de gosto duvidoso. Outras figuras da música ou da teledramaturgia já tentaram cavar seu espaço em mandatos políticos, como o finado Carlos Imperial, como vereador no Rio de Janeiro, ou Gilberto Gil como vereador em Salvador e Ministro da Cultura, mas das nuances que podemos encontrar em todos esses artistas-candidatos é que, sempre de certa forma, podemos ver uma certa estética, que pode ou não ser de boa qualidade.
Parodiando o filósofo Kierkgaard, eu diria que o arista vê a política muito mais numa dimensão estética, do que numa dimensão ética, como vêem os intelectuais, pois para ele o político representa muito mais o universo platônico do mal ou do bom, do que aquele perfeitamente razoável ou possível. Marina com seu semblante zen, e passado de militância histórica pelo meio ambiente, além da biografia admirável, seduz aqueles que consideram em termos imagéticos a candidada do PV como a representante "do bem", e com ela seguem acreditando piamente num novo mundo possível, moderno e globalizado, não mais nas tintas do velho marxismo ou do esquerdismo histórico, tão sedutor, outrora, aos artistas que militavam contra a ditadura e que vivenciaram as passeatas e movimentos civis de 68. O neotropicalismo embalado na candidatura de Marina anima os "bicho-grilos" e faz com que eles defendam a candidata como algo cool e perfeitamente adequável a um partido que promove uma renovação de costumes, valores e posturas em relação à sociedade e o meio ambiente, mesmo que, contraditoriamente, a candidata seja integrante de uma igreja ultraconservadora e que não compactua de forma alguma com as bandeiras defendidas pela agremiação a que ela pertence, tais como o casamento gay ou a legalização das drogas.
Ainda tenho saudade dos tempos em que a cantora Fafá de Belém cantava em lágrimas o hino nacional nas campanhas das Diretas Já, em 1984 e no funeral do recém-empossado presidente Tancredo Neves, numa época em que o mundo era diferente, bipolarizado, e quem fosse artista ou intelectual só podia se agrupar em ou outro grupo, sem tergiversações, ou de esquerda ou de direita. Se hoje, diferentemente do que previa Bobbio, ou conforme o pensamento de Antony Giddens, vivemos uma era em que, ser de um lado ou de outro no espectro político, já não significa grande coisa, acredito que a participação de artistas, nos grandes momentos políticos de uma nação, ainda seja interessante no sentido de uma formação de opinião, mas não fundamental nos rumos de uma democracia. Artistas trabalham com o espetáculo, mas não podemos fazer espetáculo da política e sim analisá-la friamente em seus aspectos éticos e com a hombridade necessária, pra quem vai depositar, com um mínimo de consciência, o seu voto. Pelo menos é assim que penso antes de votar num Netinho de Paula para Senador ou em Agnaldo Timóteo para deputado, ou para garantir uma vaga na Câmara a um finado Clodovil, ou promover a ascensão política de Romário ou do Tiririca. Bons artistas podem ser bons ou maus políticos, e tudo isso depende não do talento na interpretação ou da bela voz, mas sim do talento que devermos ter na hora de dar o nosso voto, pra não sermos taxados de otários. Portanto, usando o velho e batido jargão: NESSA ELEIÇÃO, VOTE BEM, MEU BEM!!
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
RELIGIOSIDADE: Intolerância religiosa, gente chata e outras bobagens que se fala em nome de Deus.
Com a decisão da comunidade muçulmana de Nova York de instalar uma mesquista nas proximidades do Marco Zero, onde outrora se situavam as Torres Gêmeas do World Trade Center, derrubadas nos atentados terroristas de 11 de setembro, há nove anos atrás, e cujo aniversário acontece daqui há alguns dias, o pastor evangélico Terry Jones teve como ideia uma singular forma de protesto: sinalizou por meio da internet uma campanha anti-islã em que prometeu queimar um exemplar do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, no próximo final de semana, sob o olhar perplexo de milhões de pessoas em todo o mundo. Jones alegara que seria uma afronta ao povo norte-americano e aos familiares das milhares de vítimas do atentado terrorista, deixar que fosse instalado perto do local da tragédia um templo religioso da mesma crença dos assassinos terroristas que aterrorizam o mundo no 11 de setembro. Mediante um suposto acordo com o imã da comunidade local, Jones abdicou (ao menos temporariamente) de seu bizarro plano, deixando de tacar fogo no livro sagrado do profeta Maomé. O presidente Barack Obama antecipou-se no episódio, antes de outros líderes, condenando a atitude intolerante e desrespeitosa do pastor com a religião alheia, considerando que gestos como esse apenas incentivam a intolerância religiosa, o fanatismo, o fundamentalismo e acirramento de ânimos entre culturas, além de servir de fomento para o recrutamento da Al Quaeda, já que radicalismo se responde com radicalismo. Será que é dessa forma que os diferentes podem conviver entre si? Será que Deus tolera a diferença?
Inicialmente, somos todos iguais, como também somos diferentes, , e no cristianismo, nas escolas dominicais e cursos de catecismo, aprendemos que o chamado “Corpo de Cristo” ( a comunidade da igreja) é uno e ao mesmo tempo, múltiplo. Nessa dialética que congrega diferentes seres é que aprendemos a ser tolerantes, a respeitar o outro, mesmo não compartilhando das idéias dele, mas parece que, no caso do fundamentalismo, mais e mais intolerância pode e está sendo gerada.
Já pude acompanhar, participando de comunidades religiosas, diversos atos de intolerância em condutas absolutamente desrespeitosas e agressivas contra a fé alheia, ou com a simples opção do outro de não expressar os mesmos sentimentos religiosos. Tenho amigos de diversas crenças e opções religiosas, de católicos a umbandistas, e nunca tive problema algum em conviver com ateus, agnósticos, espíritas, ocultistas, ou qualquer um que, a exemplo das Testemunhas de Jeová ou dos Adventistas, proíbe a transfusão de sangue ou é contrário ao trabalho nos sábados. Posso achar a crença de alguns esquisita, mas como, segundo o dito popular: futebol, religião e política não se discute, acredito que ao menos discutir sobre o respeito e a tolerância religiosa é de bom tom, se quisermos um dia nos salvar de uma pós-modernidade tão desintegradora de uniões, conciliações e fraternidades.
Por falar em pós-modernidade, para o fundamentalismo religioso, o tempo em que vivemos é tão assustador e maléfico que falar em evolução histórica, renovação ou reformulação de conceitos, liberalização de costumes ou temais mais complexos e delicados, como aborto, eutanásia e casamento gay, parecem absolutamente fora de discussão, como se espiões a serviço de Satanás estivessem à espreita, com suas ideias perigosas contaminando as mentes mais débeis e puras. É como se, em nome da crença, fôssemos proibidos de pensar. E pensar, como uma dádiva divina, seja um expediente apenas dos mais eruditos, dos iluminados, detentores da verdade profética e da chama sagrada, que sabem como ninguém conduzir o seu rebanho.
E por falar em rebanho, divulgo aqui no meu blog, dentre os blogs amigos, o blog pertencente à jornalista e militante religiosa Marília de Camargo César, autora do livro Feridos em nome de Deus, da editora Mundo Cristão. Uma excelente obra de pesquisa acadêmica e jornalística, em que a autora nos brinda com um novo conceito, bem adequado a casos de intolerância revelados pelo pastor norte-americano Terry Jones, e que encontramos em muitas igrejas e denominações religiosas no Brasil: o chamado “assédio espiritual”.
Por assédio espiritual podemos entender a forma esdrúxula, e porque não dizer desonesta, que algumas pessoas se valem para se aproveitar da fragilidade emocional de certas pessoas, submetendo-as a uma aflição moral e psicológica através do emprego do discurso religioso. Noções como culpa, arrependimento e redenção são utilizadas por estas pessoas (em boa parte pastores e líderes evangélicos) para atormentar os integrantes de suas comunidades, num verdadeiro policiamento espiritual, a fim de que essas pessoas se dediquem integralmente as “coisas de Deus” e reneguem completamente as pérfidas e pecaminosas “coisas do mundo”. Será que esse discurso é obra realmente de um ente divino, ou criação imaginária de sujeitos aproveitadores e oportunistas, que se valem da pregação como uma forma de dominação social? Ou será ainda que a rigidez de certos discursos moralistas de cunho religioso não serve apenas para demonstrar o nível de desacerto e patologia de mentes inquietas e perturbadas?
Detesto as atitudes de pessoas que se valem de um discurso moralista-cristão, para esconder suas próprias dificuldades e debilidades emocionais e psicológicas. Conheço um determinado rapaz, outrora brilhante intelectualmente, com sérios problemas afetivos e familiares, e dotado de uma imaturidade típica de quem ficou sujeito por vários anos a um estado de alienação mental por conta de uma formação altamente conservadora, que, ao integrar uma comitiva de estudantes, numa viagem para participar de um congresso acadêmico, simplesmente não aceitava o fato de que um casal de namorados pertencente a nossa excursão, pudesse dormir na hospedagem do evento num quarto de casal, separados dos outros, posto que eles ainda não eram formalmente casados. Quanta bobagem, quanta babaquice, quanta intolerância e alienação!
Como que vivendo decididamente numa bolha de plástico, alguns crentes efetivamente adotam uma postura de largar a vida, de cair num ascetismo desvairado, o que por si só é opção individual de cada um, e não reclamo; mas o que me faz refletir é quando esse estilo de vida passa a ser obrigatório para todos os outros que não compartilham esse modo de ver a vida.Fico me perguntando, assim como se pergunta o pastor presbiteriano, professor da Universidade Mackenzie e teólogo Ricardo Quadros Gouvea, em seu Manifesto Antifundamentalismo, até que ponto milhares de crentes de diversas igrejas lotam os consultórios de médicos e psicólogos com toda sorte de distúrbios associados a uma fé distorcida e mal canalizada. São esses os chatos e fundamentalistas, que por trás do coro moral do arrependimento, carregam consigo as chagas da desunião, da desordem afetiva e da falta de amor. Fico pensando na leitura de Rubem Alves acerca do cântico dos urubus, querendo silenciar o canto dos demais pássaros na floresta, como se o seu canto fosse o único bonito aos ouvidos de Deus. Concordo com Gouvea quando ele diz que o fundamentalismo só leva a mais intolerância, à guerra e destruição. Alguns sabidos neoconservadores tentam voltar à etimologia das palavras, querendo nos fazer crer que a palavra “fundamentalista” é mal interpretada, e que somente desatenciosos ou quem nunca estudou teologia pode acreditar que o fundamentalismo religioso seja apenas uma invenção das mentes dos “homens de pouca fé” da teologia liberal. Não fico nem com liberais, nem com fundamentalistas, pois prefiro a “turma de Deus”, que pode e deve ser encontrada não em alguma igreja, mas em qualquer canto, em qualquer lugar, como deve ser todo aquele que é uno, e ao mesmo tempo plural, num mesmo Corpo de Cristo. Queira Deus que eu não esteja errado, mas que também não seja eu a apontar o certo, pois o certo está em que verdadeiramente acredita, e abre seu peito a Deus não só de mente, mas de coração, a ponto de se preencher de tanto amor, que se torna incapaz de agredir alguém, ignorar ou não tolerar o credo de quem quer seja. Aprende isso, Terry Jones!!
Inicialmente, somos todos iguais, como também somos diferentes, , e no cristianismo, nas escolas dominicais e cursos de catecismo, aprendemos que o chamado “Corpo de Cristo” ( a comunidade da igreja) é uno e ao mesmo tempo, múltiplo. Nessa dialética que congrega diferentes seres é que aprendemos a ser tolerantes, a respeitar o outro, mesmo não compartilhando das idéias dele, mas parece que, no caso do fundamentalismo, mais e mais intolerância pode e está sendo gerada.
Já pude acompanhar, participando de comunidades religiosas, diversos atos de intolerância em condutas absolutamente desrespeitosas e agressivas contra a fé alheia, ou com a simples opção do outro de não expressar os mesmos sentimentos religiosos. Tenho amigos de diversas crenças e opções religiosas, de católicos a umbandistas, e nunca tive problema algum em conviver com ateus, agnósticos, espíritas, ocultistas, ou qualquer um que, a exemplo das Testemunhas de Jeová ou dos Adventistas, proíbe a transfusão de sangue ou é contrário ao trabalho nos sábados. Posso achar a crença de alguns esquisita, mas como, segundo o dito popular: futebol, religião e política não se discute, acredito que ao menos discutir sobre o respeito e a tolerância religiosa é de bom tom, se quisermos um dia nos salvar de uma pós-modernidade tão desintegradora de uniões, conciliações e fraternidades.
Por falar em pós-modernidade, para o fundamentalismo religioso, o tempo em que vivemos é tão assustador e maléfico que falar em evolução histórica, renovação ou reformulação de conceitos, liberalização de costumes ou temais mais complexos e delicados, como aborto, eutanásia e casamento gay, parecem absolutamente fora de discussão, como se espiões a serviço de Satanás estivessem à espreita, com suas ideias perigosas contaminando as mentes mais débeis e puras. É como se, em nome da crença, fôssemos proibidos de pensar. E pensar, como uma dádiva divina, seja um expediente apenas dos mais eruditos, dos iluminados, detentores da verdade profética e da chama sagrada, que sabem como ninguém conduzir o seu rebanho.
E por falar em rebanho, divulgo aqui no meu blog, dentre os blogs amigos, o blog pertencente à jornalista e militante religiosa Marília de Camargo César, autora do livro Feridos em nome de Deus, da editora Mundo Cristão. Uma excelente obra de pesquisa acadêmica e jornalística, em que a autora nos brinda com um novo conceito, bem adequado a casos de intolerância revelados pelo pastor norte-americano Terry Jones, e que encontramos em muitas igrejas e denominações religiosas no Brasil: o chamado “assédio espiritual”.
Por assédio espiritual podemos entender a forma esdrúxula, e porque não dizer desonesta, que algumas pessoas se valem para se aproveitar da fragilidade emocional de certas pessoas, submetendo-as a uma aflição moral e psicológica através do emprego do discurso religioso. Noções como culpa, arrependimento e redenção são utilizadas por estas pessoas (em boa parte pastores e líderes evangélicos) para atormentar os integrantes de suas comunidades, num verdadeiro policiamento espiritual, a fim de que essas pessoas se dediquem integralmente as “coisas de Deus” e reneguem completamente as pérfidas e pecaminosas “coisas do mundo”. Será que esse discurso é obra realmente de um ente divino, ou criação imaginária de sujeitos aproveitadores e oportunistas, que se valem da pregação como uma forma de dominação social? Ou será ainda que a rigidez de certos discursos moralistas de cunho religioso não serve apenas para demonstrar o nível de desacerto e patologia de mentes inquietas e perturbadas?
Detesto as atitudes de pessoas que se valem de um discurso moralista-cristão, para esconder suas próprias dificuldades e debilidades emocionais e psicológicas. Conheço um determinado rapaz, outrora brilhante intelectualmente, com sérios problemas afetivos e familiares, e dotado de uma imaturidade típica de quem ficou sujeito por vários anos a um estado de alienação mental por conta de uma formação altamente conservadora, que, ao integrar uma comitiva de estudantes, numa viagem para participar de um congresso acadêmico, simplesmente não aceitava o fato de que um casal de namorados pertencente a nossa excursão, pudesse dormir na hospedagem do evento num quarto de casal, separados dos outros, posto que eles ainda não eram formalmente casados. Quanta bobagem, quanta babaquice, quanta intolerância e alienação!
Como que vivendo decididamente numa bolha de plástico, alguns crentes efetivamente adotam uma postura de largar a vida, de cair num ascetismo desvairado, o que por si só é opção individual de cada um, e não reclamo; mas o que me faz refletir é quando esse estilo de vida passa a ser obrigatório para todos os outros que não compartilham esse modo de ver a vida.Fico me perguntando, assim como se pergunta o pastor presbiteriano, professor da Universidade Mackenzie e teólogo Ricardo Quadros Gouvea, em seu Manifesto Antifundamentalismo, até que ponto milhares de crentes de diversas igrejas lotam os consultórios de médicos e psicólogos com toda sorte de distúrbios associados a uma fé distorcida e mal canalizada. São esses os chatos e fundamentalistas, que por trás do coro moral do arrependimento, carregam consigo as chagas da desunião, da desordem afetiva e da falta de amor. Fico pensando na leitura de Rubem Alves acerca do cântico dos urubus, querendo silenciar o canto dos demais pássaros na floresta, como se o seu canto fosse o único bonito aos ouvidos de Deus. Concordo com Gouvea quando ele diz que o fundamentalismo só leva a mais intolerância, à guerra e destruição. Alguns sabidos neoconservadores tentam voltar à etimologia das palavras, querendo nos fazer crer que a palavra “fundamentalista” é mal interpretada, e que somente desatenciosos ou quem nunca estudou teologia pode acreditar que o fundamentalismo religioso seja apenas uma invenção das mentes dos “homens de pouca fé” da teologia liberal. Não fico nem com liberais, nem com fundamentalistas, pois prefiro a “turma de Deus”, que pode e deve ser encontrada não em alguma igreja, mas em qualquer canto, em qualquer lugar, como deve ser todo aquele que é uno, e ao mesmo tempo plural, num mesmo Corpo de Cristo. Queira Deus que eu não esteja errado, mas que também não seja eu a apontar o certo, pois o certo está em que verdadeiramente acredita, e abre seu peito a Deus não só de mente, mas de coração, a ponto de se preencher de tanto amor, que se torna incapaz de agredir alguém, ignorar ou não tolerar o credo de quem quer seja. Aprende isso, Terry Jones!!
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
TRAGÉDIA DOS 33 MINEIROS NO CHILE: A vida no buraco ou a vida é um buraco??
Podem me chamar de maricas, mas meu coração de fato dá um aperto e as lágrimas descem quando vejo na TV as imagens de 33 mineiros chilenos de San José, soterrados em mais de 700 metros de profundidade no fundo da terra, em pleno deserto de Atacama, totalmente desorientados, esquálidos, barbudos, suados e com seus olhos esbugalhados, enquanto esperam um socorro que pode durar até cinco meses. A tragédia que se iniciou (pasmem!) no dia de meu aniversário (foi em 5 de agosto que a entrada da mina desabou começando o calvário dos trabalhadores soterrados), parece que fez a mim e a uma boa parte do mundo o momento de despertar para um sentimento humano, tão genuinamente humano: a compaixão!
Foi com o coração repleto de compaixão, mas também por um digno sentimento de justiça e revolta, que Neftali Ricardo Reys Basoalto, mais conhecido como Pablo Neruda (1904-1973) escreveu em 1939 e publicou em 1950, o poema épico Canto Geral, em homenagem aos mineradores de carvão da região andina, que Neruda conheceu quando atuou como senador e ativista do partido socialista. Diplomata, militante político, senador da república, jornalista e poeta, Neruda foi um dos mais importantes poetas do século XX, e suas poesias que combinavam tanto um amor intenso quanto um sentimento de justiça, encantaram o mundo, fazendo com que ele ganhasse, enfim, o prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter quase concorrido à presidência do Chile, em 1969, ano em que declinou do convite em prol daquele que viria, assim como Che Guevara, a se tornar um mito: Salvador Allende. Canto Geral é considerado um das obras de Neruda onde se encontra mais presente sua consciência política e ideal de transformação de uma sociedade gritantemente desigual, além de seu clamor por justiça social, denunciando o abuso e a exploração do homem, em versos como Minerais, que retrata bem a situação dos 33 mineradores enclausurados numa caverna, no Chile de hoje:
"Mãe dos metais, te queimaram,
te morderam, martirizaram,
te corroeram, te apodreceram
mais tarde, quando os ídolos
já não podiam defender-te."
A mineração é uma das atividades principais da economia capitalista no Chile e todos os anos, centenas e mais centenas de trabalhadores são vítimas de acidentes nas minas de carvão, zinco e cobre da região. A mina de Chuquicamata, ou simplesmente chamada Chuqui, há 1.240 km de Santiago, por exemplo, é considerada a maior mina a céu aberto do mundo e até hoje, mesmo com as sucessivas crises econômicas e os refluxos da economia capitalista, milhares de pessoas são empregadas por mineradoras para realizar atividades extremamente difíceis, insalubres e muitíssimo perigosas.
Aqui se revela a ganância do capital, e assim como no poema de Neruda, minha indignação quanto às reais condições das minas chilenas, e de como o trágico acidente envolvendo os 33 mineiros que padecem de angústia e desolação debaixo da terra, poderia ter sido evitado. Durante muitos anos organizações internacionais do trabalho criticam as condições de trabalho dos mineradores chilenos, mas nenhuma intervenção severa é feita pelo Estado, no sentido de coibir abusos. Os anseios da economia capitalista e a ambição da acumulação de capital prevalecem sobre o bom senso, fazendo com que homens e mulheres se subordinem à condições desumanas, a fim de conseguir um emprego e sustentar suas famílias. Essas mesmas famílias que choram o sofrimento de seus entes queridos presos no subsolo, agora são distraídas pela política de pão e circo do governo chileno, que montou um acampamento para os familiares dos mineiros em pleno deserto, com direito à praça de alimentação, telão para assistir novelas e até música ao vivo. Com tantos curiosos ao redor da mina onde ocorreu o acidente, só falta surgir pacotes turísticos além daqueles destinados a Bariloche, onde endinheirados turistas europeus podem tirar fotos da mina soterrada, e quem sabe, até bater um papo com um dos mineiros através de uma sonda cravada no solo, perguntando como é viver como ratos, embaixo de toneladas e toneladas de areia e granito. A cena lembra o filme A Montanha dos Sete Abutres, de 1951, quando um jovem ator Kirk Douglas interpretava um repórter sensacionalista, colhendo os dividendos com a notícia de um minerador soterrado, após um desabamento. É o circo midiático voltado em torno do sofrimento alheio. Enquanto isso, as mineradoras lucram.
É justamente a busca incessante do lucro o que mais me aterroriza, pois se transformou num episódio do descaso com a vida e a dignidade humana, no caso dos mineradores chilenos. Desabamentos em minas são comuns desde que o homem começou a desenvolver essa atividade econômica, mas nos países de Primeiro Mundo tais acidentes são prevenidos através de sistemas de segurança altamente eficientes. Um dos princípios básicos na construção de uma mina, com a perfuração da rocha e criação de canais para escoamento de pessoas e objetos, é o de se construir uma rota alternativa, uma trilha de segurança no caso de soterramento, com elevadores, estrutura revestida e tamanho adequado para locomoção, que não foi prevista no projeto de elaboração da mina de San José. O local só possuí(pasmem) uma única entrada e saída para os mineradores, e somando-se a isso o fato de que a região é propícia a abalos sísmicos, o que se tem como resultado é a crônica de um desastre anunciado.
Agora só resta aos mineiros esperar e esperar, enquanto fragmentos se sua sanidade vão indo embora a cada passar dos minutos angustiantes e claustrofóbicos de quem está lutando pela vida, mas não sabe se vai ver a luz do dia novamente. O caso dos mineiros chilenos é quase como o de uma condenação, pois o castigo que lhes foi afligido pela incompetência e avareza humana não é previsto nem para o pior dos criminosos. A situação é tão desumana, que nem adianta o sorriso fraterno do atual presidente chileno, Sebastian Piñera, no sentido de transmitir otimismo e esperança para uma nação abismada com o absurdo, do alto de sua cabeleira grisalha de empresário riquissimo e porte jovial de cantor de churrascaria. A imprensa noticia que caso aqueles pobres coitados soterrados sobrevivam a essa apocalíptica intempérie, seu caso servirá ao menos de fonte de estudos para a psicologia e a psiquiatria, já que todos garantem que, se algum deles sair de lá onde se encontram, provavelmente saíram todos com algum distúrbio psíquico severo. Ah, tá!! Fico me colocando na posição de alguém que se encontra soterrado porque estava tentando simplesmente sustentar sua família, e me pergunto: "quer dizer que esse perrengue todo que estou vivendo é pra virar um rato de laboratório?? ". Eu poderia dizer: "Quero é que me tirem daqui!!!".
Imagino quantos dos mineiros minimamente saudáveis que ainda existem no local (cinco deles já estão prostrados, catatônicos, com graves sinais de depressão) vão ter forças para tentar se distrair enquanto o socorro não vem. Uns vão praticar algum exercício físico, outros vão se debruçar sobre a leitura ou a escrita, enquanto outros vão passar o tempo jogando dominó. Fico pensando: quanto absurdo, quanta tristeza!! Parafraseando Neruda, termino com mais de um seus versos, traduzindo a tristeza daqueles que não podem mais ver a luz do sol, e que nesse exato momento, seu contato com o mundo e com seus entes queridos se dá tão somente através de uma sonda, da espessura de uma lata de refrigerante: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo!" Boa noite, mineradores chilenos!
Foi com o coração repleto de compaixão, mas também por um digno sentimento de justiça e revolta, que Neftali Ricardo Reys Basoalto, mais conhecido como Pablo Neruda (1904-1973) escreveu em 1939 e publicou em 1950, o poema épico Canto Geral, em homenagem aos mineradores de carvão da região andina, que Neruda conheceu quando atuou como senador e ativista do partido socialista. Diplomata, militante político, senador da república, jornalista e poeta, Neruda foi um dos mais importantes poetas do século XX, e suas poesias que combinavam tanto um amor intenso quanto um sentimento de justiça, encantaram o mundo, fazendo com que ele ganhasse, enfim, o prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter quase concorrido à presidência do Chile, em 1969, ano em que declinou do convite em prol daquele que viria, assim como Che Guevara, a se tornar um mito: Salvador Allende. Canto Geral é considerado um das obras de Neruda onde se encontra mais presente sua consciência política e ideal de transformação de uma sociedade gritantemente desigual, além de seu clamor por justiça social, denunciando o abuso e a exploração do homem, em versos como Minerais, que retrata bem a situação dos 33 mineradores enclausurados numa caverna, no Chile de hoje:
"Mãe dos metais, te queimaram,
te morderam, martirizaram,
te corroeram, te apodreceram
mais tarde, quando os ídolos
já não podiam defender-te."
A mineração é uma das atividades principais da economia capitalista no Chile e todos os anos, centenas e mais centenas de trabalhadores são vítimas de acidentes nas minas de carvão, zinco e cobre da região. A mina de Chuquicamata, ou simplesmente chamada Chuqui, há 1.240 km de Santiago, por exemplo, é considerada a maior mina a céu aberto do mundo e até hoje, mesmo com as sucessivas crises econômicas e os refluxos da economia capitalista, milhares de pessoas são empregadas por mineradoras para realizar atividades extremamente difíceis, insalubres e muitíssimo perigosas.
Aqui se revela a ganância do capital, e assim como no poema de Neruda, minha indignação quanto às reais condições das minas chilenas, e de como o trágico acidente envolvendo os 33 mineiros que padecem de angústia e desolação debaixo da terra, poderia ter sido evitado. Durante muitos anos organizações internacionais do trabalho criticam as condições de trabalho dos mineradores chilenos, mas nenhuma intervenção severa é feita pelo Estado, no sentido de coibir abusos. Os anseios da economia capitalista e a ambição da acumulação de capital prevalecem sobre o bom senso, fazendo com que homens e mulheres se subordinem à condições desumanas, a fim de conseguir um emprego e sustentar suas famílias. Essas mesmas famílias que choram o sofrimento de seus entes queridos presos no subsolo, agora são distraídas pela política de pão e circo do governo chileno, que montou um acampamento para os familiares dos mineiros em pleno deserto, com direito à praça de alimentação, telão para assistir novelas e até música ao vivo. Com tantos curiosos ao redor da mina onde ocorreu o acidente, só falta surgir pacotes turísticos além daqueles destinados a Bariloche, onde endinheirados turistas europeus podem tirar fotos da mina soterrada, e quem sabe, até bater um papo com um dos mineiros através de uma sonda cravada no solo, perguntando como é viver como ratos, embaixo de toneladas e toneladas de areia e granito. A cena lembra o filme A Montanha dos Sete Abutres, de 1951, quando um jovem ator Kirk Douglas interpretava um repórter sensacionalista, colhendo os dividendos com a notícia de um minerador soterrado, após um desabamento. É o circo midiático voltado em torno do sofrimento alheio. Enquanto isso, as mineradoras lucram.
É justamente a busca incessante do lucro o que mais me aterroriza, pois se transformou num episódio do descaso com a vida e a dignidade humana, no caso dos mineradores chilenos. Desabamentos em minas são comuns desde que o homem começou a desenvolver essa atividade econômica, mas nos países de Primeiro Mundo tais acidentes são prevenidos através de sistemas de segurança altamente eficientes. Um dos princípios básicos na construção de uma mina, com a perfuração da rocha e criação de canais para escoamento de pessoas e objetos, é o de se construir uma rota alternativa, uma trilha de segurança no caso de soterramento, com elevadores, estrutura revestida e tamanho adequado para locomoção, que não foi prevista no projeto de elaboração da mina de San José. O local só possuí(pasmem) uma única entrada e saída para os mineradores, e somando-se a isso o fato de que a região é propícia a abalos sísmicos, o que se tem como resultado é a crônica de um desastre anunciado.
Agora só resta aos mineiros esperar e esperar, enquanto fragmentos se sua sanidade vão indo embora a cada passar dos minutos angustiantes e claustrofóbicos de quem está lutando pela vida, mas não sabe se vai ver a luz do dia novamente. O caso dos mineiros chilenos é quase como o de uma condenação, pois o castigo que lhes foi afligido pela incompetência e avareza humana não é previsto nem para o pior dos criminosos. A situação é tão desumana, que nem adianta o sorriso fraterno do atual presidente chileno, Sebastian Piñera, no sentido de transmitir otimismo e esperança para uma nação abismada com o absurdo, do alto de sua cabeleira grisalha de empresário riquissimo e porte jovial de cantor de churrascaria. A imprensa noticia que caso aqueles pobres coitados soterrados sobrevivam a essa apocalíptica intempérie, seu caso servirá ao menos de fonte de estudos para a psicologia e a psiquiatria, já que todos garantem que, se algum deles sair de lá onde se encontram, provavelmente saíram todos com algum distúrbio psíquico severo. Ah, tá!! Fico me colocando na posição de alguém que se encontra soterrado porque estava tentando simplesmente sustentar sua família, e me pergunto: "quer dizer que esse perrengue todo que estou vivendo é pra virar um rato de laboratório?? ". Eu poderia dizer: "Quero é que me tirem daqui!!!".
Imagino quantos dos mineiros minimamente saudáveis que ainda existem no local (cinco deles já estão prostrados, catatônicos, com graves sinais de depressão) vão ter forças para tentar se distrair enquanto o socorro não vem. Uns vão praticar algum exercício físico, outros vão se debruçar sobre a leitura ou a escrita, enquanto outros vão passar o tempo jogando dominó. Fico pensando: quanto absurdo, quanta tristeza!! Parafraseando Neruda, termino com mais de um seus versos, traduzindo a tristeza daqueles que não podem mais ver a luz do sol, e que nesse exato momento, seu contato com o mundo e com seus entes queridos se dá tão somente através de uma sonda, da espessura de uma lata de refrigerante: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo!" Boa noite, mineradores chilenos!
domingo, 22 de agosto de 2010
SORTEIO:Uma dica para ganhar na Mega Sena acumulada a partir de uma novela da Globo
De Otavio Brum:
Não são meus parcos conhecimentos matemáticos que poderão levá-los ao prêmio de R$ 31 milhões da Mega Sena, ou a outras premiações milionárias futuras. Nada disso. Minha habilidade com os números se resumem nas 4 operações básicas, pelo amor à música e ao jogo de xadrez.
Tampouco irei oferecer algum esquema mirabolante, pois foi com Bukowski que aprendi o quanto isto não funciona. Inclusive, isso me levou ao meu primeiro divórcio – mesmo que não tenha levado adiante a minha ideia de virar um apostador costumaz em cavalos.
Desculpem o interlóquio. Mas sou virginiano, preso aos detalhes, e preciso me apresentar minimamente para tentar convencê-los da seriedade de minhas ponderações. Nunca fui um grande vitorioso em nada na vida. Portanto, também não é nenhuma história autobiográfica que lhes sirvam de exemplo que lhes ofereço.
O que vou lhes apresentar é algo da Toscana. Mais precisamente da Toscana de Sílvio de Abreu, por mais tosco que lhes pareçam. Mergulhando no universo da fantasia e aprendendo a ler nas entrelinhas da Arte, absorvendo o fulgor criativo das mentes brilhantes que produzem o que há de melhor na teledramaturgia brasileira, verão o quanto poderão aprender sobre o domínio da estatística. E é isto o que nos interessa: a passione pelos números!
E é esta a minha grande pretensão: conduzi-los e ajudá-los a desbravar este mundo da criação. Pois não é o domínio da estética mas o da estatística que eleva Sílvio de Abreu a condição de gênio. Verificaremos que não são só histórias magistrais que podemos esperar do autor. Não só queremos como esperamos muito mais: as 6 dezenas da Mega Sena, por exemplo.
Vamos aos fatos. O primeiro acerto é o de não precisar onde fica o sítio de Totó. Aqui já temos a primeira lição de freio à impulsividade imaginativa. Totó não é o cachorro, mas o personagem de Toni Ramos, como poderiam pensar àqueles acostumados ao era uma vez... Bom, o sítio fica em Toscana e cada um pode imaginar por si só qual o lugar mais adequado para situá-lo na região. Isto é uma delícia e faz com que cada um tenha seu sítio próprio, único, idiossincrático diria, como se estivéssemos lendo um livro ao invés de estar assistindo a novela das oito.
Sobre isso que disse agora, não estou muito certo. Alguém que assista diariamente a novela pode me alertar de que o sítio fica no lugar tal e tudo se ir por água abaixo. Mas isto também pode acontecer ao marcarmos o bilhete, tomem cuidado! Porém, ainda assim nada está completamente perdido. Afinal se errarmos em um ponto, ainda nos resta sonhar com a quina...
Pelo que entendi, Totó é filho de Bete Gouveia. Foi criado longe da mãe porque era um bastardo. A mãe não sabia que o filho estava vivo e que morava na Itália. Bete mora em São Paulo, aqui no Brasil. Ah, sim! Não podemos esquecer dos números. Afinal, nosso real interesse é o de ganhar na loteria. Portanto fiquem atentos: na região da Toscana vivem 3 milhões 619 mil e 872 habitantes, já na Itália há 60 milhões 303 mil e 800 pessoas. Mas acho que isso não importa muito. Nosso interesse é por apenas 4 italianos neste universo todo: Totó, Agnello, Agostina e Berilo.
Agnello e Agostina Mattoli são filhos de Totó. Berilo Rondelli casou-se com Agostina na Itália. Porém migrou para o Brasil. Para São Paulo, cidade de 11 milhões 37 mil e 593 habitantes. Maior cidade do hemisfério sul, sexta maior do mundo. Para não perder o embalo dos números, em nosso País vivem 191 milhões 480 mil e 630 indivíduos.
Toni Negri, também italiano, nos interessa muito. Mas não se trata de um quinto italiano em nossa lista. Deixamos de fora. É só por que lembrei de que era ele que falava o quanto fica impressionado com a criatividade das pessoas que lutam pela sobrevivência em países ainda em desenvolvimento. Mas nossa criatividade para descolar algum não nos interessa. Porque só nos resolve o aqui e agora e permanecemos sempre duros! Estamos mesmo de olho é no quinhão milionário das loterias acumuladas. Isto sim resolve definitivamente o problema de qualquer um!
Berilo, ao contrário de Negri, é um italianinho safado. Quando chegou à Terra da Garoa tratou de juntar seus trapinhos com Jéssica da Silva Rondelli. Jéssica é filha de Olavo da Silva. Olavo também é o pai de Totó, portanto avô de Agostina. Fiquem atentos pois são nestas entrelinhas todas que estão os segredos que devem ser desvendados para se tornar o maior vencedor de loterias que se possa ter notícia! Vencer quantas vezes quiser, ou melhor, apostar. É algo para deixar o falecido João Alves com suas duzentas e vinte e uma premiações no chinelo!...
Agnello quando chegou ao Brasil teve um affaire com Stela Gouveia. Estela é esposa de Saulo Gouveia. Saulo é irmão de Totó e tio de Agnello. Foi um romance rápido. Agnello tratou de sair por aí, pelas ruas de Sampa e procurar carne nova. Quem encontra? Lorena Gouveia! Lorena, filha de Stela e Saulo. Não é fantástico? Agora sim estamos quase no final. Algo sem muita relevância neste mundo de probabilidades, mas é mais um dado que temos que acrescentar. Afinal, não podemos deixar nenhum detalhe de lado se quisermos apreender bem as técnicas que irão nos transformar em grandes ganhadores! Olavo está de casa nova. Comprou um bela mansão. Se ganharmos o prêmio, poderemos fazer o mesmo. Agora Bete Gouveia tem vizinho novo: o pai de Totó mora na casa ao lado.
Agora me digam: alguém que escreve com tamanha propriedade este mundo de encontros possíveis, alguém que domina de tal forma o magnetismo dos afetos e os aproxima de forma tão nobre como o horário da novela das oito, enfim, alguém que desconhece o improvável e daí faz sua arte, alguém que manipula sonhos de maneira tão sutil, alguém que nos faz crer que tudo realmente é possível, não é mole para este alguém nos dizer quais as seis dezenas que serão sorteadas?
Sim, se querem ganhar o grande prêmio da loteria, escrevam para o Sílvio de Abreu e digam: ó grande Mago das Probabilidades em quais números devo apostar? Ou vocês acham que quem domina a probabilidade desta forma não vai saber quais os 6 números de um universo de 60 que serão sorteados?!? Mãos no telefone, dedos no teclado. Arranquem esta informação do autor e não esqueçam de meu quinhão – já que fui eu quem lhes deu a dica!
Não os deixem convencer de que o universo dos encontros possíveis dos personagens da Globo se dão por relações incestuosas onde todos – ricos e pobres – vivem uma relação por demais estreita só por causa do fato da Cidade Cinematográfica ser muito pequena. Não engulam esta desculpa! Sabemos o quanto o Projac é grande e a empresa rica e poderosa! Não é pelo tamanho da Cidade Cinematográfica que faz com que todos os personagens se encontrem e convivam novela após novela, seja na povoada Índia ou metrópoles como São Paulo, mas por que os autores são verdadeiros Magos da Probabilidade!
E não é só o Sílvio não. Todos eles sabem quais os números serão sorteados! Podem notar que isto se repete em todas as novelas, em todos os horários, em todos os autores! Escrevam e tirem deles esta informação! Se não disserem, twittem por aí: só não ganhei na loto porque a Globo não quis.
Ah, sim! Também não os deixem convencer de que tudo é licença poética. Por mais platônicos que sejam, por mais que expulsem a poesia e os poetas de suas repúblicas. Não é verdade! Sempre se utilizam desta desculpa para suas cagadas! Vão tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas que se utilizaram de licença poética... Isto é balela e a desculpa não cola mais! Digam: licença poética o caralho! Pode ir desembuchando os números logo, ó Mago da Probabilidade!
Mas cuidado, muito cuidado! Eles são seres muito imaginativos, apesar de não parecer tanto. Mas se assistirem ao Vídeo Show saberão o quanto são grandes, todos eles! Previnam-se! Poderão tentar inventar uma nova versão do “licença poética” quando perceberem que a casa caiu e que agora todos sabem que são Magos da Probabilidade!
Podem, por exemplo, tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas apenas autores. Meros operários das letras. Mas que no mundo da Literatura os personagens têm vida própria. Que os personagens da Globo, como qualquer ser, estão sob a Lei Divina. Que os personagens sofrem de um Karma coletivo muito grave e que são ignorantes, tendo que reencarnar já na próxima novela que segue para tentarem consertar seus erros. Mas são mesmo muito estúpidos e repetem os mesmos erros e assim nunca equilibram suas balanças e tornam a pecar nas mesmas coisas e, mais uma vez, reencarnam na outra novela e não há final feliz que amenize seus karmas. Que eles, os autores, há muito deixaram de representar a realidade social brasileira. Agora retratam a miséria espiritual de toda a humanidade... Eles falam isso só porque são magos e como todo mago que se preze têm seus conhecimentos cósmicos, oras! Não os deixem seduzi-los pelas palavras amenas, e insistam: tá, agora me inicie nos segredos da estatística, ó grande Mago da Probabilidade!
Não são meus parcos conhecimentos matemáticos que poderão levá-los ao prêmio de R$ 31 milhões da Mega Sena, ou a outras premiações milionárias futuras. Nada disso. Minha habilidade com os números se resumem nas 4 operações básicas, pelo amor à música e ao jogo de xadrez.
Tampouco irei oferecer algum esquema mirabolante, pois foi com Bukowski que aprendi o quanto isto não funciona. Inclusive, isso me levou ao meu primeiro divórcio – mesmo que não tenha levado adiante a minha ideia de virar um apostador costumaz em cavalos.
Desculpem o interlóquio. Mas sou virginiano, preso aos detalhes, e preciso me apresentar minimamente para tentar convencê-los da seriedade de minhas ponderações. Nunca fui um grande vitorioso em nada na vida. Portanto, também não é nenhuma história autobiográfica que lhes sirvam de exemplo que lhes ofereço.
O que vou lhes apresentar é algo da Toscana. Mais precisamente da Toscana de Sílvio de Abreu, por mais tosco que lhes pareçam. Mergulhando no universo da fantasia e aprendendo a ler nas entrelinhas da Arte, absorvendo o fulgor criativo das mentes brilhantes que produzem o que há de melhor na teledramaturgia brasileira, verão o quanto poderão aprender sobre o domínio da estatística. E é isto o que nos interessa: a passione pelos números!
E é esta a minha grande pretensão: conduzi-los e ajudá-los a desbravar este mundo da criação. Pois não é o domínio da estética mas o da estatística que eleva Sílvio de Abreu a condição de gênio. Verificaremos que não são só histórias magistrais que podemos esperar do autor. Não só queremos como esperamos muito mais: as 6 dezenas da Mega Sena, por exemplo.
Vamos aos fatos. O primeiro acerto é o de não precisar onde fica o sítio de Totó. Aqui já temos a primeira lição de freio à impulsividade imaginativa. Totó não é o cachorro, mas o personagem de Toni Ramos, como poderiam pensar àqueles acostumados ao era uma vez... Bom, o sítio fica em Toscana e cada um pode imaginar por si só qual o lugar mais adequado para situá-lo na região. Isto é uma delícia e faz com que cada um tenha seu sítio próprio, único, idiossincrático diria, como se estivéssemos lendo um livro ao invés de estar assistindo a novela das oito.
Sobre isso que disse agora, não estou muito certo. Alguém que assista diariamente a novela pode me alertar de que o sítio fica no lugar tal e tudo se ir por água abaixo. Mas isto também pode acontecer ao marcarmos o bilhete, tomem cuidado! Porém, ainda assim nada está completamente perdido. Afinal se errarmos em um ponto, ainda nos resta sonhar com a quina...
Pelo que entendi, Totó é filho de Bete Gouveia. Foi criado longe da mãe porque era um bastardo. A mãe não sabia que o filho estava vivo e que morava na Itália. Bete mora em São Paulo, aqui no Brasil. Ah, sim! Não podemos esquecer dos números. Afinal, nosso real interesse é o de ganhar na loteria. Portanto fiquem atentos: na região da Toscana vivem 3 milhões 619 mil e 872 habitantes, já na Itália há 60 milhões 303 mil e 800 pessoas. Mas acho que isso não importa muito. Nosso interesse é por apenas 4 italianos neste universo todo: Totó, Agnello, Agostina e Berilo.
Agnello e Agostina Mattoli são filhos de Totó. Berilo Rondelli casou-se com Agostina na Itália. Porém migrou para o Brasil. Para São Paulo, cidade de 11 milhões 37 mil e 593 habitantes. Maior cidade do hemisfério sul, sexta maior do mundo. Para não perder o embalo dos números, em nosso País vivem 191 milhões 480 mil e 630 indivíduos.
Toni Negri, também italiano, nos interessa muito. Mas não se trata de um quinto italiano em nossa lista. Deixamos de fora. É só por que lembrei de que era ele que falava o quanto fica impressionado com a criatividade das pessoas que lutam pela sobrevivência em países ainda em desenvolvimento. Mas nossa criatividade para descolar algum não nos interessa. Porque só nos resolve o aqui e agora e permanecemos sempre duros! Estamos mesmo de olho é no quinhão milionário das loterias acumuladas. Isto sim resolve definitivamente o problema de qualquer um!
Berilo, ao contrário de Negri, é um italianinho safado. Quando chegou à Terra da Garoa tratou de juntar seus trapinhos com Jéssica da Silva Rondelli. Jéssica é filha de Olavo da Silva. Olavo também é o pai de Totó, portanto avô de Agostina. Fiquem atentos pois são nestas entrelinhas todas que estão os segredos que devem ser desvendados para se tornar o maior vencedor de loterias que se possa ter notícia! Vencer quantas vezes quiser, ou melhor, apostar. É algo para deixar o falecido João Alves com suas duzentas e vinte e uma premiações no chinelo!...
Agnello quando chegou ao Brasil teve um affaire com Stela Gouveia. Estela é esposa de Saulo Gouveia. Saulo é irmão de Totó e tio de Agnello. Foi um romance rápido. Agnello tratou de sair por aí, pelas ruas de Sampa e procurar carne nova. Quem encontra? Lorena Gouveia! Lorena, filha de Stela e Saulo. Não é fantástico? Agora sim estamos quase no final. Algo sem muita relevância neste mundo de probabilidades, mas é mais um dado que temos que acrescentar. Afinal, não podemos deixar nenhum detalhe de lado se quisermos apreender bem as técnicas que irão nos transformar em grandes ganhadores! Olavo está de casa nova. Comprou um bela mansão. Se ganharmos o prêmio, poderemos fazer o mesmo. Agora Bete Gouveia tem vizinho novo: o pai de Totó mora na casa ao lado.
Agora me digam: alguém que escreve com tamanha propriedade este mundo de encontros possíveis, alguém que domina de tal forma o magnetismo dos afetos e os aproxima de forma tão nobre como o horário da novela das oito, enfim, alguém que desconhece o improvável e daí faz sua arte, alguém que manipula sonhos de maneira tão sutil, alguém que nos faz crer que tudo realmente é possível, não é mole para este alguém nos dizer quais as seis dezenas que serão sorteadas?
Sim, se querem ganhar o grande prêmio da loteria, escrevam para o Sílvio de Abreu e digam: ó grande Mago das Probabilidades em quais números devo apostar? Ou vocês acham que quem domina a probabilidade desta forma não vai saber quais os 6 números de um universo de 60 que serão sorteados?!? Mãos no telefone, dedos no teclado. Arranquem esta informação do autor e não esqueçam de meu quinhão – já que fui eu quem lhes deu a dica!
Não os deixem convencer de que o universo dos encontros possíveis dos personagens da Globo se dão por relações incestuosas onde todos – ricos e pobres – vivem uma relação por demais estreita só por causa do fato da Cidade Cinematográfica ser muito pequena. Não engulam esta desculpa! Sabemos o quanto o Projac é grande e a empresa rica e poderosa! Não é pelo tamanho da Cidade Cinematográfica que faz com que todos os personagens se encontrem e convivam novela após novela, seja na povoada Índia ou metrópoles como São Paulo, mas por que os autores são verdadeiros Magos da Probabilidade!
E não é só o Sílvio não. Todos eles sabem quais os números serão sorteados! Podem notar que isto se repete em todas as novelas, em todos os horários, em todos os autores! Escrevam e tirem deles esta informação! Se não disserem, twittem por aí: só não ganhei na loto porque a Globo não quis.
Ah, sim! Também não os deixem convencer de que tudo é licença poética. Por mais platônicos que sejam, por mais que expulsem a poesia e os poetas de suas repúblicas. Não é verdade! Sempre se utilizam desta desculpa para suas cagadas! Vão tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas que se utilizaram de licença poética... Isto é balela e a desculpa não cola mais! Digam: licença poética o caralho! Pode ir desembuchando os números logo, ó Mago da Probabilidade!
Mas cuidado, muito cuidado! Eles são seres muito imaginativos, apesar de não parecer tanto. Mas se assistirem ao Vídeo Show saberão o quanto são grandes, todos eles! Previnam-se! Poderão tentar inventar uma nova versão do “licença poética” quando perceberem que a casa caiu e que agora todos sabem que são Magos da Probabilidade!
Podem, por exemplo, tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas apenas autores. Meros operários das letras. Mas que no mundo da Literatura os personagens têm vida própria. Que os personagens da Globo, como qualquer ser, estão sob a Lei Divina. Que os personagens sofrem de um Karma coletivo muito grave e que são ignorantes, tendo que reencarnar já na próxima novela que segue para tentarem consertar seus erros. Mas são mesmo muito estúpidos e repetem os mesmos erros e assim nunca equilibram suas balanças e tornam a pecar nas mesmas coisas e, mais uma vez, reencarnam na outra novela e não há final feliz que amenize seus karmas. Que eles, os autores, há muito deixaram de representar a realidade social brasileira. Agora retratam a miséria espiritual de toda a humanidade... Eles falam isso só porque são magos e como todo mago que se preze têm seus conhecimentos cósmicos, oras! Não os deixem seduzi-los pelas palavras amenas, e insistam: tá, agora me inicie nos segredos da estatística, ó grande Mago da Probabilidade!
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
CINEMA: Em "À Prova de Morte", Tarantino é freudianamente pela vingança feminina.
Carros são objetos fálicos. No frenesi do automóvel já sabemos, nos melhores compêndios de psicologia, que veículos são transformados em extensão do falo masculino, como um exercício tosco de virilidade. Quantas e mais quantas propagandas e comerciais de televisão passam todos os dias, em que nós vemos que um carro novo, bonito e possante é visto como símbolo de prazer, exercício de autoestima e satisfação sexual? Lembro-me dos versos da música da banda Mundo Livre S/A, na voz de Fred Zero Quatro, quando ele canta: "todo mundo deveria ter um carro. Senão nem precisava ter testículo. De que serve um testículo, sem carro? Sem o carro, o testículo é um saco!".
Sobre testículos e carros é que me refiro ao filme "À prova de Morte" (Death Proof, no original), de 2007, tardiamente lançado nos cinemas brasileiros, do cineasta renomado e arrebatador Quentin Tarantino. O filme, tendo o ator Kurt Russel como protagonista e vilão, é a mais sublime homenagem aos filmes cult de perseguição de carros dos anos 70, e tem mostrado o inabalável talento de Tarantino nas releituras cinematográficas e na linguagem pop que o consagrou.
Tarantino de fato é o John Ford da pop art cinematográfica. O rei das colagens e metáforas subliminares revelando seus dez anos como balconista de videolocadora. O cara é um esteta, sem dúvida nenhuma. Mas é em prol de sua estética no ritmo de história em quadrinhos que conhecemos a cada flme personagens interessantes, e estórias tão inverossímeis quanto fascinantes. Tudo nos filmes desse diretor norte-americano é feito para chocar, para estimular nossos sentimentos mais juvenis e pueris num êxtase de video game, de ver vilões caricatos, sangue exageradamente espirrado, malabarismos excêntricos de tiros, lutas e danças; mas o que mais me chama a atenção na obra de Tarantino é o maior expediente que traduz o talento deste cineasta: os diálogos.
É nos diálogos que Tarantino demostra sua fama de ótimo roteirista e cinéfilo, além do existencialismo encontrado na sua forma de fazer cinema, que elevam seus filmes à obra de arte. Quem é que não viu certo lirismo e homenagem tanto a filmes japoneses de ação como aos de faroeste americano, ao ver Kill Bill, volume 1 e 2? Assim como Woody Allen, Tarantino tem as suas musas, quase sempre beldades loiras ou negras, como Uma Thurman na citada saga de violência e espadas de samurai, ou com Pam Grier no elogiadíssimo e cult Jackie Brown. A Shoshana judia, vingativa e sedenta de sangue nazista de Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios, ou a mesma sexy e totalmente underground Thuram em Pulp Fiction, demonstram isso. Agora temos Rosario Dawson, outra sereia de ébano, no sensual e carniceiro Á Prova de Morte, É Tarantino puro. É cinema de qualidade.
Death Proof é um projeto original montado por Quentin Tarantino, justamente com o diretor Robert Rodriguez, no projeto que não deu certo chamado Grindhouse. Este, tratava-se de uma homenagem aqueles velhas sessões duplas de fim de noite, dos cinemas de bairro, nos anos setenta, em que a plateia comprava um ingresso para ver dois filmes, um seguido do outro. Era uma verdadeira maratona só pra quem é aficcionado por filmes, não namora, e ficava lá sentado por horas a fio, sem um mísero trocado nos bolsos, além daquele usado pra pagar o ingresso, só pra ver os filmes de ação de que gostava. É claro que as novas gerações, embaladas na internet, jamais ouviram falar disso; mas é justamente dessas velhas referências históricas ao nascedouro da cultura pop que se debruça Tarantino, e com essas referências, juntamente com Rodriguez, ambos lançaram simultaneamente nos cinemas yankess: Death Proof e Planeta Terror (esse já lançado no Brasil e muito subestimado). Por conta exatamente da baixa aceitação de público acerca do velho formato apresentado pelos diretores, ao serem lançados no mercado internacional os dois filmes foram distribuídos separadamente, demorando À Prova de Morte, quase três anos pra chegar no circuito comercial brasileiro. Até que enfim!!
O filme, apesar de supostamente se passar nos dias de hoje, é todo montado na estética dos anos setenta (do figurino aos carros) e trata da estoria de Dublê Mike (interpretado por Kurt Russel), um ex-dublê de filmes de ação que se tornou um andarilho psicopata que passa os dias com seu carro, um Chevy Nova todo preto, estilizado com uma caveira no capô; circulando pelos bares das highways norte-americanas, procurando suas vítimas.Estas, são sempre mulheres jovens, bonitas e farristas, que em grupos de amigas saem pra festejar, beber, ouvir música, namorar e fumar maconha, enquanto seu algoz fica à espreita, aguardando a oportunidade de seduzi-las para um passeio de carro. É nessa hora que Stuntman Mike exerce sua fome assassina de terror e velocidade. Mike possuí um carro de testes,reforçado na lataria, totalmente à prova de acidentes, literalmente à prova de morte, e nele o assassino leva suas vítimas, satisfazendo-se em vê-las morrer estraçalhadas com o impacto da colisão. É nessa combinação de carne, ossos, sangue, óleo e metal, que Dublê Mike tem sua satisfação. É nela que o serial killer tem, verdadeiramente, o seu orgasmo.
É aqui que reside toda a reflexão freudiana no comportamento do personagem de Tarantino, e que revela também as próprias taras desse diretor de cinema; como, por exemplo, a obsessão pelos pés femininos (a cena da perna de uma das garotas sendo decepada, no momento da colisão dos automóveis é incrível). Tarantino faz uma elegia à sensualidade e o erotismo da mulher, com a cena da dança da personagem Butterfly (mais uma alusão à danças eróticas, como a de Uma Thurman em Pulp Fiction ou Salma Hayek, em Um drink no inferno (de Rodriguez, mas com colaboração de Tarantino). As mocinhas do filme são autênticas pin-ups da autoestrada, "anjos lindos" como diz o personagem do filme, que podem conhecer a morte por debaixo das rodas de Dublê Mike, ou se tornarem os anjos vingadores. "Há poucas coisas tão lindas quanto um anjo ferido em seu orgulho!", diz Stuntman Mike. É! Dublê Mike! Com mulher não se brinca!!
É aí que reside a outra face das heróinas de Tarantino. Apesar de estar por cima o tempo todo e castigar suas vítimas, valendo-se do carro como um falo para estuprar e massacrar suas vítimas, Dublê Mike não contava com a mesma fúria pela velocidade de outro grupo de garotas perseguidas pelo assassino, também como ele fanáticas por automóveis e com pé pesado no acelerador. Nessa hora, o filme até então voltado aos diálogos vira um autêntico cult movie de perseguição automobilística, bem ao gosto do cineasta, fã de clássicos dos anos setenta como Bullit, Perseguidor Implacável ou Encurralado de Steven Spielberg. Se Freud estava certo em 1922, quando disse que algumas mulheres tinham inveja do pênis, ao tratar do chamado "complexo de castração"; no filme, as mulheres de Tarantino tornam-se autênticas "pintudas" do volante, quando em sua sede de vingança invertem o jogo de gato e rato, quando transformam o caçador em caça. Em alguns sites de cinema, alguns críticos dizem que, na verdade, Death Proof trata da solidão feminina. Bom, vai entender a cabeça de mulher! Talvez tenha sentido, e todas aquelas mulheres perseguidas e dilaceradas, sob as rodas de Dublê Mike, sejam apenas mulheres jovens, bonitas e solitárias, que largadas pelo namorado, perambulam perdidas pela noite, como românticas almas sofridas, a bordo de seus carros e de sua tristeza, impediosamente esmagadas pelos pedais do acelerador de seu algoz. Sempre há filosofia nos filmes de Tarantino, por debaixo dos diálogos escrotos, sangue e pancadaria. Sempre dá o que se pensar ao ver esses filmes. Mas, de qualquer forma, cuidado ao sair pela estrada à noite, garotas! Principalmente se derem de cara com algum "barza azul ao volante". Aceleeeraaa, Airton!!!!
Sobre testículos e carros é que me refiro ao filme "À prova de Morte" (Death Proof, no original), de 2007, tardiamente lançado nos cinemas brasileiros, do cineasta renomado e arrebatador Quentin Tarantino. O filme, tendo o ator Kurt Russel como protagonista e vilão, é a mais sublime homenagem aos filmes cult de perseguição de carros dos anos 70, e tem mostrado o inabalável talento de Tarantino nas releituras cinematográficas e na linguagem pop que o consagrou.
Tarantino de fato é o John Ford da pop art cinematográfica. O rei das colagens e metáforas subliminares revelando seus dez anos como balconista de videolocadora. O cara é um esteta, sem dúvida nenhuma. Mas é em prol de sua estética no ritmo de história em quadrinhos que conhecemos a cada flme personagens interessantes, e estórias tão inverossímeis quanto fascinantes. Tudo nos filmes desse diretor norte-americano é feito para chocar, para estimular nossos sentimentos mais juvenis e pueris num êxtase de video game, de ver vilões caricatos, sangue exageradamente espirrado, malabarismos excêntricos de tiros, lutas e danças; mas o que mais me chama a atenção na obra de Tarantino é o maior expediente que traduz o talento deste cineasta: os diálogos.
É nos diálogos que Tarantino demostra sua fama de ótimo roteirista e cinéfilo, além do existencialismo encontrado na sua forma de fazer cinema, que elevam seus filmes à obra de arte. Quem é que não viu certo lirismo e homenagem tanto a filmes japoneses de ação como aos de faroeste americano, ao ver Kill Bill, volume 1 e 2? Assim como Woody Allen, Tarantino tem as suas musas, quase sempre beldades loiras ou negras, como Uma Thurman na citada saga de violência e espadas de samurai, ou com Pam Grier no elogiadíssimo e cult Jackie Brown. A Shoshana judia, vingativa e sedenta de sangue nazista de Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios, ou a mesma sexy e totalmente underground Thuram em Pulp Fiction, demonstram isso. Agora temos Rosario Dawson, outra sereia de ébano, no sensual e carniceiro Á Prova de Morte, É Tarantino puro. É cinema de qualidade.
Death Proof é um projeto original montado por Quentin Tarantino, justamente com o diretor Robert Rodriguez, no projeto que não deu certo chamado Grindhouse. Este, tratava-se de uma homenagem aqueles velhas sessões duplas de fim de noite, dos cinemas de bairro, nos anos setenta, em que a plateia comprava um ingresso para ver dois filmes, um seguido do outro. Era uma verdadeira maratona só pra quem é aficcionado por filmes, não namora, e ficava lá sentado por horas a fio, sem um mísero trocado nos bolsos, além daquele usado pra pagar o ingresso, só pra ver os filmes de ação de que gostava. É claro que as novas gerações, embaladas na internet, jamais ouviram falar disso; mas é justamente dessas velhas referências históricas ao nascedouro da cultura pop que se debruça Tarantino, e com essas referências, juntamente com Rodriguez, ambos lançaram simultaneamente nos cinemas yankess: Death Proof e Planeta Terror (esse já lançado no Brasil e muito subestimado). Por conta exatamente da baixa aceitação de público acerca do velho formato apresentado pelos diretores, ao serem lançados no mercado internacional os dois filmes foram distribuídos separadamente, demorando À Prova de Morte, quase três anos pra chegar no circuito comercial brasileiro. Até que enfim!!
O filme, apesar de supostamente se passar nos dias de hoje, é todo montado na estética dos anos setenta (do figurino aos carros) e trata da estoria de Dublê Mike (interpretado por Kurt Russel), um ex-dublê de filmes de ação que se tornou um andarilho psicopata que passa os dias com seu carro, um Chevy Nova todo preto, estilizado com uma caveira no capô; circulando pelos bares das highways norte-americanas, procurando suas vítimas.Estas, são sempre mulheres jovens, bonitas e farristas, que em grupos de amigas saem pra festejar, beber, ouvir música, namorar e fumar maconha, enquanto seu algoz fica à espreita, aguardando a oportunidade de seduzi-las para um passeio de carro. É nessa hora que Stuntman Mike exerce sua fome assassina de terror e velocidade. Mike possuí um carro de testes,reforçado na lataria, totalmente à prova de acidentes, literalmente à prova de morte, e nele o assassino leva suas vítimas, satisfazendo-se em vê-las morrer estraçalhadas com o impacto da colisão. É nessa combinação de carne, ossos, sangue, óleo e metal, que Dublê Mike tem sua satisfação. É nela que o serial killer tem, verdadeiramente, o seu orgasmo.
É aqui que reside toda a reflexão freudiana no comportamento do personagem de Tarantino, e que revela também as próprias taras desse diretor de cinema; como, por exemplo, a obsessão pelos pés femininos (a cena da perna de uma das garotas sendo decepada, no momento da colisão dos automóveis é incrível). Tarantino faz uma elegia à sensualidade e o erotismo da mulher, com a cena da dança da personagem Butterfly (mais uma alusão à danças eróticas, como a de Uma Thurman em Pulp Fiction ou Salma Hayek, em Um drink no inferno (de Rodriguez, mas com colaboração de Tarantino). As mocinhas do filme são autênticas pin-ups da autoestrada, "anjos lindos" como diz o personagem do filme, que podem conhecer a morte por debaixo das rodas de Dublê Mike, ou se tornarem os anjos vingadores. "Há poucas coisas tão lindas quanto um anjo ferido em seu orgulho!", diz Stuntman Mike. É! Dublê Mike! Com mulher não se brinca!!
É aí que reside a outra face das heróinas de Tarantino. Apesar de estar por cima o tempo todo e castigar suas vítimas, valendo-se do carro como um falo para estuprar e massacrar suas vítimas, Dublê Mike não contava com a mesma fúria pela velocidade de outro grupo de garotas perseguidas pelo assassino, também como ele fanáticas por automóveis e com pé pesado no acelerador. Nessa hora, o filme até então voltado aos diálogos vira um autêntico cult movie de perseguição automobilística, bem ao gosto do cineasta, fã de clássicos dos anos setenta como Bullit, Perseguidor Implacável ou Encurralado de Steven Spielberg. Se Freud estava certo em 1922, quando disse que algumas mulheres tinham inveja do pênis, ao tratar do chamado "complexo de castração"; no filme, as mulheres de Tarantino tornam-se autênticas "pintudas" do volante, quando em sua sede de vingança invertem o jogo de gato e rato, quando transformam o caçador em caça. Em alguns sites de cinema, alguns críticos dizem que, na verdade, Death Proof trata da solidão feminina. Bom, vai entender a cabeça de mulher! Talvez tenha sentido, e todas aquelas mulheres perseguidas e dilaceradas, sob as rodas de Dublê Mike, sejam apenas mulheres jovens, bonitas e solitárias, que largadas pelo namorado, perambulam perdidas pela noite, como românticas almas sofridas, a bordo de seus carros e de sua tristeza, impediosamente esmagadas pelos pedais do acelerador de seu algoz. Sempre há filosofia nos filmes de Tarantino, por debaixo dos diálogos escrotos, sangue e pancadaria. Sempre dá o que se pensar ao ver esses filmes. Mas, de qualquer forma, cuidado ao sair pela estrada à noite, garotas! Principalmente se derem de cara com algum "barza azul ao volante". Aceleeeraaa, Airton!!!!
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
EDUCAÇÃO: Um tapinha não dói. Sobre a Lei da Palmada.
Dentre alguns dias será votada a Lei da Palmada. A mensagem enviada pelo governo, baseada na iniciativa de projeto inicial da deputada Maria do Rosário (PT/RS), visa extinguir em definitivo uma instituição milenar: o castigo físico imposto pelos pais a seus filhos menores por conta de malcriação. Será que a lei pega??
O projeto visa alterar a Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e dentre outras medidas, prevê a proibição de castigos físicos tais como: palmadas, beliscões ou qualquer outro meio ou castigo físico que implique em dor na criança ou adolescente. As sanções vão desde acompanhamento psicológico ou psiquiátrico obrigatório até destituição da guarda ou do poder parental, impondo-se ao pai ou mãe severos o artigo 129 do Estatuto, que prevê quais são as medidas legais adotadas contra pais ou responsável. Fico me perguntando qual será a postura daqueles pais estressados que vão ao supermercado com as crianças após um dia estafante de trabalho, no momento em que os meninos começarem a pedir as coisas, o pai ou a mãe nega, e a criança começa a fazer um pleno escarcéu dentro do estabelecimento, sem que ninguém possa lhe dar um pito, ou mesmo um beliscão ou uma chinelada. É, tá faltando palmada, mas pode sobrar permissividade.
No seu livro clássico, A Cidade Antiga, publicado no século XIX, Fustel de Coulanges trata de diversas instituições sociais dos povos antigos, em especial a família. Na família romana, por exemplo, o pater familias, senhor de sua casa, autoridade patriarcal e chefe do lar, tinha poder absoluto sobre seus filhos. Ele poderia, inclusive, matar um filho se o desejasse, em caso de desonra ou desobediência. Dependendo do caso, os filhos poderiam até ser vendidos como escravos, para fins de cumprimento de uma dívida. É claro que o expediente desumano de se humilhar ou torturar filhos foi desaparecendo na era moderna, principalmente quando, após a Revolução Industrial e o advento do século XX, passaram a ser reconhecidos os direitos da criança e do adolescente, mediante tratados e convenções internacionais. As crianças não poderiam mais ser maltratadas e sua mão de obra não poderia mais ser utilizada na fábrica. É claro que o modelo de sociedade anglo-saxônica, simbolizada pelo padrão wasp da família norte-americana, era simbolizado nos anos 50 pelo seriado de televisão Papai sabe Tudo, em que no modelo conservador os pais combinavam severidade, respeito, mas obediência incondicionadas dos filhos, sob pena de levar umas boas palmadas.
Ocorre que o projeto de lei encaminhado pelo governo e que conta com uma boa alta de rejeição popular (ao menos entre os internautas, na última pesquisa, cerca de 70% dos ouvidos são contra a aprovação da lei) mexe com uma questão antiga, revisitada pela ideologia liberal: até que ponto pode o Estado se intrometer em assuntos privados, relacionados à educação dos filhos por seus pais, ingressando nas querelas típicas do ambiente familiar? Muitos pais se perguntam se não tem mais o direito de educar seus filhos como lhes convém, e alguns, baseados até em preceitos religiosos, justificam sua rigidez na educação de filhos, impondo-lhes, inclusive, maus tratos, como uma forma legítima de orientação de seus pimpolhos, baseada no poder parental tradicional.
Sobre autoridade e legitimidade do poder parental, é interessante fazer menção ao livro do educador Içami Tiba, intitulado Quem ama, educa. No livro, Tiba nos informa que na educação dos fihos não basta apenas o amor, pois o amor por si só não educa, mas sim a consciência que os pais incutem nos filhos de responder por suas próprias responsabilidades. "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades", como diria o personagem do Tio Ben a seu sobrinho Peter Parker (alterego do Homem Aranha, nos quadrinhos); e desta forma vemos que pais tem que se equilibrar na função de genitores, na corda bamba de nem ser autoritário demais, e nem permissivo demais. Onde está a justa medida? Talvez a resposta seja dada pela própria experiência de vida e de como nos sentimos enquanto crianças no tratamento que recebemos de nossos pais, e o que de positivo e negativo podemos extrair disso, para assim pensar uma forma de educar os nossos filhos, de modo que eles não se transformem em monstros carentes ou pedras de insensibilidade.
Penso que a dedicação do governo em ver aprovada a Lei da Palmada, deve-se muito ao próprio histórico do presidente, narrado de forma interessante e transformado em filme na elogiada biografia de Lula, escrita por Denise Paraná (Lula, o filho do Brasil). Hoje sabemos e é público e notório que nosso presidente não teve uma das infâncias mais felizes. Ao contrário, diante de um pai severo, alcoólatra e que lhe dava sucessivas surras, é natural que hoje Lula defenda a extinção dos castigos físicos em crianças e adolescentes até porque sentiu isso na pele, mas resta saber até que ponto os pais podem efetivamente castigar os seus filhos ou não.
Lembro-me de uma conversa interessante que tive com meu querido amigo Roger Rocha, hoje músico talentoso em Curitiba e pai de família, que me disse que em sua infância passada em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, ele fez amizade com crianças pertencentes a uma família de chilenos que morava no mesmo condomínio em que residia. Ele me disse que numa das travessuras comuns praticadas no universo infantil, onde crianças promovem algazarras para querer chamar atenção, ele foi repreendido por um dos pais dos meninos, chegando a ser, inclusive, puxado pela orelha pelos corredores do prédio. Ele me falou que era comum no Chile os adultos repreenderem as crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Fico imaginando essa cena nos corredores do Congresso Nacional, diante dos pasmos legisladores defensores do projeto da Lei da Palmada. Imagino a mesma cena em uma das diversas escolas católicas, de padres e freiras onde já estudei, onde a palmatória, as palmadas, os puxões de orelha e os beliscões são naturais dentro de um ambiente conservador e imensamente tradicional.Será que vamos reprimir também a educação severa nas escolas?
Pode-se dizer que tive uma educação rígida, pelo fato de ser filho de militar, mas quem na verdade me impôs mais castigos através de surras de cinturão, na minha infãncia, foi minha amada mãezinha. Hoje, compreendo enormemente as palmadas sofridas, até porque fico imaginando minha mãe, coitada, sozinha com um marido embarcado cheia de afazeres, tendo que administrar um lar com dois filhos pequenos e uma criança altamente hiperativa como eu fui. Daquele menino irascível que gostava de jogar pedras em ônibus e tacar fogo em casas e animais eu necessitava realmente de um corretivo, e a forma que minha mãe utilizou após muita conversa sem resultado foi realmente apelar para o cinturão. Não a recrimino, creio que hoje, depois de algumas chineladas, pude refletir o quanto ter passado ou não por castigos físicos fez o homem que agora sou. É claro que aqueles que lêem estas linhas deste blog devem ter histórias diferentes para contar, e muitos aqui sequer levaram um beliscão de seus pais ou tiveraam um modelo de educação bem diferente. Que bom que seja assim! Agora revelo que o fato de ter levado umas palmadas na infãncia não me tornou, por conta disso, um indivíduo traumatizado, doente ou que necessitasse de cuidados especiais por conta disso. Pelo contrário, até certo ponto, o castigo físico imposto se não foi desnecessário, ao menos contribuiu de certa forma para a minha formação de caráter. Posso ter agido sem limites, mas os castigos afligidos por meus pais me deram consciência desses limites.
O problema de estabelecer uma política punitiva de coibição de abusos, sem levar em conta uma legislação que promova um giro educacional, é o grande problema da produção de leis no Brasil. Tentou-se coibir o consumo desenfreado de álcool e os acidentes de trânsito com a Lei Seca, assim como foram atacados os casos de violência doméstica, com a Lei Maria da Penha, ou o fumo dentro de estabelecimentos fechados, com a Lei Antitabagismo, agora me pergunto até que ponto pode ser eficaz uma lei que lida com aspectos eminentemente privados e de foro íntimo das famílias brasileiras e até certo ponto insignificante do ponto de vista legal, como se trata do caso de meros puxões de orelha, palmadas ou beliscões. O que irá acontecer com os pais que resolvem dar umas palmadinhas nos filhos desobedientes, que se comportam mal? Teremos uma pilha de processos de destituição de guarda nas Varas da Infância e Juventude? Haverá um batalhão de psicólogos à disposição nos postos de saúde, para atender pais perturbados que decidiram dar um puxão de orelhas nos seus filhos? Na hora em que alguém se estressar com seu filho malcriado, será que vai ter olhar para os lados, para ver se não tem na espreita algum conselheiro tutelar? Ou será que birra de criança malcriada vai virar caso de polícia?
Conheci mães que de tão enérgicas com seus filhos chegavam a resolver a parada na base do tapa no pé do ouvido, como outras que de tão permissivas, chegavam a amolar a vizinhança inteira com a falta de autoridade perante seus filhos peraltas, que azucrinavam pessoas como eu que tentavam estudar em casa, com gritos e choros convulsivos de malcriação. Acredito que o ECA já esteja aí para impedir graves violações aos direitos das crianças e adolescentes, e tem feito bem seu o seu papel, agora não posso comparar à tortura ou violência física o simples fato de dar uns tapas no traseiro de uma criança desobediente, mimada e malcriada. Acredito que pais que agridem seus filhos geram adultos inseguros, medrosos ou revoltados, assim como pais permissivos contribuem no desenvolvimento de filhos que se tornam adultos inconsequentes, irresponsáveis, imaturos e insensatos. Não sou adepto da pedagogia da palmatória e longe de mim oferecer qualquer mal físico a quem quer seja, mas não tiro a razão dos pais que para manter sua autoridade, se valem da força física como meio de exercício da autoridade. Mesmo aqueles que não tem religião não conhecem o mandamento bíblico: "respeitarás teu pai e tua mãe"? Basta de agressões, basta de maus tratos, mas também não vamos incentivar a impunidade infantil!
Em tempo: não tenho filhos. Deve ser por isso que estou escrevendo este artigo!
O projeto visa alterar a Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e dentre outras medidas, prevê a proibição de castigos físicos tais como: palmadas, beliscões ou qualquer outro meio ou castigo físico que implique em dor na criança ou adolescente. As sanções vão desde acompanhamento psicológico ou psiquiátrico obrigatório até destituição da guarda ou do poder parental, impondo-se ao pai ou mãe severos o artigo 129 do Estatuto, que prevê quais são as medidas legais adotadas contra pais ou responsável. Fico me perguntando qual será a postura daqueles pais estressados que vão ao supermercado com as crianças após um dia estafante de trabalho, no momento em que os meninos começarem a pedir as coisas, o pai ou a mãe nega, e a criança começa a fazer um pleno escarcéu dentro do estabelecimento, sem que ninguém possa lhe dar um pito, ou mesmo um beliscão ou uma chinelada. É, tá faltando palmada, mas pode sobrar permissividade.
No seu livro clássico, A Cidade Antiga, publicado no século XIX, Fustel de Coulanges trata de diversas instituições sociais dos povos antigos, em especial a família. Na família romana, por exemplo, o pater familias, senhor de sua casa, autoridade patriarcal e chefe do lar, tinha poder absoluto sobre seus filhos. Ele poderia, inclusive, matar um filho se o desejasse, em caso de desonra ou desobediência. Dependendo do caso, os filhos poderiam até ser vendidos como escravos, para fins de cumprimento de uma dívida. É claro que o expediente desumano de se humilhar ou torturar filhos foi desaparecendo na era moderna, principalmente quando, após a Revolução Industrial e o advento do século XX, passaram a ser reconhecidos os direitos da criança e do adolescente, mediante tratados e convenções internacionais. As crianças não poderiam mais ser maltratadas e sua mão de obra não poderia mais ser utilizada na fábrica. É claro que o modelo de sociedade anglo-saxônica, simbolizada pelo padrão wasp da família norte-americana, era simbolizado nos anos 50 pelo seriado de televisão Papai sabe Tudo, em que no modelo conservador os pais combinavam severidade, respeito, mas obediência incondicionadas dos filhos, sob pena de levar umas boas palmadas.
Ocorre que o projeto de lei encaminhado pelo governo e que conta com uma boa alta de rejeição popular (ao menos entre os internautas, na última pesquisa, cerca de 70% dos ouvidos são contra a aprovação da lei) mexe com uma questão antiga, revisitada pela ideologia liberal: até que ponto pode o Estado se intrometer em assuntos privados, relacionados à educação dos filhos por seus pais, ingressando nas querelas típicas do ambiente familiar? Muitos pais se perguntam se não tem mais o direito de educar seus filhos como lhes convém, e alguns, baseados até em preceitos religiosos, justificam sua rigidez na educação de filhos, impondo-lhes, inclusive, maus tratos, como uma forma legítima de orientação de seus pimpolhos, baseada no poder parental tradicional.
Sobre autoridade e legitimidade do poder parental, é interessante fazer menção ao livro do educador Içami Tiba, intitulado Quem ama, educa. No livro, Tiba nos informa que na educação dos fihos não basta apenas o amor, pois o amor por si só não educa, mas sim a consciência que os pais incutem nos filhos de responder por suas próprias responsabilidades. "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades", como diria o personagem do Tio Ben a seu sobrinho Peter Parker (alterego do Homem Aranha, nos quadrinhos); e desta forma vemos que pais tem que se equilibrar na função de genitores, na corda bamba de nem ser autoritário demais, e nem permissivo demais. Onde está a justa medida? Talvez a resposta seja dada pela própria experiência de vida e de como nos sentimos enquanto crianças no tratamento que recebemos de nossos pais, e o que de positivo e negativo podemos extrair disso, para assim pensar uma forma de educar os nossos filhos, de modo que eles não se transformem em monstros carentes ou pedras de insensibilidade.
Penso que a dedicação do governo em ver aprovada a Lei da Palmada, deve-se muito ao próprio histórico do presidente, narrado de forma interessante e transformado em filme na elogiada biografia de Lula, escrita por Denise Paraná (Lula, o filho do Brasil). Hoje sabemos e é público e notório que nosso presidente não teve uma das infâncias mais felizes. Ao contrário, diante de um pai severo, alcoólatra e que lhe dava sucessivas surras, é natural que hoje Lula defenda a extinção dos castigos físicos em crianças e adolescentes até porque sentiu isso na pele, mas resta saber até que ponto os pais podem efetivamente castigar os seus filhos ou não.
Lembro-me de uma conversa interessante que tive com meu querido amigo Roger Rocha, hoje músico talentoso em Curitiba e pai de família, que me disse que em sua infância passada em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, ele fez amizade com crianças pertencentes a uma família de chilenos que morava no mesmo condomínio em que residia. Ele me disse que numa das travessuras comuns praticadas no universo infantil, onde crianças promovem algazarras para querer chamar atenção, ele foi repreendido por um dos pais dos meninos, chegando a ser, inclusive, puxado pela orelha pelos corredores do prédio. Ele me falou que era comum no Chile os adultos repreenderem as crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Fico imaginando essa cena nos corredores do Congresso Nacional, diante dos pasmos legisladores defensores do projeto da Lei da Palmada. Imagino a mesma cena em uma das diversas escolas católicas, de padres e freiras onde já estudei, onde a palmatória, as palmadas, os puxões de orelha e os beliscões são naturais dentro de um ambiente conservador e imensamente tradicional.Será que vamos reprimir também a educação severa nas escolas?
Pode-se dizer que tive uma educação rígida, pelo fato de ser filho de militar, mas quem na verdade me impôs mais castigos através de surras de cinturão, na minha infãncia, foi minha amada mãezinha. Hoje, compreendo enormemente as palmadas sofridas, até porque fico imaginando minha mãe, coitada, sozinha com um marido embarcado cheia de afazeres, tendo que administrar um lar com dois filhos pequenos e uma criança altamente hiperativa como eu fui. Daquele menino irascível que gostava de jogar pedras em ônibus e tacar fogo em casas e animais eu necessitava realmente de um corretivo, e a forma que minha mãe utilizou após muita conversa sem resultado foi realmente apelar para o cinturão. Não a recrimino, creio que hoje, depois de algumas chineladas, pude refletir o quanto ter passado ou não por castigos físicos fez o homem que agora sou. É claro que aqueles que lêem estas linhas deste blog devem ter histórias diferentes para contar, e muitos aqui sequer levaram um beliscão de seus pais ou tiveraam um modelo de educação bem diferente. Que bom que seja assim! Agora revelo que o fato de ter levado umas palmadas na infãncia não me tornou, por conta disso, um indivíduo traumatizado, doente ou que necessitasse de cuidados especiais por conta disso. Pelo contrário, até certo ponto, o castigo físico imposto se não foi desnecessário, ao menos contribuiu de certa forma para a minha formação de caráter. Posso ter agido sem limites, mas os castigos afligidos por meus pais me deram consciência desses limites.
O problema de estabelecer uma política punitiva de coibição de abusos, sem levar em conta uma legislação que promova um giro educacional, é o grande problema da produção de leis no Brasil. Tentou-se coibir o consumo desenfreado de álcool e os acidentes de trânsito com a Lei Seca, assim como foram atacados os casos de violência doméstica, com a Lei Maria da Penha, ou o fumo dentro de estabelecimentos fechados, com a Lei Antitabagismo, agora me pergunto até que ponto pode ser eficaz uma lei que lida com aspectos eminentemente privados e de foro íntimo das famílias brasileiras e até certo ponto insignificante do ponto de vista legal, como se trata do caso de meros puxões de orelha, palmadas ou beliscões. O que irá acontecer com os pais que resolvem dar umas palmadinhas nos filhos desobedientes, que se comportam mal? Teremos uma pilha de processos de destituição de guarda nas Varas da Infância e Juventude? Haverá um batalhão de psicólogos à disposição nos postos de saúde, para atender pais perturbados que decidiram dar um puxão de orelhas nos seus filhos? Na hora em que alguém se estressar com seu filho malcriado, será que vai ter olhar para os lados, para ver se não tem na espreita algum conselheiro tutelar? Ou será que birra de criança malcriada vai virar caso de polícia?
Conheci mães que de tão enérgicas com seus filhos chegavam a resolver a parada na base do tapa no pé do ouvido, como outras que de tão permissivas, chegavam a amolar a vizinhança inteira com a falta de autoridade perante seus filhos peraltas, que azucrinavam pessoas como eu que tentavam estudar em casa, com gritos e choros convulsivos de malcriação. Acredito que o ECA já esteja aí para impedir graves violações aos direitos das crianças e adolescentes, e tem feito bem seu o seu papel, agora não posso comparar à tortura ou violência física o simples fato de dar uns tapas no traseiro de uma criança desobediente, mimada e malcriada. Acredito que pais que agridem seus filhos geram adultos inseguros, medrosos ou revoltados, assim como pais permissivos contribuem no desenvolvimento de filhos que se tornam adultos inconsequentes, irresponsáveis, imaturos e insensatos. Não sou adepto da pedagogia da palmatória e longe de mim oferecer qualquer mal físico a quem quer seja, mas não tiro a razão dos pais que para manter sua autoridade, se valem da força física como meio de exercício da autoridade. Mesmo aqueles que não tem religião não conhecem o mandamento bíblico: "respeitarás teu pai e tua mãe"? Basta de agressões, basta de maus tratos, mas também não vamos incentivar a impunidade infantil!
Em tempo: não tenho filhos. Deve ser por isso que estou escrevendo este artigo!
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