sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Essas eleições e a religiosidade-o voto é por fé ou por consciência política?

"Anda com fé eu vou, que a fé não costuma faiarrrr....".É embalado na canção de Gilberto Gil que inicio minha escrita de hoje, meio sob a forma de um manifesto de como vejo o desenrolar desta campanha eleitoral de segundo turno para presidente, questionando o que está verdadeiramente em jogo. Está comprovado que o segundo turno é outra eleição,e, diferentemente do que pensavam os analistas em política, demonstrou-se que o candidato da oposição, José Serra, renasceu das cinzas do primeiro turno com força total, ameaçando uma "onda tucana" nas últimas pesquisas de opinião sobre o voto do eleitorado brasileiro, ameaçando a candidata da situação e do presidente Lula, a petista Dilma Roussef.

Enquanto que no primeiro turno a campanha dos candidatos estava centrada na discussão sobre os grandes temais nacionais: desenvolvimento, educação, saúde, segurança e manutenção de políticas públicas destinadas ao povo trabalhador, o segundo turno desta eleição, até o momento, parece estar quase que inteiramente voltado para a discussão sobre valores: valores que passam por uma identidade religiosa-cristã como a defesa da vida e da família, e valores laicos, dentre eles, aqueles que sinalizam para a liberdade de expressão, a liberdade sobre o próprio corpo e a liberdade de se escolher com quem quer se estar, seja fisicamente ou emocionalmente (leia-se a polêmica sobre o casamento gay e as uniões homoafetivas).

Em primeiro lugar, é importante notar na biografia, discursos e posicionamento político-ideológico dos candidatos Dilma e Serra, que ambos possuem posições semelhantes quanto a temas polêmicos como o aborto e a união civil de pessoas do mesmo sexo. Na verdade, o que aconteceu foi que o candidato do PSDB, José Serra, aproveitou-se oportunisticamente do resultado das eleições do primeiro turno, que deram um caminhão de votos com quase 20% do eleitorado para a candidata Marina Silva, do PV (evangélica da Assembléia de Deus, além de ambientalista), para, por meio de uma campanha eticamente questionável de desqualificação da candidata adversária, querer impor a imagem construída pelos marqueteiros de que o "Serra do bem" seria o defensor da vida, enquanto a maquiavélica Dilma seria a "matadora de criancinhas". O que mais abala uma pessoa, com alguns neurônios a mais funcionando, é de como esse tipo de campanha surtiu efeito em setores mais conservadores e menos esclarecidos do eleitorado, fazendo com que algumas pessoas vinculadas à igrejas estejam convencidas mesmo de que Dilma é uma candidata que representa as "forças demoníacas das trevas", ao defender o aborto e o casamento gay, enquanto que o carola Serra é o "santinho", homem sério, dedicado, honesto e bom gestor, que simplesmente denunciou a artimanha petista de querer transformar o país num rendez vous de homossexuais enlouquecidos e feministas endiabradas, que querem dar fim aquela gravidez indesejada, obtida num fim de noite pecaminoso, uma vez que nossa sociedade estaria perdida, lançada no pecado da carne, da licenciosidade, da pederastia e do sexo pago, como se isso fôsse culpa do governo.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar o que eu já escrevi em outro artigo deste blog sobre simpatias e antipatias por candidatos. O partido da candidata Marina Silva (o PV) também desfralda as bandeiras do aborto e da união homoafetiva como todos os outros candidatos, talvez mais intensamente ainda, tendo em vista que durante a campanha de Marina, era possível ver militantes do movimento gay, filiados ao partido, desfraldando a famosa bandeirinha do arco-íris, enquanto acompanhavam a candidata Marina em suas caminhadas. Apesar da candidata "verde" ser evangélica, e ter uma biografia admirável pelas causas sócio-ambientais, ela atualmente pertence a um partido que, em seu nascedouro, aliou-se a muitas bandeiras do PT pela busca da democracia e da liberdade, integrando em seus quadros militantes do movimento feminista pró-aborto e integrantes da causa gay. Por isso que, quando questionada sobre temas polêmicos e difíceis no âmbito dos valores, como a descriminalização da maconha, o aborto e o casamento gay, oportunamente a candidata Marina lavou as mãos, dizendo ser em princípio contra, mas que democraticamente levaria o assunto para plebiscito. Claro! É a alternativa mais inteligente num país plural como o Brasil, de dimensões continentais, culturas e valores distintos, numa multiplicidade de pessoas com formações pessoais e opiniões diferentes, que muito poderiam debater, no caso de estar sujeita à aprovação popular medidas que mexessem com esses temas. Questões sobre valores devem ser decididas democraticamente pelo povo e não por uma medida unilateral de um governante ou legislador.Marina Silva surgiu nessa campanha com uma agenda bem clara, honesta, voltada para questões do meio-ambiente, desenvolvimento sustentável e qualidade de vida, e não como uma candidata evangélica, candidata das igrejas. Em nenhum momento Marina se apresentou como a "candidata de Deus" e isso agora,  o epíteto de candidato cristão, está sendo instrumentalizado de maneira totalmente desonesta, oportunista e demagógica pelo candidato José Serra!

No texto anterior, onde escrevi sobre antipatias, revela-se muito bem o zeitgeist do eleitorado brasileiro, o espírito do eleitor que os candidatos estão querendo desvendar agora. Muitos dos eleitores que votaram em Marina no primeiro turno e que agora migram para o candidato Serra, são aqueles que não compõem o eleitorado natural e originário do Partido Verde (artistas, intelectuais, estudantes universitários, desbundados e ambientalistas), mas sim eleitores que antipatizaram com a figura humana, pouco simpática de Dilma Roussef. Muitos desses eleitores são antipetistas de carteirinha, alguns eram eleitores do governo, mas por conta dos escândalos,  decepcionaram-se com o governo Lula, votando em Marina como forma de protesto; e outros votam no Serra, são partidários do PSDB ou dos Democratas porque são reaconários mesmo!Em nenhum desses segmentos a religiosidade é fator dominante, e, na verdade, o voto de católicos e evangélicos neste segundo turno está sendo manipulado abertamente: seja pelo candidato tucano, que começou com essa palhaçada de "voto cristão", usurpando o bem intencionado voto de apoio que Marina recebeu de eleitores que se identificaram com ela, por conta de sua vinculação a uma igreja; seja pela candidata petista, que na tentativa de desarmar o ardil tucano de querer indispô-la junto ao eleitorado religioso, acabou por assumir uma vestimenta que não é a sua; até porque não precisava, tendo em vista que Dilma se apresentou desde o primeiro momento como a candidata do continuísmo governamental, de uma continuidade que deu certo, fez o Brasil prosperar, e somente disso que o Brasil precisa nesse momento.

É interessante como a figura de Lula, onipresente no primeiro turno, desapareceu no atual estágio da campanha eleitoral, fazendo com que Dilma tivesse que enfrentar sozinha o candidato da oposição e verdadeiramente mostrar sua cara para o eleitorado. Por um lado, isso é bom. É salutar que no segundo turno o eleitor conheça melhor seus candidatos pela propaganda eleitoral e pelos debates, e o acirramento com polarização de ideias também é válido em uma democracia. Só  que o que eu considero errôneo nesta campanha de segundo turno é manipular a intenção do eleitor desavisado, lidar com temas que verdadeiramente não são da  agenda do candidato, e somente como forma de cabular votos, emprega-se maliciosamente ardis com o aproveitamento da fé alheia, para conquistar um projeto de poder.

Voto em Dilma desde o primeiro turno não somente porque seja eu um simples militante ou simpatizante petista, ou pela minha adesão de longa data às teses da esquerda.Voto em Dilma como um antídoto a um projeto nefasto de poder representado pelo PSDB e Democratas, e pelo senhor José Serra, que simboliza a mais antiga, anacrônica, e atrasada forma de fazer política. Serra não é só o candidato da "nova direita", mas também é o candidato do capital, dos interesses mesquinhos de setores de nosso empresariado menos comprometidos com o desenvolvimento nacional e sim com seus próprios bolsos. Voto contra um projeto neoliberal que de social não tem  nada, e que enquanto o governo FHC enfatizava a quebra dos monopólios e privatização, celebrando o progresso tecnológico de entregar aparelhos celulares a garis, ao mesmo tempo no Nordeste crianças ainda morriam de fome, sem um prato de comida, hoje fornecido graças a um bolsa-família, bem diferente das migalhas que a população recebia nos tempos de bolsa-escola de FHC. Para vocês terem uma ideia do eleitorado tucano, basta verificar que um dia desses muitos dos eleitores paulistas de José Serra metiam o pau no governo, chamando as bolsas assistenciais do governo de "bolsas-vagabundo" e criticavam iniciativas tipicamente petistas como o programa "minha casa, minha vida" de habitações populares. Serra e sua trupe representam o velho pensamento liberal-capitalista de nossas elites, que de liberal não tem nada, mas de direita tem muito, pois representa o capitalismo selvagem que tanto açoitou a sociedade brasileira durante tantos anos.

Como cristão voto contra Serra porque voto contra a mentira, a falácia, o falso profetismo, o lobismo em pele de cordeiro e a usurpação criminosa e pecaminosa da palavra de Deus, manipulando covardemente pessoas íntegras, honestas e fiéis a Deus de coração, através de mentiras disseminadas inescrupulosamente pela internet e na propaganda eleitoral. Como cidadão, voto contra Serra para não querer a volta das privatizações insanas que só servem para engordar as contas bancárias do capital privado, gerando contrapartida nenhuma para o trabalhador assalariado. Voto contra Serra para não assistir ao desmantelamento da universidade pública, tocado a toque de caixa nos tempos de FHC, com o retorno de figuras assustadoras, como o ex-ministro da educação Paulo Renato, inimigo da universidade e da pesquisa científica, voltado a um projeto de subordinação do ensino brasileiro a um projeto gerencial, empresarial, de proliferação de instituições privadas que priorizam muito mais o lucro, do que a qualidade de ensino. Basta ver a multiplicação de instituições escolares privadas e faculdades de fundo de quintal, com altíssimo nível de reprovação nos exames de ordem da OAB, após a reforma do ensino de 1994, quando os cursos de direito viraram balcões de negócio, a sustentar por mensalidades os interesses de ex-professores que se tornaram empresários. Voto contra Serra porque não quero ver os sindicatos voltando para a oposição, uma vez que pacificados no governo Lula, correm o risco agora de se voltar contra um eventual governo tucano (que por tradição, não costuma dialogar com os sindicatos), e ver o país se transformar numa França de Sarkosy (no pior sentido), com paralisações nas ruas, trabalhadores insatisfeitos, greves gerais e serviços inteiros parados, por conta de um governo tucano que defenda a redução dos direitos trabalhistas em prol dos lucros do empresariado, ao invés de estabelecer uma política  fiscal de taxação dos mais ricos.

Voto contra Serra porque não quero a volta dos conflitos no campo com a colocação do MST na ilegalidade( primeira das medidas certamente a serem adotadas por um governo tucano-democratas), onde as questões sociais como moradia, trabalho e miséria voltem a ser tratadas como caso de polícia. Voto contra Serra porque não quero ver o Brasil ser rebaixado à condição de ator de segunda categoria na política externa, coadjuvante nos processos internacionais e mais uma vez subordinado aos interesses norte-americanos, tendo em vista o protagonismo e o reconhecimento que passou a ter o Estado brasileiro nos fóruns internacionais e sobretudo na ONU, após a passagem de Lula pela presidência. Voto contra Serra porque não quero que a segurança pública no Brasil passe pela mesma realidade que passou o estado de São Paulo, governado pelo PSDB, onde a incompetência, descaso e ignorância tucana fez com que a polícia paulista fôsse a mais mal remunerada e criticada do país, onde as rebeliões em presídios, chacinas, corrupção policial e irregularidades administrativas proliferaram, e num autismo absoluto sobre projetos de parceria entre governo e sociedade, governadores como Serra ficaram surdos diante das reivindicações sociais por uma democratização do aparato policial, preferindo o ex-governador tucano jogar cães e bombas de gás lacrimogênio nas manifestações de professores. Voto contra Serra porque não quero a volta de políticos de uma legenda herdeira da ditadura e em extinção como o Democratas, representado por velhos títeres da direita brasileira e sublimes representantes do neocoronelismo e do populismo demagógico nacional, como José Agripino Maia no Nordeste ou César Maia, no Rio de Janeiro. Voto contra Serra porque não quero ver meu país voltar pra trás. Afinal, não somos caranguejos (apesar desses bichos andarem de lado)!

VOTO DILMA, E DIGO: SERRA NÃO!Ao contrário de meus amigos serristas ou tucanos que utilizam slogan diferente para ridicularizar e difamar minha candidata via internet, das formas mais torpes e mentirosas possíveis. Voto pela verdade! Voto com fé, mas com consciência política! Voto porque acredito em Deus e sei que se o milagre da redistribuição de renda e minoria das desigualdades sociais foi obtido com esse governo, pode-se muito mais com um governo apoiado pelo presidente que atualmente temos. E quero uma mulher na presidência, pela primeira vez na história desse país. SE DEUS QUISER!!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Antipatias

Mais uma eleição disputada, mais quebra-quebras ideológicos e mais uma disputa acirrada onde o recrudescimento das paixões transforma o cenário eleitoral num "Fla-Flu de Maracanã lotado". Nada ruim nisso, que na verdade transmite a ideia da "festa da democracia" que tanto o marketing eleitoral quer impor no imaginário coletivo, pois é justamente nesses momentos que a população se politiza, debate francamente, com parco ou reconhecido conhecimento de causa, os problemas nacionais e o debate amadurece. Podemos ver todo tipo de argumentos: dos mais justos aos mais pífios, ignorantes, alienados e desarrazoados; mas também podemos ver e escutar verdadeiras lições cívicas, aulas de civilidade, patriotismo, compromisso ideológico e vinculação sincera e preocupada com os dilemas que realmente assolam nossa nação. E isso é muito bom! Viva a democracia!

Entretanto, não deixo de notar que vira e mexe, saí eleição, entra eleição, percebo nos argumentos e justificativas fajutas pra se votar nesse ou naquele candidato, mais uma vez a expressão genuína da ingenuidade e ignorância que traduzem o pensamento de certos eleitores. Alguns votos são baseados no comprometimento ideológico, seja pelo fato do candidato pertencer a um partido, grupo ou sigla que corresponde aos interesses e ideais de seu eleitores, seja porque outros votam naquele que já lhe prestou algum favor pessoal. Ainda tem aqueles que votam no candidato cujo carisma lhe despertou os sentimentos mais primitivos de adoração messiânica ou simplesmente paixão. O voto, da forma como é manifestado na democracia moderna, é um exercício dos três diferentes tipos de poder e dominação legítima tratados por Max Weber: tradicional, carismático ou legal-racional. Pode-se votar num candidato conforme a disposição de sua imagem numa coletividade, incorporando a figura do "senhor", do "doutor", do "pai", que fez muito por uma região, povo ou cidade (artifícios típicos do tradicional "coronelismo" no Nordeste, do "populismo" nas grandes cidades, ou do "caudilhismo" no Sul do país); ou se vota naquele candidato bonito, carismático, eloquente, empolgante, que só com sua presença física faz multidões se curvarem ante sua oratória brilhante e discursos emocionados (a eleição de artistas, comunicadores de televisão e inúmeros radialistas não me deixa mentir). Ainda temos o voto por força da legislação eleitoral, obrigados a votar naquele que pelas disposições legais ingressou no lugar do outro, tendo que votar porque é obrigatório por lei ou porque a lei diz que tem que se votar nele, por conta de uma determinação legal ( o voto nulo, como forma de protesto, ou o voto na Weslian Roriz, no lugar de seu marido impugnado no DF, são prova cabal de como funciona isso). Mas, fora a categorização weberiana, percebo um voto mais singelo, que em todas as eleições chama a minha atenção.

Trato não do voto, mas do não-voto por antipatia, por rejeição, por nojo. Creio que existem ainda poucos estudos acadêmicos para analisar os motivos que levam alguém não a votar, mas a não votar em um candidato. Sabemos que diveros motivos podem levar uma pessoa a gostar ou não gostar de outra, que são, em sua grande maioria, motivos éticos (não gosto de alguém se esse alguém me sacaneia). Entretanto, existe uma principal forma de antipatia que se vê na política, num pleito eleitoral, que diz respeito aquele eleitor que nunca teve contato direto (e nunca terá) com esse ou aquele candidato; e por uma frase dita por ele num  certo contexto, num lugar, num determinado período de tempo, sua aparência, o tom de sua voz, a forma como sorri, deixa de sorrir ou se expressa, pode produzir em alguns verdadeira aversão, uma ojeriza, uma franca rejeição, como se aquele indivíduo que se candidatou a algum cargo fôsse incapaz de conquistar aquele eleitor. É como se um camarada feio ou desengoçado jamais conseguisse conquistar o beijo de uma bela mulher. Por que será assim?

Acompanho pela internet, caminhando pelas ruas, conversando com amigos ou mesmo vendo entrevistas com populares na televisão, como determinados candidatos (por mais consagrados nas urnas ou na opinião pública que sejam) conseguem promover uma antipatia flagrante em certos eleitores. No orkut, por exemplo, vejo algumas campanhas difamatórias, ou simplesmente a pregação do não-voto em Dilma (o que é legítimo numa democracia), fundados tão somente na biografia da candidata, ou no jeito supostamente arrogante, sério ou desprovido de carisma que ela apresenta, como se Dilma fosse apenas um "bibelô do Lula". Não adianta a candidata demonstrar nos debates de TV que não é apenas um "poste de Lula", que tem ideias próprias (por mais que se discorde delas), que chora, ri, enerva-se e se emociona como qualquer reles mortal, e que apesar da inexperiência em campanhas tem um passado respeitável e um currículo de préstimos ao país que revelam uma boa experiência administrativa. Parte desses eleitores que repudiam Dilma, não depositam seu voto nela não porque ela seja de esquerda, de um partido que simboliza o anticapitalismo ou seja adversário dos tucanos, ou porque ela represente um governo contrário aos interesses de uma elite dominante atroz que governou por séculos o Brasil, mas sim porque Dilma é Dilma. Dilma é um candidata que gera antipatias, porque ela não tem a cara de uma mulher que encante esse ou aquele eleitor ou eleitora. Não se vota em Dilma porque Dilma é chata, ou porque ela é séria demais, tem uma postura arrogante; ou seja, não se vota numa candidata porque ela se antipatizou junto a alguns eleitores.

Um exemplo maior de como é questionável e irrisória essa antipatia é o fervor quase religioso que alguns detratores de Lula tem em relação à imagem do antigo "sapo barbudo". Mesmo do alto de seus quase 80% de popularidade nacional e consagrado como um dos maiores governantes da história da república, Lula ainda é antipatizado por milhares de eleiitores de perfil mais conservador ou alienados mesmo, que não deglutiu ainda a imagem de um "operário no poder". Pertencem essas pessoas aos mais diversos segmentos e classes sociais. Podem ser empresários, jornalistas, donas de casa, trabalhadores rurais, religiosos, profissionais liberais, servidores públicos, militares, pessoas do meio artístico, intelectuais de universidades. Mas todos revelam no seu voto e nas suas motivações parte do preconceito que envolve uma imagem da qual antipatizaram. Afinal, quem vê cara não vê coração! E como uma imagem vale por mil palavras, por vezes basta a imagem de alguém que me desagrada para que essa imagem fique marcada para sempre. Vá entender o espírito humano!?

Desde mais jovem, desde a primeira campanha eleitoral para presidente de que participei até hoje, ainda encontro velhos militares, senhores aposentados do tempo de Forças Armadas do meu pai, que detém uma verdadeira ojeriza a Lula. Para esses senhores de pijama, ainda ficou marcada em suas retinas idosas a imagem daquele sindicalista barbudo, raivoso, inimigo da ditadura, promotor de greves, passeatas e paralisações, que marcou sua passagem na história ainda naquele comício da Vila Euclides, desafiando os militares, com helicópteros sobrevoando um estádio repleto de grevistas, produzindo baderna, segundo eles, desrespeitando a ordem e a paz pública. Para esses eleitores, Lula será sempre aquele torneiro mecânico semianalfabeto, oportunista, demagogo, que conseguiu passar a perna em milhões de brasileiros elegendo-se presidente, com sua pregação comunista, mesmo com seus erros de português. No meio artístico, célebre foram as declarações de Caetano Veloso contra Lula, ano passado, que acabou por fazer com que o músico baiano fôsse obrigado a se retratar publicamente, quando disse que antipatizava com Lula por ele não ter aquela cara simpática e barbeada de doutor, e de ser um cara chato, grosso e que ainda por cima falava mal o português. É uma antipatia rasa, anacrônica, autista, demente, senil, baseada numa total cegueira quanto à evolução histórica e a capacidade das pessoas de mudar e se transformar. Mas mesmo assim é uma imagem, e, repito, mesmo assim, pela democracia e pelo direito constitucional, é uma antipatia válida. 

Agora, vejo a antipatia de certos setores da comunidade religiosa, de católicos a evangélicos, retribuir com o voto no primeiro turno da eleição, como manifestação de simpatia à candidata Marina, simpatia essa que condiz com a mesma antipatia que sentiram pela candidata Dilma, por não incorporar ela a imagem do semblante zen, contemplativo, cristão, quase filosófico da candidata do PV. Dilma com sua cara feia de ministra-chefe da Casa Civil e defensora do PNDH 3(Plano Nacional de Direitos Humanos, que dentro de suas cláusulas, previa a descriminalização do aborto), não conseguiu no primeiro turno, mesmo com toda a parafernália dos marqueteiros, encantar o eleitorado religioso com a imagem de boa moça, boa cristã, que encarna simpatia e assim evita a antipatia daqueles que separam a humanidade entre os salvos e os perdidos, os "do mundo" e os "de Deus". No cúmulo da confusão imagética de símbolos e sentidos é fácil ser antipatizado por segmentos religiosos mais conservadores, se você não se apresenta de todo barbeado, se a mulher usa maquiagem ou batom chamativos demais ou se o homem carrega um brinco na orelha ou um leão tatuado no braço. Dilma ou Lula talvez possam não incorporar para alguns a imagem daqueles que geram simpatia, seja por Lula aparentar com sua barba ser operário ou pobre demais, ou Dilma se apresentar como atéia de muito e religiosa de menos. O não-voto por antipatia é uma das mais intrigantes armadilhas da política para quem quer se destacar nesse cenário e o mais puro exercício de imaginação e criatividade a ser superado pelos marqueteiros, mas é sobretudo efeito de uma das expressões mais sérias e mais desejáveis para um e um milhão de eleitores que querem votar certo: a autencidade.

Ao ser autêntico, você corre o risco de ser antipatizado. Nem Jesus agradou a todo mundo, que o digam os fariseus, e na política, a arma para se combater a antipatia é a coerência. Não tenho medo de ser antipatizado por alguns alunos meus, leitores ou ouvintes, pela forma como me apresento, o que escrevo ou que falo, pois o que importa é ser autêntico e  coerente com tudo o que penso e defendo. O maior trunfo do candidato numa eleição é não esconder sua cara, não adotar a política das "mil caras" como denunciou Dilma contra seu adversário Serra, no último debate eleitoral, mas sim mostrar a sua face como ela é, mesmo que ela não conquiste a adesão de todos. O importante para combater a rejeição antipática é se mostrar por completo, mostrar que apesar de não ter o sorriso dos sonhos de alguém, é possível possuir propostas, ideias e projetos que realmente seduzem o eleitor que lhe antipatizou, mesmo que sua imagem não lhe seja das mais agradáveis. Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo, é conhecida por sua notória arrogância, seu jeito meio "perua" de origem quatrocentona e sua impiedosa rispidez com jornalistas e humoristas, o que lhe leva a perder votos com boa parte do eleitorado feminino paulista; mas, ao mesmo tempo, foi ela quem conseguiu uma votação abonadora para o senado por ter realizado grandes obras na metrópole paulista, ter criado os CEUs que são responsáveis pelo atendimento educacional de boa parte da juventude da periferia e por ter realizado uma reurbanização de espaços públicos degradados, que contribuíram para o turismo e reduziram a criminalidade. Se em Sampa já prevalecia o lema do "rouba, mas faz", agora o jargão que deve vigorar é o do "é antipático, mas faz"!

Nesses tempos de eleição que possamos ser capazes de votar segundo nossas consciências, não se deixando levar pela primeira impressão da antipatia, mas sim conhecendo melhor as propostas de alguém, mesmo sem ir muito com a cara dele ou dela. Ao insistir em escrever isso e repassar estas linhas para minha lista de contatos na internet, às vezes posso ser antipatizado como aquele cara chato que escreve demais e que quer obrigar todos a ler o que escreve, enchendo sua caixa de e-mails. Por favor, não me antipatize! Mas se for assim, paciência! A causa é justa!!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: O eleitorado de Marina -" esse obscuro objeto do desejo".

No ano passado, quando Marina Silva saiu do PT e ingressou no Partido Verde, eu já tinha comentado que ela iria dar trabalho ao Palácio do Planalto, investindo numa candidatura própria a presidente. Contra todas as expectativas e institutos de pesquisa, no resultado final do primeiro turno da eleição presidencial, Marina saiu dos tímidos 10% do eleitorado que ela já tinha como eleitorado cativo, fiel (artistas, intelectuais desencanados, ecologistas, estudantes universitários) e elevou seu capitall eleitoral para o patamar de quase 20% dos votos válidos contabilizados nesta eleição. Foi um resultado e tanto, o que credenciou a candidata "verde" à projeção como liderança nacional e candidatíssima nas próximas eleições de 2014 (ano da Copa do Mundo).

Em diversos períódicos publicados na última semana e em comentários de especialistas em política, vejo as avaliações, teorias e justificativas para a arrancada final de Marina, que impossibilitou a vitória da candidata do governo Lula no primeiro turno. Certamente, e isto já está comprovado, Dilma não perdeu votos de seu eleitorado para Serra, mas sim para Marina. Foi o voto conservador, de eleitores cristãos e vinculados a igrejas evangélicas, que já constituem cerca de 17% do eleitorado nacional que deixou Dilma Rosseuf e seu padrinho Lula a ver navios, garfando valiosos 5% dos votos que a candidata petista precisava pra se eleger. Não foi Serra quem cresceu, mas sim Marina, e o comitê tucano, que já dava favas contadas essa eleição, fechando a bodega e indo chorar as mágoas com seu candidato, respirou aliviado do limbo de um fracasso eleitoral que se avizinhava, e ganhou força, sobretudo se apoiando não numa suposta "onda verde" da candidata do PV, mas sim numa "onda cristã".

Temas como o aborto e casamento gay pesaram na agenda da candidata do PT, quando uma boataria pela internet, movida a puro preconceito e oportunismo, a partir de um vídeo preparado e divulgado por um pastor da Igreja Batista no Paraná, além de declarações raivosas de um bispo católico contra os petistas,foi o estopim para uma midiática munição pesada que foi direcionada contra Dilma Roussef nos últimos dias do pleito eleitoral. Medo, ignorância, desinformação, contrainformação, fanatismo religioso e fundamentalismo foram usados contra a candidata do governo, numa cruzada antipetista que lembrava as Marchas por Deus e pela Liberdade, lideradas pela TFP (Tradição, Família e Propriedade), nos meses que antecederam o golpe militar que derrubou João Goulart e instaurou uma ditadura nos anos sessenta do século passado. Fascismo e direita religiosa fundamentalista andam de mãos dadas, e, por debaixo de uma agenda moralista calcada no tema da defesa da vida e da família, interesses escusos de setores antidemocráticos da sociedade passaram a tomar vulto, como fantasmas de tempos passados, intolerantes e autoritários, que já tínhamos esquecido, ou que os mais jovens só conheciam nos livros de história. Utilizar o nome de Deus para perpetrar atos violentos, discursos preconceituosos, mentirosos e outras barbaridades, não são novidade na nossa história. O fato novo é como isso se deu com tamanha força no processo eleitoral atual, tendo em vista que desde a eleição de 1989, a primeira depois da redemocratização do país, nunca o voto conservador tinha sido tão disputado, e o discurso para o eleitorado cristão colocado na ordem do dia das candidaturas presidenciais. Afinal de contas, não somos um país laico?

Como crente, sigo a lição do Evangelho: "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Para um intérprete dos textos religiosos esta passagem bíblica ensina que não se deve misturar questões de fé com política, e se fé é assunto de Deus e não dos homens, que os homens cuidem de sua vida em sociedade através da política, em suas mais variadas formas, enquanto que na fé seja permitida a liberdade de crença, confissão religiosa e pensamento. Acredito que esse seja um dos principais ensinamentos da Bíblia que não foi levado em conta por alguns sacerdotes e líderes evangélicos no decorrer dessa campanha, quando precipitadamente condenaram a candidatura de Dilma como sendo a "candidata de Satã", por defender a discussão de temas como a descriminalização do aborto, a união homoafetiva ou mesmo a discussão sobre células-tronco.

Ora, descriminalizar o aborto não significa concordar com ele, mas sim adotar uma série de politicas de saúde pública que impeçam que mães jovens, pobres e totalmente desassistidas deixem de lotar clínicas abortivas clandestinas, arriscando suas próprias vidas e a de seus bebês, sem nenhum incentivo moral, material e psicológico para manterem sua gravidez e educarem suas crianças. A solução conservadora mais fácil não é apenas a de condenar o aborto, mas de punir a abortante, como uma verdadeira assassina, uma criminosa ao invés de ser vítima de uma sociedade excludente, patriarcal,intolerante e desumana com as mulheres. Desta forma, com o aborto sendo crime, milhares e milhares de mulheres vão continuar nas sombras, escondendo sua vergonha e seu sofrimento, pelo medo absoluto de serem presas, pelo fato de serem hostilizadas e intimidadas por uma legislação draconiana e equivocada. Não sou defensor do aborto, muito pelo contrário, assim como não esmoreço nas minhas convicções cristãs de tolerância e amor ao próximo; mas tenho bom senso! Algo que, a meu ver, desapareceu por completo nas mentes bitoladas de muito crente de carteirinha, que do alto de seu dízimo, acha-se o dono da verdade e acredita que quem discorda de seus pontos de vista é uma cria de Satanás!

Entendo piamente que aqueles que embarcaram no discurso alienante de lideranças religiosas retrógadas e oportunistas, apenas assim o fizeram pela completa desinformação que foi seguida durante os últimos dias da campanha eleiitoral, e pela ineficiência da candidatura governista de perceber os efeitos devastadores da difamação disseminada pela internet. Não demorou para que setores mais esclarecidos do segmento religioso no Brasil se pronunciassem repudiando as mensagens fundamentalistas e intolerantes contra a candidata do PT. Em e-mail recebido por mim, contendo pronunciamento proferido oficalmente pela Aliança de Batistas do Brasil, por exemplo, vi comunicado desse grupo religioso informando que não concordava com a estratégia político-religiosa de demonização do Partido dos Trabalhadores, e que primava em seu documento por  "reafirmar o compromisso histórico dos batistas, em todo o mundo, com a liberdade de consciência em matéria de religião, política e cidadania".

A introdução de assuntos de fé no segundo turno de uma eleição presidencial trata-se de uma medievalização da política, como se o país voltasse no tempo e, ao sabor do fundamentalismo religioso (seja católico ou evangélico), retornássemos aos tempos do Brasil Colônia, quando o direito canônico português vigorava por aqui e quaisquer questões de natureza civil eram resolvidas consultando não um juiz, mas sim um padre da paróquia. Ao invés de discutirem os candidatos os grandes temas nacionais tais como: emprego, geração de renda, segurança, estabilidade econômica, políticas públicas, saúde, educaçaõ, progresso e desenvolvimento, o que se viu nos últimos dias foi a tentativa de Dilma de bancar a carola e de Serra o bom moço conservador, defensor da vida e da família brasileira. Ha,ha,ha,ha,,ha,ha,ha! Não sei o que é mais ridículo!! Pra piorar veio à tona a frase infeliz de dona Mônica Serra, esposa do candidato oposicionista, dizendo a um camelô numa caminhada de campanha no Rio de Janeiro que Dilma era " a favor de matar criancinhas!". Pelo amor de Deus! Quanto bobagem! Quanto ignorância! Quanta sujeira! Quanta difamação!Quanto desinformação! Que deserviço grande ao povo brasileiro está fazendo o candidato tucano e sua trupe investindo no obscurantismo! Vamos parar com isso, minha gente!!! Deus, acuda-nos!!!!

Em tempo: para aqueles que, equivocadamente, deixaram-se levar pelo discurso abortista pregado em algumas igrejas, como forma de antipatizar o PT e sua candidata, optando pela votação na evangélica Marina, é bom saber que o estatuto do partido de Marina, o PV, também consta entre suas normas a defesa explícita do aborto, algo que não foi notado nos momentos finais do primeiro turno pelos assessores da campanha de Dilma. Acordem irmãos!!! O pior pecado é se deixar levar pela mentira!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

REGIONALISMOS:O separatismo paulista

Enganam-se quem pensa que o gaúcho seja o representante do povo brasileiro mais separatista do país. Bairrismo não se confunde com separatismo, e nisso, nem os gaúchos e nem os pernambucanos (assim como os gaúchos, um povo altamente fiel as suas tradições locais) podem ser considerados como brasileiros que querem deixar de ser brasileiros pra ser outra coisa (um novo país, uma nova nacionalidade, uma nova cultura). Na verdade, atribuo aos paulistas o mérito de ser o povo mais separatista da nação e explico isso sem temer as vaias da brava população bandeirante; seja de palmeirenses, santistas, são paulinos ou corintianos.

Pra quem não acredita ou duvida de mim, basta fazer uma pesquisa rápida no google ou ler a matéria do jornalista Fábio Fujita, da revista Piauí, http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao_40/artigo_1220/Kosovo_bandeirante.aspx
para ver que não estou dizendo nenhuma bobagem ou aleivosia direcionada à terra de Oswald e Mário de Andrade, Adoniran Barbosa ou Marío Covas. Existe em São Paulo o tal de MRSP (Movimento República de São Paulo), com página na internet e tudo (somente acessível a quem for convidado), que prega, entre outras coisas, a separação de São Paulo do resto do Brasil. O movimento, localizado na Vila Esperança, Zona Leste de São Paulo-capital, reune-se mensalmente com a proposta de virar partido político e de ter representantes que efetivamente despreguem São Paulo do restante da nação. Alegam seus militantes que a "locomotiva histórica" da nação que é São Paulo já descarrilhou do trem do atraso nacional e deve tomar rumos próprios, devido ao descaso que diversos governos federais tiveram com o estado e com a metrópole paulista.  Assim como os militantes nazi-fascistas culpavam os judeus pelo desemprego e pela crise econômica, para os separatistas o problema são os nordestinos, que ao fazer a vida na cidade grande, deixaram a ver navios os verdadeiros paulistas, nascidos de berço, ocupando os empregos  que os paulistas teriam o direito inato de ocupar e  prosperar, na sua própria terra. Em sua luta regional, não são apenas os nordestinos o alvo, mas também os mineiros; pois, diga-se de passagem: foram eles que surrupiaram uma iguaria culinária tipicamente paulista e que foi usurpada por Minas Gerais como prato local: a feijoada é paulista!! Reclamam ainda da carga tributária injusta que é reservada ao estado pela federação, e da insuficência da representação parlamentar no Congresso Nacional, já que pelo seu tamanho, o estado de São Paulo deveria ter muitos mais parlamentares (e não os 55 que lhe outorga a Constituição). Afirmam que o crescente processo de injustiças por que sofre o estado e sua capital apenas prejudicam o crescimento e a pujança econômica de uma região que nasceu para brilhar e conquistar a meca do capitalismo latino-americano.Afinal! São Paulo não pode parar!!

É bem verdade que essa lógica provinciana de defender o local não é atributo apenas de São Paulo e já atingiu diversas regiões no país no decorrer de sua história. Quem nunca abriu os livros para se recordar de revoltas contra o poder central como a Cabanagem no Pará, a Balaiada no Maranhão ou a Sabinada na Bahia, ou ainda a Confederação do Equador, em Pernambuco, todas constituídas de revoltas de cunho separatista contra um poder central, e que pregavam o desligamento total de uma região e sua independência enquanto Estado-nação? A Guerra dos Farrapos, liderada por Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, demorou uma década, e foi resolvida na base de um armistício, onde latifundiários foram agraciados com o perdão de dívidas, enquanto negros escravos serviam de bucha de canhão nas batalhas como lanceiros, revelando que as comemorações que se fazem até hoje, no sul, na semana farroupilha, apenas servem pra turista comer  churrasco e conhecer melhor a cultura gaúcha, do que comemorar efetivamente um fato cívico, já que a revolta daquela época foi gerada por elites fundiárias que perdiam lucros e privilégios junto à Coroa.

Já outros movimentos, dentre eles, o desencadeado em São Paulo no período republicano, que derrubou os interesses das oligarquias paulistas, com a ascensão ao poder de Getúlio Vargas, já recorreu a uma maior mobilização popular, de um povo sujeito a discursos políticos de identidade regional ,que quase equivalem a um nacionalismo.Durante décadas, políticos carismáticos tentaram resgatar certos "valores paulistas" como à dedicação ao trabalho, o mito da ascensão social e acumulação de riquezas, extraídos plenamente da ideologia liberal-burguesa, como uma forma de "educar" o eleitorado paulista aos ditames de um "modo paulista de ver" a realidade nacional. Nesse sentido, a figura do político que "rouba, mas faz", herdada da década de 50 do governo de Ademar de Barros e recepcionada nos anos oitenta e noventa por Paulo Maluf, fez com que o paulista visse a imagem do governante como a do gestor, do bom administrador, que mesmo "metendo a mão na cumbuca" de vez em quando, realiza grandes obras. Eu já disse aqui  no ano passado, num dos artigos deste blog, que, a meu ver, analisando a cena política em São Paulo, eu digo que por ser a referência do capitalismo nacional, a política é vista como uma extensão da fábrica no cenário eleitoral paulista, e por isso, o eleitor tende a votar em partidos e políticos que vendam a ideia da austeridade, da racionalidade weberiana da empreitada capitalista,  presa à figura do bom gerente; pois a prefeitura, assim como o governo do Estado, seriam "empresas públicas"( a exemplo do empreendimento privado), que necessitariam de figuras virtuosas, bons pais de família (como a figura carola de Alcmin procura encarnar) e efetivos gestores que conduzissem o Estado rumo ao lucro, à prosperidade, ao desenvolvimento.

É nesse momento que o discurso separatista dos gatos pingados do MRSP soma-se ao discurso do bom gestor, quando percebemos que, nessa eleição para a presidência e governos dos estados, partidos como o PSDB procuram vender a imagem do bom administrador, ressaltando os feitos de Serra na condução do governo de São Paulo, a fim de arrecadar tímidos votos, difíceis no momento em que se avizinha uma derrota retumbante para a oposição, e a vitória da candidata de um presidente vitorioso, que, "nunca antes na história desse país", tinha conseguido fazer uma sucessora com tanta facildade, diante do alto de seus 80% de popularidade. Para os eleitores paulistas serristas, a vitória de Serra é também a vitória de São Paulo, a vitória de um candidato que é a cara e a alma do paulista, pois, além de nascido na região, ainda percorreu todo o trâmite do mito ideologizado do self made man do pensamento liberal-capitalista: foi o cara que "saiu de baixo", de origem humilde, que sofregamente com seu esforço e dedicação próprios conseguiu chegar até a universidade (coisa que Lula não fez), tornou-se um doutor e depois da passagem por um ministério, e pela prefeitura e governo paulistas, agora estaria talhado para ser o governante do país. "Serra governou bem São Paulo e agora governará o Brasil", poderão dizer seus acólitos bandeirantes. Para uns, é inadmissível que um candidato que represente tão bem São Paulo seja derrotado por uma candidata mineira, que fez carreira no Rio Grande do Sul e é patrocinada por um presidente nordestino. Creio que para os separatistas, a derrota de Serra na eleição para presidente deverá ser a derrota paulista, dentre muitas e muitas intempéries e injustiças que vem sofrendo o povo paulista graças ao impiedoso Leviatã da União Federal. Seria mais um caso de injustiça com os paulistas, de tantos outros que servem apenas para justificar o sentimento paulistocêntrico de querer deixar de estar no Brasil. Parece delírio, mas é só utopia, mas uma utopia perigosa! Como disse uma militante do movimento separatista: "diga qual paulista ou paulistanto nunca pensou na ideia de São Paulo separado do Brasil?".

O paulistocentrismo na verdade é um vírus ideológico, uma bactéria mutante que surgiu do aproveitamento demagógico dos aspectos mais alienados de uma cultura local em formação. Como poderia dizer finado Paulo Francis: "São Paulo é uma província com elefantíase". É apenas no provincianismo barato que podemos encontrar as razões de um falso regionalismo que busca, pelo bairrismo e pelo preconceito, alienar todo um povo local dos reais problemas que assolam uma população. Assim como Nova York ou os Estados Unidos inteiro, São Paulo (seja mais na capital e também em seu interior) é uma das regiões mais miscigenadas do planeta, onde pode se encontrar de tudo, de todas as raças, regiões do país, etnias e nacionalidasdes. São Paulo é ao mesmo tempo de brasileiros, brancos, negros, indígenas, judeus, católicos, muçulmanos, nordestinos, orientais, italianos, árabes, portugueses, imigrantes argentinos, bolivianos, peruanos e latino-americanos, numa multiplicidade de convivências que gera várias cidades dentro de uma só. São Paulo é também uma cidade de guetos, tribos, turmas, clãs, comunidades, mas também é formada por uma miríade de supostos diferentes que apenas se identificam como pessoas ecléticas, sem se identificar como paulistas ou brasileiros, mas apenas "cidadãos do mundo". É impossível estar em São Paulo sem desfrutar de sua cultura, encantar-se com seu pluralismo, dialogar com suas várias multiplicidades e fazer parte dela de alguma forma. A globalização, ao invés de fazer mal, fez muito bem a São Paulo; mas isso, para aqueles que se fecharam  provincianamente a esse processo, é apenas um fator de medo e insegurança, e não uma benção, para um povo que efetivamente vive o desenvolvimento.

Acredito, naturalmente, que o separatismo não é um sentimento que engloba todo o simpático povo paulista e acomete só uma minoria, apesar de não deixar de ser curioso que, a exemplo da comunidade conservadora wasp nos EUA, aqui também temos uma parcela da população branca, quatrocentona, de família tradional, nascida e criada num determinado lugar, que invoca o exemplo dos antepassados para resgatar algum tipo de pertencimento a uma região ou etnia. Isso é antropologicamente previsível. Apenas o que questiono é como um estado da federação, num momento eleitoral onde a polarização entre governo e oposição nunca foi tão alta, pode possuir parte de um eleitorado que estabelece um discurso às beiras do separatismo. É como se ser pró-Serra, no interesse da oposição, seria votar por São Paulo, enquanto que os votos pró-Dilma significariam a renúncia do ideal paulista em prol da União. Nessa "Guerra da Secessão" tupiniquim entre os paulistas confederados e os paulistas da União, eu diria que quem perde é o cidadão brasileiro, num momento em que uma disputa nacional se resume a uma briga de uma região com um país inteiro. Temo que o "oba-oba" eleitoral provocado por  alguns assessores do PSDB comece a pregar o fantasma golpista da Revolta de 32, e logo vejamos paulistas pegando em armas para defender a identidade local.Se alguns paulistas já manifestam preconceito contra nordestinos ou com o fato de um torneiro mecânico ter chegado à presidência, o que dizer quando um dos maiores expoentes políticos do estado é humilhado nas urnas por uma mulher que já foi terrorista, uma inimiga do capitalismo?

Contra meus argumentos acerca do paulistocentrismo, alguns podem dizer que meu antipaulistismo vem de berço, já que meu avô materno lutou na Revolução Constitucionalista de 32, e muito a contragosto foi um nordestino que teve que dar uns tiros nuns "uaii" , "porrrta e porrrteira" , "ôrra, meu" e "manos" da vida. Outros que me conhecem, podem alegar que minha crítica ao separatismo paulista vem de meus traumas quando vivi na capital paulista, já que ao morar por três anos em Sampa, decidi posteriormente sair da cidade por não aguentar seu excesso de urbanização. Mas não é o caso! Respeito e admiro São Paulo pelo fato daquela região do Brasil ser tão brasileira, porque é impossível deixar de pensar no Brasil quando se está em São Paulo. Para meus olhos que já conheceram quase todo o país, a imagem de São Paulo pela visão da Avenida Paulista  me faz refletir o Brasil, assim como a imagem do Rio provoca a mesma coisa, do Rio Grande do Sul,  onde recentemtente vivi, do Distrito Federal, lugar de minha adolescência, ou do Nordeste, onde passei tantos anos. Para mim, assim como São Paulo em sua singularidade é multifacetada, também o Brasil assim o é, com suas várias regiões, sotaques e culturas. Portanto, não me peça para ser separatista assim como não me pedes pra renegar ser brasileiro. Gostar de São Paulo é gostar do Brasil e vice-versa. Por isso, meu recado aos eleitores chatos, preconceituosos, racistas e eleitores de Maluf, do PSDB, e defensores do separatismo paulista: procurem a Albânia ou ex-Iugoslávia, talvez em Kosovo vocês consigam ser felizes separatistas!!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

ELEIÇÕES:Artistas e política: A Tonga da Milonga do Kabuletê

Na campanha para presidente de 2002, na disputa entre Lula e Serra, a veterana atriz Regina Duarte, outrora uma "ex-namoradinha do Brasil", impressionou o país pagando o mico histórico de detonar a campanha do candidato rival (no caso, o vitorioso Lula), propagando no horário eleitoral da TV a difusão de uma campanha do medo, nefasta e antiética, dizendo na televisão que tinha medo do que seria do Brasil com a eleição de Lula. Oito anos depois, parece que o presságio nefasto previsto pela atriz global não se concretizou; ou, ao contrário, ocorreu o inversamente previsto, com o êxito do mandato presidencial do candidato do PT, no auge dos seus mais de 80% de popularidade no fim do segundo mandato, e o país irreversivelmente colocado numa onda de prosperidade, autoestima e otimismo, que "nunca antes na história desse país" se tinha visto.

Agora, em 2010, mais uma vez, como faz parte da democracia, artistas de diferentes matizes e colorações ideológicas aparecem no horário eleitoral gratuito ou nas inserções televisivas, pedindo voto, de forma justa e legítima para seus candidatos, ou eles mesmo sendo candidatos. Veja-se o caso do palhaço Tiririca, execrado por parte da opinião pública e por um bom segmento da classe política, ao aparecer caracterizado na sua propaganda na TV e se tornando conhecido pelo questionável jargão :"pior do que está não fica". Polêmicas a parte, o fato é que não é de agora que nas eleições brasileiras, artistas de renome, com elevado prestígio social e uma imensa corrente de fãs, aparecem para pedir votos para seus candidatos ou se apresentam como uma alternativa real no cenário eleitoral, largando os palcos ou mudando de cenário, para um outro palco que não é o de um show, ou de um estúdio de TV. E como disse, isso é justo. Trata-se de um direito democrático e de uma opção que tem e deve ser respeitada. Apenas teço algumas considerações sobre esse curioso fenômeno político-social, e faço aqui alguns comentários, que podem ser compartilhados com os leitores deste blog.

Em primeiro lugar, na eleição de Collor em 1989, derrotando um então politicamente imaturo Lula, vimos uma das campanhas mais esperadas e mais apaixonantes no início do processo de redemocratização do país, e que muito marcou minha juventude, não apenas pela minha participação militante na campanha (e a participação de milhares de brasileiros), mas também pelo séquito de artistas e intelectuais que acompanharam o pleito eleitoral. Lembro-me da acirrada polarização entre bem e mau, entre esquerda e direita, entre o "sapo barbudo" e o "caçador de marajás" das Alagoas, e de como algumas celebridades do meio artístico se posicionaram. Jamais eu poderia me esquecer da adesão de verdadeiros ícones da música brasileira, como Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Beth Carvalho, e tantos outros na campanha de Lula, assim como de músicos sertanejos e atores e atrizes de talento questionável, como Alexandre Frota e sua então mulher, Claudia Raia, na campanha de Collor. Na época dos ânimos politicamente acirrados e do patrulhamento ideológico, vi que alguns personagens do meio artístico foram absurdamente colocados na marginalidade por seus próprios pares de profissão,  por conta de sua predileção eleitoral. Já na eleição de 2002, achei correta e respeitável a atitude da atriz Marília Pêra, defendendo sua amiga e colega de profissão, Regina Duarte, devido às vaias da opinião pública, favorável a Lula, por conta da desastrosa participação da atriz na campanha eleitoral. Ora, artista pode errar feio na escolha de seus políticos, mas ainda tem o direito de escolha, e não se pode, de forma alguma, repudiá-lo por conta disso!!

Ocorre é que vi, ao menos na categoria dos músicos, fatos interessantes. Enquanto que na campanha de 89 a polarização poderia se encontrar situada entre os reais e portentosos artistas, representantes da MPB, com seu passado de luta histórica de esquerda e perseguição na ditadura, apoiando a campanha de Lula; por outro lado, o artista-eleitor do candidato do estabilishment, desse outro Brasil real capitalista, de mentalidade neoliberal e ansioso por ascensão social, defendia as candidaturas de Collor, e posteriormente FHC. Ocorre que, logo após Chitãozinho e Xororó dizerem que estavam na campanha de Fernando Henrique em 1994 e 1998 por adesão espontânea as ideias do candidato tucano e não por grana; na campanha de 2002 foi a vez de Lula receber o maciço apoio do meio artistíco situado na música sertaneja, através de seus dois principais ícones: Zezé de Camargo e Luciano. Lembro-me de ter assistido um comício de Lula naquele ano, no Campo de Marte, em São Paulo, e ter assistido entusiasmado a um show dessa dupla sertaneja em homenagem ao seu candidato, em fotos que possuo até hoje. Eu, do alto de meus francos conhecimentos e predileções pelo rock, jazz, MPB e música erudita, estava ali curtindo dois artistas de origem humilde e cantando canções de amor de apelo fácil e letras risíveis, apenas porque aqueles caras estavam apoiando o candidato que eu gostava. É uma das maravilhas da democracia: gostar daquilo que não se suporta ouvir, só porque os caras que cantam são bacanas e compartilham dos teus compromissos ideológicos.

Esse ano, na campanha presidencial atual, percebo que a participação dos artistas em comícios e na televisão (até por conta da legislação eleitoral) encontra-se rarefeita e poucos são os que participam efetivamente e declaram seu apoio de público a esse ou aquele candidato. Com exceção de Marina Silva na propaganda eleitoral, apresentando artistas como Lenine ( que gosto muito) ou do cineasta premiado Fernando Meirelles, são poucos os que se apresentam dedicados, declarando empolgadamente seu apoio a um candidato numa eleição presidencial. Ainda é válido ver as declarações do rapper Mano Brown, do grupo Racionais MC, cujo video do youtube está disponível aqui neste blog, eleitor declarado de Dilma Roussef e fã de Lula, que expõe suas razões de porque não apoia Serra e de como ele vê o contexto político-eleitoral no país. No tocante a opção de alguns hoje por Marina, tais como Caetano Veloso, entendo que a predileção pela candidata verde tem muito haver com a visão que o artista tem da política, um pouco romanceada e até dotada de uma certa poética, talvez por possuírem certos candidatos um encanto arquétipo que seduz determinados artistas a se engajarem na política.

Dos artistas candidatos nesta última eleição, de longe o que assombra as mentes mais escolarizadas e está se configurando como o "Macaco Tião" do pleito eleitoral atual é o palhaço Tiririca. Encarnando, por uma veia oportunista, o chamado voto de protesto, Tiririca corre o risco de ser eleito o deputado federal mais votado do estado de São Paulo, assim como foi outrora o ex-apresentador e estilista Clodovil, e o ex-candidato à presidência Eneás Carneiro (ambos falecidos, mas, ao menos, o Eneás tinha uma plataforma política bem estabelecida). Isso demonstra um pouco o quanto,para muitos eleitores em sua alienação ideológica, a política se torna um desdobramento da televisão, um novo palco para o espetáculo, e no caso de Tiririca, de um show de humor de gosto duvidoso. Outras figuras da música ou da teledramaturgia já tentaram cavar seu espaço em mandatos políticos, como o finado Carlos Imperial, como vereador no Rio de Janeiro, ou Gilberto Gil como vereador em Salvador e Ministro da Cultura, mas das nuances que podemos encontrar em todos esses artistas-candidatos é que, sempre de certa forma, podemos ver uma certa estética, que pode ou não ser de boa qualidade.

Parodiando o filósofo Kierkgaard, eu diria que o arista vê a política muito mais numa dimensão estética, do que numa dimensão ética, como vêem os intelectuais, pois para ele o político representa muito mais o universo platônico do mal ou do bom, do que aquele perfeitamente razoável ou possível. Marina com seu semblante zen, e passado de militância histórica pelo meio ambiente, além da biografia admirável, seduz aqueles que consideram em termos imagéticos a candidada do PV como a representante "do bem", e com ela seguem acreditando piamente num novo mundo possível, moderno e globalizado, não mais nas tintas do velho marxismo ou do esquerdismo histórico, tão sedutor, outrora, aos artistas que militavam contra a ditadura e que vivenciaram as passeatas e movimentos civis de 68. O neotropicalismo embalado na candidatura de Marina anima os "bicho-grilos" e faz com que eles defendam a candidata como algo cool e perfeitamente adequável a um partido que promove uma renovação de costumes, valores e posturas em relação à sociedade e o meio ambiente, mesmo que, contraditoriamente, a candidata seja integrante de uma igreja ultraconservadora e que não compactua de forma alguma com as bandeiras defendidas pela agremiação a que ela pertence, tais como o casamento gay ou a legalização das drogas.

Ainda tenho saudade dos tempos em que a cantora Fafá de Belém cantava em lágrimas o hino nacional nas campanhas das Diretas Já, em 1984 e no funeral do recém-empossado presidente Tancredo Neves, numa época em que o mundo era diferente, bipolarizado, e quem fosse artista ou intelectual só podia se agrupar em ou outro grupo, sem tergiversações, ou de esquerda ou de direita. Se hoje, diferentemente do que previa Bobbio, ou conforme o pensamento de Antony Giddens, vivemos uma era em que, ser de um lado ou de outro no espectro político, já não significa grande coisa, acredito que a participação de artistas, nos grandes momentos políticos de uma nação, ainda seja interessante no sentido de uma formação de opinião, mas não fundamental nos rumos de uma democracia. Artistas trabalham com o espetáculo, mas não podemos fazer espetáculo da política e sim analisá-la friamente em seus aspectos éticos e com a hombridade necessária, pra quem vai depositar, com um mínimo de consciência, o seu voto. Pelo menos é assim que penso antes de votar num Netinho de Paula para Senador ou em Agnaldo Timóteo para deputado, ou para garantir uma vaga na Câmara a um finado Clodovil, ou promover a ascensão política de Romário ou do Tiririca. Bons artistas podem ser bons ou maus políticos, e tudo isso depende não do talento na interpretação ou da bela voz, mas sim do talento que devermos ter na hora de dar o nosso voto, pra não sermos taxados de otários. Portanto, usando o velho e batido jargão: NESSA ELEIÇÃO, VOTE BEM, MEU BEM!!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

RELIGIOSIDADE: Intolerância religiosa, gente chata e outras bobagens que se fala em nome de Deus.

Com a decisão da comunidade muçulmana de Nova York de instalar uma mesquista nas proximidades do Marco Zero, onde outrora se situavam as Torres Gêmeas do World Trade Center, derrubadas nos atentados terroristas de 11 de setembro, há nove anos atrás, e cujo aniversário acontece daqui há alguns dias, o pastor evangélico Terry Jones teve como ideia uma singular forma de protesto: sinalizou por meio da internet uma campanha anti-islã em que prometeu queimar um exemplar do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, no próximo final de semana, sob o olhar perplexo de milhões de pessoas em todo o mundo. Jones alegara que seria uma afronta ao povo norte-americano e aos familiares das milhares de vítimas do atentado terrorista, deixar que fosse instalado perto do local da tragédia um templo religioso da mesma crença dos assassinos terroristas que aterrorizam o mundo no 11 de setembro. Mediante um suposto acordo com o imã da comunidade local, Jones abdicou (ao menos temporariamente) de seu bizarro plano, deixando de tacar fogo no livro sagrado do profeta Maomé. O presidente Barack Obama antecipou-se no episódio, antes de outros líderes, condenando a atitude intolerante e desrespeitosa do pastor com a religião alheia, considerando que gestos como esse apenas incentivam a intolerância religiosa, o fanatismo, o fundamentalismo e acirramento de ânimos entre culturas, além de servir de fomento para o recrutamento da Al Quaeda, já que radicalismo se responde com radicalismo. Será que é dessa forma que os diferentes podem conviver entre si? Será que Deus tolera a diferença?

Inicialmente, somos todos iguais, como também somos diferentes, , e no cristianismo, nas escolas dominicais e cursos de catecismo, aprendemos que o chamado “Corpo de Cristo” ( a comunidade da igreja) é uno e ao mesmo tempo, múltiplo. Nessa dialética que congrega diferentes seres é que aprendemos a ser tolerantes, a respeitar o outro, mesmo não compartilhando das idéias dele, mas parece que, no caso do fundamentalismo, mais e mais intolerância pode e está sendo gerada.



Já pude acompanhar, participando de comunidades religiosas, diversos atos de intolerância em condutas absolutamente desrespeitosas e agressivas contra a fé alheia, ou com a simples opção do outro de não expressar os mesmos sentimentos religiosos. Tenho amigos de diversas crenças e opções religiosas, de católicos a umbandistas, e nunca tive problema algum em conviver com ateus, agnósticos, espíritas, ocultistas, ou qualquer um que, a exemplo das Testemunhas de Jeová ou dos Adventistas, proíbe a transfusão de sangue ou é contrário ao trabalho nos sábados. Posso achar a crença de alguns esquisita, mas como, segundo o dito popular: futebol, religião e política não se discute, acredito que ao menos discutir sobre o respeito e a tolerância religiosa é de bom tom, se quisermos um dia nos salvar de uma pós-modernidade tão desintegradora de uniões, conciliações e fraternidades.


Por falar em pós-modernidade, para o fundamentalismo religioso, o tempo em que vivemos é tão assustador e maléfico que falar em evolução histórica, renovação ou reformulação de conceitos, liberalização de costumes ou temais mais complexos e delicados, como aborto, eutanásia e casamento gay, parecem absolutamente fora de discussão, como se espiões a serviço de Satanás estivessem à espreita, com suas ideias perigosas contaminando as mentes mais débeis e puras. É como se, em nome da crença, fôssemos proibidos de pensar. E pensar, como uma dádiva divina, seja um expediente apenas dos mais eruditos, dos iluminados, detentores da verdade profética e da chama sagrada, que sabem como ninguém conduzir o seu rebanho.


E por falar em rebanho, divulgo aqui no meu blog, dentre os blogs amigos,  o blog pertencente à jornalista e militante religiosa  Marília de Camargo César, autora do livro Feridos em nome de Deus, da editora Mundo Cristão. Uma excelente obra de pesquisa acadêmica e jornalística, em que a autora nos brinda com um novo conceito, bem adequado a casos de intolerância revelados pelo pastor norte-americano Terry Jones, e que encontramos em muitas igrejas e denominações religiosas no Brasil: o chamado “assédio espiritual”.


Por assédio espiritual podemos entender a forma esdrúxula, e porque não dizer desonesta, que algumas pessoas se valem para se aproveitar da fragilidade emocional de certas pessoas, submetendo-as a uma aflição moral e psicológica através do emprego do discurso religioso. Noções como culpa, arrependimento e redenção são utilizadas por estas pessoas (em boa parte pastores e líderes evangélicos) para atormentar os integrantes de suas comunidades, num verdadeiro policiamento espiritual, a fim de que essas pessoas se dediquem integralmente as “coisas de Deus” e reneguem completamente as pérfidas e pecaminosas “coisas do mundo”. Será que esse discurso é obra realmente de um ente divino, ou criação imaginária de sujeitos aproveitadores e oportunistas, que se valem da pregação como uma forma de dominação social? Ou será ainda que a rigidez de certos discursos moralistas de cunho religioso não serve apenas para demonstrar o nível de desacerto e patologia de mentes inquietas e perturbadas?



Detesto as atitudes de pessoas que se valem de um discurso moralista-cristão, para esconder suas próprias dificuldades e debilidades emocionais e psicológicas. Conheço um determinado rapaz, outrora brilhante intelectualmente, com sérios problemas afetivos e familiares, e dotado de uma imaturidade típica de quem ficou sujeito por vários anos a um estado de alienação mental por conta de uma formação altamente conservadora, que, ao integrar uma comitiva de estudantes, numa viagem para participar de um congresso acadêmico, simplesmente não aceitava o fato de que um casal de namorados pertencente a nossa excursão, pudesse dormir na hospedagem do evento num quarto de casal, separados dos outros, posto que eles ainda não eram formalmente casados. Quanta bobagem, quanta babaquice, quanta intolerância e alienação!



Como que vivendo decididamente numa bolha de plástico, alguns crentes efetivamente adotam uma postura de largar a vida, de cair num ascetismo desvairado, o que por si só é opção individual de cada um, e não reclamo; mas o que me faz refletir é quando esse estilo de vida passa a ser obrigatório para todos os outros que não compartilham esse modo de ver a vida.Fico me perguntando, assim como se pergunta o pastor presbiteriano, professor da Universidade Mackenzie e teólogo Ricardo Quadros Gouvea, em seu Manifesto Antifundamentalismo, até que ponto milhares de crentes de diversas igrejas lotam os consultórios de médicos e psicólogos com toda sorte de distúrbios associados a uma fé distorcida e mal canalizada. São esses os chatos e fundamentalistas, que por trás do coro moral do arrependimento, carregam consigo as chagas da desunião, da desordem afetiva e da falta de amor. Fico pensando na leitura de Rubem Alves acerca do cântico dos urubus, querendo silenciar o canto dos demais pássaros na floresta, como se o seu canto fosse o único bonito aos ouvidos de Deus. Concordo com Gouvea quando ele diz que o fundamentalismo só leva a mais intolerância, à guerra e destruição. Alguns sabidos neoconservadores tentam voltar à etimologia das palavras, querendo nos fazer crer que a palavra “fundamentalista” é mal interpretada, e que somente desatenciosos ou quem nunca estudou teologia pode acreditar que o fundamentalismo religioso seja apenas uma invenção das mentes dos “homens de pouca fé” da teologia liberal. Não fico nem com liberais, nem com fundamentalistas, pois prefiro a “turma de Deus”, que pode e deve ser encontrada não em alguma igreja, mas em qualquer canto, em qualquer lugar, como deve ser todo aquele que é uno, e ao mesmo tempo plural, num mesmo Corpo de Cristo. Queira Deus que eu não esteja errado, mas que também não seja eu a apontar o certo, pois o certo está em que verdadeiramente acredita, e abre seu peito a Deus não só de mente, mas de coração, a ponto de se preencher de tanto amor, que se torna incapaz de agredir alguém, ignorar ou não tolerar o credo de quem quer seja. Aprende isso, Terry Jones!!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

TRAGÉDIA DOS 33 MINEIROS NO CHILE: A vida no buraco ou a vida é um buraco??

Podem me chamar de maricas, mas meu coração de fato dá um aperto e as lágrimas descem quando vejo na TV as imagens de 33 mineiros chilenos de San José, soterrados em mais de 700 metros de profundidade no fundo da terra, em pleno deserto de Atacama, totalmente desorientados, esquálidos, barbudos, suados e com seus olhos esbugalhados, enquanto esperam um socorro que pode durar até cinco meses. A tragédia que se iniciou (pasmem!) no dia de meu aniversário (foi em 5 de agosto que a entrada da mina desabou começando o calvário dos trabalhadores soterrados), parece que fez a mim e a uma boa parte do mundo o momento de despertar  para um sentimento humano, tão genuinamente humano: a compaixão!

Foi com o coração repleto de compaixão, mas também por um digno sentimento de justiça e revolta, que Neftali Ricardo Reys Basoalto, mais conhecido como Pablo Neruda (1904-1973) escreveu em 1939 e publicou em 1950, o poema épico Canto Geral, em homenagem aos mineradores de carvão da região andina, que Neruda conheceu quando atuou como senador e ativista do partido socialista.  Diplomata, militante político, senador da república, jornalista e poeta, Neruda foi um dos mais importantes poetas do século XX, e suas poesias que combinavam tanto um amor intenso quanto um sentimento de justiça, encantaram o mundo, fazendo com que ele ganhasse, enfim, o prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter quase concorrido à presidência do Chile, em 1969, ano em que declinou do convite em prol daquele que viria, assim como Che Guevara, a se tornar um mito: Salvador Allende. Canto Geral é considerado um das obras de Neruda onde se encontra mais presente sua consciência política e ideal de transformação de uma sociedade gritantemente desigual, além de seu clamor por justiça social, denunciando o abuso e a exploração do homem, em versos como Minerais, que retrata bem a situação dos 33 mineradores enclausurados numa caverna, no Chile de hoje:

"Mãe dos metais, te queimaram,



te morderam, martirizaram,


te corroeram, te apodreceram


mais tarde, quando os ídolos


já não podiam defender-te."
 
A mineração é uma das atividades principais da economia capitalista no Chile e todos os anos, centenas e mais centenas de trabalhadores são vítimas de acidentes nas minas de carvão, zinco e cobre da região. A mina de Chuquicamata, ou simplesmente chamada Chuqui, há 1.240 km de Santiago, por exemplo, é considerada a maior mina a céu aberto do mundo e até hoje, mesmo com as sucessivas crises econômicas e os refluxos da economia capitalista, milhares de pessoas são empregadas por mineradoras para realizar atividades extremamente difíceis, insalubres e muitíssimo perigosas.
 
Aqui se revela a ganância do capital, e assim como no poema de Neruda, minha indignação quanto às reais condições das minas chilenas, e de como o trágico acidente envolvendo os 33 mineiros que padecem de angústia e desolação debaixo da terra, poderia ter sido evitado. Durante muitos anos organizações internacionais do trabalho criticam as condições de trabalho dos mineradores chilenos, mas nenhuma intervenção severa é feita pelo Estado, no sentido de coibir abusos. Os anseios da economia capitalista e a ambição da acumulação de capital prevalecem sobre o bom senso, fazendo com que homens e mulheres se subordinem à condições desumanas, a fim de conseguir um emprego e sustentar suas famílias. Essas mesmas famílias que choram o sofrimento de seus entes queridos presos no subsolo, agora são distraídas pela política de pão e circo do governo chileno, que montou um acampamento para os familiares dos mineiros em pleno deserto, com direito à praça de alimentação, telão para assistir novelas e até música ao vivo. Com tantos curiosos ao redor da mina onde ocorreu o acidente, só falta surgir pacotes turísticos além daqueles destinados a Bariloche, onde endinheirados turistas europeus podem tirar fotos da mina soterrada, e quem sabe, até bater um papo com um dos mineiros através de uma sonda cravada no solo, perguntando como é viver como ratos, embaixo de toneladas e toneladas de areia e granito. A cena lembra o filme A Montanha dos Sete Abutres, de 1951, quando um jovem ator Kirk Douglas interpretava um repórter sensacionalista, colhendo os dividendos com a notícia de um minerador soterrado, após um desabamento. É o circo midiático voltado em torno do sofrimento alheio. Enquanto isso, as mineradoras lucram.
 
É justamente a busca incessante do lucro o que mais me aterroriza, pois se transformou num episódio do descaso com a vida e a dignidade humana, no caso dos mineradores chilenos. Desabamentos em minas são comuns desde que o homem começou a desenvolver essa atividade econômica, mas nos países de Primeiro Mundo tais acidentes são prevenidos através de sistemas de segurança altamente eficientes. Um dos princípios básicos na construção de uma mina, com a perfuração da rocha e criação de canais para escoamento de pessoas e objetos, é o de se construir uma rota alternativa, uma trilha de segurança no caso de soterramento, com elevadores, estrutura revestida e tamanho adequado para locomoção, que não foi prevista no projeto de elaboração da mina de San José. O local só possuí(pasmem) uma única entrada e saída para os mineradores, e somando-se a isso o fato de que a região é propícia a abalos sísmicos, o que se tem como resultado é a crônica de um desastre anunciado.
 
Agora só resta aos mineiros esperar e esperar, enquanto fragmentos se sua sanidade vão indo embora a cada passar dos minutos angustiantes e claustrofóbicos de quem está lutando pela vida, mas não sabe se vai ver a luz do dia novamente. O caso dos mineiros chilenos é quase como o de uma condenação, pois o castigo que lhes foi afligido pela incompetência e avareza humana não é previsto nem para o pior dos criminosos. A situação é tão desumana, que nem adianta o sorriso fraterno do atual presidente chileno, Sebastian Piñera, no sentido de transmitir otimismo e esperança para uma nação abismada com o absurdo, do alto de sua cabeleira grisalha de empresário riquissimo e porte jovial de cantor de churrascaria. A imprensa noticia que caso aqueles pobres coitados soterrados sobrevivam a essa apocalíptica intempérie, seu caso servirá ao menos de fonte de estudos para a psicologia e a psiquiatria, já que todos garantem que, se algum deles sair de lá onde se encontram, provavelmente saíram todos com algum distúrbio psíquico severo. Ah, tá!! Fico me colocando na posição de alguém que se encontra soterrado porque estava tentando simplesmente sustentar sua família, e me pergunto: "quer dizer que esse perrengue todo que estou vivendo é pra virar um rato de laboratório?? ". Eu poderia dizer: "Quero é que me tirem daqui!!!".
 
Imagino quantos dos mineiros minimamente saudáveis que ainda existem no local (cinco deles já estão prostrados, catatônicos, com graves sinais de depressão) vão ter forças para tentar se distrair enquanto o socorro não vem. Uns vão praticar algum exercício físico, outros vão se debruçar sobre  a leitura ou a escrita, enquanto outros vão passar o tempo jogando dominó. Fico pensando: quanto absurdo, quanta tristeza!! Parafraseando Neruda, termino com mais de um seus versos, traduzindo a tristeza daqueles que não podem mais ver a luz do sol, e que nesse exato momento, seu contato com o mundo e com seus entes queridos se dá tão somente através de uma sonda, da espessura de uma lata de refrigerante: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo!" Boa noite, mineradores chilenos!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?