segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MÚSICA: McCartinices-o "vovô de Liverpool" ainda agita bem a galera (beatlemaníaca ou não)!

Ontem foi o último show de Paul McCartney no Brasil, e, infelizmente, não estive presente pessoalmente para assistir. Eu já pensava em ter escrito sobre isso antes da realização dos seus shows (um, em Porto Alegre e dois em São Paulo), mas minha agenda atribulada, os afazeres profissionais, pessoais e acadêmicos acabaram me afastando por uns dias dessa blogosfera, e de um de meus mais diletantes e agradáveis momentos: o prazer de escrever. Passei o mês inteiro de outubro escrevendo sobre eleições, exercitando meu dever civico; mas, até que enfim, podemos escrever e debater sobre assuntos mais saudáveis e agradáveis. Afinal, música é tudo para mim!Música não é só arte ou cultura! Música é prazer!Música é saúde e vida!

E para mim algo tão saudável e prazeroso quanto o beijo da mulher amada ou a delícia do gosto saboroso da comida predileta, trata-se  de ouvir boa música, divina, de qualidade. Nesse sentido, Paul McCartney e o antológico grupo de que fez parte (nem precisa dizer qual) são a mais  completa expressão do prazer que é a música, tendo em vista que até hoje, artistas como sir McCartney fizeram da música a sua vida. Muitos críticos entendem que o ex-Beatle é um músico tão completo, que chego a compará-lo com uma espécie de "Tom Jobim britânico". A terra  que fundou o futebol, de clubes como o Chelsea, Manchester United e Arsenal; da língua mais falada no planeta; do clima chuvoso e cinzento; de seus reis, rainhas e princesas; da torre do relógio Big Ben; do chá das cinco; de Mary Poppins e Harry Potter, também é a terra do rock: dos Beatles, Rolling Stones, Zeppelin, The Who e tudo de bom que você possa encontrar na história da música popular. Mas também é o berço de gênios como James Paul McCartney.

Não gosto tanto dos Beatles quanto dos  Stones, confesso, mas como toda pessoa com um mínimo de neurônios na cabeça ou que sentiu o gosto (ruim e bom) da civilização, já escutou e curtiu alguma música do grupo; mesmo sem entender a letra. Digo isso porque já conheci cidades do interior, em regiões onde ninguém nunca tinha ouvido falar na  banda de Paul, John, George e Ringo, mas quando tocava alguma música dos Beatles, logo o povão associava aquele som à festa, curtição e rock and roll. É uma sonoridade que conseguiu se globalizar e passar de geração para geração. Em seu envelhecimento, Paul McCartney conseguiu acompanhar a evolução de seu público e se tornou também o músico virtuoso e excepcional que sempre foi, só que mais amadurecido com o decorrer do tempo. Paul não se tornou mais do que os Beatles, mas se tornou simplesmente Paul!

Compreendo piamente os devotados fãs dos Beatles, que se acotovelaram aos milhares dentro do estádio do Morumbi, vivendo o momento sabático de escutar seu grande ídolo cantando músicas de seu extinto grupo. Admiro isso. Entretanto, na trajetória de McCartney estimo muito mais seus bons trabalhos solo, especialmente da época de sua também antologica banda, Wings, para dizer que Paul conseguiu se virar muito bem, após sua saída dos Beatles, e assim como sua cara-metade John Lennon, Paul galgou o panteão dos melhores músicos da história, fazendo um som completo, de extrema sensibilidade e criatividade, sem se perder no ganho fácil de viver ganhando uns trocados, apenas fazendo shows, reciclando material antigo. Li em recente reportagem, na revista Rolling Stone, a afirmação de que se Paul cobrasse cada assinatura sua que dá a um fã, por até mil dólares, ele passaria o resto da vida vivendo só de autógrafos. Mas não foi isso que ele desejou. Paul McCartney ainda tinha muito a mostrar após os Beatles.

Paul conseguiu se reinventar após o fim dos Beatles e provou que Paul McCartney era e ao mesmo tempo não era os Beatles. Assim como seu parceiro John Lennon trilhou outros caminhos, e o mais reservado George Harrison também colheu seus êxitos de carreira solo, McCartney não se acomodou com a ressaca dos Beatles e foi explorar novas sonoridades, acompanhado de sua primeira (e falecida) mulher, Linda, montando os Wings. Através desse grupo, Paul marcou os anos setenta (pra mim, ainda hoje os melhores anos em termos de rock e música popular) com sua nova banda e através dela gravou um dos álbuns que ficou para a história da música: o famoso disco Band on the Run.



Nos anos oitenta, assim como muitos outros artistas, Paul McCartney se rendeu à música pop, gravando canções com Michael Jackson e lançando alguns discos com qualidade duvidosa. Porém, é inquestionável que nessa época o lendário ex-beatle lançou pérolas que até hoje ocupam as rádios, como Once Upon a Long Ago, No More Lonely NightsMy Brave Face e This One. Não obstante, foi nos anos 90 que Paul voltou à verve inspiradora que marcou sua carreira nos anos setenta, e fez discos mais conceituais e bem trabalhados; alguns rumando contra a maré do êxito comercial, em baladas mais complexas e intimistas, como nos discos Flaming Pie, Run Devil Run e Chaos and Criation in the Backyard. Talvez, naturalmente influenciado pela doença e posterior falecimento de câncer de sua primeira esposa, McCartney tornou-se um compositor mais intimista, apesar de nada amargo, que soube unir a experiência de tantos anos do carisma firmado em palcos, junto ao talento e genialidade em criar letras e canções inspiradas como Eleonor Rigby, Penny Lane e Fool on the Hill, de sua parceria com Lennon. É difícil imaginar o que teria acontecido se John ainda estivesse vivo, e como seria o mundo com esses dois músicos extraordinários esbanjando talento e vitalidade, como Paul ainda faz até hoje em seus shows.

Hoje em dia, em muitos segmentos alternativos de jovens músicos e na comunidade indie, interessada em música anticomercial  mas de qualidade, os primeiros álbuns de Paul McCartney, do começo da década de 70, são considerados obras indispensáveis. Por isso que boa parte do séquito de Paul, nos dias atuais, não pode ser atribuída somente a fãs beatlemaníacos, mas sim também a ouvintes que souberam respeitar e admirar a música do velho músico de Liverpool, sem se apegar apenas às pieguices das músicas "estilo bailinho", dos primeiros discos dos Beatles. O "velho MacCa" é considerado um dos músicos mais completos do planeta, porque soube abrir o ouvido a velhas e novas sonoridades, sem perder sua marca registrada (baladas bem tocadas ao violão ou ao piano, com uma certa pegada folk, e uma indisfarçável influência bluezeira e do rockabilly) e seu inconfundível apelo rock'n roll.

Apesar daqueles que outrora quiseram matar o Paul (quem nunca ouviu falar de certa teoria conspiratória, havida na capa do disco dos Beatles, Sargent Pepper's, de 1967,  que levante o dedo!) seja pessoalmente ou musicalmente, o cara soube manter o sucesso sem perder a humanidade. Deu-me uma indisfarçada admiração saber que, assim como outros personagens emblemáticos e que gravaram seu nome na história, apesar de ter sido conduzido à condição de nobre inglês, nomeado sir pela rainha da Inglaterra (um cavaleiro da Ordem Britânica), apesar dos títulos, Paul McCartney não esqueceu suas origens proletárias, de um working class hero, no estilo do nosso presidente Lula (aquele que vem de baixo, mas não se desliga do povão), e mesmo famoso não deixa de pegar sozinho seu metrô de vez em quando, nas ruas de Londres, ou mesmo de ser visto dentro de um ônibus, ganhando o espanto geral de gente que simplesmente não acredita que ele esteja nesses lugares, e que pensa se tratar apenas de uma brincadeira ou de um sósia. Afinal, seu parceiro John foi assassinado justamente por que costumava andar pelas ruas como um cidadão comum, dispensando guarda-costas ou limusines. Deve ser por isso, que mesmo com tanta fama, não se vê histórias de sir Paul ser incomodado por paparazzi. Paul McCartney é um dos artistas que prefere ser honrado e conhecido pelo seu trabalho, e não pelos escândalos  ou fatos inusitados em sua vida privada ( a única exceção, deu-se nos últimos anos, com seu explosivo segundo casamento e posterior divórcio com a ex-modelo britânica, Heather Mills).

Por essas e outras que saúdo a passagem de Paul McCartney pelo Brasil, na sua segunda vinda ao país (e talvez a última, segundo a mídia se apressa em dizer, face a idade avançada do músico), e que, de fato, essa não seja a derradeira vez que os brasileiros possam ver uma lenda viva tocar e agitar a galera. Além de bom músico, do alto de seus 68 anos de idade, McCartney conseguiu provar que é possível envelhecer com dignidade. Fico me lembrando de umas das canções do célebre Sargent Pepper's, dos Beatles, na deliciosa música: When I'm Sixty - Four; quando, nos anos sessenta, um jovem McCartney já previa o futuro em doces versos: "Will you still nedd me? Will you still feed me? When I'm sixty-four?". Yes, Paul! Yes! Com 64, 68, 70 ou 80, nos ainda te amamos!!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

FÉ & NEGÓCIOS: O MUNDO É GO$$PEL!!!!!!

Diz uma passagem da Bíblia, em Mateus 19: 16-24, que um jovem rico se aproximou de Cristo e lhe perguntou como obter a vida eterna. Jesus respondeu que além de seguir os mandamentos, ele teria que se desfazer de todos os seus bens e doá-los aos pobres. Como tinha muitas posses e não queria se desfazer delas, o jovem se retirou triste. Então Jesus afirmou: "é mais fácil  um camelo passar no fundo  de  uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus".

Fico pensando no versículo bíblico ao ser surpreendido com a notícia da quase falência do grupo Silvio Santos. O Banco Panamericano, de propriedade do grupo, entrou numa braba crise financeira e só não quebrou por que o famoso apresentador de TV deu em garantia sua imensa fortuna, constituída de diversas lojas de varejo, uma financeira, uma empresa de cosméticos e a própria rede de televisão, o SBT, para contrair um empréstimo e se livrar do vexame de falir, em mais de 40 anos de vida empresarial bem sucedida. O homem do Baú da Felicidade parece que agora encontrou a tristeza da iminência da ruína financeira.

Leio hoje nos jornais que diversas igrejas evangélicas pentecostais se ofereceram para comprar parte da programação do SBT, oferecendo milhões para ter todas as horas das madrugadas da programação da emissora. Sabe-se que em países como os Estados Unidos, são comuns canais de televisão gospel, pertencentes à igrejas ( a rede Record, pertencente a Igreja Universal do Reino de Deus, aqui no Brasil, é um franco exemplo), ou que possuem em sua programação horas onde se apresentam pregadores, com espaço garantido o ano inteiro para programação religiosa e cultos televisionados. No Brasil, aparecem cotidianamente na TV pastores como Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça. Em todos esses programas, geralmente a liturgia é a mesma: cultos ao vivo ou gravados, promessas de cura, entrevistas e enquetes com o público, através de programas como o "Fala, que Eu te Escuto", e diversos outros conteúdos que transformaram evangelização em nicho de mercado. Não sou contra a pregação religiosa na TV, mas não deixo de achar curioso (e, em alguns casos, até perigoso), como essas igrejas que se valem dos meios de comunicação (característica principal do chamado neopentecostalismo), muitas vezes vendem fé como se fosse um produto. Afinal, se tínhamos antes os empresários da comunicação, agora temos os empresários da fé!

A pós-modernidade e os avanços trazidos pela revolução nos meios de comunicação gerou novas formas de interatividade que passam,necessariamente, pela TV e pela internet. Antigamente, a Assembléia de Deus, a igreja pentecostal mais antiga do Brasil e uma das mais tradicionais no cenário religioso brasileiro, tinha simplesmente seus jornais ou panfletos distribuídos por seus fiéis pelas ruas, como forma de difusão da palavra de Deus. Hoje, vê-se na maior parte dos canais de televisão, ou ao menos em todas as casas do país, algum televisor ligado, alguma hora do dia ou da noite, nem que seja por alguns minutos, transmitindo esses programas. O lucro dessas instituições religiosas é absurdo. Visto que o que elas conseguem em espaço, a TV também consegue em anunciantes. A crise de valores e a busca de religiosidade nesse novo milênio levaram multidões desencantadas com a vida moderna a se debruçar sobre a TV e procurar respostas para suas angústias pessoais, através do discurso religioso. Que bom que as pessoas procurem curar seus males internos pela religião, por um lado; mas que pena que a fetichização capitalista transforme boa parte disso em mero mercado. Fico me recordando do escândalo envolvendo os bispos Estevão e Sônia Hernandez, da Igreja Renascer, e a prisão dos mesmos nos Estados Unidos, após o patético episódio de desembarcarem em solo americano com dólares escondidos dentro de uma Bíblia. Creio que alguns "jovens ricos" seguem os mandamentos, mas ainda não conseguiram obter a vida eterna, pois ainda estão muito presos a seus apegos materiais.

Participo de uma pequena igreja luterana, bem tradicional, histórica, e com um culto até mesmo chato pra alguns padrões pentecostais, mas dentro de uma perspectiva humilde, como sempre vi a igreja. Conheci e frequentei várias igrejas, de diversas denominações religiosas, e sempre vi o contraste entre a opulência e a humildade. Desde as suntuosas catedrais católicas até os rudimentares templos evangélicos de bairros de periferia, em minha fé, sempre pude notar a presença de Deus em minhas orações, mas não deixei de notar também a soberba e o falso profetismo de alguns homens. Sou um eterno crítico da organização eclesiástica no Brasil, mas nem por isso deixo de ser um homem de fé. Para mim, igreja enquanto um conceito bíblico-teológico é o encontro dos crentes, a comunidade dos que se sentem filhos de Deus; mas enquanto instituição social pode ser tão corrompida, recheada de conflitos e permeada por vícios, como qualquer outra instituição. Às vezes as igrejas assemelham-se à empresas, noutras, a partidos políticos, e nisso vem a velha crítica de muitos, de que Deus é um ente a se acreditar, já  igreja, não. Não culpo nem meus amigos ateus, e nem aqueles que em algo crêem, mas que discordam da igreja, pois, de fato; igreja é um assunto controverso demais, até mesmo para os mais estudiosos e astutos teólogos.  Por outro lado, não deixo de participar, não deixo de achar importante a existência da igreja na minha vida, na minha caminhada de fé.

Entretanto, vejo no desenvolvimento de certas igrejas (principalmente as evangélicas) no Brasil, um sério problema, que vem da forma midiática e um tanto quanto mercantilista que se aproxima, todas as vezes que vemos empresários em crise dissiparem sua fortuna e obrigando-se a vender antigos prédios de supermercado, salas de cinema, auditórios e espaços na programação de televisão, para sedentos pastores e líderes religiosos, que na ganância de arrecadarem milhares de dízimos, ofertas, contribuições ou lucros de anunciantes, transformam as igrejas em verdadeiros balcões de negócio. Em outro capítulo da Bíblia, observa-se em I Timóteo 6:10: "Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores." Ao ler isso me preocupo, porque vejo que alguns de nossos líderes religiosos correm o risco de se perder entre os cifrões da renda obtida com todo um mercado gospel que vem a surgir. E a figura de Cristo ou as mensagens do Evangelho passam a servir como propaganda em canecos, camisetas, chaveiros, adesivos para carro, CDs e DVDs, como numa imensa loja de departamentos pentecostal, um grande shopping da fé, uma verdadeira praça de alimentação de produtos religiosos. Fé Demais não Cheira Bem, é uma interessante comédia dos anos oitenta, com o ator Steve Martin, interpretando um pastor caça-níqueis, e é nisso que tenho medo que muitas de nossas igrejas se transformem; no momento em que assumirem a ponta da programação em nossos canais de televisão.

Sai de cena Silvio Santos, gritando no meio do auditório, num corredor repleto de moças e senhoras de idade, com braços levantados: "Quem quer dinheiroooo???"; e entra R. R. Soares, com sua pregação: "Quem quer uma benção? Quem quer salvação?". O modus operandi é diferente, mas o lucro é o mesmo, na conta dos anunciantes. Imagino o Bispo Edir Macedo, após sucessivas prisões e libertações pela Justiça brasileira sorrir triunfante, após os tribunais firmarem jurisprudência de que líderes religiosos não podem mais ser presos como estelionatários, levando-se em conta que além da liberdade de religião, ninguém pode argumentar que foi enganado ou ludibriado por um discurso de fé, se sabe que pode estar sendo iludido por um discurso que é religioso, e não racional. As promessas do mundo de Deus, vendidas como se fossem carnês da felicidade, diferem das promessas do mundo, palpáveis e passíveis de cobrança como uma promissória; mas mesmo assim continuam sendo promessas. Para mim, o problema do lucro ávido de certas igrejas não é caso de polícia, não é um problema criminal, mas sim uma questão de ética, de bom senso religioso e de respeito a valores tão difundidos por diversas religiões: como a solidariedade, a piedade, a luta pela justiça e a compaixão pelos mais fracos. Espero que muitos não se afastem da fé, incrédulos, revoltados, decepcionados, tão somente por achar que Deus vendeu um peixe caro demais para se conquistar. Fé não é contrato, e oro para que muitos dos que se dizem pastores de ovelhas desgarradas, não contribuam para que elas fiquem ainda mais perdidas, porque eles mesmo não reconhecem o quanto pecaram contra seu próprio compromisso religioso.


Paz aos homens de boa vontade, e se liguem senhores pastores, supostos donos da verdade e da sabedoria. Se acreditam mesmo em Deus, não estraguem tudo, como se fosse apenas um negócio a se realizar. Que Deus tenha piedade deles!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ELEIÇÕES/Resultado: Viva!! Porque Dilma ganhou!! Ufa! Porque Serra perdeu

Acabou!Finalmente acabou o processo eleitoral de 2010 e com ele uma das campanhas onde um dos candidatos a presidente se valeu dos expedientes mais vis, mesquinhos e de um arsenal quase sem fim de baixarias, contra um candidato (no caso, uma candidata) adversário. Não se via tantos golpes abaixo da linha da cintura, numa eleição, desde a histórica campanha de 1989, onde um combalido Lula, na reta final, abalou-se sensivelmente com a torpeza de Collor, ao anunciar nas vésperas do último debate eleitoral uma sacana Miriam Cordeiro, que denunciou o candidado do PT, naquela época, de ter tentado forçá-la a abortar Lurian, a filha mais velha que Lula teve num romance rápido com a ex-enfermeira que o denunciou. Jogo sujo que parece ter ressurgido, sobretudo,  fatidicamente no segundo turno da campanha eleitoral, mas que foi vencido limpamente pela candidata do governo federal.


Do alto de seus 56% de vantagem (exatos 55.723.465 de votos) Dilma Roussef tornou-se a primeira mulher a chegar à presidência da república e a quadragésima pessoa a ingressar no cargo. Além de mulher, é a primeira vez que um candidato de uma ampla frente de partidos de centro-esquerda conquista o poder de forma consecutiva, através de seu sucessor; num governo outrora dominado durante mais de um século por uma elite empresarial e latifundiária (fora os governos militares). Dilma é também a primeira ex-guerrilheira a se tornar presidente (na América Latina, José Mujica conseguiu esse feito no final do ano passado, no Uruguai) e também a primeira candidata vitoriosa de um presidente que conseguiu eleger seu sucessor (nem Vargas ou Juscelino conseguiram a façanha de Lula). Sobre a ascensão de Dilma e o fracasso de Serra, eu poderia citar alguns fatores:

Por que Dilma ganhou?
Dilma venceu, entre outros fatores, por ter sido apoiada por um governante com uma popularidade recorde, que conseguiu transferir boa parte de seu capital eleitoral para sua afilhada política. A oposição não foi páreo para um governo que se mitificou, do alto de seus 82% de aprovação popular. Lula é o presidente mais bem avaliado de toda a história da nação e seu legado tende a permanecer por muitos anos, assim como foi com Getúlio Vargas, desde a década de cinquenta do século passado. A votação maciça que a candidata Dilma recebeu de regiões pródigas no recebimento de bolsa-família, como o Norte, o Nordeste e estados do sudeste,como o Rio de Janeiro e Minas, apenas confirmou o favoritismo de uma candidata que começou a despontar ainda no início da campanha. Além do mais, até ao arrepio da legislação eleitoral e contando com uma certa condescendência do Judiciário, não obstante as multas, Lula foi um cabo eleitoral ativo, participando da campanha diuturnamente, seja na propaganda eleitoral na TV, seja participando de eventos e atos públicos a favor de sua candidata.

Mas Dilma não se elegeu apenas na carona de seu mentor político. Dilma revelou também ter brilho próprio, e, a despeito da decepção petista quanto a não obtenção da vitória no primeiro turno (face os 20% de votos conquistados pela candidata "verde" Marina Silva), na pesada campanha do segundo turno, Dilma conseguiu se impor em relação às críticas de seu adversário, adotando uma estratégia agressiva, porém propositiva. Diante das acusações caluniosas, empregadas com um certo fundamentalismo religioso, de que a candidata do PT era a favor do casamento gay e do aborto, porque "gostava de matar criancinhas", conforme argumento empregado pela esposa do candidato da oposição, Mônica Serra, Dilma respondeu à altura, conseguiu dissipar os boatos, confirmou o apoio a seu nome de artistas, intelectuais e lideranças religiosas na sua campanha, indo à luta. Nesse sentido, Dilma Roussef conseguiu provar que não era apenas um "poste", indicado por Lula para ganhar essa eleição, e que tinha sim habilidade e luz própria para uma estreante em campanhas eleitorais.

Outro fator preponderante que auxiliou na vitória da candidata da situação foi o sentimento de continuidade. Toda popularidade alcançada por Lula em sua gestão deu-se à estabilização econômica, à geração de emprego e renda, ao crescimento de uma nova classe média e ao desenvolvimento de um país que ganhou um novo protagonismo internacional nos últimos anos. Elegendo-se em 2002, sob a égide da mudança, nesta eleição o governo Lula conseguiu emplacar a pecha da continuidade. O eleitor brasileiro em geral aprecia o momento histórico porque passa o país e tendia a defender a manutenção do atual modelo que deu certo. Dilma surfou nessa onda de otimismo e prosperidade nacional, mantendo o lema de manter e aprimorar todas as conquistas já realizadas pelo governo que vai terminando.

Os apoios políticos dos candidatos vitoriosos aos governos dos estados, no primeiro turno, também foram importantes peças de xadrez no jogo eleitoral, uma vez que muitos desses candidatos valeram-se de sua popularidade e da transferência de votos de seu eleitorado para Dilma, como ocorreu na Bahia, de Jacques Wagner, onde a candidata do PT praticamente deu uma surra em Serra, alcançando mais de 70% dos votos válidos no último domingo, como também em Pernambuco, do votadíssimo e reeleito governador Eduardo Campos. Também no Rio de Janeiro, a força político-eleitoral do governador Sérgio Cabral se confirmou, atingindo Dilma importantes 60% dos votos. Nos demais estados favoráveis à petista o quadro se confirmou; com exceção do Rio Grande do Sul, onde, não obstante a vitória de Dilma no primeiro turno, no segundo turno tal fato não se repetiu, atestando-se a vitória de Serra no estado por uma estreita margem de vantagem que beirou o 1%. Apesar disso, Dilma Roussef soube administrar a vantagem da dianteira em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, e não chegou a perder feio em São Paulo, cenário naturalmente favorável ao candidato José Serra. Foi no Nordeste, entretanto, que a candidata Dilma obteve sua maior vitória, dominando praticamente a realidade de todas as urnas naquela região, em comparação com o restante do país.

Além do mais, Dilma conseguiu por mérito próprio (e não somente pelo apoio de Lula) enfrentar Serra nos debates do segundo turno, não perder a serenidade (apesar da inexperiência de neófita em campanhas eleitorais) e aproveitar as brechas deixadas pelas próprias falhas éticas tucanas, no momento em que rebateu os escândalos e as denúncias envolvendo desde a quebra do sigilo fiscal de eminências pardas tucanas e da própria filha do candidato Serra, como também das falcatruas e do tráfico de influência feito em prol de familiares por seu ex-braço direito, sua sucessora na Casa Civil e ex-assessora, Erenice Guerra. Em ambos os casos que pareciam explosivos (explorados à exaustão pela mídia oposicionista), tais fatos acabaram se perdendo no debate eleitoral, tendo em que vista que no primeiro caso, não interessava ao eleitor de baixa renda uma discussão complexa sobre quebra de sigilo de poderosos, que envolve muito mais uma " picuinha entre ricos" do que um problema genuinamente seu. Além do mais, a própria filha de Serra, Verônica, indicada como vítima, acabou revelando o telhado de vidro dos tucanos, quando se sabe que a empresa montada por ela, em parceria com a irmã do banqueiro-bandido Daniel Dantas, praticou os mesmos atos praticados contra ela, participando de lobbies com o governo anterior, de licitude questionáveis.

No caso de Erenice, a candidata Dilma conseguiu se mostrar mais como uma vítima incauta de uma ex-subordinada que abusou de sua confiança, que "cresceu o olho" quando assumiu um cargo de relevo, substituindo a chefe, e que acabou por colocar tudo a perder, em prol do auxílio a filhos e parentes empresários.Dilma conseguiu demonstrar que quando atos isolados de corrupção são praticados dentro da administração pública, mas prontamente esclarecidos, investigados e seus autores afastados e punidos, não há de se falar em ausência de ética num governo, pelo fato de que tais episódios acontecem nas melhores democracias. Afinal, foi no governo Lula que a Polícia Federal mais atuou e prendeu criminosos do colarinho-branco, dentre políticos, juízes, advogados e empresários e não mais fez por conta de um STF dividido ideologicamente e com um ex-presidente da corte, Gilmar Mendes, mais preocupado em esquivar empresários e notórios fraudadores do uso de algemas, do que defender os direitos humanos de pretos e favelados que são espancados pela polícia país afora, geralmente quando já detidos e algemados.

Por fim, como se verá abaixo nas razões para a derrota de Serra, foi através dos próprios erros cometidos pelo candidato do PSDB e sua coligação, na totalidade de "gols-fora" praticados pelos tucanos, que a vitória de Dilma acabou por ser consagradora. Infelizmente, pela dura campanha efetuada pela oposição, com pesadas acusações que permearam o segundo turno, esta eleição pode ter trazidos feridas políticas talvez difíceis de cicatrizar a curto prazo na cena política nacional.

Por que Serra perdeu?
Acredito que, ainda durante muito tempo, o staff do candidato José Serra e a cúpula do PSDB estarão recolhendo os cacos e estabelecendo a lavagem de roupa suja interna, culpando-se uns aos outros pela derrota considerável sofrida pelo candidato tucano nesta eleição, que pode ter lhe custado, senão a carreira política, a chance de disputar mais uma eleição presidencial. Sabe-se que a campanha de Serra no primeiro turno foi um desastre, e, por pouco, ele não perdeu a eleição no primeiro turno, amargando uma humilhante derrota, mantendo os eternos 35% de seu eleitorado cativo no sudeste, se não fosse o fator Marina Silva, decisivo nesta eleição. De fato, Serra herdou os votos do eleitorado conservador da candidada do PV, mas não conseguiu amealhar a vitória que tanto desejara, apesar disso. Vale salientar que no resultado final da eleição, Serra saiu dos 37% de resultado no primeiro turno para 44% no segundo turno, revelando que dos 20% do eleitorado de Marina, ele apenas conseguiu seduzir uma parte (7%), ficando a maioria dos votos restantes depositados em Marina, no primeiro turno, automaticamente transferidos no segundo turno para Dilma Roussef. Nesse sentido, não adiantou a adesão à candidatura tucana de "verdes" históricos, como o deputado carioca Fernando Gabeira, ou a apelação eleitoral mantida com o suposto apoio de Ilzamar Mendes, viúva do seringueiro e ex-líder ambientalista assassinado, Chico Mendes. Parece-me que a versão de um Serra "verde" e preocupado com as causas ambientais não vingou no segundo turno.

Em segundo lugar, revelou-se temerário o emprego de Serra de argumentos religiosos e fundamentalistas, associados ao preconceito, ignorância e intolerância religiosa quanto a temas polêmicos debatidos na pós-modernidade, como a inclusão social de homossexuais através do reconhecimento de uniões do mesmo sexo ou a delicada questão do aborto. No desespero de ativar sua campanha, e sob ordens, provavelmente dadas aos gritos a seus assessores, o centralizador e burocrático Serra acreditou que através do expediente do preconceito, conseguisse desestabilizar a candidata petista, valendo-se do conservadorismo inato a um eleitorado eminentemente católico e profundamente religioso. As discussões sobre importantes temas nacionais como saúde, educação, segurança e desenvolvimento ficaram pra trás, jogados à revelia diante de uma inútil discussão sobre quem era mais a favor das teses da igreja,ou quem era contra. Parecia que um Estado reconhecidamente laico tinha se rendido aos tempos medievais da Inquisição ou que o papa Bento XVI tivesse se tornado o "grande eleitor" no país. O que ocorreu é que logo após ser detectada a artimanha tucana de querer voltar os eleitores religiosos (principalmente evangélicos) contra a candidata da situação, rapidamente o staff de Dilma teve a agilidade de desmanchar as falsas acusações, montando uma central de boatos na internet, encarregada de rebater todas e quaisquer acusações desabonadoras quanto à candidata, presentes na web desde o primeiro turno. Se Barack Obama inaugurou nos Estados Unidos a campanha pela internet, valendo-se das comunidades virtuais como facebook, orkut e twitter; no Brasil Dilma Roussef notabilizou-se pela contraofensiva eleitoral através de uma rede virtual atuante e diuturnamente engajada.

Mas o que mais fez naufragar o Titanic tucano nessa eleição foi a tibieza com que o PSDB conduziu a eleição de seu candidato desde o primeiro turno, revelando os rachas e fraturas internas, de um partido que simboliza um grupo de interesses entre intelectuais neoliberais, representantes do empresariado desvinculados das benesses do governo, e uma classe média urbana e preconceituosa, que tomado de um individualismo exacerbado e briga de egos históricos, acabou por fazer desandar a carroça tucana. O abandono de FHC e a dificuldade que Serra teve no primeiro turno, de associar sua campanha ao legado do governo de Fernando Henrique, além da disputa interna entre o grupo de São Paulo liderado por Serra, e o de Minas, sob a batuta de Aécio Neves, revelou que, como uma "UDN pós-moderna", o PSDB reproduziu historicamente as rusgas antigas e seculares da disputa do poder político central entre paulistas e mineiros. É a "República do Café com Leite" rediviva. Detentores dos maiores colégios eleitorais do país (São Paulo e Minas Gerais, respectivamente), os tucanos não conseguiram se viabilizar como oposição (desde a primeira derrota eleitoral de Serra para Lula, em 2002), não puderam manter a coesão interna necessária a partidos de oposição que desejam ser poder novamente, e ainda tiveram que se engalfinhar em brigas homéricas, diante de um candidato chato e conhecidamente centralizador como Serra. Tinha tudo pra dar errado, assim como deu, tendo em vista que no segundo turno, apesar de ter aparecido como uma espécie de super-homem na capa da revista Veja, por sua adesão (sincera?) à campanha de Serra, parece que o tucano Aécio Neves não conseguiu render em votos o peso político que possuí em seu estado, ficando Minas como o fiel da balança que decidiu esta eleição. Lá, Dilma teve até mais votos que seu adversário no segundo turno, do que em relação ao primeiro. Provou-se que mineiro não vota em paulista, uai!!

Resta ainda uma pitada de incompetência política e falta de articulação partidária na indicação do candidato a vice na chapa tucana. Assim como nos EUA, na eleição perdida de John MCcain para Obama, a escolha da insossa (porém bem apessoada) Sara Palin revelou-se um tiro na pé nas pretensões do candidato republicano na terra do Tio Sam. No Brasil, parece que o deputado Indio da Costa, do DEM, tão somente representou o que sempre foi, como jovem representante da nova direita e ex-braço direito do derrotado César Maia, nas recentes eleições no Rio de Janeiro: bonitinho, mas ordinário. Não adiantou o sotaque carioca da zona sul e a aparência e o bronzeado de galã da novela das seis, do jovem candidato a vice na chapa de Serra. O despreparo e a desqualificação em quase todos os aspectos do candidato, com frases infelizes e tiradas sorrateiras associando o PT as FARC e o narcotráfico,  acabaram por impor a Indio da Costa  um silêncio nada obsequioso, no segundo turno, pelo manda-chuva tucano. Sabe-se que Indio foi a última das últimas opções quando as cartadas tucanas já estavam todas demolidas, diante da crise entre os partidos coligados, e a possibilidade do principal aliado dos tucanos, o DEM, retirar-se da coligação de Serra, caso não lhe fôsse cedido o cargo vice-presidencial. Na época, o candidato era tão desconhecido que o próprio Serra só veio a conhecê-lo pessoalmente dias após da campanha. Restou a um ex-dj e ex-secretário municipal, envolvido em denúncias de desvios de verbas de programas  de governo, na época da prefeitura de César Maia, ser galgado à condição de lugar-tenente do cargo mais importante da República, revelando desde o primeiro dia de campanha a pequenez de sua propostas e projeto político. Nessa do Indio, o tucanato só levou flechada!

Quanto ao eleitorado jovem, por mais que Serra propugnasse o apoio de certos setores da comunidade universitária (eminentemente paulista) e jovens de classe média alta, com seu discurso embalado no slogan batido da campanha anterior de que "Serra é do bem", o candidato tucano não conseguiu empolgar o eleitorado mais jovem e desencanado das grandes cidades, que encantado com o discurso do PV, encontrou na candidata Marina a terceira via ideal na eleição do primeiro turno. Na verdade, no momento em que mostrou sua face mais raivosa no segundo turno, e os expedientes típicos dos políticos profissionais, com baixarias e discursos de critica à adversária petista, como se estivesse num estádio de futebol, Serra acabou por passar a imagem de ser "apenas mais um deles", e de ser responsável por desqualificar o debate eleitoral, valendo-se das mais esdrúxulas baixarias. O que terminou por sepultar a candidatura tucana foi, sem dúvida, o episódio da "bolinha de papel", em que o candidato, atingido por duas vezes por objetos pequenos e insignificantes em uma caminhada de campanha no Rio, num conflito de sua claque eleitoral com mata-mosquitos revoltados (demitidos pelo próprio Serra, quando era ministro), este foi às pressas ao hospital, sob as câmeras de TV, tentando monopolizar os holofotes para um episódio totalmente inofensivo, querendo forçar um melodrama e capitalizar apoio político fazendo-se de "coitadinho", vítima de raivosos cães de guarda petistas. Sobrou para o candidato a desmoralização de ter figurado nessa campanha como autor de mais uma peça do anedotário popular: ao receber uma bolinha de papel na cabeça, dirija-se imediatamente ao hospital.

O futuro:
O futuro a Deus pertence, como diz o adágio popular, mas pode ser muito bem previsto politicamente, ao menos no que tange aos primeiros meses do ano vindouro, no mandato de Dilma Roussef.

Um dos desafios mais gritantes para a nova presidente será a continuidade e intensificação do combate à desigualdade social e redução da pobreza,  iniciado no mandato de Lula e que se tornou sua maior marca. Para se manter na crista da onda e não perder apoio político de seu eleitorado, Dilma terá que promover mais inclusão, fornecer e ampliar programas assistenciais, gerar e manter novos empregos, e estabelecer um rumo para a economia que garanta estabilidade fiscal, prosperidade empresarial e distribuição de renda. Um dos grandes achados do governo Lula, e que o tornou definitivamente superior a seu rival e antecessor, FHC, foi aliar assistencialismo com desenvolvimento social. Diferentemente dos tucanos, que estabeleceram o bolsa-escola como mera medida compensatória, Lula soube ampliar o programa, com rara intuição política, e talentosamente transformou o bolsa-família em seu carro-chefe, exatamente porque ele não se converteu tão e simplesmente num "bolsa-vagabundo", como o reaçonário discurso tucano quis apontar, outrora, em suas críticas, mas sim num bolsa-desenvolvimento. Ficou comprovado que a retirada da população de níveis extremos de miséria, através de seu compromisso social com a manutenção da educação dos mais jovens, e o ingresso deles no mercado de trabalho, através da qualificação com a criação de inúmeros institutos federais de educação (os antigos CEFETS), tornou-se um trunfo em qualquer administração, sendo impossível qualquer novo governante, que venha assumir no futuro a presidência, desmerecer esse importantíssimo programa de inclusão social.

Entretanto, o que eu entendo fundamental para o novo governo resolver são dois assuntos delicados, que no governo Lula foram merecedores de crítica: a saúde e a segurança. Foram exatamente esses dois temas que ocuparam boa parte da agenda do candidato tucano e que serviram de munição para suas críticas ao governo, apesar de eu já ter dito no blog "O mundo é bão, ser bastião", que Serra não conseguiu emplacar um discurso convincente com sua proposta de criar um Ministério da Segurança, e nem adiantou relatar exaustivamente sua larga experiência como Ministro da Saúde, no governo de FHC, tendo em vista que ainda está presente na cabeça do eleitor o surto de cólera e epidemais de dengue que assolaram o país na gestão anterior. É pela necessidade de criar um sistema unificado de segurança e um aparato de saúde digno de nações desenvolvidas que a presidente Dilma terá que se deparar, se quiser realizar um mandato presidencial a contento.

Do lado da oposição, fica o medo que o acirramento dos ânimos visto na campanha eleitoral permaneça no cenário político-social brasileiro, após Serra, em sua aparente despedida do palco  eleitoral, diante do resultado das urnas, ter dito que a luta não terminou, e que apenas por enquanto as urnas não tinham lhe dado a vitória. Pareceu no discurso recalcado e meio amargo de mau perdedor de Serra, que as agressões e críticas contundentes ao governo não vão tirar uma folga, assim como fez o candidato tucano com o fim da eleição, disparando com a família para a Europa. Ficou demonstrado que além dos "dois Brasis", percebidos na clara divisão dos votos no eleitorado nacional, nessa eleição para presidente, existe um claro fosso ideológico que agrega tanto ricos como pobres, homens e mulheres, jovens e velhos, norte e sul. Pela primeira vez em vinte anos, saíram das sombras para o debate político aberto toda uma gama de conservadores, reaçonários, neoliberais, direitistas e fundamentalistas religiosos, que não tiveram vergonha alguma de vestir a carapuça e manifestar os mais evidentes e tacanhos preconceitos. Essa campanha, sem dúvida, ficou marcada pela polarização numa suposta briga do "bem contra o mal", e não duvido nada que muitos parentes tenham se desentido, amizades foram rompidas, pessoas deixaram de se falar e uns até pediram demissão, por conta do bate-boca e da briga de torcidas que virou o segundo turno dessa campanha eleitoral.

Ficou comprovado, por exemplo, através das redes sociais na internet, por meio de e-mails de alguns eleitores tucanos e mesmo no papo de mesa de bar, ou na discussão familiar junto à mesa de jantar, que em cada família brasileira existe ao menos um eleitor que faz coro ao discurso elitista, privatista, neoliberal e neoconservador de partidos como o PSDB e Democratas. Por um lado, se isso é bom para a democracia, como asseverou a edição especial de Veja sobre o resultado dessas eleições; por outro, como alude revistas como Carta Capital, o discurso religioso homofóbico, a pregação reaconária e separatista contra os nordestinos, o preconceito contra pobres e mulheres, e a defesa do "bandido bom, bandido morto", parece ser muito perigoso para um Brasil que quer se afirmar como potência emergente e nação desenvolvida no século XXI.

No âmbito das relações com a mídIa, como já expressei aqui, no artigo anterior, a nova presidente terá que conviver com um ambiente jornalístico tanto hostil quanto aliado, no aspecto político da guerra de informação que se desenvolveu na imprensa livre, após o advento da redemocratização.Durante 8 anos Lula conviveu com publicações como a Veja e o Estado de São Paulo, francamente oposicionistas, que liberaram os mais diversos factóides, num expediente semigolpista de querer desestabilizar o governo do qual era desafeto. Para Dilma restará a sapiência e a habilidade de lidar com esses meios de comunicação, assegurando a harmonia democrática, mas ao mesmo tempo estabelecendo, através de resultados palpáveis, uma resposta devida aos seus detratores na mídia, governando com tolerância, mas também coibindo abusos praticados por quem se acha o dono da verdade, por possuir um jornal ou canal de televisão. Reitero o inteligente pronunciamento da presidente eleita, reiterando a histórica máxima: "prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras!". Bem dito, senhora presidente!

De qualquer forma, saúdo as mulheres do meu Brasil varonil pela vitória de uma companheira de gênero na primeira eleição em que uma mulher se torna presidente. Como disse a presidente eleita em seu primeiro discurso, após a vitória, hoje, um pai e uma mãe podem olhar nos olhos de sua filha e dizer: "SIM, A MULHER PODE!".Todo poder às mulheres, mas, ao mesmo tempo, todo poder aos brasileiros, realmente comprometidos com um projeto de país mais desenvolvido, mas também mais plural, democrático e justo socialmente. Por isso que votei em Dilma, por isso que comemoro e posso dizer a plenos pulmões: PARABÉNS, DILMA PRESIDENTE! UM BOM DILMA PARA TODOS NÓS! VIVA O BRASIL, ACIMA DE TUDO!!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ELEIÇÕES e MÍDIA: Minhas impressas impressões sobre a imprensa brasileira.

Temos no Brasil uma imprensa livre, graças a Deus! Desde os empastelamentos de jornais no tempo do Império ao  Estado Novo de Vargas, ou do agressivo controle da censura aos meios de comunicação nos tempos da ditadura militar, "nunca antes na história desse país", como diz o companheiro Lula, tivemos um período tão extenso de liberdade de expressão, onde a mídia e os diversos serviços de jornalismo e informação no país, tiveram a oportunidade de expor suas ideias, de forma boa ou equivocada.

Agora, com o final do pleito eleitoral para presidente da república que se aproxima, resta-nos colher os cacos do que ficou dos escombros da mídia, após a brutal polarização que se viu entre as duas candidaturas (a da situação e da oposição), onde jornais se transformaram em partidos políticos e a guerra entre redações, o bate e boca editoral, pôde ser visto nas manchetes das bancas de jornais.

Adoro ler, amo a leitura, sou um viciado em papel (livros, revistas, jornais e gibis) e um de meus maiores prazeres, seja no Rio de Janeiro, São Paulo, Natal, Recife, Porto Alegre, Buenos Aires, Santiago do Chile ou Punta del Este, é estar defronte a uma banca de jornal ou livraria, vendo as capas de revistas, as manchetes e matérias de primeira página dos jornais locais ou de grande circulação do país. Parodiando meus antigos professores de filosofia: informação não é conhecimento, mas é informação! Pode ser verdadeira ou falsa, certa ou errada, mas a informação veiculada pelos meios de comunicação é um bom termômetro social e político.

Percebo isso ao observar como a imprensa brasileira se manifestou nessas eleições de 2010 para presidente da república. A imprensa é o que sempre foi no aspecto político: panfletária, partidária, imediatista, parcial, oportunista,defensora dos interesses próprios dos grupos que estão por trás de suas redações. É uma imprensa de classe ou a que melhor reproduz uma luta de classes num regime democrático, onde é possível ver publicadas as mais diversas opiniões. Sob o jargão proferido à exaustão da liberdade de imprensa, reputações são maculadas, calúnias são proferidas, mentiras são propagadas, disputas ficam acirradas, tudo com o fiel intuito de influenciar o eleitor, de formar sua opinião, de manipular seu pensamento ou de acirrar ânimos, dogmas e preconceitos que o leitor já possuía. Faz parte do jogo democrático, mas também não deixa de ser um jogo sujo, muitas vezes!

Hoje, no Brasil, podemos ver a clássica polarização esquerda X direita, que tenta ser apagada por alguns sociólogos pagos a toque de caixa pelo interesse financeiro do capital, tentando nos engabelar com o papo de que ser neoliberal ou socialista é demodê, coisa do passado. O mundo não seria mais dividido entre reaçonários, conservadores e progressistas, mas tão somente em burros ou inteligentes. Inteligente seria defender o capital, a abertura do mercado, a livre concorrência; e burro seria insistir no papel social do Estado, no intervencionismo satânico da mão estatal em prol do interesse público. Burrice é coisa de comunista!Poderia nos fazer pensar os editoriais de algumas revistas e jornais. Mas, na verdade, a distinção de classes, o fosso entre ricos e pobres ainda é muito grande no Brasil, apesar dos bolsa-família, primeiro emprego e programas de habitação popular da vida. Basta ler os jornais pra ver que não estou mentindo.

Sou um consumista, seduzido pela ideologia do consumo desta sociedade capitalista, confesso. Talvez eu seja um pequeno-burguês emergente, oriundo de classes populares, que, ao prosperar, integrando uma classe média sem culpa, gaste meus reaizinhos comprando livros e revistas, gastando minha grana com leitura. Isso é verdade! Mas também, através desse gasto fútil com papel, consigo ao menos trabalhar a minha cachola observando e anotando a briga ideológica na imprensa brasileira, e através dela,  posiciono-me politicamente como leitor e cidadão. Vejo, por exemplo, o quanto o campo das candidaturas está dividido entre os meios de comunicação que apoíam o governo e aqueles que são contra; além daqueles que, fingidamente, falseiam sua posição ideológica, simulando estar em cima do muro. De um lado, por exemplo, temos como veículos de comunicação assumidamente partidários do governo: as revistas Carta Capital e Istó É, além da rede Record e Band de televisão; de outro, temos verdadeiras oligarquias jornalísticas, simbolizadas por grandes jornais e redes de TV pertencentes a grandes famílias: publicações como a Folha de São Paulo, Estadão e O Globo e a revista Veja, escancaradamente favoráveis ao candidato da oposição (só falta pedir votos abertamente pra ele), além de publicações mais independentes como a Caros Amigos, que bem poderia passar como um periódico do P-SOL, com seus artigos inflamados com um pensamento de esquerda, a la Plinio de Arruda Sampaio, "contra tudo o que está aí". Não digo que isso seja bom ou ruim; apenas é curioso!

Creio  que todo veículo de informação que se queira sério deve ter a boa função de bem informar. Por boa informação entendo aquela que dá a notícia como ela é, sem retoques, sem manipulação. O que considero quase impossível, debaixo de tantos interesses escusos e subliminares que podemos encontrar na imprensa brasileira. Entretanto, manifesto  meu respeito pelas publicações que, assumidamente, declaram estar a favor desse ou daquele candidato, esposar esse ou aquele entendimento ideológico ou posicionamento político. Isso é bom para a democracia. É bom para o país e demonstra a honestidade dos meios de comunicação para com seus leitores.

Em algumas democracias amadurecidas, como na Europa ou na América do Norte, jornais se declaram abertamente partidários e simpáticos a esse ou aquele candidato ou partido político. Na Inglaterra, jornais como o Daily Mirror ou o The Post, Washington Post ou New York Times nos EUA, além do Le Monde, na França, na época de campanhas políticas, abrem seus editoriais e são francamente abertos a um ou outro candidato. No Brasil, pelo que eu saiba, apenas a revista Carta Capital, através de seu editor-chefe, Mino Carta, e o Estado de São Paulo, tiveram a dignidade de se assumir publicamente favoráveis à candidata Dilma Roussef e ao candidato José Serra, respectivamente; e por conta dessa posição democrática, ao menos no caso da Carta, o periódico acabou sendo perseguido vorazmente pela vice-procuradora eleitoral ,Sandra Cureau, que confundiu adesão democrática de um jornal a um governo ou candidatura, com crime eleitoral.

Enquanto isso, sob o rótulo de "imprensa democrática" ou "defensores da liberdade de imprensa", periódicos e jornais como a Veja, Folha de São Paulo e o Globo fazem campanha contra o governo com a maior cara de pau, chamando de petistas raivosos todos aqueles que acusam seus repórteres e editorialistas de fazerem campanha descarada para José Serra. Os críticos dessas publicações são acusados de estarem empobrecendo a discussão sobre a liberdade de imprensa no país, já que qualquer um é livre para postar o que bem lhe interessa nos meios de comu!icação que lhe pertence. Tá! Só não vou fechar os olhos para o disparate da demissão da excelente intelectual, psicanalista e articulista Maria Rita Kelh do Estado de São Paulo, tão e simplesmente por ter escrito um artigo favorável ao governo. Fico mesmo triste é quando vejo outrora excelentes e sensíveis escritoras, com Lya Luft, saíram do aprazível semblante zen de seus escritos, para honrar o contracheque e os trocados que lhes são pagos por revistas como a Veja, para além de meter o pau no governo e na sua candidata, ainda aparecem na propaganda eleitoral da TV, pedindo votos para Serra. É muita cara de pau, ou necessidade de grana, mesmo?!?

As pessoas são livres para ser o que quiserem, mas só não podem induzir a erro os outros, numa espécie de estelionato jornalístico, querendo esconder posições políticas sob o manto de uma fajuta imparcialidade. É querer chamar de idiota o leitor, ao invés de querer democraticamente expor o outro lado, a outra versão dos fatos. Sempre li a Veja, apesar de achar horrorosos, atualmente, os vínculos ideológicos de seus articulistas, por entender ser salutar à democracia sempre ouvir o outro lado, inclusive o lado de seus adversários no espectro político. Acredito que muitas dessas publicações realizaram um serviço sério ao país e contribuíram para a civilidade e moralidade pública, quando denunciaram "mensalões", esquemas de corrupção, fraudes, nepotismo, fisiologismo e todo tipo de bandalheira, seja em qualquer governo que fôsse. Entretanto, na atual campanha eleitoral, o nível das paixões, acirramento de posições, mentiras, acusações falsas ou não provadas e tentativas de manipulação das intenções de voto do eleitorado, fizeram-me desistir de comprar e ler tais revistas .Boicotei geral, e não quero mais ter na minha estante panfletos, ao invés de uma autêntica fonte de informação que possa me esclarecer melhor sobre meu país e meu governo.

Recordo-me de quando era criança e via na mesa do meu pai revistas como a Realidade, da editora Abril, depois substituída pela Veja. Nos anos 80, a publicação da família Civita teve um papel importante no processo de redemocratização, quando Veja estampava em suas capas o apoio à campanha das Diretas Já, as informações sobre o movimento democrático e passeatas que aconteciam em todo país, favoráveis à emenda Dante de Oliveira, e as denúncias quanto à farsa montada pela ditadura, no episódio da bomba no Riocentro. Enquanto que os canais de televisão (principalmente a Globo), silenciavam sobre esses fatos, sob pesada censura, essas publicações foram pioneiras, contribuindo no processo democrático para atingirmos a verdadeira liberdade de expressão que possuímos até hoje, e isso foi muito louvável. Parabéns a Veja, Isto É e outras publicações por isso.

Infelizmente, parece que hoje, com tanta democracia nas redações, algumas publicações resolveram vestir a carapuça ideológica do conservadorismo ou do neoliberalismo, incorporando uma "nova direita" que gosta de esconder a cara. Por que isso? Por que não se assumir de uma vez por todas como amante de um projeto político que não corresponde ao do governo, mas sim ao do outro candidato, até como forma de fazer com que seus simpáticos leitores também se assumam como de direita. Ser direitista e defensor do capitalismo não é infamante e nem dói, minha gente! Assumam-se!!

Creio que na última semana desta campanha, somente posso levantar meu brado contra os mentirosos, caluniadores, hipócritas e farsantes de boa parcela da imprensa brasileira. É contra a perfídia, a deslealdade, a safadeza e a falta de compromisso com a verdade para o leitor, que me manifesto contra muitos dos meios de comunicação deste país, e não contra a liberdade de imprensa. Acho que com uma eventual vitória de Dilma nessa eleição (queira Deus, isso, pois me assumo petista e dilmista), essas publicações continuarão com sua caminhada golpista, no sentido de desqualificar, desmerecer e ofender seus desafetos do governo, procurando produzir todo tipo de informação desabonadora ou negativa sobre esse ou aquele governante. Pois é! Faz parte da democracia! Mas sempre estarei a postos pra denunciar a mentira, pois uma coisa é ser do contra, outra é ser do contra se valendo do expediente malicioso da mentira. O leitor e eleitor brasileiro não merece isso, e como consumidor reivindico meus direitos, a fim de que os trocados gastos nessas revistas sejam pagos, ao menos com a divulgação honesta dos fatos e o compromisso com a verdade. Senão, processo judicial neles! Chega de tanta mentira e sacanagem! Ou então, vamos deixar de ler esses caras, gente!!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Essas eleições e a religiosidade-o voto é por fé ou por consciência política?

"Anda com fé eu vou, que a fé não costuma faiarrrr....".É embalado na canção de Gilberto Gil que inicio minha escrita de hoje, meio sob a forma de um manifesto de como vejo o desenrolar desta campanha eleitoral de segundo turno para presidente, questionando o que está verdadeiramente em jogo. Está comprovado que o segundo turno é outra eleição,e, diferentemente do que pensavam os analistas em política, demonstrou-se que o candidato da oposição, José Serra, renasceu das cinzas do primeiro turno com força total, ameaçando uma "onda tucana" nas últimas pesquisas de opinião sobre o voto do eleitorado brasileiro, ameaçando a candidata da situação e do presidente Lula, a petista Dilma Roussef.

Enquanto que no primeiro turno a campanha dos candidatos estava centrada na discussão sobre os grandes temais nacionais: desenvolvimento, educação, saúde, segurança e manutenção de políticas públicas destinadas ao povo trabalhador, o segundo turno desta eleição, até o momento, parece estar quase que inteiramente voltado para a discussão sobre valores: valores que passam por uma identidade religiosa-cristã como a defesa da vida e da família, e valores laicos, dentre eles, aqueles que sinalizam para a liberdade de expressão, a liberdade sobre o próprio corpo e a liberdade de se escolher com quem quer se estar, seja fisicamente ou emocionalmente (leia-se a polêmica sobre o casamento gay e as uniões homoafetivas).

Em primeiro lugar, é importante notar na biografia, discursos e posicionamento político-ideológico dos candidatos Dilma e Serra, que ambos possuem posições semelhantes quanto a temas polêmicos como o aborto e a união civil de pessoas do mesmo sexo. Na verdade, o que aconteceu foi que o candidato do PSDB, José Serra, aproveitou-se oportunisticamente do resultado das eleições do primeiro turno, que deram um caminhão de votos com quase 20% do eleitorado para a candidata Marina Silva, do PV (evangélica da Assembléia de Deus, além de ambientalista), para, por meio de uma campanha eticamente questionável de desqualificação da candidata adversária, querer impor a imagem construída pelos marqueteiros de que o "Serra do bem" seria o defensor da vida, enquanto a maquiavélica Dilma seria a "matadora de criancinhas". O que mais abala uma pessoa, com alguns neurônios a mais funcionando, é de como esse tipo de campanha surtiu efeito em setores mais conservadores e menos esclarecidos do eleitorado, fazendo com que algumas pessoas vinculadas à igrejas estejam convencidas mesmo de que Dilma é uma candidata que representa as "forças demoníacas das trevas", ao defender o aborto e o casamento gay, enquanto que o carola Serra é o "santinho", homem sério, dedicado, honesto e bom gestor, que simplesmente denunciou a artimanha petista de querer transformar o país num rendez vous de homossexuais enlouquecidos e feministas endiabradas, que querem dar fim aquela gravidez indesejada, obtida num fim de noite pecaminoso, uma vez que nossa sociedade estaria perdida, lançada no pecado da carne, da licenciosidade, da pederastia e do sexo pago, como se isso fôsse culpa do governo.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar o que eu já escrevi em outro artigo deste blog sobre simpatias e antipatias por candidatos. O partido da candidata Marina Silva (o PV) também desfralda as bandeiras do aborto e da união homoafetiva como todos os outros candidatos, talvez mais intensamente ainda, tendo em vista que durante a campanha de Marina, era possível ver militantes do movimento gay, filiados ao partido, desfraldando a famosa bandeirinha do arco-íris, enquanto acompanhavam a candidata Marina em suas caminhadas. Apesar da candidata "verde" ser evangélica, e ter uma biografia admirável pelas causas sócio-ambientais, ela atualmente pertence a um partido que, em seu nascedouro, aliou-se a muitas bandeiras do PT pela busca da democracia e da liberdade, integrando em seus quadros militantes do movimento feminista pró-aborto e integrantes da causa gay. Por isso que, quando questionada sobre temas polêmicos e difíceis no âmbito dos valores, como a descriminalização da maconha, o aborto e o casamento gay, oportunamente a candidata Marina lavou as mãos, dizendo ser em princípio contra, mas que democraticamente levaria o assunto para plebiscito. Claro! É a alternativa mais inteligente num país plural como o Brasil, de dimensões continentais, culturas e valores distintos, numa multiplicidade de pessoas com formações pessoais e opiniões diferentes, que muito poderiam debater, no caso de estar sujeita à aprovação popular medidas que mexessem com esses temas. Questões sobre valores devem ser decididas democraticamente pelo povo e não por uma medida unilateral de um governante ou legislador.Marina Silva surgiu nessa campanha com uma agenda bem clara, honesta, voltada para questões do meio-ambiente, desenvolvimento sustentável e qualidade de vida, e não como uma candidata evangélica, candidata das igrejas. Em nenhum momento Marina se apresentou como a "candidata de Deus" e isso agora,  o epíteto de candidato cristão, está sendo instrumentalizado de maneira totalmente desonesta, oportunista e demagógica pelo candidato José Serra!

No texto anterior, onde escrevi sobre antipatias, revela-se muito bem o zeitgeist do eleitorado brasileiro, o espírito do eleitor que os candidatos estão querendo desvendar agora. Muitos dos eleitores que votaram em Marina no primeiro turno e que agora migram para o candidato Serra, são aqueles que não compõem o eleitorado natural e originário do Partido Verde (artistas, intelectuais, estudantes universitários, desbundados e ambientalistas), mas sim eleitores que antipatizaram com a figura humana, pouco simpática de Dilma Roussef. Muitos desses eleitores são antipetistas de carteirinha, alguns eram eleitores do governo, mas por conta dos escândalos,  decepcionaram-se com o governo Lula, votando em Marina como forma de protesto; e outros votam no Serra, são partidários do PSDB ou dos Democratas porque são reaconários mesmo!Em nenhum desses segmentos a religiosidade é fator dominante, e, na verdade, o voto de católicos e evangélicos neste segundo turno está sendo manipulado abertamente: seja pelo candidato tucano, que começou com essa palhaçada de "voto cristão", usurpando o bem intencionado voto de apoio que Marina recebeu de eleitores que se identificaram com ela, por conta de sua vinculação a uma igreja; seja pela candidata petista, que na tentativa de desarmar o ardil tucano de querer indispô-la junto ao eleitorado religioso, acabou por assumir uma vestimenta que não é a sua; até porque não precisava, tendo em vista que Dilma se apresentou desde o primeiro momento como a candidata do continuísmo governamental, de uma continuidade que deu certo, fez o Brasil prosperar, e somente disso que o Brasil precisa nesse momento.

É interessante como a figura de Lula, onipresente no primeiro turno, desapareceu no atual estágio da campanha eleitoral, fazendo com que Dilma tivesse que enfrentar sozinha o candidato da oposição e verdadeiramente mostrar sua cara para o eleitorado. Por um lado, isso é bom. É salutar que no segundo turno o eleitor conheça melhor seus candidatos pela propaganda eleitoral e pelos debates, e o acirramento com polarização de ideias também é válido em uma democracia. Só  que o que eu considero errôneo nesta campanha de segundo turno é manipular a intenção do eleitor desavisado, lidar com temas que verdadeiramente não são da  agenda do candidato, e somente como forma de cabular votos, emprega-se maliciosamente ardis com o aproveitamento da fé alheia, para conquistar um projeto de poder.

Voto em Dilma desde o primeiro turno não somente porque seja eu um simples militante ou simpatizante petista, ou pela minha adesão de longa data às teses da esquerda.Voto em Dilma como um antídoto a um projeto nefasto de poder representado pelo PSDB e Democratas, e pelo senhor José Serra, que simboliza a mais antiga, anacrônica, e atrasada forma de fazer política. Serra não é só o candidato da "nova direita", mas também é o candidato do capital, dos interesses mesquinhos de setores de nosso empresariado menos comprometidos com o desenvolvimento nacional e sim com seus próprios bolsos. Voto contra um projeto neoliberal que de social não tem  nada, e que enquanto o governo FHC enfatizava a quebra dos monopólios e privatização, celebrando o progresso tecnológico de entregar aparelhos celulares a garis, ao mesmo tempo no Nordeste crianças ainda morriam de fome, sem um prato de comida, hoje fornecido graças a um bolsa-família, bem diferente das migalhas que a população recebia nos tempos de bolsa-escola de FHC. Para vocês terem uma ideia do eleitorado tucano, basta verificar que um dia desses muitos dos eleitores paulistas de José Serra metiam o pau no governo, chamando as bolsas assistenciais do governo de "bolsas-vagabundo" e criticavam iniciativas tipicamente petistas como o programa "minha casa, minha vida" de habitações populares. Serra e sua trupe representam o velho pensamento liberal-capitalista de nossas elites, que de liberal não tem nada, mas de direita tem muito, pois representa o capitalismo selvagem que tanto açoitou a sociedade brasileira durante tantos anos.

Como cristão voto contra Serra porque voto contra a mentira, a falácia, o falso profetismo, o lobismo em pele de cordeiro e a usurpação criminosa e pecaminosa da palavra de Deus, manipulando covardemente pessoas íntegras, honestas e fiéis a Deus de coração, através de mentiras disseminadas inescrupulosamente pela internet e na propaganda eleitoral. Como cidadão, voto contra Serra para não querer a volta das privatizações insanas que só servem para engordar as contas bancárias do capital privado, gerando contrapartida nenhuma para o trabalhador assalariado. Voto contra Serra para não assistir ao desmantelamento da universidade pública, tocado a toque de caixa nos tempos de FHC, com o retorno de figuras assustadoras, como o ex-ministro da educação Paulo Renato, inimigo da universidade e da pesquisa científica, voltado a um projeto de subordinação do ensino brasileiro a um projeto gerencial, empresarial, de proliferação de instituições privadas que priorizam muito mais o lucro, do que a qualidade de ensino. Basta ver a multiplicação de instituições escolares privadas e faculdades de fundo de quintal, com altíssimo nível de reprovação nos exames de ordem da OAB, após a reforma do ensino de 1994, quando os cursos de direito viraram balcões de negócio, a sustentar por mensalidades os interesses de ex-professores que se tornaram empresários. Voto contra Serra porque não quero ver os sindicatos voltando para a oposição, uma vez que pacificados no governo Lula, correm o risco agora de se voltar contra um eventual governo tucano (que por tradição, não costuma dialogar com os sindicatos), e ver o país se transformar numa França de Sarkosy (no pior sentido), com paralisações nas ruas, trabalhadores insatisfeitos, greves gerais e serviços inteiros parados, por conta de um governo tucano que defenda a redução dos direitos trabalhistas em prol dos lucros do empresariado, ao invés de estabelecer uma política  fiscal de taxação dos mais ricos.

Voto contra Serra porque não quero a volta dos conflitos no campo com a colocação do MST na ilegalidade( primeira das medidas certamente a serem adotadas por um governo tucano-democratas), onde as questões sociais como moradia, trabalho e miséria voltem a ser tratadas como caso de polícia. Voto contra Serra porque não quero ver o Brasil ser rebaixado à condição de ator de segunda categoria na política externa, coadjuvante nos processos internacionais e mais uma vez subordinado aos interesses norte-americanos, tendo em vista o protagonismo e o reconhecimento que passou a ter o Estado brasileiro nos fóruns internacionais e sobretudo na ONU, após a passagem de Lula pela presidência. Voto contra Serra porque não quero que a segurança pública no Brasil passe pela mesma realidade que passou o estado de São Paulo, governado pelo PSDB, onde a incompetência, descaso e ignorância tucana fez com que a polícia paulista fôsse a mais mal remunerada e criticada do país, onde as rebeliões em presídios, chacinas, corrupção policial e irregularidades administrativas proliferaram, e num autismo absoluto sobre projetos de parceria entre governo e sociedade, governadores como Serra ficaram surdos diante das reivindicações sociais por uma democratização do aparato policial, preferindo o ex-governador tucano jogar cães e bombas de gás lacrimogênio nas manifestações de professores. Voto contra Serra porque não quero a volta de políticos de uma legenda herdeira da ditadura e em extinção como o Democratas, representado por velhos títeres da direita brasileira e sublimes representantes do neocoronelismo e do populismo demagógico nacional, como José Agripino Maia no Nordeste ou César Maia, no Rio de Janeiro. Voto contra Serra porque não quero ver meu país voltar pra trás. Afinal, não somos caranguejos (apesar desses bichos andarem de lado)!

VOTO DILMA, E DIGO: SERRA NÃO!Ao contrário de meus amigos serristas ou tucanos que utilizam slogan diferente para ridicularizar e difamar minha candidata via internet, das formas mais torpes e mentirosas possíveis. Voto pela verdade! Voto com fé, mas com consciência política! Voto porque acredito em Deus e sei que se o milagre da redistribuição de renda e minoria das desigualdades sociais foi obtido com esse governo, pode-se muito mais com um governo apoiado pelo presidente que atualmente temos. E quero uma mulher na presidência, pela primeira vez na história desse país. SE DEUS QUISER!!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ELEIÇÕES: Antipatias

Mais uma eleição disputada, mais quebra-quebras ideológicos e mais uma disputa acirrada onde o recrudescimento das paixões transforma o cenário eleitoral num "Fla-Flu de Maracanã lotado". Nada ruim nisso, que na verdade transmite a ideia da "festa da democracia" que tanto o marketing eleitoral quer impor no imaginário coletivo, pois é justamente nesses momentos que a população se politiza, debate francamente, com parco ou reconhecido conhecimento de causa, os problemas nacionais e o debate amadurece. Podemos ver todo tipo de argumentos: dos mais justos aos mais pífios, ignorantes, alienados e desarrazoados; mas também podemos ver e escutar verdadeiras lições cívicas, aulas de civilidade, patriotismo, compromisso ideológico e vinculação sincera e preocupada com os dilemas que realmente assolam nossa nação. E isso é muito bom! Viva a democracia!

Entretanto, não deixo de notar que vira e mexe, saí eleição, entra eleição, percebo nos argumentos e justificativas fajutas pra se votar nesse ou naquele candidato, mais uma vez a expressão genuína da ingenuidade e ignorância que traduzem o pensamento de certos eleitores. Alguns votos são baseados no comprometimento ideológico, seja pelo fato do candidato pertencer a um partido, grupo ou sigla que corresponde aos interesses e ideais de seu eleitores, seja porque outros votam naquele que já lhe prestou algum favor pessoal. Ainda tem aqueles que votam no candidato cujo carisma lhe despertou os sentimentos mais primitivos de adoração messiânica ou simplesmente paixão. O voto, da forma como é manifestado na democracia moderna, é um exercício dos três diferentes tipos de poder e dominação legítima tratados por Max Weber: tradicional, carismático ou legal-racional. Pode-se votar num candidato conforme a disposição de sua imagem numa coletividade, incorporando a figura do "senhor", do "doutor", do "pai", que fez muito por uma região, povo ou cidade (artifícios típicos do tradicional "coronelismo" no Nordeste, do "populismo" nas grandes cidades, ou do "caudilhismo" no Sul do país); ou se vota naquele candidato bonito, carismático, eloquente, empolgante, que só com sua presença física faz multidões se curvarem ante sua oratória brilhante e discursos emocionados (a eleição de artistas, comunicadores de televisão e inúmeros radialistas não me deixa mentir). Ainda temos o voto por força da legislação eleitoral, obrigados a votar naquele que pelas disposições legais ingressou no lugar do outro, tendo que votar porque é obrigatório por lei ou porque a lei diz que tem que se votar nele, por conta de uma determinação legal ( o voto nulo, como forma de protesto, ou o voto na Weslian Roriz, no lugar de seu marido impugnado no DF, são prova cabal de como funciona isso). Mas, fora a categorização weberiana, percebo um voto mais singelo, que em todas as eleições chama a minha atenção.

Trato não do voto, mas do não-voto por antipatia, por rejeição, por nojo. Creio que existem ainda poucos estudos acadêmicos para analisar os motivos que levam alguém não a votar, mas a não votar em um candidato. Sabemos que diveros motivos podem levar uma pessoa a gostar ou não gostar de outra, que são, em sua grande maioria, motivos éticos (não gosto de alguém se esse alguém me sacaneia). Entretanto, existe uma principal forma de antipatia que se vê na política, num pleito eleitoral, que diz respeito aquele eleitor que nunca teve contato direto (e nunca terá) com esse ou aquele candidato; e por uma frase dita por ele num  certo contexto, num lugar, num determinado período de tempo, sua aparência, o tom de sua voz, a forma como sorri, deixa de sorrir ou se expressa, pode produzir em alguns verdadeira aversão, uma ojeriza, uma franca rejeição, como se aquele indivíduo que se candidatou a algum cargo fôsse incapaz de conquistar aquele eleitor. É como se um camarada feio ou desengoçado jamais conseguisse conquistar o beijo de uma bela mulher. Por que será assim?

Acompanho pela internet, caminhando pelas ruas, conversando com amigos ou mesmo vendo entrevistas com populares na televisão, como determinados candidatos (por mais consagrados nas urnas ou na opinião pública que sejam) conseguem promover uma antipatia flagrante em certos eleitores. No orkut, por exemplo, vejo algumas campanhas difamatórias, ou simplesmente a pregação do não-voto em Dilma (o que é legítimo numa democracia), fundados tão somente na biografia da candidata, ou no jeito supostamente arrogante, sério ou desprovido de carisma que ela apresenta, como se Dilma fosse apenas um "bibelô do Lula". Não adianta a candidata demonstrar nos debates de TV que não é apenas um "poste de Lula", que tem ideias próprias (por mais que se discorde delas), que chora, ri, enerva-se e se emociona como qualquer reles mortal, e que apesar da inexperiência em campanhas tem um passado respeitável e um currículo de préstimos ao país que revelam uma boa experiência administrativa. Parte desses eleitores que repudiam Dilma, não depositam seu voto nela não porque ela seja de esquerda, de um partido que simboliza o anticapitalismo ou seja adversário dos tucanos, ou porque ela represente um governo contrário aos interesses de uma elite dominante atroz que governou por séculos o Brasil, mas sim porque Dilma é Dilma. Dilma é um candidata que gera antipatias, porque ela não tem a cara de uma mulher que encante esse ou aquele eleitor ou eleitora. Não se vota em Dilma porque Dilma é chata, ou porque ela é séria demais, tem uma postura arrogante; ou seja, não se vota numa candidata porque ela se antipatizou junto a alguns eleitores.

Um exemplo maior de como é questionável e irrisória essa antipatia é o fervor quase religioso que alguns detratores de Lula tem em relação à imagem do antigo "sapo barbudo". Mesmo do alto de seus quase 80% de popularidade nacional e consagrado como um dos maiores governantes da história da república, Lula ainda é antipatizado por milhares de eleiitores de perfil mais conservador ou alienados mesmo, que não deglutiu ainda a imagem de um "operário no poder". Pertencem essas pessoas aos mais diversos segmentos e classes sociais. Podem ser empresários, jornalistas, donas de casa, trabalhadores rurais, religiosos, profissionais liberais, servidores públicos, militares, pessoas do meio artístico, intelectuais de universidades. Mas todos revelam no seu voto e nas suas motivações parte do preconceito que envolve uma imagem da qual antipatizaram. Afinal, quem vê cara não vê coração! E como uma imagem vale por mil palavras, por vezes basta a imagem de alguém que me desagrada para que essa imagem fique marcada para sempre. Vá entender o espírito humano!?

Desde mais jovem, desde a primeira campanha eleitoral para presidente de que participei até hoje, ainda encontro velhos militares, senhores aposentados do tempo de Forças Armadas do meu pai, que detém uma verdadeira ojeriza a Lula. Para esses senhores de pijama, ainda ficou marcada em suas retinas idosas a imagem daquele sindicalista barbudo, raivoso, inimigo da ditadura, promotor de greves, passeatas e paralisações, que marcou sua passagem na história ainda naquele comício da Vila Euclides, desafiando os militares, com helicópteros sobrevoando um estádio repleto de grevistas, produzindo baderna, segundo eles, desrespeitando a ordem e a paz pública. Para esses eleitores, Lula será sempre aquele torneiro mecânico semianalfabeto, oportunista, demagogo, que conseguiu passar a perna em milhões de brasileiros elegendo-se presidente, com sua pregação comunista, mesmo com seus erros de português. No meio artístico, célebre foram as declarações de Caetano Veloso contra Lula, ano passado, que acabou por fazer com que o músico baiano fôsse obrigado a se retratar publicamente, quando disse que antipatizava com Lula por ele não ter aquela cara simpática e barbeada de doutor, e de ser um cara chato, grosso e que ainda por cima falava mal o português. É uma antipatia rasa, anacrônica, autista, demente, senil, baseada numa total cegueira quanto à evolução histórica e a capacidade das pessoas de mudar e se transformar. Mas mesmo assim é uma imagem, e, repito, mesmo assim, pela democracia e pelo direito constitucional, é uma antipatia válida. 

Agora, vejo a antipatia de certos setores da comunidade religiosa, de católicos a evangélicos, retribuir com o voto no primeiro turno da eleição, como manifestação de simpatia à candidata Marina, simpatia essa que condiz com a mesma antipatia que sentiram pela candidata Dilma, por não incorporar ela a imagem do semblante zen, contemplativo, cristão, quase filosófico da candidata do PV. Dilma com sua cara feia de ministra-chefe da Casa Civil e defensora do PNDH 3(Plano Nacional de Direitos Humanos, que dentro de suas cláusulas, previa a descriminalização do aborto), não conseguiu no primeiro turno, mesmo com toda a parafernália dos marqueteiros, encantar o eleitorado religioso com a imagem de boa moça, boa cristã, que encarna simpatia e assim evita a antipatia daqueles que separam a humanidade entre os salvos e os perdidos, os "do mundo" e os "de Deus". No cúmulo da confusão imagética de símbolos e sentidos é fácil ser antipatizado por segmentos religiosos mais conservadores, se você não se apresenta de todo barbeado, se a mulher usa maquiagem ou batom chamativos demais ou se o homem carrega um brinco na orelha ou um leão tatuado no braço. Dilma ou Lula talvez possam não incorporar para alguns a imagem daqueles que geram simpatia, seja por Lula aparentar com sua barba ser operário ou pobre demais, ou Dilma se apresentar como atéia de muito e religiosa de menos. O não-voto por antipatia é uma das mais intrigantes armadilhas da política para quem quer se destacar nesse cenário e o mais puro exercício de imaginação e criatividade a ser superado pelos marqueteiros, mas é sobretudo efeito de uma das expressões mais sérias e mais desejáveis para um e um milhão de eleitores que querem votar certo: a autencidade.

Ao ser autêntico, você corre o risco de ser antipatizado. Nem Jesus agradou a todo mundo, que o digam os fariseus, e na política, a arma para se combater a antipatia é a coerência. Não tenho medo de ser antipatizado por alguns alunos meus, leitores ou ouvintes, pela forma como me apresento, o que escrevo ou que falo, pois o que importa é ser autêntico e  coerente com tudo o que penso e defendo. O maior trunfo do candidato numa eleição é não esconder sua cara, não adotar a política das "mil caras" como denunciou Dilma contra seu adversário Serra, no último debate eleitoral, mas sim mostrar a sua face como ela é, mesmo que ela não conquiste a adesão de todos. O importante para combater a rejeição antipática é se mostrar por completo, mostrar que apesar de não ter o sorriso dos sonhos de alguém, é possível possuir propostas, ideias e projetos que realmente seduzem o eleitor que lhe antipatizou, mesmo que sua imagem não lhe seja das mais agradáveis. Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo, é conhecida por sua notória arrogância, seu jeito meio "perua" de origem quatrocentona e sua impiedosa rispidez com jornalistas e humoristas, o que lhe leva a perder votos com boa parte do eleitorado feminino paulista; mas, ao mesmo tempo, foi ela quem conseguiu uma votação abonadora para o senado por ter realizado grandes obras na metrópole paulista, ter criado os CEUs que são responsáveis pelo atendimento educacional de boa parte da juventude da periferia e por ter realizado uma reurbanização de espaços públicos degradados, que contribuíram para o turismo e reduziram a criminalidade. Se em Sampa já prevalecia o lema do "rouba, mas faz", agora o jargão que deve vigorar é o do "é antipático, mas faz"!

Nesses tempos de eleição que possamos ser capazes de votar segundo nossas consciências, não se deixando levar pela primeira impressão da antipatia, mas sim conhecendo melhor as propostas de alguém, mesmo sem ir muito com a cara dele ou dela. Ao insistir em escrever isso e repassar estas linhas para minha lista de contatos na internet, às vezes posso ser antipatizado como aquele cara chato que escreve demais e que quer obrigar todos a ler o que escreve, enchendo sua caixa de e-mails. Por favor, não me antipatize! Mas se for assim, paciência! A causa é justa!!

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?