Quem me conhece e sabe de minhas predileções futebolísticas sabe que sou um botafoguense doente, de carteirinha, além de um admirador e torcedor ocasional do Internacional, quando estou em terras gaúchas (com a família da esposa sendo toda colorada, o caminho não poderia ser diferente). Agora, acima de tudo sou um amante do futebol, um admirador da nobre arte esportiva de fazer mover a pelota. Tenho até uma tese (e devo publicá-la futuramente, afirmo) que quem não gosta de futebol é semelhante a quem não gosta de samba: bom sujeito não é. Brincadeiras a parte, em relação aos meus amigos e leitores do blog que não gostam do esporte (afinal, sejamos democráticos), quem não gosta não precisa ler mais estas linhas, se acha-las desinteressantes, mas me permitam, por favor, falar sim sobre a maior sensação do futebol brasileiro nos últimos anos: o Santos Futebol Clube.
Acontece com o Santos em São Paulo o que ocorre de forma mais lenta com meu amado Botafogo, no Rio de Janeiro: a ressureição de um time. Assim como o Fogão que revelou Garrincha e que já conquistou diversos títulos nacionais e mundiais no passado, o Santos é notoriamente o time de Pelé, merecidamente o "rei", o maior jogador de futebol de todos os tempos, e também o time que, supostamente, está revelando um sucessor à altura, Neymar, "só mais um menino feliz brincando com a sua bola", como diz a propaganda da Nextel. Neymar é a jovem promessa do futebol nacional que agora, no final do ano, na disputa do Mundial Interclubes, pode desbancar o todo poderoso Messi ( o nº 1 do ranking mundial e queridinho de Maradona), ao jogar contra o Barcelona e, quem sabe, escrever seu nome definitivamente nas páginas da história do futebol.
Pois é, se Messi é o protegido de Maradona, el Dios argentino, Neymar é ancorado pelo prestígio de Pelé, que sem titubear, elegeu o garoto de 19 anos seu sucessor. O jovem Neymar conseguiu apagar o chato episódio do começo do ano passado, quando pela internet chegou a zombar de torcedores, autobajulando-se pela sua condição de craque, ou quando foi responsável pela saída do técnico anterior do time, que se queixava do excesso de estrelismo e da falta de disciplina do jogador. Tudo resolvido. Assim como Pelé, que também foi revelado precocemente ainda adolescente, inicialmente gerenciado pelo pai, Dondinho, ex-jogador, Neymar tem o sólido acompanhamento e firme condução de sua carreira pelo pai, do mesmo nome, também um jogador de futebol aposentado, que viu no filho a realização de um ideal de família, de conceber um craque do futebol. Neymar é querido não apenas por ser um bom jogador, mas por representar a juventude de um futebol alegre, meio irresponsável, mas genuinamente brasileiro. Um futebol que na década de 90 era representado por uma máquina de fazer gols, chamada Ronaldo Nazário, hoje um astuto homem de negócios, que encerrou a carreira num também mercantil Corinthians, e que apesar de ser mais conhecido hoje pelo semblante arredondado e rotundo, também foi o carequinha da "amarelada" no final da Copa do Mundo de 98, e o astro com a cabeleira de Cascão da Turma da Mônica, que atingiu a redenção, na conquista do Pentacampeonato no mundial seguinte, em 2002.
Porém, Ronaldo e Neymar tem diferenças de fundo, fundamentais para se entender o que se espera do futebol brasileiro nos próximos anos, principalmente para um país que aguarda sediar, pela segunda vez em sua história, uma Copa do Mundo, em 2014. A contribuição histórica de Ronaldo para o futebol brasileiro e mundial é inquestionável, tendo em vista que, assim como Romário, ele já foi considerado o maior jogador do mundo (por duas vezes consecutivas, diga-se de passagem). Porém, diferente de Neymar, o "Fenômeno" foi concebido nos gramados estrangeiros, jogando por times europeus e assim consolidando seu nome, assim como foi com jogadores como Kaká e Alexandre Pato. Ronaldo Nazário foi um astro made outside, que somente tardiamente e após os 30 anos de idade, consolidou-se como uma lenda nos estádios brasileiros, ao largar a proposta do seu favorito Flamengo e abraçar um ávido por títulos, o Corinthians. Neymar, ao contrário, foi formado e construído no mesmo clube, o Santos, que revelou o segredo do sucesso do time, após tantos anos num jejum de títulos nacionais e internacionais: o investimento na juventude.
Assim como o Santos, há pouco mais de uma década, revelou jogadores do quilate de Robinho e Diego, o Santos de hoje revelou outra dupla de jovens goleadores inseparáveis: Neymar e Ganso. Um, a estrela ascendente, o novo "príncipe da bola" do ataque santista, e talvez o sucessor merecido de Pelé; o outro, o "cavaleiro da triste figura", o modesto coadjuvante no meio campo, injustamente maltratado pelo próprio clube, em desgastantes e desmoralizantes negociações para sua manuteção no time, mas que permanece fiel à torcida, mesmo com sucessivas contusões e problemas contratuais. A grande habilidade técnica da escola de jogadores do Santos é investir pesadamente na formação de garotos, tirados de casa no início da puberdade, e numa formação espartana, transformá-los em verdadeiros guerreiros da bola. Também merece destaque no clube a ênfase em sempre proporcionar, no mínimo, uma dupla de protagonistas em campo, interligados com o restante do time, como uma entidade única, mas dotada de uma cabeça habilidosa, fazedora de gols, e que levou o time do litoral paulista à consagração nacional, com o título da Copa do Brasil, no ano passado, a conquista regional do Campeonato Paulista este ano, derrubando os darlings da capital (o temível São Paulo, o Palmeiras e o Corinthians), e, finalmente, a consagração final com a vitória de ontem, na Taça Libertadores do América, triunfando como mais um time brasileiro, tricampeão da Libertadores, igualado agora com o São Paulo. Sim, podem gritar santistas, o Santos agora é, pela terceira vez, após mais de quarenta anos, campeão das Américas! Relembrando o símbolo do clube da zona portuária paulista: É peixeeeeeee!!
A jornada do Santos na Libertadores foi épica porque se manteve como único time brasileiro a permanecer na segunda fase do campeonato, tendo em vista a derrota precoce de times já acostumados com o certame, tais como o competente Internacional, seu rival Grêmio, o habilidoso Cruzeiro, o popular Corinthians, o Fluminense ( campeão brasileiro de 2010), e o tinhoso Flamengo. A conquista da Libertadores também foi a conquista pessoal do técnico Muricy Ramalho (preterido para chefiar a seleção brasileira na próxima Copa, substituído por Mano Menezes), e um cala-boca no seu antigo time, o Fluminense, que o demitiu no meio do campeonato, acusado de ser um técnico que "amarela" nas partidas decisivas. Gosto dos redimidos, pois são aqueles que ninguém acredita e que conseguem dar a volta por cima. Por isso que me tornei botafoguense, por isso que gosto de futebol , e, sobretudo, por isso que sei me curvar ao reconhecer um bom futebol.
É natural que após o final do ano, o Santos possa não contar mais com a habilidade e a alegria de Neymar, vestindo a camisa do clube (uma vez que já foi cortejado por centenas de vezes por ínúmeros clubes europeus, especialmente o milionário Chelsea, interessado no jogador), e o caixa do time paulista não será suficiente para mantê-lo durante muito tempo; mas o que ficará na memória é como esse notável time conseguiu manter entre suas paredes jogadores tão maravilhosos como Pelé e Neymar, que, na data de ontem (22 de junho de 2011. Que fique pra história, por favor!), mais uma vez, para os aficcionados por futebol, independente da camisa do time que vistam, impressionaram um país inteiro (talvez, menos os corintianos, ainda revoltados com a derrota anterior), mostrando um futebol que deseja apenas um objetivo: vencer. Como é bom vencer, sobretudo quando a vitória é merecida. Parabéns, Santos!
Um blog em forma de almanaque, com comentários sobre cultura, política, economia, esporte, direito, história, religião, quadrinhos, a vida do próximo, o que você desejar, ou que os seus olhos se permitam a ler e comentar, contribuindo para as reflexões desse humilde missivista, neófito nos mares internaúticos, em meio a esta paranoia moderna.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
POLÍTICA: Qual a relação entre a queda de Palocci e a aplicação da teoria dos sistemas de Luhmann?
Mediante os comentários de, praticamente, todos os meios de comunicação do Brasil acerca da queda do ministro chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, pelos motivos mais do que óbvios de suspeita de enriquecimento indevido (ou ao menos acelerado) no tempo em que era apenas um deputado federal, envolvido na sucessão de Lula, me veio a ideia de introduzir uma discussão sociológica sobre o fato, utilizando um pouco dos referenciais teóricos que empreguei em minha tese de doutorado, sem, contudo, querer entediar o leitor ou transformar este idílico espaço virtual num local para profundas e prolíficas reflexões acadêmicas que só interessariam a mim mesmo. Na verdade,o que pretendo é tentar discorrer em linhas simples, e numa linguagem acessível, alguns pressupostos da teoria dos sistemas sociais autopoiéticos, atribuída ao sociológo alemão Niklas Luhmann (1927-1998).
O professor Luhmann,para muitos,é considerado um dos maiores pensadores das ciências sociais do século XX, e, apesar de incompreendido por alguns, que chegam a considerar sua teoria por demais formalista ou conservadora,eu, particularmente, como bom estudante de pós-graduação, fiquei seduzido pelo apelo dos chamados "sistêmicos", e creio que é chegada a hora de prestar a devida homenagem a um teórico que já visitou, conheceu e admirou o Brasil, aplicando sua teoria na realidade brasileira, cabendo aqui uma homenagem a Luhmann através de comentários à crônica política nacional, valendo-se de seu referencial teórico, mormente em relação aos últimos controversos acontecimentos envolvendo o ex-chefe da Casa Civil.
Luhmann retira do conceito de "autopoiese", encontrado na biologia através dos estudos do bióloco chileno, Humberto Maturana, a chave para explicar a formação da sociedade e a dinâmica das relações sociais. Autopoiese significa, ao pé da letra, autoprodução, autorreprodução ou, para alguns, simplesmente, a autonomia de um sistema ou forma de vida de se manter por si próprio. Isso implica em dizer que determinados seres vivos tem vida própria, como as plantas, e assim como na natureza, na sociedade, pela teoria de Luhmann, os distintos sistemas sociais (econômico, político, jurídico, artístico, religioso), tem sua autonomia em relação a um e outro, com suas operações internas, códigos e programações próprios. Luhmann entendia que cada sistema funciona sob uma espécie de código binário, um vetor que orientasse as comunicações(relações sociais) que se dão no interior de cada sistema, baseado numa constante e sistemática diferenciação, como, por exemplo: no sistema econômico, em que o código é baseado na diferenciação entre ter X não ter; ou no sistema religioso, baseado no código sagrado X profano. O código serve para diferenciar o sistema dos demais sistemas sociais, uma vez que cada sistema permanece fechado nas suas próprias relações internas, em relação aos outros, como condição para que exista como sistema social. Assim, a diferenciação é fundamental para que um sistema seja reconhecido como distinto por outro sistema social. Entretanto, os sistemas não permanecem fechados sem se comunicar, pois acontece o que Luhmann define como "acoplamento estrutural", na medida em que um sistema se abre, a fim de proporcionar um canal de comunicação com outro sistema.
Traduzindo numa linguagem mais simples, a reação de Palocci diante das acusações de ter multiplicado seu patrimônio mais de vinte vezes, num tempo extremamente rápido, não foi suficiente para mantê-lo no cargo, não obstante não terem prosperado denúncias no aspecto jurídico, uma vez que todos os pedidos de ajuizamento de ação contra o ex-ministro foram arquivados pelo procurador-geral da república. Para explicar perante a opinião pública seu ganho espantoso de patrimônio, que o tornou um homem rico em menos de cinco anos, Palocci preferiu se valer do código lícito X ilícito presente no sistema do direito, valendo-se de argumentos jurídicos acerca do sigilo de suas transações comerciais com seus clientes, nas suas atividades de consultoria, sem conceber que as regras de direito privado, atinentes as suas atividades como consultor, não eram consentâneas com àquelas relacionadas com sua atividade de deputado federal, homem público sujeito não apenas às normas de direito público, mas também dependente de um sistema moral que se destaca do sistema jurídico, mas que se acopla ao sistema político. Em outras palavras, juridicamente Palocci se safou, politica e moralmente, não.
O ex-ministro Palocci não compreendeu, se eu for usar a terminologia luhmanniana, os acoplamentos necessários entre o sistema político e o sistema jurídico para que ele pudesse unir a virtu e fortuna tão presentes em sua carreira política desde a Prefeitura de Ribeirão Preto até chegar a Casa Civil, e que adornam o pensamento de Maquiavel acerca do político sagaz e astuto que soube aproveitar as boas oportunidades que lhe vieram. Ao invés disso, a imagem que permaneceu do ex-ministro para a opinião pública foi a de um político que cedeu às tentações do poder, principalmente no que tange ao enriquecimento e à acumulação de capital, em virtude dos bons contatos que estabeleceu na área econômica, no período em que foi Ministro da Fazenda no primeiro mandato presidencial de Lula, e na articulação da campanha da atual presidente, Dilma Roussef.
Assim como aquele político provinciano, do interior, que seduzido pelos encantos dos salões do poder, acaba por cometer gafes imperdoáveis, como a de se deixar levar pelas aduladores e pelo induzimento de seus subordinados, ao frequentar mansões suspeitas em Brasília, ou autorizar (ou ao menos aquiescer) a quebra ilegal do sigilo bancário de um simples caseiro, Palocci cometeu seu segundo erro fatal, no sistema da política, ao tentar agir conforme o código poder X não poder, sem se aperceber que tal atitude não correspondia ao código de licítio X ilícito do sistema jurídico. Se no caso do caseiro, Palocci confundiu os códigos, no caso recente de seu enriquecimento mal explicado aconteceu o mesmo, valendo-se o ministro de argumentos jurídicos para não abrir o bico quanto à identidade de seus contratantes e a origem de tanto dinheiro em seu patrimônio, ao invés de se valer de argumentos pretensamente políticos, de provar que o que estava em jogo não era a presunção ética de sua conduta de homem público ao possuir um patrimônio tão elevado, mas sim os destinos da nação, diante da necessidade da manutenção no ministério de um articulador político que, de forma diligente, mantivesse unida no Congresso a bancada oposicionista. Palocci caiu por parecer titubeante, por não se deixar levar pelas comunicações típicas do sistema político, por ter permanecido na defensiva, quando lhe era exigido entrar em campo e contra-atacar, participando das operações internas do sistema que ingressara. Ficou o dito pelo não dito, a ausência de explicação do inexplicável.
Palocci não é o primeiro, nem último caso, do político de origem trotskista, que egresso do movimento estudantil, deixa de ser médico envolvido nas lutas sociais, e se transforma no empresário bem sucedido, deslumbrado com o vil metal. Porém, o PT, como partido surgido dentro das disputas internas do sistema político, na diferenciação entre poder X não poder, proferiu durante toda sua história um discurso de conquista legítima do poder, através do voto, da participação popular e democrática, unindo os segmentos subalternos mais organizados da sociedade brasileira, na busca do sonho possível de colocar um de seus iguais no comando da nação. Em síntese, ao levar um ex-metalúrgico à presidência, o Partido dos Trabalhadores fez valer seu slogan básico, herdado historicamente dos antigos movimentos socialistas: "trabalhadores no poder". Entretanto, essa classe social parece ter se perdido, na medida em que seus militantes de classe média, como Palocci, acabaram por mudar de classe social, tornando-se os patrões, os banqueiros, empresários ou donos de fábrica, na perspectiva da aliança de classes pretendida por Lula e que muito contrariou os setores marxistas da esquerda brasileira.
Políticos de origem esquerdista e que caem momentaneamente em desgraça política, como Palocci, são resultado da forma como evoluíram as operações internas do sistema político no Brasil, e de como os subsistemas vinculados à atividade política dos grupos de esquerda evoluíram junto com o país, após a redemocratização. Invoca-se a chamada "fórmula de contingência", que é o que dá unidade ao sistema, segundo a teoria de Luhmann, conferindo-lhe sentido. O sentido da política é a busca do poder do Estado, assim como a fórmula de contingência do sistema do direito encontra-se na justiça. O Estado, como fórmula de contingência da política, implica em uma série de "irritações" nos demais sistemas sociais, se eu for aqui utilizar novamente a teoria de Luhmann, no sentido de afirmar que na busca pelo poder, partidos e siglas de esquerda como o PT apenas se submetem à programação das operações do sistema político, no momento em que se organizam com seus candidatos e ganham eleições; mas, a partir daí, passam a tecer toda uma rede de relações sociais de dependência, clientelismo e fisiologismo, que envolvem outros sistemas sociais, como o sistema econômico, que acabou por proporcionar todo um enriquecimento ou ganho de capital para o ex-ministro Antônio Palocci.
Em síntese, não quero afirmar aqui que os representantes da classe política são todos iguais, e por isso não vale à pena participar do processo democrático-eleitoral que se dá no âmbito do sistem político. O que quero dizer é que, sistemicamente falando, todos os últimos acontecimentos, da história recente das lutas de poder no Brasil, levaram políticos como Palocci a sofrer um duro revés em suas trajetórias de homens públicos, no momento em que passaram a confundir tomada do poder com legitimidade no exercício da função pública. Entretanto, que isso faz parte das comunicações internas do sistema político, assim como de seus acoplamentos com os demais sistemas sociais, não é novidade. Talvez, se determinados parlamentares ou ministros contassem com uma boa assessoria de sociólogos, o tamanho da queda não fosse tão grande, e seu ímpeto de reproduzir autopoieticamente as relações do sistema social que ingressaram não seria tão carente de reflexividade. Que ao menos sirva ao ex-ministro Palocci de lição, que não se pode querer obter o poder político e o poder econômico de uma só vez, sem acompanhar as evoluções e os acoplamentos necessários do sistema político e do sistema econômico. Para Palocci, só resta agora a próxima legislatura e uma boa atividade empresarial como consultor de negócios. Se fosse eu, com bons advogados, bons contadores e bons assessores políticos, da próxima vez, no mínimo eu comprava um apartamentinho básico em Santo Amaro, perto do povão, pra ninguém que meu olho cresceu, diante da possibilidade de lucrar tanto com o exercício do poder. Se cuida, Palocci!
O professor Luhmann,para muitos,é considerado um dos maiores pensadores das ciências sociais do século XX, e, apesar de incompreendido por alguns, que chegam a considerar sua teoria por demais formalista ou conservadora,eu, particularmente, como bom estudante de pós-graduação, fiquei seduzido pelo apelo dos chamados "sistêmicos", e creio que é chegada a hora de prestar a devida homenagem a um teórico que já visitou, conheceu e admirou o Brasil, aplicando sua teoria na realidade brasileira, cabendo aqui uma homenagem a Luhmann através de comentários à crônica política nacional, valendo-se de seu referencial teórico, mormente em relação aos últimos controversos acontecimentos envolvendo o ex-chefe da Casa Civil.
Luhmann retira do conceito de "autopoiese", encontrado na biologia através dos estudos do bióloco chileno, Humberto Maturana, a chave para explicar a formação da sociedade e a dinâmica das relações sociais. Autopoiese significa, ao pé da letra, autoprodução, autorreprodução ou, para alguns, simplesmente, a autonomia de um sistema ou forma de vida de se manter por si próprio. Isso implica em dizer que determinados seres vivos tem vida própria, como as plantas, e assim como na natureza, na sociedade, pela teoria de Luhmann, os distintos sistemas sociais (econômico, político, jurídico, artístico, religioso), tem sua autonomia em relação a um e outro, com suas operações internas, códigos e programações próprios. Luhmann entendia que cada sistema funciona sob uma espécie de código binário, um vetor que orientasse as comunicações(relações sociais) que se dão no interior de cada sistema, baseado numa constante e sistemática diferenciação, como, por exemplo: no sistema econômico, em que o código é baseado na diferenciação entre ter X não ter; ou no sistema religioso, baseado no código sagrado X profano. O código serve para diferenciar o sistema dos demais sistemas sociais, uma vez que cada sistema permanece fechado nas suas próprias relações internas, em relação aos outros, como condição para que exista como sistema social. Assim, a diferenciação é fundamental para que um sistema seja reconhecido como distinto por outro sistema social. Entretanto, os sistemas não permanecem fechados sem se comunicar, pois acontece o que Luhmann define como "acoplamento estrutural", na medida em que um sistema se abre, a fim de proporcionar um canal de comunicação com outro sistema.
Traduzindo numa linguagem mais simples, a reação de Palocci diante das acusações de ter multiplicado seu patrimônio mais de vinte vezes, num tempo extremamente rápido, não foi suficiente para mantê-lo no cargo, não obstante não terem prosperado denúncias no aspecto jurídico, uma vez que todos os pedidos de ajuizamento de ação contra o ex-ministro foram arquivados pelo procurador-geral da república. Para explicar perante a opinião pública seu ganho espantoso de patrimônio, que o tornou um homem rico em menos de cinco anos, Palocci preferiu se valer do código lícito X ilícito presente no sistema do direito, valendo-se de argumentos jurídicos acerca do sigilo de suas transações comerciais com seus clientes, nas suas atividades de consultoria, sem conceber que as regras de direito privado, atinentes as suas atividades como consultor, não eram consentâneas com àquelas relacionadas com sua atividade de deputado federal, homem público sujeito não apenas às normas de direito público, mas também dependente de um sistema moral que se destaca do sistema jurídico, mas que se acopla ao sistema político. Em outras palavras, juridicamente Palocci se safou, politica e moralmente, não.
O ex-ministro Palocci não compreendeu, se eu for usar a terminologia luhmanniana, os acoplamentos necessários entre o sistema político e o sistema jurídico para que ele pudesse unir a virtu e fortuna tão presentes em sua carreira política desde a Prefeitura de Ribeirão Preto até chegar a Casa Civil, e que adornam o pensamento de Maquiavel acerca do político sagaz e astuto que soube aproveitar as boas oportunidades que lhe vieram. Ao invés disso, a imagem que permaneceu do ex-ministro para a opinião pública foi a de um político que cedeu às tentações do poder, principalmente no que tange ao enriquecimento e à acumulação de capital, em virtude dos bons contatos que estabeleceu na área econômica, no período em que foi Ministro da Fazenda no primeiro mandato presidencial de Lula, e na articulação da campanha da atual presidente, Dilma Roussef.
Assim como aquele político provinciano, do interior, que seduzido pelos encantos dos salões do poder, acaba por cometer gafes imperdoáveis, como a de se deixar levar pelas aduladores e pelo induzimento de seus subordinados, ao frequentar mansões suspeitas em Brasília, ou autorizar (ou ao menos aquiescer) a quebra ilegal do sigilo bancário de um simples caseiro, Palocci cometeu seu segundo erro fatal, no sistema da política, ao tentar agir conforme o código poder X não poder, sem se aperceber que tal atitude não correspondia ao código de licítio X ilícito do sistema jurídico. Se no caso do caseiro, Palocci confundiu os códigos, no caso recente de seu enriquecimento mal explicado aconteceu o mesmo, valendo-se o ministro de argumentos jurídicos para não abrir o bico quanto à identidade de seus contratantes e a origem de tanto dinheiro em seu patrimônio, ao invés de se valer de argumentos pretensamente políticos, de provar que o que estava em jogo não era a presunção ética de sua conduta de homem público ao possuir um patrimônio tão elevado, mas sim os destinos da nação, diante da necessidade da manutenção no ministério de um articulador político que, de forma diligente, mantivesse unida no Congresso a bancada oposicionista. Palocci caiu por parecer titubeante, por não se deixar levar pelas comunicações típicas do sistema político, por ter permanecido na defensiva, quando lhe era exigido entrar em campo e contra-atacar, participando das operações internas do sistema que ingressara. Ficou o dito pelo não dito, a ausência de explicação do inexplicável.
Palocci não é o primeiro, nem último caso, do político de origem trotskista, que egresso do movimento estudantil, deixa de ser médico envolvido nas lutas sociais, e se transforma no empresário bem sucedido, deslumbrado com o vil metal. Porém, o PT, como partido surgido dentro das disputas internas do sistema político, na diferenciação entre poder X não poder, proferiu durante toda sua história um discurso de conquista legítima do poder, através do voto, da participação popular e democrática, unindo os segmentos subalternos mais organizados da sociedade brasileira, na busca do sonho possível de colocar um de seus iguais no comando da nação. Em síntese, ao levar um ex-metalúrgico à presidência, o Partido dos Trabalhadores fez valer seu slogan básico, herdado historicamente dos antigos movimentos socialistas: "trabalhadores no poder". Entretanto, essa classe social parece ter se perdido, na medida em que seus militantes de classe média, como Palocci, acabaram por mudar de classe social, tornando-se os patrões, os banqueiros, empresários ou donos de fábrica, na perspectiva da aliança de classes pretendida por Lula e que muito contrariou os setores marxistas da esquerda brasileira.
Políticos de origem esquerdista e que caem momentaneamente em desgraça política, como Palocci, são resultado da forma como evoluíram as operações internas do sistema político no Brasil, e de como os subsistemas vinculados à atividade política dos grupos de esquerda evoluíram junto com o país, após a redemocratização. Invoca-se a chamada "fórmula de contingência", que é o que dá unidade ao sistema, segundo a teoria de Luhmann, conferindo-lhe sentido. O sentido da política é a busca do poder do Estado, assim como a fórmula de contingência do sistema do direito encontra-se na justiça. O Estado, como fórmula de contingência da política, implica em uma série de "irritações" nos demais sistemas sociais, se eu for aqui utilizar novamente a teoria de Luhmann, no sentido de afirmar que na busca pelo poder, partidos e siglas de esquerda como o PT apenas se submetem à programação das operações do sistema político, no momento em que se organizam com seus candidatos e ganham eleições; mas, a partir daí, passam a tecer toda uma rede de relações sociais de dependência, clientelismo e fisiologismo, que envolvem outros sistemas sociais, como o sistema econômico, que acabou por proporcionar todo um enriquecimento ou ganho de capital para o ex-ministro Antônio Palocci.
Em síntese, não quero afirmar aqui que os representantes da classe política são todos iguais, e por isso não vale à pena participar do processo democrático-eleitoral que se dá no âmbito do sistem político. O que quero dizer é que, sistemicamente falando, todos os últimos acontecimentos, da história recente das lutas de poder no Brasil, levaram políticos como Palocci a sofrer um duro revés em suas trajetórias de homens públicos, no momento em que passaram a confundir tomada do poder com legitimidade no exercício da função pública. Entretanto, que isso faz parte das comunicações internas do sistema político, assim como de seus acoplamentos com os demais sistemas sociais, não é novidade. Talvez, se determinados parlamentares ou ministros contassem com uma boa assessoria de sociólogos, o tamanho da queda não fosse tão grande, e seu ímpeto de reproduzir autopoieticamente as relações do sistema social que ingressaram não seria tão carente de reflexividade. Que ao menos sirva ao ex-ministro Palocci de lição, que não se pode querer obter o poder político e o poder econômico de uma só vez, sem acompanhar as evoluções e os acoplamentos necessários do sistema político e do sistema econômico. Para Palocci, só resta agora a próxima legislatura e uma boa atividade empresarial como consultor de negócios. Se fosse eu, com bons advogados, bons contadores e bons assessores políticos, da próxima vez, no mínimo eu comprava um apartamentinho básico em Santo Amaro, perto do povão, pra ninguém que meu olho cresceu, diante da possibilidade de lucrar tanto com o exercício do poder. Se cuida, Palocci!
quarta-feira, 8 de junho de 2011
CINEMA: "A minha versão do Amor" não é só minha, mas tua, dele, dela, de muita gente ou de todos nós.
Na minha mais recente viagem a minha querida (mas bastante fria no inverno) cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, tive a oportunidade de visitar seus bares, cafés e cinemas, e matar as saudades de algumas tradicionais salas de cinema de que gosto muito, dentre elas o Guion Center, no shopping Olaria, no bairro da Cidade Baixa, próximo há onde morei na cidade. No lugar sempre tem filmes do mundo inteiro, de cineastas e atores de várias nacionalidades, com películas que não circulam nacionalmente no circuito nacional, e muitos filmes de "arte" (Arghhh!! Odeio essa expressão, pois, afinal, cinema não é uma forma de arte?) ou filmes do chamado cinema alternativo, com bons enredos de maravilhosos dramas, aventuras ou comédias.
Pois foi num de meus passeios pelo Guion que vi na semana passada a belíssima comédia dramática "A Minha Versão do Amor" (Barney's Version), do diretor norte-americano Richard J. Lewis. Apesar de ter saído no ano passado, o filme só foi chegar até os cinemas brasileiros este ano, e eu tive a grata oportunidade de não ser mais um daqueles que só verá o filme em DVD (senão numa porca versão pirata), mas sim tendo a emoção e o intimismo provocado pela escuridão da tela grande do cinema, ao ver um belo filme que me arrancou sinceras lágrimas (Sim! Vocês já sabem! Sou um sentimental!). O filme concedeu o Globo de Ouro, prêmio da crítica de cinema norte-americana, ao ator Paul Giamatti, que interpreta o protagonista, Barney Panofsky, que, por sinal, foi um dos grandes injustiçados nas indicações ao Oscar de melhor ator este ano, por sua magistral interpretação, numa obra que é uma adaptação do livro do escritor canadense, Mordechai Richler. Pois bem! O que é que o filme tem de tão especial?O filme trata da história de vida de Barney, relembrada por ele já idoso, após os sessenta anos, sentindo os primeiros sinais do mal de Alzeheimer. Ele é um escritor mal-sucedido na juventude, que apesar de fanfarrão,sarcástico e meio amargo, é rodeado de amigos que o amam, além de ter tido a sorte de ter se relacionado com belas mulheres. O personagem cai como uma luva em Giamatti, uma vez que seu tipo comum de cara baixinho, barbudo, gordinho, meio enfezado e judeu, corresponde a muitos estereótipos de como nós mesmos somos ou já fomos ou de pessoas que conhecemos (eu, principalmente, no vai-e-vém do efeito sanfona de ficar um pouco acima do peso, de vez em quando). Apesar de seu jeito esquisito, Barney na verdade é um boa-praça, um romântico incorrigível que só quer encontrar o amor da sua vida, pois se trata de um cara sensível e sujeito talentoso que consegue excelentes oportunidades na vida, até se firmar como diretor de um programa de televisão. Não obstante a vida profissional, no decorrer de sua vida Barney tem uma intensa e tumultuada vida amorosa, que serve de fio condutor para a estória.
É pela história de seus amores que ficamos conhecendo melhor Barney, seus erros e sucessos e de como sua vida chegou aonde chegou. A estória tem um pouco de Charles Dickens, como em Um Conto de Natal, quando o personagem, já envelhecido, relembra passagens de sua vida. Mas distante de ser meramente um filme que trata de nostalgia, o filme de Lewis trata de maturidade, da experiência que obtemos com o passar dos anos, mediante os atropelos do destino. O filme também trata da relação paterna, aí lembrando um pouco o filme Peixe Grande de Tim Burton, quando nas memórias de Barney ele lembra dos conselhos e do companheirismo de seu velho pai, Izzy, um policial aposentado, interpretado com o magnetismo do veterano e oscarizado Dustin Hoffman. Mas as mulheres de Barney, que constituem o cerne de sua vida amorosa, também são interpretadas brilhantemente por ótimas atrizes, com destaque para a atriz britânica Rosamund Pike, que interpreta Miriam, a terceira (e mais duradoura) esposa de Barney. No decorrer da estória, ficamos descobrindo porque Barney passou por tantas agruras que levaram a três casamentos, decorrentes de seus erros e acertos, e também sabemos qual das mulheres ele realmente amou.
Mas o que salva Barney's Version de se tornar apenas uma novela melodramática é o bom roteiro, uma direção que não perde o traço em descrever a humanidade dos personagens, além do traço existencial dado por Giamatti a Barney e o olhar distante e desesperançado do protagonista envelhecido, quando começa a sentir os efeitos da doença que corrói sua memória. É aqui que o drama atinge sua dimensão mais comovente, quando percebemos que aquilo que mais atormenta o personagem não foi o preço pesado de suas escolhas no decorrer da vida, que culminaram no final de três casamentos, mas sim a perda das lembranças, que é tudo aquilo que Barney ainda tem. Afinal, se as mulheres e amigos se foram, o que ficam são as lembranças, e é de tocar o coração ver a angústia do personagem em perceber que as pessoas, lugares e fatos que fizeram a sua vida começam a desaparecer de sua mente e na sua luta para fazer permanecer na memória as pessoas que tanto amou é que vemos a necessidade de nós mesmos efetuarmos nossos resgates internos, não como uma forma masoquista de cultivar a nostalgia, mas sim pelo singelo ato de preservar a saudade. No final das contas, "A Minha Versão do Amor" trata de saudade, um sentimento que não se traduz em palavras e nem se escuta ao vento, mas que se manifesta através dos olhos. No caso, através dos olhos caídos e lacrimejantes de Barney Panofsky.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
METRÔ EM SÃO PAULO: O mundo e suas pessoas "diferenciadas".
São Paulo é a terra da garoa, dos sambas clássicos e adoráveis de Adoniran Barbosa, da Avenida Paulista e do "progressiu" do sotaque ítalo-brasileiro de bairros como a Mooca, Brás e Pompéia, ou da graça japonesa das ruas da Liberdade. É o palco histórico da célebre Revolução de 32, assim como dos comícios da Praça da Sé, do movimento das Diretas Já, em 1984, como também revela, entre prédios, pontes e viadutos, a beleza verde do parque do Ibirapuera, a modernidade nas pistas do autódromo de Interlagos ou dos prédios coloridos desenhados por Tomie Ohtake, a majestade do Edifício Martinelli, bem como também é um celeiro de cultura global, com seus museus, ateliês, teatros, cinemas, casas de cultura, livrarias, sebos, bibliotecas, shows, os músicos de rua do bairro de Pinheiros e uma centena de faculdades e universidades, espalhadas pela metrópole bandeirante.
Mas São Paulo também é a meca do capitalismo selvagem brazuca, a prova inconteste e exposta a olho nu das acirradas desigualdades sociais, do jogo de gato e rato de quem tem mais e de que tem menos. São Paulo é uma megalópole, uma metrópole global, onde circula a maior parte do capital na América Latina; mas São Paulo tem outra particularidade: seus meios de transporte, em especial o metrô.
Uma das maiores chagas ou um verdadeiro câncer em metástase eterna na metrópole bandeirante é sua deficiência de meios de transporte, implantados numa cidade cujo crescimento urbano foi intensamente desordenado, ao sabor dos caóticos processos de ocupação das urbes nos países latino-americanos de modernidade tardia. Pelo tamanho da cidade e a quantidade de sua população, as distâncias são imensas, os meios para se chegar de um lugar ao outro são dos mais dificultosos, e a extensa malha viária da cidade sempre foi altamente deficiente. O dilema que muitos países do Primeiro Mundo enfrentaram de maneira satisfatória, equilibrando investimento público em transporte coletivo de massa, junto com a contenção conscientizada do tráfego de veículos particulares (mormente em dias de semana), parece que nunca ecoou bem na cidade paulista. Ao contrário, sempre se investiu em mais e mais carros, e num momento histórico de transformação social, onde nos últimos 8 anos o poder aquisitivo da classe trabalhadora aumentou, e os postos de trabalho avançaram, incluindo os excluídos, todos os indivíduos integrantes, outrora, das classes "E" e "D", agora decidiram ter um carro, no momento em que galgaram de posição social, transformando-se numa festiva classe "C".
Mas não há meio de transporte mais conflituoso e que expressa bem a cara de São Paulo que o metrô. Fundado tardiamente no Brasil na década de setenta do século passado (levando-se em conta que a Argentina já contava com metrô desde as primeiras décadas do século XX), o sistema de transporte público de metrô em São Paulo sempre necessitou de uma atualização, não apenas com o aumento de sua malha viária, mas também a partir de uma distribuição racionalizada de estações por toda a cidade, que propiciasse o acesso a um meio de transporte mais rápido e acessível, a milhões de trabalhadores que todos os dias deslocam-se de sua casas ainda de madrugada, no começo de cada dia, para encarar a labuta diária de ônibus lotados, vagarosos, num trânsito que é a antesala do inferno. Tudo isso para, após horas, poder chegar finalmente aos seus postos de trabalho, reiniciando o calvário no final de cada expediente.
Eis que na atual reforma do metrô, após a badalada inauguração da estação Pinheiros, toda com apoio da iniciativa privada ( após os tétricos desabamentos há dois anos atrás, com vítimas fatais, que mostraram a deficiência da obra), o atual governador do estado, Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab se vêem as voltas com uma nova polêmica: uma polêmica de classe.
Há poucos dias atrás, sabedores de que iria ser construída uma estação de metrô na rua Sergipe, nas proximidades da Avenida Angélica, moradores do elegante e tradicional bairro de Higienópolis enviaram um abaixo-assinado, com mais de três mil assinaturas ao governo do estado, revelando o protesto de quem, por sua condição de classe, não admite a convivência entre diferentes. No manifesto, os grã-finos e intelectulizados vizinhos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que mora no bairro), revelaram seu medo de que a construção de uma estação do metrô em Higienópolis culminaria com dantescas cenas vistas em outros lugares, por onde passam as linhas do metrô, tais como: camelôs com suas bancas de bugigangas ao redor das estações, vendedores de churrasquinho, mendigos, proxenetas interessados na venda de passagens falsas, viciados em drogas, assaltantes trombadinhas e outros vagabundos de plantão. Curioso foi o teor até singelo da carta endereçada ao governador Alckmin, onde no decorrer do texto, segue-se a transcrição literal das palavras que sintetizavam o porquê da ojeriza dos moradores de Higienópolis da chegada do novo meio de transporte em seu bairro: a presença futura de "gente diferenciada". Este também foi o entendimento de uma psicóloga, moradora do bairro, que numa entrevista a uma rede de televisão, fez crer que ida do metrô para o tradicionalíssimo bairro acabaria atraindo as classes populares, para o entorno tradicionalmente conhecido como point de uma clientela selecionada, de pessoas de classe alta e classe média alta. Pessoas também "diferenciadas", só que, nesse caso, diferenciadas para o bom e para o melhor.
O fato despertou a atenção da mídia brasileira, com notícias e manchetes que pululuram nas duas últimas semanas nos meios de comunicação, chamando a atenção da imprensa e dos grandes jornais. Não tardou para que até o ex-presidente Lula se pronunciasse sobre o acontecimento, chamando de preconceituosos os moradores do bairro, que não querem a construção do metrô, para que isso não atraía gente pobre para a região. Já alguns gaiatos na internet, logo iniciaram uma campanha nas redes sociais, conseguindo convocar centenas de manifestantes para participar de um "churrascão da gente diferenciada", onde estudantes, artistas e repórteres do CQC divertiam-se com o mote das piadas que se seguiam diante de estupefatos olhares de reprovação da elite paulistana. Sobrou até para o ex-candidato à presidência, José Serra, do partido de oposição ao governo, citado em algumas charges como principal representante de um eleitorado, que não gosta do "cheiro do povão".
Pois se cheiro de povo é o cheiro de churrasquinho feito nas banquinhas de camelô, à beira da escadaria das estações de metrô nas grandes cidades, parece ser esse o destino da futura estação Higienópolis, mesmo que o governo tenha alterado o plano inicial de construir a estação na Avenida Angélica, nas proximidades da Universidade Mackenzie, e ter decidido começar as construções na mais afastada rua Sergipe. De qualquer forma, o episódio que ocorreu em São Paulo reacendeu o debate sobre a luta de classes, segundo alguns jornais paulistanos, mas revelou principalmente, de maneira escancarada, o real preconceito que até então encontrava-se enrustido em numerosas comunidades de classe média da metrópole paulistana, que quando são atingidas diretamente, não medem esforços para destilar verbalmente toda sua carga de preconceito e discriminação social. Em recente pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, a maioria dos entrevistados pertencentes às classes "D" e "E", trabalhadores subalternos, e que prestam os mais diversos serviços como empregados em condomínios luxuosos, garçons, zeladores, porteiros, empregadas domésticas e motoristas, concordam com a existência de metrô no bairro de Higienópolis, como forma de garantir um transporte mais barato e acessível para todos os trabalhadores que se deslocam para região. Afinal, transporte público é de interesse de quem, cara-pálida?
Nas maiores metrópoles do mundo, o sistema do metrô é bem vindo, geograficamente espalhado por toda a cidade e visto como uma iniciativa apoiada por todas as classes sociais, tendo em vista que num ambiente urbano, com trânsito desenfreado, poluição e uma quantidade imensa de veículos, ver o metrô funcionar é quase uma benção para quem defende um meio de transporte alternativo, organizado, não-poluente e que emprega milhares de pessoas, além de transportar milhões. Parece que no seu provincianismo, oriundo de um conservadorismo latente, em que os altos prédios e mansões em Higienópolis, no passado abrigavam imensas xácaras e fazendas, os ricos moradores da região parecem às vezes se comportar como senhores feudais, ou como antigos membros da Casa Grande, onde os habitantes da senzala deveriam ficar bem afastados, de preferência, do outro lado da cidade. Mas eis que hoje a realidade é bem diferente, o Brasil é diferente.
Resta saber se irá prevalecer o bom senso, se o governo do estado de São Paulo não irá ceder aos mesquinhos interesses econômicos de uma elite insossa, e, ouvindo o clamor popular e a reprovação da opinião pública, finque de vez a estaca pela construção de uma estação de metrô em Higienópolis. A população pobre e trabalhadora de Sampa agradece. Já para o eleitorado serrista e tucano residente em São Paulo, mormente no bairro pivô do controvérsia, é no mínimo mais um revés para seu estilo de vida, ter que conviver com pessoas feias e pobres, que podem sair de qualquer lugar, a partir do metrô. Enquanto isso, os trabalhadores que se dirigem para lá, encaixotados como sardinhas dentro dos ônibus vão à luta, pegando no batente, com a dor e a delícia de serem...................."diferenciados".
Mas São Paulo também é a meca do capitalismo selvagem brazuca, a prova inconteste e exposta a olho nu das acirradas desigualdades sociais, do jogo de gato e rato de quem tem mais e de que tem menos. São Paulo é uma megalópole, uma metrópole global, onde circula a maior parte do capital na América Latina; mas São Paulo tem outra particularidade: seus meios de transporte, em especial o metrô.
Uma das maiores chagas ou um verdadeiro câncer em metástase eterna na metrópole bandeirante é sua deficiência de meios de transporte, implantados numa cidade cujo crescimento urbano foi intensamente desordenado, ao sabor dos caóticos processos de ocupação das urbes nos países latino-americanos de modernidade tardia. Pelo tamanho da cidade e a quantidade de sua população, as distâncias são imensas, os meios para se chegar de um lugar ao outro são dos mais dificultosos, e a extensa malha viária da cidade sempre foi altamente deficiente. O dilema que muitos países do Primeiro Mundo enfrentaram de maneira satisfatória, equilibrando investimento público em transporte coletivo de massa, junto com a contenção conscientizada do tráfego de veículos particulares (mormente em dias de semana), parece que nunca ecoou bem na cidade paulista. Ao contrário, sempre se investiu em mais e mais carros, e num momento histórico de transformação social, onde nos últimos 8 anos o poder aquisitivo da classe trabalhadora aumentou, e os postos de trabalho avançaram, incluindo os excluídos, todos os indivíduos integrantes, outrora, das classes "E" e "D", agora decidiram ter um carro, no momento em que galgaram de posição social, transformando-se numa festiva classe "C".Mas não há meio de transporte mais conflituoso e que expressa bem a cara de São Paulo que o metrô. Fundado tardiamente no Brasil na década de setenta do século passado (levando-se em conta que a Argentina já contava com metrô desde as primeiras décadas do século XX), o sistema de transporte público de metrô em São Paulo sempre necessitou de uma atualização, não apenas com o aumento de sua malha viária, mas também a partir de uma distribuição racionalizada de estações por toda a cidade, que propiciasse o acesso a um meio de transporte mais rápido e acessível, a milhões de trabalhadores que todos os dias deslocam-se de sua casas ainda de madrugada, no começo de cada dia, para encarar a labuta diária de ônibus lotados, vagarosos, num trânsito que é a antesala do inferno. Tudo isso para, após horas, poder chegar finalmente aos seus postos de trabalho, reiniciando o calvário no final de cada expediente.
Eis que na atual reforma do metrô, após a badalada inauguração da estação Pinheiros, toda com apoio da iniciativa privada ( após os tétricos desabamentos há dois anos atrás, com vítimas fatais, que mostraram a deficiência da obra), o atual governador do estado, Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab se vêem as voltas com uma nova polêmica: uma polêmica de classe.
Há poucos dias atrás, sabedores de que iria ser construída uma estação de metrô na rua Sergipe, nas proximidades da Avenida Angélica, moradores do elegante e tradicional bairro de Higienópolis enviaram um abaixo-assinado, com mais de três mil assinaturas ao governo do estado, revelando o protesto de quem, por sua condição de classe, não admite a convivência entre diferentes. No manifesto, os grã-finos e intelectulizados vizinhos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que mora no bairro), revelaram seu medo de que a construção de uma estação do metrô em Higienópolis culminaria com dantescas cenas vistas em outros lugares, por onde passam as linhas do metrô, tais como: camelôs com suas bancas de bugigangas ao redor das estações, vendedores de churrasquinho, mendigos, proxenetas interessados na venda de passagens falsas, viciados em drogas, assaltantes trombadinhas e outros vagabundos de plantão. Curioso foi o teor até singelo da carta endereçada ao governador Alckmin, onde no decorrer do texto, segue-se a transcrição literal das palavras que sintetizavam o porquê da ojeriza dos moradores de Higienópolis da chegada do novo meio de transporte em seu bairro: a presença futura de "gente diferenciada". Este também foi o entendimento de uma psicóloga, moradora do bairro, que numa entrevista a uma rede de televisão, fez crer que ida do metrô para o tradicionalíssimo bairro acabaria atraindo as classes populares, para o entorno tradicionalmente conhecido como point de uma clientela selecionada, de pessoas de classe alta e classe média alta. Pessoas também "diferenciadas", só que, nesse caso, diferenciadas para o bom e para o melhor.
O fato despertou a atenção da mídia brasileira, com notícias e manchetes que pululuram nas duas últimas semanas nos meios de comunicação, chamando a atenção da imprensa e dos grandes jornais. Não tardou para que até o ex-presidente Lula se pronunciasse sobre o acontecimento, chamando de preconceituosos os moradores do bairro, que não querem a construção do metrô, para que isso não atraía gente pobre para a região. Já alguns gaiatos na internet, logo iniciaram uma campanha nas redes sociais, conseguindo convocar centenas de manifestantes para participar de um "churrascão da gente diferenciada", onde estudantes, artistas e repórteres do CQC divertiam-se com o mote das piadas que se seguiam diante de estupefatos olhares de reprovação da elite paulistana. Sobrou até para o ex-candidato à presidência, José Serra, do partido de oposição ao governo, citado em algumas charges como principal representante de um eleitorado, que não gosta do "cheiro do povão". Pois se cheiro de povo é o cheiro de churrasquinho feito nas banquinhas de camelô, à beira da escadaria das estações de metrô nas grandes cidades, parece ser esse o destino da futura estação Higienópolis, mesmo que o governo tenha alterado o plano inicial de construir a estação na Avenida Angélica, nas proximidades da Universidade Mackenzie, e ter decidido começar as construções na mais afastada rua Sergipe. De qualquer forma, o episódio que ocorreu em São Paulo reacendeu o debate sobre a luta de classes, segundo alguns jornais paulistanos, mas revelou principalmente, de maneira escancarada, o real preconceito que até então encontrava-se enrustido em numerosas comunidades de classe média da metrópole paulistana, que quando são atingidas diretamente, não medem esforços para destilar verbalmente toda sua carga de preconceito e discriminação social. Em recente pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, a maioria dos entrevistados pertencentes às classes "D" e "E", trabalhadores subalternos, e que prestam os mais diversos serviços como empregados em condomínios luxuosos, garçons, zeladores, porteiros, empregadas domésticas e motoristas, concordam com a existência de metrô no bairro de Higienópolis, como forma de garantir um transporte mais barato e acessível para todos os trabalhadores que se deslocam para região. Afinal, transporte público é de interesse de quem, cara-pálida?
Nas maiores metrópoles do mundo, o sistema do metrô é bem vindo, geograficamente espalhado por toda a cidade e visto como uma iniciativa apoiada por todas as classes sociais, tendo em vista que num ambiente urbano, com trânsito desenfreado, poluição e uma quantidade imensa de veículos, ver o metrô funcionar é quase uma benção para quem defende um meio de transporte alternativo, organizado, não-poluente e que emprega milhares de pessoas, além de transportar milhões. Parece que no seu provincianismo, oriundo de um conservadorismo latente, em que os altos prédios e mansões em Higienópolis, no passado abrigavam imensas xácaras e fazendas, os ricos moradores da região parecem às vezes se comportar como senhores feudais, ou como antigos membros da Casa Grande, onde os habitantes da senzala deveriam ficar bem afastados, de preferência, do outro lado da cidade. Mas eis que hoje a realidade é bem diferente, o Brasil é diferente.
Resta saber se irá prevalecer o bom senso, se o governo do estado de São Paulo não irá ceder aos mesquinhos interesses econômicos de uma elite insossa, e, ouvindo o clamor popular e a reprovação da opinião pública, finque de vez a estaca pela construção de uma estação de metrô em Higienópolis. A população pobre e trabalhadora de Sampa agradece. Já para o eleitorado serrista e tucano residente em São Paulo, mormente no bairro pivô do controvérsia, é no mínimo mais um revés para seu estilo de vida, ter que conviver com pessoas feias e pobres, que podem sair de qualquer lugar, a partir do metrô. Enquanto isso, os trabalhadores que se dirigem para lá, encaixotados como sardinhas dentro dos ônibus vão à luta, pegando no batente, com a dor e a delícia de serem...................."diferenciados".
quarta-feira, 11 de maio de 2011
FATO HISTÓRICO: Bin Laden it's over!! Na troca das letrinhas, agora é Obama ao invés de Osama!
Quem foi em criança em 2001 ou nasceu no começo do século já deve ter convivido nas aulas escolares, nos comentários de seus pais ou de adultos, na televisão ou em jogos de videogame, com o fantasma de Osama Bin Laden. Desde os atentados terroristas nos EUA em 2001, com a destruição das Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e as cenas até hoje espetaculares, de um avião se projetando contra um dos prédios como se fosse um míssil, havia se construído um sentimento universal de vingança, viabilizado no discurso globalizado de Guerra ao Terror, através do governo de George W. Bush.
Eis que o mundo é surpreendido pela notícia, esta madrugada, através de um presidente cujo nome só se diferencia do homem mais procurado pelas forças de segurança estadunidenses por uma letra: Osama Bin Laden is dead!! Numa operação que envolveu as centrais de inteligência norte-americana e paquistanesa, além do emprego de um efetivo militar preparado para matar, foi invadida uma mansão próxima a Islamabad (capital do Paquistão), e lá foi encontrado e morto, Bin Laden, além de parte de seu séquito de apoiadores fanáticos e tão perigosos quanto seu líder. O saldo da operação: além da morte de Bin Laden, perdeu a vida um de seus filhos, e, segundo as agências de notícia, uma mulher que supostamente foi usada como escudo humano. Além da morte do principal inimigo da nação norte-americana, foram presos outros filhos de Bin Laden, acompanhados de suas esposas, que, com certo grau de certeza, deverão agora passar por severas humilhações, quiçá sessões de tortura, em alguma prisão militar no Afeganistão ou em Guantánamo. Na atual semana, na guerra de versões, revelou-se, na verdade, que Osama não usou uma mulher de escudo, e sim u uma de suas esposas partiu em direção dos soldados americanos, assim que eles entraram no quarto do terrorista, tentando impedir a sua morte e foi alvejada na perna. Agora o que se discute no Paquistão é o que será feito das mulheres de Bin Laden capturadas. Serão torturadas, já que se tratam de inimigas na Guerra ao Terror?
Aponta-se o atual presidente norte-americano, como o grande vencedor da caçada humana, que resultou como butim, a cabeça crivada de balas do terrorista saudita, ressucitando sua popularidade, despencada desde a crise econômica e por erros políticos que já foram comentados neste blog. Enquanto isso, a mídia brasileira se digladia, com as revistas Veja (da oposição) e Carta Capital (da situação) com versões diferentes acerca da existência ou não de um núcleo de terroristas da Al Qaeda situados no território brasileiro. Será que além de insanos atiradores de colégio, teremos como triste inovação primeiro mundista os nossos próprios ataques terroristas? Ou será que aparecerão novos Jean Charles, agora em Terra Brasilis, pela insanidade do discurso alarmista dos donos do poder? Quem viver verá! De preferência, sem levar um tiro no peito ou na cabeça!
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| Osama! A cara do mal durante dez anos! |
Os atentados das Torres Gêmeas por autoria de seu principal mentor,Bin Laden, líder da Al Qaeda, inauguraram definitivamente o novo século e também muito coisa ruim que apareceu depois disso. Se na segunda metade do século passado, viveu-se por mais de quarenta anos o clima pesado da Guerra Fria, com todos os conflitos dela resultantes (Guerra do Vietnam, terrorismos, ditaduras, revoluções), a primeira década do século XXI foi marcada pela luta contra o terrorismo, pelo discurso do inimigo oculto, e pelo retorno de práticas arbitrárias, sob o pretexto de renunciar aos direitos de liberdade em prol de uma maior e mais necessária segurança. Com sua tradição belicista, os Estados Unidos envolveram-se em duas guerras (Afeganistão e Iraque), fizeram eclodir no âmbito interno do espírito americano, uma nova direita religiosa, extremamente reaçonária e semifascista, além de fazer recrudescer os conflitos no Oriente Médio, seja no Iraque ou na já tradicional e horrorosa escaramuça entre israelenses e palestinos. Durante todo esse período, como uma espécie de "Che Guevara do mal", Osama Bin Laden pairou dominante, como um espectro nefasto de tudo o que o fundamentalismo islâmico, o militarismo beligerante ou a mera bandidagem internacional voltada para o tráfico de armas, podiam fazer.
Eis que o mundo é surpreendido pela notícia, esta madrugada, através de um presidente cujo nome só se diferencia do homem mais procurado pelas forças de segurança estadunidenses por uma letra: Osama Bin Laden is dead!! Numa operação que envolveu as centrais de inteligência norte-americana e paquistanesa, além do emprego de um efetivo militar preparado para matar, foi invadida uma mansão próxima a Islamabad (capital do Paquistão), e lá foi encontrado e morto, Bin Laden, além de parte de seu séquito de apoiadores fanáticos e tão perigosos quanto seu líder. O saldo da operação: além da morte de Bin Laden, perdeu a vida um de seus filhos, e, segundo as agências de notícia, uma mulher que supostamente foi usada como escudo humano. Além da morte do principal inimigo da nação norte-americana, foram presos outros filhos de Bin Laden, acompanhados de suas esposas, que, com certo grau de certeza, deverão agora passar por severas humilhações, quiçá sessões de tortura, em alguma prisão militar no Afeganistão ou em Guantánamo. Na atual semana, na guerra de versões, revelou-se, na verdade, que Osama não usou uma mulher de escudo, e sim u uma de suas esposas partiu em direção dos soldados americanos, assim que eles entraram no quarto do terrorista, tentando impedir a sua morte e foi alvejada na perna. Agora o que se discute no Paquistão é o que será feito das mulheres de Bin Laden capturadas. Serão torturadas, já que se tratam de inimigas na Guerra ao Terror?Aponta-se o atual presidente norte-americano, como o grande vencedor da caçada humana, que resultou como butim, a cabeça crivada de balas do terrorista saudita, ressucitando sua popularidade, despencada desde a crise econômica e por erros políticos que já foram comentados neste blog. Enquanto isso, a mídia brasileira se digladia, com as revistas Veja (da oposição) e Carta Capital (da situação) com versões diferentes acerca da existência ou não de um núcleo de terroristas da Al Qaeda situados no território brasileiro. Será que além de insanos atiradores de colégio, teremos como triste inovação primeiro mundista os nossos próprios ataques terroristas? Ou será que aparecerão novos Jean Charles, agora em Terra Brasilis, pela insanidade do discurso alarmista dos donos do poder? Quem viver verá! De preferência, sem levar um tiro no peito ou na cabeça!
segunda-feira, 11 de abril de 2011
MÚSICA: No fim do túnel pode não ter uma luz, mas tem a voz de Adele!
O mundo da música pop não vive sem suas divas. Desde os tempos da gravadora Motown, na década de 60 do século passado, até as paradas de sucesso da Billboard, dos clipes da MTV e do VH1, até os videos do youtube e arquivos do MySpace, não se houve música com voz feminina sem idolatrar esta ou aquela cantora. São as darlings da música, as rainhas do rádio da década de 50, passando pelos pileques de Janis Joplin em Woodstock, até chegar ao estilo Dominatrix de Madonna. Pode-se dizer que, na verdade, a preferência midiática e quase messiânica pelas mulheres de bela voz, remonta desde a Idade Média, o surgimento da música clássica e as primeiras cantoras de música erudita, com a exuberância da potência vocal das primadonas espalhadas entre sopranos e contra-altos. Mas foi a música popular que notabilizou a linda voz de grandes mulheres, em especial a música negra, com o jazz e o blues de Bassie Smith, até a antológica e épica Billie Holliday. Depois tivemos o advento da soul music, o surgimento das Supremes, e com elas cantoras negras maravilhosas, verdadeiras estrelas da música e majestades que iriam reinar com suas vozes durante décadas, como Diana Ross (que parece hoje ter uma sucessora no trono à altura, através da potente e curvilínea Beyoncé). Sim, sim! Se mulheres são maravilhosas, mais maravilhosas ainda são aquelas de bela voz, que conseguem arrebatar seu público nas rádios, filmes, videos, clipes vistos na internet, ou simplesmente quando alguém deixa rolar o som revelador dos anjos, colocando sua música pra tocar durante uma festa.
Engraçado! Foi numa lanchonete, no fim de noite, comendo um sanduíche, que reparei na minha mais nova musa no mundo da música, que me conquistou no primeiro momento que ouvi sua voz. Apesar da fome, parei até de comer meu sanduíche, quando na lanchonete onde estava, perto de casa, tinha um telão onde passavam clipes tirados da internet, e gravados da MTV ou do canal Multishow, e lá pude ouvir uma jovem cantora inglesa, mostrando seus dotes vocais num single que hoje é tocado à exaustão nas rádios. Estou falando de Adele, e a música que ela canta chama-se Rollin in the Deep.
Amy Winehouse foi a grande promessa da primeira década do século XXI. A voz fulminante e o topete feminino esquisito e retrô, na hora certa, que fez a cantora de origem judaica vender milhões e milhões de cópias de seu disco Back to Black, além de arrebatar vários Grammys, parecia ser a promessa de que o mundo havia encontrado uma nova Billie Holliday. O problema de Amy, como é de conhecimento público, exaustivamente divulgado nos tablóides, é seu notório alcoolismo e tabagismo, seu vício frenético em drogas pesadas, e que o pior, seu vício em homens sem futuro. O problema dessa notável cantora é quando seu talento foi dando lugar às fofocas e às notícias das páginas policiais, devido a suas constantes bebedeiras, internações, vícios, e a conturbadíssima relação com seu ex-marido, Blake Civil, acusado de tráfico de drogas. O último show da cantora aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, foi até regular, com direito a Miss Winehouse estampar sua cara pálida e ressacada, na sacada de um hotel, em Santa Teresa. Mas seu desempenho nos palcos brasileiros foi bem distante dos últimos três anos que a consagraram, com uma atuação que não foi pífia, mas foi pra lá de modesta. Os admiradores de boa música com vocal feminino estristeceram-se pela ausência de criatividade de sua musa, que nunca mais fez um disco que estivesse à altura de seu talento. Parece que a fórmula tinha acabado. Só restava escutar Lady Gaga.
Quanto a Gaga. É necessário um breve comentário a essa cantora norte-americana, a contraparte dos EUA à música feminina difundida na Inglaterra, e que serviu para torná-la a sucessora da rainha de todas as divas pop dos últimos anos: Madonna. Admito que Stephanie Germanotta (nome verdadeiro da cantora. Também, com um nome desses, tinha que se tornar Gaga, mesmo!) tem lá o seu talento, quando passou a difundir música muito mais através da imagem, do que do som. Lady Gaga foi uma das cantoras que voltou a apostar na estética do videoclipe, um pouco abandonado com a chegada da internet, mas foi essa mesma internet que tornou Lady Gaga uma cantora poderosa, celebrizada como ídolo cult e objeto até de teses acadêmicas. Curto os clipes, o visual erótico-psicodélico da cantora, e o ritmo dançante de sua batida disco meio trivial, mas não compraria um disco de Lady Gaga. Até porque não preciso! É só baixar as que acho mais interessantes pela internet e tocar no rádio (até pra agradar minha esposa, que adora ouvir Lady Gaga).
Agora, quando se trata de ouvir cantoras cujo repertório dá pra fazer uma coleção. Aí, não dispenso, orgulhoso, os álbuns cujas capas posso estender na minha estante, montar minha própria discoteca, e escutar por várias horas canções maravilhosas, de vozes femininas poéticas (de preferência, sorvendo um bom vinho). Por isso que a música de Adele tanto me conquistou: pela suavidade, frescor, uma certa pureza oriunda não apenas de uma voz, mas de um espírito angelical, tratando das dores do mundo, do sofrimento do amor perdido e das dores de ser mulher, como Adele canta. É! Pra alguns que me chamem de exagerado, acho que Adele é a nossa Maísa inglesa. Ouvi-la é tão bom quanto minhas outras musas, que adoro escutar as canções, como Sara Mclahalan, Bjork, Tori Amos, Diana Krall, Dido, Elis Regina, Rita Lee, Gal Costa, Julieta Venegas e tantas outras, que agora me foge a memória. Pra se ter uma ideia, é só escutar a singela canção Turning Tables, pra entender o que eu estou dizendo, ou então escutar a magnética Someone like You ou a swingada Rumour Has It para entender porque a música de Adele está conquistando o mundo. Não se trata de uma conquista agressiva e selvagem, como Lady Gaga fez, quase a forcéps (e com calcinhas de mais e potência vocal de menos), ou da forma meteórica como Amy Winehouse alcançou o estrelato. Na verdade, a música de Adele começou a se impor de forma gradativa, tímida, discreta, assim como parece ser a própria cantora, mas de maneira definitiva e eficaz.
Adele conseguiu a impressionante marca de ter se igualado aos Beatles, ao figurar entre as cinco primeiras colocações nas paradas de sucesso da Grã-Bretanha e EUA, simultaneamente, e ter superado Madonna, pela primeira vez na história, figurando seu segundo disco por mais de dez semanas como um dos mais vendidos na parada de sucessos britânica. Para se ter uma ideia, nenhum disco ficava tanto tempo na parada dos mais vendidos, desde o álbum Immaculate Collection de Madonna, gravado em 1990. O sucesso veio de seus dois discos, cujos títulos lembram exatamente a idade da cantora quando foram feitos: 19 e 21. Não sei se Adele vai continuar com seus discos indicando a sua idade até chegar aos 60 (até porque, após os trinta, nenhuma mulher gosta de revelar a idade), mas pelo menos esses, que revelam uma cantora e compositora de tenra idade, se não são de um brilhantismo digno de uma Sara Vaughn, ao menos destacam uma cantora que não é simplesmente uma diva fabricada pela indústria, feita pra fazer um sucesso diáfano nas FMs, para depois desaparecer.
Talvez o sucesso precoce contamine essa jovem e promissora artista. Talvez não! Alguns críticos já comentaram o desempenho de Adele a de outras cantoras que, pós-adolescentes, conheceram o sucesso e marcaram uma geração, como Alanis Morrisseti, nos anos noventa, mas depois perderam o rumo e a criatividade com discos ruins ou de baixa vendagem, ao passarem dos trinta anos. Pode ser que a cantora gordinha, com cara de anjo e que fala de ex-namorados em suas canções também seja uma febre passageira. Quem sabe?! O futuro a Deus pertence! Mas como bom amante de música e tendo em casa coleções e mais coleções de CDs, só posso dizer que em CD, em algum arquivo de computador, ou em meu pendrive, jamais me esquecerei da voz e da música de Adele, assim como não me esqueço de muitas outras que, pela voz, também conquistaram meu coração. Agora, deixem-me aqui ouvir o disco 21, mais uma vez. Apertei a tecla play! Até a próxima, pessoal!
Engraçado! Foi numa lanchonete, no fim de noite, comendo um sanduíche, que reparei na minha mais nova musa no mundo da música, que me conquistou no primeiro momento que ouvi sua voz. Apesar da fome, parei até de comer meu sanduíche, quando na lanchonete onde estava, perto de casa, tinha um telão onde passavam clipes tirados da internet, e gravados da MTV ou do canal Multishow, e lá pude ouvir uma jovem cantora inglesa, mostrando seus dotes vocais num single que hoje é tocado à exaustão nas rádios. Estou falando de Adele, e a música que ela canta chama-se Rollin in the Deep.
Adele é o nome dela. Uma cantora inglesa ruivinha e gordinha, de apenas 22 anos, que apesar de sua cara de anjo, quando solta a voz parece a mais negra e calejada das cantoras de soul ou jazz. Não exagero quando digo que Adele tem a voz de uma cantora negra, e de como nos últimos anos, a Grã Bretanha vem exportando com perfeição, uma plêiade de cantoras jovens, belas e de voz que lembra aquelas cantoras de New Orleans, do começo do século passado, tais como Amy Winehouse e Joss Stone. Mas Adele parece fazer a diferença!
Amy Winehouse foi a grande promessa da primeira década do século XXI. A voz fulminante e o topete feminino esquisito e retrô, na hora certa, que fez a cantora de origem judaica vender milhões e milhões de cópias de seu disco Back to Black, além de arrebatar vários Grammys, parecia ser a promessa de que o mundo havia encontrado uma nova Billie Holliday. O problema de Amy, como é de conhecimento público, exaustivamente divulgado nos tablóides, é seu notório alcoolismo e tabagismo, seu vício frenético em drogas pesadas, e que o pior, seu vício em homens sem futuro. O problema dessa notável cantora é quando seu talento foi dando lugar às fofocas e às notícias das páginas policiais, devido a suas constantes bebedeiras, internações, vícios, e a conturbadíssima relação com seu ex-marido, Blake Civil, acusado de tráfico de drogas. O último show da cantora aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, foi até regular, com direito a Miss Winehouse estampar sua cara pálida e ressacada, na sacada de um hotel, em Santa Teresa. Mas seu desempenho nos palcos brasileiros foi bem distante dos últimos três anos que a consagraram, com uma atuação que não foi pífia, mas foi pra lá de modesta. Os admiradores de boa música com vocal feminino estristeceram-se pela ausência de criatividade de sua musa, que nunca mais fez um disco que estivesse à altura de seu talento. Parece que a fórmula tinha acabado. Só restava escutar Lady Gaga.Quanto a Gaga. É necessário um breve comentário a essa cantora norte-americana, a contraparte dos EUA à música feminina difundida na Inglaterra, e que serviu para torná-la a sucessora da rainha de todas as divas pop dos últimos anos: Madonna. Admito que Stephanie Germanotta (nome verdadeiro da cantora. Também, com um nome desses, tinha que se tornar Gaga, mesmo!) tem lá o seu talento, quando passou a difundir música muito mais através da imagem, do que do som. Lady Gaga foi uma das cantoras que voltou a apostar na estética do videoclipe, um pouco abandonado com a chegada da internet, mas foi essa mesma internet que tornou Lady Gaga uma cantora poderosa, celebrizada como ídolo cult e objeto até de teses acadêmicas. Curto os clipes, o visual erótico-psicodélico da cantora, e o ritmo dançante de sua batida disco meio trivial, mas não compraria um disco de Lady Gaga. Até porque não preciso! É só baixar as que acho mais interessantes pela internet e tocar no rádio (até pra agradar minha esposa, que adora ouvir Lady Gaga).
Agora, quando se trata de ouvir cantoras cujo repertório dá pra fazer uma coleção. Aí, não dispenso, orgulhoso, os álbuns cujas capas posso estender na minha estante, montar minha própria discoteca, e escutar por várias horas canções maravilhosas, de vozes femininas poéticas (de preferência, sorvendo um bom vinho). Por isso que a música de Adele tanto me conquistou: pela suavidade, frescor, uma certa pureza oriunda não apenas de uma voz, mas de um espírito angelical, tratando das dores do mundo, do sofrimento do amor perdido e das dores de ser mulher, como Adele canta. É! Pra alguns que me chamem de exagerado, acho que Adele é a nossa Maísa inglesa. Ouvi-la é tão bom quanto minhas outras musas, que adoro escutar as canções, como Sara Mclahalan, Bjork, Tori Amos, Diana Krall, Dido, Elis Regina, Rita Lee, Gal Costa, Julieta Venegas e tantas outras, que agora me foge a memória. Pra se ter uma ideia, é só escutar a singela canção Turning Tables, pra entender o que eu estou dizendo, ou então escutar a magnética Someone like You ou a swingada Rumour Has It para entender porque a música de Adele está conquistando o mundo. Não se trata de uma conquista agressiva e selvagem, como Lady Gaga fez, quase a forcéps (e com calcinhas de mais e potência vocal de menos), ou da forma meteórica como Amy Winehouse alcançou o estrelato. Na verdade, a música de Adele começou a se impor de forma gradativa, tímida, discreta, assim como parece ser a própria cantora, mas de maneira definitiva e eficaz.
Adele conseguiu a impressionante marca de ter se igualado aos Beatles, ao figurar entre as cinco primeiras colocações nas paradas de sucesso da Grã-Bretanha e EUA, simultaneamente, e ter superado Madonna, pela primeira vez na história, figurando seu segundo disco por mais de dez semanas como um dos mais vendidos na parada de sucessos britânica. Para se ter uma ideia, nenhum disco ficava tanto tempo na parada dos mais vendidos, desde o álbum Immaculate Collection de Madonna, gravado em 1990. O sucesso veio de seus dois discos, cujos títulos lembram exatamente a idade da cantora quando foram feitos: 19 e 21. Não sei se Adele vai continuar com seus discos indicando a sua idade até chegar aos 60 (até porque, após os trinta, nenhuma mulher gosta de revelar a idade), mas pelo menos esses, que revelam uma cantora e compositora de tenra idade, se não são de um brilhantismo digno de uma Sara Vaughn, ao menos destacam uma cantora que não é simplesmente uma diva fabricada pela indústria, feita pra fazer um sucesso diáfano nas FMs, para depois desaparecer.Talvez o sucesso precoce contamine essa jovem e promissora artista. Talvez não! Alguns críticos já comentaram o desempenho de Adele a de outras cantoras que, pós-adolescentes, conheceram o sucesso e marcaram uma geração, como Alanis Morrisseti, nos anos noventa, mas depois perderam o rumo e a criatividade com discos ruins ou de baixa vendagem, ao passarem dos trinta anos. Pode ser que a cantora gordinha, com cara de anjo e que fala de ex-namorados em suas canções também seja uma febre passageira. Quem sabe?! O futuro a Deus pertence! Mas como bom amante de música e tendo em casa coleções e mais coleções de CDs, só posso dizer que em CD, em algum arquivo de computador, ou em meu pendrive, jamais me esquecerei da voz e da música de Adele, assim como não me esqueço de muitas outras que, pela voz, também conquistaram meu coração. Agora, deixem-me aqui ouvir o disco 21, mais uma vez. Apertei a tecla play! Até a próxima, pessoal!
terça-feira, 5 de abril de 2011
MÚSICA: Com o Iron Maiden em Recife.
Já assisti a tantos shows de rock (nacionais e internacionais) que perdi a conta, sendo simplesmente impossível recordar quantos eventos musicais espetaculares já presenciei. Confesso que debutei em shows internacionais vendo o antológico, memorável (e à exaustão será contado para os netinhos) show dos Rolling Stones, no dia 4 de fevereiro de 1995, num Maracanã lotado, no Rio de Janeiro. Naquela que seria a primeira (de várias) tournês da dupla Mick Jagger X Keith Richards e seus comparsas no solo nacional. Talvez eu tenha me tornado tão viciado em assistir meus adorados shows de rock, por conta da frustração de minha adolescência, quando ainda um jovem púbere de 14 anos, e fiquei impossibilitado de ir ao primeiro Rock in Rio de 1985, por conta da pouca idade, falta de grana e de um pai militar, que não levaria o filho de Brasília para o Rio de Janeiro, assistir aquela "besteira" de música, com seus "cabeludos drogados" rodopiando em cima de um palco.
Pois eis que desde que cheguei a vida adulta e à independência financeira, não deixei de ir sequer a um showzinho de rock, sem me arrepender dos trocados bem gastos, sempre quando tenho tempo e a possibilidade geográfica de ir. Foi assim durante várias vezes, e felizardo fui quando morei por quase 3 anos em Porto Alegre, a atual meca nacional dos shows globalizados (até mais do que São Paulo), e tive a possibilidade de assistir inúmeros shows, com o conforto de ter uma atração internacional sempre perto de casa. Retornando ao nordeste, pela pobreza de opções culturais e shows internacionais em Natal, só me resta Recife!
E foi através de uma excursão, através do empreendedorismo do simpático empresário Rubens Pedrassoli, é que pude, junto com minha esposa, ir até Recife assistir o show do Iron Maiden, num domingo superdivertido. As poucas horas de viagem, a presença de um coletivo de fãs animado no ônibus, de várias origens e idades, além da possibilidade de assistir uma das melhores bandas de heavy metal do planeta, animou-me para assistir pela primeira vez a apresentação da banda de Bruce Dickinson e companhia.
Nos primórdios dos anos oitenta, o Iron Maiden despontou como uma das grandes bandas da chamada New Wave of British Heavy-Metal, numa onda de criatividade e de novos grupos musicais interessantes na Inglaterra, com novas bandas britânicas além do Iron, tais como: Saxon, Def Leppard, Venom e Diamond Head. De todas essas, o Iron Maiden foi, de fato, a banda de metal que mais se consolidou mundialmente, formando um universo de fãs em todos os continentes do mundo. O Iron Maiden foi uma das escolhas acertadas do empresário Roberto Medina, para se apresentar no primeiro Rock in Rio, de 1985, e de lá pra cá, a banda desses ingleses baixinhos e cabeludos, fanáticos por futebol e cerveja, e tendo um pitoresco mascote como o monstro Eddie (que aparece em todas as capas dos discos do grupo), não parou mais de fazer sucesso e encantar os fãs brasileiros. Pode-se dizer que, em certo sentido, nos anos oitenta, grupos como Iron Maiden, Whitesnake e AC/DC reinaram absolutos no universo do heavy metal, na primeira metade da década, até surgirem seus sucessores, como Metallica e Pantera. É dessa época álbuns antológicos e que ficaram marcados não apenas na carreira da banda, mas na história do heavy-metal, como os ótimos e primeiros álbuns Iron Maiden, Killers, The Number of Beast e Piece of Mind, até chegar à obra prima Powerslave e à consagração ao vivo, com o álbum duplo Live after Death. Depois dessa época o Iron Maiden decidiu testar novas sonoridades, introduzindo o som de sintetizadores ( o que rendeu muitas críticas dos fãs mais puristas) em discos como Somewhere in Time e Seventh Son, mas nunca perdeu sua marca principal que definiu seu estilo: o baixo encorpado do músico virtuose Steve Harris, a parede de guitarras, sustentada em grande parte pelo autêntico Dave Murray, pelo melódico guitarrista Adrian Smith (que depois saiu e voltou pra banda) e pelo endiabrado Janick Gers, a bateria sincopada de Nicko McBrain, e, é claro, a inconfundível voz do cantor Bruce Dickinson: um vocalista e piloto da aviação comercial, fanático por aviões, que como frontman, foi responsável por algumas das perfomances de palco mais arrebatadoras do rock'n roll.
No documentário Metal - Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (2005), o cineasta, músico e antropólogo canadense Sam Dunn, entrevista várias personalidades desse estilo musical, para explicar o fascínio que o rock pesado exerce em milhares de fãs, atravessando gerações. Em uma dessas entrevistas, aparece o simpático baixinho Bruce Dickinson, ensaiando uma passagem de som, na lendária casa de espetáculos londrina, Hammersmith Odeon, falando de sua arte e de como, mesmo chegando aos 50 anos, o vocalista consegue manter o inesgotável vigor da juventude, toda vez que sobe num palco e vê milhares de faces que podem se resumir em apenas uma: aquele fã, jovem, garoto sardento, no meio da multidão, que, segundo Bruce, num exercício de nostalgia, equivaleria a ele próprio na sua inocência de juventude e no amor genuíno a seu grupo musical e à música que tanto aprecia. É de cima do palco que Bruce pode (como fez em Recife), olhar direto nos olhos de cada fã entusiasmado, e dizer, apontando o dedo: Yes! It's you, you! É a magia e emoção da música em toda sua intensidade. É o vigor do Heavy-Metal. This is Iron Maiden!
Em Recife, a banda fundada pelo baixista Steve Harris e celebrizada por Bruce Dickinson, mais uma vez fez por merecer ter tantos fãs e tanta devoção. Os fãs fanáticos do Iron Maiden chegam a tratar a banda como se fosse uma religião, e eu pude ver o entusiasmo de diversos guris cabeludos, barbudos, que ao entrar no frontstage, no pátio externo do Centro de Convenções de Recife, pulavam e gritavam enlouquecidamente e pareciam ter sido tomados por uma benção súbita, ao entrar num estado de graça proporcionado pela alegria de poder ver sua banda favorita. No show, vi gente de todas as idades: fãs antigos, calvos ou de cabelos grisalhos, com mais de cinquenta anos, até adolescentes ou mesmo pré-adolescentes. A abertura do show, com músicas novas, do mais recente álbum, The Final Frontier, começou com o tema introdutório Satellite 15, seguida pela música título. No show, apesar da idade, Bruce Dickinson ainda consegue correr um pouco e dar pequenos saltos pelo palco, naturalmente sem mais aquela elasticidade e vigor físico do passado. Afinal, o tempo passa para todos, não é mesmo?!
Mas, como em todo show de banda que já se eternizou no tempo, o que os fãs mais queriam escutar eram as músicas mais antigas, de um repertório iniciado há mais de trinta anos atrás, mas que até hoje conquista o fã mais recente. Quem esteve em Recife, no dia 3 de abril, não teve do que reclamar, ao escutar sucessos como The Trooper, Fear of Dark, The Evil That Men Do, 2 Minutes to Midnight, The Wicker Man e as mais antigas, do tempo em que Paul D'iano era o vocalista do grupo, como Running Free e a clássica Haloweed by Thy Name. Na onda do politicamente correto, Bruce Dickinson ainda fez uma homenagem às vítimas do terremoto e do tsunami no Japão, dizendo o quanto os brasileiros eram felizardos de viver no lugar em que vivem (Ohh! Yeahh! Ele diz isso pra todos, nos outros países! Mas, e daí?!) e encerrou a noite com um bis, que dá vontade até agora de pular, dançar e tomar umas cervejas. I know! It's only rock'n roll, but I like it! Depois de sua estreia no país com o Rock in Rio, parece que o Iron Maiden adotou o Brasil como sua segunda casa, incluído obrigatoriamente em todas as turnês, nas sete vezes que o grupo já veio tocar aqui. E tomara que venham mais vezes! Apesar de não apresentar mais o brilho e nem a fama mundial dos anos passados, com estouros de vendagem, o Iron Maiden é uma das poucas bandas de rock, que consegue manter unido um séquito de fãs, que vão em romaria em todos os seus shows, cantarolando até os solos de guitarra, e cantando enlouquecidamente para seus ídolos: Can I Play with Madness?? Valeu, turma do Iron! Obrigado pela diversão! Up to the Irons!
Pois eis que desde que cheguei a vida adulta e à independência financeira, não deixei de ir sequer a um showzinho de rock, sem me arrepender dos trocados bem gastos, sempre quando tenho tempo e a possibilidade geográfica de ir. Foi assim durante várias vezes, e felizardo fui quando morei por quase 3 anos em Porto Alegre, a atual meca nacional dos shows globalizados (até mais do que São Paulo), e tive a possibilidade de assistir inúmeros shows, com o conforto de ter uma atração internacional sempre perto de casa. Retornando ao nordeste, pela pobreza de opções culturais e shows internacionais em Natal, só me resta Recife!
E foi através de uma excursão, através do empreendedorismo do simpático empresário Rubens Pedrassoli, é que pude, junto com minha esposa, ir até Recife assistir o show do Iron Maiden, num domingo superdivertido. As poucas horas de viagem, a presença de um coletivo de fãs animado no ônibus, de várias origens e idades, além da possibilidade de assistir uma das melhores bandas de heavy metal do planeta, animou-me para assistir pela primeira vez a apresentação da banda de Bruce Dickinson e companhia.
É verdade! Apesar de meus quase 40 anos de vida e de ter visto centenas e mais centenas de grupos, eu nunca tinha ido a um show do Iron Maiden. Lembro-me, inclusive, que já não me encontrava mais tão ligado no som do grupo, uma vez que, pra mim, a música do Iron Maiden representava aquelas bandas de rock pesado que eu tanto gostava na adolescência, nos anos oitenta; mas com o advento do grunge, das novas tendências do metal, e quando comecei a me interessar mais por rock brasileiro (principalmente o manguebeat), havia me distanciado um pouco do som da turma do Iron.
Nos primórdios dos anos oitenta, o Iron Maiden despontou como uma das grandes bandas da chamada New Wave of British Heavy-Metal, numa onda de criatividade e de novos grupos musicais interessantes na Inglaterra, com novas bandas britânicas além do Iron, tais como: Saxon, Def Leppard, Venom e Diamond Head. De todas essas, o Iron Maiden foi, de fato, a banda de metal que mais se consolidou mundialmente, formando um universo de fãs em todos os continentes do mundo. O Iron Maiden foi uma das escolhas acertadas do empresário Roberto Medina, para se apresentar no primeiro Rock in Rio, de 1985, e de lá pra cá, a banda desses ingleses baixinhos e cabeludos, fanáticos por futebol e cerveja, e tendo um pitoresco mascote como o monstro Eddie (que aparece em todas as capas dos discos do grupo), não parou mais de fazer sucesso e encantar os fãs brasileiros. Pode-se dizer que, em certo sentido, nos anos oitenta, grupos como Iron Maiden, Whitesnake e AC/DC reinaram absolutos no universo do heavy metal, na primeira metade da década, até surgirem seus sucessores, como Metallica e Pantera. É dessa época álbuns antológicos e que ficaram marcados não apenas na carreira da banda, mas na história do heavy-metal, como os ótimos e primeiros álbuns Iron Maiden, Killers, The Number of Beast e Piece of Mind, até chegar à obra prima Powerslave e à consagração ao vivo, com o álbum duplo Live after Death. Depois dessa época o Iron Maiden decidiu testar novas sonoridades, introduzindo o som de sintetizadores ( o que rendeu muitas críticas dos fãs mais puristas) em discos como Somewhere in Time e Seventh Son, mas nunca perdeu sua marca principal que definiu seu estilo: o baixo encorpado do músico virtuose Steve Harris, a parede de guitarras, sustentada em grande parte pelo autêntico Dave Murray, pelo melódico guitarrista Adrian Smith (que depois saiu e voltou pra banda) e pelo endiabrado Janick Gers, a bateria sincopada de Nicko McBrain, e, é claro, a inconfundível voz do cantor Bruce Dickinson: um vocalista e piloto da aviação comercial, fanático por aviões, que como frontman, foi responsável por algumas das perfomances de palco mais arrebatadoras do rock'n roll.
No documentário Metal - Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (2005), o cineasta, músico e antropólogo canadense Sam Dunn, entrevista várias personalidades desse estilo musical, para explicar o fascínio que o rock pesado exerce em milhares de fãs, atravessando gerações. Em uma dessas entrevistas, aparece o simpático baixinho Bruce Dickinson, ensaiando uma passagem de som, na lendária casa de espetáculos londrina, Hammersmith Odeon, falando de sua arte e de como, mesmo chegando aos 50 anos, o vocalista consegue manter o inesgotável vigor da juventude, toda vez que sobe num palco e vê milhares de faces que podem se resumir em apenas uma: aquele fã, jovem, garoto sardento, no meio da multidão, que, segundo Bruce, num exercício de nostalgia, equivaleria a ele próprio na sua inocência de juventude e no amor genuíno a seu grupo musical e à música que tanto aprecia. É de cima do palco que Bruce pode (como fez em Recife), olhar direto nos olhos de cada fã entusiasmado, e dizer, apontando o dedo: Yes! It's you, you! É a magia e emoção da música em toda sua intensidade. É o vigor do Heavy-Metal. This is Iron Maiden!
Em Recife, a banda fundada pelo baixista Steve Harris e celebrizada por Bruce Dickinson, mais uma vez fez por merecer ter tantos fãs e tanta devoção. Os fãs fanáticos do Iron Maiden chegam a tratar a banda como se fosse uma religião, e eu pude ver o entusiasmo de diversos guris cabeludos, barbudos, que ao entrar no frontstage, no pátio externo do Centro de Convenções de Recife, pulavam e gritavam enlouquecidamente e pareciam ter sido tomados por uma benção súbita, ao entrar num estado de graça proporcionado pela alegria de poder ver sua banda favorita. No show, vi gente de todas as idades: fãs antigos, calvos ou de cabelos grisalhos, com mais de cinquenta anos, até adolescentes ou mesmo pré-adolescentes. A abertura do show, com músicas novas, do mais recente álbum, The Final Frontier, começou com o tema introdutório Satellite 15, seguida pela música título. No show, apesar da idade, Bruce Dickinson ainda consegue correr um pouco e dar pequenos saltos pelo palco, naturalmente sem mais aquela elasticidade e vigor físico do passado. Afinal, o tempo passa para todos, não é mesmo?!Mas, como em todo show de banda que já se eternizou no tempo, o que os fãs mais queriam escutar eram as músicas mais antigas, de um repertório iniciado há mais de trinta anos atrás, mas que até hoje conquista o fã mais recente. Quem esteve em Recife, no dia 3 de abril, não teve do que reclamar, ao escutar sucessos como The Trooper, Fear of Dark, The Evil That Men Do, 2 Minutes to Midnight, The Wicker Man e as mais antigas, do tempo em que Paul D'iano era o vocalista do grupo, como Running Free e a clássica Haloweed by Thy Name. Na onda do politicamente correto, Bruce Dickinson ainda fez uma homenagem às vítimas do terremoto e do tsunami no Japão, dizendo o quanto os brasileiros eram felizardos de viver no lugar em que vivem (Ohh! Yeahh! Ele diz isso pra todos, nos outros países! Mas, e daí?!) e encerrou a noite com um bis, que dá vontade até agora de pular, dançar e tomar umas cervejas. I know! It's only rock'n roll, but I like it! Depois de sua estreia no país com o Rock in Rio, parece que o Iron Maiden adotou o Brasil como sua segunda casa, incluído obrigatoriamente em todas as turnês, nas sete vezes que o grupo já veio tocar aqui. E tomara que venham mais vezes! Apesar de não apresentar mais o brilho e nem a fama mundial dos anos passados, com estouros de vendagem, o Iron Maiden é uma das poucas bandas de rock, que consegue manter unido um séquito de fãs, que vão em romaria em todos os seus shows, cantarolando até os solos de guitarra, e cantando enlouquecidamente para seus ídolos: Can I Play with Madness?? Valeu, turma do Iron! Obrigado pela diversão! Up to the Irons!
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