segunda-feira, 25 de junho de 2012

POLÍTICA: Não é só o whisky, mas no Paraguai, até a democracia é falsificada!

Um sorumbático ex-presidente, retirado à força do
poder, num processo de impeachment que não durou
nem 24 horas.
Fiquei atônito ao saber da deposição do presidente paraguaio, Fernando Lugo, nos últimos dias, não obstante acreditar que o ex-bispo católico e líder dos movimentos sociais perdeu em parte sua credibilidade, logo no início de seu governo, ao ser descoberto que ele tinha sido acusado de assédio sexual a fiéis de sua igreja, e de ter filhos clandestinamente com várias mulheres, revelando todo o seu lado de latin lover.

Mas o fato  de ter sido pego em estripulias sexuais logo no começo do mandato, não era motivo para apeá-lo do poder. Ainda mais no final do mandato, nos nove meses restantes de seu governo, abruptamente encerrado por um ato unilateral do Congresso, num ruidoso (e suspeito) processo de impeachment. Lugo teve menos de vinte e quatro horas para se defender, e mais rápido do que uma concessão de liminar na Justiça brasileira, o presidente paraguaio foi destituído do poder, assumindo em seu lugar um deputado da oposição, um sorridente e elitista Federico Franco, representante do Partido Liberal. Não adiantou sequer ao ex-presidente recorrer a Suprema Corte paraguaia, que numa falta de boa vontade incrível, sequer recebeu seu pedido de decretação da ilegalidade do ato golpista que o retirou atabalhoadamente da presidência. Certamente, um fato muito triste para a democracia latino-americana!

Sabe-se que o agora ex-presidente Lugo chegou ao poder dentro de um movimento maciço que tomou conta da América do Sul, com a eleição de candidatos progressistas, identificados com um discurso de esquerda e com o forte apoio de sindicatos e dos movimentos sociais (assim como se deu no Brasil, com Lula no começo deste século e com Evo Morales na Bolívia). Por quase o século passado inteiro, o Paraguai viveu sob o jugo oligárquico de dois grandes partidos direitistas nacionais: o Liberal (também chamado de Blanco)) e o Colorado. Na jogatina do poder, o espaço para a sociedade civil e os movimentos democráticos naquele país era quase nulo, quando não, inexistente, num país que se acostumou a ser uma republiqueta de bananas, dominado em toda sua história por ditaduras (a última, do general Alfredo Stroessner, exilado no Brasil há vinte anos atrás, e que governou o país com mão de ferro por décadas) ou por governos de direita totalmente dependentes das diretrizes econômicas norte-americanas. A ascensão de Lugo, e de seu partido de centro-esquerda ao poder, marcou uma nova era para a sociedade paraguaia, tão massacrada por sua economia dependente do capital externo, suas diferenças sociais abissais e níveis de pobreza e miséria altíssimos, e, sobretudo, tendo uma população no campo revoltada, cada vez mais agitada em conflitos agrários, sobretudo nas áreas de fronteira, tendo como adversários, inclusive, fazendereiros brasileiros.

Foi por conta dos conflitos agrários, movidos pelo movimento dos sem-terra local, que Lugo caiu. Ficou notório o amplo apoio que o ex-presidente paraguaio teve desses movimentos sociais, já que sua carreira eclesiátisca foi toda definida em torno da obediência às interpretações da Teologia da Libertação e do apoio clerical aos trabalhadores do campo. Lugo foi taxado pela imprensa golpista de inábil, e subserviente aos interesses dos camponeses por conta de sue programa radical (e, para muitos, inexequível) de reforma agrária, e sua derrota final foi anunciada quando, na última semana, em um dos vários conflitos ocorridos entre lavradores sem-terra e a polícia, num mandato conturbado por ocupações de terra em todo o país, o saldo negativo do último confronto foi o de 17 trabalhadores e 6 policiais mortos, num episódio que chocou a nação.

Foi aqui, no Senado paraguaio, que a democracia do
país vizinho revelou ser mais frágil do que se imaginava.
Instaurado um mais do que rapidíssimo processo de impeachment no Congresso Nacional paraguaio, sob a alegação de que o presidente havia descumprido artigos da Constituição (foi acusado de negligência no exercício do cargo), em menos de um dia Fernando Lugo foi deposto, sem ter direito ao menos a um amplo processo legal e ao contraditório, retirado do poder pela mesma elite latifundiária, presente no Legislativo, que o ex-presidente insistia em atacar nos seus discursos políticos. Agora, só resta a Lugar espernear, jogando para a plateia, atiçando seus apoiadores e convocando os instrumentos da mídia latino-americana, para afirmar que não reconhece o governo recém-instalado após a sua veloz queda, montando um imaginário governo paralelo, a fim de comover a opinião pública mundial.

Não demorou para que os movimentos sociais e progressistas
do Paraguai tomasses as ruas de Assunção, reclamando da
deposição do presidente democraticamente eleito, para
exercer seu mandato até o final.
Até o momento, das grandes nações, apenas os Estados Unidos (como convencionaria ser), reconheceu o novo governo paraguaio, tão rápido quanto os inimigos políticos de Lugo o retiraram do poder. Enquanto isso, a UNASUL, entidade representativa dos países que compõem o continente, representada, entre outros, pelos governos do Brasil, Argentina, Equador e Venezuela, não reconheceu o governo sob a presidência de Federico Franco, e ameaça estabelecer sançoes externas, retirando o nome do Paraguai da lista de membros integrantes do Mercosul, aprofundando-lhe os problemas econômicos, numa tentativa de punir a oposição política rebelde, que de forma golpista, derrubou um presidente legitimamente eleito pelo povo,  num processo democrático de eleição; pois um presidente eleito teria o direito de ser retirado pela força das urnas, não pelas baionetas ou pelas canetadas de parlamentares descontentes com o governo. 

Ao presidente deposto, só resta o apoio popular.
O processo político no Paraguai preocupa, porque outras nações, como a Bolívia, já sentem os reflexos da crise paraguaia pela imprensa local, que alerta para os riscos da persistente greve dos policiais no país andino, que já dura meses na terra do presidente Evo Morales, e que, caso se aprofunde, também pode lhe custar o mandato. O maior risco é de que surja um verdadeiro efeito dominó, iniciado agora não mais pelo exército, mas pela própria classe política oposicionista e pela imprensa elitista com ímpetos golpistas (qualquer semelhança com a editora Abril, aqui no Brasil, e a revista VEJA, não é mera coincidência), que se aproveitando oportunisticamente de uma crise institucional, opte pelo caminho do impeachment de seus governantes, tão somente para satisfazer o apetite das velhas, podres e antiquadas elites econômicas locais, que ao perderem anteriormente o poder nas urnas, tentam ao menos não perder sua capacidade autoritária de querer subjugar uma sociedade inteira aos seus interesses de classe.

No Brasil, com uma democracia, instituições e partidos políticos mais consolidados, ao menos, por enquanto, não se vê nem sequer quaisquer respingos de que drama semelhante possa acontecer por aqui, a exemplo do Paraguai. De qualquer forma, é bom ficar de olho nas tentativas inconsequentes de certos golpistas de plantão, representantes de uma certa classe política retrógrada, que já passou o bastão, a contragosto, a governos mais progressistas, por conta de suas derrotas eleitorais.  Senão, correremos o risco de, um belo dia, sermos surpreendidos, pegos de surpresa, com a ação intolerante de uma classe política inconsequente e reaçonária, que assim como no filme dos Transformers, emplaque as manchetes do noticiário político com o triste título: A Vingança dos Derrotados. Xô, espírito golpista! Xô!!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

POLÍTICA: Diga-me com quem andas.............!!

Para alguns, uma imagem vale mais do que mil palavras.
O noticiário político dessa semana bombou com a imagem de um constrangido Lula, mediado por um sorridente Haddad, a cumprimentar um animado Paulo Maluf, numa foto que, com certeza, vai ser exaustivamente explorada na campanha eleitoral deste ano. Sabe-se que com a adesão do PP de Maluf à candidatura a prefeito de Haddad, do PT, em São Paulo, vai aumentar sensivelmente o tempo do candidato petista na TV, numa candidatura que necessita, sobretudo, de tempo para se firmar, tornar-se conhecida e se mostrar ao eleitorado paulistano. Mas será que, realmente, valeu a pena??

O intenso pragmatismo de nossos políticos, que chega a corroer de ódio os eleitores mais éticos, não é característica somente do ex-presidente Lula. Na verdade, não é característica nem só do PT, mas de toda a esquerda brasileira. Quem leu os livros de história ou leu o livro Olga (ou a adaptação para o cinema) do jornalista Fernando Moraes, sabe que na década de trinta, o presidente e ditador Getúlio Vargas enviou a mulher do líder comunista Luis Carlos Prestes, uma judia alemã e comunista,  para um campo de concentração na Alemanha nazista, onde esta veio a morrer na câmara de gás. Isso não impediu que uma década após, em 1945, Prestes apoiasse Vargas, na tentativa de redemocratização do país, elegendo-se senador numa aliança com o partido de seu ex-rival e inimigo, assassino de sua mulher. Não é curioso??

Em seu ótimo livro Teoria Geral da Política,  o saudoso filósofo italiano Norberto Bobbio, faria a distinção entre ação moral e ação política, ao estudar Maquiavel. Na primeira, a ação humana teria um fim em si mesma, pois a moralidade já está intrinsicamente ligada ao ato; ou seja, a ação já é moral em si mesma, independente do resultado (ex: ajudar uma velhinha a atravessar a rua, pela simples condição de achar correto ajudar alguém em condições de necessidade). Já na ação política não existe moralidade alguma na ação praticada, e o que se objetiva, na verdade, é a obtenção de um resultado, pois a ação é movida a resultados, só existe por causa deles, seja com fins morais ou não (ex: ajudar essa mesma velhinha, do exemplo anterior, na esperança  de ser gratificado por ela com alguns trocados, por conta da boa ação). O universo da política, portanto, é povoado por resultados e não por ética, e segundo teóricos do utilitarismo, como John Stuart Mill (muito cultuado pelo também ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso), o que vale na política não é satisfazer a todos, obtendo a felicidade geral (um imperativo da ética), mas sim satisfazer a um número maior possível de pessoas, a fim de obter maiorias que se sintam minimamente realizadas (a realidade da política). Desta forma, não vejo com grandes sobressaltos o escandâlo que a mídia nativa vê com a adesão de Maluf ao candidato do PT, apoiado por Lula. Pode ser incoerente, mas não é nada imprevisível ou fora do comum.

O Partido dos Trabalhadores de Lula peca pela incoerência, e arrisca-se a pagar o preço de perder seus fiéis eleitores mais éticos, por conta de alianças que, para muitos, podem parecer totalmente espúrias (ou safadeza mesmo). Não tiro a razão de quem pensa desse jeito! Afinal, assim como eu, toda uma geração viu um PT nascer nos anos oitenta, embalado pelo discurso da ética, da defesa intransigente dos trabalhadores, "contra tudo o que está aí", como dizia o jargão dos panfletos da época. Há vinte anos atrás, nos meus tempos de movimento estudantil, o PT era um dos principais partidos que criticava o pragmatismo dos outros, o aliancismo, denunciado à exaustão nas portas de fábrica e sala de aula como sinônimo de capitulação ao inimigo, de rendição ou de degenaração política. Passou-se o tempo, e assim como muda a política, mudam os homens, e ao se tornar poder, o PT apressou-se a modificar o discurso, a estabelecer novos modelos de aliança e a financiar suas campanhas com Caixa 2, assim como faziam todos os outros partidos; tornando-se, afinal, apenas mais um, uma legenda política igual a qualquer outra. Apesar de seu enorme capital eleitoral, baseado em parte na liderança emblemática de uma figura quase mítica, do metalúrgico que chegou ao poder, o PT não escapou das armadilhas do poder, dentre elas, daquelas tão decantadas por Maquiavel, que se traduzem nas ações necessárias de todo governante: o poder de barganhar e negociar com o próprio inimigo. 

Enganam-se aqueles que acham que a criticável aliança com Maluf, a antítese de tudo que o PT defendeu em São Paulo (com duas eleições ganhas contra  o mesmo candidato, seja com Erundina, em1988, ou com Marta Suplicy, em 2000), seria resultado de um fenômeno que se observa somente agora: o pragmatismo exacerbado de um partido e de um líder partidário em torno de alianças políticas. O PT nasceu como uma colcha de retalhos, reunindo o mais extenso leque político de opções ideológicas, desde o trotskismo mais radical até o mais contemporadizador do moderadismo de linha católica ou social-democrata. A corrente majoritária a qual pertence Lula, por exemplo, é formada por ex-sindicalistas, que durante o período de lutas sindicais na ditadura, já trabalhavam com a linha de negociação ao invés de confronto, e de uma aliança possível com seus adversários dentro da fábrica, com o objetivo de obter êxito numa luta política maior. Era assim que pensavam os sindicalistas daquela época, e é assim que pensa até hoje Lula, em seu perfil agregador de conciliador nato, cuja liderança foi construída na base de muito carisma, mas também de muita negociação, adotando opções políticas, que por vezes, pareciam ser altamente incoerentes. É o preço que se paga pelo poder.

Quando redigiu a "Carta ao Povo Brasileiro", em 2002, Lula já anunciava a mudança de rumo na campanha presidencial que o elegeu, diferente das tentativas anteriores, mal sucedidas, de se chegar ao poder, optando pelo aliancismo com os liberais nacionalistas, numa verdadeira união do capital e trabalho, tendo o metalúrgico um vice empresário, na figura de José Alencar. Era o sonho de qualquer conciliador: o operário da fábrica e o dono da fábrica  unidos em prol do Brasil. Não é bonito? Ao menos para os marqueteiros Lula soube jogar para a plateia, e por meio de uma aliança, para muitos, difícil de engolir (como bem salientou a ex-senadora e ex-petista Heloísa Helena), Lula e o PT acabaram chegando ao poder, conquistando a presidência da república. Assim como, hoje, um Lula agora, ex-presidente,  tenta novamente chegar ao poder, ao fazer emplacar seu candidato, na maior metrópole da América Latina, e uma das maiores do mundo, tentando desbancar a hegemenonia de seus oposiotres na metrópole paulista, impondo mais uma amarga derrota à nêmesis do partido de Lula, o candidato tucano José  Serra.

Não sei se Lula sairá mais uma vez vitorioso, demonstrando seu acerto político nas suas apostas eleitorais, em candidatos escolhidos por ele a dedo, em detrimento da democracia partidária e de outros nomes que poderiam ser viabilizados pelo partido. Lula já demonstrou sucesso na indicação e formidável vitória de sua pupila, Dilma Roussef, até então inexperiente em campanhas eleitorais. Resta saber se ele obterá sucesso também com as fichas apostadas em seu novo escolhido, o ex-ministro da educação Fernando Haddad, também um neófito em campanhas, que confia somente na extraordinária competência de seu líder, enorme puxador de votos, para que se obtenha uma nova vitória eleitoral do petismo, com ou sem Maluf a dar apoio. Para uma raposa da política como Lula, ter a indesejável companhia de um político consagradamente corrupto como  Maluf, se não serve para angariar votos mais à esquerda, ao menos serve para neutralizar o eleitorado mais conservador, tradicionalmente avesso ao petismo. É pagar pra ver dentro do pragmatismo eleitoral brasileiro. Quanto à ética?? Ahh, a ética!!! Que vá pras cucuias!!!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CULTURA: Odeio filme dublado.

Dentre em breve, numa sala dessas, só se ouvirá
filme dublado (retirado de analycia.blogs.sapo.pt)
Recentemente li numa revista que cada vez mais filmes dublados estão sendo exibidos nos cinemas nacionais, e que, dentro em breve,  será possível até mesmo desaparecem os filmes legendados, perdendo-se para sempre as vozes originais de atores e atrizes, a ecoar por dentro da sala do cinema, em prol das tendências do mercado. Afinal, num país de emergentes, onde na última década a Classe C expandiu-se de tal forma que aumentou a frequência de espectadores nos cinemas, sobretudo nos finais de semana, percebe-se que os novos frequentadores das salas podem até ter grana pra comprar ingressos, mas não tem o hábito e nem mesmo disposição para assistir um filme legendado.

Recordo-me quando era criança,  morando em Belém do Pará, do dia em que meu pai levou-me ao cinema, pela primeira vez para assitir um filme legendado. Passava no extinto Cine Palácio a saga Star Wars de George Lucas, no segundo filme da série: O Império Contra Ataca. Eu devia ter uns dez ou onze anos de idade, e meu pai ficou receoso de que eu não conseguisse ver o filme, por conta das legendas, mas logo ficou animado quando viu que eu conseguia ler com a devida rapidez todas as letrinhas que apareciam na tela, sem o menor desconforto. Abriu-se para mim, a partir dali, todo um horizonte cinematográfico; pois pude assistir grandes filmes, infanto-juvenis ou não, com seu audio original, como Et-O Extraterrestre, Superman: o Filme, Os Caça-Fantasmas, e toda uma coleção de ótimos e maravilhosos filmes que marcaram a minha juventude e a de todos que frequentavam as grandes salas de cinema, que existiram no fim dos anos setenta e na década de oitenta, até sucumbirem na década seguinte ao avanço dos cinemas de shopping: os minúsculos Multiplex.

Lembro que quando cheguei em Natal há alguns anos atrás, ainda assisti muitos filmes legendados nos extintos cinemas Rio Grande e Nordeste, que funcionavam no centro da cidade. Não havia incômodo algum em ler as legendas porque as telas dos cinemas eram enormes, as legendas faziam parte  do contexto do filme,e enquanto lia, conseguia saborear ao mesmo tempo a emoção das cenas, o ruído estrondoso nos momentos de ação, o mosaico de cores na tela, conforme a fotografia do filme vinha se apresentando, e, principalmente, a expressão dos artistas.

Daí é que vem a minha crítica aos filmes dublados, sem faltar com o respeito à digna profissão dos dubladores. Sabe-se que quem trabalha com dublagem profissional, geralmente também é ator, mas mesmo sendo o dublador alguém possuídor de altos dotes dramáticos, determinadas estórias e determinados artistas no cinema são difíceis de dublar. Já pensou o que é dublar o cantor e ator Tom Waits, com sua voz rouca inconfundível, ou dublar a rouquidão sensual de atrizes como Demi Moore?? Como uma dubladora conseguiria dublar com mesma maestria e talento a voz camaleônica da oscarizada Merryl Streep, que tem como parte de seu talento espantoso a capacidade de falar em seu idioma com vários sotaques diferentes? Alia-se a isso o problema de que, em determinados filmes, principalmente aqueles produzidos para o público infantil, chamam-se não dubladores de verdade, mas sim atores da televisão, principalmente estrelas da Rede Globo, para fazer a dublagem de personagens que, em alguns casos dá certo, em outros dá muito errado (vide o exemplo da bem sucedida dublagem do desenho Madagascar, em comparação com a péssima dublagem encontrada em filmes como Procurando Nemo, Shrek ou Toy Story). Entendo que os filmes infantis são em sua maioria dublados, até porque a maioria de seu público preferencial ainda não se alfabetizou plenamente, a ponto de ler legendas, por conta da idade. Agora, estabelecer a dublagem de filmes adultos, ou corromper a voz icônica de astros do cinema de voz inconfundível como Al Pacino, Robert de Niro ou George Clooney: Aí, peraí!! É muita sacanagem!!!

Nas dublagens mal feitas, ou até mesmo ruins pela falta de mais dubladores, vemos muitos filmes com personagens diferentes serem dublados pelos mesmos profissionais. Assim, podemos vez a voz que dubla o Arnold Schwarzenegger, por exemplo, na mesma boca de atores como Hugh  Jackman ou Russel Crowe, ou ver a voz que dubla o Tom Cruise ser a mesma do Eddy Murphy. Por décadas, na TV, acostumamo-nos a ouvir a simpática voz do dublador que dublava Bruce Willis, na antiga série A Gata e o Rato, ou nos filmes dele, dublados, que passavam na TV; mas achamos muito estranho a mesma voz ser usada, repetidas vezes, em atores diferentes. Na série de TV 24 horas, por exemplo, vimos o estranho caso de um mesmo personagem ter vozes diferentes em temporadas distintas. Foi o que aconteceu com a versão dublada da voz do ator Kiefer Sutherland, astro principal da série.

As dublagens já ocuparam todo o espaço na programação da TV por assinatura, algo que era antes apenas primazia da TV aberta. Sem acesso à tecla SAP, ou não tendo disponibilizado o som original, fãs de séries famosas, já extintas, como Friends ou Seinfield, ou mesmo aqueles que estão assistindo séries novas (como eu), tais como Walking Dead, são obrigados a esperar a temporada inteira sair em DVD, para poder curtir o som original do filme, com a voz verdadeira de seus personagens. A FOX foi um dos canais que, oportunisticamente, aproveitando-se das tendências do mercado, passou a ter todas as suas  séries e filmes dubladas, pois havia aumentado o número de consumidores de canais pagos que não gostavam de ver filmes legendados. Não vou chamar essas pessoas de analfabetas ou ignorantes, porque é uma questão de gosto e não de capacidade intelectual, mas critico a falta de opções, pois a TV por assinatura deveria ser mais democrática, dando a opção para seus espectadores, entre aqueles que gostam de ver filmes dublados, e os que optam pelo som original. O que acontece hoje é que a tendência que se opera na TV, está paulatinamente migrando para os cinemas, e isso será horrível!!

Na reportagem  a que me referi no começo deste texto, tem-se um comentário ao final, dizendo que, num futuro próximo, o consumo de filmes legendados no cinema será destinado apenas a um gueto específico, em salas especiais, como  se dá hoje nas sessões dos chamados "filmes de arte" ou cineclubistas, onde uma pequena e segmentada comunidade cinéfila e nerd, poderá assistir seus filmes preferidos com o som original, ouvindo, por exemplo, o mandarim arcaico, falado em filmes como O Tigre e o Dragão, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002, ou escutar a voz original do ator Gene Hackman, no ótimo Operação França, na década de 70, além de escutar o francês com sotaque parisiense de Gerard Depardiéu, em seus filmes  europeus. Vai virar coisa de museu, ouvir a divertida versão original da voz do personagem Jack Sparrow, interpretado pelo ator Johnny Deep, da série Piratas do Caribe, com sua peculiar imitação do rockeiro Keith Richards, uma vez que os filmes legendados vão acabar, e mesmo a célebre voz desses personagens, que marcou filmes como Rango, Kung-Fu Panda ou Rei Leão não vai mais ser exibida nos cinemas brazucas, apesar da voz desses atores e atrizes ter sido escolhida a dedo pelos diretores  de cinema, porque fazem parte do contexto de seus personagens.

Enfim, temo o predomínio de uma ignorância geral quanto aos filmes legendados, e ao devido valor cinematográfico que devemos dar valor à obras produzidas com sua sonoridade original. Parece-me muito fake, e aí posso ser taxado de conservador ou tradicionalista, ouvir um filme com o som dublado no cinema, se pago meu ingresso justamente para ver a brilhante interpretação de estrelas do cinema, que se tornaram célebres e foram premiadas, sobretudo por conta de suas interpretações, que levam muito em  conta recursos de voz. Posso estar errado, mas ao se manter o entendimento capitalista de, por venderem mais, filmes estrangeiros devem ser exibidos aqui todos dublados, porque no exterior (leia-se EUA) o povão só assiste filme assim, parece-me mais um atestado de mediocridade quanto à qualidade artística das obras estrangeiras que são disponibilizadas aqui, ou mesmo de incentivo à falta de leitura, porque nosso povo já não está mais acostumado a ler. Vale salientar que existe um movimento nacional nas redes sociais, a partir do Facebook, com milhares de assinaturas, protestando contra o fim dos filmes legendados.  Pobre nação inculta e incapaz de ver um filme com legendas!!

sábado, 9 de junho de 2012

HQS: As constantes reviravoltas do Universo DC, redefinindo as histórias em quadrinhos no século XXI

Histórias em quadrinhos são para crianças?? Quanta bobagem!! Há mais de vinte anos, os antigos gibis, muito comuns em bancas de jornais e revistas, disputados arduamente por crianças e adolescentes como eu fui há trinta anos atrás, há tempos foram substituídos pelas graphic novels (ou "romances gráficos"). São edições encadernadas, volumosas, com acabamento mais refinado e páginas de melhor qualidade (e por isso, mais caras). Geralmente, nessas revistas as histórias invariavelmente gravitam por temas adultos, complexos, até intimistas, mesmo que protagonizadas por mascarados uniformizados e dotados de superpoderes, seguidos por uma arte bem elaborada e complexa, que já destoou décadas dos antigos desenhos feitos em econômicas gravuras situadas em pequenos quadros desenhados em cada página, da época de desenhistas como Jack Kirby, Sal Buscema, John Romita e Jim Steranko, cujo trabalho e formatação de suas estórias deram o nome desse tipo de literatura ("quadrinhos").

Na verdade, acredito que as histórias em quadrinhos envelheceram junto com o seu público; amadureceram há ponto de hoje, cada vez mais, serem vistos trintões e quarentões lotando não mais a banca do jornaleiro, como faziam outrora seus alteregos mais jovens, mas sim povoando as livrarias em busca de novas e cada vez mais elaboradas coleções. Faço parte, com orgulho, dessa última categoria de leitores, tão apaixonadamente nerds, que entre um ou outro seriado de Big Bang Theory, divertem-se e muito, deixando seus livros de mestrado e doutorado de lado, para se deleitar com as histórias de seus heróis, sejam eles da editora "A" ou "B".

Por falar em editoras, estou acompanhando avidamente os últimos acontecimentos desenvolvidos na clássica editora norte-americana, Detective Comics, mais conhecida como DC, a grande concorrente mundial da Marvel, comprada há alguns anos pelo grupo Time-Warner, enquanto que a Marvel acabou pertencendo a Disney, Esta última montou um estúdio cinematográfico próprio e agora colhe as glórias de levar seus super-heróis para a telona do cinema, como bem demonstra a bilheteria de bilhões de dólares do filme Os Vingadores e do êxito de filmes anteriores como Thor e Homem de Ferro. Enquanto isso, a DC, procura reformular sua linha de personagens e redimensionar seu próprio universo quebrando tabus (como revelar que um dos heróis de seu catálogo clássico é gay), matando e ressuscitando mitos antigos da editora (como foi o caso do Super-Homem, Flash e Lanterna Verde), tentando sair do atoleiro de suas dívidas e da baixa de vendas de seus gibis nas últimas décadas, acompanhando a crise econômica. Gosto dos títulos da DC porque seus diretores não tem medo de arriscar, mesmo afetando a mística de personagens tão conhecidos do público há tantos anos (como o Batman), mas procurando sair da mesmice, dando liberdade criativa aos seus roteiristas e escritores, trazendo até a DC um time de gênios da literatura como Brian Azarello, uma espécie de "Martin Scorcese dos quadrinhos", talentos  Grant Morrison ou Geoff Johns.

Para quem curte quadrinhos e fica ligado no tema, não deixa de ser interessante as reviravoltas que se dão no Universo DC, com suas múltiplas "terras paralelas" e a infinidade de destinos diferentes que podem ter seus personagens, que deixam até tonto o mais tradicional dos leitores. Entretanto, as alterações das histórias da DC não vem de hoje; e assim como a Marvel, passaram por bons momentos de transformações que vale a pena recordar.

O grande salto nas histórias de ambas as editoras se deu nos anos oitenta, no século passado, quando o amadurecimento do público que já me referi fez-se sentir nas novas abordagens de cada um dos personagens das sagas da DC. Sendo fã de quadrinhos quem é que não se lembra da Crise nas Infinitas Terras, em que um envelhecido Super-homem de uma Terra paralela, lutava junto com o Super-homem mais moderno, numa aventura que redefiniu o universo de heróis da editora? Existiu também o pragmatismo dos editores em tentar dar linearidade e coerência a um universo bagunçado de personagens que iam e voltavam nas diferentes décadas, desde a década de trinta (visto que a DC é mais antiga que a Marvel) e que se reencontravam novamente em diversos episódios da Liga (e antiga Sociedade) da Justiça. Era preciso explicar ao grande público, e, principalmente, às novas gerações, porque um personagem como Batman ainda merecia ser lido em plena era do surgimento da cultura digital, quando o herói foi criado ainda na época da Grande Depressão Americana. E mostrar que um Super-Homem não seria tão vetusto a ponto de não conquistar novos e ardorosos fãs. Para isso foi necessário reinventar, recontando a história desses personagens. A partir daí, em cada nova década que surgiu a partir de então, a DC não parou mais.

É bem verdade que a Marvel também fez suas alterações, e expandiu seu universo, seja através da saga Guerras Secretas, ou do surgimento do selo Ultimate, onde os personagens eram apresentados com suas histórias recontadas, ou com novos alteregos para as novas gerações. Porém, atrevo-me a dizer que nenhuma delas conseguiu ter o impacto e a relevância editorial que as histórias que sua rival começou a publicar. Talvez uma das grandes sacadas da Marvel foi ter publicado na década passada a série Dinastia M, onde a personagem Wanda, a Feiticeira Escarlate, irmã de Mercúrio e filha de Magneto, enlouquece com a morte de seu marido, o Visão, e o aborto de seus filhos gêmeos, criando em seu delírio uma realidade alternativa, onde os mutantes governam a humanidade, vários super-heróis tiveram sua história recontada, e Magneto é o seu principal soberano. Tudo bem, a série é muito legal, porém, ainda parece uma série dos X-Men e não uma saga que envolva todos os personagens da editora, redifinindo seu status, e mesmo seu futuro. Voltando a DC, lembro-me, recentemente, de Crise de Identidade, talvez uma das mais sombrias e adultas séries da editora a ilustrar o histórico de edições da Liga da Justiça, mostrando a dor de heróis clássicos como o Homem-Borracha, ao descobrir que sua esposa foi brutalmente assassinada por um serial killer, e de como a morte de alguns personagens me impactou. Até hoje, estórias como a morte de Jason Tood, o segundo Robin, conseguem me deixar emocionado, na saga escrita por Jim Starlin e desenhada por Jim Aparo, em 1989, onde vemos um Batman perplexo (e posteriormente paraplégico), diante de seu inimigo Coringa, autor do terrível assassinato de seu jovem parceiro. Seguiram-se obras-primas como A Piada Mortal, também sobre o homem-morcego, escrita por um genial e inspirado Alan Moore, que recontou a história do Coringa, bem como A Morte do Super-Homem, nas mãos do vilão Apocalipse.Divulgada exaustivamente pela mídia, na época de seu lançamento, a revista serviu para reaquecer as vendas dos gibis da DC, bem como na série de retorno, quando o super-herói ressuscitou.

Um comentário especial ao selo verdadeiramente adulto da DC: o Vertigo. Através dessa divisão da editora, responsável por obras recomendáveis somente para maiores de 18 anos, vemos que a DC ganhou mais destaque, conquistando o público adulto de vez, uma vez que suas estórias envolvendo terror, contos policiais, mistério, ficção científica, violência e sexo, com narrativas bem cinematográficas, mereceram destaque (e prêmios) pelo mundo, mantendo o caixa da editora em alta, apesar dos percalços com seus personagens clássicos entre o público infanto-juvenil. Destaque para a série Hellblazer, com o icônico personagem Johnny Constantine (interpretado no cinema por Keanu Reeves, numa péssima versão em filme), ou as séries do Monstro do Pântano, Casa dos Mistérios, 100 balas (do escritor Brian Azarello, como disse e não canso de repetir: um Martin Scorcese ou um Tarantino dos quadrinhos, junto com o competente desenhista argentino Eduardo Risso), a premiada série Fábulas e a recente série de contos de terror, Vampiro Americano , com o charmoso vilão Skeener Sweet.

Voltando a DC Comics, as reviravoltas da última temporada de histórias começou com a interessante saga A Noite mais Densa, que percorreu todo o universo de revistas da DC, tendo como protagonista Hal Jordan, o Lanterna Verde mais famoso. Numa série onde parte dos personagens morre violentamente para retornar como zumbis (a DC acabou por imitar a Marvel Max, selo adulto da editora concorrente, que tinha os personagens monstros da série Zumbis Marvel), a mudança de personagens, com a morte de personagens mais jovens e o retorno de alguns antigos, considerados mortos, é uma das grandes chamadas do épico escritor por Geoff Johns (responsável pelo retorno do personagem Hal Jordan, outro ressuscitado no esquema de mortes e ressurreições de heróis, bem típico das séries da DC Comics), quando então, após a derrota do vilão Nekron (responsável pelo surgimento dos zumbis), surge a nova série O Dia mais Claro, tendo agora, como personagem principal, o Desafiador, um antigo personagem, oriundo dos anos setenta, meio esquecido pela editora, e que ganhou uma nova e interessante cara, a partir das ideias do mesmo roteiro. Com o final dessa série, descobrimos que, na verdade, as reviravoltas do universo da DC Comics são, na verdade, uma trilogia, com a nova série que estreou no Brasil no começo deste ano, Ponto de Ignição, tendo como personagem o Flash, com seu alterego mais famoso, Barry Allen, colocado agora numa realidade paralela criada pelo vilão Flash Reverso, onde todos os personagens da DC tem suas histórias reescritas, como que refundando o universo de todos, em mais uma iniciativa que parece ser, em parte, uma cópia das ideias trazidas pela Marvel (qualquer semelhança com Dinastia M, pode não ser mera coincidência).

Por fim, entre idas e vindas, alguns surtos de genialidade critativa e outros de mero plágio, para concorrer com a editora rival, creio que o grande objetivo dos editores e roteiristas das histórias em quadrinhos foi o de atualizar personagens já conhecidos do público por décadas (ou quase um século, como é o caso do Super-Homem ou do Batman). Entretanto, creio que parte do magnetismo desses personagens é não perder as características que os fizeram tão conhecidos do público e amados por seus leitores, porque, afinal, kriptonita é kriptonita e Bruce Wayne tornou-se o que se tornou por ter ficado órfão. Acho que as novas gerações tem todo o direito de conhecer versões paralelas e mais modernas de alguns heróis, mas também tem o direito de serem tão seduzidos por esses personagens em suas histórias originais, como foram os leitores mais antigos, das gerações antecessoras. Afinal, o que faz os quadrinhos eternos não é sua aura de novidade, mas sim o predomínio de uma leitura tradicional que, com tablets ou com papel, continua sendo a principal referência de maravilhosas histórias, contadas não apenas com texto, mas também com imagens. Por isso amo tanto as HQs. Viva as HQs!! Que continuem existindo!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

DVD: Por que Drive, para muitos, é uma obra-prima?

O filme Drive, do diretor Nicholas Winding Refn, injustamente exibido nos cinemas brasileiros tardiamente, e somente em algumas cidades (o eixo sul-sudeste que o diga), tendo o prolífico ator Ryan Gosling como protagonista, foi considerado uma mistura de Taxi Driver com Cães de Aluguel. Quanta injustiça! Quanta precipitação! Na verdade, Drive está mais perto do cinema europeu e dos velhos filmes de perseguição a carros dos anos setenta, com pitadas de romance de Antonioni e um pouco de Bertolucci. Em relação a este último cineasta, o filme rende até algumas homenagens a filmes como O Último Tango em Paris, não pelas cenas de sexo ou diálogos revolucionários (que não tem em profusão), mas sim pela interpretação do personagem de Gosling, cujo jeito taciturno lembra-me muito a atuação de Marlon Brando.

Em Drive podemos ver uma série de referências. Sim! Até porque cinema moderno, nos dias de hoje, é um baú de referências. Um pouco como é a vida acadêmica dos universitários com seus textos, artigos, dissertações e teses que contém mais referências do que pura originalidade. Desde o Nascimento de uma Nação de Grifith, desafio qualquer cinéfilo a me dizer que existe filme sem referências ou homenagens. No caso de Drive vemos como estradas e carros são apenas o pano de fundo do drama existencial de quem percorre essas ruas, em busca de dinheiro e perigo. O personagem é um piloto profissional que trabalha como dublê de filmes de perseguição e mecânico de carros durante o dia, e faz bicos servindo como motorista em fugas de assaltos pela noite. Em sua vida solitária de poucas palavras, sempre ajustada no relógio a cada fuga espetacular, o protagonista conhece uma moça que vive com o filho num apartamento vizinho, e diante da ameaça de criminosos contra o marido da moça, recém saído da prisão, nosso herói se vê obrigado a ajudá-los num pacto ético de honra e amor.

A estória do filme é contada de forma serena, apesar da explosão de violência que está por vir e nos choca, de tão estilizadamente sangrenta, pois foi feita pra chocar! O motorista sem nome interpretado por Gosling parece ter sido retirado de um livro de Albert Camus. É um herói existencialista, sorumbático, quieto, mas cujo charme, através de sua serenidade ao guiar um carro de fugas após um assalto durante a noite, tanto como trabalhar como dublê durante o dia, completa-se com o indefectível palitinho nos dentes.  Entretanto, assim como parece quase um monge budista na direção de um veloz veículo, o motorista errante pode também ser uma máquina de violência, cujo catalisador é ativado a partir de qualquer ameaça à vida e segurança de seus novos entes queridos ( a cena do martelo dentro de um bordel já ficou antológica e quando você assistir ao filme vai perceber isso). Drive começa a remover os clichês ou ao menos reposicioná-los, quando em sua primeira parte sai da seara do filme policial e se transforma num romance. No caso, no comovente e platônico romance do protagonista com Irene, a personagem de Carey Mulligan, que faz a contraparte do filme. É ela que completa a estória, que seria inverossímil se não tivesse a sua participação. Assim, Drive conta uma história de amor, como toda fábula moderna, mas fala mais uma vez daqueles amores impossíveis (ou até que poderiam existir com muito esforço), em que um personagem solitário conduz a narrativa, seja pelos atos ou pelas curtas palavras que já traduzem uma bomba de sentimentos.

As palavras, diferentemente dos filmes de Tarantino, não são usadas à exaustão, mas, ao contrário, são usadas economicamente, como as do personagem de Gosling, cuja quietude esconde um paiol de pólvora prestes a explodir. O motorista errante de Gosling pode dizer que vai arrebentar os dentes de um incauto se ele continuar falando ao seu lado, dentro de um Café, com uma polidez tão grande quanto alguém que pede somente mais um pouco de açúçar. São desses personagens introvertidos, mas significativos (como foi, outrora, Clint Eastwood nos faroestes de Sérgio Leone), que o cinema constrói seus heróis.E é da atuação de bons atores como Gosling que se constroem bons filmes.

Drive é vibrante pois foi construído sem esforço para ser um filme cool. E bota cool nisso! A começar pela fotografia, trilha sonora com direito a um lounge eletrônicamente bem transado, cenas bem coreografadas e a jaqueta com desenho de escorpião nas costas, que deverá ficar para a história do cinema. Ryan Gosling é definitivamente um dos grandes e talentosíssimos atores da nova geração, sem os estrelismos de seus colegas trintões, como seu xarás, Ryan Reynolds ou Ryan Phillipe. Todos sabem que Gosling é bonito, o arquétipo do galã, e acima de tudo bom ator, mas ele não precisa ser másculo como Brad Pitt,  elegante como George Clooney, ou tentar salvar o mundo como Tom Cruise; pois, diferente dos galãs veteranos, o jovem ator canadense já consegue imprimir sua própria marca. É um achado a sua composição do motorista errante e sem nome, que encontra a redenção ao conhecer e se apaixonar pela fragilizada, mas encantadora vizinha, esposa de um presidiário, que tem um filho pequeno tão apaixonante e frágil quanto.

O filme ainda tem um par de vilões respeitosamente representado pelos veteranos Albert Brooks e pelo eterno "Hellboy", Ron Pearlman, que não fazem feio como gângsters judeus, integrantes da máfia local, que matam e aleijam tão trivialmente como quem corta um pedaço de bife no almoço. É bem verdade que o universo da vilania é modestamente aproveitado no filme (até pelo possível medo do diretor de recorrer aos clichês do gênero), mas a atuação econômica dos vilões não estraga a beleza de Drive, que foi candidatíssimo a filme cult do ano passado. Tive a oportunidade de observar isso ao viajar a Paris, em 2011, e ter visto o filme estrear por lá, nos cinemas parisienses. Tem coisa mais cult do que ver um filme estrear em Paris?? Infelizmente, como eu disse, no nosso caso, nós, brasileiros, recebemos com imenso atraso uma pequena obra-prima, que ainda por cima ficou relegada às locadoras de video ou à pirataria correlata no Nordeste, onde há pouquíssimos entendidos em cinema que sabem orientar a clientela na hora de encontrar um bom filme. Fazer o quê?! De qualquer forma, assistir Drive é uma grata experiência para quem gosta de cinema, e ainda acredita em vida inteligente dentro da telona. Se for assistir na telinha, feche as cortinas, apague a luz do quarto ou da sala e viaje no carro do protagonista, dirigindo pela highway de uma Los Angeles pós-moderna, sem destino certo, mas rumando para o horizonte. Como diria a música do Smiths: Driving in your car, I never, never, want to go home.... Bom filme, pessoal!!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

QUESTÕES RACIAIS: Cotas raciais nas universidades, finalmente reconhecidas!!

(retirado de ujs.org.br)
Gostei muito de uma recente mensagem publicada pelo apresentador Marcelo Tas, líder da equipe do programa CQC da Band, no twitter, que dizia assim: "Sou a favor das cotas raciais com uma condição:se em breve a gente se envergonhar de um dia ter precisado delas". O twett de Tas repercutiu na internet com muitas mensagens favoráveis e contrárias às cotas, como deveria ser, numa discussão com ares apaixonados que vira e mexe acontece no Brasil sobre temas polêmicos. É comum encontrar pessoas discutindo abertamente os  prós e os contras das cotas em mesas de bar, no ambiente familiar, nas salas de aula ou em redes sociais na web, questionando a adoção do modelo baseado em uma forma de discriminação positiva, por motivos de raça; principalmente quando são realizados exames para o ingresso em universidades públicas.

Em recente decisão histórica, o Supremo Tribunal Federal, através de seus ministros, votou de forma unânime sobre a constitucionalidade das cotas raciais, através do julgamento de uma ação de ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) movida pelo Partido Democratas, que considerava inconstitucional a adoção do regime de cotas na Universidade de Brasília (UNB) por afrontar o princípio constitucional da igualdade. A base do argumento da parte autora no processo contra as cotas foi a de que num país de mestiços, estabelecer regras discriminatórias, privilegiando uma determinada etnia ou cor em prejuízo de outra, afrontaria o princípio de que "todos são iguais perante a lei", celebrado pelo art. 5º da Constituição, tão defendido pelo pensamento liberal clássico, ou pelos conservadores de linha tradicional.

O professor Demétrio Magnoli é um dos célebres
adversários do regime de cotas raciais nas universidades.
(retirado de g1.com.br)
É importante salientar como o argumento da igualdade formal, prevista em lei, superior à igualdade de raça, tem suas bases no pensamento liberal, no Brasil defendido tão ardentemente pela Nova Direita, que tinha nos partidos políticos a figura de, um agora defenestrado,  deputado Demóstenes Torres (um dos autores da ação judicial que tramitou no STF) e na intelectualidade, representado o neoliberalismo anticotas na academia, por pensadores como o professor e geógrafo Demétrio Magnoli. Este último, inclusive, é autor de um interessante, mas polêmico livro: O Mundo em Desordem: Liberdade X Igualdade, em que, baseado em seus fundamentos neoliberais, contraria os defensores das políticas de cotas raciais, reforçando Magnoli a cartilha do liberalismo acerca do direito à liberdade e o culto à iniciativa própria como forma de obter ascensão social. Magnoli reedita Gilberto Freyre, para quem a intensa mestiçagem de nosso povo faz desaparecer as diferenças de raça, passando todos os que residem no território nacional a serem chamados simplesmente de.... brasileiros!

Contrariamente ao que pensa Magnoli, Ronald Dworkin, célebre filósofo do direito norte-americano, já falava das características do sistema de cotas no direito dos Estados Unidos, em seu livro Levando os Direitos a Sério (Ed. Martins Fontes), onde ele discorre sobre o fundamento jurídico das políticas compensatórias, também chamadas de "ações afirmativas", de caráter transitório, que visam equilibrar o que se encontra desequilibrado. O atual presidente Barack Obama, afrodescendente, é um autêntico representante desse sistema, que teve seus primórdios na década  de sessenta, com os imensos movimentos dos direitos civis nos EUA, liderados por Martin Luther King e várias outras personalidades da política, da cultura e do direito.

(retirado de rogatavenia.blogspot.com)
O sistema de cotas não serve para cristalizar uma situação de desigualdade, onde negros assumem o lugar dos brancos indefinidamente, devido ao tempo histórico de escravidão negra e supremacia branca que relegou aos negros séculos de subordinação. Na verdade a medida serve apenas para equilibrar a balança de direitos, garantindo o acesso daqueles que tiveram seu acesso negado por tanto tempo, justamente por motivos de discriminação racial. Quem discordar de mim é só verificar dados levantados pelas Nações Unidas e não pelo governo brasileiro ou pelos movimentos defensores das cotas, afirmando que somente no Brasil, cerca de 70% da população mais pobre é comprovadamente da cor negra, enquanto que de cada quatro brasileiros pertencentes aos 10% mais ricos do pais, três são brancos. É só se verificar na presidência das grandes empresas nacionais quantos negros existem nos postos de comando, ou mesmo na propaganda dos bancos privados, quantos modelos da cor negra são utilizados em suas propagandas. A Caixa Econômica Federal chegou a dar a mancada histórica de exibir um vídeo comercial do banco (rapidamente tirado de circulação) em comemoração ao aniversário da instituição, apresentando um Machado de Assis branco, quando todo estudante do ensino médio, hoje, sabe que o célebre fundador da Academia Brasileira de Letras era mulato. Além de nota zero em história, os dirigentes da CEF também manifestaram sua ignorãncia em questões raciais. Cotas neles!!


(retirado de feraaa001.blogspot.com)
As cotas são uma necessidade devido a uma injustiça histórica cometida contra os afrodescendentes no Brasil, relegados a tarefas braçais ou funções secundárias na sociedade brasileira pós-escravatura, que, estigmatizados, passaram a se acostumar à situação de subalternos, longe do ideal liberal defendido atualmente pelos defensores da Nova Direita, baseado tão somente no sucesso do mérito individual. É muito fácil para um teórico ou político neoliberal dizer que um jovem morador da periferia, da cor negra, pode conseguir melhores oportunidades de vida, trabalho e estudo tão somente por seu esforço pessoal, diante de uma avalanche de preconceitos que vão desde sua contratação em empresas privadas, até o fato de sofrer o risco diuturno de ser abordado na rua pela polícia. É bem verdade que muitos colegas queridos, que moram no sul do país, podem me dizer que, por conta da intensa imigração europeia para a região (principalmente de alemães e poloneses) é comum ver na zona rural ou mesmo na periferia dos centros urbanos, muitas pessoas assumidamente pobres  vivendo com precárias condições de vida. Entretanto, apesar de saber que no campo encontramos muita gente simples e pobre de pele alva, vivendo com míseros trocados no bolso, também desafio a encontrar qualquer loiro de olhos azuis chafurdando comida dentro de lixões, como a legião gigantesca de excluídos, negros e pardos, que lotam a periferia urbana deste país.


As cotas raciais são uma realidade no Brasil e por mais que seus críticos elejam a meritocracia e torçam o nariz para elas, tentando convencer Deus e o mundo o quanto é injusto ou irracional deixar que um negro ocupe um lugar de um branco num processo seletivo, tão somente por sua cor de pele (como se isso fosse possível), a verdade é que o racismo na sociedade brasileira existe, e é mesquinhamente velado, a todo momento em que os poucos negros e pardos que ascendem socialmente "embranquecem" num passe de mágica, quando passam a ser tratados como doutores.

(retirado de umhistoriador.wordpress.com)
É muito comum nas regiões do Norte e Nordeste do país, cidadãos negros de certo status social preferirem ser chamados de "morenos", do que ser reconhecidos como pretos ou mulatos. O emprego do adjetivo "nêgo" ou "nêga", ainda é visto em seu tom pejorativo e é muito usado nessas regiões como forma de zombaria ou parte do anedotário nacional. Quem não se lembra das referências raciais de Monteiro Lobato, com sua personagem Tia Anastácia nas estórias do Sítio do Pica-pau Amarelo, ou da música do ex-comediante (agora deputado) Tiririca, na música que foi tirada das rádios mediante ação judicial, em que numa de suas singelas estrofes dizia "Essa nêga fede...."?! Ir de encontro às cotas raciais e ir contra um Brasil que se assume, reconhecidamente omisso em seu passado no tocante à inclusão racial, mas que agora procura retomar o bonde da história, agregando aqueles que merecem (e devem) ser incluídos, em respeito à tonalidade de sua pele, não porque sejam melhores ou superiores, mas sim porque são reconhecidos dessa forma como detentores de direitos, tão reconhecidos que asseguram, inclusive, vagas nas universidades por força de lei (e agora, por decisão dos tribunais). Sou plenamente favorável às cotas, como acadêmico, professor e cidadão afrodescendente, mas também por louvar a trajetória histórica de mitos como Zumbi dos Palmares, que na época dos quilombos queria tão e simplesmente que seu povo tivesse paz e uma terra para viver. Como diz a música do Caetano, se for para contestar intelectuais como Magnoli e todo um séquito leitor da revista Veja que é contrário às cotas, canto com um sorriso aberto o refrão: "Eu  sou neguinha..........!!!".

quinta-feira, 19 de abril de 2012

FILME: " Machine Gun Preacher" combina religiosidade, guerra e responsabilidade social.

Sam Childers: de ex-viciado em drogas
a uma espécie de "Rambo africano"
a serviço de Deus.
Sam Childers é um ex-viciado em drogas e álcool, ex-traficante  e ex-presidiário que um belo dia, entre suas perambulações em cima de uma Harley Davidson, descobriu Jesus, virou construtor, montou uma igreja para motoqueiros, junkies e prostitutas redimidos, que se batizam ao som de Livin on The Edge da banda de rock Aerosmith, e se tornou um dos pastores mais controversos de uma pequena igreja neopentecostal norte-americana, situada na Pensilvânia,  nos confins dos Estados Unidos. E é nos confins da África, que do alto de seu corpanzil musculoso de ex-integrante de gangues, bigode a la Village People, apresentando um rosto sério e másculo, quase amedrontador, que Childers prega a palavra de Deus tanto quanto dispara tiros de sua coleção de armas, usadas principalmente contra criminosos de guerra na selva africana. Uma história como essa só poderia render filme, bem no estilo hollywoodiano. É é no clima do cinemão americano que vemos a adaptação para o cinema da vida de Childers, numa mistura de Rambo com Hotel Ruanda.




Hoje enfraquecido politicamente, o criminoso
de guerra Joseph Kony é uma das faces
do terror na África.
A história de Childers é contada pelo  filme Redenção (Machine Gun Preacher), dirigido por Marc Forster,  que mistura filme de ação com drama religioso. Através do ator escocês Gerard Butler ( o eterno rei Leônidas, de 300), vemos como um ex-criminoso tornou-se o popular "Pastor Metralhadora", dedicando sua vida a proteger crianças orfãs, vítimas da guerra no Sudão, trocando tiros na selva africana contra guerrilheiros e mercenários. É nesse cenário desolador que vemos um homem que conviveu com a violência a vida inteira, tentando buscar redenção através da fé, voltando-se para esta mesma violência, na qualidade agora de um "lobo pecador atrás de outros lobos", como o polêmico religioso prega em sua igreja na Pensilvânia. Na primeira cena do filme, vemos cenas fortes de uma aldeia sendo destruída no meio da noite, por ensandecidos soldados, matando os adultos a golpes de machete ou tiros de metralhadora, enquanto as crianças sobreviventes, com idade suficiente para empunhar um fuzil, são recrutadas para compor o sanguinário LRA (Lord Resistance Army), o exército de resistência liderado pelo criminoso de guerra, Joseph Kony, procurado internacionalmente, que aterroriza o sul do Sudão e que já ensejou a criação de centenas de ONGs e movimentos humanitários que denunciam os seus crimes e pedem  sua cabeça.

O filme em si não é uma obra-prima, e parece que seu formato é realmente mais adequado para home video, tendo em vista que no Brasil o filme foi distribuído diretamente para DVD e Bluray. Não obstante o conteúdo meio simplório do enredo e atuação em maior parte modesta de seus personagens, Machine Gun Preacher é um bom filme, e só não emociona profundamente quem o assiste porque já estamos acostumados a ver cenas trágicas de genocídio, exploradas à exaustão no cinema, seja em filmes que retratam o holocausto judaico, seja em películas como Hotel Ruanda ou Diamante de Sangue, que também tratam dos sangrentos e irracionais conflitos tribais nos países africanos. É interessante ver na interpretação de Butler como um sujeito meio caipira, da classe média baixa norte-americana, deslocou todas as suas ansiedades, amarguras e incertezas, outrora voltadas para a bebida e para as drogas, para uma dedicação a uma causa, que ele considerou sagrada. Certas pessoas necessitam disso, e abraçam uma religiosidade mais como uma forma de lidar com seus demônios do que fugir deles. Psicologicamente falando, é como se os demônios internos de Sam Childers fossem exteriorizados na figura humana e diabólica dos criminosos sanguinários da África central, como Kony e seu bando armado de soldados assassinos. Nesse sentido, o personagem de Machine Gun Preacher saí da posição de pecador, largado na sarjeta, para incorporar a imagem de um cruzado. E muitos pecadores convertem-se na fé cristã encarando suas vidas como uma cruzada a serviço de Deus.

Ulrich Zwinglio foi um dos líderes religiosos da Reforma Protestante na Suiça,  no século XVI, que ingressou em armas e lutou contra os imperadores católicos, em prol da sua fé, como capelão das tropas da Aliança Cristã de Zurique, vindo a morrer no campo de batalha. Assim como Zwinglio, religiosos como Sam Childers são capazes de entregar a própria vida a uma causa de fé que acreditam, por se considerarem numa missão divina e entenderem que vale à pena sacrificar a própria vida quando a alma não é pequena; principalmente se for em prol da justiça, pela segurança dos mais necessitados. Uma das ironias dessa estória é que o criminoso de guerra  Joseph Kony também iniciou sua jornada de lutas como líder religioso, iniciando um movimento de supostos guerrilheiros cristãos contra o governo majoritariamente islâmico do norte do Sudão, acabando por se tornar um déspota. Childers é alertado dos perigos da violência combatida se voltar contra sua própria violência, e recebe uma grande lição de moral no decorrer do filme, quando ele aprende que não pode deixar contaminar seu coração pelo veneno do ódio ou da vingança, numa das mais belas e comoventes cenas do filme (que eu não vou contar para não desapontar quem quer ver a película em vídeo).

Outro dos aspectos interessantes do filme é o drama familiar que se desdobra na difícil relação de Childers com sua esposa, Lynn (interpretada pela bela e talentosa atriz, Michele Monaghan) e sua filha. Ao mesmo tempo em que é um dedicado e fervoroso missionário, que constroi igrejas na África bem no meio de zonas de conflito, desafiando o exército de Kony, Sam Childers tem dificuldades em ser um pai de família normal, cuidando da filha única nos conflitos tão comuns de adolescência. O pastor guerreiro não teme se autodefinir como um pecador, uma alma perdida, mas é na busca de redenção tentando salvar almas inocentes, como as milhares de crianças africanas que são mortas anualmente nas guerras, minas terrestres, doenças e fome, que Childers busca sua humanidade, mesmo que à custa de seu casamento e da paternidade.

Redenção (no econômico e pouco criativo título do filme em português) é uma boa opção para quem ainda frequenta locadoras e quer ver o vídeo em casa, e pode servir também como tema de estudo em alguns saraus acadêmicos e debates teológicos. Ao final do filme podemos ver, nos créditos, os depoimentos do verdadeiro Childers, a rotina do pastor e de seus familiares, além do trabalho humanitário que ele realiza com suas crianças na África. Se não é propriamente uma obra de arte e nem um documentário, Machine Gun pode servir como um libelo panfletário de como não podemos nos esquecer das tragédias que abalam  o outro continente, tão ou até mesmo piores daquelas que vemos em nosso próprio país, com desocupações de Cracolândias, chacinas em favelas, e Pinheirinhos da vida. Independente da forma crítica e polêmica que possamos ver o trabalho realizado por religiosos como Childers, o que vale  é que estamos vendo alguém fazer alguma coisa, o que não deixa de ser muito importante.

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?