terça-feira, 16 de julho de 2013

CINEMA:Em "O Homem de Aço", por que o filme merece ser visto, apesar de não termos Christopher Reeve, Marlon Brando, Margot Kidder, Gene Hackman, a música de John Williams e nem o diretor Richard Donner?

Nos anos setenta do século passado, diretores de cinema como Steven Spielberg, George Lucas, John Dante e Richard Donner criaram um novo estilo de filmes norte-americanos: os chamados blockbusters (ou filmes "arrasa-quarteirão"). São filmes de grande orçamento, grande elenco e grandes plateias, que inflavam o orçamento (e o lucro) dos grandes estúdios de cinema, lotando salas e teatros, fazendo a festa de todo um público infanto-juvenil e criando a geração nerd de hoje. Eram filmes como TubarãoStar  Wars  e Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro de Spielberg, o segundo de Lucas e o terceiro resultante de uma parceria entre ambos os diretores). Mas foi Donner quem introduziu o universo das histórias em quadrinhos de super-heróis para o cinema, com uma nova estética, através do seu Superman.

Sou hoje, com orgulho, um desses velhos nerds. Assim como também são diretores trintões e quarentões como J.J.Abrahams (criador da série de TV, Lost), Robert Rodriguez e Zack Snyder. A este último coube dirigir o remake do super-homem nos cinemas, contando com o ar galante e esbelto do ator inglês Henry Cavill (da série Tudors e do filme "Imortais") fazendo o protagonista de superpoderes. São inúmeras as comparações com o superman original, do filme de Donner, quando o finado  ator Christopher Reeve galgou o estrelato através de um filme que o marcou para sempre. Entretanto, além das diferenças serem grandes, a forma como os diretores de ambos os filmes (Donner e Snyder) abordaram a história do personagem mais famoso das HQs tem nuances que levam o fã a conhecer universos bem distintos de um mesmo personagem, talvez (ou não) mais adequado a seu tempo.

Em relação ao primeiro Superman, lembro-me claramente do primeiro filme, assistido no cinema em Belém do Pará, no antigo Cine Palácio, em 1979, quando fui com meus pais assistir ao antológico filme de Richard Donner, cuja estreia nos Estados Unidos se deu no ano anterior. Naquele tempo não existia internet e nem celulares, e a divulgação do filme se dava mais por comerciais na televisão. Naquela época eu já colecionava gibis, frequentando bancas de jornais e revistas, e já lia as histórias do Super-Homem. Ainda não existiam os cinemas kinoplex ou multiplex, com suas salas numerosas nos shopping-centers de hoje. Os cinemas eram de rua, em grandes prédios, construções suntuosas que abrigavam anfiteatros enormes, perante uma tela gigante, num auditório onde cabiam mil, duas mil, até três mil pessoas. Hoje em dia, recordo-me que cinemas desse tipo (como foram os extintos Cines Rio Grande, Nordeste e Rex, em Natal) só existem hoje no Brasil em Recife (Cine São Luiz) e no Rio de Janeiro (Cine Roxy); apesar de, na nossa vizinha Argentina, esses belos cinemas ainda fazerem parte do cotidiano cultural dos habitantes da capital, Buenos Aires.

Imagine-se então como um garoto de 8 anos, vendo pela primeira vez na vida, em uma tela, um cara alto, de roupa azul e capa  vermelha, subindo os céus de uma fictícia  cidade de Metrópolis,  salvando a vida de um operário que acabara de cair de um edifício, segurando-o no ar no instante em que caía, segundos antes dele se esborrachar no chão, produzindo não só na multidão presente na cena dentro do filme, mas também nos espectadores de fora, de dentro do cinema, um grito de euforia coletiva e uma salva estrondosa de palmas, tamanha a emoção da cena. Essa era a emoção do primeiro Superman! No tempo em que as cabines telefônicas de rua eram trambolhos gigantescos, e dentro daquela caixa fosca de vidro, um engravatado Clark Kent poderia se esconder, para trocar de roupa em milésimos de segundos, até aparecer como seu alterego, detentor de superpoderes, voando pelos céus da cidade, enquanto a população embasbacada perguntava: "é um pássaro, um avião...?". A magia do Super-Homem era a magia dos filmes que traduziam em realidade, cores e movimento de cenas que nós, leitores de gibis, apenas víamos paradas em pequenas tiras de jornal ou em revistinhas compradas a dez cruzeiros nas bancas. Superman trazia à tona os nosso sonhos de ter superpoderes para fazer coisas boas diante de tantas guerras e maldade. O Super-Homem era nossa vontade de potência!!

A graça do filme se completava com as origens do herói, num distante planeta Kripton, mostrado com economia de detalhes, mas com a firmeza da atuação de uma lenda do cinema, como Marlon Brando, interpretando Jor-El, pai biológico do herói. O filme ainda tinha uma vilão imperdível, um Lex Luthor que demonstrou bem porque era considerado o maior arqui-inimigo do Super-homem, numa perfomance que demonstrou porque o filme era tão bom, não só por ser bem dirigido e pelos efeitos especiais (considerados os melhores de sua época); mas também pela atuação de seus atores. Lois Lane que o diga, a namorada do herói, interpretada por uma elétrica Margot Kidder, atriz canadense que depois do papel que a celebrizou, despencou ladeira abaixo no anonimato, drogas pesadas e tratamento psiquiátrico, enquanto que Reeve, protagonista do longa-metragem e ator principal, amargou a maldição dos intérpretes do "homem de aço", vindo a ficar tetraplégico ao cair numa competição de hipismo, morrendo anos depois numa cadeira de rodas.

Apesar do sucesso e das maldições, o primeiro Superman ficou na história porque acertou no ator que o interpretaria. Chistopher Reeve era a transmutação ideal do Clark Kent criado nas histórias em quadrinhos para o cinema. Por falar em HQ, o filme foi absolutamente fiel aos personagens de papel, com um plus de ter entre eles um elenco estelar. Jor-El, que somente aparecia no começo do filme e em poucas cenas, era interpretado por Brando, uma lenda do cinema. O vilão Lex Luthor era feito por um Hackman recentemente vencedor do Oscar, por sua atuação em Operação França. E a direção de Donner era acertada como um relógio. Não é à toa que, até hoje, o filme é considerado uma das maiores bilheterias do cinema e um dos maiores filmes de super-herói já feito na história (junto com Batman, de Nolan). O Superman encarna o ideal altruísta norte-americano, mas também representa uma figura mítica. Como nosso totem moderno, o super-homem (homônimo daquele da filosofia, retratado por Zaratustra, nas reflexões de Nietszche) é a imagem da divindade, uma espécie de "Cristo alienígena", que vindo de outro planeta sem os pecados humanos, acabou por ensinar a humanidade a ser melhor, fazendo bem ao próximo, através do uso de seus superpoderes, combatendo o mal. Quem não gostaria de ter um anjo alado protegendo-o, livrando-o de perigos e acidentes, pelo simples uso de uma superforça ou mediante sua visão de calor? O Super-Homem representa até hoje o que queremos de melhor para nós, uma visão idealizada e pueril da humanidade ideal.

Como então traduzir tudo isso, reflexão filosófica,  ficção científica, sentimentalismo e puro entretenimento num filme novo, para as novas gerações? É aí que entra o "Homem de Aço" (Man of Steel). Depois do êxito de outras adaptações dos quadrinhos para o cinema, como 300 e Watchtmen, Zack Snyder chamou para si a responsabilidade de reviver o herói mais clássico do século XX para as novas gerações. Mas como tornar o super-homem novamente atraente, se os últimos filmes para o cinema foram um fracasso (vide Superman IV, em 1987 e Superman-o Retorno, de 2006)? Com o sucesso do Homem-Aranha, dos X-Men e do Homem de Ferro da Marvel, e a consagração do Batman, da DC, através da excelente refilmagem feita pelo diretor Chistopher Nolan, que recriou o personagem nos cinemas, faltava a outro herói icônico dos quadrinhos uma volta triunfal. O primeiro passo foi a obviedade, eliminando-se do título do filme e em todo o decorrer da história, o nome do personagem. Isso mesmo, pela primeira  vez na história do cinema um filme de super-homem não teria o nome de super-homem em seu título. Além disso, o roteiro do novo filme afastou-se da fidelidade às primeiras histórias do personagem nos quadrinhos (como ocorreu no filme do Superman original), preferindo se prender a uma nova cronologia, e uma nova forma mais moderna de abordar cada personagem da biografia do herói, dando-lhe uma nova roupagem. Foi isso que aconteceu, por exemplo, tanto com os pais biológicos de Kar-El (nome kriptoniano do "homem de aço"), Jor-El e Lara,  quanto com os pais adotivos terrestres de Clark, Jonathan e Martha Kent, interpretados no novo filme, respectivamente, por Russel Crowe (ótimo), Ayelet Zurer, Kevin Costner e Diane Lane (estes últimos, a grande ponta dramática do filme). 

O foco do novo filme é mais existencial (como se tornaram também as histórias em quadrinhos do herói na última década), permanecendo por meia hora de filme um Clark Kent barbudo, andando como um viajante, um sem-teto superpoderoso pelas entranhas da América nua e crua, procurando se encontrar e praticando grandes atos no meio do caminho, após saber de seus pais adotivos que não era desse planeta. A chance de se redimir com seu passado é quando Clark descobre no Ártico uma nave alienígena congelada há milhares de anos, onde, através de um holograma, ele recebe uma mensagem de seu pai verdadeiro, que esclarece seu passado e seu propósito no universo. Logo, Clark descobre que seu nome verdadeiro é Kal-El e o motivo para ter uma força sobre-humana, ter todos os sentidos superaguçados, poder voar a longas distâncias, além de poder prender a respiração por várias horas embaixo d'água e ser praticamente indestrutível, diz respeito à radiação do Sol da Terra, muito mais forte do que o seu planeta natal, Kripton, destruído por uma hecatombe, depois que sua população consumiu predatoriamente todos os recursos naturais do planeta. Clark então tem que decidir de que mundo ele será cidadão. Se de seu planeta de origem, ajudando a recriar o seu povo, ou se da Terra, protegendo aqueles do planeta que o acolheu; apesar da desconfiança do governo e do exército americano. É o velho mito do imigrante querendo se integrar, que deve ter  passado pela cabeça dos criadores do super-herói,os desenhistas Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938, numa América e numa Europa às vésperas da II Guerra Mundial, que ainda repudiava judeus e estrangeiros, por mais que eles fossem dedicados ao país para que vieram.

Destaque importantíssimo para o vilão, que na nova história não é mais o arqui-inimigo Lex Luthor, mas sim o general kriptoniano Zod, interpretado anteriormente  nos anos oitenta, em Superman II, pelo premiado ator britânico Terence Stamp, e no novo filme é representado pela atuação do esforçado Michael Shannon. O vilão é um militar alienígena que ao tentar dar um golpe de Estado em Kripton, antes de sua destruição, acabou sendo derrotado e enviado para o exílio num grotão da galáxia chamado de Zona Fantasma, jurando a si mesmo encontrar no futuro o filho de Jor-El, responsável indireto por seu infortúnio e última esperança de Kripton; por carregar consigo o segredo para recriar sua civilização. Zod não está sozinho, e encontra-se acompanhado de sua esposa, a violenta e mortal Faora (a bela atriz alemã Antje Traue), além de uma turba de mercenários kriptonianos que vieram a Terra com o único objetivo de destruir o planeta e, consequentemente, o Superman.

Do lado dos mocinhos, a bonita ruiva Amy Adams tenta ser o par ideal do protagonista, interpretando uma repórter Lois Lane destemida e sempre pronta a auxiliar o amado, mesmo que seja embarcando numa nave alienígena, ou num ataque militar, voando com uma bomba, a atingir os inimigos do herói. Sobrou até para os personagens do Planeta Diário, o jornal de Metrópolis onde trabalha o bonachão chefe de Lois, onde encontramos um Perry White que de "white" ficou "black", ao ser interpretado pela primeira vez no cinema, na nova versão, por um ator negro: o competente e consagrado astro, Lawrence Fishburne. Entretanto,  para os fãs mais radicais das histórias em quadrinhos, o roteiro de  David Goyer, que contou com a colaboração do próprio Nolan, responsável pelo sucesso de Batman, parece que em alguns momentos da trama, ficou meio que uma forçação de barra, desrespeitando, inclusive, um dos princípios básicos do herói: quanto ao não emprego de sua superforça para matar. Porém, penso que isso foi um detalhe, a meu ver, observado pelos idealizadores do filme, diante de um universo de heróis que são retratados para as novas gerações com novas nuances, nem sempre tão satisfatórias ou elogiáveis. Ao tentar mostrar um super-homem mais humano (como se isso fosse possível, já que ele não é deste planeta), Man of Steel correu o risco de manchar a biografia do personagem nos cinemas. Mas foi um risco calculado, pois levou em conta não apenas a revisão da mitologia do personagem, como também criou novos mitos, a começar pelo novo significado do "S" estampado no peito, como emblema do uniforme do herói. Por falar em uniforme, até este mudou, desaparecendo um super-herói de calção para surgir um de calças, deixando-se para sempre a imagem motivo de piadas na internet das novas gerações, pela cafonice de se usar uma cueca vermelha por cima da calça azul.

Bem! Se o que interessa é lucro, na sua estreia, na primeira semana de apresentação nos cinemas dos Estados Unidos e Europa, o filme se pagou, dando ao estúdio Warner, responsável pelo longa-metragem, um lucro inicial de 170 milhões de dólares e a garantia de uma continuação, criando-se uma nova franquia. No Brasil ainda é cedo para saber se o filme terá a mesma boa recepção que tiveram Os Vingadores e Homem de Ferro 3, da Marvel ( o que acho difícil). Mas, se não conseguir se tornar um sucesso retumbante, com direito a Oscar, como foi com  Batman-O Cavaleiro das Trevas, ao menos "O Homem de Aço" não vai passar a vergonha do fracasso total, como foi com  o equivocado filme do Lanterna Verde ou o último do Wolverine ( o próximo filme do personagem, a estrear este ano, por falar nisso, quer redimir isso). Man of Steel é um filme bom, mas um bom mediano. Faltou a ele a emoção grandiosa do primeiro Superman, com suas cenas genuinamente feitas para serem uma "história em quadrinhos relatada na tela grande", ou um romance dramático, com direito a lágrimas e choro incontido, quando no final do filme original um indignado Christopher Reeve percorre aos gritos os céus do planeta Terra, mudando a velocidade do globo terrestre para voltar no tempo, e assim salvar sua amada Lois Lane, que minutos antes jazia morta, enterrada no seu carro, após cair em uma cratera durante um terremoto no deserto.Tal cena impactante gerou a música "Super-Homem", composta por Gilberto Gil, ao lado de seu amigo Caetano, que assim como eu, emocionaram-se com um genuíno blockbuster de qualidade, no final dos remotos anos setenta.

E por fim, em relação à música. Se não temos mais o hino do Superman, feito por John Williams, que por décadas marcou o personagem, agora temos a tocante música ao piano de Hans Zimmer a percorrer toda a história. Pra quem viu o primeiro Superman no cinema, sabe-se que a trilha sonora teve um papel primordial, ao carregar no nível de emoção na exibição de cada cena. Já no filme de Snyder a música tem papel secundário. De qualquer forma, vale a pena escutar a música no finalzinho do filme, já com os créditos finais. E lembrar dela numa das cenas mais tocantes e nostálgicas do filme, onde, em flashback, o Super-Homem relembra como foi sua infância, a relação e as lições de vida que obteve com seu falecido pai adotivo, Jonathan Kent. É de dar lágrimas nos olhos! É por ainda sentir o peito batendo mais forte, ao lembrar do sentimento daquele garoto de 8 anos, vendo um ser com superpoderes cruzando os céus de Metrópolis, que eu recomendo assistir ao "Homem de Aço". Como diz o personagem principal, o que importa ao chegar na sala do cinema é se desprender de todo o peso da realidade e encarar a emoção da fantasia, subindo aos céus com sua capa vermelha e um ar triunfante, gritando bem alto: "PARA O ALTO, E AVANTE!!".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

POLÊMICA: Acerca dos cubanos, afinal, o que querem os médicos brasileiros?

Ninguém questiona que o exercício da medicina é uma das mais nobres funções na humanidade, pois consiste em tratar doentes, lidar com a saúde das pessoas e, em algumas situações, até mesmo curar. Digo isso porque a própria palavra ars medicina deriva do  latim, e significa ao pé da letra: "arte da cura". Estes profissionais seguem o juramento de Hipócrates, considerado o "pai da medicina", que entre 460 a 377 a. C. buscava diagnosticar doenças em seus pacientes, valendo-se de conhecimentos rudimentares adquiridos das nascentes ciências naturais, como a física e a química. Médicos são formados e pagos para curar (ou tentar curar), e num país de dimensões continentais como o Brasil, onde existem milhares de locais inóspitos e distantes, há milhares de pessoas pobres, vivendo na miséria e em barracões de barro, que necessitam do auxílio de médicos.

Eis que nas últimas semanas, além dos inéditos protestos e mobilizações de rua que sacudiram o Brasil, por meio do movimento social Passe Livre, agora são os médicos que vão às ruas protestar. Melhores condições para a saúde? Atendimento decente e de qualidade aos enfermos da rede pública? Até que vai! Mas o cerne dos protestos que fez os médicos irem para as ruas foi outro: a contratação de médicos cubanos.

Cuba é considerado um dos países com o melhor sistema de saúde do mundo, apesar  da crise política do governo de Raul Castro e de suas enormes dificuldades econômicas. O sistema de saúde cubano foi mostrado nos cinemas através do documentário Sicko-S.O.S Saúde, do aclamado (e polêmico) diretor norte-americano e ativista de esquerda, Michael Moore. O filme, disponível no youtube, mostra que apesar do rico e bem equipado sistema de saúde norte-americano fazer alguns médicos milionários, como um "Doctor Rey" da vida, é em Cuba que cidadãos de baixa renda e que não tem condições de pagar um caríssimo plano de saúde privado, podem tratar de suas doenças e obter, a preços irrisórios, os tão necessários medicamentos para tratar de suas enfermidades. O tempo de formação de um estudante de medicina em Cuba é geralmente de três a quatro anos, e os salários pagos a esses profissionais na ilha caribenha são baixíssimos, o que leva centenas de médicos cubanos a procurarem paralelamente à atividade profissional principal, desenvolver alguns bicos, para arrecadar dólares num país onde o turismo se tornou a atividade econômica principal.


Mas apesar de todos os problemas, os médicos cubanos ainda são muito requisitados, em convênios e programas de assistência mútua entre países em todo o mundo. O papel desses profissionais na África, por exemplo, indo a lugares onde muitos profissionais da medicina jamais gostariam de estar, rendeu elogios e o reconhecimento das Nações Unidas até hoje. No Brasil, na outra faceta do país que não mostra nem de longe a prosperidade dos emergentes e nem os sorrisos de Neymar e a bem-sucedida seleção de futebol do Felipão na TV, existe ainda um Brasil onde no interior de suas grandes regiões permanecem populações sem o menor atendimento médico. São famílias pobres, de camponeses ou pescadores, situadas em sua maioria na zona rural, principalmente nas regiões norte e nordeste do país, que não tem atendimento médico, sequer hospitais. É para esses lugares que o governo tem dificuldade de alocar recursos e manter médicos, visto que muitos desses profissionais, quando terminam a faculdade, atuam no setor público apenas nas grandes cidades, e para não se distanciar de seus familiares geralmente preferem ficar na zona urbana, nos grandes centros, onde as oportunidades de trabalho e remuneração são mais atraentes, principalmente no setor privado. Na luta pela sobrevivência, é natural que um profissional formado, da área de medicina no Brasil, busque melhores condições que lhe garantam um bem estar e remuneração condizente à responsabilidade e seriedade da profissão.

O problema é que, justamente pela falta de médicos, o governo federal, da presidente Dilma Roussef, decidiu priorizar a contratação de médicos estrangeiros, para atuarem pelo SUS nas regiões mais necessitadas do país, dentro do pacote de medidas governamentais adotado para aplacar os protestos das multidões nos últimos dias, e atendendo a reivindicação popular por atendimento na rede pública de saúde. Com isso, gerou-se um protesto corporativo na comunidade médica, vindo as associações e sindicatos representativos da profissão iniciar uma série de comunicados, protestos e ameaça de greves, diante da contratação dos profissionais estrangeiros. 

Entenda-se que o governo pretende contratar, em caráter temporário, não apenas médicos cubanos, mas também profissionais de outros países, como médicos espanhóis e portugueses, afetados pelo desemprego e recessão diante da crise econômica na Europa. Na Inglaterra, país com um dos melhores sistemas de saúde do mundo, 30% do efetivo de seus médicos é de estrangeiros, contando com profissionais formados  em diversas nações como Índia e Paquistão. Enquanto isso, no Brasil, apenas 1,7% dos médicos é de outra nacionalidade. Ao invés de ser uma demonstração de nacionalismo e valorização da "prata da casa", a ausência de médicos estrangeiros no país revela o tamanho de nosso atraso em relação às demais nações globalizadas, e fato extremamente preocupante, no momento em que a saúde pública e a necessidade premente de atender milhares de pessoas enfermas, sucumbe diante de interesses corporativistas.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, existem ao menos 33 cidades onde o médico não mora onde trabalha. Isso em regiões onde o salário bruto de um médico pode chegar a 18,5 mil reais; o mesmo de um prefeito ou um magistrado. Segundo o secretário de saúde do pequeno município de Mariana Moro, na divisa do estado com Santa Catarina, há 50 quilômetros de Erechim, um dos principais motivos de não haver médicos nas licitações e nem aparecerem esses profissionais nos concursos públicos feitos pela Prefeitura, é de que "não há estrutura e nem mercado". Para o presidente da Associação Paulista de Medicina, Florisval Meinão, "médicos querem trabalhar no Primeiro Mundo". Assim, fica difícil manter esses profissionais em grotões de pequenas cidades, uma vez que as condições de trabalho muitas vezes são inóspitas e esses profissionais por vezes tem medo que seus salários atrasem.

Ora, independente da questão salarial, o que se vê no caso dos médicos brasileiros contra a vinda dos estrangeiros diz muito mais respeito a um flagrante interesse corporativo, em detrimento de toda a sociedade, além de demonstrar  um forte ranço ideológico. No evento ocorrido há uma semana em Natal, no Rio Grande do Norte, o que se viu foi uma passeata de 400 "gatos pingados", com camisas da associação dos médicos do RN, alguns vestidos a caráter, de branco, com lenços na cabeça e no rosto, como forma de demonstração de que a categoria dos médicos estaria insatisfeita com a chegada dos médicos estrangeiros. Entre os presentes eu só pude ver alguns médicos que se tornaram políticos e parlamentares, dos partidos e legendas mais conservadores e voltados ao espectro da direita, pois não identifiquei pelas fotos dos jornais qualquer representante da área médica que fosse filiado e eleito por partidos de esquerda, como PT, PSOL ou PC do B. O  que vi, na verdade, foi uma pequena caminhada de representantes dos segmentos mais tradicionais e elitistas da sociedade, onde muitos deles sequer trabalhou em uma clínica ou hospital de interior, e jamais atendeu pessoas pobres e enfermas em uma favela.

O problema da contratação de profissionais da medicina estrangeiros, principalmente cubanos, é, portanto, mais um problema corporativo e ideológico do que uma questão de saúde pública. Sob o pretexto de que estão defendendo o sistema de saúde brasileiro, exigindo necessário aprimoramento, muitos médicos brasileiros, através de seus sindicatos e associações, estão apenas exigindo melhorias pro seu próprio bolso, afugentando a concorrência por meio de um questionável exame de revalidação de diplomas. Como confiar na seriedade desses exames, quando existe no Brasil um fonte sentimento corporativista, que hostiliza estrangeiros, numa necessidade de autoafirmação de que nossos profissionais, aqui no país, já são bons demais? Para se dar apenas um exemplo pessoal, eu já fui atendido por médicos no Rio Grande do Sul, que se vangloriavam de que naquela região trabalhavam os profissionais mais gabaritados e mais bem treinados do país, e foi numa consulta com uma oftamologista que se orgulhava disso, é que recebi a prescrição da receita errada de um medicamento, e quase fiquei cego por um dia inteiro, ao colocar nos olhos um colírio errado. Somente faço essa crítica, justificando para que alguns amigos médicos não fiquem chateados, para questionar o argumento de que os médicos estrangeiros não seriam bons o suficiente, e por isso haveria a necessidade de revalidação de seus diplomas. Afinal, segundo os defensores desse argumento, não podemos deixar entrar no Brasil "qualquer açougueiro", não é isso?!

Exigir que no Brasil, os conselhos de classe revalidem os diplomas de profissionais que vem do exterior é verdadeiramente um tiro no pé, na medida em que, por dados do próprio CRM, o índice  de reprovação para aqueles que tentam revalidar seu diploma do país de origem no Brasil é de quase 90% (noventa por cento). Por que uma reprovação tão exagerada? Será que nenhum desses profissionais, que vem de diversas partes do globo, tem a competência para manusear um bisturi, cuidar de uma fratura ou prescrever medicamentos? O governo federal, através do Ministro da Saúde, o médico Alexandre Padilha, já disse que só virão para o Brasil os médicos cujos diplomas tenham a devida deferência e rigor técnico de apuração, atestado conforme diretrizes da Organização Mundial de Saúde. Será que isso não é suficiente?

Sob pena de intensificarmos ainda mais o quadro deplorável, da falta de atendimento há milhares de pessoas pela inexistência de médicos (vide, por exemplo, regiões como Roraima, onde só existe um médico para cada dez mil pessoas), urge que profissionais estrangeiros sejam contratados, e vão para regiões distantes do país, onde nenhum médico nativo quer ir. Apesar de vivermos uma realidade capitalista, não posso admitir observar a mesquinha sanha corporativa de algumas associações desses profissionais, que vão a medicina apenas como negócio, e não como uma bela arte de curar e salvar vidas. É por só ver as questões médicas como questão de mercado que vivemos em várias regiões pobres do país uma realidade verdadeiramente africana, que como disse o sociólogo e ex-ministro da Cultura, Francisco Weffort, nos assombra ao sairmos da ilusão primeiromundista de nossas grandes cidades e entrar no interior, nas grandes e depauperadas regiões do Brasil, onde predomina a miséria e o esquecimento governamental. Que os médicos brasileiros não sejam obrigados a ir para onde não queiram, mas que também eles não nos obriguem a manter essa realidade de miséria e falta de atendimento, pela falta de médicos estrangeiros, tão necessários num momento urgente, em que as multidões vão às ruas do país pedir por melhorias efetivas em serviços básicos, como saúde e educação. Que o juramento de Hipócrates, entoado nas cerimônias de formatura dos cursos de medicina, seja feito de novo, ao menos no sentido de apoiar o óbvio, que é o de mais médicos para a população, independente de sua nacionalidade. Se não ajudam, que aqueles que se opõem a isso ao menos não atrapalhem. Os enfermos da sociedade brasileira agradecem!

terça-feira, 21 de maio de 2013

REST IN PEACE: Morreu Ray Manzarek, eterno tecladista do The Doors

O tecladista Ray Manzarek na juventude.
Em 1991 estreava nos cinemas o filme The Doors, baseado na história da banda de rock homônima, com o ator Val Kilmer interpretando o protagonista, o cantor Jim Morrison, morto em 1971, ano em que nasci. Morrison era o frontman dos Doors, grupo musical que se encerrou logo após sua morte aos 27 anos, por uma até hoje mal explicada overdose de drogas em sua banheira, num hotel em Paris. Quando o filme saiu, eu tinha acabado de ler a biografia da banda e conhecer o trabalho deles. Recordo que eu estava voltando de um Congresso da UNE em São Paulo, chegando em casa de viagem, quando encontrei minha mãe triste, chorosa, na sala, acompanhada de parentes, e soube naquele dia que tinha morrido minha avó, vítima de um atropelamento. Lembro que pela noite, naquele clima lúgubre da perda de um parente e sozinho com meu aparelho de som no quarto e um fone de ouvido, deu vontade de escutar uma música do The Doors, a canção Riders on the Storm, com o barulho de chuva introdutório, o som dos teclados e a voz inconfundível de Jim Morrison. Além da voz do cantor, também foi ali que eu aprendi a curtir o teclado de Ray Manzarek.

Sem dúvida, Jim Morrison encarnava a banda, é seu principal símbolo até hoje, e sua voz (além de uma performance arrebatadora nos palcos) ficou para a história da música. Assim como o Legião Urbana no Brasil, a história de uma banda de rock é indissoluvelmente ligada ao seu vocalista. Entretanto, se Morrison era o coração da banda, Ray Manzarek, fundador e tecladista do grupo era seu cérebro, o motor motivador de toda a sonoridade que galgou os Doors e Morisson ao estrelato. Manzarek fez com que seu colega de banda, até então um tímido estudante de cinema e aspirante a poeta, fã de Rimbaud, pudesse se tornar um dos maiores vocalistas da história do rock. No filme do diretor Oliver Stone ele é retratado com economia de detalhes pelo bom ator Kyle Maclachlan (da lendária série de TV, Twin Peaks), mas o retrato de Manzarek no cinema é muito pequeno em relação seu legado, e talvez uma das melhores biografias de bandas de rock seja o clássico livro Daqui ninguém sai vivo, dos jornalistas Jerry Hopkins e Danny Sugerman. Lá é possível encontrar a real dimensão de cada integrante dos Doors, e entender melhor o talento e a personalidade de Ray Manzarek.

Nos teclados ele era o cara.
Manzarek morreu ontem, dia 20 de maio de 2013, aos 74 anos, vítima de um câncer, em um hospital em Rosenheim, Alemanha, acompanhado da esposa e dos dois irmãos. Eu tive a (grata) oportunidade de vê-lo tocando em 2002, quando eu morava em São Paulo, numa apresentação do The Doors of 21 Century, tendo o vocalista do The Cult, Ian Ashbury, brincando de clone de Jim Morrison, fazendo uma animada apresentação no Credicard Hall. Lá, eu vi Manzarek, já idoso, acompanhado de seu também envelhecido colega remanescente do The Doors original: o guitarrista Robby Krieger (o baterista John Densmore foi contra a reunião).  Apesar da ausência de Densmore, foi um episódio memorável e que merecia as fotos que eu não tirei, mas fica aqui o registro de um show muito bacana, feito para saudosistas e para as novas gerações que queriam escutar, ao vivo, um som que se difundiu com o filme do Oliver Stone há dez anos, mas que há trinta anos, já naquela época, soava como antológico. Ray Manzarek era o real líder da banda e demonstrou isso durante toda a apresentação do grupo, mostrando competência nos teclados, assim como mostrou talento ao interagir repetidamente com o público, mais do que o vocalista, fazendo piadas sobre uma suposta farra de velhos hippies numa Amazônia lisérgica, rodeados de drogas alucinógenas, florestas e belas índias. A turnê daquela época já revelava que, sem depender das entrevistas para justificar o retorno dos integrantes originais do The Doors, o objetivo de tocar junto com seus velhos companheiros dos anos sessenta era menos do que ganhar dinheiro e mais de se divertir, para um rockeiro de terceira idade. A imprensa já havia revelado, antes da turnê, que o grupo saía em público com o nome requentado (utilizando a expressão 21 Century ao final do logo original da banda, devido a um processo na Justiça movido pela família de Jim Morrison). Os familiares do falecido Morrison queriam, na verdade, abocanhar toda a grana da turnê dos caras e conseguiram, o que dava mais uma cara de aventura a peripércia daqueles músicos veteranos vir à América do Sul, fazer uma turnê que ia dar zero de lucro. Mas foi o que Manzarek e sua turma fizeram.

Com o The Doors, na época da formação clássica do grupo.
Raymond Daniel Manzarek Jr. nasceu em Chicago, no dia 12 de fevereiro de 1939. Um virtuose no piano na infância (apesar de preferir o basquete quando jovem, diz sua biografia), ele foi um dos maiores tecladistas da história do rock, junto com  Jerry Lee Lewis e John Lord, do Deep Purple (este também falecido este ano). É dele o riff inicial e inesquecível da canção Light my Fire, um dos grandes sucessos do The Doors e música tocada até hoje nas rádios, como uma das mais reproduzidas do século XX, assim como de singles famosos dos Doors como The End e People are Strange. Além dos Doors que o tornou célebre, seu talento pode ser encontrado em diversos álbuns solo, participações com outros músicos ou projetos artísticos alternativos desenvolvidos na música popular moderna, nos últimos quarenta anos. Ele já trabalhou com rockeiros como Iggy Pop, músicos experimentalistas como Philip Glass e com bandas clássicas inglesas dos anos oitenta, como o Echo and The Bunnymen. Casado com a mesma mulher, de ascendência japonesa (Dorothy Fujikawa), desde 1967, no The Doors Manzarek compartilhava as personas de maluco beleza, músico virtuose e homem de negócios. Ele sempre foi antenado com o som de seu tempo, e nunca dispensava uma parceria com músicos mais jovens. Não é à toa que pelo twitter, foi comum ver uma centena de músicos e celebridades postarem mensagens de luto, externando seu lamento pela perda de um músico tão extraordinário.

Rendo aqui a minha homenagem a Ray Manzarek, como a tantos outros que fizeram a minha cabeça com seu talento e deixaram como legado para meus ouvidos músicas inesquecíveis. Desejo que descanse em paz, Ray! E desejo todo o consolo do mundo a sua família. É bom salientar que o tecladista falecido deixa esposa, um filho e três netos, que tem agora a missão de honrar sua memória, divulgando sua música. Em tributo ao The Doors, de Jim Morrison e de Ray Manzarek, deixo aqui o vídeo de People are Strange, uma das músicas que mais gosto do grupo,  num tributo ao grupo realizado recentemente pelo cantor Marilyn Manson, contando com a participação de Robby Krieger e uma das últimas aparições de Manzarek, nos palcos, em 2012 :


sexta-feira, 3 de maio de 2013

FUTEBOL: Barcelona-O que aconteceu?

O Barcelona essa semana foi a cara da tristeza.
O futebol alemão sempre foi um desmancha prazeres. Na verdade, com a pelota os alemães honraram sua tradição cultural e filosófica transformando o esporte bretão em ciência. Se os latino-americanos (leia-se Brasil e Argentina) criaram o futebol-arte, os alemães deram ao futebol europeu o caráter de técnica apurada, testada em laboratório e vendida como máquina eficaz. É claro que o time germânico teve sobressaltos pelo caminho, quando sua tão aprimorada técnica não resistiu, nos gramados, aos pés de um certo Ronaldo Nazário (também chamado de "Fenômeno"), que na Copa do Mundo de 2002, que meus olhos não se cansam de lembrar, derrubou com dois chutes marcantes a muralha teutônica formada pelo corpanzil do eficiente goleiro, Oliver Khan, na final do Japão. Mas esses mesmos alemães fizeram muito na história do futebol, seja no time campeão de 1974, liderado pelos galantes passes do kayser Franz Beckenbauer, derrotando uma até então imbatível (e inventiva) "laranja mecânica" holandesa da seleção de Cruyff, como também foi a grande seleção alemã que conquistou o tricampeonato, contra a Argentina de Maradona, na final da Copa de 1990, fechando com chave de ouro a reunificação alemã com a queda do Muro de Berlim.

O competente técnico do Bayern:frieza germânica.
Eis que a Alemanha retorna às manchetes agora, na segunda década do século XXI, nas proximidades de uma nova Copa do Mundo, agora em solo brasileiro, correndo sempre como favorita, e assombrando o mundo com sua técnica e rigor nos resultados alcançados na Europa por seus dois grandes times: o Bayern de Munique e o Borussia Dortmund; que agora estão, ambos, na final da Liga dos Campeões da Europa. Ambas as equipes produziram a façanha continental de derrotar os dois gigantes do futebol espanhol e mundial, os até então consagrados Barcelona e Real Madrid, respectivamente. Em relação ao primeiro, foi impressionante como a chamada "era Messi" parece ter chegado ao seu ocaso, nas pernas de jogadores como Götze, Hummels, Müller, Mario Gomez, Özil, Schweinsteiger, que com quatro gols certeiros no primeiro jogo, como dono da casa, e com três gols no jogo seguinte, na cidade do rival, como visitante, fizeram com o que Bayern também fizesse história, desmoralizando um time até então considerado imbatível, o dream team do futebol internacional, que em 2011 humilhou o Santos de Neymar, numa goleada menos retumbante, mas tão constrangedora quanto aquela que sofreu agora o time catalão, do veneradíssimo técnico Pepe Guardiola, fora da equipe desde o ano passado. O Barcelona foi eliminado de forma primorosa na semifinal do torneio, e agora só lhe resta recolher os cacos de uma derrota que lotou de manchetes a imprensa esportiva internacional e retornar ao dever de casa (ou as suas categorias de base), para recuperar o orgulho ferido. Como diria a música do saudoso compositor paulista, Paulo Vanzolini, morto esta semana: "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima".

Enquanto isso, os jogadores do Bayern comemoram.
O Barcelona era um dos times mais festejados do final da última década. Com seu esquema tático, sua marcação "por pressão", já na saída do campo adversário, o toque rápido e sincronizado entre os jogadores sempre na busca da posse de bola, nas jogadas feitas "em carrossel", o Barcelona fez com que sua equipe espanhola encantasse o mundo inteiro, seja por ter em sua composição grande parte dos heróis da festejada Copa da Alemanha de 2010, conquistada com mérito pelos espanhóis contra  a seleção da Holanda (eterna vice-campeã em Copas); seja porque o  time da Catalunha tem em suas fileiras o grande astro do futebol mundial, o argentino mais famoso na história do esporte de chuteiras, depois de Maradona, o quatro vezes eleito melhor jogador do mundo: Lionel Messi.

Dessa vez, o craque argentino pouco pôde fazer.
Não são justas as comparações entre Messi e outros craques da história do futebol, como Pelé, Maradona ou Zico. Cada um deles teve sua estrela (e técnica) própria, e fizeram sua parte em seu tempo como ídolos, fazendo gols e armando jogadas que até hoje são repetidas à exaustão, em qualquer documentário sobre torneios mundiais e em vídeos do youtube. Não resta dúvida de que Messi é um jogador disciplinado, talentoso e eficiente, à beira da exaustão, e o que mais se elogia nele é o comprometimento com o time. Como um maestro, mas sem assumir o protagonismo da prima-dona em uma ópera, Lionel Messi arma jogadas, dá assistência a seus companheiros, dribla os adversários, arremessa, chuta e faz gols maravilhosos quando tem oportunidade, sem ser "fominha" e nem querer todos os holofotes, e as luzes dos estádios para suas brilhantes atuações. Mas a verdade é que hoje, nos últimos jogos do Barcelona, o gênio baixinho da provinciana Rosario estava começando a dar sinais de cansaço, além do efeito de lesões físicas. Que pena ver isso num jogador ainda tão jovem, que se tornou pai pela primeira vez recentemente, e que ainda necessita coroar sua carreira, como outros astros da pelota o fizeram, levando sua seleção nacional a conquistar o mais alto campeonato mundial ganhando no solo do maior adversário sul-americano, o festejado título de campeão da Copa do Mundo de 2014, além de levar a Argentina ao idílico tricampeonato mundial. Tarefa difícil, mas não impossível, para quem brilhou durante tanto tempo no Barcelona.

Vergonha:manchetes no mundo inteiro.
O Barça, verdade seja dita, precisa se recuperar de derrotas tão magníficas diante dos rivais alemães, remontando seu time e sua tática, sem perder seu brilho e genialidade em prol da mera técnica, como fazem os alemães. "Humilhados e esmagados", essa é a manchete vista no noticiário esportivo do Sport TV e Globo News, que na verdade foi divulgada primeiro pelos meios de comunicação na imprensa espanhola, mostrando lá como o orgulho catalão foi ferido com a derrota de seu  maior símbolo: sua equipe de futebol local. É importante notar que, para quem entende pelo menos de 1% de futebol, "quem não faz, leva", e no caso do Barcelona, pois mais que fosse laureado como time imbatível, teve suas fraquezas exploradas pelo eficiente treinador da equipe alemã, Jupp Heynches. Ele reativou a tradição alemã de decodificar o estilo do adversário, principalmente na desmontagem do esquema ofensivo de equipes que se valem do esquema tático de jogo em carrossel, desestabilizando os jogadores do Barcelona, assim como a seleção da Alemanha fez com a Holanda, na mítica Copa do Mundo de 1974. Se a "Laranja Mecânica" foi derrotada pela astúcia do futebol alemão, em descobrir cientificamente como furar as defesas de um time tão ofensivo, por que a mesma fórmula não funcionaria com o Barcelona? Pois é! Deu certo até demais pela goleada sofrida que milhões de olhos puderam ver pela TV essa semana, deixando os torcedores do time de Messi de queixo caído.

Até o festejado Pique fez gol contra.Consola ele, Shakira!
Inclusive, após a retumbante derrota para o Bayern, os jogadores do Barcelona ainda tiveram que ouvir uma notícia que parece piada pronta: com a saída do atual técnico, que diz que após o torneio pretende se aposentar, o futuro técnico do Bayern de Munique, já contratado, é, ninguém menos que.... adivinhem...... Pepe Guardiola!! É isso mesmo, o ex-treinador da equipe Catalã, que com sua fórmula mágica levou o Barcelona ao auge dos tablóides esportivos, agora se bandeou para o outro lado, e pretende entregar o ouro ao bandido, revelando todo o esquema tático e todas as fraquezas e furos do Barcelona, ao seu novo contratante alemão. É! Segure-se, Barça!!! O mar não está pra peixe, e, definitivamente, este não foi o ano do Barcelona! Boa sorte, Messi!


sexta-feira, 29 de março de 2013

MOVIMENTOS SOCIAIS: A grande sensação de 2013 é o Feliciano.

Protestos pela posse do deputado Feliciano.
Os movimentos sociais não estão felizes. O motivo dessa infelicidade é um jovem deputado, pastor evangélico, que tem felicidade no nome. Com toda uma balbúrdia como muito não se via no Congresso Nacional, Marco Feliciano tomou posse como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Sabe-se que, historicamente, a tradicional comissão parlamentar foi liderada por ex-presos políticos, representantes dos movimentos sociais ou por políticos antenados com as reivindicações de minorias, tais como negros, mulheres, homossexuais, estudantes e outras categorias sociais que costumam se mobilizar em torno da sociedade civil organizada. Acontece que no último dia 4 de março quem assumiu a presidência dessa comissão foi um pastor evangélico conservador, neopentecostal, dono de um discurso populista e com uma trajetória política duvidosa, egresso de uma legenda minúscula, de um partido da base do governo, chamado PSC (Partido Social Cristão). Foi desse partido que surgiu Feliciano, aproveitando-se de um eleitorado de mais de 200 mil evangélicos, elegendo-se com um discurso polêmico, com fortes conotações racistas e homofóbicas.

O polêmico parlamentar evangèlico conseguiu irritar "gregos e baianos".
Não demorou para que os movimentos sociais se insurgissem e fosse feito um grande barulho durante a posse do deputado, praticamente atravancando os trabalhos da comissão pela qual foi eleito. Segundo as regras da própria Câmara, era do PSC a vaga que cabia na comissão de direitos humanos, no momento em que se encerrava a gestão anterior, e Feliciano foi o indicado. Entretanto, assim que apareceram na imprensa e na internet, vídeos de uma pregação do deputado, como pastor de sua igreja, insultando os homossexuais, e uma polêmica declaração sua no twitter, dizendo que os negros da África tinham justificado seu sofrimento, por serem biblicamente filhos de Caim, isso foi suficiente para que se iniciasse um amplo movimento no Congresso para que o pastor renunciasse. O presidente da Câmara, o deputado Henrique Alves, do PMDB, sugeriu aos representantes do PSC que retirassem Marco Feliciano da presidência da comissão de direitos humanos; mas, respeitando-se uma decisão soberana de uma comissão da Casa, e alegando que o deputado Feliciano era "ficha limpa", o partido de Feliciano decidiu apoiá-lo e o polêmico parlamentar segue na comissão, para desgosto de muita gente.

Uma manifestação homoafetiva típica contra o deputado Feliciano.
Mas, por que se fez tanta celeuma e por que, inclusive, manifestantes foram presos por conta da posse de um deputado do perfil de Feliciano em uma das comissões da Câmara? Não existem outros parlamentares tão ou mais reaçonários do que ele? Entre seeus apoiadores, encontra-se o controvertido e sensacionalista deputado Jair Bolsonaro, inimigo declarado dos partidos de esquerda e de todo e qualquer movimento progressista, considerado um político de extrema-direita, saudoso da ditadura militar e uma das criaturais mais desagradáveis em termos de discurso, quando está com um microfone nas mãos. Em diversas entrevistas em programas de televisão, Marcos Feliciano posa de vítima, achando-se incompreendido, e como um pastor dirigindo-se para suas ovelhas eleitoras, Feliciano foca seu futuro político, ameaçando o governo da presidente Dilma Roussef, dizendo que, ao não apoiá-lo, as forças do governo correm o risco de perder votos no eleitorado evangélico. Bravata ou premonição? Valendo-se de uma vaidade extrema que chega até ao autoendeusamento, Marco Feliciano alega na TV que tem uma missão divina, e por isso foi levado até onde chegou. Ele chegou a emitir certo desdém pelo importante cargo de presidente da comissão a qual ocupa, dizendo que, antes dele, a Comissão de Direitos Humanos tinha pouca expressão dentro da Câmara. Vaidoso, carismático, arrogante ou demagogo, não se sabe bem quais epítetos cabem melhor no controverso parlamentar. Entretanto, sabe-se que até mesmo algumas instituições religiosas mais históricas, vinculadas aos movimentos progressistas, como a IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil), publicaram manifesto, exibindo seu descontentamento com a posse de Feliciano no cargo que atualmente ocupa.

Ato contra Feliciano em Copacabana.
É bem verdade que, em nosso regime democrático, o Parlamento é um celeiro de ideias e um zoológico ideológico onde aparece todo tipo de indivíduo, representantivo de uma classe ou categoria social que o elegeu. Marcos Feliciano não é diferente. Ele representa hoje, é bem verdade, um tipico eleitorado conservador, urbano, de baixa ou  média escolaridade, refratário a determinados movimentos sociais, como os representativos de gays e lésbicas, ou outros movimentos de gênero ou raça, como o movimento de mulheres defensoras da legalização do aborto ou do movimento negro e das religiãos afrobrasileiras. Está aí o grande embate que torna o deputado-pastor tão indesejável na liderança de uma das comissões da Câmara. A capacidade para o diálogo, que se cobra extremamente em funções legislativas que envolvem uma articulação e abertura política para diversos setores da sociedade, praticamente é inexistente em parlamentares com o perfil de Feliciano. Como contar com apoio parlamentar para lutas como o combate a AIDS e as doenças sexualmente transmissíveis através da distribuição gratuita de preservativos pela Saúde Pública, se o presidente de uma comissão da Câmara que trata de direitos humanos (onde a saúde está incluída) é contrário ao sexo antes do casamento?  Como defender o apoio público à pesquisa científica e ao desenvolvimento de novos medicamentos no controle de doenças e superação de enferimidades, se importantes parlamentares são contrários às células-tronco, alegando motivos religiosos? Como garantir um lar a uma criança orfã, por meio da adoção por um casal do mesmo sexo, se deputados como Feliciano combatem fervorosamente o casamento gay e adoção de crianças por essas pessoas? O problema da manutenção do deputado Feliciano na presidência da comissão de direitos humanos é que  se trata de um caso clássico do homem errado no lugar errado. 

Por mais que seja lícita a regra que elegeu Feliciano, em prol de uma sociedade democrática, que respeita a convivência entre progressistas e reaçonários, nenhum parlamentar, governante ou membro do Poder Judiciário pode utilizar argumentos religiosos para exercer atos que exigem razões de Estado e não questões de fé. Existem diversas denonimações religiosas que pregam a completa abstinência de seus integrantes da política e outras que, ao contrário, estimulam até demais que seus membros disputem cargos públicos. É o caso das igrejas neopentecostais e de toda uma bancada que se elegeu confundindo o púlpito com o plenário, e de lá saíram deputados como Marco Feliciano. Na verdade, a atuação política desses parlamentares está muito distante de seus vínculos religiosos, uma vez que a fé é utilizada apenas como um pretexto, para dar dividendos eleitorais a determinados pastores e líderes religiosos. É transformando crentes em eleitorado que políticos como Feliciano surgem e crescem na política.

O problema é que a sociedade é  plural, multifacetada e seria, no mínimo, um viés altamente autoritário permitir que parlamentares como Feliciano obrigassem um Legislativo inteiro a ceder aos seus pontos de vista. Se o parlamento é um espaço para o diálogo, que se permita o diálogo público com a sociedade, onde ambas as partes (tanto os movimentos de contestação quanto o parlamentar envolvido nos protestos), cheguem a um denonimador comum; ou, ao menos a um certo nível de respeito, onde o debate democrático seja possível.

Lágrimas de crocodilo?Com os olhos marejados:e agora, Feliciano?
Acredito que os movimentos sociais exageram ao pedir a cabeça de Feliciano, assim como creio que estejam certos em protestar por um presidente de uma importantíssima comissão da Câmara mais adequado à relevância do tema que é explorado pela Comissão de Direitos Humanos, e que seja um parlamentar mais aberto ao diálogo. Por outro lado, creio também que, mesmo debaixo de tanta controvérsia, críticas e com tanta carga negativa contrária, políticos como Feliciano merecem o benefício da dúvida e ao menos uma chance de provar, por meio de uma atuação impecável na comissão, que seus detratores estão errados. Acho bem difícil essa última hipótese acontecer, mas defendo que seja dado um prazo pequeno para que o deputado Feliciano possa mostrar que conduzirá honradamente a citada comissão. Caso contrário, se Cristo ensinou o perdão, ao menos no caso do cristão Marco Feliciano, o coro dos descontentes não perdoa!

quinta-feira, 7 de março de 2013

REST IN PEACE (Parte 1):Morreu Chorão, um dos ícones musicais da Geração Y brasileira.

Alguns sociólogos chamam de "Geração Y", todo aquele contingente de pessoas que nasceu após a década de 80 até o início da década de 90 do século passado (quem veio depois é chamado de Geração Z). Seriam pessoas que cresceram já na época da revolução tecnológica, do fim dos regimes totalitários em boa parte do mundo (principalmente na América Latina) e o término da Guerra Fria,  da abertura econômica e do progresso da informática, com o surgimento e predomínio da internet, dos aparelhos celulares e de toda uma inovação nos veículos de comunicação, até chegarmos aos tablets, I-pads e I-phones atuais. Enfim, é uma geração que presenciou a vivos olhos, enquanto crescia, o atual processo de globalização que vivemos.

Foi essa geração, em termos de música, anterior a dos meninos que nasceram no ano 2000 (mas que viu ainda criança a substituição do vinil pelo CD), quem presenciou a chegada do MP3, e que assistiu a consolidação de uma das bandas de rock nacional mais profícuas do período: o Charlie Brown Jr. Foi dessa banda, com nome de personagem de desenho animado, que ficou famoso e morreu hoje, aos 42 anos, seu vocalista, conhecido nacionalmente apenas como "Chorão". De origem humilde e com pouca instrução, o vocalista do Charlie Brown Jr. acabou se impondo como frontman, tornando-se um dos vocalistas mais requisitados em eventos da MTV, do canal Multishow e de outros meios de comunicação especializados em música. Eu não o considerava um bom letrista, e achava de uma simplicidade quase antropológica algumas rimas de letras das canções do Charlie Brown que Chorão compunha (afinal, quem é que me diz o que afinal é "tcharoladrão" da canção "Rubão", um dos primeiros hits dos primeiros discos da banda de rock santista). De qualquer forma, nos últimos dez anos percebi como a banda e seu vocalista evoluíram, buscando Chorão obter um som mais melódico e letras mais existencialistas e trabalhadas (muitas voltadas para reflexões sobre os sentimentos, experiências e o passado do vocalista). Com o Charlie Brown Jr., Chorão foi para a geração de adolescentes das décadas de 90 e 2000, o que Renato Russo foi para a geração da década anterior.

Alexandre Magno Abrão, o Chorão, foi encontrado morto na manhã de hoje, em seu apartamento, após um de seus seguranças estranhar a ausência do músico e a falta de movimento no local. Chamada a polícia, o delegado responsável pelo caso descartou a tese de suicídio, mas um pó branco encontrado no local sugere overdose de cocaína. Entretanto, apenas daqui há duas semanas saberemos efetivamente do que Chorão morreu, mediante laudo a ser fornecido pelo IML de São Paulo.

Chorão será velado no ginásio do Santos, clube da cidade de onde veio e pelo qual torceu a vida toda. Campeão de skate na juventude (daí o apelido Chorão, dos tempos em que reclamava das manobras mal feitas e tombos que tomava nas competições), ele entrou no mundo da música meio que por acaso. Sem dominar a técnica de qualquer instrumento musical, mas com muito carisma de palco e a facilidade para montar letras improvisadas, Chorão se apresentou no lugar do vocalista de outra banda, certo dia, em um barzinho em Santos, e daí veio a integrar posteriormente, com o amigo Champignon, uma das maiores bandas de rock brasileiro das últimas duas décadas. Foram ao todo dez álbuns do Charlie Brown Jr, e em todos, com formações diferentes de seus integrantes, Chorão permaneceu como vocalista, sendo reconhecido como a voz definitiva de uma banda que, assim como o Legião Urbana, com a morte de seu vocalista, deverá também se encerrar.

Eu, particularmente, não gostava muito do som do Charlie Brown. Tirando algumas letras, e algumas boas tiradas de seus dois primeiros discos, eu não via muita inovação, além de um rock meio punk, meio pop, muito parecido com outras bandas dos anos noventa, como o Green Day. Assim como a citada banda de Billy Armstrong, o Charlie Brown Jr. era um grupo com um líder carismático, um bom naipe de guitarras e capaz de estabelecer riffs e letras grudentas que reverberavam rapidamente pelas rádios. As músicas compostas por Chorão tocaram até em novelas da Rede Globo, e durante anos o hit "Te Levar" era cantado no início do famoso seriado Malhação. O Charlie Brown era uma banda que flertava bem com o marketing, e foi pelo marketing que Chorão e seus companheiros de banda foram criticados por outro grupo, tão cultuado quanto a banda paulista: os cariocas do Los Hermanos, liderados por seu eloquente vocalista, Marcelo Camelo. Diferente de Chorão, Camelo impunha uma visual mais universitário, intelectualizado e romântico a sua banda, montada com Rodrigo Amarante, que revelava influências de George Harrison e de Chico Buarque, e que explodiu nas rádios do Brasil (e do mundo todo), com a clássica canção "Ana Julia". Nada parecido com o rock  quase visceral, mas meio pasteurizado do Charlie Brown. Foi numa crítica de Camelo à banda rival, numa entrevista, em que dizia que sua banda não precisava fazer propaganda de refrigerante para mostrar estilo, que o cantor Chorão foi tomar satisfações com Camelo, na sala de espera de um aeroporto, em Fortaleza, dando-lhe um soco que virou manchete nacional. Por conta disso, Chorão foi processado e teve que pedir desculpas publicamente, além de ter de pagar indenização, por conta de seu temperamento explosivo. Na época, não se sabia que, por conta desse temperamento, Chorão ia acabar encontrando a morte.

Segundo as primeiras notícias, nos dias que antecederam a morte de Chorão ele andava bastante deprimido, meio paranoico face o consumo de álcool e outras drogas, tomando medicamentos, e reagindo mal à separação de sua ex-mulher, a estilista Graziela Gonçalves, que ocorreu no final do ano passado, após 15 anos de casamento. Segundo o que anunciou o delegado que investiga sua morte, ao ser encontrado revirado o apartamento, sem pistas de que alguém tivesse entrado, a suspeita é de que Chorão tenha entrado em surto, começado a destruir seus próprios pertences pessoais, enquanto vivia um delírio alucinado, até que seu coração não aguentou, vindo a falecer. A versão que predomina até o momento é que Chorão não "aguentou o tranco". Ele simplesmente não conseguiu lidar com seus próprios vícios, frustrações e fraquezas, e mesmo com tanta fama viu-se assolado por uma profunda tristeza e solidão. É muito triste ver mais uma velha história de um rock star que não consegue ficar em paz e acaba se destruindo.

Assim como Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller, Chorão entra agora no panteão muito seleto das estrelas do rock nacional que sucumbiram cedo, envoltos na fama, mas também prisioneiros de seus próprios fantasmas internos, que os levaram de uma forma ou de outra, seja pela doença, seja pelas drogas, para a morte precoce. Chorão era um ídolo para a Geração Y, aquela que eu me referi no ínicio dessa postagem. Muitos jovens escutavam à exaustão suas músicas pelo rádio, internet ou por meio de clipes na MTV e não duvido nada que estejam escutando agora as músicas mais intimistas do Charlie Brown Jr., com lágrimas nos olhos. Eu respeito esse sentimento: o amor a um ídolo nem tanto por conta de sua pessoa, mas pelas coisas que ele canta; assim como me entristeci ao saber da morte de Renato Russo, há quase vinte anos atrás. Hoje, com a notícia da morte de Chorão, também fico resignado, mantendo uma solidariedade com os fãs do músico que se foi, rendendo-lhe, de certa forma uma homenagem, ao escrever sobre ele nestas linhas, reproduzindo, ao final, os versos de "Só os loucos sabem", uma das últimas canções de sucesso da banda, que tem tudo haver com o espírito poético e a busca do amor que o humilde Chorão queria imprimir no seu som:

"Eles dizem que é impossível encontrar o amor
Sem perder a razão
Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião".

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CINEMA: Jessica Chastain-A ruiva definitiva

A disputa das premiações do Oscar este ano promete ser uma das mais emocionantes e acirradas da história. Tudo porque, tirando o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Anne Hattaway (por sua atuação perfeita no musical "Os Miseráveis"), nas demais categorias não existem favoritos e tudo pode acontecer no Dolby Theater, em Los Angeles,  hoje, no dia 24 de fevereiro.

Agora, imagine uma bela e talentosa atriz, jovem mas madura, aos seus 35 anos, que já contracenou com os maiores astros do cinema e foi dirigida por cineastas que muitos atores disputam aos tapas, e, além disso, ruiva. O nome dela é Jessica Chastain (o sobrenome é artístico, pois o de batismo é Howard). Jessica concorre ao Oscar de melhor atriz juntamente com adversárias igualmente talentosas, como Jennifer Lawrence  ("O Lado Bom da Vida"),  Naomi Watts ("O Impossível"), Quvenzhané Wallis ("Indomável sonhadora") e Emanuelle Riva ("O Amor"). No confronto direto, eu diria que a adversária que pode tirar o prêmio de Chastain é Jennifer Lawrence, cuja atuação em "O Lado Bom da Vida" eu já comentei no post anterior. Por outro lado, Wallis e Riva competem dentro de uma curiosidade histórica: são, respectivamente, a mais jovem e a mais velha atriz a concorrer ao prêmio máximo da Academia, na 85º Edição do Oscar.

Eu tive acesso à atuação e talento de Jessica Chastain pela primeira vez ao vê-la no filme "A Árvore da Vida", de Terence Malick. Contracenando com Brad Pitt, como a esposa dona de casa e mãe de família tipicamente norte-americana, nos anos sessenta, Jessica me comoveu com uma atuação primorosa e intimista, que nos fez sentir todo o afago e amor materno. Na época ela já tinha recebido excelentes comentários, tornando-se uma espécie de "queridinha da crítica" por conta de suas escolhas e interpretações. Na verdade, com os decorrer dos filmes que atuou, ela demonstrou ser uma atriz dedicada e minimalista na escolha de seus papéis, dando um toque especial a todos os seus personagens, como a esposa do general Coriolano, ao lado do ator Ralph Phiennes, incorporando Shakespeare no cinema; ou representando o elegante e sensual interesse amoroso do ator Tom Hardy, no filme de gangsters "Os Infratores". Vale destaque para sua atuação também em "Histórias Cruzadas"( que deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer), quando interpretou uma peseudofútil mulher de milionário, odiada por outras mulheres, na Mississipi racista e provinciana do século passado.

Agora, o grande momento de Jessica Chastain, sem dúvida, foi com sua indicação ao Oscar por interpretar uma agente da CIA, no novo filme de Kathryn Bigelow (a mesma que dirigiu e ganhou o Oscar de melhor direção por "Guerra ao Terror"), o thriller político "A Hora mais Escura". No filme, Jessica é Maya, uma agente novata que, ao ingressar no serviço secreto após o terrível atentado terrorista das Torres Gêmeas, no 11 de setembro (que ceifou milhares de vidas, como todos sabem), dedica dez anos de sua vida a pegar o terrorista Osama Bin Laden. O filme parece uma continuação de "Guerra ao Terror", com seu tom de quase documentário, e com uma protagonista mulher no lugar de um homem, mas se a diretora Bigelow conseguiu transformar o ator Jeremy Renner em um astro, no filme anterior, aqui ela trabalhou com uma atriz completa. O filme é totalmente feito para ser conduzido por uma protagonista feminina, e Jessica Chastain consegue dar conta da responsabilidade, nas duas horas de uma película em que o espectador acompanha as buscas, fracassos, tentativas, erros e estratégias montadas pela personagem, até conseguir seu objetivo maior que é matar o terrorista saudita que assombrou o inconsciente coletivo norte-americano, durante toda a primeira década do nosso século.

O filme era para ter um nome diferente, pois se tratava apenas da caçada a Osama Bin Laden, sem ter um final definitivo, até que Bigelow foi surpreendida pela notícia da morte de Bin Laden, alvejado por forças especiais norte-americanas em Abbotabad, no Paquistão, em uma operação secreta autorizada pelo governo Obama, num episódio já conhecido historicamente por todos. A diretora recria a operação, em sua riqueza de detalhes, contando como uma mulher esteve na supervisão disso o tempo inteiro, mostrando em cenas dramáticas e de tirar o fôlego, o suspense dos soldados ao entrar de helicóptero no meio da noite, na fortaleza onde estaria escondido um dos homens mais perigosos do mundo. Fiel à narrativa oficial, o grande mérito do filme é mostrar as últimas horas de Bin Laden, do ponto de vista de quem o matou, além de mostrar a gama de sentimentos que permeava o coração de todos os funcionários da CIA, depois de anos de fracassos na tentativa de localizar e matar o terrorista. É justamente nesse processo de acerto de contas com o passado recente da história americana, que a personagem de Jessica Chastain brilha no filme.

Sua atuação mereceu destaque e indicação ao Oscar, por mostrar a metamorfose de Maya no momento em que ela ingressa de cabeça na missão de destruir Bin Laden. De uma novata relutante, que se assusta com o grau de violência, no emprego da tortura de supostos membros da Al Qaeda, numa prisão em Guantánamo e numa base no Iraque, surge uma agente experimentada, firme mas sem cair no clichê, que dá uma lição de moral num figurão da CIA, num dos grandes momentos do filme, quando ela começa a encontrar obstáculos colocados pelo próprio governo, para encontrar o autor dos atentados das Torres Gêmeas. Destaque especial para uma reunião com o Secretário de Defesa norte-americano, quando é apresentado o plano para localizar Bin Laden e o secretário pergunta quem fez o plano. "Eu fui o filho da puta que fiz esse plano", responde a inquieta agente, prenunciando o climax do filme, que está para acontecer. O grande mérito da atuação de Chastain é o de mostrar o desgaste e a ruptura emocional de alguém que acaba transformando uma missão oficial numa cruzada, em que desejos de vingança e sentimentos de cumprimento do dever misturam-se, a ponto de quebrar a sanidade de quem não esteja preparado. Não é o que acontece com Maya, que, apesar de toda a pressão e das cobranças em não conseguir localizar o terrorista durante anos, não se deixa desabar, ao menos até completar sua missão final, e dar satisfação muito mais a si própria do que a seus superiores, de que o êxito é possível numa tarefa tão complicada e perigosa.


Na noite de hoje as apostas estão lançadas e Jessica Chastain pode sair da cerimônia do Oscar premiada ou não. De qualquer forma, somente o fato de ter recebido uma indicação já lhe dá cacife para ser considerada uma grandes atrizes em atividade, na indústria do cinema atual. O fato de ser ruiva é apenas um plus que realça de charme uma artista que consegue se tornar visível não apenas pela beleza, mas pela imponência na atuação. Que venham novos papéis, novas heróinas e novos personagens, para uma tão talentosa e equilibrada Jessica Chastain. Nós, os fanáticos por cinema, agradecemos muito!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?