quarta-feira, 18 de junho de 2014

ENSINO: Notas sobre a mendicância estudantil

Quando o célebre pensador suíço, Jean Piaget, desenvolveu na década de 40 do século passado sua teoria dos estágios, ele defendeu que, no processo de aprendizagem de crianças, os professores deveriam estar preparados para os quatro estágios de desenvolvimento cognitivo humano: do sensorial, passando pelo pré-operatório até o operatório concreto e por fim o operatório formal. Isso significava, em síntese, que as crianças só estariam preparadas para aprender o que elas teriam condições de assimilar, conforme o estágio de evolução de sua aprendizagem. Acredito que isso esteja mais aplicado ao processo de educação de crianças e jovens, e menos em adultos; mas não descarto que, no que tange ao ensino superior, ainda existe todo um processo de descoberta cognitiva que pode ser impulsionado pelos professores, para que os alunos universitários (agora chamados de acadêmicos) possam também ter uma experiência educacional rica e que dê frutos positivos.

Em mais de dez anos de experiência docente no ensino superior, eu já vi diversas situações, mas, recorrentemente, sempre ao final de cada semestre, eu percebo tanto em instituições públicas quanto privadas a reiteração de um fenômeno que eu agora denomino figurativamente como "esmola acadêmica" ou "mendicância estudantil". Trata-se do expediente comum a alguns alunos (com a conivência de alguns professores), de se atribuir aleatoriamente notas, com aumento ou distorção das pontuações originais obtidas pelos alunos, para que os mesmos possam passar em determinada disciplina ou matéria. Eu chamo de esmola porque esses aumentos de nota sempre dizem respeito a décimos ou a um máximo de um ou dois pontos que são atribuídos a mais a determinados alunos, que geralmente chegam aos seus professores com alguma história triste, para justificar um desempenho acadêmico ruim. São desculpas e justificativas variadas, que vão desde motivos de doença pessoal ou em pessoa da família, viagens em serviço e atribulações de trabalho ou   até a perda de um emprego, o insucesso financeiro, o fim de um casamento, problemas com os filhos, a morte de um familiar ou até mesmo a perda de uma namorada.

Alguns professores, compadecidos com os problemas pessoais desses alunos, transigem e alteram suas notas. Alguns devem pensar: "Afinal de contas, isso não é nada demais, o que custa auxiliar o próximo num momento difícil!" (nesse momento, colegas professores optam pela saída cristã do problema); ou então se saem com a alternativa pragmática: "Tanto faz se eu aprovo ou reprovo ele por aqui, pois, no final das contas, quem vai reprovar a atuação dele é o mercado quando ele sair daqui, e não eu!". De qualquer forma, o efeito que isso produz no aluno que consegue escapar por pouco da arapuca do sistema educacional é geralmente sempre o mesmo: a sensação de que passou na matéria apenas por uma ajuda, uma "mãozinha" do professor. No sistema interno e semestral de avaliação de professores por alunos, principalmente nas instituições privadas, a impressão que fica é que os professores mais bem avaliados sempre são os mais "caridosos"; ou seja, aqueles que passam de qualquer jeito todos os seus alunos.

Ora, o sistema de avaliação brasileiro ainda segue, na maciça maioria de suas instituições de ensino, o anacrônico sistema de notas por pontos e não por conceitos. Geralmente os alunos são avaliados de 0 (zero) a 10 (dez) pontos, totalizando em testes escritos uma média suficiente para que sejam considerados aprovados. Numa sociedade capitalista onde prevalece o ideal liberal-individualista de sucesso por méritos próprios, o sistema de pontos reproduz a lógica individualista do Do it yourself, materializando-se na escola o que acontece nas relações econômicas, no tocante a livre iniciativa e livre concorrência. Na seleção natural das escolas somente os mais bem pontuados (os mais fortes) são aprovados, ocorrendo o mesmo fenômeno nos concursos para a obtenção de cargos públicos.

O método de ensino pregado por teóricos e professores como Piaget ou Paulo Freire levava em conta a participação do professor na vida do aluno, durante o processo de aprendizagem. Nada mais justo e interessante. O problema é que no modelo do ensino superior brasileiro, principalmente no que tange ao ensino noturno (por si só uma verdadeira aberração pedagógica, porque ninguém deveria ser obrigado a vir estudar de noite), essa participação docente é quase impossível, uma vez que as cargas horárias das disciplinas são limitadas, o tempo que o aluno tem com o professor é exíguo fora de sala de aula, e por mais que o professor faça atividades que despertem o aluno cognitivamente, ainda existe a barreira biológica do stress e do cansaço a que estão submetidos milhares de estudantes de faculdades e universidades com cursos noturnos no Brasil; pois são eles majoritariamente trabalhadores subalternos do setor privado ou funcionários públicos de cargos modestos ou de baixo escalão. São homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras que chegam muitas vezes cansados em sala de aula, e se não dormem durante a aula não conseguem de outra forma interagir com seus professores. Como resolver isso?

Em seu livro "Pensando o ensino do direito no século XXI", o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Horácio Wanderley Rodrigues, propõe um método de avaliação que leve em conta o discernimento e a capacidade do aluno de solucionar problemas e tomar decisões, assim como fazem os membros da comunidade jurídica, nos estudos de casos levados ao conhecimento de juízes, promotores e advogados. O problema é que, muitas vezes, os alunos nas instituições de ensino não conseguem se comportar como juristas, e muitas vezes, não tem sequer o que Piaget define como uma aptidão cognitiva para desenvolver uma experiência sensorial que lhe dê a ideia de algo. Traduzindo em simples palavras eu diria que o estudante de Direito não sabe que é estudante de Direito. O Zé, a Maria, a Raimunda ou o Joaquim que trabalha durante o dia na loja, na repartição, no banco ou no supermercado, não consegue à noite, na sala de aula, transformar-se no acadêmico que tem diante de si casos e soluções jurídicas que precisam ser adotadas por um futuro protagonista do Direito. Na verdade, na sala de aula, no lugar de estudantes de Direito, o professor tem diante de si o mesmo Zé da loja, a Maria da repartição, a Raimunda do banco ou o Joaquim do supermercado, e com eles, todos os problemas que eles trazem consigo como repertório pessoal e que levam para a aula, atrapalhando o seu processo de aprendizagem.

Sou totalmente favorável a um sistema de avaliação que não se limite a apreciação do rendimento acadêmico do aluno baseado tão somente em pontos atribuídos a um teste escrito, como um exame simulado da Ordem dos Advogados ou uma cópia de prova em concurso público. Acredito que a participação em seminários, o debate em sala de estudo de casos, a redação de peças escritas em exercícios práticos, a resenha de livros e a feitura de artigos ou projetos supre bem as deficiências cognitivas de quem quer realmente se dedicar ao estudo de temas jurídicos e ser um futuro profissional do Direito ou das Ciências Humanas com uma boa e sólida formação intelectual. Porém, eu alerto para os obstáculos traçados acima, principalmente no que diz respeito ao perfil social e cultural dos estudantes que chegam aos milhares, todos os semestres, nas portas das faculdades pelo Brasil afora.

Temos o desafio como educadores de transformarmos milhares de Josés e Raimundas em verdadeiros "Doutores Josés ou Doutoras Raimundas". Para isso, é necessário que uma barreira cultural aparentemente intransponível seja superada pelos professores universitários diante de seus alunos nas faculdades de Direito. A superação de papeis sociais estigmatizados e interiorizados por alunos no momento em que entram no ensino superior, que os leva a uma conduta de submissão não apenas econômica, mas também existencial (alguns na sociologia chamam isso de biopoder), limitando seus processos de aprendizagem, a ponto dos alunos ingressarem num curso tão importante como um curso jurídico com o comportamento de quem está ali fazendo apenas um passeio, ou lidando com tipos exóticos de paletó e gravata, tão diferente dos tipos que eles encontram na realidade do seu dia a dia.

Tal dilema, a meu ver, só poderá ser inicialmente concretizado se conseguirmos, como educadores, formular através dos textos de estudo não apenas um aprendizado, mas também um convite. Alunos devem ser convidados a serem acadêmicos, a fazerem parte do riquíssimo universo cognitivo das ciências humanas, dentre elas o Direito, seja mediante atividades de pesquisa e de campo, estudo de casos, e, principalmente, o desenvolvimento de uma relação afetiva com a biblioteca. Os livros devem ser vistos não como obstáculos, mas sim como artefatos sedutores de uma gama de conhecimentos que podem ser descobertos, numa experiência prazerosa em que a sala da biblioteca deixa de ser um ambiente frio e anódino, por conta do ar condicionado ou o mofo de papeis e jornais, e passe a ser um ambiente onde a responsabilidade da aprendizagem a ser cobrada através da avaliação não seja vista como um fardo, mas uma conquista. Obviamente que, nesse sentido, só será possível operar com tais transformações se as instituições dispuseram de uma estrutura física e material mínima, além de um pessoal devidamente habilitado, que tenha condições de conduzir o aluno convidado ao conhecimento, durante sua caminhada de descoberta.

Acredito que somente através da aprendizagem alunos se tornem autossuficientes a ponto de preservarem a autoestima e superarem os problemas pessoais, não deixando que eles atrapalhem ou confundam sua vida acadêmica. Como um Demiurgo, no processo de aprendizagem o professor atua numa construção de mundos, onde o mundo do Zé ou da Maria não é mais o mundo da família ou do ambiente de trabalho, mas sim o mundo acadêmico. Eles tem que saber que esse mundo existe e qual é o seu papel nele. Somente assim, creio, poderemos superar o triste e constrangedor fenômeno da "mendicância estudantil" que aparece em todo final de semestre, após o processo de avaliação, quando estudantes chorosos, com um olhar pedinte, que lembra o personagem do Gato de Botas dos filmes do Shrek, aparecem implorando para ser passados em uma disciplina. Enfim, o estudante deveria se lembrar sempre do adágio popular ao assumir uma posição de pedinte diante de seus professores: "esmola demais o cego desconfia". Ao invés de esmolas de pontos, vamos dar conhecimento aos nossos alunos!!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

ESPORTE: VAI TER COPA....SERÁ QUE DO JEITO QUE IMAGINAMOS?

Após vinte e quatro horas chegamos a mais uma data histórica para o esporte mundial: dia 12 de junho 2014, o dia dos Namorados, mas também o dia onde, após 64 anos, temos novamente uma Copa do Mundo no Brasil e em 24 anos um novo evento desse tipo na América Latina (o último Mundial num país latino-americano foi no México, em 1986). De lá pra cá muita coisa mudou, obviamente. Se há 60 anos atrás tínhamos no pós-guerra uma geopolítica dividida entre dois grandes blocos econômicos e políticos (o capitalista, liderado pelos Estados Unidos e o socialista, sob o comando da hoje extinta União Soviética), o que temos hoje é um mercado capitalista global que passa pela terra dos yankees de Obama, atravessa a União Europeia, formada pela maioria dos países que participam do torneio mundial, até a Rússia de Putin, não obstante a crise na Ucrânia e a ocupação da Crimeia pelos russos lembrar um pouco o clima de "Guerra Fria" de décadas atrás. Na verdade, em termos econômicos o futebol mudou muito, tornando-se de esporte uma empresa. Se, na Copa de 1950, quando os jovens brasileiros da época do meu pai, choraram o "Maracanazzo" na final conquistada pelo Uruguai, os jogadores pobres e semiprofissionais das equipes de várzea ou clubes pequenos daquela época, que amargaram a perda do título, hoje foram substituídos pelos milionários jogadores de times galácticos e europeus como Neymar e Messi, pertencentes a clubes europeus bilionários e estrondosamente bem sucedidos no futebol mundial.

Independente da época,seleção é sempre seleção!
A Copa do Mundo hoje é, acima de tudo, um grande negócio. E como negócio que mexe com milhões de dólares e patrocinadores, sua instituição-mor, a FIFA, avança em cada país sede de um evento tão importante, voraz como um enxame de gafanhotos. Assim foi na África do Sul, há quatro anos atrás, e está sendo no Brasil de agora. O traço em comum ao se tratar de eventos mundiais comuns, nestas duas nações emergentes (outrora denominadas de subdesenvolvidas), é que, tanto em cidades como Brasília, São Paulo e Curitiba, quanto em Pretória, Johanesburgo ou Cidade do Cabo, os jogos se iniciaram com obras inacabadas, uma crítica pesada por parte da população aos gastos do evento e movimentos sociais de protesto que geraram nas redes sociais o famoso hashtag: #nãovaitercopa. 

Marcelo foi o responsável pelo primeiro gol contra do Brasil da história
Na verdade terá Copa, e para a presidente brasileira, Dilma Roussef, essa será a "Copa das Copas". Afinal de contas, nunca antes na história dos países que participaram desses torneios mundiais, a equipe anfitriã do evento foi tão favorita e com um retrospecto tão bom de títulos e partidas. A "seleção canarinho", como é conhecida a equipe brasileira liderada pelo técnico, Luiz Felipe Scollari, conta com a responsabilidade de ganhar o torneio não apenas por ter em seu plantel alguns dos melhores jogadores do mundo, mas também por ser a única das equipes de todos os 32 países que disputam o torneio a ter participado de todas as Copas, ter ganho cinco títulos, e ser a única que ergueu o troféu de campeão nos quatro continentes: 1958 na Europa com a Copa da Suécia; 1962 na América do Sul ao vencer o torneio no Chile; em 1970 e 1994 na América do Norte, ao ganhar, respectivamente, o tri e o tetracampeonato nas Copas do México e dos Estados Unidos; e em 2002, no Japão, quando o país foi novamente campeão na final disputada contra a Alemanha, graças aos chutes potentes de um recuperado e renovado "Ronaldo Fenômeno" no auge da forma, e os vacilos no gol do até então imbatível goleiro alemão, Oliver Khan. Todos os brasileiros sabem disso, o técnico e toda a equipe da seleção sabem disso, e os adversários também!

Nas ruas,apesar da Copa,os protestos continuam!!
Entretanto, esta também será a Copa dos protestos e das críticas aos desmandos da FIFA, a desorganização dos governos estaduais e municipais ao realizar obras de mobilidade urbana inacabadas e malfeitas e os gastos exacerbados para se realizar um Mundial no Brasil, num país com tantas dificuldades de infraestrutura em áreas chave, como nos serviços públicos de saúde, segurança, transporte e bem-estar social. A Copa no Brasil serve para mostrar o país ao mundo, não apenas nos festejos de seus sorridentes torcedores, em paisagens de praias paradisíacas, vestidos de verde e amarelo, mas também na revolta violenta dos ativistas a fomentar o caos urbano, nas suas versões mais comportadas de militantes sindicalistas ou estudantis, protestando como nunca pelas ruas, ou na sua versão mais hardcore, através dos mascarados vestidos de preto, a jogar coquetéis Molotov na polícia, no estilo black bloc. É uma Copa do Mundo que antecede o período eleitoral, e que pode significar o fim do predomínio petista de poder após 12 anos, desde a eleição de Lula em 2002, e uma volta ao neoliberalismo tucano do PSDB de Aécio Neves,  ou pode implicar na opção por uma terceira via, liderada pelo ex-governador pernambucano Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, ladeado pela ex-senadora e líder ambientalista, Marina Silva.

Se em 94 tínhamos Romário e 2002 Ronaldo, 2014 agora é Neymar!!
O Brasil já entrou em campo neste dia 12 com uma vitória consistente sobre o time da Croácia., num destacado 3 X 1 para os brasileiros. Algo tão esperado que se tornou até enfadonho. A novidade mesmo foi o gol contra, no início do jogo, cometido pelo lateral-esquerdo Marcelo (o primeiro gol contra do Brasil em 84 anos de história das Copas), que por alguns instantes ameaçava estragar a festa brasileira, que finalmente explodiu em grito e coro nas arquibancadas do Itaquerão e no país inteiro, quando Neymar marcou o primeiro de uma série de futuros gols que poderá dar nesta Copa, mostrando porque ele é um jogador tão fundamental para que o Brasil ganhe o torneio. Afinal, foi através do protagonismo de Neymar no restante da partida, fazendo os dois gols que selaram a história do jogo, é que ficou marcada  qual  será a realidade da seleção brasileira nos próximos desafios do torneio (além de severas críticas à leniência da arbitragem). Muitos esperam que essa Copa não seja a Copa do "arrumadinho", como muitos caracterizam a Copa de 1978, na Argentina, quando em plena ditadura de Videla, os argentinos foram campeões contra a Holanda, sob a acusação da seleção peruana ter facilitado a vida dos argentinos, ao ser eliminada por goleada nas semifinais. Espera-se que, para evitar um novo Maracanazzo, a seleção brasileira conquiste a taça com seu esforço próprio e não com o apelo dos governantes. É isso que não só os torcedores brasileiros, mas os amantes do futebol querem para essa Copa.

Estamos contigo, Felipão!!
Não sou daqueles de torcer pelo fracasso brasileiro no torneio, e nem também sou um dos torcedores mais entusiasmados. Na verdade, como amante de futebol, alegra-me ver belas partidas, com jogadores tão famosos e habilidosos, de diversas partes do mundo, dando um verdadeiro show nos gramados, numa apoteose catártica da multidão que lembra os anfiteatros romanos. Entretanto, ser entusiasta da seleção brasileira não significa estar cego aos problemas nacionais ou ser conivente com a roubalheira, desvios e equívocos dos governos, a nível federal, estadual e municipal. Fazendo um jogo duplo, mas eticamente aceito, eu fico dos dois lados da cancela: seja apoiando os torcedores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, que de forma verdadeiramente apaixonada estão defendendo seu time e pátria de coração aberto; assim como estou junto e solidário aos manifestantes que estão fora dos estádios, protestando contra as injustiças sociais, dotados de plena razão.  Nesta Copa não me vestirei de verde e amarelo, pois meu coração já é assim; mas com certeza estarei torcendo não somente pela seleção canarinho, mas também estarei torcendo por um Brasil melhor. Pra frente, Brasil!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

HOMENAGEM: Marinho Chagas-O craque que preferia andar descalço pela Praia do Meio

Na madrugada do domingo, dia 1º de junho de 2014, há exatos doze dias do início da Copa do Mundo no Brasil, após mais de sessenta anos, não só o país, mas também o mundo perdeu mais um de seus eternos craques: morreu Marinho Chagas!

Na seleção, ele foi o cara.
Para os mais jovens que sequer o conheceram, Marinho para muitos se tornou uma lenda. Ele era o maior lateral esquerdo que a história do futebol brasileiro já conheceu, nos anos setenta do século passado, e jogou como titular da seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974, quando se destacou no torneio, marcando quatro gols. Entretanto,  o Brasil acabou vencido nas semifinais pela Holanda  e acabou ganhando apenas o 4º lugar. O popular camisa 6 ainda marcou sua participação histórica no torneio por um lance polêmico, quando então brigou nos vestiários com o furibundo goleiro, Emerson Leão, após a derrota para os poloneses, do craque da época, o jogador Lato. Nessa época, a fama de jogador indisciplinado, mas talentoso, já corria solto nas jornais da crônica esportiva da época. Mas se não fosse louco, meio indisciplinado, não seria Marinho. Assim como Romário foi nosso bad boy dos anos noventa, Marinho era o encrenqueiro sedutor e goleador ágil das décadas anteriores. Para muitos um ídolo, mas para outros, nunca foi reconhecido devidamente.

Com a camisa do Botafogo, ele foi ídolo.
Francisco das Chagas Marinho nasceu em Natal, no bairro do Alecrim, em 8 de fevereiro de 1952. Tinha nascido pouco tempo depois do Maracanazzo, a histórica derrota da seleção canarinho no final do torneio, tombando diante do Uruguai, do artilheiro Obdúlio Varela, naquele que seria o segundo e último título mundial da Celeste. Iniciando sua carreira no minúsculo ABC, time local de sua região, tradicional campeão potiguar, que cresceu e hoje duela com outros times nacionais o G4 da Série B do Campeonato Brasileiro, Marinho jogou também no Náutico de Pernambuco, mas sua estrela foi brilhar mesmo junto a estrela solitária do meu Glorioso Botafogo, do Rio de Janeiro, onde ele se tornou um dos grandes craques. Intuitivo, Marinho era o tipo do lateral muito comum hoje em dia, mas raro em sua época, que não se limitava à defesa de sua posição, partindo para o ataque, assim como fez seu antecessor, Nilton Santos, outro ídolo botafoguense e da seleção brasileira, campeão em 1958. Apelidado de "Bruxa" pela torcida, por conta do longo cabelo loiro, despenteado, ou de "Canhão Nordestino" pela potência de seu chute, Marinho ficou no time alvinegro carioca por cerca de quatro temporadas. Não demorou para que o estilo de Marinho chamasse a atenção do técnico Zagallo, outro botafoguense fanático, que sabendo da fama do lateral no time carioca, decidiu convocá-lo para a seleção brasileira.

Em plena Copa do Mundo, contra a Polônia.
Mas foi a Copa de 1974 que deu fama e celebridade eterna a Marinho. Eleito um dos melhores jogadores do torneio, apesar do Brasil não ter conquistado o esperado tetracampeonato, Marinho cultivou a fama como todo jogador deslumbrado, nordestino e de origem pobre, que quando ganhou se torna um astro, passa a conviver com o melhor e o pior do sucesso, vivendo um ciclo inevitável de apogeu e decadência. Marinho ficou milionário com os contratos que passou a firmar com clubes famosos, disputou inúmeros torneios nacionais e internacionais, viajou muito, adquiriu bens, comprou carros e imóveis, e saiu com algumas das mulheres mais bonitas do mundo. Nos anos setenta, onde a moda pós-hippie era usar cabelo grande, calça boca de sino, fumar cigarro Continental e andar de Maverick, ao som de Rolling Stones (no auge naquela época) e Roberto Carlos, Marinho Chagas foi o estereótipo do bon vivant. Antes de Romário ou Adriano, ou das farras dos jogadores pagodeiros de hoje em dia, Marinho já tinha seu histórico de drogas, (muito) sexo e rock'n roll. Junto com a fama e os chutes vieram carreiras e carreiras de cocaína, nos embalos de sábado à noite que pareciam não ter fim, e nas baladas veio o álcool, muito álcool.

Marinho envelhecido, mas em uma de suas fases mais saudáveis.
Talvez o álcool tenha sido o grande vilão na história da "Bruxa" potiguar; ou, ao menos, o fator crucial para que sua vida se abreviasse no último final de semana, aos 62 anos, completados em fevereiro deste ano. Marinho não escondia de ninguém o seu vício, e mesmo sua família já estava acostumada aquele tipo  atlético que foi ficando esquálido com o passar do tempo, devido a doses cavalares diárias de bebida alcoólica. Assim como Garrincha, Marinho encontrou seu fim na garrafa, e se as complicações de tantos anos de alcoolismo não comprometessem seu organismo, a ponto de ele morrer por hemorragia intestinal, após passar mal em um evento de figurinhas da Copa, com certeza a cachaça o teria destruído de outra forma, fisicamente e moralmente. O Marinho, que turistas ou moradores da cidade de Natal viam nos últimos anos, era um Marinho bem diferente do sedutor lateral loiro da década de setenta. Mas com seu alcoolismo, Marinho era feliz do seu jeito. Recordo-me de uma das últimas imagens que tenho dele é ao passar pela Praia da Redinha, e vê-lo caminhando calmamente, passo trôpego e sem camisa pelo calçadão da praia, a pele branca e enrrugada avermelhada pela ação inclemente do sol e a aparência de quem era a sombra do que já foi. Marinho não queria mansões, mulheres ou carrões no seu fim de vida como jogador. Para ele bastava a areia quente e fofa da Redinha ou da Praia do Meio, seus lugares prediletos. Para ele bastava ser aquele garoto do bairro do Alecrim que gostava de ir a praia, e um dia descobria que podia rodar o mundo com seu talento.

Na época do Cosmos, em que ele estava no auge.
Marinho Chagas ainda jogou nos Estados Unidos, no Cosmos, junto com Pelé, além do Augsburg da Alemanha, o Fluminense e o São Paulo, quando encerrou a carreira, em 1988. Em todos os seus times ele deixou sua marca de gols, o carisma e uma profunda irreverência. Ficou para a história o lance em treinamento em que Marinho deu um "chapéu" no próprio Rei Pelé, com um sorriso maroto, como que dizendo: "no campo todo mundo é igual". Sem fazer a menor questão de aparecer, Marinho apareceu muito, e se tornou a idílica cara do futebolista de sua época. Porém, engana-se quem pensa
que Marinho tornou-se mais um daqueles jogadores ricaços, empreendedores, que a exemplo de Pelé construíram toda uma imagem e um patrimônio empresarial com base na carreira bem sucedida que tiveram como jogadores. Marinho está mais para outro gênio que sucumbiu a ignorância quase inocente sobre seus próprios vícios: Garrincha. Assim como Mané, o gênio das pernas tortas, terminou a carreira na decadência do alcoolismo, ou acabou sofrendo com os efeitos deletérios da bebida, como Sócrates, Marinho também perdeu a vida pelo resultado de anos e mais anos de birita. Mas seu alcoolismo tem algo de romântico, se é que alguém consegue conceber um vício dessa forma, sem apresentar asco, ojeriza ou ferir algum imperativo moral. Digo isso porque, apesar da bebida, Marinho simplesmente morreu fazendo as coisas que gostava, na cidade que nasceu e amava e foi reverenciado como o ídolo que sempre foi, ao ser descoberto nos gramados.


A capa do Novo Jornal, no dia  de sua morte.


Irrita-me, portanto, ouvir alguns dizerem que Marinho não passava de um bêbado, e seu nome só voltou a ser lembrado depois que morreu, como acontece com qualquer celebridade. Apesar do fantasma do alcoolismo a sempre espreitá-lo como a sombra fantasmagórica da morte, nos últimos anos, com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil, Marinho Chagas passou a ser redescoberto e seu trabalho relido. Ele viu a construção de uma estátua em sua homenagem, virou comentarista da versão local do canal Band Sports, era chamado para eventos, onde se falava de futebol e da contribuição histórica que deram ele e outros craques. Afinal, foi num evento de figurinhas da Copa do Mundo que Marinho assumiu sua última função prazerosa em torno do esporte, antes de passar mal e vir a morrer no hospital. Acima de tudo, Marinho percebia que era querido, e morreu sendo querido.

Lembro-me da última recordação vívida que tenho de Marinho, das diversas vezes que eu saía para trabalhar e passava em meu trajeto pela Avenida Café Filho, na Praia do Meio. Numa dessas andanças avistei Marinho Chagas caminhando, de óculos escuros, com a camisa retirada e guardada acima do ombro, apenas de bermuda e de pés descalços na calçada quente, da orla da praia ao meio dia. Sua pele, pálida mas avermelhada e enrugada, surrada pelo sol, combinava com os velhos cabelos loiros desgrenhados, demonstrando um senhor de meia idade em fim de festa, aposentado, mas vivendo dos feitos do passado. Sei do relato de outro amigo que me disse que uma das diversões de Marinho era pescar peixinhos na praia para seu aquário, caminhando pelo calçadão com um saco plástico cheio de água, repleto de pequenos e coloridos peixes. Não era de carros, iates, mulheres bonitas ou mansões de que gostava Marinho Chagas. Marinho gostava mesmo era de perambular, tomando sua cachaça e pescando seus peixes, nas praias do Meio ou da Redinha.

Tchauuuu, Marinho!!
Que me fique na memória, portanto, não aquele jogador pujante, cuja imagem já está marcada no imaginário de milhares de amantes do futebol, e registrada como uma das mais belas páginas da história do esporte. Por conta disso Marinho já está consagrado. Para mim, ao menos nesse texto, que fique na minha lembrança aquele senhor de meia idade loiro, de pele avermelhada de sol e enrugado, que gostava mesmo era de caminhar pela praia, tomando sua caninha. Que pena que ele não viveu suficiente para ver a Copa do Mundo ser realizada em sua própria terra natal. Descanse em paz, Marinho Chagas!

terça-feira, 8 de abril de 2014

MÚSICA: Por que Lorde encanta?

A música pop de hoje é um retrato da globalização. Assim como muito boa e muita coisa ruim pode bombar na internet, rádios, TVs e festivais de música todo o planeta (vide o sucesso mundial do brasileiro Michel Teló com o hit "Ai, se eu te pego}" e do coreano Psy com seu Gangnam Style). Hoje em dia com o youtube, o itunes, as redes sociais e uma multidão de sites, blogs e aplicativos, pode-se escutar de tudo, do mundo inteiro, em qualquer lugar. Daí o sucesso mundial de cantoras como Lorde.

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De qualquer forma, o estrondoso (e rápido) sucesso de Lorde ainda encanta e espanta. Imagine uma adolescente branca de 17 anos, de olhos graúdos e ainda com espinhas no rosto, ostentando uma vasta cabeleira ruiva, com um namorado nerd magricelo com cara de japa, vivendo numa ilha no meio do Oceano Pacífico, distante de tudo e de todos e há pelos vinte e oito horas de avião de qualquer lugar civilizado. Essa é Ella Yelich-O'Connor, cantora indie de Davenport, localidade na área metropolita de Auckland, na Nova Zelândia, mais conhecida pelo seu nome artístico de Lorde. Divulgada inicialmente em vídeos na internet, não demorou para que a garota galgasse o estrelato, arrebatando diversos prêmios da indústria da música no ano passado e tocando ao vivo recentemente na edição brasileira do Festival Lolapalooza, realizado na cidade de São Paulo, neste final de semana. A garota ganhou o Grammy de melhor canção e melhor performance do ano, com o clipe da música Royals, divulgada à exaustão em canais como a MTV e o VH1. É uma cantora de voz lapidada, suave mas sensual, revelando a potência de alguém com muito mais idade do que aparenta ter. Lorde chegou em 2013 para suceder Adele como grande diva do pop mundial, após lançar seu primeiro e único disco até agora, Pure Heroine, que é de uma qualidade impressionante.

É bem verdade que não podemos esquecer que se trata apenas de uma jovem de 17 anos, revelando em suas letras os desejos pueris e até certa inocência por quem já passou por essa tenra idade. Mas Lorde tem conteúdo, levando-se em conta ser considerada pela família uma garota superdotada, que desde pequena gostava de livros e lia romances inteiros de Raymond Carver e T. S. Elliot. Filha de uma dona de casa que já ganhou um concurso nacional de poesia e de um engenheiro, a pequena Ella pode não ter vindo de uma família de tradicionais músicos clássicos, mas nem por isso, em sua suburbana vida de classe média, pode-se dizer que os familiares de Lorde não a tivessem influenciado com boa leitura e boa música. Foi assim que a artista foi se fazendo precocemente, aos poucos, lapidando um som meio lounge, no estilo Portishead, que veio a ser marca característica da cantora neozelandesa.

Apresentação em Seattle em 2013.
Escutei todas as faixas de Pure Heroine, e apesar de considerar algumas repetitivas, achei no total um disco muito bom. O bom senso da produção de Joel Little revela uma cantora intimista, com uma pequena e discreta pegada soul, que faz parecer canções como Royals feitas sob medida para uma menininha adolescente que questiona na sua letra o consumismo exacerbado de sua geração, tornando-se um hit instantâneo nas rádios e na televisão. Destaque também para 400 Lux, para mim, segunda música do álbum, e, certamente, uma das mais bonitas, boa para se ouvir no carro enquanto se está dirigindo, bem no estilo de bandas como Massive Atack ou Morcheba. Outras canções que merecem destaque são Buzzcut Season, Team e  a intimista World Alone e a possante e viajante Glory and Gore.

Como se trata apenas do seu primeiro disco, acredito que Lorde ainda tenha muita munição para queimar. Vale aqui o destaque de ter a boa nova de ouvir mais uma boa cantora, que não se prende ao remelexo de certas divas, metidas a piriguete, que com coreografias cafonas ou duvidosas, querem se mostrar ao mundo não somente pela sua música, mas também pelo seu corpo, o que não é propriamente a minha praia em termos de gosto musical. Entre loiras de cabelo curto penduradas peladas em cima de uma bola de ferro e uma adolescente ruivinha que parece ter sido tirada de um seriado de Big Bang Theory, prefiro a segunda  Que seja bem vinda a jovem Lorde ao mundo do estrelato musical e que sua música amadureça, assim como ela própria.

quinta-feira, 27 de março de 2014

HISTÓRIA: 50 ANOS DO GOLPE DE 64.POR QUE NÃO DEVEMOS TER SAUDADES DESSA ÉPOCA?

Quando eu nasci, há cinco anos o Brasil era governado por militares. Em 31 de março de 1964 o presidente democraticamente eleito, João Goulart, havia sido deposto e em seu lugar assumiu uma junta militar composta pelos comandantes das 3 Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), colocando como primeiro presidente militar, imposto e não eleito pelo povo, o general Castelo Branco. De 1964 até 1985, ano em que o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves como novo presidente da república ( o primeiro civil presidente após vinte anos), o país, assim como quase toda a América Latina, viveu sob o regime dos quartéis.

Sou, portanto, um "filho da revolução"(como dizia na música Geração Coca Cola, da banda de rock Legião Urbana), pois assim foi chamado um ato político que, na verdade, não foi revolucionário, mas sim um golpe de Estado. Eu havia aprendido ainda bem cedo, nos livros de história, antes de entrar na universidade, que revoluções se faziam com amplo apoio popular e com o protagonismo de partidos políticos e sindicatos, não de exércitos. Entretanto, o golpe de 64 teve, sim, apoio popular, mas o apoio maciço das elites econômicas e de uma classe média conservadora, católica e histérica, com medo do "perigo vermelho" que representava a ameaça comunista. Para os mais jovens, que nasceram depois da redemocratização, pouco se sabe sobre a chamada "Guerra Fria", mas era nesse clima político internacional que viveram milhões de jovens como eu, naquela época, vendo o mundo dividido entre duas grandes (e armadas) potências ideológicas: os Estados Unidos da América, representando o mundo capitalista, de um lado; e a União Soviética, representando os países socialistas do outro lado.

Era um mundo bem diferente há 50, 40 ou 30 anos atrás. O Brasil vivenciado pelos meus pais, em 1964, era um país em alta crise econômica, com protestos e manifestações nas ruas, vindo de diversos segmentos da população, inclusive dos próprios militares. Foi um período de incertezas, e de luta ideológica no campo político entre dois extremismos: o de esquerda e o direita. No meio disso havia uma elite política e econômica conservadora, populista, e uma imprensa cada vez mais comprometida com os interesses do grande capital. Entretanto, o país vivia seu período mais longo de normalidade democrática, com uma sucessão de presidentes eleitos pelo voto popular desde o fim do Estado Novo, nos anos quarenta, ate os anos sessenta, com a eleição de Jânio Quadros, último presidente civil eleito no período, que logo renunciou após meses de um controvertido governo, e que culminou com a posse (nunca aceita pelos militares), de seu vice, o gaúcho João Goulart, um presidente que acabou sendo deposto por aquilo que veio a ser chamado de Revolução (mas que na verdade era golpe).

Meu pai era militar, um jovem marinheiro de 20 anos de idade, quando o golpe aconteceu. Se na caserna, jovens marinheiros se ouriçavam e sargentos do exército protestavam contra o tratamento dado pelos seus superiores,  na cúpula das Forças Armadas generais conspiravam contra o governo, esperando a hora certa de atacar e derrubar o presidente do poder. Enquanto isso, o presidente "Jango" (apelido que lhe tornou célebre) antipatizava-se ainda mais com a elite militar, ao dar apoio aos praças rebelados, e cultivava o ódio dos latifundiários, ao defender um radical projeto de reforma agrária. "Reforma agrária??" Pensavam os conservadores." Mas isso não é coisa de comunista??". Foi por ser considerado comunista (não obstante também ser latifundário e de origem elitista), que Goulart foi deposto, numa paranoia ideológica que identificava a todo momento um subversivo no lugar de um presidente. De um lado, Jango, um presidente que fez um governo fraco, titubeante, com uma base de apoio dúbia, dependendo (e muito) dos partidos de esquerda e sindicatos, de setores nem tão mobilizados assim da sociedade civil, e de um contingente pequeno, mas ativo, de militantes estudantis e intelectuais. Do outro, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar em Minas Gerais,  um militar impetuoso, arrogante, impulsivo e autoritário, que só pensava em si mesmo, um produto do radicalismo ideológico de sua época; mas com sua estabanada atitude de partir com suas tropas em 31 de março em direção ao Rio de Janeiro, com o propósito de terminar com a baderna e "acabar com a ameaça do comunismo", acabou ganhando a adesão de toda uma cúpula militar que já pensava a mesma coisa: derrubar o presidente do poder e assumir para si o comando da nação por mais de vinte anos. Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici e Ernesto Geisel foram os reais presidentes, os chefes de Estado, vitoriosos na "Revolução"; mas foi Mourão seu grande idealizador e também o mais injustiçado, deixado para trás na disputa de poder entre os colegas, que o deixaram de fora da divisão de poder. Estava montado o cenário do autoritarismo fardado no Brasil e o compromisso de subjugação do povo brasileiro aos interesses de um patronato, voltado para os seus próprios interesses, na base da tortura, da censura e da ausência de representação política.

Agora, eu interrompo um pouco meu relato dos anos sob o comando dos militares, para falar de um mito do folclore judaico: o Golem. Vocês sabem o que é um Golem? Um Golem é uma criatura feita de argila, à imagem do homem, que é animada por um rabino que lhe confere vida proferindo uma fórmula sagrada. Este ser ganha vida e aumenta de tamanho a cada dia, devendo servir unicamente ao seu senhor, o rabino que o criou. O problema é que na história do Golem, um ser solitário, carente de afeto, ocorre algo que o seu criador não imaginava. Ele se apaixona pela filha do rabino e sofre por isso. O rabino só criou o Golem para que este atacasse seus inimigos não judeus, mas o ser criado acaba se voltando contra o seu criador, e além de matar qualquer um, inclusive judeus, o Golem acaba matando também o rabino que lhe deu vida. Na literatura esta história acabou inspirando pessoas como Mary Shelley, escritora britânica que nos século XIX inventou o monstro de Frankestein, e que tem muitas relações com esse mito judaico. Na arrogância de querer assumir o lugar Deus como único criador, tornando-se também criadores, os homens acabam por criar seus próprios monstros, que se viram contra eles.

Na metáfora moderna do Golem, nós podemos dizer que todas aquelas pessoas conservadoras, carolas de classe média, que lotaram as ruas dos grandes centros urbanos em 1964, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, na "Marcha de Deus pela Família", acabaram criando seu próprio Golem: a ditadura militar. Sob o pretexto de proteger o país dos comunistas e manter a ordem e os bons costumes, os mesmos grupos que pregavam a solução autoritária da intervenção militar, também sentiram na pele a bota autoritária do Estado, com o surgimento de um regime de exceção. No clima de histeria da Guerra Fria, João Goulart foi confundido com um comunista, e o simples fato de querer conceder voto aos analfabetos foi o suficiente para que centenas de pessoas, com uma visão altamente elitista de sociedade, saíssem às ruas para reclamar contra alguém que queria apenas desestabilizar o tradicional quadro social da sociedade brasileira, de manutenção de privilégios de uma elite e da profunda desigualdade social que gerava multidões de excluídos. Jango representava uma ameaça não porque ele fosse a mudança, mas sim porque inspirava a mudança, e num contexto de ânimos e ideologias acirradas, de um lado ou de outro ele teria que pender, e foi o que aconteceu. Assim como anos depois, com Salvador Allende, no Chile, no Brasil um presidente democraticamente eleito foi deposto, por defender reformas de base que buscariam atingir as desigualdades, promovendo uma maior igualdade de classe, ideia totalmente refratada por quem não queria ver a ascensão social daqueles que um dia já foram seus empregados.

Com o golpe de 64 e a publicação do Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso Nacional e extinguiu por completo as liberdades políticas no Brasil, iniciou-se uma "era das trevas" na história nacional, onde opositores do regime eram sumariamente extintos, por meio da tortura ou mediante escaramuças policiais que terminavam em tiroteio e morte, como aconteceu nas mortes de líderes considerados subversivos e terroristas que aderiram à luta armada, como Carlos Lamarca e Mariguella nos anos sessenta, ou no extermínio completo de militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), na Guerrilha do Araguaia e no assassinato dos dirigentes de seu comitê central, na Chacina da Lapa, nos anos setenta. Milhares de estudantes, sindicalistas e militantes de movimentos sociais foram reprimidos nas ruas e dentro dos quartéis. Foram anos difíceis não apenas no aspecto dos direitos humanos e da liberdade de expressão, mas também no aspecto econômico, com um maior e crescente endividamento externo do país devido ao chamado "Milagre Econômico" do governo de Médici, ao pregar uma modernização que só acentuou a desigualdade social no país, e resultou num violentíssimo surto inflacionário e recessão. Na época dos militares, não existia, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS), com saúde pública para todos os brasileiros na rede pública, prevalecendo em seu lugar apenas as distantes e limitadas filas do INAMPS, que não atendiam a todos os casos. A corrupção no serviço público era endêmica, principalmente porque não havia órgãos gestores responsáveis por fiscalização e controle, com gastos públicos elevados e uma total falta de transparência na divulgação do uso de recursos públicos. O Ministério Público, ainda vinculado ao Poder Executivo, era totalmente amordaçado, sem que promotores de justiça possuíssem qualquer garantia constitucional no exercício de suas funções, fazendo com que muitas vezes promotores, como Hélio Bicudo, não conseguissem levar adiante suas denúncias de tortura e crimes praticados por agentes de Estado, pela proteção legal dada pelo regime aos seus próprios torturadores. No âmbito das artes e da universidade, milhares de artistas, intelectuais e professores tiveram que sair do país, seja porque não conseguiam emprego, seja porque eram perseguidos por suas ideias e opiniões, proibidas de serem comentadas no ambiente universitário, sob pena de perda do emprego de professores e expulsão de alunos, além de uma posterior (e certa) prisão, num ambiente em que a democracia passava de longe. Vivíamos um simulacro de democracia, com presidentes militares vestidos de terno no lugar da farda, sob o discurso da revolução arrebatadora promovida pelos generais, que finalmente teria imposto a ordem, como se uma ordem constitucional não existisse antes no país.

Hoje, quando militares da reserva vão até a Comissão da Verdade, instalada pelo governo federal atual, para investigar denúncias de tortura, assassinatos e desrespeito aos direitos humanos no período da ditadura, vemos que, em alguns casos, alguns deles não titubeiam e não demonstram o menor remorso ou arrependimento ao relatar seus crimes cometidos no período, protegidos pela Lei de Anistia. Ao menos para os defensores dos chamados "anos de chumbo", as confissões desses senhores dão um soco no estômago dos seus ouvintes, face os detalhes sombrios e sanguinários de tortura e desaparecimento de cadáveres, que mais se assemelha ao roteiro de um filme de terror. Sobram dúvidas, também, se os principais líderes civis do período pré-64 (Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e o próprio João Goulart), não teriam sido assassinados e sua suposta morte natural seria falsa, tendo em vista que estes eram os principais líderes populares, com altos índices de aprovação popular entre os políticos civis durante o governo dos militares, e quem efetivamente ameaçava sua hegemonia, seja entre conservadores quanto no eleitorado progressista.


A ditadura não deixa saudade, apesar de ter muito a nos ensinar, pois com ela,  caso tenhamos aprendido algo, foi o de somente saber que nunca mais temos que passar novamente por uma peripécia do tipo autoritária, baseada no conservadorismo e na ignorância, ao considerar que os males da democracia (corrupção da classe política, protestos violentos, manifestações de insatisfação social diárias e uma mídia abusiva e apelativa) só são resolvidos por meio da força das baionetas. Em lugar algum do planeta uma solução do tipo militarizado foi a saída. Pululam a cada dia mais provas e demonstrações que, desde a ascensão do nazifascismo na Europa nas primeiras décadas do século XX, até o advento das ditaduras militares latino-americanas na segunda metade do século passado, os povos desses países só cultivaram ódio, decadência econômica e destruição. Por que voltar a tudo isso, retrocedendo relógio da história? Acredito que, assim como os alemães, que não esquecem seu passado nazista, apenas para lembrar que não querem vê-lo novamente nunca mais, acredito que também no Brasil temos que aprender com a história da ditadura, para que nesta data em que o golpe completa 50 anos, não tenhamos mais aventureiros em cima de tanques querendo impor suas opiniões com canhões, ao invés de eleições.  Este não é um legado que eu queira eventualmente passar para os meus filhos, se eu assim os tiver. Que fique no passado nossa experiência ditatorial, mas que fique na lembrança e jamais sejam esquecidos, aqueles que morreram contra ela, em busca da democracia.

terça-feira, 18 de março de 2014

MEIOS DE COMUNICAÇÃO: Na contramão da história está Raquel Sheherazade e uma multidão de conservadores brazucas

Nos primeiros meses deste ano comentou-se muito sobre as opiniões da jornalista, apresentadora âncora do noticiário do SBT, Raquel Sheherazade, emitidas nos meios de comunicação (televisão e jornais) sobre diversos temas que são caros aos movimentos sociais, setores progressistas da sociedade e defensores dos direitos humanos. No seu telejornal, a apresentadora já falou de tudo um pouco: criticou o extremismo reaçonário do deputado Jair Bolsonaro, mas também atacou o ativismo pró-movimento gay do deputado do PSOL, Jean Willys, ao criticar um beijo gay dado num protesto durante um culto realizado pelo polêmico deputado, Marco Feliciano. Raquel também condenou à legalização da maconha no Uruguai e manifestou ojeriza aos chamados "rolézinhos", chamando os jovens da periferia que frequentam shopping centers de "arruaceiros". Sobrou críticas da apresentadora e jornalista até mesmo ao Carnaval, considerado por ela uma festa elitista e pornográfica, o que lhe garantiu alguns segundos de fama nacional, quando saiu das câmeras do telejornalismo local da TV Tambaú, em João Pessoa, e passou a trabalhar no telejornal nacional do SBT, emissora do célebre apresentador Silvio Santos.

Mas o que chocou mesmo neste ano foram as opiniões da jornalista, manifestadas em rede nacional, acerca do problema social da criminalidade e a situação do sistema carcerário em nosso país. Nesses aspectos, a apresentadora do SBT manifestou boa parte de seu desconhecimento sobre o tema, uma ignorância raivosa e uma reprodução do senso comum, que apenas atiçam o discurso do ódio e a opção reaconária de se criminalizar os pobres, e até mesmo de exterminá-los. Num recente noticiário, e na publicação de um artigo seu na Folha de São Paulo, Sheherazade espinafrou as organizações defensoras dos direitos humanos, desmereceu a Constituição e o Judiciário brasileiro, valendo-se de um slogan de qualidade duvidosa, ao empregar o termo "adote um bandido", para desferir uma série de argumentos preconceituosos, racistas e conservadores sobre os autores de pequenos delitos nas ruas das grandes cidades. Além disso, o ápice dos comentários jocosos de Sheherazade culminaram com uma foto da jornalista numa capa sugestiva na revista Carta Capital; além do início de um duelo verbal com o deputado Jean Willys nos meios de comunicação, além de uma representação criminal promovida pelo deputado do PSOL de São Paulo, Ivan  Valente, alegando que a jornalista propagou o ódio e fez apologia ao crime, ao defender a iniciativa de jovens musculosos, de classe média, que saem às ruas do Rio de Janeiro atacando mendigos e potenciais infratores. Os últimos fatos repercutiram nacionalmente e mundialmente, quando Raquel tentou (sem sucesso) justificar a atitude de alguns desses jovens, ao espancar e humilhar um adolescente negro e pobre no Rio de Janeiro, acusado de ter praticado um furto, preso, nu, no meio da rua, acorrentado a um poste com um cadeado de bicicleta preso em seu pescoço.

A imagem de ver um garoto, preto e pobre acorrentado, recordando os tempos da escravatura, num pelourinho urbano, talvez não seja tão chocante quanto às afirmações da senhora Sheherazade, que em poucos segundos de sua fala na TV invocou o sentimento reaçonário de muita gente no país que pensa de forma semelhante a da jornalista. Para se ter uma ideia, no próximo dia 22 de março estão programadas grandes manifestações nos principais centros urbanos do país, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde seus organizadores pretendem reeditar a Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, realizada em 1964, nos dias que antecederam o golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder. Os conservadores participantes da marcha são exatamente os milhares de telespectadores e fãs da apresentadora do SBT, que se valendo de sua imagem, irão comemorar os 50 anos de um movimento de extrema-direita, de uma classe média elitizada, que impulsionou o advento de um regime autoritário no Brasil, sob o pretexto de combater o comunismo, pregar os bons costumes e, segundo eles, "salvar a família brasileira".

A polêmica apresentadora virou atração fácil em talk shows e programas jornalísticos, por conta de suas afirmações, revelando-se em toda momento uma pessoa sorridente, educada, que, na verdade, teria sido incompreendida num universo onde não se tolera a liberdade de expressão. Em si, em suas entrevistas, Raquel Sheherazade revela-se uma mulher jovem, nordestina (oriunda de uma TV da Paraíba, quando foi descoberta por Silvio Santos), de bons modos e voz adocicada, que não se acha nem um pouco atrasada politicamente, e tem uma queda musical por heavy metal (ela já demonstrou por diversas ocasiões gostar de bandas como  Iron Maiden e Metallica). Sob essa aparência, Raquel apresenta o figurino da mulher represante da Nova Direita: conservadora, bem sucedida e sem papas na língua. Acredito sinceramente que Raquel Sheherazade seja uma criação da TV. Uma espécie de Golem conservador, criado sob a forma de uma bela e educada mulher, que por detrás da aparência de boa moça destila ódio através das mais virulentas e politicamente incorretas afirmações. Se na democracia brasileira só faltava o surgimento de uma Direita que não tem medo de dizer o seu nome, ela finalmente apareceu sob o nome da apresentadora do SBT e de um séquito de neoidiotas que pretendem entulhar as ruas do país com sua ignorância e discursos racistas, homofóbicos e reaconários, em manifestações públicas que deverão reunir às claras milhares de apoiadores do deputado extremista Jair Bolsonaro, que finalmente vão sair das sombras e revelar a cara e o perfil social da Nova Direita no Brasil.

Celebridade instantânea: entrevistada no programa de Danilo Gentili.
Eu entendo que personalidades como Raquel Sheherazade tem uma missão. Sua missão é a mesma dos acólitos da grande mídia conservadora norte-americana, encastelada em grandes meios de comunicação como o canal Fox News: transmitir a mensagem ideológica de um pensamento conservador, de extrema direita e de linhas autoritárias, intolerante com as minorias, principalmente se elas são formadas por negros e homossexuais. Nada errado quanto a isso. Afinal, estamos numa democracia! Se eu quisesse uma sociedade somente composta de gente igual a mim eu viveria o paradoxo de defender a convivência democrática no discurso; mas em verdade ser totalmente antidemocrático. A democracia que estabelece o convívio entre os diferentes nas suas diferenças, também é a democracia em que eu tolero ou convivo no espaço público  com aqueles com quem eu não conseguiria conviver no mesmo teto ou que não me toleram, mas deviam tolerar. Quando Silvio Santos chamou a senhora Sheherazade para apresentar em cadeia nacional o telejornal de sua emissora, acredito que, de caso pensado, ele pensou em transmitir essa mensagem ideológica que lhe tanto caiu bem nos tempos em que apresentava a Semana do Presidente, nos intervalos de seu programa dominical, nos tempos da ditadura militar. Acredito que Silvio Santos usufrua de uma mensagem compartilhada por todos os grandes barões da mídia; uma vez que em tempos de black blocs e de  uma presidente ex-guerrilheira, ser conservador também aumenta o Ibope. Raquel apenas afirma verborragicamente seu pensamento atrasado, porque tem carta branca da emissora de seu chefe para fazer isso. Os conservadores precisam de eco nos meios de comunicação, e se os âncoras da Fox News fazem isso com tanto sucesso perante o eleitorado republicano na terra do Obama, porque não fariam isso aqui, na terra de Dilma, Jean Willys e Bolsonaro?

MARCHA PELA FAMÍLIA:Pessoas como Sheherazade querem de volta isso.
Raquel Sheherazade teria, portanto, uma função educativa. Através da divulgação de seus pontos de vista, que representam as idiossincrasias de um  segmento da população, a jornalista do SBT consegue expor à luz do dia milhares de vampiros ideológicos que se fingiam de mortos ou pareciam adormecidos durante anos, e que só surgiam de vez em quando, nas urnas em época de eleições, para eleger as mais estapafúrdias e anacrônicas personalidades políticas. Ao identificar um reaconário eu tenho como combatê-lo, a partir do direito ao debate, numa condição ideal de discurso que somente uma sociedade genuinamente democrática pode me conceder, como diria o filósofo alemão Jurgen Habermas. É através da transparência conferida apenas numa democracia, com liberdade de imprensa, que eu tenho como contra-atacar e denunciar o quanto é autoritário e antidemocrático o discurso daqueles que se acham acima do bem e do mal, na sua ilusão de classe, e que, assim como Sheherazadade, só trafegam na metrópole do trabalho para a casa e de casa para o shopping center, sem ter um pingo de conhecimento da realidade social. Pela democracia eu identifico os autoritários de plantão em seu discurso vazio do "adote um bandido" ou "bandido bom é bandido morto", com toda alienação inerente a esse tipo de discurso.

Por mim, que fiquem as "Sheherazades" com seus comentários idiotas nos meios de comunicação, justificando amarrar na rua adolescentes pretos e pobres com cadeados de bicicleta, como os brancos da Casa Grande justificavam os presos acorrentados no Pelourinho. Tais pessoas existem, nos dizeres do deputado Jean Willys, para serem combatidas, e é em nome desse bom combate que eu saúdo a todos os conservadores, direitistas e reaconários que agora corajosamente assumem sua posição política, e sem medo de bate-boca vão as ruas e fazem seus comentários nos meios de comunicação, deixando de lado o anonimato covarde da internet. Que venham Raquel Sheherazade e sua turma!! Como diziam os revolucionários na Guerra Civil Espanhola, que eles venham para o enfrentamento. No pasarán!!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

COTIDIANO:Preconceito

Início o primeiro post do ano neste blog para falar de um tema muito feio: o preconceito. Creio que desde crianças, em determinada fase de nossa formação, ouvimos falar dessa palavra, que ao pé da letra significa um "pré" (antes) do conceito, ou seja, uma espécie de conceito superficial, mal formado acerca de pessoas e coisas, antes de termos um conceito propriamente dito sobre algo. Implica em dizer que não podemos "julgar um livro pela capa", como se diz no adágio popular, ou não podemos nos deixar levar por ideais pré-formuladas, ou por "minhoquinhas" que entram ou já estão em nossa cabeça, antes de propriamente conhecer algo ou alguém. Na Sociologia do Direito alguns autores chamam isso de "metanorma", uma norma pré-concebida no inconsciente de quem julga que compromete, de certa forma, a formulação de seu juízo. De qualquer forma, o que me interesse aqui falar é do preconceito que todos nós, eu, você e o próximo já podem ter recebido ou cometido, por diversos fatores.

Essa semana li na coluna do dramaturgo Walcyr Carrasco, na Revista Época, um artigo onde ele fala de preconceito, citando um colega seu: o novelista Aguinaldo Silva. Walcyr tomou as dores de Aguinaldo (apesar dele mesmo falar de que ambos tem lá suas desavenças), relatando o preconceito que Silva, negro, sofreu ao entrar em um determinado restaurante do Rio de Janeiro, e, segundo o que relata o texto, ser vítima dos piores dos preconceitos. Silva teve dificuldade de encontrar uma mesa para sentar, uma vez que estava sozinho (daí Carrasco aponta o primeiro preconceito que existe nas grandes cidades: contra os sozinhos); e além da dificuldade de mesa, teve o novelista que aguentar o descaso no atendimento, sendo recebido por garçons mal educados e zombeteiros, que inclusive ficaram rindo do cliente, fazendo chistes enquanto um dos garçons tinha espirrado (segundo ele diz) acidentalmente num prato que o novelista acabou comendo.

O preconceito é algo tão grave, tão nefasto, mas tão comum, que o presenciamos desde tenra infância, especialmente na prática do chamado bullyng, tão comum hoje nas escolas. Basta que um aluno seja diferente, mais gordo, mais magro, mais alto ou mais baixo, que tenha orelhas de abano, um nariz muito grande, ou que fuja um milímetro do padrão que nosso senso comum nos aliena, para que alguém seja vítima do escárnio, de piadas, zombarias, violências; ou seja simplesmente ignorado como alguém inferior. Recordo de ouvir numa conversa casual o relato da irmã de um colega meu, bem afortunada financeiramente, que na sua rotina de classe média disse que ficou espantada com a reação da filha dela, uma garotinha de 5 anos de idade, que ao ver na escola uma coleguinha deficiente física, numa cadeira de rodas, desandou a rir e fazer gracejos da menina, como que na sua inocência infantil a outra criança estivesse numa condição muito engraçada. Essa jovem mãe me disse que chegou a ser chamada pela direção do colégio de sua filha por conta disso; mas ela mesmo tentou se justificar, dizendo que nunca tinha ensinado sua filha a ser preconceituosa. Creio que o problema foi o contrário: ela não ensinou sua filha a não ser preconceituosa.

Eu posso dizer que, infelizmente, também recentemente, senti-me vítima de preconceito. Curiosamente no mesmo dia em que um desembargador envolveu-se numa confusão em uma padaria da cidade, por conta de um suposto mal atendimento de um garçom, que levou a toda uma discussão sobre racismo ou abuso de autoridade, em um fato ocorrido num domingo (dia 29 de dezembro) do ano passado. Nessa época, após o Natal e perto dos festejos do Ano Novo, saí para a praia com meus familiares, e depois deixei minha esposa e minha mãe em casa, quando decidi dar uma volta, no período da tarde, pelo centro da cidade. Como eu só tinha feito um lanche na praia e ainda estava com fome, dirige-me a um badalado bar e restaurante do bairro de Petrópolis, na capital potiguar, onde nunca tinha ido antes, e ao lá chegar presenciei como a força dos estereótipos e preconceitos pode não somente estragar uma tarde, como também doer na alma e na dignidade de quem sabe que é e se sente cidadão.

Em primeiro lugar, é preciso que o leitor saiba como eu me encontrava naquele momento, para poder compreender no relato a força dos estereótipos e da estigmatização. Como eu tinha vindo da praia, ainda estava com os pés um tanto quanto cobertos de areia, o que é normal para quem vive em cidades litorâneas, num dia de domingo, próximo à praia, em pleno e abrasador verão. Além disso eu estava bem à vontade, vestido conforme a temperatura: de camiseta, bermuda, boné e sandálias havaianas, e como eu estava com os braços descobertos, dava para se ver as duas grandes tatuagens que ostento em ambos os braços. Além disso eu estava barbudo e de brinco em uma das orelhas. Gostaram do visual? Além disso sou negro. Não daqueles do tipo "azulão", mas com uma característica étnica bem definida que me diferencia bastante de um europeu loiro de olhos azuis, do tipo caucasiano.

Pois bem! Era exatamente 16 horas e 30 minutos de uma tarde quente, num estabelecimento que não tem as portas fechadas, e, pelo contrário, é bem aberto, com um visual convidativo e agradável, localizado em uma das ruas mais tradicionais da elitista classe média alta natalense, num bairro que possui os percentuais de IPTU mais caros da cidade. Ao entrar no local, educadamente eu perguntei aos primeiros funcionários (um deles parecia músico, uma vez que toca música ao vivo no bar), se o restaurante ainda estava aberto, pois eu pretendia pedir alguma refeição e quem sabe uma cerveja gelada ou refrigerante. De imediato, um dos presentes me disse que o local estava aberto, e me dirigindo a uma mesa, a garçonete que me atendeu confirmou a informação, dizendo que o lugar só fecharia depois das 18 horas.

Satisfeito de início com o atendimento, a garçonete me separou uma mesa, sentei-me e ainda pude presenciar uma alegre família, em torno de umas dez pessoas, de diferentes idades e gêneros divertindo-se numa mesa próxima, como se fosse o aniversário de alguém, ou uma lúdica reunião de família qualquer. O que pude notar em diferença a minha mesa em relação à barulhenta mesa vizinha é que, além de eu estar sozinho em uma mesa, e a outra estar repleta de gente, pude perceber que os outros clientes do restaurante onde eu me encontrava eram bem diferentes de mim em termos de cor da pele: eram todos brancos, muito bem vestidos e, aparentemente muito bem de vida. Se de um lado havia um cliente solitário, negro, mal vestido e calado; do outro havia uma dezena de clientes falastrões, alegres, brancos e todos acompanhados. Até aí eu não via problema nenhum pois pensava: "cada um no seu quadrado".

Ocorre que, além de demorar o atendimento da mesa, enquanto eu segurava um cardápio nas mãos, depois de uns dez minutos de espera presenciei outro garçom que veio até minha direção, no lugar da solícita garçonete que até então tinha me atendido. O garçom foi curto, objetivo e enfático ao me dizer que o local já estava fechado. Como é que é? Lugar fechado? E o que tinham me dito antes? Além de estupefato, fiquei desorientado inicialmente com a negativa do atendimento, e como quem não tinha entendido direito a primeira mensagem, perguntei em desalento: por que? O garçom limitou-se a dizer que tinha recebido a ordem de me informar que o lugar já estava fechando as portas. Ordem de quem? Mas não haviam me dito que o restaurante só fechava às 18 horas? O que foi que aconteceu?

Agora, menos surpreendido do que indignado, retirei-me bruscamente da mesa, procurando não deixar que a fúria tomasse conta diante de tal despropósito contra o consumidor, passando pelos mesmos funcionários que haviam me atendido na entrada do bar, no momento de minha chegada, inclusive pela mesma garçonete que inicialmente me atendeu, observando o olhar atordoado destes, que também se perguntavam: o que aconteceu? Lembro que eu simplesmente disse a eles que, diante da falta de atendimento e da forma abrupta que fui despejado, eu nunca mais iria naquele estabelecimento, e ao pegar meu carro estacionado na rua, ainda parei em frente ao lugar da afronta e disse a um dos seguranças que eu podia até não processar o restaurante, mas com certeza iria divulgar em todas as redes sociais em que eu participasse o tamanho da falta de respeito e flagrante insinuação de preconceito que sofri. Será que foi por eu ser negro? Ou porque eu estava mal vestido? Ou por estar sozinho em uma mesa? O que me chamou atenção nessa rápida, mas desagradável saída do bar, foi constatar de relance apenas um último e significativo dado acerca do que me aconteceu: as pessoas da outra mesa continuavam rindo e se divertindo dentro do bar, sem que o bar fechasse as portas, sem que eu sequer existisse.

São essas chatas e incômodas situações cotidianas que nos fazem lembrar sobre o peso do preconceito. O que fazer numa hora dessas? Esbravejar, fazer um escarcéu, chamar a polícia ou as câmeras de televisão? Se eu fosse utilizar de qualquer prerrogativa minha de funcionário público, nível escolar, titulo acadêmico ou cargo de importância, liderança ou autoridade, poderia ser acusado de abuso de poder, de ser arrogante, um boçal que gosta de dar carteiradas em lugares de acesso ao público, ou de me valer do mesquinho expediente de classe identificado pelo famoso antropólogo Roberto Da Matta, no seu célebre livro Carnavais, malandros e heróis, indagando aos meus interlocutores aquela popular frase: "Você sabe com quem está falando?". Mas não foi o que ocorreu. Naquele momento preferi me calar, no silêncio constrangedor das vítimas. Para não me parecer com o indelicado desembargador Dilermando Mota, que ocupou as páginas da mídia local e das redes sociais, após ter destratado um garçom e um empresário no mesmo dia, em uma padaria de Natal, por supostamente não ter sido bem atendido, eu preferi ser mais discreto e me valer deste espaço, que é meu e de meus leitores, para um salutar debate de ideias, porque como professor creio que o diálogo e a abertura de consciências são muito mais lucrativos a curto prazo do que uma celeuma que renda imprensa e processos judiciais. É óbvio que, sabedor de meus direitos, eu poderia muito bem ter acionado todos os canais legais competentes para denunciar um suposto abuso, ou mesmo a prática de um racismo por parte de funcionários, clientes ou da gerência do citado estabelecimento. Mas numa história em que não se procurou "dar nome aos bois", prefiro a credibilidade do meu relato, informando aos que leem esse blog do que aconteceu, do que ficar cultivando rancores e desentendimentos desnecessários com quem quer que seja.

Preferi me valer do silêncio constrangido do novelista Aguinaldo Silva, como conta em sua crônica Walcyr Carrasco, que também gostaria este último que seu colega processasse o estabelecimento que o tratou mal. Prefiro numa sociedade civil e democrática que a vergonha e a perda moral seja maior do que a perda legal para os donos ou responsáveis pelo estabelecimento onde presenciei uma pequena humilhação. Prefiro que o episódio relatado sirva de lição, e que dessa lição possamos manter a cabeça erguida, e combater preconceitos, que constrangem, machucam; mas, sobretudo, cultivam o ódio e a dor, e por isso precisam ser combatidos por meio da educação e da consciência cívica. Que possamos ser nessa vida, ao menos, menos preconceituosos!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?