sexta-feira, 12 de junho de 2015

IN MEMORIAN: CHRISTOPHER LEE- o vilão de voz grave, mas fala adocicada que todos adoravam

Morreu na Inglaterra, aos 93 anos, num hospital em Westminster, por insuficiência respiratória, o ator britânico Christopher Lee. Não morreu apenas um grande e longevo ator, que até onde a saúde permitiu (mesmo esquálido pela velhice e coberto de rugas), atuou em grandes e memoráveis produções cinematográficas, dentre elas a premiada trilogia O Senhor dos Anéis. Lee era um típico ator de filmes do cinema fantástico ou de fantasia, temas que adorava. Foi o vilão Conde Dookan, na segunda trilogia de Star Wars, e sua imagem ficará para sempre na memória das novas gerações como o mago Saruman, da citada trilogia do diretor Peter Jackson.

Entretanto, Lee era mais conhecido, por aqueles muitos que já passaram dos quarenta como eu e alguns que já chegaram até os sessenta anos, como o mais célebre intérprete do Conde Drácula nos cinemas, ou, ao menos, o que mais representou o personagem nas telas (Bela Lugosi ficará para sempre como um dos mais famosos intérpretes do famoso vampiro, mas foi Lee quem mais celebrizou o personagem nos filmes). Dos anos 50 até os anos 70 do século passado, intercalando outros papéis, invariavelmente Christopher Lee aparecia nos cinemas com um novo filme do Drácula, sempre pelos estúdios da produtora britânica Hammer, e o seu personagem, ao menos na minha memória, deixa saudade.

Lembro-me do medo e fascínio que sentia ao ver os filmes de Drácula interpretados por Lee no cinema, que nos anos oitenta já passavam na TV, geralmente nas sessões do final da noite. Fã de filmes  de terror, eu mal podia esperar para ver o tenebroso e sedutor conde aparecer na tela, para, na hora mais improvável, abocanhar sua próxima vítima. Mas Lee também ficou famoso como o vilão dos filmes de 007, com Roger Moore no papel de James Bond, quando interpretou o criminoso Saramanga, no filme O homem da pistola de ouro. Ele também atuou no cinema interpretando Sherlock Holmes, além de uma série de personagens impagáveis, que requeriam um britânico de voz tonitroante, incorporando invariavelmente uma imagem de lorde, ou personagens mais exóticos, como o Doutor Fu Manchu, no filme do mesmo nome.

Christopher Frank Carandini Lee nasceu em 1922, teve 67 anos de carreira no cinema com mais de 200 filmes e uma vida fascinante. Antes de atuar, lutou pela Força Aérea Britânica, na II Guerra Mundial, sendo condecorado seis vezes. Homem culto, falava oito idiomas, inclusive russo e grego, e adorava história e música clássica, pois sonhava em ser bailarino ou cantor de ópera. Alto e magro, com uma voz grave, de nobre  sotaque inglês inconfundível, Lee era o europeu refinado típico, apesar de nascido de família modesta, segundo ele de origem cigana, que acabou se tornando sir no ano de 2009, quando foi condecorado pela rainha da Inglaterra com o título de Cavaleiro Real.

Na chegada da década de oitenta a carreira de Lee esfriou, vindo o ator a participar de produções menores por vinte anos, até que, para não ser esquecido pelas velhas gerações, e lembrado pelas novas, tornou-se o Conde Dookan nos filmes de Guerra nas Estrelas: A Guerra dos Clones e A vingança dos Sith. Entretanto, foi interpretando Saruman, em O Senhor dos Anéis (2001), As Duas Torres (2002), O Retorno do Rei (2003) e o Hobbit (2013), que Lee ficará para a memória recente de gerações de fãs do gênero fantástico, desde a primeira década deste século. Em filmes baseados no livro do escritor J.R. Tolkien, Christopher Lee incorporou como ninguém a figura misteriosa e imponente do mago branco que acaba se voltando para as trevas de Sauron. Ele chega a competir dramaticamente com seu colega britânico no mesmo filme, o ator  Ian McKellen, que interpretou Gandalf, um dos personagens principais da trilogia. Ao encarar com perfeição um dos personagens coadjuvantes do livro de Tolkien, Lee com seu Saruman, permanecerá para sempre como um dos ícones do cinema.

Mas não foi apenas no cinema que o veterano ator britânico se notabilizou no mundo das artes. Talvez realizando na velhice o velho desejo da juventude de se tornar cantor, Christopher Lee foi vocalista de uma banda de heavy metal, isso aos 91 anos!! Declaradamente fã desse gênero musical, o ator gostava de bandas como Manowar, que retomavam nas músicas o universo mítico do Senhor dos Anéis, com letras voltadas para batalhas épicas entre cavaleiros, elfos, duendes e dragões. Como se sabe, os filmes de terror e o heavy metal tem uma relação quase siamesa, e nesse embalo Lee foi chamado para cantar em dois discos, da banda italiana Rapshody on Fire, onde primeiro aparecia somente como narrador, mas depois passou a cantar suas próprias músicas. Em 2014, Lee chegou a lançar seu próprio álbum de metal, Metal Knights, e com a canção Jingle Hell, ele se tornou o cantor mais idoso de heavy metal da história, a ingressar num hit parade do rock internacional. 

Retirou-se, portanto, da vida entre os mortais um ator que se imortalizará para sempre, na pessoa de seus personagens, tanto no cinema quanto na música. Como fã de ambos, eu não poderia aqui deixar de postar minha homenagem a esse grande ator, que viveu muito, teve uma vida intensa e cheia de experiências interessantes, e, nesse momento, deve estar entoando cânticos, com sua voz grave, mas adocicada, entre anjos e demônios, em algum lugar do além. Que Deus cumprimente nos jardins do Paraíso sua alma, Sir Christopher Lee, e que as valquírias lhe carreguem suavemente, como um bruxo Saruman que novamente retornou aos caminhos do bem!! Farewell!!

domingo, 10 de maio de 2015

CRÔNICAS SÓCIO-AFETIVAS: Sobre a maternidade

Meu filho nasceu no dia 10 de abril de 2015, uma sexta-feira, exatamente às 11 (onze) horas. Estive presente ao parto de minha esposa e pude vislumbrar a pequena criança sair do ventre de sua mãe. Exatos 30 dias depois, calhou de o aniversário de um mês de vida de Miguel Antonio cair exatamente no segundo domingo do mês de maio; ou seja, no Dia das Mães. Como recente mãe, creio que minha esposa ganhou este ano o maior dos presentes!! Um baita, pequenino e às vezes chorão presente do Dia das Mães.

Dia esse que tem um histórico curioso, a começar pelos gregos na Antiguidade, que comemoravam o Dia de Rhea, a mãe dos deuses, para celebrar a chegada da primavera na região, nos idos de março.

Mas foi nos Estados Unidos do século XIX, durante a sangrenta Guerra da Secessão no país, que em 1865, foi organizado o Mother's Friendship Days (Dia de Amizade às Mães), para promover entre as mães dos soldados feridos na guerra uma campanha de solidariedade e auxílio às famílias necessitadas, bem como pregando a paz e o desarmamento. No séxulo XX, em 12 de maio de 1907 a religiosa metodista Anna Jarvis criou um memorial em celebração à memória de sua mãe, morta dois anos antes, iniciando uma campanha para que o dia fosse reconhecido como um feriado nacional. A campanha seguiu até 1914, quando o Mother's Day foi aprovado no Congresso americano, e no mesmo ano o presidente Woodrow Wilson proclamou uma resolução declarando o Dia das Mães como data oficial nos edifícios e repartições públicas, sempre no segundo domingo do mês de maio, sendo celebrado naquele ano, primeira vez, em 9 de maio de 1914. No Brasil, em 1932, o presidente Getúlio Vargas reconheceu a data no segundo domingo de maio, passando a vigorar no país o Dias das Mães a partir de então. O curioso é que, historicamente, o Dia das Mães manteve na era moderna uma relação de proximidade com o advento das guerras. A começar pela Guerra da Secessão entre os norte-americanos, sua proclamação como dia oficial no começo da I Guerra Mundail, até ser reconhecido por outros países, como o Brasil, poucos anos antes de estourar o conflito da II Guerra Mundial.

A "Mãe" de Gorki:Mãe de todas as revoluções.
Sobre guerras, lembro-me da "Mãe", uma das grandes obras do escritor revolucionário russo, Máximo Gorki. Na história, Pavel, jovem operário seduzido pelas ideias bolcheviques, enfrenta a fúria do Czar Nicolau II, escudado pela mãe, Pelágia, a verdadeira heroína, protagonista da saga, que suportando a miséria e um marido violento e bêbado que acaba morrendo, ela segue com o filho na luta revolucionária, tornando-se a mãe não apenas de Pavel, mas de todos os revolucionários que sofrem com a opressão czarista. Pelágia torna-se a "mãe da Revolução". Apesar de todo o seu conteúdo político, a obra de Gorki não deixa de captar alguns elementos da cultura russa, onde a instituição do matriarcado tem uma influência muito forte. Afinal, fazer alusão a "Mãe Rússia", é um dos traços característicos do nacionalismo russo, e até no hino do país faz-se referência a figura materna, sendo concebida a pátria como uma grande mãe que abraça a todos os seus filhos.

Pai é pai, e não obstante toda nossa cultura patriarcal oriunda desde os gregos, que antecedeu mesmo a influência judaico-cristã, de valorizar muito mais a figura do pater do que a mãe, acredito, sem sombra de dúvida, que retirando a importância social, nós, homens que somos pais, nunca desfrutaremos em sua completude do amor que uma mãe compartilha por seu filho. O amor de mãe transcende a Criação, antecede a concepção, e talvez por isso o catolicismo seja até mesmo, do seu jeito, uma versão cristã dos velhos ritos orientais, onde a figura materna era deificada muito mais do que a figura masculina do genitor. Não é a toa que o teólogo Leonardo Boff já afirmou em seus escritos que uma das principais e fortes características do catolicismo é seu caráter mariano. Maria, mãe de Jesus, durante séculos, até a Reforma Protestante, foi vista por alguns crentes como uma divindade até maior do que Cristo. A santificação da figura da mãe tem, portanto, uma fundamental influência do cristianismo e um pouco disso herdamos em nossa cultura ocidental, até mesmo na sacralização da palavra "mãe", que envolve alguém que, por ter concebido a vida em seu ventre, ganha um destaque todo especial na vida de qualquer um, pois foi através dela que conhecemos o mundo, respiramos pela primeira vez fora do líquido amniótico do ventre materno, e é ela a primeira pessoa que acolhe o nosso choro, o primeiro de muitos e muitos choros!!

É por isso que, este ano, celebrei o Dia das Mães de uma forma mágica e totalmente especial, em relação aos dias anteriores, pois pude ter ao meu lado duas significativas mães: a minha própria mãe, a quem já homenageava, beijava e presenteava há muitos anos, e agora minha esposa, mãe de meu filho, uma mãe jovem, de primeira viagem, mas que já demonstra o comovente carinho, amor, devoção e preocupação que só uma mãe consegue ter. A elas e a todas as mães do mundo, eu desejo, do fundo do coração, muitos e cada vez mais felizes, DIA DAS MÃES!!! Obrigado por existirem, mamães!!!

sexta-feira, 20 de março de 2015

MÚSICA: No Dia Internacional do DJ a minha homenagem a um deles-Dj Magão, o artista que faz da música um futebol campeão!!

Em 9 (nove) de março é celebrado o Dia Internacional do DJ, e também nesse dia, e nesse mês eu tirei esse espaço pra homenagear um de meus amigos e cara de profundo talento: Alessandro Duarte, mais conhecido como DJ Magão!!



Filho de um ex-jogador, ex-técnico e comentarista de futebol, Magão tem o futebol no sangue, mas é nas pistas de música e não nos gramados, que o cara se revela um craque. Magão organiza seu setlist de músicas em suas apresentações em festas e bares como um técnico que escala um time: alguns podem não gostar da escalação, mas o plantel acaba cumprindo com sua missão, fazendo gols no decorrer da partida. É o estilo Magão de fazer música num Maracanã lotado de sonoridade e rock'n roll!!

Eu lembro do cara há mais de vinte anos, nas grandes festinhas, festivais de rock e luaus que havia na cidade de Natal, na praia de Ponta Negra. Foi numa dessas raves pré-históricas que eu vi, pela primeira vez, um rapaz branco e franzino, magro como um macarrão, debaixo de uma lona, lotado de equipamentos e caixas de som, fazendo aquela garotada universitária de vinte e poucos anos dançar chapada ao som de hinos da época, que iam de Legião Urbana a Echo and The Bunnymen. Bons tempos aqueles. E o bom foi que o cara continuou fazendo música. Aquele moleque franzino acabou se tornando um respeitável senhor, convidado para grandes eventos sonoros da cidade, como o MADA (Música Alimento da Alma) e muito mais!!

Sobre o estilo musical, aqui nosso querido Dj merece um capítulo aparte: numa cidade invadida nos últimos anos pela colonização do forró, axé-music e sertanejo universitário, como um bom jogador old style, Magão permaneceu fiel às suas origens rockeiras, mantendo uma escalação de músicas entre o rock clássico e o rock mais moderno. Na junção de velhos zagueiros do rockabilly,  progressivo e metal, aos novos craques pós-grunge e pós-brittpop, nosso Dj predileto produz aventuras sonoras interessantes, que não deixam nada a perder às grandes festas rockeiras de espaços do gênero, como em São Paulo ou Porto Alegre. Assim, Magão concebe seus "jogadores" musicais, que agradam as velhas e novas gerações. É "dando um chapéu" na mesmice e "chutando de bicicleta" que Magão fez emplacar um estilo original numa cidade pequena, mas globalizada, que apesar de provinciana ainda mantém na reunião de suas tribos urbanas, em festas bem musicadas, a presença e o estilo de artilheiros das pistas, que sem "firula", fazem um"gol de placa" ao tocar música de qualidade.

Se na "catimba" das rádios, principalmente em Natal, não vemos hoje clássicos ou novidades do rock rolarem nas caixas de som, ao menos Magão é um dos caras que faz o seu dever de casa, de Dj rocker, iluminando o placar nas suas pickups, tocando músicas que muita gente (ou ninguém antes) ouviu!! Como numa "marcação homem a homem", Magão marca cada música como um olheiro do Barcelona, mirando a escalação de canções como que prevendo um estádio lotado de ouvintes, a aplaudir ou vaiar seus atletas em campo. Seja nos bares ou festivais, na sua fan page na internet, seja em casa ou nas rodas de amigos, Magão Duarte transforma qualquer "pelada" rockeira num Lollapalloza papa-jerimum, ao colocar pra rolar músicas que qualquer rockeiro de respeito montaria torcida organizada para escutar. O melhor da noite para um Dj, suponho eu, seja quando, "ganhando de virada" numa noite insossa e de pouco papo, um desses profissionais da música consegue fazer com que uma coletividade inteira se movimente e comece a dançar e cantar, "matando a jogada" do tédio e da falta de inspiração. Afinal, som de verdade ganha em campo e não no tapetão!! E pra isso existem Djs como Magão, "matando no peito" qualquer sonoridade,  colocando seu escrete musical em campo.

Adicionar legenda
Neste blog, portanto, após meses de inércia mental e bloqueio criativo sem escrever uma linha sequer, inauguro em grande estilo os artigos de 2015 rendendo homenagem a um grande amigo e cara que considero, mais do que eu, um profundo conhecedor de sons híbridos e sensacionais. Talvez um de meus sonhos de moleque fosse "fazer tabela" com um desses craques, e quem sabe fazer um "gol olímpico", ao trazer para os lugares e pessoas que curto um som que elas também gostem. Nesse sentido, sou "camisa 12" do Rock, e apesar de ver muita gente "fazendo cera" e cometendo "um frango" ao ouvir determinadas porcarias que não são música, mas poluição sonora, gostaria de "dar um chocolate" nos defensores do mau gosto,  mandando meu recado para aqueles que preferem ficar escutando Ivete Sangalo, Anita ou ou Funk Pancadão: "Magão!! Aumenta que isso aí é rock'n roll!".

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CINEMA: INTERESTELAR é a homenagem da Christopher Nolan a 2001

Quando foi lançado, em abril de 1968, o filme 2001-Uma Odisseia no Espaço, o mundo vivia a corrida espacial entre os Estados Unidos da América e a antiga União Soviética. Os soviéticos tinham obtido êxito primeiro, lançando ao espaço o cosmonauta russo Iuri Gagarin, o primeiro homem a viajar pelo espaço há exatos oito anos antes, em abril de 1961. Mas, com o filme dirigido pelo cineasta norte-americano Stanley Kubrick, baseado na obra do escritor e cientista Arthur Clarke, estava lançado o presságio de que os yankees iriam mais longe, levando uma missão espacial à lua, no ano seguinte. 2001 marcou gerações não apenas pela atualidade do tema (as viagens espaciais), e nem só pela beleza de sua fotografia e trilha sonora movida a música tema de Wagner, com sua bela Assim Falava Zaratrusta, mas também pelo seu quê de filosófico, tratando da evolução da humanidade (a cena inicial do homem das cavernas que arremessa um osso para cima, e ao cair o objeto se transforma numa nave especial é inesquecível), e do questionamento acerca do poder da tecnologia criada pelo homem, e até que ponto essa tecnologia poderia se virar contra ele e destruí-lo. Além do mais,  o filme de Kubrick explorava temas até hoje irresistíveis para os amantes de astronomia, como a possibilidade de vida em outros planetas, a capacidade humana de explorar o desconhecido, a descoberta de galáxias e outros sistemas solares etc. O filme foi o precursor de muitos que exploraram as viagens espaciais, elevando o gênero cinematográfico da ficção científica ao status de arte.

Eis que, em 2014, após a geração de Star Wars no cinema e dos fãs de Star Trek na televisão, o aclamado diretor de Amnésia, A Origem e Batman-O Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan, lançou nos cinemas do mundo há poucas semanas o belo Interestelar, tendo como protagonistas astros, como o galã e ganhador do Oscar, Mathew McConaughey e a também oscarizável Anne Hathaway. A proposta do filme é transitar entre a obra de arte e o puro entretenimento, às vezes com maior ou menos chance de êxito; mas o mais importante que Nolan faz é prestar um verdadeiro tributo a 2001, em sua obra mais ambiciosa.

O roteiro do filme é simples: num futuro não muito distante as viagens espaciais não são mais um luxo que o contribuinte queira pagar e a espécie humana fica mais voltada para seus próprios interesses terrenos, virando as costas para o espaço, para tratar de questões como solucionar a fome diante do problema da superpopulação. Nesse sentido, a figura do protagonista, Cooper (interpretado por McConaughey) é um ex-piloto de espaçonaves e engenheiro espacial que agora vive seus dias, de forma um tanto quanto entediada, em uma fazenda, acompanhado do casal de filhos e do sogro idoso, após a morte da esposa. Sua rotina  de cuidar de uma plantação de milho e  viver do passado é interrompida quando ele percebe que, por conta do aquecimento global exacerbado, com aumento da temperatura e sucessivos incêndios florestais, a vida no planeta Terra está ameaçada. Ele então conhece um grupo clandestino de ex-operadores da Nasa, liderados pelo Professor Brand (interpretado pelo ator inglês Michael Caine, em outra parceria de filmes com o diretor  Nolan), e que conta com Amelia, pesquisadora e filha de Brand (o personagem de Anne Hathaway). Não demora para que Cooper se junte ao grupo, convencido da necessidade de que somente através de uma nova e longínqua viagem espacial, uma equipe de astronautas será capaz de salvar a humanidade, encontrando outro planeta habitável que possa ser colonizado pelos humanos. 

A partir daí, o filme desdobra-se nos seus aspectos iniciais entre o drama e o filme épico de aventura. Talvez Nolan erre a mão ao tentar comover demais o público, dando uma de Spielberg ao conferir traços de dramalhão à relação apegada, mas conturbada entre Cooper e sua filha mais nova Murphy (interpretada na idade adulta pela atriz Jessica Chastain), uma vez que ao partir da Terra, Cooper não pode dar garantia a filha que vai voltar, uma vez que se trata de uma viagem, probabilisticamente falando, somente de ida. O objetivo da missão é encontrar uma dobra espacial no espaço, detectada pelos cientistas da Nasa nas proximidades de Marte, onde se encontra um fenômeno conhecido como "Buraco de Minhoca", uma alteração de espaço-tempo explicada pelas leis da Física, onde nossos heróis poderão atravessar, viajando mais rápido  e encontrando ao final o planeta desejado, onde uma missão anterior já chegou e não retornou.

Seguem-se alguns conceitos da ciência e clichês cinematográficos que dão ao filme um ar de realidade ou mentira, como em toda obra de ficção científica. É interessante ver como algumas teorias científicas são testadas (e, em alguns casos, cientificamente já demonstradas), quando os astronautas experimentam a passagem mais lenta do tempo em um planeta cuja gravidade é muito superior a da Terra, e que as horas equivalem em nosso calendário há anos. O envelhecimento dos personagens que permanecem na Terra quando crianças em relação aos astronautas, que os encontrarão em vídeo tempos depois mais velhos do eles próprios, é um dos traços inconfundíveis da teoria da relatividade, já explorada na ciência por Isaac Newton e Albert Einstein. A cena de um planeta todo ocupado por oceanos, onde a força da gravidade faz com que as gigantescas ondas sejam tão lentas que parecem imóveis montanhas, já vale o ingresso de quem gosta de ver imagens espetaculares. Detalhe para o destino final da equipe de astronautas que é de salvar a Terra após mergulharem em um Buraco Negro. Inverossímil, mas no cinema, toda licença poética é permitida em prol da emoção.

Interestelar, obviamente, não chega aos pés de 2001 enquanto obra cinematográfica, mas vale enquanto homenagem a este último e tem uma inegável qualidade superior a muitos filmes do gênero, produzidos nos últimos anos, vendidos como blockbuster (é só lembrar do sofrível Armageddon, dirigido por Michael Bay). Entre filmão pipoca e filme que faz pensar, a película de Nolan fica no meio termo, mas cumpre seu papel de passar a mensagem de que o espaço infinito, para quem ama observar as estrelas, ainda é um fascinante cenário a se explorar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

POLÍTICA: Fátima Bezerra-A candidata que derrotou uma oligarquia!!

Imagine um candidato oriundo de um grupo político familiar que já governou sua região, a partir de seu patriarca, desde a década de 1960. Pense que na coligação que tenta elegê-lo existem 17 partidos, unindo, inclusive, o grupo político rival que disputa com ele o comando de um estado da federação há anos e é uma das maiores lideranças nacionais da oposição. Ainda mais do que isso, imagine que esse candidato é simplesmente Presidente da Câmara dos Deputados, e, por tabela, Presidente do Congresso Nacional; ou seja, o terceiro na linha de poder que governa na ausência da Presidente e do Vice-Presidente da República.

Henrique Alves não conseguiu se eleger.
Esse candidato era Henrique Eduardo Alves, do PMDB, que há dois meses atrás era praticamente imbatível na disputa pelo governo do estado do Rio Grande do Norte. Deputado federal há 44 anos, e atual Presidente da Câmara dos Deputados, Henrique, de 67 anos,é filho de Aluízio Alves, o grande chefe político potiguar dos anos sessenta que já foi governador do estado e ministro da República, no governo de José Sarney. Ele também é primo de Garibaldi Alves Filho, senador licenciado do PMDB e atual Ministro da Previdência do governo da presidente reeleita, Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores-PT, e maior liderança política da região, assim como é primo do atual prefeito da capital do RN, Natal, Carlos Eduardo Alves. A família é dona da Inter TV e da Rede Cabugi de Comunicação, um complexo que envolve rádios, televisão e o jornal local, a Tribuna do Norte, encarregado, entre outras, de reproduzir o sinal da TV Globo, o maior canal aberto de televisão da América Latina e um dos maiores do mundo em espectadores. Afinal, o que iria dar de errado para um candidato desses perder a eleição?

FÁTIMA BEZERRA:liderança política incontestável.
Eis que como um David, lutando contra um Golias, o candidato do PSD (Partido Social Democrático), o ex-deputado estadual e atual vice-governador do estado, Robinson Faria, ganhou a eleição, conquistando voto a voto o eleitorado potiguar, saindo de 10% das pesquisas de intenção de voto no começo do ano a uma acachapante vitória contra Henrique de 54%  a 45% no segundo turno da eleição para o governo do estado. Mas quem estaria por detrás de uma vitória tão retumbante e assombrosa?? Seu nome: a senadora eleita Fátima Bezerra, do Partido dos Trabalhadores.

Lembro-me de Fátima há exatos vinte e quatro anos atrás, quando eu, então estudante iniciante de Direito e militante do movimento estudantil, no início dos anos noventa, frequentava uma banquinha chamada no dialeto nativo de "cigarreira", transformada em bar, num lugar que vivia ocupado por funcionários públicos de origem proletária, que residiam no mesmo conjunto residencial onde eu morava. Fernando Collor tinha poucos meses de seu malfadado mandato presidencial e Lula e seu PT ainda eram uma mera (mas crescente) sombra da oposição no cenário político nacional. Recordo de Fátima ainda professora da rede pública, licenciada por que acabara de assumir a presidência do poderoso e combativo SINTE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação), buscando seus amigos do sindicato dos professores em um buggy de praia nos finais de semana, quando por vezes o pessoal se reunia por ali para tomar cerveja, escutar MPB no som do carro de alguém ou no próprio bar, através de um pequeno aparelho de som trazido por Dona Célia, a proprietária, ou por  Cristiano e Fabiano, os simpáticos filhos da dona do lugar. Naquele época, eu era apenas um garoto universitário disputando o Centro Acadêmico, neófito nos mares revoltos da política esquerdista. Eu apenas escutava os diálogos daqueles jovens professores sindicalizados, que falavam entre outras coisas de greves, mobilizações, combate ao governo, e luta pelo fim das oligarquias que dominavam o Estado. Recordo que se falava também das disputas internas, e da necessária união das diversas facções de esquerda que dominavam o PT e se digladiavam entre si pelo controle da legenda, ou brigavam com outros partidos chamados de "pelegos", como o PC do B, que por sua vez vivia às turras com os chamados "radicais" militantes petistas (na época chamados jocosamente de "xiitas"). Felizmente, se antes diziam os antagonistas desses partidos que a esquerda só se unia na cadeia, hoje, pode-se dizer que a esquerda se une em torno de ministérios ou secretariados.

Eis que, após vinte e poucos anos muita coisa evoluiu, e Fátima, assim como seu partido, apresentaram uma ascensão fulminante na política local e nacional. Em 1994, Fátima conseguiu se eleger para o seu primeiro mandato de deputada estadual, após uma união inédita da categoria de professores numa disputa eleitoral. Depois, em 1996, veio o desafio de concorrer à Prefeitura de Natal contra Wilma de Faria, a ex-prefeita e ex-oligarca, que após romper um casamento com o ex-governador e ex-senador, Lavosier Maia (primo de José Agripino, atual líder nacional do DEM), rompeu também politicamente com o grupo de seu ex-marido, concorrendo com a neófita deputada do PT e ex-sindicalista. Por uma diferença de menos 2% dos votos, numa eleição acirrada que fez história, Wilma venceu e Fátima não conseguiu se eleger prefeita da cidade. Iniciou-se uma trajetória política coroada de êxitos nas disputas ao Legislativo, e também de derrotas, seja nas reeleições vitoriosas de Fátima para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal, sendo a deputada federal eleita mais votada da história do Rio Grande do Norte, em 2002; seja na derrota seguinte para Micarla de Sousa, em mais uma tentativa de se eleger prefeita da capital potiguar. 

Fátima derrotou nas urnas a ex-governadora Wilma.
Neste ano, Fátima Bezerra concorreu ao Senado desafiando um Golias, representado pela candidatura ao governo de Henrique Alves, acompanhado de uma Wilma de Faria repaginada, após dois mandatos consecutivos como prefeita e depois governadora do estado, na qualidade de atual vice-prefeita de Natal, mostrando-se uma forte  adversária de Fátima no Senado. Enfrentando um páreo duro, onde as pesquisas de intenção de voto davam vantagem inicial para a dupla Henrique e Wilma, Fátima não apenas superou as expectativas obtendo uma vitória consagradora sobre Wilma de Faria com mais de 170 mil votos de vantagem e mais de 54% dos votos válidos, como também foi a responsável direta, junto com Fernando Mineiro, deputado  estadual reeleito de seu partido, pela eleição de Robinson no segundo turno, assumindo sua coordenação de campanha. Com a dupla vitória da coligação PSD, PT, PC do B, conquistando, respectivamente, o governo, o senado e a vice-governadoria, Fátima Bezerra tornou-se, juntamente com Garibaldi Filho, a maior liderança política do Rio Grande do Norte, ofuscando o derrotado senador José Agripino, de um Democratas que viu minguar sua bancada na Câmara e no Senado e viu o governo de sua partidária, Rosalba Ciarlini, naufragar no RN como um dos governos estaduais mais mal avaliados do país.

Na Câmara Federal Fátima destacou-se num mandato atuante.
O que pode ser atribuído ao êxito de Fátima e seus correligionários foi um trabalho de base desenvolvido cedo, antes do pleito eleitoral, com uma forte disciplina partidária e senso de planejamento e que envolveu diálogo e acenos de recursos com prefeitos e representantes de governos locais no interior do Estado, que contaram com a alocação de verbas do governo federal, comandado pelo partido da senadora eleita, principalmente na área de educação. Como deputada federal, Fátima viabilizou a instalação de nove Institutos Federais de Educação no Rio Grande do Norte, e investiu numa política de valorização do magistério que lhe garantiu a Presidência da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Além disso, Fátima e Robinson tiveram significativa votação em Mossoró, segundo maior colégio eleitoral do estado, outrora reduto da atual governadora, Rosalba, mas cuja Prefeitura foi conquistada por um partidário de Robinson Faria, após a cassação judicial do mandato da prefeita eleita, Cláudia Regina, do mesmo DEM de Agripino e Ciarlini. 

A senadora e o governador eleitos:nova fase na política do RN.
Fátima e Robinson também se beneficiaram, este ano, de um forte sentimento anti-oligárquico, no momento em que, nos redutos  tradicionais dos grupos políticos coronelistas integrados à coligação de Henrique, quase nenhum dos prefeitos ou parlamentares vinculados à coligação do PMDB e DEM conseguiu a vitória de seu candidato ao governo em seus currais eleitorais. Pela primeira vez a população de uma determinada região dizia "não" aos seus caciques locais. A federalização da política realizada pelo PT nos dois mandatos do presidente Lula e no atual de Dilma contribuíram para desmantelar as redes de assistencialismo local bancadas pelos prefeitos, que agora se rendiam à candidata do partido que tinha trazido o bolsa família para os municípios potiguares. O apoio do governo federal e o compromisso direto de Lula, que apareceu pessoalmente na propaganda eleitoral, pedindo votos para seus candidatos no RN, contribuiu para soterrar de vez os planos da coligação adversária.

A partir de agora, muito trabalho no Senado!
Fátima tem agora oito anos de mandato no Senado federal para reforçar a liderança conquistada e consolidada nos últimos vinte anos. Ela deixou de ser apenas uma parlamentar local para se tornar uma das referências nacionais do Partido dos Trabalhadores, sigla tão abalada por escândalos políticos recentes, como o julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal e as denúncias de desvio de dinheiro na Petrobrás, no ruidoso caso agora chamado de "Petrolão". Na renovação que necessita o partido, Fátima é um dos nomes que pode reerguer a credibilidade partidária. Para alguém que buscava os colegas de sindicato num buggy, e discutia a próxima greve entre um gole e outro de cerveja num boteco de condomínio, aquela professora chegou longe, muito longe.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

LIVROS: Entre Direita e Esquerda, nessas eleições duas obras que podem situar a cabeça no eleitor no horizonte político das ideias.

Quando eu saía da adolescência, no final dos anos oitenta, participei como militante político e eleitor da primeira eleição presidencial direta para Presidente da República no Brasil, após a redemocratização. Era 1989, e dos vários candidatos a participar da eleição restou a polarização que ficou entre Fernando Collor, do extinto e minúsculo PRN (Partido da Reconstrução Nacional) e Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Eu tinha apenas 18 anos, era estudante secundarista prestando o vestibular, na incerteza de ingressar na universidade e tinha a vontade de mudar o mundo como muitos jovens da minha época. Lembro que aquela polarização entre dois candidatos, no segundo turno da eleição presidencial, tornou-se algo passional, apaixonado, digno de adeptos de uma religião ou de integrantes de uma torcida de futebol. Como diria o filósofo Jean-Jacques Rousseau três séculos antes, o movimento cívico das eleições e o frenesi em torno da defesa dos candidatos tornou-se uma "religião civil".

Como eu era integrante da Juventude Socialista, vinculada ao recém legalizado PC do B (Partido Comunista do Brasil), era natural ter embates com aqueles que eu achava que representavam a Velha Direita no Brasil. Apesar de participar das reuniões da UMES (União Municipal dos Estudantes Secundaristas), diferentemente da maioria dos militantes estudantis da época, eu já não estudava em escola pública, não era aluno da antiga Escola Técnica (instituição de ensino de onde saíram muitos militantes estudantis do período), e sim estudava em um colégio de padres, frequentado por filhos da burguesia da cidade, reduto da classe média alta local. Apesar da origem proletária (o pai marinheiro e a mãe filha de agricultores pobres),  eu estudava com alunos pequeno-burgueses, que tinham um estilo e concepção de vida bem diferentes de mim. Naquela época, na paixonite entre Lula e Collor, não foi difícil perceber que, entre um e outro, diante daquele reduto de "mauricinhos" e "patricinhas", eu seria minoria.

Minha experiência com a dicotomia entre esquerda X direita, portanto, vem desde a juventude. Hoje, maduro, após mais de duas décadas, vejo na eleição que se avizinha, em 5 de outubro, uma realidade não muito diferente daquele Brasil da minha pós adolescência, que redescobria a democracia depois de vinte anos de ditadura militar. Os atores políticos e partidos podem ser outros (ou nem tanto), mas, para mim, a distinção ideológica persiste apesar do tempo. Afinal, para os que acreditam que somos todos de centro, estamos hoje no século XXI, e não mais no atrasado século XX, dirão alguns; e a sociedade de hoje com internet banda larga em todo canto, celulares, tablets, TVs digitais e smartphones, seria muito diferente daquela civilização analógica, perdida no tempo, que fazia campanhas eleitorais vendendo chaveiros, camisetas e buttons. Creio que não.

Se hoje vemos uma democracia brasileira mais amadurecida, após sucessivas eleições, com a passagem de três ex-presidentes com mandados longevos (Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula), até chegar a atual governante, Dilma Roussef, e o impeachment no segundo ano de mandato do primeiro presidente democraticamente eleito após a redemocratização (Collor apeado do poder em 1991, com o apoio da mídia e dos manifestantes "cara pintadas" e sua consequente sucessão pelo vice, Itamar Franco), acredito que ainda vivemos hoje uma disputa entre direita e esquerda, tão bem descrita historicamente e filosoficamente pelo pensador italiano Norberto Bobbio, em seu livro "Direita e Esquerda-razões e significados de uma distinção política" (Editora Unesp). Ainda temos, segundo Bobbio, uma direita conservadora e uma esquerda progressista, mesmo que, em termos de discurso, muitas vezes nos confundamos no Brasil quanto à pretensão política desse ou daquele candidato, seja pela vontade dele de aparecer mais conservador em matéria de costumes e moralidade, ou mais progressista em temas sociais e de inclusão econômica. Apesar de alguns criticarem essa dicotomia por considerá-la ultrapassada, face a diversidade de correntes de pensamento e opinião em sociedades complexas, pós-industriais e urbanizadas como as do século atual, eu entendo que ainda é possível ver, com clareza, quem é quem no processo ideológico nacional.

Para isso, recomendo aos incrédulos, duas obras interessantes, leves e fáceis de ler, tanto pela pequena quantidade de páginas, quanto pela capacidade de síntese de seus autores. O primeiro livro, "A esquerda que não teme dizer seu nome", é do filósofo, professor da USP e colunista do jornal Folha de São Paulo, Vladimir Saflate, que dá um diagnóstico do pensamento ideológico de esquerda brasileiro, diante da nova realidade e dos novos desafios da globalização e do liberalismo, principalmente após as crescentes manifestações populares e juvenis que ocorreram ao redor do mundo e no Brasil, desde o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, até as recentes "Jornadas de Junho",  capitaneadas nos grandes centros urbanos por movimentos como o "Passe Livre". Outra obra que serve de destaque para a polarização ideológica e política vista hoje no Brasil, pode ser a interessante compilação de artigos, "Por que virei à direita", escrita em seis mãos, pelo intelectual português João Pereira Coutinho, pelo filósofo e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Luiz Felipe Pondé e pelo cientista político e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Denis Rosenfield. Em ambas as obras é possível ver a preocupação dos autores de descortinar qual horizonte ideológico estamos falando, persistindo a ideia de que a velha dicotomia política entre esquerda e direita ainda existe, mantendo seus traços identificadores principais, apesar dos disfarces ou facetas que podem assumir essas concepções com o passar do tempo.

Quanto à confusão do eleitor nessa percepção de saber quem é quem no espectro político, a meu ver; na minha opinião, temos uma explicação histórica quanto a isso. No Brasil, sob o manto do nacionalismo, o refúgio da brasilidade, víamos inicialmente com certa desconfiança determinadas categorias políticas que definiam partidos e agremiações no mundo afora. A busca da construção de uma identidade nacional de povo outrora colonizado, mediante a proclamação da Independência por Dom Pedro I, em 1822, num período em que erigimos um sistema político totalmente diferenciado das repúblicas que se desenvolviam nos países latino-americanos vizinhos (no processo de independência permanecemos uma monarquia nacional, dependente de um imperador que, na verdade, também era monarca de Portugal), fez com que, num primeiro momento da história nacional, repudiássemos em parte  o ideal iluminista e rousseaniano de democracia popular, que se tornou a base de inspiração dos movimentos de esquerda no século XIX, antes do advento do marxismo. Vivíamos, posteriormente, sob a égide de Dom Pedro II, uma época dividida ideologicamente entre "amigos" e "inimigos do rei", onde os liberais eram monarquistas, enquanto que no hemisfério norte o liberalismo abraçou o princípio republicano. Dentre os movimentos progressistas (traço identificador da esquerda), tivemos abolicionistas, como José do Patrocínio, que eram monarquistas. Na distinção, portanto, entre monarquistas e republicanos, já era difícil definir quem era de esquerda e de direita.

No século XX, com o surgimento tardio da República, proclamada apenas uma década antes no século anterior, tivemos que recompor os cacos de nossa tradição monárquica, resgatando num primeiro momento os primeiros traços de um autêntico movimento de direita: o conservadorismo. A manutenção de práticas clientelistas e fisiológicas, semifeudais, nas relações políticas, principalmente no grotões de grandes regiões onde agentes do Estado eram nomeados conforme indicações de chefes oligárquicos, pode servir como pista de onde a direita brasileira se originou, nos primórdios do Brasil republicano. O respeito à tradição e a defesa da família, como traços característicos do movimento conservador, destacam que a direita brasileira sempre esteve aqui, e ainda está presente no atual processo eleitoral que se desenvolve em todo o país.

Mas e quanto aos liberais? Desde a monarquia, como eu disse há pouco, vemos que os liberais apareceram meio que timidamente no cenário político nacional, para depois, somente num Brasil da segunda metade do século XX, industrializado, destacaram-se com mais força. Recentemente, um dos grandes próceres do liberalismo brazuca faleceu, o empresário Antonio Ermírio de Morais, dono do grupo Votorantim. Juntamente com o também falecido economista Roberto Campos, Morais e o ex-ministro Delfim Netto representavam a fina flor da direita liberal no país. Se, nos anos cinquenta, o governo de Juscelino Kubstichek foi o grande representante das ideias liberais no país, com sua defesa da abertura econômica, desenvolvimento da indústria automobilística em detrimento do transporte público, anos depois, o Brasil do livre mercado e da tecnologia desenvolveu-se através das políticas adotadas por um homem com um rico passado de esquerda, e que passou para a história, na verdade como o grande representante do neoliberalismo no país: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e suas privatizações. Com o passar dos anos, portanto, os neoliberais se tornaram, ao menos na última década do século passado, os grandes representantes da direita no Brasil.

O traço semelhante entre liberais e conservadores é sua aversão ao intervencionismo estatal. Na verdade, conservadores gostam do Estado, desde que ele não interfira nas práticas tradicionais, e nem intervenha sobre a família. A recente aversão conservadora às políticas de reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo até propostas de regulamentação do chamado "casamento gay", para os conservadores são uma verdadeira declaração de guerra estatal ao movimento conservador, tendo como alguns de seus principais representantes os deputados Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, e o deputado e pastor Marco Feliciano, em São Paulo. Já entre os liberais, mais do que costumes e moralidade, o que é mais emblemático na sua crítica ao Estado se dá no âmbito da intervenção econômica. Liberais são defensores de um Estado mínimo, que interfira o mínimo possível no mercado, lembrando as lições do filósofo inglês Adam Smith, no século XVIII, na defesa de sua "mão invisível" na economia, da obra "A riqueza das nações". Na defesa do lucro e da acumulação capitalista, assim como os conservadores, liberais entendem a desigualdade social como algo natural numa sociedade, onde a existência de privilegiados é derivada das regras da livre concorrência, e daqueles que se adaptaram melhor às contingências do mercado. Numa frase, para os liberais: o mundo é dos mais competentes. A meritocracia aproxima liberais e conservadores dentro do universo político da direita.

Outro traço que agrega no mesmo campo conservadores e liberais como indivíduos de direita é no âmbito da defesa paradoxal do Estado máximo, no âmbito da segurança pública, enquanto que nos demais aspectos o Estado deveria ser mínimo. Se ao Estado compete principalmente o zelo pela coisa pública e a manutenção da propriedade, tanto para liberais quanto para conservadores compete ao Estado oferecer a garantia constitucional da segurança, utilizando fortemente de seu aparato repressivo contra eventuais infratores. No âmbito da criminologia, o pensamento liberal clássico defendia a ideia de que o crime era resultante do livre arbítrio do criminoso, que, literalmente, escolhia o caminho do crime, ao invés de se sujeitar às normas de uma sociedade. Portanto, nada melhor para o infrator do que a solução penal, defendendo liberais e conservadores através de candidatos e partidos identificados ou assumidamente de direita, a defesa das teses de introdução da pena de morte no Brasil, redução da maioridade penal, maior severidade das penas, e, consequentemente, um maior encarceramento.

Entretanto, recordo aqui da feliz observação do jornalista, assumidamente de direita, Reinaldo Azevedo, da revista Veja, em uma de suas entrevistas do ano passado,  quando comentava as recentes manifestações populares no Brasil. Segundo ele, "a diferença entre esquerda e direita é que, na direita há uma distinção de natureza, enquanto que na esquerda a distinção é somente de grau". O jornalista e intelectual brasileiro quis defender a tese de que, enquanto que no espectro da direita liberais e conservadores seriam altamente diferentes, apesar de ser aproximarem em temas comuns, no universo da esquerda, marxistas, anarquistas e sociais-democratas seriam, na verdade, a mesma coisa, uma farinha do mesmo saco defendendo um Estado máximo e menor liberdade individual. Os direitistas seriam, na verdade, libertários na defesa da livre escolha individual diante do coletivismo autoritário dos esquerdistas. Assim como no âmbito na esquerda, apegada à utopia da igualdade social (ou de classes), existe certo grau de romantismo,  a meu ver, os defensores das teses da direita também teriam uma visão romântica da sociedade, acreditando simplesmente que a sociedade seria formada por homens livres, produtivos, independente de sua condição econômica, e que por conta dessa liberdade não poderiam eles (ou suas famílias) serem importunados por outros grupos sociais ou por um ente estatal.

Enquanto isso, conforme minha impressão e estudos, esquerdistas defenderiam transformações profundas na sociedade, que podem, num jargão marxista, ser tanto infraestruturais quanto estruturais. Quero dizer que pode ser definido de esquerda tanto alguém que se limita, no âmbito dos costumes, a defender a redefinição de unidade familiar, como os defensores das uniões homoafetivas, como alguém que redefine o conceito de vida humana, a ponto de não considerar crime quem, por vontade própria, interrompe a concepção de uma vida intrauterina, como se dá no caso dos defensores do aborto. Por outro lado, posso ter um militante antiabortista que defenda a legalização de substâncias consideradas ilícitas e rejeitadas pelos conservadores, como a maconha, ou ser abstêmio no consumo de substâncias psicotrópicas e defender uma alteração real dos rumos da sociedade a partir de sua estrutura econômica, propondo uma revolução armada, com a deposição de uma classe social e a ascensão de outra, como discursam os defensores da luta de classes, vinculados ao pensamento marxista. 

De qualquer forma, se, na direita, temos liberais e conservadores; na esquerda podemos situar um ambiente onde convivem reformistas e progressistas. Os primeiros defendem uma transformação social ao menos cosmética, com a adesão progressiva e paulatina de programas sociais que se não eliminam, ao menos reduzem a desigualdade e promovem uma maior redistribuição de renda, com a adoção de políticas assistencialistas, muito associadas com a oferta de benefícios estatais, como o bolsa-família. Já uma esquerda mais revolucionária, capitaneada por partidos com ideologia mais extremista, de linha trotskista, como o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), defende ainda uma revolta ou revolução proletária, com a destruição dos pilares da ordem burguesa, conferindo à via eleitoral um mero expediente para uma grande luta revolucionária futura. Já os anarquistas, muito mais avessos a ideia de Estado, diferente dos liberais pregam uma sociedade autossuficiente, onde prevaleça uma autogestão dos serviços públicos a partir do controle direto da própria sociedade civil. Tachados muitas vezes de utópicos, militantes socialistas e anarquistas podem ser encontrados em quase todos os levantes populares, sendo muitas vezes responsabilizados por atos violentos, tais como os militantes black blocs, última novidade de tática política empregada nas recentes manifestações de junho, caracterizada pela presença de militante mascarados, vestidos de preto, que reagem à intervenção policial em grandes protestos, acusados em sua maioria da prática de atos de vandalismo.

Se, de um lado, no âmbito da direita, temos um universo entre liberais e conservadores, e no território da esquerda, temos entre os socialistas, de sociais-democratas a bolcheviques, até chegar nos anarquistas, como, então, definir as três principais candidaturas que se apresentam ao eleitorado, nas eleições presidenciais do dia 5 de outubro próximo? Se temos a candidatura à reeleição da presidente Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores, histórico representante da esquerda política na redemocratização, temos também Marina Silva, egressa do PT com mais de vinte anos de militância, que após um tempo entre os ecologistas tornou-se estrela do PSB, partido que no nome carrega o epíteto de socialista. Da mesma forma, no PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), temos o mineiro Aécio Neves pilotando o carro da oposição, afirmando em termos de sigla que seu partido tem um programa social-democrata. Ora, entre trabalhistas, verdes, socialistas e sociais-democratas, não tem ninguém de direita??

Acredito, piamente, que tão somente por estratégia eleitoral os atuais candidatos não se identificam de pronto, para o eleitor, como sendo de direita ou de esquerda. O partido político ou candidato pode não se identificar, mas os eleitores certamente apresentam sua identidade ideológica quando se manifestam em pesquisas de opinião, ou proferem suas ideias ou comentários em redes sociais. Hoje em dia basta dar uma pequena navegada na internet, para ver comentários dos mais díspares, mas todos unidos entre si pelos mesmos compromissos políticos alinhados ora com as teses do conservadorismo e do liberalismo, ora com posicionamentos mais socialistas, esquerdizantes. 

Entendo que, num regime democrático, o debate entre direita e esquerda, apesar de às vezes efervescente ou nem tão educado, seja salutar. Como homem assumidamente de esquerda, tenho amigos nos mais diversos horizontes políticos, e mesmo aqueles que preferem ser tachados tão somente de alienados, sem querer professar opinião política alguma, são muito bem vindos! Prefiro um direitista sincero e um esquerdista apaixonado do que um falso democrata! Acredito que, ao conhecer melhor os principais pensadores, teóricos e filósofos de ambos os espectros políticos, e a história dessas duas tendências de pensamento sobre os rumos da sociedade, consigamos obter uma síntese que seja válida para ambos os lados. Acredito na importância dos conservadores para impedir que as mudanças sejam irresponsáveis ou precipitadas, assim como reconheço o mérito dos liberais em defender a capacidade de arbítrio e a criatividade da livre iniciativa; mas entendo que os socialistas são fundamentais, para que nossa sociedade não se torne tão egoísta a ponto de achar normal a desigualdade, e até mesmo contribuir para sua manutenção ou acentuação. 

Enfim, creio que o melhor para aqueles que se interessam pelo debate seria ter a franqueza de defender Aécio pelo seu liberalismo, ou preferir Marina pelo seu conservadorismo, ou não votar em Dilma por acreditar que ela não seja progressista, ou votar por entender que seu assistencialismo e intervencionismo é bom para reduzir a desigualdade, mesmo que não transforme a sociedade, como acreditam os que votam em Luciana Genro ou Eduardo Jorge. Quanto a mim, peço apenas aos amigos que pensam diferente, que se manifestem da forma democrática e amistosa assim como estou me manifestando, às vésperas de um fato histórico tão importante como nossa eleição presidencial. Se são de direita ou de esquerda, ao menos vistam a carapuça sem medo de assumir uma posição política definida. Afinal, isso faz parte da democracia, e que seja ela sempre muito bem vinda!!!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

IN MEMORIAM: Murió Gustavo Cerati (Morreu Gustavo Cerati, o "Cazuza Argentino")

Yo, caminaré entre las piedras
hasta sentir el temblor, en mis piernas
a veces tengo temor, lo sé
a veces vergüenza Oh Oh Oh


É com os primeiros versos de Cuando Pase El Temblor que lamento a morte de Gustavo Cerati, cantor e ex-vocalista da banda argentina Sodastereo. Para quem não conhece ou não curte rock cantado em espanhol, o Sodastereo foi uma das grandes bandas latino-americanas dos anos oitenta, e a canção mais conhecida deles aqui foi a regravação de Musica Ligera, grande sucesso do grupo, de 1990, regravada em português com letras diferentes por Paralamas do Sucesso e pelo Capital Inicial.

Assim como Renato Russo e Cássia Eller foram nossos heróis no rock nacional, Gustavo Cerati funcionava na cena musical e artística portenha como uma espécie de "Cazuza argentino". Carismático, do alto dos seus um metro e oitenta e três (aumentados pelas botas que usava), faiscantes olhos verdes e voz de barítono, para mim Cerati não foi apenas um Cazuza, mas também um "Gardel do Rock'n Roll", cantando canções de amor, sensualidade ou revolta com originalidade e classe que o fizeram um hitmaker. A primeira vez que escutei a voz do cara, cantando no Sodastereo,  foi ainda no final dos anos noventa, quando no Brasil a TV paga Direct TV repassava o sinal da MTV latina. Conheci não apenas o Sodastereo, mas também outras bandas bacanas argentinas, como o Babasonicos e  Bersuit Vergarabat, todos de altíssima qualidade e que tocam até hoje, mas; sem dúvida, o Sodastereo era o melhor. Os anos noventa eram a época em que o grupo vislumbrou a consagração, com o célebre disco Canción Animal e muitos outros sucessos, como Ciudad en La Furia ou Primavero Cero, rock pesado e de primeiríssima qualidade que eu escutava à exaustão num antigo boteco de um amigo norueguês, que também gostava do som dos caras.

Entretanto, só fui me tornar mesmo fã da banda e de seu cantor quando viajei pela primeira vez a Argentina, em 2005. Lá, percorrendo lojas de discos tive acesso a toda a discografia do grupo, descobri que Cerati tinha saído da banda e seguido carreira solo, carreguei minha mochila de pilhas de CDs (no tempo que ainda não era tão popularizado o Mp3), e durante toda a viagem e meu retorno ao Brasil escutei muito, muito Sodastereo. Recordo que ao chegar em Natal encontrei um amigo argentino de longa data, que já vivia há anos por aqui e tinha escutado o rock de seu país somente até os anos setenta, e vi como ele ficou deslumbrado quando escutou pela primeira vez uma coletânea do Sodastereo. Na banda liderada por Gustavo Cerati estava todo o apelo pop de um rockstar, com shows pirotécnicos, letras bem elaboradas, riffs de guitarra que se transformaram em hinos, lotando estádios pela América Sul em apresentações belíssimas e ruidosas. O Sodastereo abria seus shows como se fossem monstros sagrados do rock como Queen ou Rolling Stones, fazendo perfomances memoráveis, vistas à exaustão até hoje na versão latina do VH1 ou no Youtube, energizando um estádio do River Plate enlouquecidamente repleto de fãs devotos. Para mim, os caras do Sodastereo foram os Beatles da Argentina e a primeira banda de um país latino-americano a sair dos limites de sua fronteira nacional e percorrer todo o continente em turnê, até chegar aos Estados Unidos e Europa. Nesse sentido, acerca do rock cantado em espanhol, o Sodastereo foi um marco histórico.

Encerradas as atividades da banda oficialmente em 1997, com o lançamento da turnê, disco e DVD de despedida chamada El Último Concierto, os fãs de Gustavo Cerati e seu grupo tiveram que esperar dez anos para ver de novo seus ídolos juntos, na turnê de retorno Me Verás Volver, de 2007,  quando saiu o disco e DVD homônimo, que não demorei a ter em minha coleção. Só lamentei que no período eu não tive a oportunidade de ir a Argentina e ver o show dos caras. Eu não sabia e nem podia imaginar que esta seria a última apresentação da história da banda.

Eis que em maio de 2010, o mundo recebe a triste notícia de que, em um show da turnê de seu disco solo,  em  Caracas,  na Venezuela, Gustavo Cerati passa mal nos bastidores da apresentação e é levado às pressas para o hospital, pois tinha acabado de ter um AVC. O que parecia ser apenas um susto decorrente do stress de uma cansativa turnê latino-americana acabou se revelando uma tragédia, um drama que iria durar mais de quatro anos. Gustavo Cerati entrou em coma, para nunca mais voltar. Durante esses anos ficou entre seus familiares e fãs a esperança de que ele, respirando com a ajuda de aparelhos, pudesse um dia acordar. Não aconteceu.

Com sua morte na data de hoje, aos 55 anos,  onde, por coincidência, recebi a notícia em um hotel na Colômbia, terra que tanto recebeu os shows e tanto amou o Sodastereo, sei que fica mais triste a cena do rock mundial. Eu não poderia deixar aqui de render a minha homenagem, a um dos músicos mais fascinantes que já conheci ao ouvir rock cantado em espanhol. A família do músico e aos seus fãs em todo o mundo eu desejo todo o carinho do mundo, e que vocês possam expressar esse carinho pelas bonitas músicas que esse cantor fascinante cantava, empunhando sua guitarra.

GRACIAS TOTALES, GUSTAVO!!!

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?