sexta-feira, 1 de setembro de 2017

IN MEMORIAN: Jerry Lewis-o rei dos comediantes

Foi no dia 20 de agosto deste ano, um domingo pela manhã, que morria Jerry Lewis, aos 91 anos. As homenagens são muitas e merecidas no mundo das artes e dos espetáculos. Afinal de contas, conforme o personagem interpretado do mesmo nome dele, sequestrado por Robert de Niro, no filme do diretor Martin Scorsese, Lewis era o verdadeiro "Rei da Comédia".

O título não é exagerado, considerando três décadas de trabalho exaustivo, na produção de dezenas e dezenas de filmes que exploraram como ninguém o chamado humor físico, classificado limitadamente por outros como "comédia pastelão". Jerry Lewis foi um dos maiores comediantes do século XX, assim como Mel Brooks, e Jacques Tati, mas a profundidade de sua arte ia além da comédia e beirava o perfeccionismo, aproximando-o de outros gênios do cinema como Charles Chaplin, que se iniciou comediante.

Nascido Joseph Levitch, em Newark, Nova Jersey, filho de imigrantes, judeus russos, que também eram artistas, começou a atuar cedo, já aos cinco anos de idade, fazendo imitações e dublagens. Não demoraria para que aquele jovem magricelo e desengonçado se tornasse um dos maiores comediantes do mundo. A grande verdade é que, como personagem, Jerry Lewis foi um dos ícones da cultura pop. Seu Professor Aloprado, onde reinventava de forma divertida "O médico e o monstro" é apenas a mostra de alguns dos filmes eternizados no imaginário cinematográfico, bem como o personagem tímido que, com suas trapalhadas, conquista a atenção das garotas de um pensionato em O rei das mulheres.

Não obstante todo o seu talento, massificado no mundo inteiro e divulgado à exaustão no Brasil pelos filmes reprisados na Globo, no " Festival Jerry Lewis", a obra do artista era considerada mediana nos Estados Unidos, mas elevada à condição de obra de arte na França, onde até hoje os filmes dele são estudados nas universidades. O fato significativo é que, por detrás de cenas aparentemente simples, com roteiros simplórios, envolvendo abajures, vassouras ou garrafas, na verdade existia um estilo meticuloso de filmagem, com números de interpretação repetidos à exaustão, com altas doses de perfeccionismo (a cena do artista regendo uma orquestra imaginária no filme O Mensageiro Trapalhão, é um exemplo disso). Se no Brasil, crianças como eu, do final dos anos 1970 tínhamos os Trapalhões de Renato Aragão como nossos heróis nacionais, sem dúvida Jerry Lewis era o grande rei. Não havia como um molequinho mulato, gordinho, de óculos e meio nerd, de frente a uma TV não se identificar com aquele tipo abobalhado, mas altamente sensível, da maioria dos personagens interpretados por Lewis.

Em seus primeiros filmes, da década de 1950, um Lewis jovem, de vinte e poucos anos, fazia dupla com um galante cantor Dean Martin. As aventuras dos dois eram as delícias de sessão da tarde de crianças como eu, que adoravam ver na TV esses filmes reprisados, mostrando as travessuras de um pirralho atrapalhado e seu amigo galanteador, numa América muito mais inocente do que hoje (ou ao menos o que parecia ser). Naqueles filmes, Lewis aparecia como suposto coadjuvante de seu parceiro galã, mas o grande astro dos filmes era realmente Lewis, com suas cenas impagáveis. Restava a Martin fazer os números musicais e cenas românticas, numa clara forma de atingir a audiência feminina para esses filmes. No fim, tratava-se de uma astuta estratégia de marketing de Lewis, que, além de ator era um jovem e ambicioso roteirista, que aproveitava a dupla com Martin para expandir sua obra, lotando cinemas, com seu público diversificado.

Ao final da década, cansado de ser subvalorizado apenas como um rosto e voz bonitas, Dean Martin rompeu a parceria e o gênio criativo de Jerry Lewis ampliou-se nas décadas seguintes, principalmente nos anos sessenta e setenta, para inúmeros personagens e performances históricas. Às vezes em experiências bem sucedidas, outras nem tanto, permanecendo ou mudando de estúdios, a criatividade de Lewis ainda rendia cenas hilárias e originais no cinema. Em uma delas, em um dos seus filmes nos anos setenta,  Lewis interpreta um personagem que é confundido com um agente secreto, e passa a escapar de assassinos de aluguel, disfarçado até mesmo de dançarino japonês Kabuki. Com seus trejeitos, Jerry Lewis deixou não apenas uma legião de fãs, mas também de discípulos que aproveitaram seu legado, com novos artistas de outras gerações, que, de certa forma, perpetuariam seu trabalho no humor, como Billy Cristal, Eddy Murphy, o comediante inglês Rowan  Atkinson (o Mr. Bean) e Adam Sandler. Porém, talvez dos comediantes de hoje o que mais se aproximou da forma de fazer rir como Lewis foi Jim Carrey. As caras e bocas do ator de "O Máscara", "O Mentiroso" e "O Pentelho", trazem em suas performances o DNA da obra de Lewis.

Assim como Carrey, Jerry Lewis não tinha uma vida totalmente feliz apesar da grana e do sucesso, e teve seus altos e baixos nas suas relações pessoais, principalmente nos casamentos. De temperamento explosivo, tendo uma relação com fortes tendências edipianas, face sua relação com a mãe um tanto quanto ausente, numa infância pobre em Nova Jersey, Lewis teve vários relacionamentos, apesar do casamento de 40 anos com a primeira mulher, até se casar com a ex-atriz e dançarina Sandy Dee, que se tornou uma espécie de segunda mãe, mais como esposa. Além disso, diagnosticado com uma série de problemas de saúde, o ator lutou durante anos contra enfermidades cardíacas, pulmonares e diabetes, além do vício em medicamentos por conta das fortes dores musculares que sentia nas costas. Por conta das medicações, Jerry Lewis também teve problemas de sobrepeso, levando-o a uma obesidade mórbida que o tirou de cena temporariamente de cena, no final dos anos 90.


Incrivelmente, no novo século, já bastante idoso e recuperado o peso da juventude, o velho comediante ganhou novo vigor, passou a fazer pontas em filmes (até no brasileiro Até que a sorte nos separe 2, com o ex-gordo humorista Leandro Hassum) e virou filantropo, passando a arrecadar dinheiro para pesquisas sobre distrofia muscular, quando chegou a arrecadar a expressiva cifra de seis bilhões de dólares. Tal proeza lhe rendeu um prêmio humanitário em 2009 na Cerimônia de Entrega do Oscar. Foi a única vez que Jerry Lewis foi reconhecido por Hollywood, já que a Academia, avessa à comédias e tendo comediantes apenas como apresentadores e não premiados, nunca premiou o seu maior gênio com uma estatueta.

Fica aqui minha homenagem em prol de minhas singelas lembranças, de alguém que me fez sorrir durante minha mais pueril juventude. Se a perda de Roberto Bolaños, o nosso eterno Chavez e Chapolin, foi tão dolorosa no ano passado, agora estendo esse lamento para o momento vindouro, feliz por saber que esses grandes artistas viveram muito, a ponto de morrer por causas naturais, mas manifestar minha tristeza de saber que astros talentosos como Jerry Lewis são únicos, e não se fazem mais. Que minhas lágrimas transformem-se em gargalhadas, ao revisitar as cenas do grande e maravilhoso Jerry Lewis!!!

terça-feira, 20 de junho de 2017

CINEMA: Meu nome é Gal: algumas razões do porquê Mulher Maravilha ser um dos melhores filmes de super-heróis do ano

Assisti recentemente no cinema mais um filme de super-heróis, num filão que já se tornou, neste século, um estilo cinematográfico. Foi o primeiro filme de peso com uma protagonista feminina (se vc tirar Mulher Gato, com Halle Barry e Ghost in The Shell, com Scarlet Johanson da equação). Trata-se do primeiro longa-metragem com uma das personagens épicas dos quadrinhos: A Mulher Maravilha. E olha que demorou, demorou para que um ícone tão importante da cultura pop do século XX aparecesse no cinema num filme próprio. Claro que muitos vão falar aqui da primeira aparição da personagem no superestimado "Batman X Superman", de dois anos atrás, mas aquilo pareceu ser uma espécie de teste de mercado, de um certo prenúncio criativo, a fim de saber até que ponto um personagem feminino dos quadrinhos poderia segurar nas costas um filme próprio, e está aí o resultado.

Foi a primeira vez que um filme de grande orçamento, envolvendo a princesa amazona das histórias da DC Comics, estourava nas bilheterias, e com a película, veio toda a questão do empoderamento feminino, conquistando jovens mulheres no mundo todo, e uma nova geração que passou a se inspirar numa nova heroína.

Suas primeiras histórias nos quadrinhos.
Nada mais paradoxal do que ver, nas salas de cinema, tanta gente nova, a curtir como novidade midiática uma personagem tão  antiga e tradicional. Ora, afinal de contas, a Mulher Maravilha é um personagem tão (ou mais antigo) que o Super-Homem, o Batman, da mesma editora, ou que o Capitão América, Homem Aranha ou Hulk, da editora concorrente, a Marvel. Sua primeira história data de dezembro de 1941, em plena II Guerra  Mundial, na revista All Star Comics, passando em décadas por vários roteiristas, desenhistas e mídias. Além do sucesso nos quadrinhos, relembro-me dos meus tempos de criança, em que a personagem aparecia na TV, num seriado famoso do final dos anos setenta, apresentado pela Globo, onde a atriz Linda Carter interpretava a famosa amazona com seu característico uniforme. Quem não lembra, dos que viveram a época, da clássica "rodopiada" que Diana Prince (alterego da personagem) dava, até se transformar na heroína guerreira de que todos gostavam? Só vendo no YouTube para recordar, com um sorriso no rosto!

Quando garoto,a minha musa na TV.
Mas existem dois aspectos importantes para afirmar que, desde a trilogia do Batman do diretor Chistopher Nolan, iniciada com o filme "Cavaleiro das Trevas", não havia um filme solo de super-heroi tão bacana. Pode-se dizer que "Mulher Maravilha" foi o melhor filme de super-herói (quero dizer, super-heroína) da DC Comics no cinema, superando, inclusive, o filme do Superman (ao menos o "Homem de Aço", de Zack Snyder). Lá estava ela nos cinemas com seu mítico uniforme, sua espada, o escudo, os braceletes indestrutíveis que repelem balas, raios e todo tipo da ameaça, até seu laço da verdade foi usado diversas vezes. Simplesmente arrebatador! Um filme de sucesso, de uma super-heroína de verdade! A que se deve isso? Eu diria que dois fatores importantes explicam a nova febre: o ineditismo de uma personagem icônica dos quadrinhos na tela grande; e a atriz que incorpora a personagem nos cinemas: Gal Gadot.

A ex-miss Israel, ex-modelo e ex-soldado do exército israelense não é uma atriz digna de Oscar. Ela não é uma sumidade de talento dramático como Meryl Streep e nem sequer uma jovem e oscarizada estrela como Jennifer Lawrence (que já fez de tudo, de heroína de "Jogos Vorazes" até a Mística em "X-Men"). Então, por que essa morena tão bonita surpreendeu tanto? Será somente por conta de sua beleza? O bom de Gadot, no papel da super-heroína clássica é sua humildade, e apego sincero ao papel e responsabilidade que lhe foi confiada, ao passar para novas gerações (principalmente de mulheres) o conhecimento sobre uma personagem consagrada para os leitores de Hqs. 

Aliando beleza, inteligência e desenvoltura, Gal Gadot conseguiu inibir os mais críticos, seja quanto a sua inexperiência, com poucos papéis anteriores nas telas (vide "Velozes e Furiosos"), seja pelo seu preparo físico. Sim! Apesar de linda e atlética, com experiência em treinamento militar, a atriz israelense teve que escutar críticas e manifestações de intolerância, antes mesmo de assumir o papel. Muito desse buxixo deu-se por preconceito, face a experiência anterior da atriz como modelo e miss e mesmo seu histórico de jovem mãe de duas filhas. Eu li nas redes sociais que muitos (principalmente muitas) achavam que a atriz era magrinha demais, ou longilínea demais, para uma personagem que, por conta da força mitológica que possui, deveria ser mais "parruda" ou "popozuda". 

Mais um ponto para Madame Gadot. Além de apresentar uma beleza física étnica, fora dos padrões europeus normais, e sem ter que ostentar o corpo de uma lutadora de UFC, a bela morena Gal conseguiu reunir um misto de força e sensibilidade no seu personagem que se aliam ao preparo físico e desprendimento diante das câmeras. Afinal, assim como a heroína dos quadrinhos, a Mulher Maravilha das telas é, sobretudo, uma guerreira defensora da paz e dos humanos, como uma Joana D'arc  moderna, mas também uma mulher com forte formação cultural e filosófica, adquiridos mediantes anos de treinamento com sua mentora, a guerreira Antíope (no filme, na pele da atriz Robin Wright) e os ensinamentos de sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen). Sobre o pretexto de combater o Deus grego Hares, autor de toda guerra e destruição, a super-heroína de Gadot é um modelo ético de combate às tiranias, à barbárie e injustiça, o que é explicado didaticamente no decorrer do filme, o que justifica o fato da personagem ter abandonado a mãe rainha e a idílica Themyscira, Ilha das Amazonas, para se juntar a combatentes de diferentes nacionalidades contra a ameaça alemã, na I Guerra Mundial.

Assumindo com dedicação a responsabilidade por  protagonizar um personagem tão importante das HQS, Gal Gadot e a competente diretora Patty Jenkins (do filme "Monster", premiado com o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron), conseguiram realizar um trabalho razoável, que dignifica o talento das mulheres na sétima arte.



Não resta dúvida de que Jenkins é uma boa diretora que sabe conduzir atrizes para filmes que, de certa forma, revelam uma narrativa com temática feminina. Em termos de "politicamente correto", "Mulher Maravilha" trata de empoderamento, sem ser militantemente feminista (ao menos para algumas delas). Há até piadas sobre isso, num diálogo sobre a vida sexual das amazonas em Themyscira, ou a divertida aparição da personagem Etta Candy (a atriz Lucy Davis), a frágil e roliça secretária do coronel Steve Trevor (o ótimo ator Chris Pine), coadjuvante da heroína, que é o alívio cômico do filme, numa cena impagável (relatada já no trailler do filme), que sarcasticamente estabelece uma relação entre o emprego de secretária e a escravidão.  Mas o que se destaca realmente no filme é de como uma mulher, uma única mulher, pode, literalmente, chamar pra porrada e botar marmanjos perigosos pra correr, como uma espécie de Ronda Rousey das antigas (antes, claro, de ser abatida por outra mulher: a brasileira e igualmente poderosa Amanda Nunes). Uma das melhores cenas do filme, e que viralizou imediatamente, é a já clássica cena da entrada no baile de Diana, sem seu uniforme de combate, vestindo um gracioso vestido azul, mas carregando nas costas sua poderosa espada "matadora de deuses", cujo cabo aparece por cima do decote. Tal imagem é emblemática e inspirou milhares de mulheres no mundo todo, que encheram a internet com fotos semelhantes, como uma espécie de imagem símbolo da combinação perfeita entre feminilidade e força. Com o filme de Gadot, posso dizer que todas podem (ou querem) ser uma Mulher Maravilha. Conheço ao menos duas, intimamente, minha mãe e minha esposa: duas Mulheres Maravilhas, duas super-heroínas!!

O filme de Jenkins só não é melhor por conta dos vilões, sofríveis, o que compromete ao menos 10 % do resultado final do filme, uma vez que uma personagem tão poderosa merecia ter um vilão melhor e mais à altura (a situação melhora no final do filme, dando coerência ao roteiro, mas não irei revelar por conta do spoiler). Fica faltando um contraponto feminino, uma nêmesis feminina e de grande maldade, antagonista da heroína que seja tão poderosa quanto ela. De qualquer forma, "Mulher Maravilha" é o típico filme de sessão da tarde que agrada (e muito), e que me faz lembrar outros filmes de Super-herói, que faziam a molecada vibrar nas cadeiras do cinema (como na época do Superman, de Richard Donner, em 1979, com o inesquecível ator Christopher Reeve interpretando o personagem principal).

Que venha, portanto, o filme da "Liga da Justiça", e com ele retorne um pouco mais da beleza, voz rouca e versatilidade de Gal Gadot. Nós, fãs de super-heróis, histórias em quadrinhos, e amantes do cinema, estamos esperando carinhosamente o retorno de nossa musa. Bem vinda ao século XXI, Mulher Maravilha!!

domingo, 7 de maio de 2017

PERSONAGEM: Lembranças de Belchior

O cantor Belchior faleceu no último domingo, dia 30 de abril, em Santa Cruz do Sul, uma bela e pacata cidade do Rio Grande do Sul, de colonização alemã, onde trabalhei e conheci minha esposa. Foi sintomático que ele tenha morrido da forma como sempre se apresentou para seu público: sereno, plácido, como uma certa melancolia nas letras de suas músicas e clima de despedida, deitado em um sofá e coberto de edredons para se aquecer do frio sulista, quando seu coração de poeta parou enquanto dormia, durante uma noite de outono. Ele tinha 70 anos.

Antônio Carlos Belchior Fontenelle Fernandes (seu nome de batismo) nasceu em Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946. Se no rock dos anos sessenta, os Estados Unidos da América viveram a British Invasion, com artistas da Inglaterra que predominaram no período, como Beatles, Stones ou The Who, no Brasil dos anos setenta, a cena musical de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo foi surpreendida pela "invasão nordestina", de músicos talentosos, criativos, oriundos da região nordeste do país e que se tornaram consagrados, como Zé Ramalho, Amelinha, Alceu Valença, e Ednardo. Belchior fazia parte dessa estirpe. Foi juntamente com Fagner, conterrâneo seu, que Belchior saiu do Ceará, largou um curso de medicina (antes teria tentado ser monge, num mosteiro católico), no final de 1969, e dirigiu-se num ônibus até a cidade grande, onde, poucos anos depois, conheceria a já consagrada cantora Elis Regina, que regravaria uma de suas canções mais famosas: "Como nossos pais", um hino para toda uma geração que, tardiamente no Brasil, conhecia o movimento hippie, e simbolizaria as utopias rebeldes da juventude.

Belchior é um típico músico dos anos setenta. Pode-se dizer que ele é da geração "desbunde", do típico verbo "desbundar", que hoje encontra-se historicamente em desuso. A palavra significava literalmente tirar a bunda da cadeira, rejeitar a inércia, o ócio e a letargia que nos obrigava simplesmente a "ser como os nossos pais", e convidava o jovem romântico a ser um aventureiro, a colocar a mochila nas costas e conhecer o mundo, como "um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". 

ALUCINAÇÃO:um dos discos emblemáticos do cantor.
Foi nessa vida aventureira que Belchior conheceu as dificuldades iniciais do ostracismo na vida artística, conheceu o sucesso, após ter sido regravado por uma cantora famosa, ter ganhado espaço midiático e ter lançado ao menos três discos símbolos, apreciados pela crítica e por um público cult, cativo, ansioso por novidade, que logo encontrou no músico cearense seu novo bardo, que saía das praias nordestinas para conhecer a fria e cinzenta selva de pedra da metrópole. Foi no período em que morava no Rio de Janeiro, e depois São Paulo, que Belchior parecia estar mais inspirado, e tanto na brisa do mar carioca quanto na garoa paulista escreveu algumas das canções e versos mais emblemáticos de sua prolífica carreira. Assim, aquele garoto nordestino pobre de "Na hora do Almoço", de 1971, passou a se tornar o homem maduro, de descobertas da vida adulta e romântico, com " A camisa toda suja de batom", ou o homem contemplativo e filosófico, que aguardava "uma nova mudança que pode acontecer", onde "precisamos todos rejuvenescer".

Sobre a obra de Belchior uns dizem que ele era a versão do nosso Bob Dylan nordestino. Eu prefiro achar que o músico assemelhava-se mais a Lou Reed, por conta de sua crônica seca da vida social, dos amores, seja por uma mulher, seja por um lugar, causa ou cidade. Suas músicas transcenderam o tempo e se eternizaram, e até mesmo um bloco de carnaval em Belo Horizonte (o "Volta Belchior"), celebra anualmente suas músicas. De personalidade um tanto esquiva, sem ser doentia como João Gilberto, após um reluzente sucesso nos anos setenta e na primeira metade dos oitenta, a nova indústria musical que surgiu parecia não mais agradar o cantor cearense, fazendo aparições cada vez mais raras e lançando menos discos, compondo menos. Nesse período, em pouco tempo, sua imagem desapareceu das televisões e ele se limitou a viver de promover os seus shows pelo Brasil.

Nesse tempo, a lembrança que tenho mais positiva e pessoal de Belchior ocorreu em dois episódios, no começo dos anos 90 e no começo dos anos 2000. Em 1990 eu acabara de entrar na universidade, Belchior já era uma lenda, e lembro de ter ido ao Teatro Alberto Maranhão e ter  assistido ao "Projeto Seis e Meia", numa noite de terça-feira, onde músicos famosos apresentavam-se na cidade com ingressos a preços populares. Lembro que, como estudante recém entrado na universidade, pagando meia entrada, fui curioso assistir a um show de Belchior a convite de uma amiga de turma, e assisti ao vivo o cantor com seu indefectível bigode, ainda no auge da forma artística, cantando seus maiores sucessos na voz e violão. Dez anos depois, no ano 2000, eu estava em Brasília, numa conexão de voo para Natal, retornando de uma seleção de mestrado em São Paulo e lembro-me de ter encontrado no saguão do aeroporto, um sujeito magro, de cabelos negros e vasto bigode, bem vestido com uma camisa de manga larga e botões e um colete preto por cima, sentado numa das poltronas, enquanto lia um livro de capa dura. Só podia ser ele, era Belchior!! Perdi toda a vergonha de fã e me aproximei do cara, tomando o maior cuidado para não parecer abusivo. Quando ele levantou a cabeça e me olhou não pude deixar de dar um sorriso envergonhado e perguntar pro cara, meio constrangido, se ele era mesmo o Belchior. Como ele respondeu afirmativamente, começamos uma curta, mas animada conversa.

O autógrafo do artista no meu livro.
Havia falado a Belchior que dez anos antes eu havia assistido ao show dele no teatro, e ele não apenas lembrava do lugar, como também dos músicos e pessoas de Natal que ele conheceu no período. Disse que, assim como em outras regiões do Brasil, o Rio Grande do Norte tinha bons músicos, e ele ficou surpreso, quando eu lhe disse que além de formado em Direito, eu também tinha sido músico amador, e formado em 1995 uma banda de rock. Disse-lhe que também escrevia poesia, e que gostava de filosofia, ocasião em que ele afirmou que tinha percebido meu gosto por esse ramo de conhecimento, quando me viu carregando em uma das mãos um livro que tinha acabado de comprar sobre Direito e Linguagem. Ele me perguntou se eu gostava de literatura, e, ao responder que sim, aproveitei a deixa, e meu lado tiete falou mais alto que o acadêmico, e pedi a Belchior que autografasse o livro que eu havia comprado. Eu sabia que ele também tinha como hobby a caligrafia, e foi numa letra rebuscada que ele fez uma singela dedicatória, a um jovem que ele nunca tinha visto antes, mas que numa conversa de dez minutos já considerava uma companhia de viagem: "Para Fernando. Amigo sempre! Abraços do Belchior 2000". Desta forma, nos despedimos. Ele voltou para o seu livro e eu para o meu, enquanto caminhava em direção ao avião, emocionado, olhando aquela pequena dedicatória de um dos personagens históricos da música popular brasileira. Fiquei pensando na sua música: "Foi por medo de avião", e no seu gosto por Beatles, além da certeza de eu ter segurado, num aperto, a mão amistosa de Belchior.

Charge de Lucas Loureiro
Percebi que estava diante de um cara humilde, avesso a fama e badalações, que, por educação, tolerância ou uma calma extrema, não se incomodou com um fã chato que lhe pediu uma dedicatória num livro. Na verdade, no pouco tempo em que estive no saguão do aeroporto junto com ele, não vi ninguém reconhecê-lo, ou se reconheciam, ninguém se importava em cumprimentar o ilustre artista. Situação bem diferente quando, cinco anos depois do encontro no aeroporto, junto com a mulher ele desapareceu, sem deixar rastros, numa saída de cena polêmica, onde deixou um carro abandonado num estacionamento, além de familiares, empregados e credores, gerando uma repercussão midiática tão ou mais divulgada do que sua obra. Descobriu-se anos depois que o músico tinha ido viver no Uruguai, totalmente falido, com as contas bloqueadas por conta de decisões judiciais em processos movidos por pensão alimentícia ou dívidas trabalhistas. Sem poder recolher os direitos autorais de seus discos, Belchior vivia de favor na casa de amigos, que sempre admiraram a sua arte, perambulando como um nômade de cidade em cidade, caminhando sua "légua tirana". No fim das contas, aquele Belchior que eu vi no aeroporto já tinha retornado a ser aquele mesmo nordestino pobre de outrora, um viajante, sem dinheiro no banco, e, que, nas "paralelas" da estrada da vida escolheu seu próprio destino, sem demonstrar mágoa ou arrependimento.

Eis que Belchior transformou seu exílio na sua última grande obra. Do noticiário até programas humorísticos, parecia que o sumiço do músico ficara tão lendário quanto seu mais famoso disco: "Alucinação". Milhares de pessoas, habitantes da simpática e pacata cidade de Santa Cruz do Sul, ficaram surpresos, ao saber da morte do cantor no noticiário, pois não tinham a menor ideia de que vivia recluso e oculto na cidade um morador tão ilustre. Quando foi anunciada sua morte, o governador do Ceará apressou-se em providenciar que o corpo fosse transportado para seu estado, velado em Sobral, a terra natal do cantor, e fosse, enfim, enterrado em Fortaleza, com ares de funeral de um chefe de Estado. Quem dera todo esse reconhecimento oficial fosse feito ainda em vida, as homenagens fossem suficientes para pagar as contas e os credores, e num Brasil atordoado por uma crise política galopante, Belchior ainda pudesse estar aqui conosco, compondo e cantando canções de protesto, que, com certeza, como ele cantava em "Fotografia 3 X 4", poderiam servir de alento para aquele "que ficou desnorteado, como era comum em seu tempo, que ficou apaixonado e violento, como todos vocês".

Sepultamento do cantor.Justa homenagem no Ceará.
Vendo pela televisão o corpo de Belchior num caixão, em sua última despedida, com seu longo bigode pintado de preto ainda se destacando, não pude deixar de observar que, mesmo morto, ele continuava a me inspirar um ar filosófico. Das lições que aprendi, ouvindo as músicas de Belchior foi que, como cristão e socialista, mesmo que a realidade lute contra, constatei que, apesar de tudo, "AMAR E MUDAR AS COISAS ME INTERESSAM MAIS!". Meus aplausos para Belchior!! Na estante o livro ainda está ali, bem perto, lembrando-me do quanto o músico falecido ainda continua próximo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

COMPORTAMENTO: Maui e o preconceito estético

Estreia essa semana nos cinemas, a animação "Moana", dos estúdios Disney, dirigido pelos bem sucedidos diretores de animações, Ron Clemens e John Musker. O desenho deverá encantar crianças e adultos, pois se passa na Oceania, onde a heroína, uma morena de cabelos cacheados, faz-se acompanhar de um semideus grande, forte e gorducho, o indolente Maui (dublado pela voz do ator Dwayne Johnson), em paradisíacas paisagens oceânicas, que lembram as ilhas de Fiji, Samoa e Bora Bora, recriadas perfeitamente após uma pesquisa geográfica com afinco, além de apresentar um vilão que, na verdade, é um acidente natural (um vulcão). 

Entretanto, antes de estrear, o filme já gerou controvérsias nas democráticas, mas nem sempre esclarecidas redes sociais, com muitas críticas ao personagem heroico do filme, o semideus Maui, pelo simples fato dele ser gordo. Maui é alto, cabeludo e todo tatuado, mas, sobretudo, corajoso e um tanto engraçado. Apesar dessas qualidades, alguns "vigilantes do peso" virtuais apenas viram um cara gordão no meio da tela.

O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que sempre preferia em suas peças, colocar como vilões os magros, e fazia uma defesa pública dos gordos; pois, entre suas tiradas históricas, pode-se colher as seguintes expressões: "O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço", ou em relação aos magros: "É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros."

Rodrigueanismos a parte, os comentários maldosos acerca da silhueta do herói do desenho da Disney, a meu ver, tem relação com um velho elemento cultural: o preconceito estético. Numa sociedade que prioriza a forma, a perfeição do corpo, e, principalmente, cultua um ideal de saúde representado por um corpo magro, esbelto, e, de preferência musculoso, aqueles que apresentam um semblante mais roliço tornam-se párias, os marginalizados da beleza. Se são crianças, sofrem a mais cruel das provações sociais: o bullying. Quando criança, no efeito sanfona que sempre permeou a vida (e o formato) de minha trajetória, eu sofria uma dupla estigmatização: ser gordo e usar óculos; ou seja, um alvo fácil para meus algozes "perfeitinhos" e magrinhos. 

Existe muita ignorância em relação à forma física de cada um, e aos padrões de beleza associados ou não a uma camada maior ou menor de tecido adiposo. Ora, na Renascença, nos diversos quadros de Renoir, as mulheres bonitas eram retratadas com uns quilos a mais, pois o padrão de beleza estava associado à ociosidade dos ricos, que, por isso, mais bem alimentados, contrastavam com a esqualidez da camada mais pobre do campesinato.

Hoje em dia, inclusive, proliferam a moda das modelos plus size, representada por mulheres muito bonitas, mas com uma desproporção acentuada entre a altura e o peso do corpo. Mesmo assim, no mercado de trabalho, é comum ainda encontrar resquícios de preconceito estético nas contratações por algumas empresas privadas. Quem nunca se sentiu excluído, por ter uns quilinhos a mais, quando viu nos cartazes de ofertas de empregos, a crucial expressão: "requisito da boa aparência"?!

Eu mesmo vivi e ainda vivo no meu cotidiano cenas de preconceito explícito quanto a minha forma física, e percebo que a ignorância acerca da democracia estética atinge também o discurso médico. Como diria o filósofo Michel Foucault, o discurso médico também é uma das formas de saber, e saber é poder, pois o conhecimento também pode ser utilizado como uma forma de opressão. Na teoria de Foucault, o saber dos doutos podia se manifestar como um poder estabelecido sobre os corpos. Desta forma, senti a força dessa opressão corporal ao me dirigir, por exemplo, a um gastroenterologista para resolver um problema de estômago, ou a um otorrinolaringolista, para tratar de um problema de sinusite. Foi até engraçado, pois ambos, sem sequer medir a minha pressão arterial ou me examinar com um estecoscópio, ao me ver entrando na sala, e olhar para meu corpanzil, já sentenciaram: "seu problema está relacionado com o aumento de peso, o senhor precisa emagrecer". Ora, consulto anualmente um cardiologista, faço todos os testes e exames, e, graças a Deus, pelo menos até o momento, minhas taxas estão todas equilibradas e não apresento nenhum problema sério de saúde, a não ser uma hipertensão arterial, que é herdada de família, e que, passei a desenvolver, aos 30 anos, quando era............. magro!!!


Vivi um efeito sanfona a vida toda, alternando momentos de extrema magreza e excesso de peso. Tenho 1,74 m, mas me recordo que, em 2005, quando tive uma súbita perda de peso, por conta de um doença, cheguei a pesar 82 kg, e todas as pessoas, especialmente colegas de trabalho e alunos em sala de aula comentavam nos corredores que eu deveria estar gravemente enfermo, e até mesmo portando o vírus da AIDS, tamanha era minha magreza e abatimento. Talvez por conta de minha estatura larga, não posso perder peso em excesso, e talvez por conta disso meu peso ideal sempre esteve entre 90 a 95 kg. E se me perguntarem hoje? Sim, estou acima do peso. Tenho mais de 100 kg, apesar de correr toda semana e fazer academia ao menos duas vezes por semana. É pouco? Com certeza. E tendo deixado de fumar há mais de 5 anos, passado dos 40 anos, onde o metabolismo necessariamente se modifica e se torna menos acelerado, preciso, sim, fechar a boca, adotando uma dieta mais regrada e baixa em calorias, além de fazer mais exercícios. Entretanto, busco isso não para atingir um ideal estético, pois sou feliz como sou, e na minha autoestima, ainda acho-me um cara maduro bastante atraente. Perder peso para mim é apenas uma forma de aumentar minha qualidade de vida, tornar-me mais ágil e menos suscetível a doenças com o decorrer da idade, e, também, uma forma de aproveitar melhor minhas calças preferidas. Mas enquanto aqueles que acham que o Maui do desenho da Moana é um monstro gordo e não deveria estar lá?

Numa sociedade que cultua a magreza,as plus size destacam-se
Eu digo que o preconceito estético começa em nossas casas, dentro da nossa própria família. É na família que ele começa quando nossos pais nos criticam, e uma forma menos delicada de dizer que estamos comendo demais ou além da conta, é dizer que estamos gordos (ou, com menos sensibilidade ainda, dizer que vamos nos transformar numas baleias). Sou de uma família de pessoas de corpo avantajado como herança genética, a começar pelo meu pai, e, mesmo assim, desde criança, até a vida adulta, ouvi meus pais caçoarem de mim toda vez que eu aumentava de peso, dizendo que eu estava virando algum animal qualquer, de um zoológico de bichos de perfil nada esquálido. Não faziam (ou não fazem) isso por maldade, mas por uma forma de alertar os filhos sobre os problemas de saúde associados ao sobrepeso. Entretanto, ainda me resta um fio de mágoa ao escutar comentários acerca do tamanho de minha barriga, cultivada há mais de dez anos entre barris de chope da melhor qualidade, quando advirto a eles que faço exercícios e que minha saúde esta ok. Então, por que tanta falação?

Meus pais, como muita gente que ocupa as redes sociais, estão alienados por um modelo cultural baseado em uma ideologia: a ideologia da perfeição corporal, e isso não deixa de ser autoritário, beirando as vias do totalitarismo político. Ora, o tipo ariano, exortado por Hitler, na Alemanha nazista, não era apenas o ideal de indivíduo loiro, nórdico, da pele branca e sem manchas, mas também do tipo atlético, magro, esbelto e sem barriga, que representa uma suposta raça superior. Você já pensou se os nazi-fascistas tivessem ganhado a II Guerra Mundial, e além de homossexuais, deficientes físicos e mentais, negros, judeus e ciganos, eles também eliminassem, nas câmaras de gás, os gordinhos? Creio que metade da população dos Estados Unidos da América, alimentada a base do fast food, desaparecia do planeta, seria varrida do mapa, juntamente com seus copos de milk shake, seus pacotes de batatas fritas e seus sanduíches com bacon.


É importante salientar que minha crítica neste post não é um ataque recalcado aos magros, não faz apologia da gordura e nem estabelece um autoritarismo às avessas: ao pretender que todos fiquem gordos ou acima do peso, no lugar daqueles que estão magros, e ficam "se achando". Minha crítica acerca do preconceito estético é apenas um libelo, na tentativa de conscientizar aqueles que reconhecem seu preconceito, de que a beleza das pessoas não é só interior, é verdade, mas ela vai muito além das barrigas de tanquinho, e supera camadas e camadas de gordurinha que você possa ter na barriga, no quadril, ou abaixo do pescoço. Na verdade, olhar o outro de outra forma, além do seu peso, envolve entender que todos os padrões estéticos que adotamos, num determinado momento, são datados historicamente, e ser mais magro ou menos gordo não é o critério principal para você se relacionar com ninguém, seja para manter uma amizade ou para contrair um casamento. O que parece gordo para você, pode parecer belo para o outro, ou que é magro, para alguns, pode simbolizar muitas coisas, menos a beleza.

Em tempo: no tocante ao personagem Mauí, do filme da Disney, importante acrescentar um dado antropológico: entre os povos da Oceania, os tipos mais largos e arredondados pertenciam à nobreza, a classe dos guerreiros, pois os lutadores eram mais bem avantajados, pois precisam se alimentar mais, e, portanto, as crianças que forem assistir a animação podem, sim, ter um herói gordo, e Maui representa um desses tipos de heróis. Que meu filho, ao buscá-lo na escola, possa vislumbrar chegando um desses heróis, e não apenas um cara barrigudo, que tomou cervejas demais!!

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

MÚSICA: As cortinas fecharam-se para Leonard Cohen

O cantor ainda jovem, nos anos 70.
Se você perguntar entre 10 pessoas do seu convívio pessoal ou mesmo do meio acadêmico quem era Leonard Cohen, é bem capaz de apenas uma ou nenhuma saber de quem você está falando. "Leonard....quem???", alguém pode perguntar. Isso se deve porque o cantor, compositor, poeta e escritor canadense de voz sussurada nunca obteve sucesso comercial, e apesar de cantar para plateias lotadas, sua música sempre foi ouvida por um círculo restrito e requintado de ouvintes, que apreciavam uma poesia cantada, numa polida língua inglesa.

Leonard Cohen saiu definitivamente de cena no último dia 8 de novembro, aos 82 anos, por causas não relevadas pela família. Ele faleceu em casa, acompanhado do filho Adam, lugar onde gravou seu último disco. Ele nos deixou com um último álbum, intitulado You Want in the Darker. Assim como David Bowie, falecido no começo do ano, mas que lançou o ótimo Blackstar uma semana antes de morrer, no penúltimo mês de um 2016 de extremas perdas (não só artísticas, mas pessoais para mim), Cohen se foi deixando um álbum-testamento, e um legado de mais de 100 canções emblemáticas, em cinco décadas de carreira, que ficarão para sempre, na história da cultura popular do século XX.

Em um de seus shows memoráveis, em Montreaux.
Para os apreciadores da obra de Cohen, ele já era um aclamado poeta e romancista em sua terra natal, na década de sessenta do século passado, com livros como "Flores para Hitler", de 1964 e "Belos Vencidos", de 1966; mas, aos 33 anos, o escritor resolveu arriscar como cantor. Amante de viagens e apaixonado pela poesia do espanhol Garcia Lorca, Leonard Cohen iria até a Ilha de Hidra, na Grécia, onde viria a conhecer talvez a sua maior musa, que lhe renderia  o primeiro sucesso, a antológica canção So Long, Marianne. Entretanto, foi em 1969 que ele apareceu para o mundo, cantando uma música cover, Susane, que já tinha sido cantada na voz de Nina Simone. Os anos setenta são talvez a época mais profícua da musicalidade de Cohen, com canções ícones como Bird on a Wire, Avalanche e Chelsea Hotel n.o. 2, chegando a competir nessa época com outro grande cantor daquilo que viria a ser chamado de estilo indie ou música pop alternativa, o francês Serge Gainsbourg.

Vieram outras canções e discos que compõem o catálogo dos fãs da música de Leonard Cohen. Eu destacaria So Long, Marianne, Sisters of Mercy (que renderia o surgimento da banda de rock homônima, nos anos oitenta) e o disco Songs of Love and Hate, de 1972, até chegar ao seu álbum mais vendido, I'm your Man, de 1988 e a belíssima e ao mesmo tempo triste canção Dance to the End of Love. Nessa época, com seu jeitão de poeta beat, parecendo ser uma espécie de "Frank Sinatra Cult", Cohen já havia conquistado alguns garotões do rock, que apreciavam suas letras e músicas, dentre eles Michael Stipe, do R.E.M., Ian McCulloch do Echo & The Bunnymen e até Kurt Kobain do Nirvana, que cita um trecho de uma canção de Cohen, ao cantar  a densa Pennyroyal Tea.

O artista emociona-se ao ser homenageado.
A música de Cohen também é conhecida pelo apelo espiritual. Aficcionado pelo estudo da teologia, Cohen estudou vários temas e os explorou em suas canções, seja da cabala judaica até a trindade cristã. Talvez sua composição mais conhecida seja justamente uma que faz alusão a temas e personagens bíblicos, mas, que, na verdade, num pseudogospel emocionado, trata-se menos de fé, e mais de uma canção de amor e desilusão, cuja letra é de um lirismo e profundidade que lembra uma obra barroca. Estou falando da célebre Hallelujah. Esta canção foi regravada por vários artistas, dentre eles, Jeff Buckley, grande artista e promessa do rock que morreu jovem, precocemente nos anos noventa, e que somente lançou um disco em vida. Foi justamente através da versão de Buckley que eu, anda um jovem estudante universitário, tive o primeiro contato com a obra de Cohen.

De origem judaica, o poeta e cantor acabou abraçando o budismo, tornando-se monge nos anos noventa e abandonando a música e a literatura.  Leonard Cohen somente acabou retornando aos palcos ao 74 anos, na primeira década deste século, quando descobriu que sua ex-empresária havia surrupiado toda a sua grana, e a necessidade financeira o levou a se apresentar ao vivo novamente e a gravar novos discos. Já idoso, mas elegante com seu chapéu e ternos, o último dos grandes shows de Cohen foi na Espanha, no ano passado, numa apresentação que, literalmente, fez toda a plateia chorar de emoção. Já doente, como um ancião fragilizado em cima do palco, e abatido pela depressão, com uma simplicidade e sinceridade que mantinha com quem lhe ouvia, Cohen começou o show com ar tímido, mas, calmamente, foi conquistando o público até chegar ao ápice, o que era a marca de suas músicas e apresentações ao vivo: uma emoção progressiva, que se inicia aos palcos até chegar a uma evolução catártica, à beira do frenesi religioso. Em suas últimas entrevistas, dizia-se preparado para a morte. "Estou pronto", era o que respondia aos seus interlocutores quando era perguntado sobre o assunto. E, assim, numa tarde de terça-feira, partiu mais um grande artista do século XX.

A última foto icônica.
Nesses tempos em que contemporâneos de Cohen, como o Prêmio Nobel de Literatura, Bob Dylan, são revisitados, e para todo bom apreciador de música folk, pra quem não conhece, vale a pena dar uma conferida na obra deste belo artista. Despedindo-me de Leonard Cohen, assim como me despedi de tantos neste blog até o dia em que eu mesmo terei que me despedir, termino este texto com os versos finais de Hallelujah, na sua tradução para o português, dizendo: "Tinha um tempo que você me deixava saber o que se passava. Mas agora você não me mostra mais, não é? Eu me lembro quando me apaixonei por você! E o Escuro Sagrado também se movia. E cada respiração nossa era de Aleluia!E todo suspiro que dávamos era um Aleluia! Aleluia! Aleluia!!".

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ELEIÇÃO AMERICANA: o fim do politicamente correto.

Confirmou-se o inconfirmável: Donald Trump é presidente dos Estados Unidos da América. Numa campanha eleitoral que começou ainda no ano passado e vista como piada, Trump, um outsider da política, que nunca tinha disputado ou exercido antes um cargo público, foi eleito na madrugada de hoje presidente da nação mais poderosa do planeta, pelo Partido Republicano, derrotando a candidata democrata, Hillary Clinton. Foi a reviravolta política e a guinada conservadora mais espetacular da última década, e o fim de uma era: a era do avanço político da esquerda e de candidaturas e governos mais progressistas.

O mundo parece andar de marcha ré. Num discurso até então considerado abolido nos livros de história, ou ao menos na opinião de milhares de intelectuais, militantes sociais e representantes de segmentos sociais étnicos e de gênero, como negros, hispânicos, feministas e representantes da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bisssexuais e transgenêros), o candidato e presidente vitorioso elegeu-se como um discurso e uma plataforma nacionalista, diplomaticamente unilateral, xenófoba, misógina, ultraconservadora e fanfarrona. Defendendo a construção de um muro separando os EUA do México, a proibição da entrada de muçulmanos no país para evitar o terrorismo, a comparação de imigrantes ilegais mexicanos a bandidos e estupradores e acusado de abuso sexual por ex-funcionárias de suas empresas, além de dizer as coisas mais horripilantes sobre mulheres, seja sobre mulheres feias ou grávidas, o bilionário empresário dos hotéis, cassinos e show business representa a vitória do capital, de uma América branca, intolerante, desempregada ou subempregada, religiosa e conservadora, que encontrou no candidato republicano o representante de seus anseios de um novo país.

Make America Great Again (Faça a América ser grande de novo!). Com esse slogan de campanha, Donald Trump substituiu o também criativo lema do Yes, We can (Sim, nós podemos!) do presidente que saí, Barack Obama. Em tudo, parece que Trump e Obama apresentam-se como o espelho invertido de uma mesma sociedade. Os oito anos de governo democrata de Obama vão ser conhecidos na história recente como os da inclusão da saúde pública num país que privilegiou durante séculos a iniciativa privada no setor, ao pregar tradicionalmente a opção por um médico como escolha individual de quem tem condições financeiras de procurar um, e não um serviço que deve ser ofertado pelo Estado. Serão  conhecidos os anos Obama, na diplomacia, como anos de sucesso no combate ao terrorismo ao eliminar Osama Bin Laden, mas de fracasso ao evitar o surgimento e a expansão do Estado Islâmico e a frustração de não conseguir combater os testes nucleares da Coréia do Norte. Foram anos conhecidos pela inédita aproximação com Cuba, o retorno das relações diplomáticas com a ilha caribenha dos irmãos Castro e a reinauguração de uma embaixada, além da tentativa de suspender o pernóstico embargo que prejudica a relação entre ambas as nações há mais de 50 anos. O governo Obama vai ser conhecido também por ser aquele que deu espaço às minorias que, demograficamente, acabaram se tornando maiorias, como negros, hispânicos e asiáticos, e por uma campanha interna pelo desarmamento e o controle da indústria armamentista, face os frequentes e periódicos ataques de atiradores solitários em escolas e locais públicos do país. O governo do democrata também foi responsável pela redução dos preconceitos a gays e lésbicas, ao abolir a regra que proibia aos militares de revelarem sua orientação sexual, quando do seu ingresso nas Forças Armadas.  O governo de Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, com sobrenome árabe, filho de um queniano, nascido no Havaí e criado para ser um intelectual professor de Direito da Universidade de Chicago, simboliza a marca de um tempo que se foi, nessa segunda década do século XXI. Foi embora a época da diplomacia liberal da globalização,  da abertura política, do multiculturalismo, e da tolerância ao pluralismo, e; no lugar disto, com a eleição de Trump, voltou-se a culpabilizar o outro, o diferente. Se antes, defender uma agenda progressista de novos direitos para novos atores sociais, como mulheres, gays e imigrantes, era tido como normal e recomendável, numa sociedade taxada de "moderna", hoje, o retorno à defesa da família monogâmica, do Estado-nação soberano diante do direito internacional e do patriotismo baseado numa única singularidade cultural, retornou com força com a eleição de Trump.

A eleição norte-americana, diferente da nossa eleição brasileira, é indireta, e lá não importa apenas a votação popular, mas, principalmente, conquistar os votos de Estados considerados chave no mapa do federalismo americano, onde a vitória pela votação obtida nas urnas, nessas regiões, pode levar  a uma quantidade maior de delegados, aptos a votar no colégio eleitoral que é o responsável final pelo processo de eleição nos EUA. Foi isso que aconteceu no dia 8 de novembro de 2016, e foi nessa data que Hillary Clinton viu suas chances de uma primeira mulher chegar a Casa Branca caírem por terra, quando perdeu a votação em estados-chave, como Flórida, Ohio, Nevada e Pensilvânia. Sem ter como competir com Trump nesses locais, a candidata democrata amargou a derrota e o ostracismo político do projeto de poder do casal Clinton (aquele conhecido pelo escândalo sexual de um presidente, uma estagiária, sexo oral e charutos). A derrota de Hillary também é a derrota do Partido Democrata, que mais uma vez não conseguiu fazer maioria em nenhuma das casas legislativas (com maioria republicana tanto na Câmara quanto no Senado), e o desmanche do projeto de continuidade de um terceiro mandato da gestão Obama. Se os anos globalizados, diplomáticos e politicamente corretos da fala mansa de Obama foram embora; agora o que resta são as bravatas e o hard power do discurso sexista, xenófobo e virulento de Donald Trump.

Mas, sabe-se que uma coisa é discurso, outra é ação política. Como alguém que veio do mundo das celebridades, do meio dos negócios e da habitualidade com os holofotes, por meio do reality show "O Aprendiz", ou mesmo com algumas participações em comercias de televisão e pontas em filmes de cinema, Donald Trump é um cara, como ninguém, que sabe lidar com a mídia. Foi justamente através da mídia, veiculando na TV e nas redes sociais a imagem de empresário durão, destemido e desbocado, que não integra a política tradicional, mas, ao contrário, incorpora o tradicional american dream de ascensão social, que Trump se deu bem no eleitorado menos escolarizado e mais necessitado. Apesar de ser muito rico, Trump difundiu a imagem de ser um sujeito identificado como um do povo e ressuscitou a imagem do self made man, tão cara ao mercado; ou seja, a de que você pode prosperar e ficar rico por seu esforço próprio, se o Estado não te atrapalhar. Nessa estratégia de campanha, Trump reinaugurou fortemente o populismo de direita, que na história do século passado deu origem a muitos líderes demagogos e autoritários. Na democracia americana e dentro da relação extremamente equilibrada entre os poderes, é difícil que Trump consiga viabilizar sua agenda de direita, ultraconservadora, sem encontrar grandes focos de resistência, tanto no Legislativo e  no Judiciário, apesar de seu partido ter conseguido maioria nas duas cassas legislativas. Lembremo-nos de que o presidente eleito encontra resistência interna entre os próprios membros de seu partido, e o ex-presidente George W. Bush afirmou com sinceridade nesta eleição que não votou no seu camarada de partido. Como disse jocosamente o célebre músico Stevie Wonder:"votar num cara como Trump é como eu escolher assumir a direção de um veículo"; ou seja, você não sabe para onde vai. Mas essa incerteza acabou sendo chamativa para boa parte do eleitorado que se manifestou nas urnas ontem. Afinal, nessa nova onda conservadora que paira no mundo inteiro, o que quer a maioria do povo?

Recentemente, decisões populares democraticamente aceitas, não fugiram da polêmica e chegaram a chocar o mundo, constrangendo os institutos de pesquisa, assim como fizeram na eleição de Trump, com resultados inusitados, tais como a decisão do eleitorado inglês de sair da União Europeia, por meio do plebiscito apelidado de Brexit, bem como pelo plebiscito colombiano, que apesar de render o Nobel da Paz ao presidente Juan Manuel Santos, acabou resultando na vitória do "não", na recusa popular, por pequena margem de votos, a um acordo com os guerrilheiros das FARC, a fim de cessar definitivamente hostilidades que já duram mais de 50 anos. Por outro lado, assim como no Brasil, um golpe legislativo reinstalou a direita no poder, com o precipitado processo de impeachment da Presidente de esquerda, Dilma Roussef e a instalação na presidência do vice, o conservador Michel Temer, também em outras partes do mundo, os conservadores e neoconservadores já mostram suas garras. Nas últimas pesquisas eleitorais na França, o nome da candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, representante máxima da extrema-direita francesa, com seu discurso anti-imigração, aparece com força como virtual vencedora numa eleição presidencial de segundo turno, no ano vindouro. Na Espanha, após meses de indefinição sobre a formação de um governo, e a ascensão meteórica do novo partido de esquerda, o Podemos, após três eleições legislativas fracassadas,  a chefia do governo acabou retornando às mãos do primeiro-ministro de direita, Mariano Rajoy. Da mesma forma, na Inglaterra, o poder se consolidou entre os conservadores, deixando os trabalhistas apenas com um prêmio de consolação, que foi obter nas eleições a Prefeitura de Londres. 

A vitória e o início de governo do neoliberal Mauricio Macri, na Argentina, derrubando mais de uma década de kirchnerismo na Casa Rosada, também demonstrou que na América Latina, assim como na Europa, o voto está migrando para candidatos de direita. No Peru, a eleição recente de Pedro Paulo Kucinski para Presidente, num segundo turno com a também direitista Keiko Fujimori, mostra o quanto o discurso nacionalista ou privatizante tomou conta novamente do cenário político latino-americano. Nas últimas eleições municipais brasileiras, viu-se uma derrota retumbante do Partido dos Trabalhadores, até então em franca ascensão nos últimos anos até afundar em escândalos de corrupção envolvendo seus principais lupanares, e uma perda total de hegemonia para siglas mais identificadas com o pensamento conservador ou neoliberal, como o PSDB. A eleição em São Paulo de João Dória como prefeito, bilionário e apresentador de programa de TV, tão ou mais identificado com Donald Trump, por se apresentar como um empresário que virou político, acabou conquistando de vez o eleitorado paulista, elegendo-o no primeiro turno. Constata-se que, no mundo todo, o ideário, o discurso e até mesmo o vocabulário da esquerda política, vem sendo desconstruído, progressivamente, por um projeto de direita.

Agora, não é verdade que a esquerda acabou, que os movimentos sociais não mais existem ou que os direitos individuais e sociais foram suprimidos, e que, agora, retornaremos a uma era de fascismo, onde mais uma vez a intolerância xenófoba vingará, a ponto das fronteiras serem fechadas a refugiados sírios, que escapam da barbárie de uma guerra civil sanguinária. Nos Estados Unidos, políticos como Barack Obama fizeram história e deixaram um legado, assim como novos protagonistas nacionais, no âmbito progressista, apareceram, como o senador democrata Bernie Sanders. Identificando-se abertamente como socialista, em seu radicalismo, Sanders seria o adversário ideal para enfrentar Donald Trump, numa eleição que seria bem mais eletrizante e polarizada. De qualquer forma, assim como Obama fez em sua campanha vitoriosa há 8 anos atrás, Sanders conseguiu reativar uma juventude, até então acomodada com o establishment das cúpulas partidárias tradicionais, acusando o candidato, nas primárias partidárias, de que a cúpula do Partido Democrata, descaradamente boicotou sua campanha nas primárias do partido, em prol de favorecer Hillary. Não deu certo, pois a escolha de Hillary no lugar de Sanders revelou-se equivocada! Desconfiados de uma candidata, que ao mesmo tempo que falava de feminismo e direitos humanos, defendeu a invasão no Iraque e, como advogada, representava os interesses dos banqueiros de Wall Street, os eleitores tradicionalmente democratas, simplesmente não foram votar no dia 8 de novembro; ou até mesmo alguns mudaram a casaca, e ingressaram na aventura arriscada de votar em Trump. Deu que no deu!

A verdade é que, nos momentos de crise econômica e instabilidade dos mercados, a esquerda não conseguiu superar as mazelas e contradições do capitalismo, e acabou sendo engolida por ele, num fenômeno de acomodação no poder, que ao invés de trazer mudanças substanciais na qualidade de vida dos mais pobres, através de um aliancismo com os representantes do mercado, findou com a manutenção de um modelo viciado, que manteve a desigualdade, não conseguiu combater o desemprego e a inflação, e ainda tentou se manter no poder baseado muito mais numa agenda cultural de defesa de direitos de segmentos marginalizados, como negros, homossexuais e mulheres, do que do crucial combate à pobreza e a marginalização social. A defesa da integridade do discurso de esquerda como um discurso de combate dos explorados aos exploradores, não colou diante da classe operária branca, de baixa escolaridade, originalmente devota das teses progressistas e outrora eleitora do Partido Democrata, nos Estados Unidos, e que, após décadas de descaso, acabou atribuindo a desgraça do desemprego e a desvalorização profissional à globalização e a ocupação de mão de obra por imigrantes, na formação de um senso comum que se difunde por todo o hemisfério norte globalizado. Da mesma forma, na América Latina, em eleições locais como as que ocorreram no Rio de Janeiro, e que deram a Prefeitura da cidade ao líder evangélico e senador Marcelo Crivella, tais resultaos demonstram que o discurso para as massas mais esclarecidas e universitárias, do candidato adversário, Marcelo Freixo, não chegou à periferia, não atingiu o morro, onde moram as populações mais carentes, necessitadas, e que são seduzidas por um forte apelo religioso do neopentecostalismo e assistencialismo oportunista da Igreja Universal. Da mesma forma, na Colômbia, a direita religiosa, representada por segmentos que transformam proselitismo religioso em político, foi uma das responsáveis pela aprovação do "não", ao invés do "sim", para se concluir o processo de celebração de paz entre o governo e a guerrilha, uma vez que o mediador do processo seria o "ateu" governo cubano. Vê-se, portanto, que a intolerância religiosa, como parte do projeto conservador na política, é um dos ingredientes para o avanço da Direita no mundo todo.

Todos os conceitos oriundos do Iluminismo, rebuscados na Declaração dos Direitos Humanos, após a II Guerra Mundial, passam a ser relativizados e até esquecidos na nova política que se consolida com a eleição de Donald Trump. Cada vez mais pessoas tiram a carapuça e aparecem nas redes sociais, ocupando perfis no Twitter ou no Facebook, sem medo de revelaram comentários racistas, xenófobos, homofóbicos ou misóginos. Geralmente tal carga de preconceito é associada a um sentimento de revolta individual, canalizado naquilo que os sociólogos chamam de anomia (uma ausência de adesão individual às normas de uma convivência social tida como saudável). Foi justamente aproveitando-se desse sentimento anômico que Trump cresceu, atropelando críticos de seu próprio partido e se firmando como porta-voz desse segmento de revoltados individualistas. É como se falar de dignidade humana fosse somente papo de intelectual e que a realidade nua e crua levasse às pessoas a retornar a uma certa selvageria individualista de que cada um por si e ninguém pelos outros, num estado de natureza hobbesiano. O fim da era do politicamente correto não terminou, mas se consagrou com a eleição de Donald Trump. Resta-nos aguardar os próximos capítulos de uma história, que promete ser aterradora. Eu espero sinceramente estar errado!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

IN MEMORIAN: Saudade é uma palavra que só vale pra quem já viveu um luto. Meu tributo a Gerson Luiz Klafke

A palavra "saudade" é proveniente do latim (solitate). E por isso muitos associavam a palavra a solidão. Existe o mito de que esta palavra só existe no português e no dialeto gallego, e não poderia ser traduzida da mesma forma nos outros idiomas, pois no espanhol (soledad), no italiano (solitudine), ou no francês (solitude), nenhuma delas teria o mesmo sentido de quem sente um sentimento que não reúne apenas dor, isolamento, solidão, mas sim envolve uma gama muito mais rica de sensações.

Posso ter saudade para chorar, mas também para sorrir, ao recordar de belas lembranças. E nesse sentido, a palavra saudade também pode significar "salvar" ou salvação", pois também deriva do vocábulo salute. Tendo este ou aquele significado, o que sabemos em bom português é que só se tem saudade de alguém que está longe, que partiu, e que o pior, sente-se saudade daquele que partiu e não vai voltar (ao menos não cedo). Entretanto, não se tem apenas saudade de alguém, mas também saudades de momentos, de eventos passados, o que faz surgir a palavra "saudosismo", que tem relação com nostalgia (em espanhol, añoranza). Quando temos saudade, temos saudades de amigos ou amores que partiram, mas também de lugares que conhecemos no passado, e que gostaríamos de retornar. É de um desses lugares e uma dessas pessoas que eu gostaria de falar nessa postagem: da cidade de Rio Pardo no Rio Grande do Sul, e de meu grande amigo e sogro, Gerson Luiz Klafke.

Gerson era bombeiro, salva-vidas, e, principalmente, um sujeito ativo e desenrolado, que gostava de esportes, pescaria, fazer churrascos e adorava ver o seu time jogar, o Internacional. Para quem já leu este blog nos últimos anos, escrevi sobre um bocado de coisas e um bocado de gente, e fiz o obituário de muita gente famosa, de quem eu gostava pelo talento. Entretanto, nunca, mas verdadeiramente nunca, eu poderia imaginar estar, numa tarde de segunda-feira, escrevendo o obituário de meu próprio sogro. Gerson morreu numa sexta-feira, dia 7 de outubro de 2016, no comecinho da tarde, no seu local de trabalho, quando estava trabalhando em uma base do Corpo de Bombeiros da cidade de Rio Pardo, onde morava. Por um acidente trivial, se não fosse trágico, Gerson perdeu a vida aos 49 anos. O noticiário da cidade disse que ele tinha caído do caminhão e batido violentamente com a cabeça na queda, o que produziu um traumatismo craniano que lhe foi fatal. Assim se foi uma vida, naquilo que muitos dizem terem sido "o dia" dele. Independente da fé ou da espiritualidade das pessoas, não acredito em casuísmos, mas acredito em destino, e, para minha infelicidade enquanto genro, calhou de Gerson falecer perto de se aposentar, e num dos momentos mais felizes de sua vida.

Faleceu não apenas o sogro de Fernando, ou o pai de Stella e Alicia, o marido de Cecília, o filho de Dona Traudi, ou o avô do meu pequeno filho Miguel. Faleceu o meu amigo! Se eu fosse contar para meu filho a história de seu avô materno, como quem conta a história de um grande amigo que se foi, eu diria a ele que, assim que aprendesse a ler, lesse este blog, e visse todo um singelo relato que devo fazer como tributo, a um dos mais queridos, respeitáveis e amados amigos que tive nesses últimos anos.

Ainda me lembro da primeira vez que dei de cara com o Gerson, na rodoviária de Rio Pardo. Não fazia nem seis meses e eu havia noivado com  a filha do cara, num relacionamento que parecia um namorico relâmpago de um professor com uma ex-aluna, e que acabou gerando um casamento duradouro e um filho. Era o ano de 2010, e eu estava entre ansioso e preocupado em conhecer os pais da minha noiva, já que eu incrivelmente havia noivado com a garota sem que os pais dela sequer me conhecessem. Eu já havia retornado ao Nordeste, após uma estada de 3 anos no Rio Grande do Sul, fazendo meu doutorado, e eu não tinha a menor ideia se os pais (principalmente o pai) da noiva iam gostar de mim. Lembro-me de descer do ônibus vindo de Porto Alegre, da viação Santa Cruz, na rodoviária de Rio Pardo, e me esperava aquele cara bem alto, branco, atlético, parecendo um veterano jogador de futebol da seleção da Alemanha, com seu cabelo curto e grisalho, mas um óculos que lhe davam certo ar professoral. Pude perceber que o pai da noiva estava mais encabulado que eu, o próprio noivo, mas bastou um aperto de mão, e um sorriso, para meia hora depois estarmos almoçando alegremente, eu contando meus casos de ex-advogado que virou policial e desejava se tornar professor universitário, e os planos que tinha junto com minha noiva Stellinha, os preparativos do casamento e as expectativas pela lua de mel, que se avizinhava no final do ano. Com sua hospitalidade de gaúcho do interior, Gerson e sua esposa Cecília, minha futura sogra, me deixaram totalmente desarmado de espírito, animado e bem à vontade naquela casa que viria a ser meu porto seguro em Rio Pardo nos seis anos seguintes, entre goles de cerveja, churrascos comidos à exaustão, rodadas de chimarrão, filmes na TV e altos papos, que iam desde o futebol até a política. Como ele era somente 4 anos mais velho do que eu, pude perceber que fazer parte da mesma geração envolvia praticamente gostos semelhantes por muitas coisas, principalmente pelo hard rock dos anos setenta e oitenta, e um gosto especial por bandas como Scorpions, Iron Maiden e Rush.

Pude saber um pouco da história daquele casal, e descobrir que Gérson e Cecília conheceram-se nos brilhosos anos oitenta, numa Rio Pardo em que os jovens confraternizavam-se fazendo festas na casa de um e de outro. Ele e sua futura esposa conheceram-se em uma dessas festas, e logo, dois jovens bonitos, enamorados, formaram um dos daqueles jovens casais, numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, que, casados, tiveram que assumir desde cedo a responsabilidade de constituir uma família, buscar empregos sólidos no serviço público e sustentar a primeira das duas filhas que nasceram, que viria a se tornar a minha esposa. Foi aí que descobri outra das grandes paixões de Gerson: o Corpo de Bombeiros.

Gerson não era só bombeiro por profissão, necessidade, ou vocação, Gerson era bombeiro por AMOR! Eu já tinha certa admiração por esses profissionais de combate ao fogo; mas depois que conheci o Gerson essa admiração pelos bombeiros passou de admiração para idolatria. Ele me presenteava com souvenirs que lembravam a profissão, como um chapéu estiloso, uma camiseta e até ganhei dele de presente uma sunga de banho que ele utilizava, que uso até hoje, com o logotipo da corporação. Quando viajei a Paris, num Congresso da universidade, cheguei até a comprar um livro com a história do Corpo de Bombeiros da França, com imagens dos primeiros uniformes, carros e caminhões que o grupamento utilizava desde o século XIX. Lembro até hoje, das muitas visitas que Gerson me fazia em Natal, quando ele e Cecília conheceram minha amiga Neide e seu esposo Leif, um norueguês que trabalha na Marinha Mercante, que viriam a ser os novos amigos do casal e padrinhos do meu filho Miguel. Num memorável churrasco, à beira da piscina da casa de meus compadres, Leif apresentou ao Gerson um sujeito chamado Lawrence, britânico, que trabalhava no Corpo de Bombeiros da Inglaterra. No meu inglês trôpego, depois de doses cavalares de cerveja e whisky, servi como intérprete na conversa entre os dois e notei como os olhos do Gerson brilhavam ao conhecer seu colega de profissão estrangeiro, perguntando como era a forma de trabalho dos bombeiros da Terra da Rainha. Era com alegria que Gerson abria o celular, e mostrava fotos de seu trabalho, do quartel e de seus colegas de profissão em Rio Pardo, entusiasmado para que o bombeiro britânico conhecesse os bombeiros do Rio Grande do Sul. Gerson trabalhava também como salva-vidas, e por 20 anos trabalhou na Operação Golfilho, nas praias dos tórridos verões gaúchos. Como um protagonista do seriado Baywatch, eu via as fotos nos jornais do trabalho daquele cara atlético, todo bonitão, compenetrado em evitar que os banhistas se afogassem, e me deparei com um lado criança que ainda permanecia latente no meu corpo adulto: havia descoberto um novo herói!

Eu, pelo meu lado, funcionário público graduado e candidato a intelectual com doutorado, nunca me senti aumentado ou diminuído na presença do Gerson. Não me interessava ao lado do meu sogro aquelas conversas complexas, rebuscadas da universidade, e nem eu e nem ele parecíamos aqueles sujeitos materialistas ou gabolas, falando de posses ou contando vantagem do que quer que seja. Nos seis anos que conheci o Gerson, nunca vi, um minuto sequer, ele se vangloriar das vidas que salvou nas praias gaúchas, das pessoas que socorreu no interior do estado, vítimas de ciclones ou inundações, ou até de cavalos que ajudou a puxar de algum rio ou pasto. Gerson era um homem discreto, e além disso tinha uma profunda humildade e um senso de responsabilidade no que fazia, encarando todo salvamento que realizava como um dever, a obrigação do bombeiro que apenas realiza o seu trabalho. Ele me falava das lutas da categoria, perguntava como era a independência funcional dos bombeiros no Rio Grande do Norte e acessava na internet os sites das associações de bombeiros de outros estados, preocupado com a valorização profissional e salarial de servidores do Estado, muitas vezes mal reconhecidos e mal remunerados, não obstante a mais nobre das funções que realizam na sociedade, que é a da proteger pessoas e bens.

Como bombeiro, sem saber, Gerson fazia que eu me lembrasse dele sempre que assistia o clipe da banda de rock Foo Fighters, na canção My Hero, em que o personagem, sozinho, salva várias pessoas do incêndio num prédio, sem que num minuto sequer apareça seu rosto. Gerson representava esses heróis sem rosto, que por debaixo de um macacão do Corpo de Bombeiros, em todo país, não são um nome, mas sim um caminhão, uma sirene e um uniforme. Foi justamente vendo um cortejo desses caminhões, num vídeo repassado na internet, no funeral dele, que vi o quanto os bombeiros devem e deveriam ser mais valorizados pelo Estado, mas como, no imaginário coletivo, ainda são vistos como heróis pela sociedade. Apesar de triste, foi uma cena extremamente bonita ver aquele cortejo de viaturas com as sirenes ligadas levando o féretro do meu amigo, percorrendo a pequena Rio Pardo que parou para ver, pela última vez, um de seus heróis,  até seu último repouso no cemitério da cidade.

Nesses últimos anos, enquanto viveu, pude alternar visitas a casa de Gerson e Cecília e eles a minha e de minha esposa. Como sogros queridos, eles agora eram meus parentes e eu o deles, e me acostumei, todos os anos, a tê-los na minha casa, assim como eu sabia que sempre havia um quarto separado para mim e Stella, na singela casinha que Gerson havia contribuído para construir com seus meios próprios. Percebi, ao conhecer meus sogros, que eles não viajavam muito, e percebi o encantamento de Gerson quando ele e sua esposa conheceram o Nordeste pela primeira vez, visitando Natal. Além de Natal, tive a oportunidade de levá-los até Recife, e fiz com eles uma inesquecível turnê por Olinda, no seu centro histórico, onde ficamos hospedados. Guardo na lembrança, coração e fotos aqueles momentos. Notei que, como gostava de praia, Gerson ficou gamado com Natal, e mais ainda, quando os levei até a Praia de Pipa, Gerson ficou totalmente deslumbrado com a beleza e a animação do lugar. Ele me confidenciou nas idas e vindas a Natal que pretendia comprar um terreninho em Natal e queria vir pro RN assim que se aposentasse. Eu perguntava a ele, homem ainda jovem, com boa saúde disposição, no que ele poderia trabalhar, e com um sorriso ele me respondia:"qualquer coisa". Sendo um sujeito ativo e multitarefas como ele era, meu sogro tinha até curso de pilotagem de barco, e não duvido nada que, morando em Natal, ele se tornasse um piloto de barco ou um alegre motorista de buggy, curtindo sua vida de bombeiro aposentado. Pena que Deus teve um plano diferente para ele!!

Vivi momentos grandiosos de alegria e comemoração, extremamente especiais, ao lado de um guerreiro, que se tornou meu sogro. São imagens que não me sairão da memória e ficam registradas eternamente aqui, tal como o dia de meu casamento, quando minha esposa, a noiva, linda, seguia em direção ao altar, acompanhada de seu sorridente pai. Lembro-me daquele sorriso tímido, característico dele, quando Gerson me entregou a noiva e somente disse ao me abraçar: "então tá, Fernando!". Lembro também do dia que levei Stella, grávida, até o médico para sabermos qual seria o sexo do bebê, na ultrasonografia, e recordo do meu entusiasmo e da risada de Stella, quando o médico disse que era menino, e eu me apressei para ligar para minha mãe, informando que iria nascer um garoto, e depois liguei pro Gerson, gritando como um louco no hospital: "É homem!É homem!". Pude escutar aquela risada curta e serena dele no outro lado da linha, e sabia que, como pai extremamente realizado, também estava compartilhando ali, num momento único, a alegria de um novo membro da família que estava chegando, com um avô igualmente realizado.

São tantos e muitos os momentos felizes que eu passaria dias escrevendo ou falando como eu amava meu amigo e sogro Gerson Klafke. E tenho a total certeza de que deve haver uma centena de pessoas, entre parentes e amigos que deve fazer a mesma coisa. Se Gerson tinha defeitos? Claro, óbvio, pois isso todos  tem! Em sua simplicidade, o Gerson incorporava o que há de melhor nas pessoas, sendo ele mesmo, com suas virtudes e fraquezas; pois, afinal, você é especial não porque você quer ser especial, mas sim porque se torna especial sendo simplesmente você mesmo. Ele não se tornou especial para mim só porque era bombeiro, um herói salva-vidas, um bom atleta e esportista, ou um torcedor do Internacional que tomava tanta cerveja quanto eu. Gerson era especial porque era meu amigo, e a saudade eterna que vou sentir dele está associada aquele sentimento que falei no começo desse texto, que só tem quem sente a falta de alguém, mas também de algo, pois Gerson simboliza para mim épocas e lugares. Posso até me atrever um exercício de imaginação e pensar o que diria o Gerson na minha frente, ao ver um cortejo tão bonito em seu funeral. Talvez ele dissesse: "Bah, tchê! Mas tudo isso pra mim?!". A imagem que vou congelar em meu cérebro por toda a vida e repassar ao meu filho é que o avô dele era um cara tão especial, justamente por ser esse pessoa tão simples, de uma Rio Pardo simples e povo hospitaleiro, que aprendi a amar.

Creio que o Gerson se foi dessa vida realizado, com sua esposa querida, as filhas criadas, feliz com seu neto e louco para retornar às praias potiguares, para pegar umas ondas ou correr ao redor da via costeira. Ele faleceu no lugar e na função que gostava, acompanhado de seus colegas de profissão que, pelo que soube, o amavam ou admiravam da mesma forma que seus amigos e familiares. Infelizmente, o caminhão dos bombeiros que ele dirigia por mais de vinte anos, acabou contribuindo, como um destino divino, para que sua morte ocorresse e assim ele pudesse passar para o lado dos anjos, onde outros heróis celestiais estão a nos proteger o tempo todo. Fica registrada minha homenagem e um tributo para meu filho, Miguel, e meus descendentes, para que saibam que carregam no sangue o legado de uma extraordinária pessoa que existiu, em 49 anos bem vividos. Meu abraço e beijo  todo especial a minha sogra, Cecília, leitora de meus textos e assim como suas filhas, uma linda e singela boneca, que perdeu seu amado esposo e companheiro! Meu carinho todo especial a minha querida Vó Traudi, seu esposo e também muito querido Caloca! Meu abraço forte a minha cunhada, Alícia, que praticamente vi crescer e que, com certeza, já está se tornando uma mulher honrada e grande companheira como foi seu pai para sua mãe! Repasso minhas lágrimas e meu abraço enlutado a todos os irmãos: Cesár, Geraldo, Mano, Cesinha, Fabiane e Eduardo!! Aos cunhados Moisés, Ronaldo, Teca e Eraldo. Aos sogros Romualdo e Romilda! Peço que me perdoem se esqueci de mencionar alguém aqui!! E, finalmente, escrevo estas palavras para minha esposa Stella, dizendo o quanto a amo, e o quanto estou sofrendo, reiterando o que lhe disse no dia de nosso casamento, de que, nesse momento de sofrimento, o que quero é continuar lhe amando tão intensamente quanto lhe amei desde o dia que decidimos ficar juntos e fazer nossa família. Peço a ela perdão em todos os momentos em que não fui, poderia ter sido ou não serei um marido tão 100% quanto foi o Gerson para a mãe dela; mas, saibam que, é por meio da escrita, que tenho uma forma de extravasar uma tristeza tão grande que sinto no peito, que só será vencida pela alegria, de me lembrar a todo momento que meu amigo Gerson existiu, e que uma amizade bonita e notável ainda vai ser cantada e escutada por muitas e muitas gerações.

Como eu havia dito no começo, saudade também vem da palavra "salvação". Creio que, como salva-vidas, Gerson veio para o mundo para se tornar um desses salvadores, e, nessa condição, Deus o chamou para salvar mais almas lá no céu. E o que eu teria pra  dizer a ele, nesse momento é: "VÁ EM PAZ MEU AMIGO, E CONTINUE A NOS SALVAR JUNTO COM SEUS COMPANHEIROS ANJOS, POIS UM DIA NOS REENCONTRAREMOS DE NOVO, NUMA GRANDE FESTA". Agora, ao menos eu sei o que é saudade, e saudade chama-se GERSON LUIZ KLAFKE!!


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