terça-feira, 17 de outubro de 2017

CRISE POLÍTICA:A hipótese coxinha!!

Um fantasma ronda o Brasil: o fantasma da extrema-direita. Em milhares de espaços, seja nos protestos de rua ou nas redes sociais, nos comentários dos meios de comunicação ou nos escaninhos de juízes, procuradores e tribunais, um manto de extremismo político golpista e ignorância parece tomar conta das instituições nacionais, num momento de aguda crise da República.

A crise não foi fomentada agora. Ela começou bem antes, como uma crise de mercado lá nos tempos do governo Bush, que na fase áurea do  primeiro mandato de Lula, não passava de uma " marolinha". Chegou no governo de Dilma Rousseff, suas dificuldades de lidar com o Parlamento, rodeada de aliados conspiradores, a começar pelo seu vice-presidente, Michel Temer, que não demorou para apeá-la do poder, logo após Dilma ter obtido a reeleição, mediante um controvertido processo de impeachment. É! Faz um ano que a esquerda brasileira, petista ou não, gritava a plenos pulmões:"é golpe!"; e não adiantou uma multidão de sindicalistas, militantes estudantis ou dos movimentos sociais, intelectuais e funcionários públicos com salários atrasados invadirem às ruas, vestidos de vermelho, ameaçando uma greve geral que nunca ocorreu de verdade, e que apesar dos carros de som e bandeiras, interrompeu o trânsito das grandes cidades em dia de semana, sem conseguir resultados efetivos. Tais protestos acabaram se tornando rarefeitos até desaparecer por completo, permanecendo a multidão muda diante de um asqueroso presidente que, para se livrar de processos, corrompe com maior cara de pau deputados venais, sem compromisso ideológico algum, a não ser com seus próprios interesses, fazendo uma sessão da Câmara dos Deputados parecer um filme de horror. Onde estão nossos manifestantes? Cadê a greve geral? Onde estão aqueles dias que abalaram o mundo? A revolução, para onde foi? Os derradeiros protestos dos movimentos sociais em Brasília pareciam mais uma manifestação de nostalgia aos saudosos anos oitenta pós-ditadura, do que um processo de ruptura revolucionária que levaria à queda de um governo golpista. Os tempos são outros.

A crise prosseguiu e se alimentou do descrédito, da perda de identidade dos partidos e legendas políticas. Afundado no pragmatismo político até o pescoço e incapaz de realizar profundas mudanças sociais e institucionais que acenassem com uma ruptura, Lula e o petismo no governo preferiram aliar-se aos mais poderosos, a reforçar velhas e espúrias táticas de poder pautadas no fisiologismo, no patrimonialismo e na corrupção. De um dia para outro, através das autoritárias e polêmicas medidas judiciais adotadas pelo arrogante juiz federal Sérgio Moro, nos rumos da chamada Operação Lavajato, políticos e empresários até então intocáveis conheceram o xilindró e a execração política. Tido inicialmente como um movimento que tendia a só criminalizar o PT, num lapso de parcialidade, o maremoto judicial que redefiniu a política brasileira acabou atingindo todos os partidos, quando próceres do PSDB, principal adversário dos petistas e partido nêmesis do petismo (porque não dizer seu irmão siamês), também foi atingido por denúncias e processos, senão por iniciativa de procuradores de Curitiba, ao menos por meio de decisões no Supremo Tribunal Federal.  Enfim, Aécio Neves, outrora galante adversário de Dilma na campanha presidencial e até então queridinho de 10 entre 10 celebridades artísticas antenadas com a classe média conservadora e arrivista, também conheceu a desgraça; da pior forma e pior do que Dilma; pois, assim como a ex-presidente, o senador de Minas Gerais foi flagrado em áudios comprometedores, divulgados em rede nacional, proferindo frases impublicáveis, e praticamente reconhecendo a prática de crimes, que hoje seus advogados insistem em dizer aos mais incautos que não existiram. E o badalado "coxismo" dos batedores de panela da era Dilma, onde ficou?

Ao brincar com o título deste artigo, fiz uma brincadeira com o título do livro do renomado pensador de esquerda francês, Alan Badiou. Em seu livro, "A Hipótese Comunista", Badiou reflete que, não obstante o fim da União Soviética (com uma Revolução Russa que completa 100 anos este mês), a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fortalecimento do neoliberalismo, com o atual processo de globalização que se consolidou neste século, é cedo dizer o capitalismo triunfou de vez, seria o fim da história e deveríamos sepultar todas nossas utopias de esquerda, por ter sido tudo mera enganação autoritária. O próprio termo "comunista" ganharia no século XXI conotações bem diversas daquela da época da Comuna de Paris, no século XIX, ou da Revolução bolchevique de 1917. Comunista seria, antes de tudo, mais um atributo do que um substantivo ou uma qualificação política. Um atributo ou adjetivo moral, intelectual e estético, para alguém que acredita efetivamente num projeto de transformação comum de toda a humanidade.

Mas no que reside o "coxismo", que também pode ser definido como um atributo político e não apenas um pitoresco apelido dado pelos militantes de esquerda brasileiros aos seus algozes de direita, adversários preferenciais no jogo de palavras tão típico de nosso jocoso idioma português?

A própria palavra "coxinha" merece algumas considerações etimológicas, levando-se em conta que o termo atribuído a Reginas Duartes, Lucianos Hucks e Alexandres Frotas da vida, não se refere apenas ao saboroso acepipe de padaria que se constitui no terror da dieta de muitos. Estabelece a crônica política que o termo tem origem em São Paulo e se encontrava associado historicamente à violência policial, especialmente da Polícia Militar paulista, orientada durante anos por governos tucanos do PSDB. Mas como é isso?

É simples e ao mesmo tempo curiosa a origem do nome. É sabido que até por seu enorme contingente, a Polícia de São Paulo é uma das mais mal pagas do país. Numa metrópole violenta e com um altíssimo custo de vida, era comum muitos policiais fardados, trabalharem além do expediente com suas viaturas, prestando assistência a comerciantes, donos de bares, lanchonetes e cantinas, de bairros tradicionais como Pompeia e Vila Madalena, afugentando durante a noite mendigos, pedintes ou quaisquer indivíduos considerados suspeitos de se aproximar desses locais, valendo-se da truculência, seja por meio de ameaças ou por meio de agressões físicas mesmo, algumas até resultando em morte. Como meio de pagamento, por terem "desaparecido" com os indesejáveis que afastavam a freguesia, muitos desses policiais recebiam dos seus contratantes um prato de coxinhas, como forma de agrado, pelos "bons serviços prestados".

Nas primeiras manifestações populares de junho de 2013, quando começaram a irromper no país uma série de protestos de rua, reunindo milhares de pessoas, estimuladas pelas redes sociais, em São Paulo e no Rio de Janeiro surgiram rapidamente notícias de abusos de autoridade e atos de violência policial, revelando num primeiro momento uma corporação ainda despreparada para grandes tumultos em vias públicas, resultando em atos de destruição, reações de vandalismo de manifestantes e atos de agressão até em jornalistas. Foi nesse contexto que aquelas pessoas, mais reacionárias, que apoiavam a ação da polícia, elogiando as agressões na internet, por considera-las atos de manutenção da ordem, para combater a ação de "esquerdistas", passaram a ser rotuladas pelos agredidos de "coxinhas". A palavra "coxinha deixou, então, de ser empregada para uma única categoria social (os policiais militares do governo Alckmin) e passou a ser atribuída a todas as pessoas compreendidas dentro de certo espectro político e ideológico 

Importante salientar que as "marchas de junho", como foram definidas as manifestações populares de 2013, não eram integradas apenas por militantes de esquerda, e, ao contrário, na sua primeira versão representavam uma massa informe composta de gente de todas as matizes e preferências ideológicas. Foi justamente no cerne da crise que se sucedeu e recrudesceu no governo de Dilma Rousseff, a partir da descoberta de casos de corrupção na Petrobras e com o surgimento da Lavajato, que as manifestações de rua geraram um dos representantes máximos da estética coxinha e da Nova Direita brasileira: o MBL.

O Movimento Brasil Livre, representado nacionalmente por um de seus líderes, o estudante paulistano Kim Kataguiri, é uma espécie de lado negro ou cara-metade invertida da União Nacional de Estudantes. Formado em sua maioria por jovens de classe média identificados com o neoliberalismo, o grupo não tem consistência ou firmeza programática, vale-se muito mais de jargões caros aos oposicionistas do petismo, e sua falta de consistência ou profundidade teórica é substituída pelo seu alto poder de articulação e polarização em momentos cruciais da política e da cultura nacional, como forma de mobilizar a opinião pública, especialmente a de linha conservadora e de direita. Um exemplo disso foi a recente polêmica envolvendo discussões sobre gênero e homoafetividade, que resultou na retirada da exposição "Queermuseu" no Santander Cultural em Porto Alegre e a mobilização contra uma exposição no Museu de Arte de São Paulo, onde um artista nu reproduzia uma tela retratando bichos,  e teve uma foto sua reproduzida nas redes sociais, ao ser tocado nos pés por uma criança, o que gerou acusações moralistas de incentivo à pedofilia. O MBL vale-se da agenda política voltada desde o pensamento neoliberal até o agronegócio, passando pelo fundamentalismo religioso, a fim de abrir espaço para sua pauta oportunista de Estado mínimo. O que confere maior identidade aos seus raivosos militantes, que espalham impropérios contra seus adversários nas redes sociais, é seu arraigado antipetismo e antiesquerdismo, características básicas de tudo o que se define por "coxinha".

Em síntese, ser "coxinha" implica, portanto, num compromisso de classe com as elites políticas e econômicas dominantes, num arrivismo social típico de integrantes da classe média que tem a ambição da ascensão de se tornarem ricos e poderosos. Sobretudo nas passeatas setorizadas que apoiavam o impeachment de Dilma Roussef e a prisão do líder maior do Partido dos Trabalhadores,  o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os militantes que se apresentavam como patriotas nas passeatas, vestindo camisas verde e amarelas como se estivessem num jogo da Copa do Mundo, em vários domingos nos centros urbanos (diferentemente de seus adversários "vermelhos", que protestavam em dias de semana), passaram a simbolizar o típico comportamento, linguagem e formas de ser de um "coxinha".  O coxismo dos integrantes de coletivos como o MBL e o "Revoltados on line" ficou marcado por frases de efeito pseudomoralistas de combate à corrupção, ao mesmo tempo em que seus líderes tinham suas manifestações financiadas por políticos e partidos que assumiram o poder com a derrocada de Madame Roussef, e que acabaram também sendo processados e condenados por corrupção. A prisão de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara que iniciou o processo de impeachment da ex-presidente e a atual situação jurídica de Michel Temer, o presidente golpista mais impopular da história republicana recente (com somente 3% de aprovação), além de ser o primeiro mandatário em exercício na Presidência a ser denunciado criminalmente, ambos do PMDB, revelam o quanto jovens militantes da Nova Direita mostraram-se incoerentes na sua cruzada moralizadora, uma vez que todos esses citados senhores, ao menos uma vez foram apoiados pelo MBL. 

A novidade atual, para os remanescentes dos festejos coxinhas após a dramática queda de Dilma, é o surgimento de candidatos que outrora eram uma anedota política e agora ganharam contornos de seriedade, como o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, truculento defensor da ditadura e de torturadores, que ocupa atualmente o segundo lugar nas intenções de voto na candidatura à presidência. Cita-se também dentro do esquema ideológico preferencial dos coxinhas para o ano que vem, a possível candidatura do atual prefeito de São Paulo, João Dória, um playboy, novato na política e ex-apresentador de televisão, que ao largar seu mentor, o governador e também candidato ao palácio presidencial, Geraldo Alckmin, revelou todo o seu oportunismo ao abandonar a gestão da metrópole que o elegeu, visitando o país em ostensiva campanha eleitoral, distribuindo biscoitos oriundos de alimentos vencidos para os mais pobres, além de ordenar uma confusa, abusiva e inexpressiva expulsão de usuários de droga na "Cracolândia" paulistana, além de tentar imitar o presidente norte-americano Donald Trump, no uso histriônico das redes sociais, publicando vídeos insultando seus desafetos.

O coxismo é, entretanto, um subproduto da esquerda brasileira, e  não um produto genuíno de uma direita organizada no Brasil. Na verdade, no período recente da história da república, quando Lula chegou ao poder, superando os tucanos após três eleições mal sucedidas, o que se viu foi uma reorganização ou arregimentação de setores reacionários que sempre estiveram presentes na sociedade brasileira, mas permaneceram adormecidos nos anos politicamente corretos de uma unidade nacional, forjada em tempos fortuitos de prosperidade e avanços sociais, com crédito no bolso, geração de empregos e filhos de trabalhadores pobres chegando nas universidades, criando um clima de otimismo externado na propaganda ufanista dos tempos áureos da presidência lulista, onde se lia o jargão governamental, de que "sou brasileiro e não desisto nunca". 

Entretanto, como um efeito colateral da ressaca econômica que se sucedeu com a sucessão de Lula por Dilma, o advento galopante do desemprego, a desaceleração da economia com o retorno do susto inflacionário e uma persistente recessão, que quebrou estados com governantes endividados e enrolados em práticas de corrupção, o que se viu no Brasil, principalmente com os protestos de 2013, foi a formação rápida e contínua de um contingente despolitizado, mas oportunista, que se valendo de jargões reacionários da velha direita, pré-golpe de 1964, começaram a pregar uma volta ao passado, como se o tempo da ditadura ou de governos alinhados com o neoliberalismo fossem melhores do que os vividos sob a égide de governos da esquerda. 

O que une, portanto, os coxinhas neoliberais com os conservadores é menos um projeto teórico fundado num ideal político específico de sociedade, mas muito mais um esboço de sociedade onde o Estado somente atuaria na sua faceta policial, suprimindo liberdades (ao menos dos mais pobres), sob o pretexto de um combate implacável à corrupção e a criminalidade. Nos demais aspectos, o "milagre econômico" resultaria num novo laissez faire, onde os ricos teriam preservado o direito de ficar mais ricos, e os pobres somente seriam pobres porque não tiveram competência para se tornarem ricos. Jogadores de futebol que disputaram e venceram Copas do Mundo, como o hoje senador Romário e Ronaldo "Fenômeno", assim como o craque da seleção brasileira e aspirante a melhor do mundo, Neymar (todos eleitores de Aécio Neves), seriam as celebridades máximas de representatividade do ideal de prosperidade coxinha.

Finalizando essa análise da Nova Direita apelidada de coxinha, segundo a filósofa do século XX, Hannah Arendt, o totalitarismo vale-se de uma propaganda que seduz, sobretudo, a ralé. Por ralé não se entenda uma categoria social específica, determinada pela sua condição econômica, mas sim todo um segmento de pessoas alinhadas às camadas médias da sociedade, dentre os formadores de opinião, que presos ao senso comum e às soluções fáceis das crises políticas, acabam por chancelar o discurso e candidaturas fascistas, que não tem o menor pudor de rasgar diplomas legais que assegurem direitos democráticos e a supressão de liberdades, em prol de um discurso de segurança e prosperidade. Foi assim que alemães e italianos seguiram, respectivamente, o nazifascismo na Europa do século passado, causando uma II Guerra Mundial, e parece ser assim o caminho da direita brasileira, ao propor desde o fechamento de museus por conta de seu fundamentalismo religioso ou moral burguesa, supostamente judaico-cristã, passando pela alusão à candidaturas de personagens com o perfil de Bolsonaro, até mesmo a proteção de generais saudosos de tanques e baionetas fechando parlamentos, que pregam abertamente o desrespeito à Constituição, sem sofrer punição alguma, durante reuniões gravadas de maçons. Tudo isso pode-se revelar o destino final do coxismo.

A esquerda brasileira é confusa, contraditória, até mesmo ingênua em alguns momentos e autora de crassos erros históricos; mas sempre se preocupou em discutir teoricamente seus ajustes de curso. A direita no Brasil, entretanto, ao menos no período republicano, sempre foi anti-intelectual, pragmática e oportunista ao extremo, sem um referencial que lhe desse profundidade, nem que fosse por meio de um ideário religioso, católico, conservador e tradicionalista. Na verdade, os opositores da esquerda em sua maioria (com honrosas exceções) preferiram um processo midiático de colagem para desacreditar seus rivais ideológicos na esquerda política, onde as falhas e erros graves de muitos de seus líderes (inclusive por práticas de atos de corrupção), foram superdimensionadas pela militância de direita, a fim de pregar neles o rótulo de "pais da corrupção", ou autores de "tudo de ruim que acontece na vida nacional". Diferente da Europa com sua Democracia Cristã ou nos Estados Unidos, por meio do Partido Democrata, a direita brasileira, assim como todas as suas congêneres latino-americanas, sempre foi mais oligárquica, agrária, fisiológica e reativa, do que uma direita técnica, propositiva, liberalista e gerencial. Esse ainda é o grande problema do debate político no Brasil e um obstáculo enorme a sua incipiente democracia. Ao invés do saudável debate entre opostos, ainda veremos durante um bom tempo verdadeiras brigas verbais (quando não físicas) entre integrantes de uma esquerda despreparada e membros de uma direita burra e valentona. Talvez esse seja o grande legado da militância coxinha.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

IN MEMORIAN: Jerry Lewis-o rei dos comediantes

Foi no dia 20 de agosto deste ano, um domingo pela manhã, que morria Jerry Lewis, aos 91 anos. As homenagens são muitas e merecidas no mundo das artes e dos espetáculos. Afinal de contas, conforme o personagem interpretado do mesmo nome dele, sequestrado por Robert de Niro, no filme do diretor Martin Scorsese, Lewis era o verdadeiro "Rei da Comédia".

O título não é exagerado, considerando três décadas de trabalho exaustivo, na produção de dezenas e dezenas de filmes que exploraram como ninguém o chamado humor físico, classificado limitadamente por outros como "comédia pastelão". Jerry Lewis foi um dos maiores comediantes do século XX, assim como Mel Brooks, e Jacques Tati, mas a profundidade de sua arte ia além da comédia e beirava o perfeccionismo, aproximando-o de outros gênios do cinema como Charles Chaplin, que se iniciou comediante.

Nascido Joseph Levitch, em Newark, Nova Jersey, filho de imigrantes, judeus russos, que também eram artistas, começou a atuar cedo, já aos cinco anos de idade, fazendo imitações e dublagens. Não demoraria para que aquele jovem magricelo e desengonçado se tornasse um dos maiores comediantes do mundo. A grande verdade é que, como personagem, Jerry Lewis foi um dos ícones da cultura pop. Seu Professor Aloprado, onde reinventava de forma divertida "O médico e o monstro" é apenas a mostra de alguns dos filmes eternizados no imaginário cinematográfico, bem como o personagem tímido que, com suas trapalhadas, conquista a atenção das garotas de um pensionato em O rei das mulheres.

Não obstante todo o seu talento, massificado no mundo inteiro e divulgado à exaustão no Brasil pelos filmes reprisados na Globo, no " Festival Jerry Lewis", a obra do artista era considerada mediana nos Estados Unidos, mas elevada à condição de obra de arte na França, onde até hoje os filmes dele são estudados nas universidades. O fato significativo é que, por detrás de cenas aparentemente simples, com roteiros simplórios, envolvendo abajures, vassouras ou garrafas, na verdade existia um estilo meticuloso de filmagem, com números de interpretação repetidos à exaustão, com altas doses de perfeccionismo (a cena do artista regendo uma orquestra imaginária no filme O Mensageiro Trapalhão, é um exemplo disso). Se no Brasil, crianças como eu, do final dos anos 1970 tínhamos os Trapalhões de Renato Aragão como nossos heróis nacionais, sem dúvida Jerry Lewis era o grande rei. Não havia como um molequinho mulato, gordinho, de óculos e meio nerd, de frente a uma TV não se identificar com aquele tipo abobalhado, mas altamente sensível, da maioria dos personagens interpretados por Lewis.

Em seus primeiros filmes, da década de 1950, um Lewis jovem, de vinte e poucos anos, fazia dupla com um galante cantor Dean Martin. As aventuras dos dois eram as delícias de sessão da tarde de crianças como eu, que adoravam ver na TV esses filmes reprisados, mostrando as travessuras de um pirralho atrapalhado e seu amigo galanteador, numa América muito mais inocente do que hoje (ou ao menos o que parecia ser). Naqueles filmes, Lewis aparecia como suposto coadjuvante de seu parceiro galã, mas o grande astro dos filmes era realmente Lewis, com suas cenas impagáveis. Restava a Martin fazer os números musicais e cenas românticas, numa clara forma de atingir a audiência feminina para esses filmes. No fim, tratava-se de uma astuta estratégia de marketing de Lewis, que, além de ator era um jovem e ambicioso roteirista, que aproveitava a dupla com Martin para expandir sua obra, lotando cinemas, com seu público diversificado.

Ao final da década, cansado de ser subvalorizado apenas como um rosto e voz bonitas, Dean Martin rompeu a parceria e o gênio criativo de Jerry Lewis ampliou-se nas décadas seguintes, principalmente nos anos sessenta e setenta, para inúmeros personagens e performances históricas. Às vezes em experiências bem sucedidas, outras nem tanto, permanecendo ou mudando de estúdios, a criatividade de Lewis ainda rendia cenas hilárias e originais no cinema. Em uma delas, em um dos seus filmes nos anos setenta,  Lewis interpreta um personagem que é confundido com um agente secreto, e passa a escapar de assassinos de aluguel, disfarçado até mesmo de dançarino japonês Kabuki. Com seus trejeitos, Jerry Lewis deixou não apenas uma legião de fãs, mas também de discípulos que aproveitaram seu legado, com novos artistas de outras gerações, que, de certa forma, perpetuariam seu trabalho no humor, como Billy Cristal, Eddy Murphy, o comediante inglês Rowan  Atkinson (o Mr. Bean) e Adam Sandler. Porém, talvez dos comediantes de hoje o que mais se aproximou da forma de fazer rir como Lewis foi Jim Carrey. As caras e bocas do ator de "O Máscara", "O Mentiroso" e "O Pentelho", trazem em suas performances o DNA da obra de Lewis.

Assim como Carrey, Jerry Lewis não tinha uma vida totalmente feliz apesar da grana e do sucesso, e teve seus altos e baixos nas suas relações pessoais, principalmente nos casamentos. De temperamento explosivo, tendo uma relação com fortes tendências edipianas, face sua relação com a mãe um tanto quanto ausente, numa infância pobre em Nova Jersey, Lewis teve vários relacionamentos, apesar do casamento de 40 anos com a primeira mulher, até se casar com a ex-atriz e dançarina Sandy Dee, que se tornou uma espécie de segunda mãe, mais como esposa. Além disso, diagnosticado com uma série de problemas de saúde, o ator lutou durante anos contra enfermidades cardíacas, pulmonares e diabetes, além do vício em medicamentos por conta das fortes dores musculares que sentia nas costas. Por conta das medicações, Jerry Lewis também teve problemas de sobrepeso, levando-o a uma obesidade mórbida que o tirou de cena temporariamente de cena, no final dos anos 90.


Incrivelmente, no novo século, já bastante idoso e recuperado o peso da juventude, o velho comediante ganhou novo vigor, passou a fazer pontas em filmes (até no brasileiro Até que a sorte nos separe 2, com o ex-gordo humorista Leandro Hassum) e virou filantropo, passando a arrecadar dinheiro para pesquisas sobre distrofia muscular, quando chegou a arrecadar a expressiva cifra de seis bilhões de dólares. Tal proeza lhe rendeu um prêmio humanitário em 2009 na Cerimônia de Entrega do Oscar. Foi a única vez que Jerry Lewis foi reconhecido por Hollywood, já que a Academia, avessa à comédias e tendo comediantes apenas como apresentadores e não premiados, nunca premiou o seu maior gênio com uma estatueta.

Fica aqui minha homenagem em prol de minhas singelas lembranças, de alguém que me fez sorrir durante minha mais pueril juventude. Se a perda de Roberto Bolaños, o nosso eterno Chavez e Chapolin, foi tão dolorosa no ano passado, agora estendo esse lamento para o momento vindouro, feliz por saber que esses grandes artistas viveram muito, a ponto de morrer por causas naturais, mas manifestar minha tristeza de saber que astros talentosos como Jerry Lewis são únicos, e não se fazem mais. Que minhas lágrimas transformem-se em gargalhadas, ao revisitar as cenas do grande e maravilhoso Jerry Lewis!!!

terça-feira, 20 de junho de 2017

CINEMA: Meu nome é Gal: algumas razões do porquê Mulher Maravilha ser um dos melhores filmes de super-heróis do ano

Assisti recentemente no cinema mais um filme de super-heróis, num filão que já se tornou, neste século, um estilo cinematográfico. Foi o primeiro filme de peso com uma protagonista feminina (se vc tirar Mulher Gato, com Halle Barry e Ghost in The Shell, com Scarlet Johanson da equação). Trata-se do primeiro longa-metragem com uma das personagens épicas dos quadrinhos: A Mulher Maravilha. E olha que demorou, demorou para que um ícone tão importante da cultura pop do século XX aparecesse no cinema num filme próprio. Claro que muitos vão falar aqui da primeira aparição da personagem no superestimado "Batman X Superman", de dois anos atrás, mas aquilo pareceu ser uma espécie de teste de mercado, de um certo prenúncio criativo, a fim de saber até que ponto um personagem feminino dos quadrinhos poderia segurar nas costas um filme próprio, e está aí o resultado.

Foi a primeira vez que um filme de grande orçamento, envolvendo a princesa amazona das histórias da DC Comics, estourava nas bilheterias, e com a película, veio toda a questão do empoderamento feminino, conquistando jovens mulheres no mundo todo, e uma nova geração que passou a se inspirar numa nova heroína.

Suas primeiras histórias nos quadrinhos.
Nada mais paradoxal do que ver, nas salas de cinema, tanta gente nova, a curtir como novidade midiática uma personagem tão  antiga e tradicional. Ora, afinal de contas, a Mulher Maravilha é um personagem tão (ou mais antigo) que o Super-Homem, o Batman, da mesma editora, ou que o Capitão América, Homem Aranha ou Hulk, da editora concorrente, a Marvel. Sua primeira história data de dezembro de 1941, em plena II Guerra  Mundial, na revista All Star Comics, passando em décadas por vários roteiristas, desenhistas e mídias. Além do sucesso nos quadrinhos, relembro-me dos meus tempos de criança, em que a personagem aparecia na TV, num seriado famoso do final dos anos setenta, apresentado pela Globo, onde a atriz Linda Carter interpretava a famosa amazona com seu característico uniforme. Quem não lembra, dos que viveram a época, da clássica "rodopiada" que Diana Prince (alterego da personagem) dava, até se transformar na heroína guerreira de que todos gostavam? Só vendo no YouTube para recordar, com um sorriso no rosto!

Quando garoto,a minha musa na TV.
Mas existem dois aspectos importantes para afirmar que, desde a trilogia do Batman do diretor Chistopher Nolan, iniciada com o filme "Cavaleiro das Trevas", não havia um filme solo de super-heroi tão bacana. Pode-se dizer que "Mulher Maravilha" foi o melhor filme de super-herói (quero dizer, super-heroína) da DC Comics no cinema, superando, inclusive, o filme do Superman (ao menos o "Homem de Aço", de Zack Snyder). Lá estava ela nos cinemas com seu mítico uniforme, sua espada, o escudo, os braceletes indestrutíveis que repelem balas, raios e todo tipo da ameaça, até seu laço da verdade foi usado diversas vezes. Simplesmente arrebatador! Um filme de sucesso, de uma super-heroína de verdade! A que se deve isso? Eu diria que dois fatores importantes explicam a nova febre: o ineditismo de uma personagem icônica dos quadrinhos na tela grande; e a atriz que incorpora a personagem nos cinemas: Gal Gadot.

A ex-miss Israel, ex-modelo e ex-soldado do exército israelense não é uma atriz digna de Oscar. Ela não é uma sumidade de talento dramático como Meryl Streep e nem sequer uma jovem e oscarizada estrela como Jennifer Lawrence (que já fez de tudo, de heroína de "Jogos Vorazes" até a Mística em "X-Men"). Então, por que essa morena tão bonita surpreendeu tanto? Será somente por conta de sua beleza? O bom de Gadot, no papel da super-heroína clássica é sua humildade, e apego sincero ao papel e responsabilidade que lhe foi confiada, ao passar para novas gerações (principalmente de mulheres) o conhecimento sobre uma personagem consagrada para os leitores de Hqs. 

Aliando beleza, inteligência e desenvoltura, Gal Gadot conseguiu inibir os mais críticos, seja quanto a sua inexperiência, com poucos papéis anteriores nas telas (vide "Velozes e Furiosos"), seja pelo seu preparo físico. Sim! Apesar de linda e atlética, com experiência em treinamento militar, a atriz israelense teve que escutar críticas e manifestações de intolerância, antes mesmo de assumir o papel. Muito desse buxixo deu-se por preconceito, face a experiência anterior da atriz como modelo e miss e mesmo seu histórico de jovem mãe de duas filhas. Eu li nas redes sociais que muitos (principalmente muitas) achavam que a atriz era magrinha demais, ou longilínea demais, para uma personagem que, por conta da força mitológica que possui, deveria ser mais "parruda" ou "popozuda". 

Mais um ponto para Madame Gadot. Além de apresentar uma beleza física étnica, fora dos padrões europeus normais, e sem ter que ostentar o corpo de uma lutadora de UFC, a bela morena Gal conseguiu reunir um misto de força e sensibilidade no seu personagem que se aliam ao preparo físico e desprendimento diante das câmeras. Afinal, assim como a heroína dos quadrinhos, a Mulher Maravilha das telas é, sobretudo, uma guerreira defensora da paz e dos humanos, como uma Joana D'arc  moderna, mas também uma mulher com forte formação cultural e filosófica, adquiridos mediantes anos de treinamento com sua mentora, a guerreira Antíope (no filme, na pele da atriz Robin Wright) e os ensinamentos de sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen). Sobre o pretexto de combater o Deus grego Hares, autor de toda guerra e destruição, a super-heroína de Gadot é um modelo ético de combate às tiranias, à barbárie e injustiça, o que é explicado didaticamente no decorrer do filme, o que justifica o fato da personagem ter abandonado a mãe rainha e a idílica Themyscira, Ilha das Amazonas, para se juntar a combatentes de diferentes nacionalidades contra a ameaça alemã, na I Guerra Mundial.

Assumindo com dedicação a responsabilidade por  protagonizar um personagem tão importante das HQS, Gal Gadot e a competente diretora Patty Jenkins (do filme "Monster", premiado com o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron), conseguiram realizar um trabalho razoável, que dignifica o talento das mulheres na sétima arte.



Não resta dúvida de que Jenkins é uma boa diretora que sabe conduzir atrizes para filmes que, de certa forma, revelam uma narrativa com temática feminina. Em termos de "politicamente correto", "Mulher Maravilha" trata de empoderamento, sem ser militantemente feminista (ao menos para algumas delas). Há até piadas sobre isso, num diálogo sobre a vida sexual das amazonas em Themyscira, ou a divertida aparição da personagem Etta Candy (a atriz Lucy Davis), a frágil e roliça secretária do coronel Steve Trevor (o ótimo ator Chris Pine), coadjuvante da heroína, que é o alívio cômico do filme, numa cena impagável (relatada já no trailler do filme), que sarcasticamente estabelece uma relação entre o emprego de secretária e a escravidão.  Mas o que se destaca realmente no filme é de como uma mulher, uma única mulher, pode, literalmente, chamar pra porrada e botar marmanjos perigosos pra correr, como uma espécie de Ronda Rousey das antigas (antes, claro, de ser abatida por outra mulher: a brasileira e igualmente poderosa Amanda Nunes). Uma das melhores cenas do filme, e que viralizou imediatamente, é a já clássica cena da entrada no baile de Diana, sem seu uniforme de combate, vestindo um gracioso vestido azul, mas carregando nas costas sua poderosa espada "matadora de deuses", cujo cabo aparece por cima do decote. Tal imagem é emblemática e inspirou milhares de mulheres no mundo todo, que encheram a internet com fotos semelhantes, como uma espécie de imagem símbolo da combinação perfeita entre feminilidade e força. Com o filme de Gadot, posso dizer que todas podem (ou querem) ser uma Mulher Maravilha. Conheço ao menos duas, intimamente, minha mãe e minha esposa: duas Mulheres Maravilhas, duas super-heroínas!!

O filme de Jenkins só não é melhor por conta dos vilões, sofríveis, o que compromete ao menos 10 % do resultado final do filme, uma vez que uma personagem tão poderosa merecia ter um vilão melhor e mais à altura (a situação melhora no final do filme, dando coerência ao roteiro, mas não irei revelar por conta do spoiler). Fica faltando um contraponto feminino, uma nêmesis feminina e de grande maldade, antagonista da heroína que seja tão poderosa quanto ela. De qualquer forma, "Mulher Maravilha" é o típico filme de sessão da tarde que agrada (e muito), e que me faz lembrar outros filmes de Super-herói, que faziam a molecada vibrar nas cadeiras do cinema (como na época do Superman, de Richard Donner, em 1979, com o inesquecível ator Christopher Reeve interpretando o personagem principal).

Que venha, portanto, o filme da "Liga da Justiça", e com ele retorne um pouco mais da beleza, voz rouca e versatilidade de Gal Gadot. Nós, fãs de super-heróis, histórias em quadrinhos, e amantes do cinema, estamos esperando carinhosamente o retorno de nossa musa. Bem vinda ao século XXI, Mulher Maravilha!!

domingo, 7 de maio de 2017

PERSONAGEM: Lembranças de Belchior

O cantor Belchior faleceu no último domingo, dia 30 de abril, em Santa Cruz do Sul, uma bela e pacata cidade do Rio Grande do Sul, de colonização alemã, onde trabalhei e conheci minha esposa. Foi sintomático que ele tenha morrido da forma como sempre se apresentou para seu público: sereno, plácido, como uma certa melancolia nas letras de suas músicas e clima de despedida, deitado em um sofá e coberto de edredons para se aquecer do frio sulista, quando seu coração de poeta parou enquanto dormia, durante uma noite de outono. Ele tinha 70 anos.

Antônio Carlos Belchior Fontenelle Fernandes (seu nome de batismo) nasceu em Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946. Se no rock dos anos sessenta, os Estados Unidos da América viveram a British Invasion, com artistas da Inglaterra que predominaram no período, como Beatles, Stones ou The Who, no Brasil dos anos setenta, a cena musical de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo foi surpreendida pela "invasão nordestina", de músicos talentosos, criativos, oriundos da região nordeste do país e que se tornaram consagrados, como Zé Ramalho, Amelinha, Alceu Valença, e Ednardo. Belchior fazia parte dessa estirpe. Foi juntamente com Fagner, conterrâneo seu, que Belchior saiu do Ceará, largou um curso de medicina (antes teria tentado ser monge, num mosteiro católico), no final de 1969, e dirigiu-se num ônibus até a cidade grande, onde, poucos anos depois, conheceria a já consagrada cantora Elis Regina, que regravaria uma de suas canções mais famosas: "Como nossos pais", um hino para toda uma geração que, tardiamente no Brasil, conhecia o movimento hippie, e simbolizaria as utopias rebeldes da juventude.

Belchior é um típico músico dos anos setenta. Pode-se dizer que ele é da geração "desbunde", do típico verbo "desbundar", que hoje encontra-se historicamente em desuso. A palavra significava literalmente tirar a bunda da cadeira, rejeitar a inércia, o ócio e a letargia que nos obrigava simplesmente a "ser como os nossos pais", e convidava o jovem romântico a ser um aventureiro, a colocar a mochila nas costas e conhecer o mundo, como "um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". 

ALUCINAÇÃO:um dos discos emblemáticos do cantor.
Foi nessa vida aventureira que Belchior conheceu as dificuldades iniciais do ostracismo na vida artística, conheceu o sucesso, após ter sido regravado por uma cantora famosa, ter ganhado espaço midiático e ter lançado ao menos três discos símbolos, apreciados pela crítica e por um público cult, cativo, ansioso por novidade, que logo encontrou no músico cearense seu novo bardo, que saía das praias nordestinas para conhecer a fria e cinzenta selva de pedra da metrópole. Foi no período em que morava no Rio de Janeiro, e depois São Paulo, que Belchior parecia estar mais inspirado, e tanto na brisa do mar carioca quanto na garoa paulista escreveu algumas das canções e versos mais emblemáticos de sua prolífica carreira. Assim, aquele garoto nordestino pobre de "Na hora do Almoço", de 1971, passou a se tornar o homem maduro, de descobertas da vida adulta e romântico, com " A camisa toda suja de batom", ou o homem contemplativo e filosófico, que aguardava "uma nova mudança que pode acontecer", onde "precisamos todos rejuvenescer".

Sobre a obra de Belchior uns dizem que ele era a versão do nosso Bob Dylan nordestino. Eu prefiro achar que o músico assemelhava-se mais a Lou Reed, por conta de sua crônica seca da vida social, dos amores, seja por uma mulher, seja por um lugar, causa ou cidade. Suas músicas transcenderam o tempo e se eternizaram, e até mesmo um bloco de carnaval em Belo Horizonte (o "Volta Belchior"), celebra anualmente suas músicas. De personalidade um tanto esquiva, sem ser doentia como João Gilberto, após um reluzente sucesso nos anos setenta e na primeira metade dos oitenta, a nova indústria musical que surgiu parecia não mais agradar o cantor cearense, fazendo aparições cada vez mais raras e lançando menos discos, compondo menos. Nesse período, em pouco tempo, sua imagem desapareceu das televisões e ele se limitou a viver de promover os seus shows pelo Brasil.

Nesse tempo, a lembrança que tenho mais positiva e pessoal de Belchior ocorreu em dois episódios, no começo dos anos 90 e no começo dos anos 2000. Em 1990 eu acabara de entrar na universidade, Belchior já era uma lenda, e lembro de ter ido ao Teatro Alberto Maranhão e ter  assistido ao "Projeto Seis e Meia", numa noite de terça-feira, onde músicos famosos apresentavam-se na cidade com ingressos a preços populares. Lembro que, como estudante recém entrado na universidade, pagando meia entrada, fui curioso assistir a um show de Belchior a convite de uma amiga de turma, e assisti ao vivo o cantor com seu indefectível bigode, ainda no auge da forma artística, cantando seus maiores sucessos na voz e violão. Dez anos depois, no ano 2000, eu estava em Brasília, numa conexão de voo para Natal, retornando de uma seleção de mestrado em São Paulo e lembro-me de ter encontrado no saguão do aeroporto, um sujeito magro, de cabelos negros e vasto bigode, bem vestido com uma camisa de manga larga e botões e um colete preto por cima, sentado numa das poltronas, enquanto lia um livro de capa dura. Só podia ser ele, era Belchior!! Perdi toda a vergonha de fã e me aproximei do cara, tomando o maior cuidado para não parecer abusivo. Quando ele levantou a cabeça e me olhou não pude deixar de dar um sorriso envergonhado e perguntar pro cara, meio constrangido, se ele era mesmo o Belchior. Como ele respondeu afirmativamente, começamos uma curta, mas animada conversa.

O autógrafo do artista no meu livro.
Havia falado a Belchior que dez anos antes eu havia assistido ao show dele no teatro, e ele não apenas lembrava do lugar, como também dos músicos e pessoas de Natal que ele conheceu no período. Disse que, assim como em outras regiões do Brasil, o Rio Grande do Norte tinha bons músicos, e ele ficou surpreso, quando eu lhe disse que além de formado em Direito, eu também tinha sido músico amador, e formado em 1995 uma banda de rock. Disse-lhe que também escrevia poesia, e que gostava de filosofia, ocasião em que ele afirmou que tinha percebido meu gosto por esse ramo de conhecimento, quando me viu carregando em uma das mãos um livro que tinha acabado de comprar sobre Direito e Linguagem. Ele me perguntou se eu gostava de literatura, e, ao responder que sim, aproveitei a deixa, e meu lado tiete falou mais alto que o acadêmico, e pedi a Belchior que autografasse o livro que eu havia comprado. Eu sabia que ele também tinha como hobby a caligrafia, e foi numa letra rebuscada que ele fez uma singela dedicatória, a um jovem que ele nunca tinha visto antes, mas que numa conversa de dez minutos já considerava uma companhia de viagem: "Para Fernando. Amigo sempre! Abraços do Belchior 2000". Desta forma, nos despedimos. Ele voltou para o seu livro e eu para o meu, enquanto caminhava em direção ao avião, emocionado, olhando aquela pequena dedicatória de um dos personagens históricos da música popular brasileira. Fiquei pensando na sua música: "Foi por medo de avião", e no seu gosto por Beatles, além da certeza de eu ter segurado, num aperto, a mão amistosa de Belchior.

Charge de Lucas Loureiro
Percebi que estava diante de um cara humilde, avesso a fama e badalações, que, por educação, tolerância ou uma calma extrema, não se incomodou com um fã chato que lhe pediu uma dedicatória num livro. Na verdade, no pouco tempo em que estive no saguão do aeroporto junto com ele, não vi ninguém reconhecê-lo, ou se reconheciam, ninguém se importava em cumprimentar o ilustre artista. Situação bem diferente quando, cinco anos depois do encontro no aeroporto, junto com a mulher ele desapareceu, sem deixar rastros, numa saída de cena polêmica, onde deixou um carro abandonado num estacionamento, além de familiares, empregados e credores, gerando uma repercussão midiática tão ou mais divulgada do que sua obra. Descobriu-se anos depois que o músico tinha ido viver no Uruguai, totalmente falido, com as contas bloqueadas por conta de decisões judiciais em processos movidos por pensão alimentícia ou dívidas trabalhistas. Sem poder recolher os direitos autorais de seus discos, Belchior vivia de favor na casa de amigos, que sempre admiraram a sua arte, perambulando como um nômade de cidade em cidade, caminhando sua "légua tirana". No fim das contas, aquele Belchior que eu vi no aeroporto já tinha retornado a ser aquele mesmo nordestino pobre de outrora, um viajante, sem dinheiro no banco, e, que, nas "paralelas" da estrada da vida escolheu seu próprio destino, sem demonstrar mágoa ou arrependimento.

Eis que Belchior transformou seu exílio na sua última grande obra. Do noticiário até programas humorísticos, parecia que o sumiço do músico ficara tão lendário quanto seu mais famoso disco: "Alucinação". Milhares de pessoas, habitantes da simpática e pacata cidade de Santa Cruz do Sul, ficaram surpresos, ao saber da morte do cantor no noticiário, pois não tinham a menor ideia de que vivia recluso e oculto na cidade um morador tão ilustre. Quando foi anunciada sua morte, o governador do Ceará apressou-se em providenciar que o corpo fosse transportado para seu estado, velado em Sobral, a terra natal do cantor, e fosse, enfim, enterrado em Fortaleza, com ares de funeral de um chefe de Estado. Quem dera todo esse reconhecimento oficial fosse feito ainda em vida, as homenagens fossem suficientes para pagar as contas e os credores, e num Brasil atordoado por uma crise política galopante, Belchior ainda pudesse estar aqui conosco, compondo e cantando canções de protesto, que, com certeza, como ele cantava em "Fotografia 3 X 4", poderiam servir de alento para aquele "que ficou desnorteado, como era comum em seu tempo, que ficou apaixonado e violento, como todos vocês".

Sepultamento do cantor.Justa homenagem no Ceará.
Vendo pela televisão o corpo de Belchior num caixão, em sua última despedida, com seu longo bigode pintado de preto ainda se destacando, não pude deixar de observar que, mesmo morto, ele continuava a me inspirar um ar filosófico. Das lições que aprendi, ouvindo as músicas de Belchior foi que, como cristão e socialista, mesmo que a realidade lute contra, constatei que, apesar de tudo, "AMAR E MUDAR AS COISAS ME INTERESSAM MAIS!". Meus aplausos para Belchior!! Na estante o livro ainda está ali, bem perto, lembrando-me do quanto o músico falecido ainda continua próximo.
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