sábado, 15 de outubro de 2011

DATA: Dia do professor-ensinar o que? Pra que Professor?

Lembro-me da primeira vez que entrei oficialmente para dar aula como professor. Eu tinha acabado de terminar a Especialização, tinha meus 27 anos e um completo medo de sala de aula. Antes, eu já tinha tentado dar aula na universidade como monitor (o que não é a mesma coisa que lecionar), e num cursinho preparatório para concursos, onde a experiência foi uma das mais mal sucedidas possíveis. Na época, eu não tinha propriamente um traquejo e o pensamento rápido de responder a uma indagação repentina de um aluno, e meu plano de aula era filosofal demais, inadequado para uma turma de bancários e funcionários públicos subalternos que só queriam fechar um gabarito e acertar  marcar o "x" em provas objetivas.

 Mas, no dia em que fui como professor de fato e de direito dar aulas, gelou-me a espinha. Comecei a gaguejar logo no começo da aula, e pra tentar quebrar o gelo comecei a perguntar o nome dos alunos e o que cada um estava fazendo ali naquela sala, pra explicar o porquê de fazer um curso preparatório na Escola do Ministério Público. Lembro-me que uma das alunas foi bem mal educada de início, respondendo tão somente que estava ali porque sim e que eu já tinha feito a mesma pergunta, e logo vi sorrisos e gargalhadas zombeteiras de alguns alunos, o que me deixou mais nervoso. Resolvi abrir o jogo, pedindo que a classe me respeitasse, ou ao menos tivesse piedade de mim, pois era minha primeira aula, o desafio era grande e eu queria, realmente, saber expor tudo o que eu sabia para aquela turma de alunos, mas  o nervosismo não me deixava. Preferi ser sincero, e naquele momento, como num passe de mágica, conquistei a turma, pois um dos alunos, um senhor mais velho respondeu para mim, diante de seus colegas:"É! Professor! O senhor não se preocupe, pois ao menos no quesito sinceridade, o senhor já tirou nota dez!". A partir dali parei de gaguejar, passei a me sentir confiante, as ideias começam a fluir com naturalidade e agilidade, e ao final do semestre fui bem avaliado como um dos melhores professores do curso. Lição de superação? Manual de autoajuda? Não! Simplesmente ocorreu-me algo que me marcaria para o restante da vida e definiria minha opção profissional: descobri que sou professor!

No dia 15 de outubro comemora-se no Brasil o Dia do Professor. A data diz respeito a um decreto do imperador Dom Pedro I, em 1827, decretando a criação das primeiras escolas primárias do país. A partir dali seria criada a profissão de professor, através das "Escolas de Primeiras Letras" e ali, desenvolvia-se uma carreira até hoje considerada nobre, mas progressivamente mal valorizada, resultando nos grevistas professores da rede pública, que conhecemos hoje. Mas o belo e sofrido ofício de ensinar já remonta há muito mais tempo.

Os professores já remontam uma profissão bem mais antiga, que vinha ainda do tempo dos filósofos gregos. Talvez Sócrates tenha sido o primeiro grande professor, dando suas aulas particulares, de graça, pra quem quisesse ouvi-lo, sendo recepcionado e "pago" através de comida, bebida ou um lugar para dormir, ao passar pela casa de cada um de seus discípulos ou admiradores, com suas lições filosóficas sobre a vida ou a existência. Depois viria Aristóteles, o preceptor de Alexandre, o Grande, o primeiro filósofo a instituir o ensino através da sala de aula,com a criação do Liceu, o local em formato de anfiteatro, onde seus alunos enfileirados em bancadas, podiam escutar as lições de seu mestre. O método de ensino de Aristóteles consistia em conhecimentos práticos úteis para a vida, nos diversos ramos de conhecimento, mas também levavam em conta o ensino da virtude moral e do bom caráter, pois para Aristóteles o homem era "um rio sem leito" e como não nascia com uma disposição moral inata, ele devia adquirir isso através da escola. Portanto, na visão aristotélica o ofício de ensinar não consistia apenas em dar lições sobre uma matéria específica do conhecimento, mas sim em educar, educar para a vida.

Existem muitos professores, mas poucos são educadores. Acredito no professor-educador, pois nesse tipo de profissional você encontra a fusão entre conhecimento e virtude de que falava Aristóteles. Não basta para que alguém se intitule professor somente "dar umas aulinhas" para equilibrar o orçamento doméstico, ou somente por status social, como se dá para quem se dedica ao ensino na área jurídica. Em áreas nobres e tradicionais do ensino superior, como o direito, a medicina ou a engenharia, é comum o profissional do ensino ter dois empregos: um relacionado diretamente a sua área prática, outro dedicado ao ensino. Costumo ser surpreendido com a pergunda formulada por alguns de meus alunos, logo no começo do semestre, nas primeiras aulas, com a curiosidade manifestada na singela pergunta:"Professor, além de dar aula o senhor também trabalha?".

É por trabalhar (e muito) no ensino, que o professor deve ser educador, e não só professor. Educar significa não apenas deter conhecimento, mas também estar preenchido de um estado de espírito onde seu caráter, sua experiência de vida e as lições morais que genuinamente você quer passar, atravessem os muros da escola e cheguem na sala de aula, pois você gostaria, de coração, que aquelas lições fossem ensinadas a outros, como se fossem seus filhos, parentes ou melhores amigos os destinatários daquelas lições. Digo que o professor que tem o ato de educar como ofício e vocação, vê a escola e seus alunos como sua segunda família. E é assim que vejo os lugares onde ensino ou ensinei. Em alguns você tem famílias problemáticas, em outros famílias mais harmoniosas, mas em todos persiste a função de educar, pois como um Dom Quixote do ensino, você crê nos moinhos de vento do sistema educacional, achando que, com sua atuação profissional, ética e dedicação, você conseguirá transformar pessoas. Ledo engano, muitos poderão dizer, ou ingenuidade sua. Porém, de qualquer forma, você persiste e continua a ensinar, contra tudo e contra todos.

O professor é um herói, dentro do atual contexto de crise da educação moderna, e diante das sucessivas decepções e atropelos que ele possa vislumbrar, diante de modelos educacionais fracassados ou perante uma total falta de estrutura ou apoio governamental para o ensino brasileiro. Em  edição deste mês da Revista Piauí, é traçado um interessante perfil do atual Ministro da Educação, Fernando Haddad (pretenso candidato do PT e preferido do ex-presidente Lula à prefeitura de São Paulo), onde se vê uma briga de cifras e estatísticas, entre os apoiadores e adversários do ministro, acerca do desenvolvimento ou do atraso da educação no Brasil, entre os governos de FHC e Lula. O certo é que independente do orçamento do Ministério da Educação ter dobrado nos últimos anos, o país ter evoluído na educação básica e hoje metade dos que ingressam na escola terminar o ensino médio (em comparação aos 36% da década anterior), e pela contratação recente de quarenta e oito mil docentes, ainda temos 10% da população totalmente analfabeta. Além disso,  de 65 países avaliados no ranking do Programa Internacional deAvaliação de Alunos (o PISA), o Brasil está entre os 15 piores em leitura, matemática e ciências. No país, quase 60% dos alunos que concluem o ensino fundamental, tem dificuldade em calcular o troco e ver as horas, enquanto que 44% dos alunos que concluem o ensino médio tem dificuldade com leitura e escrita. Percebo isso no ensino superior, grande reservatório da defasagem nacional no ensino, quando, nas faculdades privadas percebo alunos que tem imensa dificuldade de escrever (mesmo num curso de Direito, onde o domínio da escrita é obrigatório), e, em muitos casos, não escrevem praticamente nada. E os professores? Como devem atuar diante dessa alarmante situação?

Lembro-me aqui de uma jovem e combativa professora potiguar, Amanda Gurgel, militante do PSTU, que ganhou notoriedade e seus minutos de fama repentina, quando um pronunciamento seu, feito numa audiência pública na Assembléia Legislativa do RN, repercutiu nacionalmente através do Youtube, sendo chamada a professora a participar de programas de televisão. Tudo está dito ali, em grossas linhas, nas simples mas tocantes palavras da professora da rede estadual, acerca da situação de penúria pela qual tem passado o ensino brasileiro e os profissionais da educação, e da caracterização dos professores como mártires, em uma data que deve servir de alerta e lamento, e não como celebração. Ao invés de sermos reconhecidos com mensagens de congratulação, no dia 15 de outubro, deveríamos ser presenciados com salários dignos, condições de trabalho decentes, e agraciados com uma estrutura educacional que permitisse, efetivamente, educar.

Recordo também do personagem do ator Sidney Poitier, no clássico fime Ao Mestre, com Carinho, de 1966, reprisado à exaustão na Sessão da Tarde, em que ele interpreta um professor negro, numa escola secundária de subúrbio, na periferia norte-americana, na ebulição cultural dos anos sessenta. Vemos a tortuosa tarefa de um professor de escola pública, mal remunerado, diante de uma turma de alunos rebeldes, desajustados socialmente e organizados em gangues, numa função em que o professor tem que incorporar a própria autoridade do Estado, para evitar o caos, e ao mesmo tempo tem que conquistar os alunos, colocando-se no lugar de uma figura paterna, já que muitos daqueles jovens pobres tinham ausência da presença do pai. Em síntese, é assim que penso a profissão de professor, em que homens e mulheres todos os dias acabam assumindo a função de segundos pais e mães, para muita gente. O personagem de Poitier simboliza a missão de muitos (senão de todos) os professores até os dias atuais, em diversos lugares e países, tendo uma dificuldade enorme de lidar com a avalanche de ignorância que predomina sobre a sociedade, procurando abrir cabeças, despertar consciências, através da difusão do conhecimento. E não é tarefa fácil, não!

Portanto, nesse dia 15 de outubro, pense se esse dia fosse um Dia dos Pais ou Dia das Mães, e, ao invés de me congratular pelo meu dia de professor, congratule-me pelo meu dia de ser humano, e diante das nossas lutas, junta-se a nós, professores, na cruzada por uma dia melhor na educação nacional, mesmo que isso seja à custa de muito trabalho, sangue, suor e desapontamento, para quem acredita que apesar de todo o sofrimento, SER PROFESSOR AINDA VALE MUITO À PENA! Vamos à luta, companheiros professores! FELIZ DIA DO PROFESSOR, mesmo com muitas lágrimas, revolta e tristeza nesse dia!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MEMÓRIA: Steve Jobs - morre o gênio, fica a obra.

Fica difícil imaginar aqui o que escrever levando em conta tudo o que já se escreveu, durante toda a semana, sobre a morte do fundador da Apple, Steve Jobs, considerando as homenagens, a cobertura midiática durante um dia inteiro em canais como a Fox e a Globo News, debates e entrevistas falando da contribuição do gênio irriquieto de Jobs para a humanidade, a romaria de fãs, admiradores, viciados em informática e consumidores, que lotaram as lojas dos produtos da Apple em todo o mundo, apontando os seus tablets em sinal de respeito, com a imagem de uma vela acesa no monitor. Parecia que tinha morrido um mártir, um santo, uma estrela de rock, um governante, um ídolo pop. Por trás do fascínio que o homenzinho alto e magro, de óculos de aro fino, nascido em San Francisco, California, exercia, estava um simples homem, mas um homem que mudaria para sempre a face do final de um século e do começo de outro.

Como todo blogueiro oportunista, que escreve de tudo, sobre todos os assuntos, os obituários de gente famosa ou importante são sempre o momento certo pra "tirar uma casquinha" e arrumar o que escrever pra preencher espaço. Confesso! Mas, para que a minha narrativa seja, ao menos, original, creio que devo legar neste texto minhas impressões pessoais sobre Jobs, a admiração que eu poderia ter (e milhares tem por ele) e fazer o honesto reconhecimento de sua contribuição para o capitalismo e para o avanço tecnológico. Sim, porque a tecnologia só se desenvolve no capitalismo (perdoem-me os companheiros socialistas). É preciso que exista algo para vender, algo decente, acessível, disponível para o mercado, para que conglomerados, holdings e empresas liberem financiamento para que pesquisas se desenvolvam, novos artefatos sejam inventados e testados, e assim o bonde da história continue sua caminhada, da evolução da roda até o software, sob o vaticínio do lucro e patrocínio do interesse econômico.


Foi numa das revistas símbolo do capitalismo que vi, pela primeira vez, nos anos oitenta, Steve Jobs, numa entrevista feita à revista Playboy (antes das gozações, afirmo, para quem acredita ou não, que mesmo na minha adolescência eu folheava a revista não só para ver belas mulheres nuas, mas também para ler as entrevistas). Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que seria a gigante que se tornou a Apple, de como uma dupla de jovens programadores (Jobs e seu xará Steve Wozniak) tinha revolucionado a tecnologia, criando o computador pessoal, e fazendo com que aquelas enormes geringonças dos filmes de ficção científica e do seriado Star Trek, deixassem de ser usadas apenas por militares e passassem a ser encontradas em qualquer escritório ou casa, na forma do tosco Apple II .Naquela época, o que vi foi mais um jovem com cara de cantor de rock, de banda new wave dos anos oitenta, com uma simpática gravatinha borboleta e um ar triunfante, de quem havia conseguido faturar milhões, a partir do desenvolvimento de uma engenhoca, que seria o primeiro computador pessoal: surgia a era do Macintosh.

Digo que é mentira aqui, se qualquer um dos leitores deste blog que viveu no Brasil nas décadas de oitenta e noventa, disser que passou a vida usando Macintosh. Na verdade, no Brasil e em muitos países da América Latina vivemos uma colonização da Microsoft, impulsionada pelas vendas do Windows, sistema operacional desenvolvido por Bill Gates e que passou a ocupar, gradativamente, todas as mesas das empresas e lares brasileiros, no decorrer dos anos, e que até hoje é o único software disponível em muitas lojas de computadores. O período de esquecimento de Jobs e de seus computadores (muito mais bonitos, modernos e velozes que as máquinas de Gates), tem haver com o período de declínio da Apple, e da saída de seu principal fundador, que, brigado com seus ex-sócios, decidiu sair da empresa que ajudou a fundar, tentando se aventurar (durante um tempo, sem sucesso) na criação da empresa NeXT, até comprar sua "galinha dos ovos de ouro" e mostrar a capacidade de se reinventar como empresário, comprando e revolucionando uma pequena empresa de animação que já se encontrava falida, a Pixar, transformada por ele num gigante  da animação, com direito a filmes concorrentes ao Oscar e o sucesso do desenho Toy Story (quem é que não se lembra?), até ser comprada pela Disney por uma soma bilionária. Foi o suficiente para a Apple chamar seu antigo dono de volta.

Aqui vai minha segunda lembrança de Steve Jobs, agora já nos derradeiros anos da década de noventa, com uma aparência bem diferente daquele moleque cabeludo de 15 anos atrás, agora revelando um senhor maduro, meio calvo, ainda sóbrio e elegante, mas agora vestindo uma camiseta de gola mais informal, uma transada calça jeans, um par de tênis e os indefectíveis óculos. Agora, Jobs passava da imagem de cantor de rock para  a de professor universitário, mostrando com didatismo seus novos inventos, revelando ao mundo aquela que seria, talvez uma de suas maiores criações, após ter criado o primeiro computador pessoal, ainda na década de setenta. Surgia o I-Pod, uma máquininha pitoresca, que mais parecia um telefone celular sem teclas, que revolucionou o consumo de música para sempre, a partir da criação do compartilhamento de músicas em arquivos de MP3. A contribuição de Jobs foi aproveitar o avanço dessa tecnologia, a necessidade de um novo mercado consumidor na internet, ávido por consumir música através de downloads, e sua criação praticamente aposentou o CD, como também fez com que artistas, gravadoras e donas de lojas de discos revissem suas estratégias de mercado, para continuar sobrevivendo. Como se não bastasse, Jobs aproveitou o I- Pod para criar o I-Phone, agora mexendo diretamente nas telecomunicações, revolucionando também, de forma semelhante, a comunicação telefônica, no momento em que no lugar do celular ele desenvolveu os smartphones, aparelhos que combinavam as funções de telefone, com o de tocador de MP3, gravação de áudio e video; ou seja, um I-Pod misturado com telefone. Sucesso arrebatador!

Mas a grande criação de Jobs ainda estava por vir, na terceira vez que eu vislumbrei o genial criador da Apple. Agora muito mais magro, abatido e sem o visual viril da juventude. Um Jobs já doente, mesmo corroído pelo câncer, anunciava ao mundo seu retorno ao jogo por cima da  computação, através da criação do I-Pad; inaugurando a era dos tablets, que viriam a substituir os formais notebooks, assim como esses substituiram na vida doméstica, acadêmica e empresarial os antigos computadores de mesas, chamados de desktops. Através de uma dessas engenhocas, tão fina quanto a folha de um caderno, podiam ser unidas as funções de computador, comunicador e entretenimento multmídia. Foi o canto do cisne de um inventor que, num comovente discurso na Universidade de Stanford, em 2005, reprisado à exaustão nos canais de televisão após a morte do palestrante, demonstrou que distante da aura de gênio divino, estava um homem com todos os conflitos e inseguranças de uma pessoa comum,  filho de pais adotivos e que largou a faculdade seis meses depois de ter entrado, e que, num momento tão delicado da vida ao descobrir a doença que o mataria, sabia da efemeridade de nossa passagem pelo tempo, e do fim de uma etapa convertida num ciclo vital de tantos êxitos, poucos fracassos e muitos sucessos. Não seria a fama, a fortuna ou a avalanche de bilhões de dólares que conseguiu com suas invenções, que Jobs driblaria a morte, evitando o fim iminente. Pelo contrário, o inventor do Apple II e do I-Pad, num raro momento de humildade, reconheceu a trajetória inteira de uma vida como errante e enigmática, e ao invés de glorificar a si próprio, percebeu o quanto a vida é passageira, enquanto que as obras que deixamos para trás podem durar uma eternidade. Assim se deu com outros grandes inventores, desde Arquimedes, passando por Tomas Edison e Santos Dumont. E assim se deu com Steve Jobs.

Jobs era programador de profissão, mas um artista por vocação. Sua grande contribuição para a tecnologia passa longe da simples criação de máquinas eficientíssimas e modernas, mas sim pelo design inspirado que reservou a todas elas. Foi isto que o tornou um ícone pop, transmutando as viagens lisérgicas da juventude, com a experiência com LSD e a adesão ao budismo, às suas obras tecnológicas. Não interessava apenas a Jobs o bom funcionamento de seus produtos, mas também a beleza de seus formatos, o requinte, e o conforto das formas, como que passando tranquilidade para seus usuários. Foi assim com o monitor de seus primeiros Macintoshs, foi assim com seus I-Pods, I-Phones e I-Pads, revelando os traços de alguém que mesclava ciência com arte. Se, como executivo, Jobs tinha a fama de chefe durão e quase insuportável, cobrando horas intensas de trabalho de seus pupilos, acompanhando rigidamente cada etapa do processo de criação de seus aparelhos, tal conduta pode ser justificada pelo perfeccionismo do artista que não se preocupava apenas em vender um bom produto no mercado, mas também encantar seus consumidores com verdadeiras obras de arte. E nesse sentido, o norte-americano teve sucesso absoluto.

Com a morte de Steve Jobs, ele passa de ídolo para lenda, recebendo homenagens até de seus concorrentes, como um aposentado Bill Gates, que outrora idolatrado pela mídia (até a Microsoft ser acionada na Justiça por acusação de monopólio), também reconheceu a genialidade do colega. Ou, afinal, o Windows seria ou não seria uma cópia simplificada do Macintosh? Polêmicas a parte, dificilmente aparecerá um gênio da computação com a versatilidade de Steve Jobs, mas também sabemos que os gênios, assim como as pessoas comuns, não são eternos. Felizmente, o que sobra para nós, pobres mortais, é a contribuição que esses grandes homens deram para a humanidade, e não foi pouco. Para os que acreditam, talvez Steve Jobs esteja num plano espiritual melhor, em outra dimensão ou então se converteu em alguma nova fonte de energia vital, que além da eletricidade, anima seus computadores. Quem sabe? A única coisa que sei é que cada vez que ligo um desses aparelhinhos não me esqueço de seu criador, aquele homenzinho de camisa preta, calça jeans, tênis e óculos de aro, que agora ficarão para posteridade, até o próximo "Click"!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

SÉRIE:OS ANJOS CAÍDOS DO ROCK (Músicos que já foram astros e agora estão em decadência)-PARTE I- GUNS N'ROSES

Um símbolo que já foi campeão, mas
agora virou peça de Museu do Rock.
Quando o Guns N' Roses estourou, na segunda metade da década de oitenta, eu já tinha percorrido boa parte da adolescência e o final da década coincidia com o início de minha vida adulta. Lembro-me, morando em Natal, da verdadeira comoção nacional que era escutar as músicas da banda do cantor Axel Rose, do guitar solo Slash, dos guitarristas Izzy Stradlin e Gilby Clark, do baixista Duffy McKagan e do batera Matt Sorum. O clipe da canção Sweet Child O' Mine marcou época, tornou-se um verdadeiro hino da banda, tocado à exaustão até hoje nas FMs. Mas nessa época, a banda norte-americana trouxe um verdadeiro carrossel de sucessos: Paradise City (uma das mais pedidas nos shows ao vivo), a balada Patience, Night Train, Welcome to the Jungle, She coud be Mine (trilha sonora do filme O Exterminador do Futuro 2), November Rain e muitas outras.

Muitas águas (e rosas) rolaram desde então, e o Guns N'Roses sofreu dois impactos grandes, que refundaram sua história: um, foi o advento do grunge, e o lançamento do disco Nevermind, do Nirvana, no começo da década de noventa (que agora completa 20 anos, lançado numa edição comemorativa), que redefiniu a história do rock e tornou o hard rock dos anos oitenta praticamente obsoleto; outro, foi a dispersão dos integrantes da banda no decorrer daquela década, devido às brigas internas e conflitos com o ego exaltado de Axel Rose, além de suas confusões com bebida, mulheres e drogas. Houve até quem redigisse o obituário do cantor norte-americano, ou mesmo que pensasse que  ele teria passado uma temporada na cadeia, pelos sucessivos processos que sofreu de roadies, groupies, ex-empresários, ex-colegas ou ex-amigos, donos de bares ou hotéis e desafetos de toda monta na imprensa ou no meio musical, apesar do carismático vocalista continuar tendo um séquito frenético de seguidores no mundo todo, mas, principalmente, na América Latina.


Olha o rôdo aí, gente! Acho que Axel Rose carrega tantas
tempestades na sua carreira errante que sobrou pro funcionário
do Rock in Rio, enxugar tanta água de chuva no palco
(foto:agência News).

 Por falar em América Latina, para mim a devoção quase religiosa que alguns fãs manifestaram no último (e chuvoso) show da banda, na edição nº 4 do Rock in Rio, encerrando o festival na data de ontem, parece-me quase como a predileção que os mexicanos tem pelo carro Fusca: só existe peça igual naquele lugar. Digo isso com um medo danado de ser atacado por alguns dos fãs fanáticos da banda no meio da rua, tendo em vista que só no Brasil, eu vi um público que tinha a mesma idade que eu quando o Guns N' Roses começou a ter sucesso, invadindo o espaço da Cidade do Rock, e cantando em coro os antigos singles da banda. O problema é que esse mesmo público abandonou mais cedo o Rock in Rio, nas últimas horas da madrugada extremamente chuvosa da metrópole carioca, quando um envelhecido Axel Rose começou a tocar faixas de sua obra mais recente e totalmente desconhecida em terra brasilis. Resultado: se eu fosse explicar o porquê de tanta comoção com uma banda que praticamente deixou de existir, mas não avisaram ainda ao seu frontman, eu diria: pura nostalgia!


É o Zé do Caixão versão yellow?
Após mais de duas décadas de drogas,
sexo e rock'n roll, quanta diferença!
(foto:agência News).
 É de nostalgia que os fãs mais antigos ou os mais novos procuram escutar e assistir os shows do Guns N' Roses, além da intensa massificação que o som dos caras produziu na cultura pop nacional, quando de sua primeira vinda ao Brasil, no antológico show no Maracanã, no longínquo Rock in Rio 2, em 1991. Após aquela que seria a derradeira apresentação da formação original da banda, nunca mais o sucesso seria o mesmo para Axel Rose. Parece-me que a saída do principal músico e co-fundador da banda, Slash, saindo de cena com sua guitarra e chapéu debaixo do braço, apenas abreviou uma morte anunciada, uma decadência que estava por vir após o soporífero album de covers, The Spaguetti Incident, e um hiato de 15 anos sem apresentar um disco novo. Axel chegou a enrolar a imprensa mundial por mais de uma década, acerca da chegada de um novo disco do Guns N' Roses, o já lendário Chinese Democracy, que só chegou as lojas em 2008, quando o mundo já tinha se convertido ao MP3, aos downloads de música pela internet, e um disco novo de um artista não causava mais o frisson de minha juventude, quando filas de ouvintes se amontoavam no começo da manhã nas lojas de discos, aguardando a chegada do tão sonhado álbum novo de seu ídolo.

Mesmo o oportunismo e o silêncio sabático que marcou a carreira de uma banda em extinção, não impediu que a organização do Rock in Rio 3 chamasse o Guns N' Roses para se apresentar após o show do Oasis, numa reerguida cidade do rock, em 2001. Eu também participei daquela edição do festival, e tive que ir embora logo após o encerramento da banda que antecedera Axel e seus asseclas, devido ao voo de retorno para casa. Mas, na verdade, eu poderia ter atrasado o meu voo, remarcado a passagem e ficado mais algumas horas no Rio de Janeiro, naquela ocasião. Não fiquei por uma simples razão: aquilo para mim não era mais Guns N' Roses. Era Axel Rose tentando viver do passado ou então uma tentativa bem oportunista de lograr uns trocados enganando o público, fazendo com que as pessoas pensassem que a mágica banda que tocou no Maracanã em 91 estivesse ali. Ledo engano!


A banda com sua formação clássica, quando estava no auge.
Tempos que não voltam mais!
 Acredito que quando um ouvinte escuta Sweet Child O' Mine, ele está ali não apenas ouvindo Axel Rose, com seus clássicos falsetes guturais, mas também a guitarra melódica de Slash (para muitos, um deus da guitarra), a bateria hard rock de Sorum, bem como o baixo de Mckagan e a parede sonora de Stradlin. Ouvir o Guns N' Roses sem a sua formação clássica é como ouvir os Beatles tão somente formados por Paul McCartney e sua banda de apoio. Não tem graça nenhuma! Perdoem-me se sou purista, mas sou fã de música, adoro rock  e gosto sim de música, mas de boa música; e um dos ingredientes de um bom som é o completo entrosamento e dedicação de um grupo, que assim como uma seleção de futebol, sabe que seus integrantes são insubstituíveis se são bons e se entendem, e se a equipe quer ser campeã. Não vejo isso na versão 2011 do Guns N'Roses.


Pelo menos mudanças de chapéu e óculos
escuros em duas décadas. Mas a voz,
não é a mesma!
(foto:AP)
 Axel Rose era uma estrela. Um músico que se tornou astro e que agora, beira a autoparódia. O problema não se trata de o músico não ser mais jovem, de estar longe, hoje, de ser aquele Apolo ruivo, dos anos oitenta, que tirava o folêgo das garotas, cada vez que se apresentava sem camisa no palco, e que agora se mostra apenas como um cinquentão gordo e meio careca, que não tira o chapéu nem com uma arma apontada na sua cabeça. Digo que não vejo problema sequer em ver Axel Rose, hoje, sem voz. Afinal, foram anos de excesso, álcool, drogas, cigarros, além de forçadas de garganta, para um cantor que, originalmente barítono, atrevia-se a destruir suas cordas vocais com falsetes arranhados, que faria correr para o acasalamento o mais assanhado felino. Não! O problema está na falta de autenticidade, na perda de criatividade, na incapacidade de se reinventar como músico, e da necessidade de se apoiar tropegamente no palco, baseado numa reputação construída no passado, mas que não se vê mais no tempo presente. Para um amigo que avistei recentemente na cidade, e perguntei sobre a  vontade dele de assistir a um show do Guns N' Roses, ele me respondeu com uma pérola de sabedoria, sobre o que muitos pensam e não tem coragem de falar aos simpáticos fãs da banda de Axel Rose: "só se for por curiosidade mórbida"!.

Assim, penso que a organização do Rock in Rio, na pessoa da empresária Roberta Medina (a "filha do homem"), chamou o Guns N' Roses para mais uma edição do festival, apenas pra fechar a programação, por falta de contratado, ou porque sabia, através de pesquisa quantitativa, que muitos fãs saudosistas ainda iriam ao local assistir ao seu ídolo do passado. Valeu pela sessão nostalgia, mas não pela boa música. Eu não vi na imprensa musical do país, através de seus dois principais meios de comunicação, as revistas Rolling Stone e Billboard Brasil, qualquer menção à passagem pelo Brasil da banda de Axel Rose, e isso é um sintoma de como o segmento crítico, mais voltado profissionalmente pra música, vê que o Guns N' Roses é somente uma marca, do que uma banda de verdade. Pena! Deveria haver músicos com a dignidade de encerrar os trabalhos com altivez, pendurando as chuteiras enquanto estão no auge, ao invés de perpetuarem o que antes era divino e que agora se tornou esdrúxulo. Será que tenho que chamar os fãs do R. E. M. pra explicar isso? Após esse extenso artigo, peço apenas uma coisa aos dedicados fãs do Guns N' Roses: por favor! Não me linchem quando me verem na rua! All you need is just a litte patience! Sacou?!
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Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?
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