segunda-feira, 28 de março de 2011

HOMENAGEM:A vida e morte de Elizabeth(Liz) Taylor é um libelo antifeminista!

Quando eu era criança, via aquelas revistas de celebridade na mesa da sala de casa, que minha mãe gostava de olhar de vez quando, e perguntava a ela qual seria o ator ou atriz mais bonito. De atores, mamãe respondia sem pestajenar: Tarcísio Meira, e de atrizes, das milhares que havia na constelação de estrelas nacionais e internacionais, que ela tinha visto na juventude, ela me mencionava uma que seria a maior de todas: Elizabeth Taylor.

Duvidei do gosto de meus pais. Afinal, nos anos 60, época em que eles viveram bem a juventude, tínhamos também Brigitte Bardoux, ou, para um público mais intelectualizado, Catherine Deneuve. De qualquer forma, quando vejo a popart de Andy Warhol e o famoso poster com o rosto da famosa atriz norte-americana, dou de ombros e reconheço: Liz Taylor era a mega das mega superstars. Em relação à geração de meus pais, daqueles que já se encontram idosos e a geração de hoje, comentar a morte de Elizabeth Taylor (1932-2011) seria, como, comentar para as gerações do futuro, a morte de Angelina Jolie. Elizabeth (ou Liz, como também era chamada nos tablóides) estava para a Terra do Tio Sam,  assim como Mickey Mouse, Coca-Coca ou McDonald's. Era uma das maiores estrelas do cinema hollywoodiano, e também o símbolo de um tempo que já se passou.


Liz Taylor representava a mulher do século XX, que saí de cena para dar  lugar a mulher do novo século. Também representava um modelo de artista que não existe mais: forjado pela indústria, criado para ser estrela, acostumado aos holofotes desde criança, mas destinado à glória, mais por conta do glamour do que pelo talento. Miss Taylor conseguiu superar isso muito bem! A linda mulher de olhos azuis cintilantes, da década de 50, e a senhora gordinha, septuagenária e doente, numa cadeira de rodas, de seus últimos anos de vida, ficarão para a história não apenas como a atriz que colecionava diamantes, assim como maridos(foram ao todo 8, sem contar os namorados e amantes), mas também como a atriz genial, ganhadora de 2 Oscars, que se eternizou nas telas em filmes antológicos e obrigatórios na videoteca de qualquer cinéfilo, tais como: Gata em Teto de Zinco Quente (1958), numa adaptação da peça de Tenesse Williams, contracenando com Paul Newman; ou Quem tem medo de Virginia Woff (1966), um clássico dos clássicos, onde Taylor arrebata a plateia, com a interpretação de uma protagonista gorda, alcoólatra, e perturbada. A própria vida pessoal de Liz Taylor foi um filme, e um pouco de sua história de vida, e de como lidou com as doenças, maridos e o destino, é também um pouco da história do gênero feminino, no século passado.

Senão, vejamos, para ver se vocês concordam ou não com a minha tese.Projetada para o estrelato precocemente, primeiro como atriz-mirim, depois como adolescente imaculada e jovem recém-casada, em comédias românticas do começo dos anos cinquenta, Liz Taylor começou a se desvencilhar do papel que lhe foi dado pelas convenções sociais, com a sucessão de maridos que passou a ter, demonstrando não se tratar de uma mulher que iria se domar muito tempo a um mesmo homem. Ao mesmo tempo, a atriz norte-americana reproduziu os clichês sociais ao se casar tantas vezes, talvez muito para reproduzir um jargão conservador e religioso de que suas uniões não seriam legítimas, se não fossem solenizadas pelos laços do matrimônio, e também por um desejo de toda mulher de encontrar segurança e uma mínima satisfação, nos braços de um homem. Elizabeth Talyor dependia ( e muito) dos homens; não financeiramente, é óbvio, mas sim afetivamente. E nesse momento a vida da atriz rompeu qualquer clichê ou jargão feminista, pois a estrela de megasucesso não tinha medo de expor para toda a mídia sua fracassada vida privada, suas inconstâncias, seus amores frustrados, a enorme carência de uma mulher que tão somente queria alguém, "um homem pra chamar de seu", como diz a música do Erasmo.

Além de expor em sua vida sentimentos tão genuinamente femininos, Liz Taylor correspondia ao biotipo da mulher linda, mas comum, que nas pedradas da vida, apesar da beleza, está sempre sujeita às pedradas do destino e a facilidade de levar porrada das contingências. Além dos maridos e separações Liz tinha uma saúde frágil (muito frágil), que quase a levaram à morte, ao menos em duas ocasiões anteriores. Nessas vezes, a atriz soube dar a volta por cima, e criar, com dignidade, cinco filhos, de seus vários casamentos. Ela correspondia a um padrão de beleza bem conhecido:baixinha, rosto de boneca, estilo mignon, olhos claros, cabelos escuros, as pernas curtas e o busto avantajado, como encontramos muito em belas colegas de trabalho ou na vizinha do lado.Naturalmente, Miss Taylor tinha um diferencial: os olhos (ahhh!os olhos!!aquelas marotas janelas da alma que todo homem apaixonado quer percrustar!). Mas Elizabeth Taylor tinha também um gosto para homens e uma vida afetiva que sintetizavam muito o universo da busca feminina: homens dos mais diversos tipos e estaturas, mas que se resumiam bem num padrão, que misturava virilidade com compreensão. Seu curto e conturbado casamento com o empresário Mike Todd, que resultou em viuvez (após a morte do marido num acidente de avião); a escapadela irresponsável e quase juvenil com o cantor Eddie Fischer( roubado de sua amiga, a atriz Debbie Reynolds) e o histórico relacionamento com Richard Burton, que foi considerado pela própria atriz, o maior amor de sua vida, de todos a que ela já teve.

Burton é um capítulo a parte não só na história de Taylor, mas da história do cinema. Era um ator galês, shakespeariano, que egresso do teatro unia virilidade com elegância e vivacidade intelectual; ou seja, o homem que toda mulher heterossexual desejaria na cama. Com seu jeitão de Sartre num corpo de brutamontes, Richard Burton conseguiu durante anos domar uma estrela indomável, nas idas e vindas de um relacionamento que rendeu que eles se casassem por duas vezes. A própria Liz Taylor dizia em entrevistas que ela e Burton só não vieram a se casar novamente porque ele morreu antes. Ficou para a história a torridez das cenas de amor entre Taylor e Burton no filme Cleópatra, quando seu amado interpretava Marco Antonio, enquanto ela, a protagonista. Ambos fariam ainda juntos outros filmes célebres, como um dos casais mais carismáticos da histórica do cinema.

Mas eis que nas últimas décadas, a aura de Elizabeth Taylor foi se desvanecendo com a idade, assim como raras foram as suas apresentações no cinema (a última na adaptação do desenho animado, Os Flintstones,no cinema). Com o advento de doenças cada vez mais crônicas, a figura de Elizabeth Taylor começou a revelar, com o passar do tempo, os males da modernidade que afetam a maioria das mulheres: a ansiedade. Lutando contra a balança durante anos, a atriz começou a engordar comendo quilos e mais quilos de doces (ahh! Os doces, sempre os vilões das mulheres), além de abusos com álcool e drogas lícitas. A estrela se tornou uma figura tão bizarra quanto seus amigos na época, como Michael Jackson, e após o casamento que durou pouco, com o caminhoneiro Larry Fortensky, em 1991, parecia que o estilo da diva era se tornar um ícone gay, a partir das centenas de drag queens que passaram a imitar o glamour de seu estilo antigo. Os sinais do tempo passaram a atingir uma bela mulher.

Quando digo que Liz Taylor representou uma quebra no paradigma feminista, não digo que ela foi de encontro ao movimento, mas que soube se impor e conquistar seu poder no imaginário dos homens, menos por seu engajamento contra os homens, mas sim muito mais a partir de seu encanto e feminilidade, a favor deles. Liz Taylor amava os homens, assim como muitos homens (poetas, intelectuais, artistas) amam as mulheres. A atriz norte-americana falecida simboliza um século XX que partiu e toda uma geração de astros que se foi, dando lugar a novas belas e encantadoras atrizes da sociedade global do século XXI, novas princesas como a jovem Anne Hathaway, apresentadora da última edição do Oscar, mas que nunca chegarão ao peso do glamour de uma época que já passou. É o sinal dos tempos!

Menos por seu encanto de diva ( assim como foram Marilyn Monroe, Ava Gardner, Grace Kelly, Audrey Hepburn e Rita Hayworth), e mais por sua contribuição para a história do cinema, e para apaixonados pela sétima arte como eu, rendo minha homenagem a uma das artistas-símbolo do século XX, dizendo: BYE,BYE, BABY,!BYE, BYE!!

segunda-feira, 21 de março de 2011

VISITA DE OBAMA AO BRASIL: Hello!!Goodbye!! Brazil is very nice "pra xuxu!"

Neste momento, o presidente norte-americano Barack Obama retorna para sua terra natal, após ter sido saudado por brasilienses e cariocas. Num teatro de uma Cinelândia lotada, vi ontem, no domingo, um chefe de Estado se apresentar como popstar, apesar de receber, durante a semana, uma série de críticas, tanto no espectro político da direita, quanto da esquerda.

Aos meios de comunicação, de praxe, e como lhes soa mais claro, coube amenizar, por demais, a visita do presidente norte-americano, e seu impacto para a economia e para as relações internacionais do Brasil (principalmente a tão sonhada vaga no Conselho de Segurança na ONU), enfatizando muito mais sua família, os penteados e a moda dos vestidos da primeira-dama,  Michelle Obama, além das simpáticas filhas do casal, que na sua pureja juvenil, o que queriam mesmo era curtir a viagem e conhecer um país diferente. Um Obama sorridente apareceu cumprimentando, com a mesma elegância e eloquência, tanto ministros e deputados, nos salões palacianos do poder, como também o povo, na comunidade carioca de Cidade de Deus, numa escola pública, na Cinelândia e até no morro do Corcovado, onde se dirigiu ao final de seu périplo presidencial. Que é simbólica a vinda de um presidente dos EUA ao Brasil, isso sempre ocorrerá. O que me chama atenção são as reações.

Perto de onde Obama discursava para a plateia brasileira, um grupo de 200 gatos pingados, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, representava movimentos sociais, sindicatos, centrais sindicais e associações estudantis, e dos carros de som podíamos ouvir gritos de repulsa, e protestos contra a visita de um presidente norte-americano, como se fosse uma afronta alguém que represente uma nação genuinamente capitalista, vir dar pitaco por essas bandas. Se congelássemos a cena no tempo, poderíamos nos lembrar de que, há mais de quarenta anos atrás, esses mesmos grupos se aglomeravam, aos milhares, discursando contra a ditadura, pregando a revolução, com seus "vários Vietnams" e primaveras de 68, denunciando o imperalismo yankee, o inimigo mortal, representado pelo mais emblemático líder da terra do Tio Sam: o presidente dos Estados Unidos da América.

O problema é que, hoje, não é mais Kennedy ou Nixon que estão no poder, e George W. Bush já saiu (felizmente) de cena, com seus tristes oito anos de retrocesso político e democrático no mundo globalizado, na sua guerra ao terrorismo com seus Patriot Acts  e seriados de Jack Bauer na televisão. Quem está lá agora é Obama, e apesar de ser bastante diferente de seu antecessor (a começar pela cor da pele), parece que o encantamento mundial que surgiu com a vitória do primeiro afrodescendente a governar a nação mais poderosa do planeta, apagou-se com o último disparo de canhões e mísseis na Líbia, governada a mão de ferro por Kaddaffi, e agora, a bola da vez a ser chutada pelo tal "imperialismo yankee".

O bonde da história passa, e algumas frases, slogans ou palavras de ordem ficam datadas. Apesar disso, é muito comum, ao abrir as páginas de uma Caros Amigos ou ler alguns blogs de gente da esquerda, observar-se as mesmas críticas (fundadas ou não) sob a maléfica influência norte-americana nos rumos da economia e na condução da política global. Sabemos que Obama e seu governo não são bobos, e de boas intenções o inferno está cheio, mas o que me chama mais atenção é de como Obama, até então saudado pela esquerda moderada, como um representante dos seus, pôde naufragar como uma promessa vazia, assim como o fajuto trabalhismo de terceira via de Tony Blair, na Grã-Bretanha, também afundou após a farsa sobre a existência de armas de destruição em massa, num Iraque de Saddam Hussein. Obama chegou a Casa Branca como uma promessa autêntica de renovação, com seu irresistível slogan midiático: Yes,We can!, que conquistou toda uma juventude norte-americana para as urnas, numa bem orquestrada campanha que se iniciou na internet. Obama parecia ter tudo para dar certo: carisma, elegância, currículo acadêmico invejável, histórico de lutas como advogado de causas populares, posicionamento mais à esquerda dentro do ambiente político do Partido Democrata, pregações pacifistas contra a guerra e a defesa de uma rede de saúde pública, popular e gratuita para todos; uma biografia invejável de um filho de uma branca com um africano, que nasceu no Havaí e viveu na Indonésia, revelando o quanto o novo presidente era, ele mesmo, um grande representante do novo mundo globalizado.

"O homem certo na hora e no país errado". Essa foi a afirmação de reportagem da última semana da revista Carta Capital, que na sua capa mostrava um Obama deprimido e errático, dentro de um governo que não deu certo, naufragou diante da ofensiva republicana, ficando refém da mais reaçonária, racista, intolerante e alienada direita conservadora. Obama não soube ouvir os sinais de seu zeitgeist, e com isso, acabou por correr o risco de ser atropelado pelo bonde da história, quando caberia a ele mesmo fazer essa história. Nas razões bem explicitadas, na reportagem do semanário do jornalista Mino Carta, Obama não leu Roosevelt. Aquele que, assim como ele, pegou uns Estados Unidos no auge de uma crise econômica ( a Grande Depressão de 1929), soube peitar os empresários capitalistas, especuladores, e a partir da intervenção do Estado conseguiu reerguer a economia, restituir empregos, responsabilizar tributariamente os mais abonados e com isso levar a nação norte-americana, novamente, ao caminho do desenvolvimento. Obama, ao contrário, não cumpriu com suas promessas de campanha, como fechar a base militar de Guantánamo, onde pululam denúncias e mais denúncias de violação dos direitos humanos. Demorou mais do que deveria para retirar as tropas do Iraque e afundou num conflito no Afeganistão, onde até hoje não se sabe, se algum dia, definitivamente, a guerra contra os talibans será realmente vencida. Obama não conseguiu frear a ganância e o ímpeto destrutivo da grande indústria, não conseguindo impedir a continuação da emissão de gases tóxicos, que destroem o meio ambiente e comprometem a qualidade de vida no planeta, e ao propor uma rede de saúde pública e democrática para toda a população, acabou sendo acusado de comunista (coisa que ele não é), apanhando nas urnas com a vítoria do Partido Republicano sobre o Democrata, nas eleições parlamentares do ano passado, e tendo sua recente lei de saúde, aprovada no Congresso, questionada por juízes e tribunais neoliberais, em quase todos os estados norte-americanos, sob acusação de que sua lei de saúde pública é inconstitucional.

Resumindo o governo Obama em uma palavra, poderíamos dizer:  desastre. Infelizmente, para muitos que torciam  para que o charme de um negro simpático pudesse fazer chover e mover moinhos, parece que o mandato do presidente norte-americano caminha tropegamente para o fracasso, para a tristeza mundial, que acreditava que com a volta do Partido Democrata ao poder, caso não se visse o apogeu e a vitória dos direitos civis com Kennedy e Lyndon Johnson, ao menos poderiam ser vistos, quem sabe, os pragmáticos anos da era Clinton, nos anos noventa, com ou sem charutos envolvendo ex-estagiárias e escapadinhas no local de trabalho. Ao invés disso, parece que o mandato de Obama tende a se encerrar da mesma forma que o de seu companheiro de partido, Jimmy Carter, no final dos anos 70: com o término da vida política de um cara legal, comprometido com as causas democráticas, mas que não chegou a lugar nenhum , num país e num governo de alienados, consumistas, autoritários e gananciosos; pois, afinal: That is the american way of life!

Resta a Obama a satisfação pessoal de um pai de família, de ter garantido à esposa e às filhas um belo passeio por uma linda cidade, localizada nos trópicos, num litoral paradisíaco como é o Rio de Janeiro, em seu lindo horizonte da América do Sul. Se não conseguiu mudar o mundo, as relações imperiosas de submissão e sacanagem que sempre fizeram parte do vínculo entre Brasil e EUA, e se não conseguiu encantar com sua viagem seu eleitorado nativo (que já acha meio manjado esse papo de save the world do presidente norte-americano), Obama ao menos jogou para a torcida e fez o que sabe melhor fazer, como político e como pessoa pública: encantar. Restará na memória dos brasileiros, não melhorias substanciais ou transformações alvissareiras, por conta da visita do presidente norte-americano ao Brasil,  governado por Dilma Roussef, mas sim a recordação dos sorrisos, do charme e da elegância de um presidente e de uma primeira dama, que mais pareciam modelos saídos de uma gravadora de soul music, do que de um chefe de Estado da nação mais poderosa do mundo.

Obama ainda terá pela frente seus próprios calos, seus próprios espinhos, através da direita raivosa  e meio rottweiller do Tea Party, em solo norte-americano, além da demagogia explícita de canais como o Fox News ou os meios de comunicação a serviço do grande capital. Enquanto isso, nas ruas, ainda se verão gatos pingados clamando contra Obama, como se ainda estivéssemos nos tempos da Guerra Fria ou da ditadura militar no Brasil, queimando bandeiras dos EUA e bonequinhos do Tio Sam ou do presidente norte-americano. Só um detalhe: criticar o bombardeio à Líbia de um canalha como Kaddaffi? Aí, já é demais!! Não confundamos esquerdismo com burrice!! É pena, Obama, mas teu jargão se inverteu, diante da realidade global grotesca que vivemos: NO, WE CAN'T!!

quarta-feira, 16 de março de 2011

TRAGÉDIA: O dia em que todo o mundo virou japonês!

O NHK é um dos canais mais pitorescos da TV por assinatura. É a emissora japonesa mais conhecida do mundo, ofertada em vários pacotes de canais de televisão em TV fechada. Chega a rivalizar com sua célebre colega do Oriente Médio, a Al Jazeera, mas é muito curioso assisti-la aqui no Brasil. Afinal, fora a comunidade japonesa e de descendentes de orientais que residem em bairros como a Liberdade, em São Paulo, ninguém entende uma palavra do que se diz!

Pois eis que o NHK chamou mais uma vez a atenção do público, desta vez não por uma curiosidade cultural, mas sim por divulgar as espetaculares e arrasadoras cenas do último terremoto e dos tsunamis que se abateram sobre o Japão na semana passada. Como se não bastasse ter sofrido o mais violento e pior terremoto de sua história moderna, que provocou no mar ondas gigantescas que devastaram cidades e povoados inteiros, o povo japonês ainda vive sob a iminência de uma catástrofe nuclear, devido as usinas nucleares, próximas à costa, atingidas pelos devastadores tremores de terra. Não bastou Hiroshima e Nagasaki, agora o povo da terra do sol nascente corre o risco de viver uma nova Chernobyl!

Desde criança, quando somos advertidos em sala de aula sobre a necessidade de bom comportamento e disciplina, vemos um ou outro professor (geralmente de história ou geografia) falar da dedicação e da disciplina do povo japonês, que fez com que eles reconstruíssem um império destruído na II Guerra, e se tornassem uma das nações capitalistas mais ricas do planeta. Desde os seriados de TV, com seus Nacional Kid, Ultraman, Espectroman e Jaspion, passando por Pokemon, Dragon Ball Z, mangás, animês, hentais, os poemas haikay, e os filmes de artes marciais, além do sushi e sashimi comido nos restaurantes, a cultura japonesa invadiu o imaginário pop, fazendo com que nos acostumássemos com aqueles sorridentes turistas amarelos, dos olhos puxados, sempre com uma câmera fotográfica enrolada no pescoço, e com um jeito de falar engraçado, que nos lembra da sabedoria milenar de uma terra que já foi povoada por shoguns e samurais. Havia um lema jocoso nos banheiros da USP, segundo comentários de vestibulandos da FUVEST, zombando da forte concorrência estabelecida nos cursos de engenharia pelos descendentes de japoneses, na disputa de vagas da universidade: "mate um japa e ganhe uma vaga!". Isso denota bem a crença de que o povo japonês sempre foi extremamente dedicado, aguerrido em seus propósitos, ordeiro e até certo ponto comedido, na temperança cultivada com os ensinamentos do budismo e do xintoísmo.

Pois essa mesma mansidão e disciplina agora está sendo posta à prova, diante do cataclisma que se abateu sobre o arquipélago japonês, localizado numa área repleta de falhas geológicas, entre placas tectônicas conflitantes, que já fazem dos abalos sísmicos um cotidiano de um povo habituado com tremores de terra, por séculos e séculos. Sabe-se que no Japão, a população é rotineiramente treinada para lidar com terremotos e que as construções feitas no solo japonês tem a melhor qualidade do mundo, pelo seu nível de estabilidade e segurança, capazes de suportar abalos terríveis em sua estrutura. Mas será de que desta vez os japoneses estão preparados para tamanho infortúnio? No saldo final do último terremoto de 8.9 na escala Richter (considerado de proporções apocalípticas), ainda se contabilizam mais de 3.000 mortos, sem contar os desaparecidos, e o pior ainda está por vir: uma crise de abastecimento, com falta maciça de alimentos, por conta do tsunami surgido com o terremoto, ter alagado praticamente 1/3 das terras irrigáveis no Japão. Tragédia pouca é bobagem!

Ouve-se o "sábio" dito popular de que o brasileiro é um povo abençoado, porque aqui podemos ter de tudo: enchentes, queimadas, fome, miséria, os mais corruptos políticos e a mais rasteira criminalidade; mas ao menos não temos desastres naturais que afetam outros povos, como terremotos e furacões. Mas como será que está a situação de milhares de brasileiros, muitos deles dekasseguis (descedentes de japoneses, nascidos no Brasil, que decidem voltar à terra de seus ancestrais, em busca de trabalho e melhores condições de vida)? Conheço algumas pessoas, filhos e netas de japoneses,  e acredito que muitos que leem este blog também conheçam, e me pergunto o que dizer para essas pessoas quando a terra de seus familiares é abatida por um acontecimento horroroso, de tamanha proporção, e só resta a eles acompanhar de forma sofrida o noticiário. Ano passado, testemunhamos o sofrimento dos chilenos no terremoto no Chile, e depois com seus mineiros enterrados, e no trágico abalo no Haiti, vimos que a tragédia natural matou centenas, milhares de pessoas, numa proporção catastrófica, até mais do que são dizimadas populações inteiras em grandes guerras, e onde brasileiros ilustres perderam a vida, como a militante social Zilda Arns, além de muitos militares brasileiros (vide comentário sobre o terremoto no Haiti, escrito no ano passado, neste blog). Agora, pudemos apenas assistir como expectadores atônitos, com um frio na barriga, os dantescos acontecimentos no Japão, diante de cenas que beiram o pesadelo, numa situação em que podemos pensar:"puxa, isso poderia estar acontecendo aqui, comigo".

A meu ver, não resta outro caminho, diante da tragédia inevitável, do que a solidariedade. Sim, a boa e velha palavra bonita e manjada chamada solidariedade. Alguns mais caústicos, de humor ácido ou que simplesmente manifestam sua revolta, podem dizer que é falta do que fazer escrever sobre as vítimas do terremoto no Japão, mas, como cristão e humanista (lá vem as minhas autorotulações!), eu sempre chamo atenção para uma postura minimamente sensível, que podemos ter diante de tragédias como essa, que abatem o povo japonês; pois o sofrimento não é um sentimento exclusivo e próprio, exibido egoísticamente como unicamente nosso, com direito a exibir uma nota de compra ou um título de propriedade, dizendo que nós é que temos que chorar os nossos mortos, e os outros que se danem. É verdade que temos as nossas vítimas das enchentes, enxurradas e desabamentos aqui para chorar, mas sempre temos também um sentimento universal que nos diferencia enquanto gênero humano: a capacidade de se compadecer e compartilhar a dor da outro.

Acredito que os blogs, como qualquer outro meio de comunicação, também tem o seu papel social, e, diante disso, junto-me ao movimento de solidariedade e apoio às vítimas do terremoto e dos tsunami no Japão, enviando aqui alguns endereços e e-mails, sob respaldo da Aliança Cultural Brasil-Japão, a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo, a Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil, além de muitas outras organizações,  fornecendo conta bancária e contatos, para aqueles que se interessarem em contribuir com as vítimas da catástrofe japonesa, a partir dos seguintes dados:

e-mail: contato@bunkyo.org.br e telefone (11)3208-1755, assim como no endereço eletrônico info@kenren.org.br e nos números (11)3277-8569, (11)3277-6108 e (11)3399-4416.  Também é possível obter informações pelo e-mail: enkyodiretoria@enkyo.org.br e os telefones (11) 3274-6482, (11) 3274-6484, (11) 3274-6489 e (11) 3274-6507.

Bradesco - agência: 0131-7, contas-correntes 112959-7 e 131.000-3; Santander, agência: 4551, conta-corrente:130900004-4; Banco do Brasil, agência: 1196-7, conta-corrente 29921-9

Naturalmente, quem se interessar, ligue e confirme os dados, a fim de dar essa grande e importante contribuição para o povo japonês. Como fazem os budistas em suas meditações, proferindo as palavras rituais que atraem energias positivas e harmonia diante do sofrimento, entôo o daymoko: Nam-Myoho-Rengue-Kyo . Boa sorte, Japão!
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