terça-feira, 20 de junho de 2017

CINEMA: Meu nome é Gal: algumas razões do porquê Mulher Maravilha ser um dos melhores filmes de super-heróis do ano

Assisti recentemente no cinema mais um filme de super-heróis, num filão que já se tornou, neste século, um estilo cinematográfico. Foi o primeiro filme de peso com uma protagonista feminina (se vc tirar Mulher Gato, com Halle Barry e Ghost in The Shell, com Scarlet Johanson da equação). Trata-se do primeiro longa-metragem com uma das personagens épicas dos quadrinhos: A Mulher Maravilha. E olha que demorou, demorou para que um ícone tão importante da cultura pop do século XX aparecesse no cinema num filme próprio. Claro que muitos vão falar aqui da primeira aparição da personagem no superestimado "Batman X Superman", de dois anos atrás, mas aquilo pareceu ser uma espécie de teste de mercado, de um certo prenúncio criativo, a fim de saber até que ponto um personagem feminino dos quadrinhos poderia segurar nas costas um filme próprio, e está aí o resultado.

Foi a primeira vez que um filme de grande orçamento, envolvendo a princesa amazona das histórias da DC Comics, estourava nas bilheterias, e com a película, veio toda a questão do empoderamento feminino, conquistando jovens mulheres no mundo todo, e uma nova geração que passou a se inspirar numa nova heroína.

Suas primeiras histórias nos quadrinhos.
Nada mais paradoxal do que ver, nas salas de cinema, tanta gente nova, a curtir como novidade midiática uma personagem tão  antiga e tradicional. Ora, afinal de contas, a Mulher Maravilha é um personagem tão (ou mais antigo) que o Super-Homem, o Batman, da mesma editora, ou que o Capitão América, Homem Aranha ou Hulk, da editora concorrente, a Marvel. Sua primeira história data de dezembro de 1941, em plena II Guerra  Mundial, na revista All Star Comics, passando em décadas por vários roteiristas, desenhistas e mídias. Além do sucesso nos quadrinhos, relembro-me dos meus tempos de criança, em que a personagem aparecia na TV, num seriado famoso do final dos anos setenta, apresentado pela Globo, onde a atriz Linda Carter interpretava a famosa amazona com seu característico uniforme. Quem não lembra, dos que viveram a época, da clássica "rodopiada" que Diana Prince (alterego da personagem) dava, até se transformar na heroína guerreira de que todos gostavam? Só vendo no YouTube para recordar, com um sorriso no rosto!

Quando garoto,a minha musa na TV.
Mas existem dois aspectos importantes para afirmar que, desde a trilogia do Batman do diretor Chistopher Nolan, iniciada com o filme "Cavaleiro das Trevas", não havia um filme solo de super-heroi tão bacana. Pode-se dizer que "Mulher Maravilha" foi o melhor filme de super-herói (quero dizer, super-heroína) da DC Comics no cinema, superando, inclusive, o filme do Superman (ao menos o "Homem de Aço", de Zack Snyder). Lá estava ela nos cinemas com seu mítico uniforme, sua espada, o escudo, os braceletes indestrutíveis que repelem balas, raios e todo tipo da ameaça, até seu laço da verdade foi usado diversas vezes. Simplesmente arrebatador! Um filme de sucesso, de uma super-heroína de verdade! A que se deve isso? Eu diria que dois fatores importantes explicam a nova febre: o ineditismo de uma personagem icônica dos quadrinhos na tela grande; e a atriz que incorpora a personagem nos cinemas: Gal Gadot.

A ex-miss Israel, ex-modelo e ex-soldado do exército israelense não é uma atriz digna de Oscar. Ela não é uma sumidade de talento dramático como Meryl Streep e nem sequer uma jovem e oscarizada estrela como Jennifer Lawrence (que já fez de tudo, de heroína de "Jogos Vorazes" até a Mística em "X-Men"). Então, por que essa morena tão bonita surpreendeu tanto? Será somente por conta de sua beleza? O bom de Gadot, no papel da super-heroína clássica é sua humildade, e apego sincero ao papel e responsabilidade que lhe foi confiada, ao passar para novas gerações (principalmente de mulheres) o conhecimento sobre uma personagem consagrada para os leitores de Hqs. 

Aliando beleza, inteligência e desenvoltura, Gal Gadot conseguiu inibir os mais críticos, seja quanto a sua inexperiência, com poucos papéis anteriores nas telas (vide "Velozes e Furiosos"), seja pelo seu preparo físico. Sim! Apesar de linda e atlética, com experiência em treinamento militar, a atriz israelense teve que escutar críticas e manifestações de intolerância, antes mesmo de assumir o papel. Muito desse buxixo deu-se por preconceito, face a experiência anterior da atriz como modelo e miss e mesmo seu histórico de jovem mãe de duas filhas. Eu li nas redes sociais que muitos (principalmente muitas) achavam que a atriz era magrinha demais, ou longilínea demais, para uma personagem que, por conta da força mitológica que possui, deveria ser mais "parruda" ou "popozuda". 

Mais um ponto para Madame Gadot. Além de apresentar uma beleza física étnica, fora dos padrões europeus normais, e sem ter que ostentar o corpo de uma lutadora de UFC, a bela morena Gal conseguiu reunir um misto de força e sensibilidade no seu personagem que se aliam ao preparo físico e desprendimento diante das câmeras. Afinal, assim como a heroína dos quadrinhos, a Mulher Maravilha das telas é, sobretudo, uma guerreira defensora da paz e dos humanos, como uma Joana D'arc  moderna, mas também uma mulher com forte formação cultural e filosófica, adquiridos mediantes anos de treinamento com sua mentora, a guerreira Antíope (no filme, na pele da atriz Robin Wright) e os ensinamentos de sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen). Sobre o pretexto de combater o Deus grego Hares, autor de toda guerra e destruição, a super-heroína de Gadot é um modelo ético de combate às tiranias, à barbárie e injustiça, o que é explicado didaticamente no decorrer do filme, o que justifica o fato da personagem ter abandonado a mãe rainha e a idílica Themyscira, Ilha das Amazonas, para se juntar a combatentes de diferentes nacionalidades contra a ameaça alemã, na I Guerra Mundial.

Assumindo com dedicação a responsabilidade por  protagonizar um personagem tão importante das HQS, Gal Gadot e a competente diretora Patty Jenkins (do filme "Monster", premiado com o Oscar de melhor atriz para Charlize Theron), conseguiram realizar um trabalho razoável, que dignifica o talento das mulheres na sétima arte.



Não resta dúvida de que Jenkins é uma boa diretora que sabe conduzir atrizes para filmes que, de certa forma, revelam uma narrativa com temática feminina. Em termos de "politicamente correto", "Mulher Maravilha" trata de empoderamento, sem ser militantemente feminista (ao menos para algumas delas). Há até piadas sobre isso, num diálogo sobre a vida sexual das amazonas em Themyscira, ou a divertida aparição da personagem Etta Candy (a atriz Lucy Davis), a frágil e roliça secretária do coronel Steve Trevor (o ótimo ator Chris Pine), coadjuvante da heroína, que é o alívio cômico do filme, numa cena impagável (relatada já no trailler do filme), que sarcasticamente estabelece uma relação entre o emprego de secretária e a escravidão.  Mas o que se destaca realmente no filme é de como uma mulher, uma única mulher, pode, literalmente, chamar pra porrada e botar marmanjos perigosos pra correr, como uma espécie de Ronda Rousey das antigas (antes, claro, de ser abatida por outra mulher: a brasileira e igualmente poderosa Amanda Nunes). Uma das melhores cenas do filme, e que viralizou imediatamente, é a já clássica cena da entrada no baile de Diana, sem seu uniforme de combate, vestindo um gracioso vestido azul, mas carregando nas costas sua poderosa espada "matadora de deuses", cujo cabo aparece por cima do decote. Tal imagem é emblemática e inspirou milhares de mulheres no mundo todo, que encheram a internet com fotos semelhantes, como uma espécie de imagem símbolo da combinação perfeita entre feminilidade e força. Com o filme de Gadot, posso dizer que todas podem (ou querem) ser uma Mulher Maravilha. Conheço ao menos duas, intimamente, minha mãe e minha esposa: duas Mulheres Maravilhas, duas super-heroínas!!

O filme de Jenkins só não é melhor por conta dos vilões, sofríveis, o que compromete ao menos 10 % do resultado final do filme, uma vez que uma personagem tão poderosa merecia ter um vilão melhor e mais à altura (a situação melhora no final do filme, dando coerência ao roteiro, mas não irei revelar por conta do spoiler). Fica faltando um contraponto feminino, uma nêmesis feminina e de grande maldade, antagonista da heroína que seja tão poderosa quanto ela. De qualquer forma, "Mulher Maravilha" é o típico filme de sessão da tarde que agrada (e muito), e que me faz lembrar outros filmes de Super-herói, que faziam a molecada vibrar nas cadeiras do cinema (como na época do Superman, de Richard Donner, em 1979, com o inesquecível ator Christopher Reeve interpretando o personagem principal).

Que venha, portanto, o filme da "Liga da Justiça", e com ele retorne um pouco mais da beleza, voz rouca e versatilidade de Gal Gadot. Nós, fãs de super-heróis, histórias em quadrinhos, e amantes do cinema, estamos esperando carinhosamente o retorno de nossa musa. Bem vinda ao século XXI, Mulher Maravilha!!

domingo, 7 de maio de 2017

PERSONAGEM: Lembranças de Belchior

O cantor Belchior faleceu no último domingo, dia 30 de abril, em Santa Cruz do Sul, uma bela e pacata cidade do Rio Grande do Sul, de colonização alemã, onde trabalhei e conheci minha esposa. Foi sintomático que ele tenha morrido da forma como sempre se apresentou para seu público: sereno, plácido, como uma certa melancolia nas letras de suas músicas e clima de despedida, deitado em um sofá e coberto de edredons para se aquecer do frio sulista, quando seu coração de poeta parou enquanto dormia, durante uma noite de outono. Ele tinha 70 anos.

Antônio Carlos Belchior Fontenelle Fernandes (seu nome de batismo) nasceu em Sobral, no Ceará, em 26 de outubro de 1946. Se no rock dos anos sessenta, os Estados Unidos da América viveram a British Invasion, com artistas da Inglaterra que predominaram no período, como Beatles, Stones ou The Who, no Brasil dos anos setenta, a cena musical de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo foi surpreendida pela "invasão nordestina", de músicos talentosos, criativos, oriundos da região nordeste do país e que se tornaram consagrados, como Zé Ramalho, Amelinha, Alceu Valença, e Ednardo. Belchior fazia parte dessa estirpe. Foi juntamente com Fagner, conterrâneo seu, que Belchior saiu do Ceará, largou um curso de medicina (antes teria tentado ser monge, num mosteiro católico), no final de 1969, e dirigiu-se num ônibus até a cidade grande, onde, poucos anos depois, conheceria a já consagrada cantora Elis Regina, que regravaria uma de suas canções mais famosas: "Como nossos pais", um hino para toda uma geração que, tardiamente no Brasil, conhecia o movimento hippie, e simbolizaria as utopias rebeldes da juventude.

Belchior é um típico músico dos anos setenta. Pode-se dizer que ele é da geração "desbunde", do típico verbo "desbundar", que hoje encontra-se historicamente em desuso. A palavra significava literalmente tirar a bunda da cadeira, rejeitar a inércia, o ócio e a letargia que nos obrigava simplesmente a "ser como os nossos pais", e convidava o jovem romântico a ser um aventureiro, a colocar a mochila nas costas e conhecer o mundo, como "um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior". 

ALUCINAÇÃO:um dos discos emblemáticos do cantor.
Foi nessa vida aventureira que Belchior conheceu as dificuldades iniciais do ostracismo na vida artística, conheceu o sucesso, após ter sido regravado por uma cantora famosa, ter ganhado espaço midiático e ter lançado ao menos três discos símbolos, apreciados pela crítica e por um público cult, cativo, ansioso por novidade, que logo encontrou no músico cearense seu novo bardo, que saía das praias nordestinas para conhecer a fria e cinzenta selva de pedra da metrópole. Foi no período em que morava no Rio de Janeiro, e depois São Paulo, que Belchior parecia estar mais inspirado, e tanto na brisa do mar carioca quanto na garoa paulista escreveu algumas das canções e versos mais emblemáticos de sua prolífica carreira. Assim, aquele garoto nordestino pobre de "Na hora do Almoço", de 1971, passou a se tornar o homem maduro, de descobertas da vida adulta e romântico, com " A camisa toda suja de batom", ou o homem contemplativo e filosófico, que aguardava "uma nova mudança que pode acontecer", onde "precisamos todos rejuvenescer".

Sobre a obra de Belchior uns dizem que ele era a versão do nosso Bob Dylan nordestino. Eu prefiro achar que o músico assemelhava-se mais a Lou Reed, por conta de sua crônica seca da vida social, dos amores, seja por uma mulher, seja por um lugar, causa ou cidade. Suas músicas transcenderam o tempo e se eternizaram, e até mesmo um bloco de carnaval em Belo Horizonte (o "Volta Belchior"), celebra anualmente suas músicas. De personalidade um tanto esquiva, sem ser doentia como João Gilberto, após um reluzente sucesso nos anos setenta e na primeira metade dos oitenta, a nova indústria musical que surgiu parecia não mais agradar o cantor cearense, fazendo aparições cada vez mais raras e lançando menos discos, compondo menos. Nesse período, em pouco tempo, sua imagem desapareceu das televisões e ele se limitou a viver de promover os seus shows pelo Brasil.

Nesse tempo, a lembrança que tenho mais positiva e pessoal de Belchior ocorreu em dois episódios, no começo dos anos 90 e no começo dos anos 2000. Em 1990 eu acabara de entrar na universidade, Belchior já era uma lenda, e lembro de ter ido ao Teatro Alberto Maranhão e ter  assistido ao "Projeto Seis e Meia", numa noite de terça-feira, onde músicos famosos apresentavam-se na cidade com ingressos a preços populares. Lembro que, como estudante recém entrado na universidade, pagando meia entrada, fui curioso assistir a um show de Belchior a convite de uma amiga de turma, e assisti ao vivo o cantor com seu indefectível bigode, ainda no auge da forma artística, cantando seus maiores sucessos na voz e violão. Dez anos depois, no ano 2000, eu estava em Brasília, numa conexão de voo para Natal, retornando de uma seleção de mestrado em São Paulo e lembro-me de ter encontrado no saguão do aeroporto, um sujeito magro, de cabelos negros e vasto bigode, bem vestido com uma camisa de manga larga e botões e um colete preto por cima, sentado numa das poltronas, enquanto lia um livro de capa dura. Só podia ser ele, era Belchior!! Perdi toda a vergonha de fã e me aproximei do cara, tomando o maior cuidado para não parecer abusivo. Quando ele levantou a cabeça e me olhou não pude deixar de dar um sorriso envergonhado e perguntar pro cara, meio constrangido, se ele era mesmo o Belchior. Como ele respondeu afirmativamente, começamos uma curta, mas animada conversa.

O autógrafo do artista no meu livro.
Havia falado a Belchior que dez anos antes eu havia assistido ao show dele no teatro, e ele não apenas lembrava do lugar, como também dos músicos e pessoas de Natal que ele conheceu no período. Disse que, assim como em outras regiões do Brasil, o Rio Grande do Norte tinha bons músicos, e ele ficou surpreso, quando eu lhe disse que além de formado em Direito, eu também tinha sido músico amador, e formado em 1995 uma banda de rock. Disse-lhe que também escrevia poesia, e que gostava de filosofia, ocasião em que ele afirmou que tinha percebido meu gosto por esse ramo de conhecimento, quando me viu carregando em uma das mãos um livro que tinha acabado de comprar sobre Direito e Linguagem. Ele me perguntou se eu gostava de literatura, e, ao responder que sim, aproveitei a deixa, e meu lado tiete falou mais alto que o acadêmico, e pedi a Belchior que autografasse o livro que eu havia comprado. Eu sabia que ele também tinha como hobby a caligrafia, e foi numa letra rebuscada que ele fez uma singela dedicatória, a um jovem que ele nunca tinha visto antes, mas que numa conversa de dez minutos já considerava uma companhia de viagem: "Para Fernando. Amigo sempre! Abraços do Belchior 2000". Desta forma, nos despedimos. Ele voltou para o seu livro e eu para o meu, enquanto caminhava em direção ao avião, emocionado, olhando aquela pequena dedicatória de um dos personagens históricos da música popular brasileira. Fiquei pensando na sua música: "Foi por medo de avião", e no seu gosto por Beatles, além da certeza de eu ter segurado, num aperto, a mão amistosa de Belchior.

Charge de Lucas Loureiro
Percebi que estava diante de um cara humilde, avesso a fama e badalações, que, por educação, tolerância ou uma calma extrema, não se incomodou com um fã chato que lhe pediu uma dedicatória num livro. Na verdade, no pouco tempo em que estive no saguão do aeroporto junto com ele, não vi ninguém reconhecê-lo, ou se reconheciam, ninguém se importava em cumprimentar o ilustre artista. Situação bem diferente quando, cinco anos depois do encontro no aeroporto, junto com a mulher ele desapareceu, sem deixar rastros, numa saída de cena polêmica, onde deixou um carro abandonado num estacionamento, além de familiares, empregados e credores, gerando uma repercussão midiática tão ou mais divulgada do que sua obra. Descobriu-se anos depois que o músico tinha ido viver no Uruguai, totalmente falido, com as contas bloqueadas por conta de decisões judiciais em processos movidos por pensão alimentícia ou dívidas trabalhistas. Sem poder recolher os direitos autorais de seus discos, Belchior vivia de favor na casa de amigos, que sempre admiraram a sua arte, perambulando como um nômade de cidade em cidade, caminhando sua "légua tirana". No fim das contas, aquele Belchior que eu vi no aeroporto já tinha retornado a ser aquele mesmo nordestino pobre de outrora, um viajante, sem dinheiro no banco, e, que, nas "paralelas" da estrada da vida escolheu seu próprio destino, sem demonstrar mágoa ou arrependimento.

Eis que Belchior transformou seu exílio na sua última grande obra. Do noticiário até programas humorísticos, parecia que o sumiço do músico ficara tão lendário quanto seu mais famoso disco: "Alucinação". Milhares de pessoas, habitantes da simpática e pacata cidade de Santa Cruz do Sul, ficaram surpresos, ao saber da morte do cantor no noticiário, pois não tinham a menor ideia de que vivia recluso e oculto na cidade um morador tão ilustre. Quando foi anunciada sua morte, o governador do Ceará apressou-se em providenciar que o corpo fosse transportado para seu estado, velado em Sobral, a terra natal do cantor, e fosse, enfim, enterrado em Fortaleza, com ares de funeral de um chefe de Estado. Quem dera todo esse reconhecimento oficial fosse feito ainda em vida, as homenagens fossem suficientes para pagar as contas e os credores, e num Brasil atordoado por uma crise política galopante, Belchior ainda pudesse estar aqui conosco, compondo e cantando canções de protesto, que, com certeza, como ele cantava em "Fotografia 3 X 4", poderiam servir de alento para aquele "que ficou desnorteado, como era comum em seu tempo, que ficou apaixonado e violento, como todos vocês".

Sepultamento do cantor.Justa homenagem no Ceará.
Vendo pela televisão o corpo de Belchior num caixão, em sua última despedida, com seu longo bigode pintado de preto ainda se destacando, não pude deixar de observar que, mesmo morto, ele continuava a me inspirar um ar filosófico. Das lições que aprendi, ouvindo as músicas de Belchior foi que, como cristão e socialista, mesmo que a realidade lute contra, constatei que, apesar de tudo, "AMAR E MUDAR AS COISAS ME INTERESSAM MAIS!". Meus aplausos para Belchior!! Na estante o livro ainda está ali, bem perto, lembrando-me do quanto o músico falecido ainda continua próximo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

COMPORTAMENTO: Maui e o preconceito estético

Estreia essa semana nos cinemas, a animação "Moana", dos estúdios Disney, dirigido pelos bem sucedidos diretores de animações, Ron Clemens e John Musker. O desenho deverá encantar crianças e adultos, pois se passa na Oceania, onde a heroína, uma morena de cabelos cacheados, faz-se acompanhar de um semideus grande, forte e gorducho, o indolente Maui (dublado pela voz do ator Dwayne Johnson), em paradisíacas paisagens oceânicas, que lembram as ilhas de Fiji, Samoa e Bora Bora, recriadas perfeitamente após uma pesquisa geográfica com afinco, além de apresentar um vilão que, na verdade, é um acidente natural (um vulcão). 

Entretanto, antes de estrear, o filme já gerou controvérsias nas democráticas, mas nem sempre esclarecidas redes sociais, com muitas críticas ao personagem heroico do filme, o semideus Maui, pelo simples fato dele ser gordo. Maui é alto, cabeludo e todo tatuado, mas, sobretudo, corajoso e um tanto engraçado. Apesar dessas qualidades, alguns "vigilantes do peso" virtuais apenas viram um cara gordão no meio da tela.

O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que sempre preferia em suas peças, colocar como vilões os magros, e fazia uma defesa pública dos gordos; pois, entre suas tiradas históricas, pode-se colher as seguintes expressões: "O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço", ou em relação aos magros: "É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros."

Rodrigueanismos a parte, os comentários maldosos acerca da silhueta do herói do desenho da Disney, a meu ver, tem relação com um velho elemento cultural: o preconceito estético. Numa sociedade que prioriza a forma, a perfeição do corpo, e, principalmente, cultua um ideal de saúde representado por um corpo magro, esbelto, e, de preferência musculoso, aqueles que apresentam um semblante mais roliço tornam-se párias, os marginalizados da beleza. Se são crianças, sofrem a mais cruel das provações sociais: o bullying. Quando criança, no efeito sanfona que sempre permeou a vida (e o formato) de minha trajetória, eu sofria uma dupla estigmatização: ser gordo e usar óculos; ou seja, um alvo fácil para meus algozes "perfeitinhos" e magrinhos. 

Existe muita ignorância em relação à forma física de cada um, e aos padrões de beleza associados ou não a uma camada maior ou menor de tecido adiposo. Ora, na Renascença, nos diversos quadros de Renoir, as mulheres bonitas eram retratadas com uns quilos a mais, pois o padrão de beleza estava associado à ociosidade dos ricos, que, por isso, mais bem alimentados, contrastavam com a esqualidez da camada mais pobre do campesinato.

Hoje em dia, inclusive, proliferam a moda das modelos plus size, representada por mulheres muito bonitas, mas com uma desproporção acentuada entre a altura e o peso do corpo. Mesmo assim, no mercado de trabalho, é comum ainda encontrar resquícios de preconceito estético nas contratações por algumas empresas privadas. Quem nunca se sentiu excluído, por ter uns quilinhos a mais, quando viu nos cartazes de ofertas de empregos, a crucial expressão: "requisito da boa aparência"?!

Eu mesmo vivi e ainda vivo no meu cotidiano cenas de preconceito explícito quanto a minha forma física, e percebo que a ignorância acerca da democracia estética atinge também o discurso médico. Como diria o filósofo Michel Foucault, o discurso médico também é uma das formas de saber, e saber é poder, pois o conhecimento também pode ser utilizado como uma forma de opressão. Na teoria de Foucault, o saber dos doutos podia se manifestar como um poder estabelecido sobre os corpos. Desta forma, senti a força dessa opressão corporal ao me dirigir, por exemplo, a um gastroenterologista para resolver um problema de estômago, ou a um otorrinolaringolista, para tratar de um problema de sinusite. Foi até engraçado, pois ambos, sem sequer medir a minha pressão arterial ou me examinar com um estecoscópio, ao me ver entrando na sala, e olhar para meu corpanzil, já sentenciaram: "seu problema está relacionado com o aumento de peso, o senhor precisa emagrecer". Ora, consulto anualmente um cardiologista, faço todos os testes e exames, e, graças a Deus, pelo menos até o momento, minhas taxas estão todas equilibradas e não apresento nenhum problema sério de saúde, a não ser uma hipertensão arterial, que é herdada de família, e que, passei a desenvolver, aos 30 anos, quando era............. magro!!!


Vivi um efeito sanfona a vida toda, alternando momentos de extrema magreza e excesso de peso. Tenho 1,74 m, mas me recordo que, em 2005, quando tive uma súbita perda de peso, por conta de um doença, cheguei a pesar 82 kg, e todas as pessoas, especialmente colegas de trabalho e alunos em sala de aula comentavam nos corredores que eu deveria estar gravemente enfermo, e até mesmo portando o vírus da AIDS, tamanha era minha magreza e abatimento. Talvez por conta de minha estatura larga, não posso perder peso em excesso, e talvez por conta disso meu peso ideal sempre esteve entre 90 a 95 kg. E se me perguntarem hoje? Sim, estou acima do peso. Tenho mais de 100 kg, apesar de correr toda semana e fazer academia ao menos duas vezes por semana. É pouco? Com certeza. E tendo deixado de fumar há mais de 5 anos, passado dos 40 anos, onde o metabolismo necessariamente se modifica e se torna menos acelerado, preciso, sim, fechar a boca, adotando uma dieta mais regrada e baixa em calorias, além de fazer mais exercícios. Entretanto, busco isso não para atingir um ideal estético, pois sou feliz como sou, e na minha autoestima, ainda acho-me um cara maduro bastante atraente. Perder peso para mim é apenas uma forma de aumentar minha qualidade de vida, tornar-me mais ágil e menos suscetível a doenças com o decorrer da idade, e, também, uma forma de aproveitar melhor minhas calças preferidas. Mas enquanto aqueles que acham que o Maui do desenho da Moana é um monstro gordo e não deveria estar lá?

Numa sociedade que cultua a magreza,as plus size destacam-se
Eu digo que o preconceito estético começa em nossas casas, dentro da nossa própria família. É na família que ele começa quando nossos pais nos criticam, e uma forma menos delicada de dizer que estamos comendo demais ou além da conta, é dizer que estamos gordos (ou, com menos sensibilidade ainda, dizer que vamos nos transformar numas baleias). Sou de uma família de pessoas de corpo avantajado como herança genética, a começar pelo meu pai, e, mesmo assim, desde criança, até a vida adulta, ouvi meus pais caçoarem de mim toda vez que eu aumentava de peso, dizendo que eu estava virando algum animal qualquer, de um zoológico de bichos de perfil nada esquálido. Não faziam (ou não fazem) isso por maldade, mas por uma forma de alertar os filhos sobre os problemas de saúde associados ao sobrepeso. Entretanto, ainda me resta um fio de mágoa ao escutar comentários acerca do tamanho de minha barriga, cultivada há mais de dez anos entre barris de chope da melhor qualidade, quando advirto a eles que faço exercícios e que minha saúde esta ok. Então, por que tanta falação?

Meus pais, como muita gente que ocupa as redes sociais, estão alienados por um modelo cultural baseado em uma ideologia: a ideologia da perfeição corporal, e isso não deixa de ser autoritário, beirando as vias do totalitarismo político. Ora, o tipo ariano, exortado por Hitler, na Alemanha nazista, não era apenas o ideal de indivíduo loiro, nórdico, da pele branca e sem manchas, mas também do tipo atlético, magro, esbelto e sem barriga, que representa uma suposta raça superior. Você já pensou se os nazi-fascistas tivessem ganhado a II Guerra Mundial, e além de homossexuais, deficientes físicos e mentais, negros, judeus e ciganos, eles também eliminassem, nas câmaras de gás, os gordinhos? Creio que metade da população dos Estados Unidos da América, alimentada a base do fast food, desaparecia do planeta, seria varrida do mapa, juntamente com seus copos de milk shake, seus pacotes de batatas fritas e seus sanduíches com bacon.


É importante salientar que minha crítica neste post não é um ataque recalcado aos magros, não faz apologia da gordura e nem estabelece um autoritarismo às avessas: ao pretender que todos fiquem gordos ou acima do peso, no lugar daqueles que estão magros, e ficam "se achando". Minha crítica acerca do preconceito estético é apenas um libelo, na tentativa de conscientizar aqueles que reconhecem seu preconceito, de que a beleza das pessoas não é só interior, é verdade, mas ela vai muito além das barrigas de tanquinho, e supera camadas e camadas de gordurinha que você possa ter na barriga, no quadril, ou abaixo do pescoço. Na verdade, olhar o outro de outra forma, além do seu peso, envolve entender que todos os padrões estéticos que adotamos, num determinado momento, são datados historicamente, e ser mais magro ou menos gordo não é o critério principal para você se relacionar com ninguém, seja para manter uma amizade ou para contrair um casamento. O que parece gordo para você, pode parecer belo para o outro, ou que é magro, para alguns, pode simbolizar muitas coisas, menos a beleza.

Em tempo: no tocante ao personagem Mauí, do filme da Disney, importante acrescentar um dado antropológico: entre os povos da Oceania, os tipos mais largos e arredondados pertenciam à nobreza, a classe dos guerreiros, pois os lutadores eram mais bem avantajados, pois precisam se alimentar mais, e, portanto, as crianças que forem assistir a animação podem, sim, ter um herói gordo, e Maui representa um desses tipos de heróis. Que meu filho, ao buscá-lo na escola, possa vislumbrar chegando um desses heróis, e não apenas um cara barrigudo, que tomou cervejas demais!!
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