segunda-feira, 29 de agosto de 2016

ARTIGO: Se o marxismo é o ópio dos intelectuais, o capitalismo é a cocaína dos neoliberais!

Recentemente foi relançada  a grande obra "O Ópio dos Intelectuais", do célebre sociólogo francês do século XX, Raymond Aron (1905-1983). No livro, escrito originalmente em 1955, Aron expõe nas entrelinhas porque rompeu com grandes intelectuais de sua época, como Sartre e Merleau-Ponty, e sob o pressuposto de denunciar os abusos totalitários do stalinismo e diante da adesão de muitos pensadores europeus ao chamado eurocomunismo, ele tentou dissecar os porquês da simpatia de boa parte da academia e do segmento universitário às posições políticas de esquerda.

Antes de ser um crítico da esquerda, Aron era um crítico do marxismo, principalmente na sua forma mais partidarizada e autoritária, representada pelo Partido Comunista Soviético e seus métodos de recrutamento, baseado num stalinismo que identificava a luta de classes como uma verdadeira crença religiosa a ser seguida, e a vanguarda revolucionária, representada pelo partido, como os santos da Revolução proletária. O livro foi publicado, antes da descrição dos crimes praticados durante o regime totalitário de Stalin, na União Soviética, por seu sucessor, Nikita Kruschev, no XXII Congresso do Partido Comunista, e parecia ter um tom premonitório: os comunistas eram os inimigos da democracia. Só que, aqueles que hoje reeditam e propagandeiam sua obra, na tentativa de criticar duramente todos os que assumem posições políticas de esquerda, esquecem-se da conjuntura e do todo o contexto político global em que foi publicada a obra do pensador francês, bem diferente dos dias globalizados de hoje.

Na época de Raymond Aron, os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, estavam no apogeu da "Guerra Fria"; período conhecido nos livros de história como o de uma tensão geopolítica constante, de conquistas de territórios, por meio da revolução, da contrarrevolução, espionagem e fomento de conflitos, competição desmedida, e, principalmente, da propaganda entre dois mundos ideológicos gravitados em torno de nações com visões de mundo e sociedade totalmente diversas. Como peças em um tabuleiro, as nações do planeta, inclusive o Brasil, viam-se disputados por esses dois grandes grupos, que como num jogo de futebol, representavam, de um lado, o "império do mal" comunista, pintado nas cores totalitárias do stalinismo, ou o "reino da liberdade" capitalista dos norte-americanos, da riqueza, democracia e do livre consumo dependendo do ponto de vista e posição política adotados.

Entretanto, apesar de diagnosticar com sensatez e acuidade histórica todos os abusos do sovietismo, e denunciar as revoluções populares que desaguaram em ditaduras, como o caso emblemático de Cuba e da própria União Soviética, creio que Aron peca, principalmente, por uma falta de honestidade intelectual, como pensador de seu tempo. É inquestionável que a intensidade das paixões políticas do século XX, fermentadas por ideologias, serviu para um certo emburrecimento, quando não uma cegueira de boa parte da comunidade acadêmica internacional. A esquerda militante classista, inspirada em grandes líderes de seu tempo, como Stalin na Rússia, Mao-Tsé-Tung na China, Fidel Castro em Cuba ou Ho-Chi-Min, no Vietnã, viu o sonho de uma sociedade mais justa terminar sob a bota de tiranos, na formação de ditaduras que eram somente engrenagens opressoras de um partido sobre o povo, e não do proletariado sobre seus algozes. No Brasil, durante décadas, Luiz Carlos Prestes foi a expressão mais imediata do líder político da vanguarda, que, como um grande timoneiro, conduziria a classe operária ao paraíso do fim da opressão burguesa-industrial. A História mostrou um resultado diferente, é verdade, mas a direita conservadora ou neoliberal, também teve seus ídolos, que também fracassaram na tarefa de conduzir uma sociedade de "homens livres" à glória da acumulação individual de capital, no reino da felicidade do mercado. Seus ícones como Ronald Reagan, nos Estados Unidos da América, Margareth Thatcher, na Inglaterra, ou Jacques Chirac, na França, não conseguiram demonstrar que os sistemas que defendiam eram melhores, seja pela intensa desigualdade social que criaram e mantiveram (a greve dos mineradores contra o governo Thatcher, na Grã Bretanha, foi um exemplo disso), seja pelos governos autoritários que respaldaram, financiando ditaduras militares e grupos contrarrevolucionários somente para desestabilizar (ou até mesmo destruir) governos de esquerda, democraticamente eleitos, nos países latino-americanos e africanos, como foi o caso do financiamento do sangrento golpe no Chile, em 1973, com a deposição e morte do presidente democraticamente eleito, o socialista Salvador Allende, e ascensão do ditador Augusto Pinochet.

Para mim, a principal observação que faço à crítica de Aron é que, em sua preocupação de querer parecer um brasileiro instruído, militante político tucano de classe média supostamente "em cima do muro",  e espectador da rede Globo,o pensador francês acabou por omitir talvez um dos maiores dilemas e a grande sacanagem do capitalismo, que o tão criticado Karl Marx pôde diagnosticar tão bem: o fenômeno da exploração.

É a exploração, seja a econômica nos tempos da revolução industrial de Marx, ou mesmo a que se dá hoje em tantos outros aspectos, como a exploração social, cultural, midiática e até sexual, que o capitalismo, enquanto sistema econômico, encontra seu cerne e seu grande motor motivador. Hoje, os teóricos e jornalistas da Nova Direita brasileira ou setores neoliberais de todo o mundo exortam o quanto a Inglaterra, país que deveria ter sido o berço do proletariado revolucionário, protagonizado por Marx e Engels em seu "Manifesto Comunista", e que poderia ter sido a grande vanguarda, a grande nação porta-voz do Novo Mundo da utopia socialista, tornou-se uma emergente e forte nação capitalista, onde a exploração do homem pelo homem cedeu espaço à pujança e a obtenção de direitos sociais, como saúde, moradia, emprego e educação, sem que fosse necessário abolir a propriedade privada e instituir uma ditadura. Esses mesmos defensores do modelo capitalista britânico ficaram chocados quando os ingleses decidiram em plebiscito não mais participar da União Europeia (e agora, José?). O problema é que esses mesmos leitores e divulgadores dessa crítica jogam para o tapete um outro segmento tão ou mais explorado, que fomenta hoje a maior parte dos problemas da Europa atual: os imigrantes.

Assim como os pensadores e intelectuais esquerdistas teriam o marxismo como sua pseudoreligião, cegados ideologicamente, segundo a crítica de Aron, a um determinismo irracional, quase positivista, de aceitar como crença uma inevitável condução da sociedade ao socialismo, os apologistas da direita, especialmente os representantes de doutrinas liberais e economicistas, acreditam ainda hoje que o capitalismo é a solução natural para resguardar um reino da felicidade baseado na liberdade individual, pelo incentivo à livre iniciativa. Permeada de um completo darwinismo social, encontrado antes na teoria de Spencer, a doutrina liberal ou neoliberal demonstrou que, de moderna não tem nada, e na verdade é tão antiga como o pensamento escravagista ou feudal, uma vez que pressupõe uma ordem social entre dominadores e dominados. Afinal, enquanto alguém lucra e desfruta das benesses materiais, outro tem que trabalhar e produzir pra sustentar esse lucro. Não existem banqueiros sem funcionários, não existe a fábrica e nem os industriais sem os operários e não existe o escritório do chefe, sem seus subordinados, numa estrutura supostamente imutável, como pensava o filósofo conservador Edmund Burke, onde uns nasciam para servir, outros para dominar. Até mesmo no cinema, diversos filmes de ficção científica, clássicos ou inspirados em histórias em quadrinhos, revelavam essa visão natural de uma sociedade de classes dividida entre interesses antagônicos, onde uns subjugam para não serrem subjugados. Entretanto, no lugar da aliança de classes pensada no filme Metrópolis do cineasta alemão Fritz Lang (1927), deu-se a rebelião e o conflito, como aquele observado nas cenas do filme Expresso do Amanhã (2013), do cineasta coreano Jo-Hoo Bong. Filmados em épocas distantes, estas duas obras cinematográficas representam bem uma realidade de revolta com o sistema capitalista que vinha desde a Comuna de Paris, do século XIX, passando pela revolta dos marinheiros russos no Encouraçado Potenkin, em 1905, até chegar aos Occupy Wall Street, contra a expansão capitalista globalizada dos dias de hoje, gerando um futuro distópico, onde, mais uma vez, os menos abastados economicamente são os mais oprimidos politicamente, porque são continuamente escravizados, dentre as engrenagens medonhas de um sistema que, na paródia da máquina (um robô, no filme de Lang, e um trem, no filme de Bong),em contrapartida, lhes vende a imagem de um sistema democrático e protetor.

E qual a solução para o livro de alguém que denuncia um embuste, quando na verdade sua própria crítica do embuste também é embusteira? O  "Ópio dos Intelectuais" denuncia uma droga que entorpecia o pensamento dos intelectuais do século passado, sem lhe mostrar o antídoto, revelando, na verdade, uma postura passiva de aceitar as coisas como elas são, limitando-se a simplificar o debate, ao dizer que a história não se resume a luta de classes. Ora, ao elogiar o americanismo, menos como ideologia e mais como um sistema de conceitos como o de respeito à Constituição e à liberdade individual, o culto da ciência e da eficácia, Aron desdenha do pensamento europeu (notadamente o Francês) e exorta um modo de produção que, também não deixa de ter ares de um culto. Nesse sentido, o teórico francês propõe substituir, tão e simplesmente, um ópio por outro.

Ora, sou mais simpático ao livro "Multidão" do pensador italiano Antonio Negri, feito às quatro mãos juntamente com o pesquisador norte-americano, Michael Hardt. Nesse livro, os autores reconhecem que a velha dicotomia marxista entre burguesia e proletariado é insuficiente para se compreender as diversas facetas da desigualdade entre os homens nos dias de hoje, face a pluralidade cultural e social. Mas, ao falar que hoje é mais conveniente falar de uma estrutura social em redes do que em classes, os teóricos citados não retiram da pauta da sociedade a luta contra a exploração e todas as formas opressoras de dominação. Isto implica em falar de uma opressão tanto do capital econômico, quanto de um capital imaterial, intelectual. A opressão de gênero, racial e de orientação sexual soma-se a opressão de classe, e a crítica marxista sobre as formas de opressão ainda persiste, mesmo que Raymond Aron tentasse "tapar o sol com a peneira", ao propor a solução individualista do "intelectual responsável", aquele que participa dos partidos, mas prioriza aqueles que mais valorizem o homem. O intelectual de Aron é aquele que não limita a assinar manifestos contra as injustiças, participa das ações políticas, mas não se vincula a partidos ou Estado algum. Essa alegoria poderia estar presente nas "Marchas de Junho" de 2013, quando milhões de pessoas, sem vínculos de ideologia ou preferência política, lotaram as ruas dos grandes centros urbanos do Brasil, numa onda espontânea de grande manifestações e protestos de rua. Entretanto, tal figura seria suficiente num período de radicalização política? Não teria ele que assumir um lado?

Insisto em dizer que a obra de Aron é datada, por conta de que o vibrante sociólogo francês não teve tempo de viver para observar o apogeu da globalização, o fim do bloco soviético e da Guerra Fria, o rearranjo de forças políticas com a formação da União Europeia, a Guerra na Bósnia, o surgimento do terrorismo fundamentalista islâmico e nem os atentados às Torres Gêmeas no World Trade Center. Se ele tivesse visto tudo isso, talvez se juntasse a toda uma nova categoria de intelectuais, que descrentes tanto dos ideais da velha esquerda quanto da nova direita assumida, buscariam traçar terceiras vias possíveis, como teóricos da linha de Antony Giddens, ou mais radicais como Slavoj Zizek. Destaco aqui, como contrapartida ao pensamento esboçado no "Ópio", a relevante obra do pensador húngaro, Istváz Mészaros, "Para Além do Capital". No livro, o filósofo discute que o capitalismo fundou-se num tripé, formado pela aliança entre capital, trabalho e Estado. Assim, criticar o socialismo por defender um Estado social forte, é de uma incoerência suprema, tendo em vista que o capitalismo também necessita do Estado para sobreviver. Isso significa dizer que, se os bolcheviques, na Revolução Russa, tomaram de assalto o poder do Estado, para estabelecer um governo opressivo, os capitalistas neoliberais burgueses também não fizeram diferente, ao se impor pelo poder dos lobbies dos bancos e das grandes corporações capitalistas, vencendo eleições e estabelecendo governos protecionistas e predatórios do capital dos países vizinhos, especialmente os da América Latina, que resultam hoje num surto de imigrações clandestinas, dos expropriados mexicanos até seu poderoso país vizinho, atravessando a fronteira em busca de emprego e comida.

Também merece destaque para compreender melhor nossos tempos (e também saber como pensam os intelectuais de hoje) ler a célebre obra "O Capital no século XXI", do economista francês Thomas Piketty, além da obra de seu compatriota, mais à esquerda, Alan Badiou, autor de "A Hipótese Comunista". Em ambos os livros, seus autores buscam demonstrar que o capitalismo não é o "reino da felicidade" como apregoam seus defensores neoliberais. Na obra de Piketty, observamos que 10% dos mais ricos detém 60 a 70% da riqueza global. Isso significa dizer que, enquanto uma família passa fome na Somália, sem ter um pedaço de pão para comer, bilionários multiendinheirados, como Rupert Murdoch, do extinto semanário inglês News of the World e um dos magnatas da mídia mundial, sorvem vinhos caríssimos a bordo de jatinhos. Felicidade de uns, tristeza de outros? A ordem natural das coisas? Basta se esforçar para conseguir o que quer? Essa lorota liberal foi pregada deste os tempos de Adam Smith, o que demonstra que a cantilena capitalista de nova, não tem nada. Nem é nova a forma como a ideologia dos mais poderosos faz ver que errados são aqueles que se prendem a uma teoria política e econômica que propôs uma intensa revolução social, como se fosse uma crença, e não aqueles que defendem a manutenção de um modelo brutal e absolutamente injusto de exploração. "Não existe almoço grátis", dizem os capitalistas e articulistas de revistas como a "Veja". O almoço pode não ser de graça, mas a solidariedade é. Nesse sentido, até o Papa Francisco junta-se em sua crítica a uma cruzada anti-capitalista. Será que o Vaticano, com seu poder milenar, também foi contaminado pelo "ópio intelectual" do marxismo?

Já o livro de Badiou é excelente, por instilar no leitor uma curiosidade intrépida, ao propor uma retomada do termo "comunista", não mais como adjetivo, mas sim como um novo conceito histórico. Conterrâneo mais jovem de Aron e ainda em atividade, juntamente com Zizek e Negri, ao analisar os fracassos da experiência soviética e da Revolução Cultural chinesa, no século XX, Badiou utiliza-se de uma comparação científica com o "Teorema de Fermat", na matemática, que permaneceu sem solução durante três séculos, após várias experiências. Nesse sentido, fracasso não se confunde com abandono, no momento em que reiterar ou insistir numa experiência não significa necessariamente que se vá novamente incidir em erro. O "comunismo" enquanto hipótese é uma ideia política que ganha novos contornos no século XXI, e que não passa mais necessariamente por Estados ou partidos. É na mobilização social e nas novas formas de convivência civil que se pode conceber uma nova experiência que dê lugar a velhos esquemas opressivos de exploração.

Portanto, diante de um arcabouço teórico tão ou mais intenso do que aquele propagado pela Nova Direita e seus meios de comunicação, acredito ser um chamado à inteligência ter acesso a pontos de vista diferenciados, aguçados com a realidade atual de conflitos que vivemos, do que, simplesmente, reeditar e propagandear uma obra antiga, de um pensador que não concebeu os tempos vividos neste século, pois não teve tempo de viver pra isso. Isto é melhor do que, simplesmente, utilizar um livro  antigo de Aron como instrumento político, tão somente para desmoralizar o pensamento de esquerda. Nesse sentido, enquanto os intelectuais marxistas entorpecem-se de seu ópio ideológico, os de direita, defensores do capital, buscam endinheirados sua cocaína mental, achando que um sistema baseado na exploração é a única e melhor saída para a humanidade. Prefiro ficar nos meus vícios ideológicos do que ventilar nos meios de comunicação tanta besteira!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS: TÃO LONGE, TÃO PERTO!

A XXXI edição dos Jogos Olímpicos, em 2016, aconteceu pela primeira vez em um país do Hemisfério Sul. Para ser mais exato, no Brasil, na América Latina. O Rio de Janeiro, com sua paisagem paradisíaca (além da caótica e violenta vida urbana) foi cenário da edição mais marcante das Olimpíadas, para os brasileiros, desde sua primeira edição na era moderna, em Atenas, no ano de 1896, quando o barão Pierre de Coubertin teve a brilhante ( e diplomática) ideia, de reunir os povos mundialmente num evento que reproduzia os jogos realizados pelos gregos antigos, numa celebração esportiva que tomaria o lugar das guerras e proporcionaria uma abertura nas relações e trocas comerciais. O negócio deu tão certo que continua até os dias de hoje, com uma avalanche grandiosa de marketing e investimento público e comercial. Historicamente, o legado dos Jogos repercute no desenvolvimento econômico e social dos países que lhe foram sede de maneira positiva, e no Rio de Janeiro, mesmo com todos os nossos problemas, isso não poderia ser diferente.

São diversos e tantos aspectos que podem ser explorados, como retrospectiva e avaliação dessas Olimpíadas, exibidos à exaustão pelos meios de comunicação, que eu me vali de comentários distribuídos em 15 itens, para maior compreensão do leitor. Por isso, eu listo aqui, esquematicamente, os que, para mim, foram os fatos mais marcantes dessa Olimpíada:

1) O QUADRO DE MEDALHAS: A delegação brasileira de 462 atletas ( a maior da história) fez pouco em relação às Olimpíadas de Londres, em 2012, quando então o Brasil atingiu a sua marca histórica da maior quantidade de medalhas (seguindo o critério do Comitê Olímpico Internacional-COI), perfazendo, este ano, um recorde de 19 medalhas, sendo que 7 foram de ouro (em comparação com 5 de ouro em Londres), 6 de prata e 6 de bronze. A meta do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) era de que no Rio de Janeiro, o país ficasse no seleto grupo, entre as dez maiores nações do mundo, ganhadoras de medalhas nos Jogos. Nesse sentido, batemos na trave, ficando numa honrosa 13ª colocação, atrás de Austrália, Holanda e Hungria,  mas na frente de países europeus ou do hemisfério norte, alguns primeiro-mundistas e com grande investimento no esporte, tais como Espanha, Croácia e Canadá, e outros com tradição de medalhas,  como Quênia, Jamaica, e Cuba. Em relação a Jamaica e Quênia, vale salientar os destaques tradicionais de atletas africanos e jamaicanos no atletismo, nas corridas de curta ou longa distância, sempre disputando (e ganhando) medalhas de ouro, o que os bem posiciona no ranking, e ajudou seus países a crescer no quadro de medalhas; com a consagração de atletas como os velocistas Usain Bolt e Elaine Thompson, nos 100 metros rasos, e os quenianos, Asbel Kiprop, nos 1.500 metros e Vivian Cheruyot, nos 5.000 metros, nas modalidades masculinas e femininas, respectivamente. Cuba, por sua vez, vem demonstrando historicamente uma decadência esportiva no quadro de medalhas, que corresponde a profunda crise econômica que assola continuamente a ilha dos irmãos Castro, principalmente após o fim da Guerra Fria e a morte de seu principal apoiador, o líder venezuelano Hugo Chavez.

2) O "JAPA" DO TIRO: Assim como Guilherme Paraense foi o primeiro brasileiro a conquistar medalha para o Brasil (ouro) na história, em uma Olimpíada, atirando de uma pistola (nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em, 1920, no tiro esportivo), a primeira medalha olímpica para o Brasil, no segundo dia dos jogos, foi obtida por um jovem militar, descendente de orientais, com cara de jogador de "Pokemon Go", que conquistou a medalha de prata no tiro, na pistola de ar de 10 m, sendo superado apenas por um vietnamita. Felipe Wu bateu continência com satisfação ao receber sua medalha, enquanto a bandeira brasileira descia na cerimônia de entrega aos três maiores atiradores do torneio, e escreveu com seu prodígio mais um capítulo da participação dos brasileiros nos Jogos Olímpicos.

3) A CONQUISTA DA MOÇA QUE VEIO DA FAVELA REABILITA O JUDÔ: Se Sarah Menezes decepcionou no Rio de Janeiro, e o judô, modalidade esportiva que tradicionalmente traz medalhas para o Brasil em Olimpíadas, não teve lá seus melhores resultados, ao menos uma medalha de ouro foi pendurada no pescoço de uma moça negra, de origem extremamente humilde, que foi salva da pobreza na Cidade de Deus através de um projeto governamental, que a transformou em campeã olímpica. Rafaela Silva redimiu-se da decepção passada, quando foi desclassificada em Londres, para subir no pódio mais alto no tatame, conquistando a medalha de ouro. Assim como Felipe Wu, Rafaela ingressou nas Forças Armadas e foi aproveitada pelo Estado brasileiro para desenvolver seu potencial olímpico. Graças  a ela, deu-se mais uma prova de que inclusão social no esporte não é mero projeto, mas realidade. Que se continue assim!

3) A CONSAGRAÇÃO DOS SEMIDEUSES DO ESPORTE: A Olimpíada do Rio de Janeiro também ficará para a história como o evento esportivo em que se aposentaram no auge da fama e do vigor físico dois gigantes de suas respectivas modalidades: o nadador norte-americano Michael Phelps e o corredor jamaicano Usain Bolt. O primeiro, um verdadeiro super-humano nas águas, além de já ter sido considerado o maior atleta olímpico da história, com a maior quantidade de vitórias conquistadas, na Olimpíada de Londres, e que, no Rio, viu aumentar seu quadro impressionante de medalhas, conquistando o inédito tetracampeonato na natação, com medalha de ouro nos 200 metros medley, além de 23 medalhas conquistadas no total. Agora, se Phelps é considerado insuperável na água, o homem mais rápido do mundo em terra é Bolt. Com forma física impecável, disputando sua última Olimpíada, Bolt praticamente voou nas pistas da arena carioca, encantando o mundo inteiro com sua força física e carisma (a pose do "raio" que o celebrizou, não podia faltar). Ambos os atletas chegaram à maturidade, após passarem dos 30 anos de idade, ricos, famosos e consagrados, com famílias a sustentar e um séquito incalculável de fãs. Nesta Olimpíada Phelps e Bolt despediram-se do público de forma épica. As cenas do nadador norte-americano, chocando o mundo com suas impressionantes marcas na piscina, e Bolt, correndo com um sorriso no rosto, nos metros finais que o aproximavam da vitória, nos 100, 200 e 400 metros, são imagens que ficarão na memória de gerações para sempre, e eu tive o privilégio de viver para ver esses superatletas darem o melhor de si e transformar o esporte num verdadeiro espetáculo. Obrigado por tudo, Phelps! Obrigado, Bolt!! Com personalidades distintas, mas ambos carismáticos, estes dois esportistas são, de longe, os maiores e mais honrados personagens desta Olimpíada.

4) A DECEPÇÃO DAS ATLETAS BRASILEIRAS NAS MODALIDADES FEMININAS, COLETIVAS E INDIVIDUAIS: As apostas eram grandes, a esperança infinita, o rendimento alto, a torcida enlouquecida, e os resultados anteriores, impecáveis. Mesmo com todos esses ingredientes, as seleções de futebol, voleibol e handebol femininas não conseguiram chegar longe nessas Olimpíadas, perdendo a oportunidade de disputar medalhas. A seleção de futebol de Marta e Cristiane, bem que tentou, em duas dramáticas e consecutivas decisões de pênaltis, contra a Austrália, nas quartas de final, e contra a Suécia, na semifinal, mas não conseguiram, na segunda oportunidade, evitar a derrota e a perda de oportunidade de disputar a final olimpíca, além de desperdiçarem a possibilidade de obter a medalha de ouro, quando, desmotivadas após um retrospecto de vitórias, perderam a disputa da medalha de bronze para a seleção do Canadá. Talvez o único gostinho de consolação para as jogadoras brasileiras foi ver a fragorosa derrota das algozes norte-americanas, na primeira fase do torneio, com direito a um "frango" da tão bonita quanto desbocada goleira Hope Solo. 

Mas a derrota sempre tem um gosto ruim, principalmente para o basquete brasileiro. Nem chegando à sombra do que era uma seleção olímpica nos áureos tempos de Paula, Marta e Hortência, o time  brasileiro de basquete feminino, que veio para as Olimpíadas, somente veio para perder. Não conseguiram ganhar um jogo sequer, sendo eliminadas precocemente na primeira fase do torneio.  O handebol feminino, campeão mundial, fez mais bonito, chegando a ganhar três partidas consecutivas, até ser eliminado nas quartas de final pela forte seleção dos Países Baixos.

Entretanto, o caso mais traumático de derrota de uma equipe feminina nos esportes coletivos foi a inesperada queda diante da seleção de vôlei contra a China, nas quartas de final do torneio olímpico. A equipe das bicampeãs olímpicas Sheila, Jacqueline e Fernanda Garay tinham eliminado por 3 sets a 0 todas as equipes que pegaram pela frente, na primeira fase (inclusive a China), e foi impressionante como a equipe do vitorioso técnico José Roberto Guimarães viu o sonho do tricampeonato desabar diante da eficiência do contra-ataque chinês. A comovente cena de ver o neto de 6 anos de Guimarães, descer chorando as arquibancadas do ginásio Maracanãzinho, coberto com uma bandeira do Brasil e correndo em direção ao avô para abraçá-lo, também resistiu nas minhas retinas e na minha mente, como uma das imagens dessa Olimpíada.

Até mesmo no vôlei de praia, carro-chefe de uma modalidade que nasceu nas areias das praias cariocas, as mulheres não tiveram sucesso em ganhar uma merecida medalha de ouro. A dupla Ágatha e Bárbara sucumbiu na final diante das alemãs Ludwig e Walkenhorst, que, muito melhores, venceram a disputam por dois sets a zero, deixando as brasileiras com o mérito de permanecer apenas com a medalha de prata. Mesmo na disputa do bronze, o Brasil também não conseguiu se impor, com a dupla Larissa e Talita, perdendo a disputa para a dupla feminina norte-americana, não conquistando medalha.

Mas, talvez, a meu ver, a maior decepção individual feminina desses jogos não foi a derrota da judoca Sara Menezes, medalhista de ouro em Londres e primeira brasileira campeã olímpica da modalidade, que, desta vez, não conseguiu repetir o feito e acabou saindo contundida na disputa dos pesos ligeiros do judô. O que mais me impressionou foi mais uma derrota retumbante no salto com vara da saltadora Fabiana Murer, campeã mundial em 2011, na sua modalidade. As expectivas eram grandes em relação a ela, até porque sua principal e célebre adversária, a campeã olímpica russa Yelena Ysimbaeva, foi proibida de participar dessa edição dos Jogos, por conta das denúncias de dopping no atletismo de seu país e a polêmica proibição do COB da participação da Rússia, por conta dessas revelações. Talvez por conta disso, muitos esperassem que Murer viesse à forra, após duas decepcionantes participações nas Olimpíadas de Pequim e Londres, onde, em ambas, a atleta brasileira era favorita. Desta vez, não foi por conta do desaparecimento de suas varas e nem por conta do vento, que a saltadora Fabiana Murer não viu a cor de uma medalha. Aos 35 anos, lesionada com uma forte hérnia de disco e quase sem condições de competir, a paulista não conseguiu sequer passar da fase eliminatória, errando seus três saltos e anunciando, desapontada, sua possível aposentadoria. Realmente, uma pena!

5) A DECEPÇÃO BRASILEIRA NA NATAÇÃO: Enquanto norte-americanos como Michael Phelps e Ryan Lochte brilhavam na natação, nossos nadadores, tanto na equipe masculina quanto na feminina, decepcionaram nos jogos, sem levar medalha alguma. O esforço de Thiago Pereira e a atuação de Joanna Maranhão nas piscinas olímpicas merecem respeito e reconhecimento, mas a grande falta sentida foi mesmo de César Cielo, primeiro brasileiro campeão olímpico dos 50 metros, em Pequim. O drama de Cielo começou antes dos Jogos, quando ele sequer atingiu a marca para ser classificado para as Olimpíadas em seu próprio país, o que levou a um período de depressão e reclusão, recusando-se até mesmo a carregar a tocha olímpica. Num país de herança subdesenvolvida, ter medalhistas olímpicos em modalidades nobres e tradicionais do evento esportivo mais importante do mundo, como a natação, ginástica e atletismo é quase uma questão de honra, e, não ter ganho uma medalhinha sequer na citada primeira modalidade, deve ser motivo de preocupação (e muito bronca) para o Comitê Olímpico Brasileiro.

6) O CHORO DO FRANCÊS E A FORÇA ATERRORIZANTE DAS VAIAS: De um lado, um campeão mundial destemido, europeu, oriundo de um país desenvolvido, aos 28 anos no auge do vigor físico, arrogante, concentrado, sabedor de seu talento e limitações, mas seguro da vitória, após superar um recorde histórico em sua modalidade, que tinha permanecido intocável por mais de vinte anos. Do outro, um jovem de origem humilde, nascido e criado num país da subdesenvolvida América Latina, egresso das categorias juvenis, com ótimos resultados, munido de um bom treinador, e aos 22 anos cheio de energia e aberto às oportunidades, inclusive, de ganhar uma medalha de ouro. Nesse duelo improvável, onde surgiu de forma fascinante mais um campeão olímpico, pude acompanhar, como num roteiro de filme, a espetacular vitória do saltador Thiago Braz, sobre o favorito francês Renauld Lavillenie, no salto com vara. Como todo brasileiro que assistia os jogos, sabedor da falta de tradição e da raridade do Brasil em conquistar medalhas de ouro no atletismo, eu jamais imaginaria que, para minha (grata) surpresa, o competidor brasileiro iria tão longe, e, pior, geraria uma das cenas mais extraordinárias que já vi numa arena olímpica. E começou tudo de forma tímida, mas marcante, precisa, progressiva. Enquanto o brasileiro procurava manter e superar suas marcas, junto com os demais competidores, pulando 4,90; 5,20; 5,80 metros, o competidor francês permanecia impassível, sem cumprimentar ninguém, introspectivo, sereno até, como que aguardando o resultado inevitável que lhe daria a vitória. Nesse dia, pularam, entre várias nacionalidades, competidores que vinham da Polônia, China, Rússia, Ucrânia, mas, nos últimos saltos, somente ficaram entre os três últimos a ganhar medalha, um norte-americano, um francês e um brasileiro. Da arquibancada, o técnico de Thiago Braz, o idoso e experiente técnico Vitaly Petrov (que tinha sido o mesmo de Sergey Bubka, até hoje uma verdadeira lenda do esporte, ganhador da medalha nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, e 11 vezes campeão mundial), orientava seu jovem pupilo entre os saltos, permanecendo sem esboçar emoção alguma, enquanto seu atleta pulava. Até que veio a mágica do esporte. Pedindo para saltar uma altura que nunca havia superado, os 6,6 metros, Thiago conseguiu a proeza de superar o salto de seu adversário francês, que já havia pulado 5,98. Lavillenie sentiu a pressão. Enquanto Thiago Braz marcava um recorde olímpico, o competidor francês, campeão mundial em sua modalidade, tentou fazer a mesma marca que já havia feito in door, de 6, 16m, superando o recorde anterior de 6,15m de Bubka. Não deu certo. Na única chance que tinha, o francês perdeu, e o Brasil explodiu em festa com mais uma medalha de ouro olímpica. Não ajudou o fato de Lavillenie ter culpado a torcida brasileira, que o vaiou constantemente, enquanto ele tentava acertar seu último salto, ao tentar repreender o povão, mostrando sua indignação, com o dedo polegar voltado para baixo. O que se seguiu, então, foi um espetáculo de glória para o atleta brasileiro, e de vergonha para o francês.

Não adianta explicar ao brasileiro que, em eventos esportivos internacionais realizados no mundo, o silêncio da plateia é fundamental, em algumas modalidades, principalmente no salto com vara, que, praticado ao ar livre, além de contar com a direção e força do vento, ainda precisa contar com a concentração de seus competidores. Revoltado e inconformado com a derrota que o levou a medalha de prata, Renaud Lavillenie chegou a comparar, com frases infelizes na imprensa, as vaias da torcida brasileira as do público alemão, nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, quando o atleta negro, norte-americano, Jesse Owens, conquistou a medalha de ouro no atletismo, sob reprovação de Hitler e do todo o staff nazista. Ora, os brasileiros não tem nada contra Lavillenie e nem contra os franceses, e, na verdade, não tem nada contra jogador algum. Aqui, vaia-se na hora em que nossos atletas estão em campo e não correspondem ao esperado, assim como vaiamos o time adversário, como forma de dar força ao nosso time e não para desmerecer ou desprestigiar o rival. Faltou essa lição de antropologia ao nosso pobre Lavillenie, que acabou pagando o pato por toda sua empáfia antes e depois da derrota para o brasileiro. Na entrega de medalhas, cheguei a ter pena do coitado que, um dia, queria ser campeão olímpico nos jogos brasileiros, e, ao ser vaiado na premiação, caiu em prantos, não resistindo à pressão, na cerimônia de entrega de medalhas. Foi preciso o próprio Sergey Bubka, em pessoa, aparecer na área, diante das câmeras de jornalistas do mundo inteiro, para desfazer o mal estar, reconciliando o francês com o brasileiro, ao menos temporariamente. Fica a lição para o campeão francês, que uma medalha de ouro não se ganha de véspera; e para o brasileiro: aproveite a oportunidade, pois muitas ainda estão por vir.

7)  A REDENÇÃO DE DIEGO HYPÓLITO E A CONSAGRAÇÃO DE ARTHUR ZANETTI NA GINÁSTICA: Devido ao seu alto grau de exigência, a ginástica olímpica não é fácil pra ninguém. Principalmente para um ginasta experiente, bicampeão mundial, como Diego Hypólito,  na busca de uma medalha em Olimpíadas, que viu dois fracassos olímpicos em duas edições anteriores dos jogos, estragarem seu favoritismo de forma dramática. Em Pequim, ele caiu de bunda, na final do solo masculino no tablado, e, em Londres, caiu novamente, durante a execução de suas manobras acrobáticas, o que levaram a perder o sonho de levar uma medalha para casa. Oito anos depois do vexame de Pequim, que lhe rendeu "memes" e zombarias em programas humorísticos, finalmente Diego se superou no Rio de Janeiro, e mostrou o grande ginasta que é. Aos 30 anos, tornando-se o mais velho competidor da final, Diego Hypólito conseguiu a medalha de prata, numa execução quase perfeita de seu solo (digo, quase, por conta da pontuação dos juízes, visto que sua apresentação foi impecável). Depois de muita terapia e superando uma depressão, Diego deu uma lição para o Brasil e uma bofetada moral nos seus críticos, dando a volta por cima, fazendo a alegria não apenas de sua família, como sua emocionada irmã, a ex-ginasta, Daniele, mas de toda a torcida brasileira, que soube reconhecer, finalmente, o seu astro. Parabéns, Diego! Medalhista olímpico. Ele, seu colega no solo Arthur Nory, que conquistou a medalha de bronze na mesma prova e  o ginasta Arthur Zanetti (medalha de ouro em Londres) que conseguiu também a prata nas argolas, são o exemplo de atletas brasileiros que, hoje, compõem um seleto e pequeno grupo dos melhores ginastas do mundo, de renome internacional. Pode-se dizer que atualmente o Brasil é uma das potências olímpicas na ginástica.

8) DESCENDENTE DE ÍNDIO, E ASTRO BRASILEIRO DA CANOAGEM COM TRÊS MEDALHAS: O nome dele é Isaquias Queiroz. Além do cabelo engraçado, com a franja alisada, ele tem a pele morena, cor de urucum, herdada de seus descendentes indígenas no interior da Bahia, um rim a menos, e, oriundo de uma família de pescadores,  o atleta brasileiro da canoagem renovou a modalidade para o povo brasileiro. Nas 3 provas que participou (um bronze canoa individual 200 metros, e prata na canoa individual 1000 metros e canoa dupla, 1000 metros, juntamente com o conterrâneo, Erlon de Souza Silva), Isaquias tornou-se o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas numa mesma Olimpíada (duas de prata e uma de bronze). O ouro não chegou ainda para ele, apesar de ter chegado perto, mas, com somente 22 anos, tudo leva a crer que ouviremos falar muito de um rapaz que representa uma das faces (e a alma) do povo brasileiro.

9) QUANDO O SOBRENOME (E O TALENTO FAMILIAR) FAZ A DIFERENÇA: Foi criada muita expectativa quanto à derradeira participação do veterano velejador e campeão olímpico brasileiro, Robert Scheidt, nesta Olimpíada, que, aos 43 anos, tentaria igualar os feitos nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e Atenas, em 2004, no iatismo. Infelizmente, não houve mais condições para o citado atleta conquistar medalhas nas águas da Baía da Guanabara. Entretanto, na modalidade da vela, o Brasil não ficou de mãos abanando, e coube a Martine Grael, acompanhada de Kahena Kuzne, formarem a dupla vitoriosa de velejadoras que conquistaram a medalha de ouro do iatismo, na classe 49 FX. Martine, filha de outro campeão olímpico, Torben Grael, honrou não apenas o sobrenome familiar, provando que "filha de peixe, peixinha é!", mas também honrou o país com seu feito histórico. Assim, uma dinastia de velejadores mantém-se firme para disputar o ouro em outros jogos.

10) FINALMENTE O RECONHECIMENTO DO BOXE: Nos Jogos Panamericanos as medalhas de ouro já tinham chegado, mas foi preciso ter uma Olimpíada no Rio de Janeiro, para que o boxe brasileiro fosse finalmente reconhecido como potência olímpica mundial, com a conquista da medalha de ouro pelo pugilista Robson da Conceição, na categoria de peso ligeiro. Em Londres, o Brasil tinha chegado perto da cobiçada medalha dourada, com dois irmãos lutadores: Esquiva (prata) e Yamagushi (bronze) Falcão. Mas, desta vez, na Cidade Maravilhosa, foi a vez de Robson levar para o Brasil um merecido ouro, após derrotar o favorito, o cubano e campeão olímpico Lázaro Álvarez, nas semifinais da competição. Aliás, a rivalidade entre Cuba e Brasil já se tornou histórica com os últimos confrontos olimpícos, e o êxito de nossos lutadores revela um futuro de glórias futuras na modalidade.
11)O ESCÂNDALO DE RYAN LOCHTE: Belo, talentoso, medalhista olímpico, amigo de Michael Phelps e a segunda maior estrela da natação mundial, o nadador norte-americano Ryan Lochte tinha tudo para ter saído do Brasil deixando uma boa impressão, com as medalhas de ouro conquistadas no revezamento 4 X 200 metros e prata nos 200 metros medley. Entretanto, um incidente com ares de reality show tornou-se um dos maiores escândalos de celebridade do ano, capaz até mesmo de ofuscar, durante alguns dias, a festa olímpica de Phelps, dado o caráter tragicômico do ocorrido. Numa suposta "saidinha" para a farra, da Vila Olímpica, Lochte fez tudo o que faz um cara jovem, bonito e famoso, quando está de folga, após ter ganho medalhas olímpicas: festejar (e, no caso dele, acompanhado de uma bela mulher). O problema é que ele se esqueceu de avisar a noiva nos EUA, e além de ter pulado a cerca, o norte-americano meteu-se numa enrascada policial desnecessária, ao mentir para as autoridades no seu retorno ao alojamento, pela madrugada, após ter voltado embriagado de uma festa, onde, alegou que ele e seus companheiros de equipe tinham sido assaltados e mantidos reféns por um curto período, sob o cano de uma arma. Tudo mentira! A molecagem só durou o tempo suficiente para que a Polícia Federal entrasse no caso, tivesse acesso a imagens de vídeo, e tivesse constatado que tudo não passou de uma farsa, montada por Lochte e seus amigos, com direito a cenas de uma loja de conveniências e um posto de gasolina depredados, além da briga com seguranças. Por conta da mentira, já desembarcado em solo americano, o nadador teve que pedir desculpas publicamente, além de perder, de cara, três patrocínios importantes, constranger todo o Comitê Olímpico norte-americano pelo vexame em terras cariocas e estar sujeito a suspensão de suas atividades esportivas. Creio que Ryan Lochte é um cidadão estrangeiro que não vai querer pousar no Rio de Janeiro nem tão cedo!


12) O ÊXITO BRASILEIRO ( E AS DERROTAS) NOS ESPORTES COLETIVOS: Qual brasileiro que gosta de jogos não fica feliz quando o principal esporte coletivo nacional conquista a medalha de ouro numa Olimpíada? Qual brasileiro não se alegra mais ainda se, no dia seguinte, o segundo maior esporte coletivo nacional também ganha o ouro? Foi isso que aconteceu no penúltimo e último dia dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. No sábado, dia 20 de agosto, às 17 horas, a seleção brasileira de futebol, capitaneada pelo astro do Barcelona, Neymar, finalmente desencantou e fez às pazes com a torcida brasileira, após um fatídico 7 X 1 na Copa do Mundo, também em solo brasileiro, em 2014, que entrará para os livros de histórica como a maior vergonha nacional de um país numa partida em um Mundial de futebol. Deus (e para os cronistas, os "deuses" do futebol) quis que a final olímpica fosse justamente com a Alemanha, o algoz de 2014, e, atuando não mais como meninos chorões, mas sim como jogadores profissionais de uma equipe nacional, a seleção brasileira empatou no tempo normal em 1 X 1, com direito a gol de Neymar, e na disputa de pênaltis prevaleceu o Brasil, sendo Neymar, novamente, o autor do último gol que levou o Brasil, pentacampeão mundial de futebol, a finalmente carregar no pescoço a medalha de ouro, que os brasileiros deixaram escapar ao menos outras quatro vezes, em Jogos Olímpicos. O Rio de Janeiro foi palco, portanto, de uma redenção nacional no futebol.

Redenção também é a palavra que deve ser aplicada ao voleibol masculino, treinado mais uma vez pelo técnico campeão Bernardinho, em uma quarta final consecutiva da seleção brasileira, em Olimpíadas. Depois de Atenas, em 2004, quando o Brasil foi bicampeão olímpico, o país não conseguia a medalha de ouro, ficando com a prata, tanto em Pequim em 2008, quanto em Londres, em 2012, perdendo, respectivamente, para os Estados Unidos e para a Rússia. Mas foi justamente contra duas potências esportivas que o grupo de Bernardinho, contando com jovens atacantes, da nova geração do vôlei, como Wallace e Lucarelli, comandados por Bruninho, e uma atuação brilhante do experiente jogador Lipe, que, assumiu o protagonismo com seus saques matadores e elevou o moral de uma equipe inexperiente, o Brasil do voleibol reencontrou seu jogo.  Diferentemente das meninas da equipe feminina, que eram favoritas, os homens do voleibol saíram de fracassos seguidos em Olimpíadas e Ligas Mundiais, desacreditados na primeira fase do torneio no Rio, correndo o risco de serem desclassificados, antes de uma dramática partida contra França, e depois de uma atuação redentora contra a Argentina, quando os brasileiros recuperaram a moral perdida, ganhando a semifinal e final do vôlei de forma inesquecível, vencendo todos os sets dos jogos, com os resultados de 3 X 0 tanto contra a Rússia, quanto contra a poderosa Itália, na final do domingo, dia 21 de agosto. Enfim,o Brasil tornou-se tricampeão olímpico no voleibol masculino e potência mundial incontestável na modalidade. Foi a consagração não só do técnico, mas também do veterano líbero Serginho, retirado da aposentadoria para jogar mais uma (e a última Olimpíada), que, aos prantos, e abraçado ao filho pequeno, foi outra imagem singela do vôlei (somada a do técnico derrotado José Roberto, com o neto, no vôlei feminino), que deve ser gravada como imagem eterna e emocionante destes Jogos.

Também no vôlei, mas agora no vôlei de praia, finalmente a dupla Alison "Mamute" e Bruno Schmitt honrou  a fama e a tradição da modalidade, na terra em que ela nasceu, conquistando a final e a medalha de ouro, ao derrotar a dupla adversária italiana, tornando-se, também, campeões olímpicos. Com a proeza, a dupla brasileira conquistou um ouro olímpico que não vinha desde a dupla vitoriosa Ricardo e Emanuel, últimos campeões da modalidade na Olimpíada de Atenas, em 2004.

Agora, o que melou mesmo nesses jogos, desapontando muita gente (inclusive eu), enquanto fã de basquete, foi a seleção masculina, treinada pelo recém-demitido técnico argentino Rubén Magnano. A seleção campeã panamericana de 2013 não foi páreo para a Austrália, Croácia e Argentina, e acabou eliminada do torneio na primeira fase, ganhando apenas de Espanha e Nigéria. Ao menos o que valeu foi que a seleção de Nenê, Marcelo Huertas e Benite, e que perdeu Anderson Varejão (contundido antes da competição), foi a emocionante vitória contra a Espanha, vice-campeã da Olimpíada passada, liderada pelo famoso e veterano pivô, Paul Gasol. Também nesse caso, o fator torcida foi fundamental, e os desestabilizados jogadores espanhóis acabaram entregando o jogo aos brasileiros, nos segundos finais da partida. Quase que conseguíamos a classificação contra a campeã olímpica Argentina (famosa por ter o feito histórico de já ter derrotado os consagrados Estados Unidos numa Olimpíada), em duas prorrogações, mas acabamos deixando que eles vencessem no final, perdendo o sonho olímpico de mais uma medalha. O Brasil necessitará de muito trabalho até conseguir reerguer o basquete nacional.

No handebol masculino e no polo aquático, apesar da participação louvável de nossos jogadores, ganhando jogos importantes, não passamos das quartas de final, e o Brasil ainda deve medalhas importantes em ambas as modalidades, onde ainda não tem grande tradição.

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13) ESTRELAS DO PASSADO, COMO COMENTARISTAS NA SPORT TV: Só mesmo nessa Olimpíada tive a oportunidade de desfrutar de um end of the night de gala, após as transmissões dos jogos, acompanhando pela madrugada o programa de comentários sobre os jogos da Sport TV, que contratou como comentaristas internacionais, com direito a dubladores e tudo, algumas das maiores estrelas olímpicas do esporte na história. Nas noites destes Jogos, pude ver e escutar a inesquecível e simpática Nadia Comaneci, a lendária ginasta romena, campeã das Olimpíadas de Montreal, em 1976 (única nota "10" nas barras assimétricas, com execuções absolutamente perfeitas). Também foram convidados para comentar os Jogos do Rio, o velocista norte-americano Carl Lewis, campeão olímpico dos 100 metros na Olimpíada de Los Angeles, em 1984, e seu compatriota, o mítico nadador Mark Spitz, campeão da natação nos Jogos de Munique, em 1972. Para completar o quadro de ilustres figuras que vi, já envelhecidas, mas ainda campeãs e carismáticas, participou dos programas de TV o grande campeão do salto em altura, o cubano Javier Sotomayor, ouro na Olimpíada de Barcelona, em 1992. Quer time de comentadores melhor do que esse?

14) FESTAS DE ABERTURA E ENCERRAMENTO INESQUECÍVEIS: Afinal, não houve atentado terrorista, e nem a violência do crime organizado no Rio de Janeiro proporcionou surpresas desagradáveis, como uma escalada aterradora de crimes contra turistas ou atletas. Mantida em um forte esquema de segurança, a Vila Olímpica não se viu atacada por arrastões de bandidos, e, tirando o triste episódio midiático envolvendo o nadador Ryan Lochte, a imagem do Rio e do Brasil não ficaram arranhadas e apareceram bem na fita, em luzes, som e cores, para a imprensa internacional. Na verdade, para os gringos, a imagem do brasileiro enquanto povo festeiro, que gosta de samba e de um bom carnaval, acabou prevalecendo no cenário da maior festa carnavalesca do mundo, com direito a uma explosão da alegria esfuziante do povo brasileiro, na enorme festa nunca antes vista no estádio do Maracanã, cenário da abertura e do encerramento dos Jogos. Quem foi, gostou muito e, quem não foi, apreciou as imagens pela televisão, elogiando a organização. No final das contas, tudo acabou em festa, samba, suor e carnaval!! Ainda bem para nós!

15) AS LIÇÕES PARA O FUTURO: Agora, que venha Tóquio. A realização da Olimpíada no Japão já é um sólido projeto em 2020 para os brasileiros em geral e especialmente para o COB. Até deu vontade de conhecer pessoalmente a "Terra do Sol Nascente". Até lá, muito tem que ser refletido, sobre nossas derrotas e vitórias, e sobretudo qual será o principal legado que a Olimpíada deixou para o Brasil e para o Rio de Janeiro. Muito dinheiro foi gasto, investimentos foram feitos nos atletas olímpicos (e paraolímpicos), num país em crise política e econômica, e, resta saber, se dias melhores virão também para o esporte brasileiro. A meu ver, uma das lições mais importantes dos Jogos Olímpicos no Rio é que somos capazes, e não obstante a roubalheira na gestão dos negócios públicos, por administrações de governos duvidosos, tanto na seara municipal, quanto estadual e federal, somos capazes de fazer bonito com todas as críticas, e saímos daquele "complexo de vira-lata" nelsonrodrigueano. Agora, antes que eu me esqueça, "Fora Temer" e nos preparamos para conquistar medalhas no Japão. Até lá, Sayonara!!
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