quinta-feira, 24 de junho de 2010

CINEMA: Em "Ao sul da fronteira", Oliver Stone me fez pegar de volta a cartilha de militante.

O militante é um romântico. Entre balas, fome na floresta, tanques de guerra, doutrina marxista, fuzilamentos em paredões e desvios autoritários, Che Guevara era um poeta. Como não se deixar seduzir pela aura de romantismo do típico revolucionário latino-americano? Pancho Vila ou Emiliano Zapata no México até hoje inspiram multidões. No Brasil, Luis Carlos Prestes e sua Coluna, numa marcha solitária pela liberdade o transformaram, na época do tenentismo, nos primórdios do século XX, no "cavaleiro da esperança"; enquanto que Lamarca e Mariguella deixaram a pecha de terroristas e entraram nos livros de história como dois idealistas que morreram crivado de balas, acreditando em seu ideal revolucionário, combatendo a ditadura militar. El Comandante Fidel, inspirado em José Martí, até hoje é visto em Cuba por muitos com saudosismo e reverência. Daniel Ortega e seus sandinistas, na Nicarágua da década de 80, deram o que falar. E o que dizer então de Hugo Chavez? Hoje, o novo nome de uma esquerda, metida a revolucionária, que funciona como um "exército de brancaleone" bolivariano.

Ditadores ou libertadores? Segundo a ótica de Oliver Stone, diretor norte-americano oscarizado com Platoon, Nascido em 4 de julho, Wall Street e tantos outros filmes notáveis (como JFK, Nixon e até W, o último longa, tratando da vida de George W.Bush, que rendeu a Josh Brolin a indicação ao Oscar de melhor ator), para a mídia norte-americana e o capitalismo yankee, ditadores são todos aqueles que, de alguma forma, contrariam os interesses do capital internacional, não cedem aos apelos do mercado e dos banqueiros gringos, querendo ter luz própria e seguir seus próprios caminhos. É esse o projeto de América Latina concebido por Stone, com uma câmera na mão, na condição maior de militante do que de cineasta. Em seu novo documentário: Ao Sul da Fronteira, Oliver Stone volta seus olhos para a América do Sul. Uma nova América do Sul, não mais vista pelo ideário wasp  norte-americano como uma terra exótica de macacos, florestas, nativos falando espanhol, tango, samba e a Carmen Miranda, mas sim como uma neverland  da nova utopia socialista.

No documentário, Stone dedica quase uma hora a entender o fenômeno Hugo Chavez. Sua origem política, a realidade político-econômica da Venezuela: um oásis de petróleo em plena América do Sul, dotado não só de recursos naturais e belas mulheres, mas também de um povo sofrido, à beira da miséria, que durante anos sofreu sobre a ditadura das baionetas de governos repressivos, ostensivamente apoiados pelos Estados Unidos, na sustentação de uma minoria rica, elitizada, branca e européia. É mostrada a ascensão de Chavez ao poder: primeiro, por meio de uma tentativa fracassada de golpe, onde ele aparece como um salvador, um mártir, um jovem e destemido tenente-coronel paraquedista, que juntamente com outros jovens militares, indignados com a repressão popular do presidente Carlos André Perez, decidem tomar o poder à força, e se quebram. Após poucos anos de prisão, Chavez, o líder da rebelião militar, é galgado ao poder pela força das urnas, quando vence a eleição contra uma loiríssima e sugestiva ex-miss universo. Stone dá a entender que Chavez se consagra pelo voto popular, e isso (é certo) o legitimou a promover as profundas mudanças na sociedade venezuelana, que contrariaram fortemente os anseios da elite econômica, e da mídia que a sustentava, através de sua revolução bolivariana.

Aqui, acerca do papel da mídia e da intervenção norte-americana, merece-se um detalhe: assim como na tese defendida entre um em cada um militante de esquerda revolucionária, os meios de comunicação, numa sociedade capitalista, tem a função de respaldar a ideologia reaconária das elites, e assim incentivar o golpismo e o ataque à democracia, todas as vezes em que os interesses das elites forem contrariados. É assim que pensa Stone e é assim que demonstra o seu filme, ao mostrar o papel das redes de televisão e jornais contrários ao governo de Chavez, assim como a vergonhosa participação dos Estados Unidos de Bush, no fracassado golpe de Estado praticado na Venezuela, que retirou temporariamente Chavez do poder, colocando um banqueiro e financista no seu lugar, e que provocou uma reação popular nunca vista na história daquele país, depois que Simon Bolivar insuflou uma revolução na região. Não se passou uma semana para que Chavez voltasse triunfante ao poder, inclusive com o apoio de boa parte do exército, que o havia retirado da presidência nos dias anteriores e até ameaçava matá-lo. Com a "cagada" estadunidense, em reconhecer precipitadamente o governo golpista, antes mesmo que a cadeira da presidência esfriasse com a saída temporária de Chavez, fez com que o presidente venezuelano só se fortalecesse ainda mais no imaginário latino-americano, além de ganhar o apoio apaixonado de seu eleitorado. Saiu um líder, voltou uma lenda!

Mas se Oliver Stone ficou seduzido por Chavez, mostrando-o, inclusive, na sua intimidade, com seus familiares, pedalando de bicicleta, conversando com populares em seu jipe, e indo até à casa pobre, do bairro de periferia em Caracas, onde o líder venezuelano nasceu, Stone também vira suas lentes para outros países e líderes do continente, chegando até a Bolívia de Evo Morales. Outro líder carismático, cultivado pela extrema-esquerda, como o primeiro indígena a chegar à presidência de um país.O ex-cocaleiro é convidado a expor as virtudes medicinais da folha de coca, assim como suas habilidades no futebol, chegando a fazer embaixadinhas com uma bola, no jardim do palácio presidencial; mas o que mais interessa ao cineasta-entrevistador é como Morales explica os motivos da expulsão do escritório do DEA (Departamento de Narcóticos) norte-americano, do território boliviano. Morales, atualmente muito criticado pelo candidato brasileiro de oposição, José Serra, por sua suposta leniência com o tráfico de drogas, explica que, na verdade, sua luta é contra um projeto neoliberal dos EUA de querer se meter em assuntos internos da Bolívia (assim como já faz na Colômbia), ameaçando a soberania latino-americana, como sempre fez a terra do tio Sam, em seu histórico de imperialismo e financiamento de ditaduras e governos autoritários no continente.

Stone também vai para outros países, entre eles o Paraguai, de Fernando Lugo e a Argentina de Cristina Kirchner. Quanto a esta última, interessou ao diretor de Platoon entrevistar o casal Kirschner tão e simplesmente para saber como foi o calote com o FMI, e a cara-de-pau com que Nestor Kirschner desafiou os banqueiros norte-americanos, declarando moratória da dívida externa e que não pagaria mais nem um centavo aos homens de negócio yankess. De forma semelhante pronunciou-se Lula, o presidente brasileiro, ao ser entrevistado por Stone na cúpula das Américas, ao lado de um risonho Chavez, debaixo de uma tenda, falando triunfante de como o Brasil pagou sua dívida externa, com direito à sobras, e de como Lula peitou os banqueiros do FMI, dizendo que não queria mais nem um centavo de volta, e que, inclusive, devolvia o dinheiro que sobrou, pois o país tinha suas próprias reservas e já caminhava por pernas próprias. Afinal, segundo Lula, o bom pagador não fica com dinheiro que não lhe pertence, paga e ainda tira uma onda! O mesmo grau de ironia que conquistou Stone na retórica do presidente brasileiro, o cineasta norte-americano também sentiu com Rafael Correia, presidente do Equador, quando este cobrou a reciprocidade dos Estados Unidos, como condição para a permanência de bases norte-americanas no país. Se os EUA querem uma base militar norte-americana em Quito, que também haja uma base equatoriana em Miami. Será que é pedir demais?

No filme, Oliver Stone ainda abre um espaço pra Barack Obama. Yes, we can!! Quando dá um voto de confiança ao novo ocupante da Casa Branca, após a triste passagem de George W. Bush na presidência anterior. Stone revela a reação da mídia conservadora norte-americana, indignada perante aquilo que parecia um insulto: o aperto de mão entre Hugo Chavez e Obama, e a torcida do primeiro para que o governo deste último seja menos maléfico do que o de seu antecessor, e, ao menos, respeite a autonomia dos povos e a integração latino-americana.

Um coronel paraquedista que virou um novo Fidel Castro, um bispo, um metalúrgico e um indígena que se tornaram presidentes, um casal peronista que desafiou o capital internacional e um jovem presidente equatoriano que botou militares yankees pra correr. Estes são os heróis de Oliver Stone, a nova cara de uma América Latina retratada em filme, que revela, no século XXI, novos governos, de certa forma revolucionários, surgidos em democracias que sepultaram o antigo modelo ditadorial, vassalo do capitalismo norte-americano, do século passado. A América Latina para Stone é a Canaã da esquerda mundial, e para lá converge uma nova política que tende a alterar a correlação de forças num mundo globalizado. É óbvio que Ao Sul da Fronteira é altamente ideologizado, e reflete, em muito, o pensamento de seu diretor. Mas também é certo que o documentário serve como fonte de consulta histórica, a muitos fatos relevantes que ocorreram no continente sul-americano nos últimos anos, e, que, de fato, alteraram o curso da história mundial. Naturalmente, quem é de direita, reaça, neoliberal, neoconservador ou neoqualquer coisa ruim que seja, não irá gastar seus trocados pra assistir a um filme desses, pois sabe que se trata de mera peça de propaganda esquerdista.

Entretanto, aviso aos eleitores de Serra, classe média neoliberal paulistana, assinantes da revista Veja ou meros simpatizantes da turma do Alto de Pinheiros: Ao Sul da Fronteira é sim, muito bom! Dirigido por um dos melhores cineastas dos últimos anos, e de caráter altamente didático e conscientizador. É claro que você não precisa gostar do Hugo Chavez, ser eleitor do Lula ou morrer de amores pelo Evo Morales. Não sejamos ingênuos. Mas terá que reconhecer que muita coisa mudou (socialmente, para melhor) com esses senhores assumindo o governo de seus países, ao menos em termos de postura. Ver esses caras e o "cara" ( o que Lula é para Obama, e também para Stone) conferindo um destaque superior a seus países, como nunca antes se fez, quebrando com a postura de subserviência que marcou os governos sul-americanos durante tantos anos, realmente é motivo de emoção. Pena que os neochatos liberais de plantão, os conservadores, e todos aqueles que não conseguem conviver com a idea de sua empregada doméstica ou jardineiro serem ouvidos e compartilharem do poder numa sociedade democrática, acabam sempre por ser os "estraga-prazeres" da festa da esquerda, através de seus Diogos Mainardis da vida!

Por isso digo aos meus amigos neoliberais, conservadores ou de direita mesmo: este filme, definitivamente, não é pra você, Vladimir!! Um grande abraço a todos (de esquerda ou direita) de qualquer forma!! Soy loco por ti, América!!!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

DIREITOS HUMANOS: Em Gaza, Israel estimula piada de judeu!

O povo judeu é um povo sofrido, disso até uma criança de cinco anos hoje sabe. Foram vítimas de um holocausto no século XX, foram perseguidos a mais de mil no começo daquele século, sofreram ( e ainda sofrem) todo tipo de preconceito, são muitas vezes mal compreendidos em seus costumes e até hoje recebem a pecha de muitos de terem assassinado Cristo (Mel Gibson, com seu filme sobre a Paixão de Cristo só fez reacender isso).
Mas, afinal, qual é o problema do povo judaico; ou melhor, qual o problema de Israel, em dizimar o povo vizinho palestino, lançando mísseis à cata de terroristas em Gaza, manchando a região de sangue, a pretexto de combater a guerra ao terror? Qual o problema de deixar barcos trazerem carregamentos de comida, rompendo um bloqueio perverso, contra um povo miserável, que acoberta terroristas, assim como famílias faveladas acolhem traficantes em suas casas, pela falta total de apoio do Estado, e por conta de seus algozes, que promovem uma ocupação irracional? Por que todos que criticam as ações do governo de Israel e se opõem podem ser vítimas de balas de fuzil, metralhadora, mísseis ou bombas? Vão me dizer que a questão Israel-Palestina é complexa. Sim, concordo, muito complexa! Não se trata apenas de ingressar no maniqueísmo de dizer quem tem razão e quem não tem, quem são os bandidos terroristas e os mocinhos soldados defendendo a pátria dos escolhidos. Mas a discussão não é essa. O povo de Israel sofre com uma situação que já perdura mais de cinquenta anos, desde a fundação do Estado Judeu, e não é de agora que vários, mas muitos estudiosos, debruçam-se sobre o confilto envolvendo árabes e judeus, israelenses e palestinos.

Lembro-me de um episódio em Porto Alegre em que estava num agradável café, na Cidade Baixa, e uma de minhas interlocutoras era uma psicóloga de origem judaica que tinha ido a Israel. A moça (muito bonita e educada, por sinal), além de psicóloga, era frequentadora da sinagoga, e tinha visitado Israel ao menos umas três vezes. Disse-me ela que era sionista de carteirinha, e, pra quem não sabe, o sionismo é a forma mais emblemática de manifestação do nacionalismo judaico (foi no Manifesto dos Sábios do Sião, escrito no século XIX, que se defendeu, pela primeira vez, as bases de um Estado Judaico). O sionismo se vale de uma mescla de argumentos religiosos, históricos e geopolíticos para justificar a necessidade de um Estado Judeu no mundo, e para isso, defendem, inclusive, a luta armada, pois entendem que tal Estado deve ser obtido de qualquer forma para o "povo eleito de Moisés", pois o martírio faz parte da lógica dos que lutam e morrem pela fé (alguém já viu algo parecido no islamismo?).

Não adiantava, naquele momento, contrariar a empolgada moça e questionar a matança de milhares de civis nos últimos anos, pela ação truculenta do exército israelense;a intrepidez à beira da irresponsabilidade de seu serviço secreto, matando líderes de organizações terroristas em hotéis, com requintes de bandidagem; ou cometer o absurdo de metralhar navios de ajuda humanítária que trazem comida e remédios para a população sofrida de Gaza. Um sionista, defensor incondicional da causa de Israel, é pior que um colorado ou gremista na defesa de seu time, e mesmo que ele erre, o erro é muitas vezes atribuído a uma provocação do adversário, e não a um erro genuíno de quem erra. Nesse "gre-nal sionista", sobra pros palestinos. Se todos os que atacam Israel são seus inimigos, então, para os inimigos, segundo a Torá, bala neles!!! Quer dizer, que o Anjo Exterminador baixe sua espada vingadora, e que o "povo eleito" se mantenha de prontidão e abata os inimigos de Israel. Fico imaginando a interpretação da seguinte passagem do livro biblico de Ezequiel:

"Prepara-te, e dispõe-te, tu e todas as multidões do teu povo que se reuniram a ti, e serve-lhes tu de guarda. Depois de muitos dias serás visitado. No fim dos anos virás à terra que se recuperou da espada, e que foi congregada dentre muitos povos, junto aos montes de Israel, que sempre se faziam desertos; mas aquela terra foi tirada dentre as nações, e todas elas habitarão seguramente. Então subirás, virás como uma tempestade, far-te-ás como uma nuvem para cobrir a terra, tu e todas as tuas tropas, e muitos povos contigo." (Eze 38.7-9)

As agressões de Israel aos povos vizinhos justificam-se, portanto, a meu ver, segundo dois argumentos: um religioso e um político. Acerca dos aspectos religiosos já nos debruçamos aqui, sabendo da importância daquele pedaço de terra desértica para os povos das três principais religiões monoteístas do mundo(judaismo, cristianismo e islamismo); mas o que de fato me preocupa é o argumento político, baseado num nacionalismo extremado, que apoderado por uma extrema-direita forte, que sucessivamente governa Israel, entre um e outro governo trabalhista, é que potencializa a fúria do Estado judaico, contra aqueles que contrariam seus interesses.

O nacionalismo é uma doença política. Em torno dele podem se reunir os desejos mais mesquinhos e os interesses mais egoístas. Segundo Hannah Arendt, nas Origens do Totalitarismo, foi mediante a leitura do Manuscrito dos Sábios do Sião, que defendia o nacionalismo judeu e o Estado judaico, que Hitler inspirou seu famigerado plano de desenvolver a ideologia nazista. O nacionalismo é exclusivista, não admite a diferença, e, em prol da busca e recuperação de um sentimento nacional (o que difere, em muito, do patriotismo) acaba por atiçar as paixões mais avassaladoras, levando multidões a funcionarem como bonecos automaticamente controlados, prontos a perpetrarem as maiores barbaridades. Foi assim no Conflito da Bósnia, nos Balcãs, nos anos noventa;  assim como foi em diversos outros episódios da história mundial. O nacionalismo incita separatismos e a formação de grupos terroristas e guerrilheiros como o ETA na Espanha, ou o IRA na Irlanda do Norte, e numa sociedade globalizada, até hoje se perguntam os sociólogos e cientistas políticas, até que ponto uma manifestação nacional pode ser saudável ou não para o futuro de uma nação.

O povo palestino também é uma nação em busca de sua identidade nacional. E isso  também é perigoso, não só para Israel, mas para o mundo; mas isso não deve servir de pretexto para justificar as atrocidades praticadas pelo Estado de Israel. Já passaram por Israel alguns governos com muito mais bom senso que o atual, e a última mancada do governo israelense, com um saldo de nove ativistas mortos, num navio em direção a Gaza, em águas internacionais, só justifica as piadas de judeu, que tomo a liberdade de reproduzir uma agora:

"Estava um cidadão judeu andando em Belfast, bem na época dos conflitos entre católicos e protestantes, quando tem a infelicidade de cruzar numa esquina com um suposto ativista do IRA. O cara pergunta com um fuzil apontado pra cara do infeliz:
-Responde rápido! Cátolico ou protestante???
-Não, não! Eu sou judeu! - Responde o assustado rabino.

O guerrilheiro dá uma risada, coça a barba e tira do bolso um turbante, dizendo: "Ahhhh, o senhor é judeu! Que ótimo! Pois hoje eu sou o árabe mais feliz da Irlanda!!!".

Gostaram da piada? Os nove corpos caídos num convés de navio às margens de Gaza, também não!!

sábado, 19 de junho de 2010

LITERATURA/HOMENAGEM:Saramago-um ateu que morreu como crente.

Sou um oportunista! Confesso! Sou um oportunista. Pela quantidade de obituários que podem ser vistos neste blog, como blogueiro pareço até um bom papa-defunto. São tantos assuntos e besteiras que posso comentar, que aproveito oportunisticamente a morte de alguém famoso para escrever. E nisso confesso, de forma meio desavergonhada, aos leitores deste blog, meu oportunismo mórbido como forma de criar assunto. E é me aproveitando dessa confissão que como um oportunista descarado (mas sincero), escrevo sobre o falecimento (e a devida homenagem) a um dos grandes nomes da literatura latino-americana(e mundial), e o único autor da língua portuguesa já agraciado com o prêmio Nobel de Literatura. Claro, a essa altura do campeonato e pelo título acima, todos sabem que estou falando da morte de José Saramago.


Conheci Saramago não propriamente por sua fama, conquistada apenas após os 60 anos de idade, mas de um livro que dei de presente a uma ex-companheira, há alguns poucos anos atrás, que, por sinal, não o leu. Pois é! Com o livro, que acabou ficando comigo após a separação, tive a minha disposição a leitura de Saramago pela frente, em um de seus livros mais célebres e mais polêmicos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Pra quem não conhece o livro acima ou nunca ouviu falar de Saramago (Claro! Não cobro atestado intelectual das boas e vivas almas que lêem este blog), pelo título da obra parece até que Saramago escreveu um livro de teologia ou catequese. Nada mais errado, e também nada mais certo. Na verdade, dos três livros que li de Saramago, além daquele que citei acima (vale lembrar Ensaio sobre a Cegueira e as Intermitências da Morte), ao menos nessas obras que conheci encontra-se presente sempre o transcendente, o sagrado, o sobrenatural, o espiritual; não como algo distinto, onipresente ou onisciente sobre os homens, mas como algo que faz parte deles.

Saramago sabia escrever sobre Deus mesmo sem acreditar Nele. Ao menos é o que ele dizia ser: um ateu convicto, além de comunista na juventude. Foi pelo materialismo histórico marxista que Saramago conheceu o mundo e a injustiça, como jornalista e libertário, e foi a partir de seu materialismo que ele passou a exercer sua crença no homem, sua fé secular em valores absolutos como a justiça, a solidariedade, a tolerância e a liberdade, como atributos propriamente humanos. Saramago soube ser fiel e coerente às crenças políticas e filosóficas em que acreditava, não temendo, inclusive, romper com líderes e movimentos que apoiara no passado, denunciando os excessos do totalitarismo de esquerda, ao renegar seu apoio aos irmãos Castro em Cuba, a denunciar ditaduras de extrema-direita no continente latino-americano, ou a desafiar, com seu talento e verve, o imperialismo norte-americano e o sistema capitalista, participando de eventos significativos como o Fórum Social Mundial.

Mas Saramago também era um profundo crítico de uma das instituições mais tradicionais e antigas da humanidade, muito presente na sociedade portuguesa e na cultura ibero-americana: a Igreja Católica. Foi justamente criticando o monolitismo, a influência e os cânones católicos que Saramago desenvolveu sua literatura, apontando para uma nova forma de espiritualidade que poderia ser contemplada sem a necessidade especial de uma divindade punitiva e todo-poderosa. É por isso que digo que Saramago, de seu jeito, era um escritor crente, pois ao questionar a religiosidade cristã que aparecia a ele por meio da pujança católica, ao mesmo tempo, desta forma, pôde este escritor português desenvolver seus próprios “messias internos”, através dos personagens e das obras que escreveu.

Vejamos, por exemplo, em Ensaio sobre a Cegueira. Neste livro, adaptado para o cinema pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e tendo como principal protagonista a bela e talentosíssima atriz norte-americana Juliane Moore, Saramago se vale de um estilo e de um expediente típicos de sua escrita (além da célebre prolixidade, a que irei me referir nos próximos parágrafos), retratando personagens que não tem um nome e são o filho, a amante, o vendedor, a diarista, a prostituta, o executivo, por exemplo). No livro, acompanhamos a peregrinação da mulher do médico, que parece ser a única mulher que enxerga, em uma cidade acometida de uma bizarra e medonha epidemia de cegueira, que tolhe a visão de todos, menos da protagonista, que passa a ser uma espécie de guia de uma multidão de cegos, aprisionados não apenas pela cegueira dos olhos, mas pela cegueira de seus próprios corações e mentes. Através do mito da cegueira, Saramago nada mais faz do que recriar a passagem bíblica, vista nos Evangelhos em Mateus (20.29-34), Lucas (18:35-43) e Marcos (10:46-52), de quando Cristo cura um cego em Jericó. Assim como no personagem da Bíblia, o cego Bartimeu, que recupera a visão, pois, segundo Jesus, “sua fé o salvou”, a personagem da mulher do médico cego, no livro de Saramago, também busca a salvação por meio da fé, não porque acredita que, num passe de mágica, os enfermos recuperarão a visão, mas pela fé de que tem de prosseguir em sua missão de cuidá-los, já que é a única quem vê, e por isso, não pode perder a fé em salvá-los, mesmo que eles não consigam enxergar. Saramago une, neste belo livro e obra singular, o melhor da espiritualidade cristã, juntamente com a filosofia platônica vista no “mito da caverna”, narrado na República de Platão (acerca da libertação da cegueira da ignorância). Percebe-se o quanto os escritos de Saramago provocam uma tremenda e desconcertante reflexão intelectual, nem tanto pela beleza do texto, que, como disse, é bem complexo e arrastado, mas sim pela evocação da genialidade do tema, que faz toda a diferença, ao ler este autor português. Para mim, nesse sentido, Saramago foi o nosso “James Joyce na língua portuguesa”.

Saramago não explora propriamente em seus textos os dramas pessoais de seus personagens, apesar de eles estarem lá, pela fórmula secreta de um intimismo que ele conseguia imprimir em seus leitores, de forma quase mística. Seu detalhismo, na busca rebuscada da exposição de detalhes de certas cenas e ocasiões, mais do que os próprios personagens, numa linguagem por vezes, para muitos, cansativa, conseguia na verdade convidar o leitor a fazer uma verdadeira reflexão filosófico-espiritual em cada página. Algo que malfadados (mas famosíssimos) escritores por aí, que inauguraram uma celebridade e uma aura de sucesso misturando misticismo com autoajuda, ganhando reconhecimento internacional, nem sequer chegam perto (vocês devem saber de quem estou falando, não é?). Agora, é bem verdade, a leitura de Saramago nunca foi simples e própria para principiantes. E, também confesso, ler Saramago num primeiro momento me pareceu muito chato. Pois é! Não foi experiência fácil. Mas, também, não deixou de ser deliciosa a reflexão que pude ler a cada texto que lia deste singular escritor lusitano.

Por falar em escritor, creio que, para mim, Saramago era muito mais um filósofo que gostava de escrever, do que propriamente um romancista. Ele era uma espécie de metafísico que se valia do roteiro da exposição novelística para expressar suas reflexões existenciais. Foi assim em As Intermitências da Morte, um de seus últimos livros (e o último que li); onde, curiosamente, Saramago tratava de algo que para ele, em sua velhice prolongada e pelo corpo de ancião que começava a padecer com o peso dos anos, anunciava-se por acontecer, e que ele necessitava expurgar através de um realismo fantástico de proporções líricas: a iminência da morte e a pergunta que não quer calar acerca do mistério que seria, se ninguém conseguisse mais morrer. É disso que trata esse livro, quando, num povoado (lusitano) imaginário, ocorre que num belo e certo dia as pessoas deixam de morrer, deixando a cidade em polvorosa. Mas o que poderia parecer um milagre e motivo para festejo pela benção conferida da imortalidade, passa a se revelar como maldição, no momento em que os moribundos, estes sim, os principais destinatários da morte, simplesmente não podem alcançar o descanso definitivo, pois não podem morrer. A eles, compete o estado eternamente desagradável da agonia e do sofrimento que não tem mais a morte para lhe encerrar. Não demora para que a morte novamente se torne importante para a população do vilarejo onde ela não mais aparece, passando alguns até a ter saudades dela, procurando saber enfim: afinal de contas, por que a morte entrou em greve?

Esses e outros temas estão presentes na obra de Saramago. Ele, afinal, afirmou em entrevista num documentário que assisti a poucos anos, que não tinha medo da morte, apenas lamentava ter que ser levado por ela um dia. Saramago citou a experiência de sua avó (o que me chegou a ver lágrimas caindo de meus olhos) que dizia a ele, na sua juventude, que lamentava não o fato de ter de morrer um dia, mas sim o fato de que ao morrer, ela não teria mais a oportunidade de acordar no dia seguinte e ver no mundo tantas coisas bonitas. Pois é, para Saramago, apesar dos pesares, a vida valia ser vivida porque não era feita só de coisas ruins, como se houvesse apenas um contra o outro, um homem lobo de si mesmo, mas sim porque o homem, assim como poderia criar destruição, também poderia contemplar e criar coisas belas. Em seu estoicismo ou neoplatonismo, Saramago afinal acreditava na vida sob uma doutrina da beleza, que servia para explicar o sentido, a estética da vida. Assim como pensavam os gregos, o sentido da vida encontrava-se no belo, pois o belo era o bom. E assim a manifestação mais bela da beleza da vida seria envelhecer, ao menos, envelhecer bem. Deve ser por essa beleza que Saramago carregava em cada ruga, com seus 87 anos de experiência, que ele conquistou Pilar Del Rio, jornalista espanhola, amada e devotada esposa do escritor português, cerca de 30 anos mais nova, que o acompanhou numa apaixonada relação, em seus últimos anos de vida. Ou será que os velhos também não podem amar?

Ao morrer, Saramago faleceu não como um ateu empedernido, daqueles que não querem nem ouvir falar em Deus ou que pensam em queimar igrejas, mas sim como um crente devotado à vida, ou a menos em alguém que tinha fé na beleza de mundo, que se ele não reconhecia como criado à imagem e semelhança de um Criador, ao menos não questionava a grandiosidade e a transcendência de uma natureza que em seus últimos anos de vida, ele aprendeu a contemplar da janela de sua casa, nas Ilhas Canárias, saudando quase que religiosamente o nascer de um sol que um dia, seus envelhecidos olhos não iriam mais ver, no fechar definitivo de suas pálpebras pelo sono eterno. Se, de fato, ao contrário do que pensava, a vida não se encerra com o fim, e o paraíso (ou outro mundo transcendente), sagrado e possível pode existir, creio que agora Saramago deve ter descoberto isso. Ao menos, no caso de Saramago, essa é uma última experiência que somente ele pode compartilhar agora e não mais com seus leitores. Como ele mesmo disse, agora ele não pode mais contemplar as coisas belas que tanto viu por tantos anos. É uma pena!Mas, quem sabe, não exista agora outra beleza a contemplar? A resposta está com aqueles que partem e não com os que ficam, pois a nós, resta apenas a beleza do ponto de partida, até chegar num belo no ponto de chegada. Enquanto isso, somente digo ao final: uma boa viagem, José Saramago!

terça-feira, 8 de junho de 2010

COMPORTAMENTO: Vulgaridade e decadência alcóolica feminina vem desde a Antiguidade.

Às vezes fico refletindo sobre o conceito de mulher vulgar. Será que de fato o conceito existe ou se trata apenas de uma definição arbitrária do senso comum?Será que a vulgaridade atribuída aos atos e gestos de algumas mulheres não é fruto de mais um dos sorrateiros expedientes machistas da dominação masculina? Bem! Talvez, de fato, o conceito de mulher vulgar só sirva propriamente às mulheres, pois a elas interessa mais do que aos homens qualificar uma conduta de sua semelhante de gênero como vulgar. Afinal de contas, mulheres são ou não são desunidas entre si?

Passei a refletir sobre isso, do alto de minha barbicha coçada à exaustão,quando penso em escrever minhas litanias virtuais, tendo em conta recente episódio, tristemente testemunhado por mim, por estes olhos meus que a terra há de comer, quando, recentemente, visitei um agradável barzinho, ao lado de um amigo meu, colega de profissão. Nós, como dois professores almejando o santificado chopinho de fim de expediente após a labuta das aulas, dirigimo-nos ao  nosso suntuoso templo da cevada (alguns mais gaiatos, incluindo eu, chamam de "escritório") e lá, além da grata presença de amigos queridos, encontramos também três ex-alunas desse meu colega de vida boêmia, e o que poderia até se transformar num papo agradável, acabou me soando como a antesala do inferno (não meu, porque como diria Sartre: "o inferno são os outros!"). Quando uma das moçoilas nos abordou, esta, assim como suas colegas, parecia visivelmente alcoolizada. Até aí, tudo bem!Afinal de contas, quem é que não bebe mais da conta de vez em quando, não é mesmo?! O problema é que o estado alcoolizado das ditas estudantes universitárias no período noturno e trabalhadoras do setor terciário durante o dia, passou dos limites, quando o grupo passou a dar sinais de que sua farra poderia se transformar, facilmente, numa cena de hospital ou caso de polícia. E não foi o que ocorreu?

Entre galhofas, esbarrões, frases desconexas, babadas, cuspidas, puxões de cabelos entre elas, copos quebrados e amendoins de aperitivo sobrevoando as mesas, pude perceber até que ponto não só o homem, mas também a mulher pode sair de sua altivez feminina, cair do salto e literalmente bater com sua boca carnuda e vermelha de batom no fundo da sarjeta.Espanta ao homem ver uma mulher alcoolizada porque isso o faz comparar a embriaguez feminina com o absurdo da conduta masculina pós-álcool, identificada com a irresponsabilidade do homem ou exercício babaca de macheza ("o macho tem que beber"), contrária à conduta da mulher sóbria; pois, para o homem, as mulheres deveriam ser a encarnação da sobriedade. Na lógica patriarcal de nossa sociedade ocidentalizada, em seus moldes greco-romanos e com forte influência da cultura judaico-cristã, a figura do ébrio é sempre representada pelo homem, enquanto que para mulher compete a imagem da austeridade, da serenidade maternal que a tudo acolhe e tolera, inclusive os porres do marido. A "mulher honesta" a que aludia Júlio César, para justificar na Roma Antiga seu divórcio de Pompéia, deveria ser aquela mulher do tipo "Amélia" (que me perdoem as detentoras desse nome); ou seja, aquela que fica em casa, costurando ou cerzindo os uniformes do marido a serem usados na guerra, enquanto que o homem-guerreiro, ao voltar das batalhas, teria direito ao porre de comemoração, em tributo a Baco, enquanto que à mulher restaria uma ansiosa espera no lar do marido embriagado, à disposição de seu homem para entregar o seu corpo após a festa masculina, mesmo que tendo de aguentar um desgraçado hálito de vinho. Uma mulher que não se portasse dessa maneira, e, ao revés, provocasse a ira dos deuses, confrontando-os, saindo na balada e bebendo do que seria um líquido reservado aos homens, ou era tachada de bruxa ou prostituta. Parodiando a célebre novela televisa de Manoel Carlos, ao invés de "mulheres apaixonadas", nascia o epíteto da vulgaridade para as nossas "mulheres embriagadas"!

Vulgus, do latim, significa "povo, massa comum", ou simplesmente a palavra" popular". Sêneca já aplicava o termo em Roma para qualificar a turba, o povão, a plebe, aquela categoria social numerosa e distinta da elite, formada por homens e mulheres simples, que fazem da simplicidade sua maneira de ser. Vulgar foi então um termo utilizado para definir algo que seja do povo, do gosto comum, algo distante do que querem ou pensam os sábios, os estudiosos, os letrados, os detentores de conhecimento. Ora, tem coisa mais popular (vulgar) do que a bebida, consumida em larga escala sem distinções de raça, credo ou classe social? Por que as mulheres então seriam tidas como vulgares porque bebem?

A embriaguez para os gregos, definitivamente, não era atributo feminino. Seja no Banquete de Platão, ou nos relatos de Plutarco, Heródoto ou Tulcídides, a hora onde os convivas se regalavam no vinho e bebiam até cair ou vomitar era atributo dos homens, dos senhores das letras e da política, que em tributo a Dionísio, e levando em conta a fartura das colheitas de vinho, deveriam se entregar aos excessos, conduzindo-se a estados cada vez mais delirantes de embriaguez, enquanto competia às criadas ou esposas tão somente recolher  em vasos o vômito de seus senhores. Não raro, figuras influentes da política deixavam-se embriagar na alcova, junto a suas amantes ou prostitutas, porque, na verdade, o compartilhamento da bebida inebriante não deveria ser feito junto às esposas. Na Idade Média, o feudalismo e o advento de uma cultura fundada na religiosidade cristã, com o poderio da Igreja Católica, reforçou os estereótipos e papéis sociais, condenando o álcool e a embriaguez, reservando às mulheres até mesmo a fogueira, se adotassem um comportamento semelhante ao das feiticeiras, estas sim, vorazes consumidoras de bebidas alcóolicas. O delírio, a conduta alucinada de quem bebe, não deveria estar associada à sagrada figura feminina. O cristianismo católico, vinculado ao cânone da santidade de Maria, não poderia admitir que no seio de sua comunidade pudessem existir mulheres depravadas, que destoam do seu ofício natural de mães, contrariando os mandamentos da igreja e se deixando levar pelo álcool. A saída para as cortesãs era o período do Carnaval, festa pagã tipicamente da Renascença, criada com anuência da igreja, no sentido de permitir, ao menos uma vez durante o ano, antes da quaresma, um curto período onde eram permitidas as licenciosidades (inclusive goles de birita tanto para homens e mulheres, desde que bem escondidinhos pelas máscaras carnavalescas).

Mulher alcoolizada passou então a ser tabu na sociedade ocidental, tanto quanto o adultério, o divórcio ou o incesto. Durante séculos os abusos a que estavam sujeitas devido à dominação masculina fizeram com que as mulheres ficassem obrigatoriamente sóbrias. Na segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento da psiquiatria e o surgimento da psicologia e posterior advento da psicanálise freudiana, o alcoolismo feminino passou a ser associado com doença, com surtos de histeria ou loucuras decorrentes do estado hormonal, que faziam a mulher tomar uns dois tragos ou mais, ou mesmo tão e simplesmente sinais de decadência moral e física. Quem desposaria uma mulher que leva uma garrafa debaixo do braço? Ter ao seu lado uma mulher alcóolatra era a pior das infâmias, motivo de escárnio ou preces devido a uma maldição causada ao homem por punição divina. Mulher e copo cheio de bebida não correspondiam, ao menos que o whisky, a cerveja, o vinho ou a cachaça fossem sorvidos pelo homem, a fim de alimentar seu apetite sexual e assim, de forma ébria, satisfazer-se sexualmente possuindo uma mulher, em estado de embriaguez preordenada.

Somente no século XX, com os movimentos de libertação da mulher e o surgimento do feminismo, o consumo de álcool e outras condutas tanto adotadas por homens quanto por mulheres, passaram, a meu ver, a serem toleradas na sociedade, não sem um certo tom de crítica e estereótipos traçados pela cultura do período. Até hoje, a visão de uma mulher segurando uma garrafa de bebida alcóolica, pode simbolizar tanto propaganda de cerveja quanto o auge da vulgaridade. No Código Penal, na jurisprudência, e na doutrina jurídica sobre os crimes sexuais, o fato de um homem ter relações sexuais com uma mulher embriagada ainda pode suscitar um processo por crime de estupro, com violência presumida, uma vez que muitos teóricos do direito entendem que a mulher num estado de embriaguez é incapaz de discernir sobre a natureza de seus atos ou de manifestar consentimento. Em função disso, muitos homens alertam os outros da "roubada" de conhecer uma mulher embriagada no meio da noite e com ela ir para a cama, uma vez que no dia seguinte o sujeito pode ter a polícia batendo na sua porta. O álcool ainda pode ser utilizado por muitos como artíficio ou mecanismo para inibir a mulher, tirar dela toda a liberdade de ação, e com isso usar da substância alcóolica como mais uma instrumento de subjugação.

Entre as figuras célebres no meio feminino que popularizam o consumo do álcool e até o utilizaram como marketing involuntário, podemos citar, na contracultura do final dos anos 60, a cantora Janis Joplin, que entre goles e mais goles de whisky, vodka e um quilo de drogas e substãncias  alucinógenas, cantou a alma da mulher ferida entre um trago e outro, cambaleando por vezes no palco com sua embriaguez triste, porém lírica. Décadas antes, Billie Holliday sucumbia ao efeito das mesmas drogas e de doses cavalares de álcool, sem medo de dizer o que sentia ou o que cantava, e dando de bruços às críticas da sociedade conservadora e racista de sua época. O consumo de bebida e a imagem da bad girl passaram a caminhar juntos, e assim como os demais símbolos de contestação, as chamadas "moças de familia" passaram a sair de casa, contrariar seus pais e tomar umas doses de bebida, não sem antes receberem a extremada crítica de que mulher que bebe é mulher vulgar, mulher vadia ou que não tem a cabeça no lugar. Pra reforçar o estereótipo, na década de 80 do século passado, no lugar de Janis Joplin, tivemos o corpo sóbrio, sarado e rebolado de Madonna, dançando freneticante like a virgin, exalando sensualidade, mas sem uma gotinha de álcool, no seu perfil de geração saúde, regado à alimentação macrobiótica, exercícios, plásticas e cabala. Somente no novo século, nesta última década, é que pudemos reviver a estética de estrelas bebuns, como no caso das cantoras inglesas Amy Winehouse ou Lily Allen. No caso da primeira, as estripulias etítlicas serviram de fermento para os paparazi, enchendo os tablóides e alimentando a fama da nova estrela da soul music global, tanto quanto sua música, que esboça o mesmo sofrimento da perda do amor sentido a cada gole da mulher traída ou abandonada, como as idas e vindas das clínicas de reabilitação por consumo de álcool ou drogas de Miss Winehouse; enquanto que no caso da segunda, o consumo excessivo de álcool mais parece uma picardia juvenil pós-adolescente de quem quer aparecer através da birita. É! De qualquer forma, a impressão que fica é que sempre parece feio ver uma mulher encher a cara, e mais feio ainda de ver que nas novas gerações, mais e mais mulheres buscam seus iguais direitos numa sociedade masculinizada, imitando até os vícios dos criticados homens, vindo a beber tanto ou mais que seus antagonistas de gênero. Será que é preciso mesmo beber tanto?

Volto para a cena que vi nesta semana, vendo uma pobre coitada despencar embriagada de uma cadeira, batendo a cabeça no piso do bar, permanecendo inconsciente e desanimada, enquanto uma turba de garçons se apressava a reanimá-la, entre golfadas e mais golfadas de vômito. Pensei que desabava ali não mais apenas uma mulher embriagada, mas também o resto de sua autoestima e credibilidade. Bebemos por vários motivos: ou para comemorar a vitória de nosso time, o novo emprego conquistado, o nascimento do filho, a aprovação no vestibular, um novo emprego ou um aumento de salário; assim como podemos tomar mais uma dose para afastar sentimentos recônditos que odiamos, fugir da tristeza que não cansa de ficar, ou para esquecer amores perdidos. No caso da mulher, parece que a sentença por ter bebido e exagerado parece mais pesada e demasiada do que a dos homens. Não importa só a ressaca física da mulher que beijou a lona após ter bebido demais, mas sim aquela ressaca moral,que insiste em permanecer quando vemos que o fiapo de sedução que a mulher possuía desaparece,quando ao invés de um rosto, um cabelo ou corpo bonito, o que sobra é um corpo flácido e alcoolizado, mais parecendo um saco de batatas do que um objeto do desejo, numa noite perdida em uma mesa de bar. Não sou contra mulheres que bebem, e sou muitas vezes parceiro de uma rodada de chope de muitas de minhas amigas, mas o que percebo tristemente é que mais e mais mulheres desconhecidas vão me aparecer com bafo de whisky, martini ou cachaça, e dessas, com muita certeza, creio que não vou ter muito o que acrescentar. Só posso dizer uma coisa: SE BEBER NÃO DIRIJA! Até o próximo gole!!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

SAÚDE: Vivemos numa sociedade química??

Na edição n.o. 187 da Revista Trip, em reportagem assinada por Nina Lemos, na seção "comportamento", aparece uma matéria interessante, intitulada "Super-normal", comentando o consumo generalizado do medicamento Rivotril, ansiolítico que se tornou o segundo remédio mais vendido no Brasil, na frente do Tylenol e do Hipoglós. Para se ter uma ideia, no ano de 2008, foram vendidas 14 milhões de caixas do remedinho tarja preta que agora faz a cabeça da galera "descolada". Pois é, tomar Rivotril agora virou cool, e quem tem uma crise de ansiedade, uma deprê, ou não consegue dormir, é só tomar um comprimido de "Rivô", como o remédio é agora chamado carinhosamente por seus consumidores. Detalhe: para um remédio que causa uma forte dependência, para os viciados nele, o medicamento virou uma verdadeira entidade. Bateu tristeza: Rivô nela!!!!

Como sou viciado em leitura ( e não em medicamentos), gosto da Trip, como de outras publicações, porque a revista de Paulo Lima consegue me manter antenado sobre o que a juventude (ou nem tanto)  urbana e classe média do país vem pensando ou consumindo, ou mesmo simplesmente para apontar as tendências ou modismos culturais do período. Há reportagens interessantes e muito bem feitas mesmo, além de ser possível fazer uma verdadeira pesquisa sociológica sobre muitos temas que são abordados pelo periódico, além das célebres "páginas negras", seção inicial da revista, que sempre tem uma matéria de capa sobre alguma personalidade que ganhou (merecidamente ou não) atenção da mídia.

Como exemplo de quão são interessantes as reportagens da revista e o quanto de relevante em termos de reflexão podemos fazer acerca do que é publicado, foi aquela que citei acima sobre o Rivotril. Anteriormente diagnosticados como "doentes emocionais", os usuários do fármaco agora saíram das sombras, revelando o uso em larga escala do medicamento por celebridades, pessoas do meio artístico e intelectuais. O ator e diretor Selton Mello, por exemplo, ao receber no ano passado o prêmio de melhor ator, por sua atuação no filme Meu nome não é Johnny, disse nos alto-falantes em seus agradecimentos, que agradecia não somente a todos os presentes do auditório lotado da premiação, mas também à indústria farmacêutica, ao Pramil e ao Rivotril que faziam as pessoas "ficar tão bem" (sic). Selton Mello toma Rivotril, Pedro Bial também (até pra demonstrar aquela alegria toda de palhaço midiático, meio "Neochaquinha", no BBB), Zeca Pagodinho também é adepto do medicamento, Erika Palomino diz que não vive sem ele, e inúmeros escritores, publicitários e músicos não saem de casa sem tomar seu comprimidinho, deixando sempre à disposição uma caixinha do remédio no bolso, caso a barra comece a pesar . Daqui a pouco, vão dizer que até o Lula toma do remédio!

Alçadas à condição de "mãe de muitos brasileiros", no momento em que aquieta até o mais feroz dos pitbulls, drogas como o Rivotril começam a ser usadas exageradamente em nossa sociedade, burlando inclusive à fiscalização de farmácias que exigem requisição médica para a venda do fármaco, muito em função das pressões da sociedade urbanizada, pós-industrial e globalizada que vivemos, gerando todo um clima de crise, deslocamento, desenraizamento ou aporrinhação mesmo, que nos primórdios da sociologia, na teoria de Durkheim, poderíamos definir como "anomia". A crise ou perturbação pela ausência de valores fixos que levem a uma estabilidade emocional ou a um chão onde os indivíduos possam se firmar, acaba por produzir uma nova fetichização na sociedade de consumo capitalista, forçando muita gente a, literalmente, "comprar felicidade". A indústria farmacêutica segue o rumo da indústria comum; ou seja, produz bens de consumo duráveis ou não duráveis que devem ser produzidos e utilizados em grandes quantidades, a fim de que gere lucro. Sem querer ser o mais marxista dos sujeitos (até porque não sou), entendo que a lógica do sistema capitalista, através do discurso médico-psiquiátrico, acabou por tentar "vender seu peixe", com bastante êxito, na popularização de um produto que promete ser a solução dos males modernos, que tanto produzem danos psicológicos. O consumo desenfreado do Rivotril no Brasil me faz lembrar o filme Requíem para um Sonho, de Darren Aronofski , onde a personagem Sara, interpretada pela atriz Ellen Burstyn,  mãe no filme do viciado em drogas Harry (Jared Leto), também mostra sua dependência química, ao viver entupida de comprimidos pra emagrecer ou que a façam dormir, a fim de participar de um programa de televisão.

O problema não está na nobre intenção da ciência médica de produzir medicamentos que aplaquem a dor, principalmente a dor interna, a dor da alma. O problema é quando o remédio ou o discurso sobre o medicamento se propõem a ser um substitutivo para as necessárias reações internas e naturais, que cada um tem que ter ou ao menos se propõe a reagir, diante de um sentimento ou situação de frustração, de ter chegado ao limite, de angústia, de provação, de dor. Vivemos numa realidade bastante desumanizante e perturbadora, de cobrança crescente por resultados numa "selva de pedra", que consome não só carne, suor e sangue, mas também espíritos, almas e pensamentos. Em países de primeiro-mundo, como Japão, ou em paraísos do bem-estar social, como na Dinamarca ou na Suécia, são comuns casos de pessoas que se suicidam, geralmente até em determinados períodos do ano, numa lógica macabra que revela que muita gente simplesmente não consegue "segurar a onda", diante dos dilemas impactantes de uma rotina e dia a dia cada vez mais sufocante. Imagine quem vive em São Paulo, deparando-se com o cotidiano da grande cidade, com seu monstro metálico de buzinas, congestionamentos, fumaça, barulho incessante e voo ininterrupto de helicópteros, fazendo com que muitas pessoas, em plena situação de pânico, abandonem seu carro em meio ao engarrafamento, simplesmente porque não aguentam mais. É muito fácil escutar na metrópole o coro de corpos exaustos, a voz trêmula de quem não aguentou mais o perturbador e  frenético movimento da urbe, resfolegando em voz trêmula, dizendo: "cansei!". É nesse cenário que o discurso onipresente de valorização de drogas como o Rivotril ganha tanto vulto.

Não tenho nada com a vida das pessoas e nem posso julgar como fracos quaisquer indivíduos que necessitaram prioritariamente de ajuda, e daí, aconselhados por bons profissionais da medicina ou da psicologia, agora se valem de medicamentos para conseguir aguentar o tranco dos dias de hoje, para não ter um "piti" e nem meter uma bala na cabeça. O problema que vejo e que aludi acima é quando todas as demais opções (mudar de cidade, viver no campo, mudar de emprego, casar com outra pessoa, abraçar uma religião ou seita, descobrir novas aptidões artísticas, praticar esportes, ir ao cinema, ou simplesmente encher a cara, tomando várias cervejas) são deletadas em prol de uma solução que vem por um comprimido que promete ser a saída para todos os males da alma. Isso gera um movimento perigoso de perseguição cada vez maior da felicidade a qualquer custo, nem que seja pelo vício e dependência em drogas lícitas, que pode provocar consequências efetivamente trágicas. Afinal de contas, quem não vê nos meios de comunicação, nos últimos tempos, a fila macabra de celebridades mortas por overdose de medicamentos?

Em prol do "culto ao remedinho", figuras célebres como Elvis Presley, nos anos 70, e Michael Jackson, no passado, sucumbiram por tomar remédios demais, achar que a vida passaria a ser vivida no piloto automático, atuando como um brinquedo de corda movido a medicamentos, que para comer ou não engordar precisa de um estimulante ou inibidor de apetite, para dormir um ansiolítico e para não cair em choro copioso, um antidepressivo. Talvez a falta de religiosidade ou a ausência da rigidez de valores tradicionais de outrora que valorizavam a coragem, a temperança ou a paciência, possam servir como explicação para a saída fácil procurada por tantos de resolver seus problemas pessoais na base de medicamentos. Ano passado, fiquei chocado com a morte do ator australiano Heath Ledger, na precocidade de seus 28 anos, por tomar remédios demais (dizem que o cara não conseguia dormir, e depois que separou da mulher, além de beber, vivia na base de medicamentos), e este ano, pela morte no começo do ano da jovem e bela atriz Britany Murphy,  aos 32 anos, e pelo óbito de seu marido, o roteirista Simon Monjack, seis meses depois, pelas mesmas causas: infarto agudo causado por overdose de medicamentos. E eu que vivia tomando medicamento pra dormir e antidepressivos, há um bom tempo atrás. Ai, que medo!!!

Entendo que tem muita gente boa e sensível morrendo jovem demais, devido a esse culto ao medicamento que, paradoxalmente, ao invés de fazer bem, como o propósito de qualquer remédio, no final faz muito mal. Posso estar falando besteira para qualquer profissional da medicina ou da psicologia que esteja lendo este blog, ou  parecer ingênuo para muitos que recorrem a medicamentos como forma de solucionar seus barulhos internos. Sei, sei! Não sou o sabichão e logicamente posso muito bem não compartilhar da dimensão dos problemas que incomodam e inquietam muita gente, deixando-as tão perturbadas que necessitam realmente de alguma medicação. Só digo que, pelo fato de já ter passado por experiências muito ruins na vida, e ter literalmente desabado, sei do peso de nossas escolhas e de como é difícil se reerguer, se não tivermos a mãozinha de alguma caixa de comprimidos que esteja bem próxima, ao nosso lado, de preferência na cabeceira da cama. Porém, sei também da relevância que tem um bom papo reto com um amigo, um desabafo bem chorado no ombro ou no colo de quem nos ama ou de quem a gente gosta, a confissão de nossos erros ou autorresponsabilização de nossas atitudes pra um padre, pastor ou sacerdote, pra quem exerce alguma religiosidade, o ato de dobrar os joelhos ao pé da cama, olhar para o nada, acreditar que existe algo além, e pedir ajuda ao "cara lá de cima"; ou tão e simplesmente a atenção do barman no balcão ou na mesa de bar, ou de algum transeunte disposto a escutar nossas lamúrias, quando a vida pesa, e queremos escutar na voz de Morryssey, do Smiths, o refrão: "mother, I can feel, the soil falling over my head". Se preferirem, como diria Renato Russo: "viver é foda, morrer é difícil", mas mesmo assim, prefiro encarar a maior parte dos meus problemas de cara limpa, sem ter que recorrer à solução fácil do comprimidinho, toda vez que a barra começa a ficar pesada ( e pesa várias vezes). Para os fãs do Rivô, deseje apenas sorte e felicidade na opção. Para mim, "mais uma dose, é claro que tô afim", Pois, afinal: "por que a gente é assim?".
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