terça-feira, 24 de dezembro de 2013

CRÕNICA SENTIMENTAL: Amores Perros

Quem assistiu ou leu o livro best seller Marley e Eu, com certeza deve ter se comovido com a história do cãozinho Marley, um labrador cuja vida é contada pelo seu dono, de seu nascimento até sua morte. O cinema já se valeu muitas vezes do apelo canino, transformando em heróis animais como o Rin-Tin-Tin ou Lassie. Em Vidas Secas, obra-prima literária de Graciliano Ramos, nos comovemos com a trágica morte da cadela Baleia, assim como no filme Sempre ao seu Lado, nas salas de cinema multidões choravam aos borbotões, com as cenas do ator Richard Gere com um cachorro da raça Akita, interpretando um personagem duma história real, ocorrida no Japão, onde mesmo com a morte de seu idoso dono, o cãozinho da história continuava todos os dias a esperá-lo na estação de trem, aguardando que ele chegasse do trabalho. Até mesmo em tintas menos singelas, o filme Amores Perros, do diretor mexicano Alejandro Gonzales Inãrritu, relevava a inusitada relação de um matador de aluguel com um cão rottwelleir, usado por seus antigos donos em uma rinha de cães. Em todas essas dimensões cinematográficas podemos ver a mesma coisa: o homem ama seus animais.

Mas, afinal, o que tem esses animais que, em sua irracionalidade, comprovada por biólogos, são simples seres dotados de instinto, que não falam ou raciocinam, que se aproximam dos humanos muitas vezes em busca apenas de água e comida, mas são tão queridos e tão bem tratados que, em muitas casas, são tratados quase como parentes? A morte recente de Leopoldo, cãozinho de estimação de minha mãe, revela o quão emocionante é o gênero humano. O quanto somos capazes de fazer coisas absurdas e até mesmo cruéis em prol de um interesse maior (a cura dos problemas de saúde de uma coletividade ou simplesmente o avanço da ciência), fazendo experiências genéticas e dissecando cães da raça Beagle ou enviando cachorrinhas para o espaço, como fizeram com a finada cadela russa Laika, permitindo com seu sacrifício que surgissem os astronautas e as missões espaciais; ao mesmo tempo que somos capazes de fazer festas de aniversário para nossos bichinhos de estimação, ou montarmos verdadeiros complexos hospitalares veterinários para tratar dos males de saúde desses bichinhos, como também chegamos a construir cemitérios para esses animais, com direito a lápides e cruzes, honrando sua memória, relevando que o respeito aos mortos não se dá apenas aos humanos.

Eternizado no blog, Léo ainda vive!
Léo (como era apelidado) pertencia outrora a minha irmã, e quando esta partiu há mais de dez anos para trabalhar em São Paulo, deixou Leopoldo ainda filhote aos cuidados de minha mãe. Ela tinha duas opções: entregar o filhote para outra pessoa assumir seus cuidados ou ela mesma assumir a responsabilidade (e os aborrecimentos) de ter um animal em casa, num apartamento pequeno, onde viviam apenas um casal maduro e uma jovem adolescente (minha irmã caçula). Inicialmente relutante, tanto minha mãe como meu pai acabaram se apegando ao bichinho, e, assim como John, dono de "Marley", contou em seu livro, pude presenciar como testemunha daqueles tempos como Léo mudou o ambiente familiar. Tornou-se aquele poodle preto mais um membro (peludo) da família, e assim como Marley e seus donos, nesses quase 14 anos de vida Léo viveu, junto com meus pais, grandes aventuras.

Fico imaginando o tempo médio da vida de um cão, e do quanto um intervalo de tempo que dura praticamente uma década e meia em nossa história de vida implica em tantas transformações. Do tempo em que vi Leopoldo brincar ainda filhote no pátio da casa de minha irmã, até seu falecimento, velado morto dentro de uma caixa, na garagem da casa de meus pais, muitas coisas aconteceram em minha vida, culminando para eu me tornar o homem que sou hoje. Viajei e morei em lugares diferentes indo a outras regiões e países, conheci novas pessoas, estabeleci novos estudos, tive encontros e desilusões amorosas, fiz novos e valorosos amigos, passei por sérios problemas de saúde, recuperei-me, aprimorei minha formação acadêmica acumulando pós-graduações, escrevi artigos, dissertação, teses, publiquei um livro, vi pessoas queridas morrerem enquanto outras nasceram, assisti a três Copas do Mundo, envelheci, e finalmente encontrei o amor, casando-me e constituindo minha própria família. Durante todo este tempo estava lá o cãozinho Leopoldo, carregado pela coleira pela minha mãe, em seus passeios matinais com seu bichinho de estimação, deixando-o correr pelo condomínio onde morava, brincando com outros animais ou pessoas, importunando os vizinhos, urinando na calçada, em postes ou mesmo no pneu dos carros de outros moradores, mas mesmo assim conquistando toda uma vizinhança. O que pude perceber, pela pequena quantidade de pessoas que se aproximou dele e lhe rendeu uma última homenagem, em sua morte, como num pequeno velório, onde pessoas familiares iam e vinham para consolar minha inconsolável mãe.

Dizem que os bichos não tem alma. Ao menos é isso que aprendemos nos catequismos, nos estudos bíblicos ou nas escolas dominicais. Creio que isso seja apenas uma meia verdade. Acredito que o amor e todos os bons sentimentos que sentimos por esses animaizinhos é o que os torna genuinamente humanos e eternos, pois se a alma persiste quando o corpo se vai, é a alma do afeto e do amor que tivemos por nossos bichos de estimação que perdura, como lembrança de que ainda somos seres dotados de amor. Na Bíblia, em  Provérbios 12.10, lê -se: " O justo olha pela vida dos seus animais; porém as entranhas dos ímpios são crueis". Em Gênesis 8:16-17, quando Noé sai da arca, com todos os animais que ele havia protegido durante o dilúvio, Deus abençoa a espécie humana, assim como todos os animais, dizendo: " Sai da arca, tu, e juntamente contigo tua mulher, teus filhos e as mulheres de teus filhos.  Todos os animais que estão contigo, de toda a carne, tanto aves como gado e todo réptil que se arrasta sobre a terra, traze-os para fora contigo; para que se reproduzam abundantemente na terra, frutifiquem e se multipliquem sobre a terra."

Em 2011, Léo ainda aprontava no Natal daquele ano.
Não sei se um dia, em um outro plano espiritual,  voltarei a rever o caõzinho Léo, que tantas alegrias deu a minha família, especialmente a minha mãe. Somente sei que, assim como se diz na passagem bíblica em Mateus 25: 32-45, acredito que tudo o que fazemos aos nossos "pequeninos", sejam pessoas ou animaizinhos, alegra a Deus. Minha mãe assumiu a responsabilidade de cuidar de um cachorrinho que tinha ficado sem lar, quando sua primeira dona foi embora, e com isso não apenas teve que assumir várias obrigações de alimentação, moradia e cuidado de um animal, mas também pôde exercer o amor em sua plenitude para uma das criaturinhas de Deus que mais necessitava. Acho que é desta forma que admiro minha mãe, e a todos os donos de animais que não são apenas pets, simples mascotes ou brinquedos vivos que servem para nos alegrar, mas também são seres de um mundo criado por Deus que necessitam de nosso afeto e proteção. Em minha fé agradeço a Deus pelos anos em que pude presenciar o cãozinho Léo pulando, latindo e farejando na residência dos meus pais e nas viagens que fez conosco, assim como agradeço o aprendizado de amor que o tempo em que minha família esteve com ele proporcionou, dando-lhe muito carinho e acolhida no tempo em que ele necessitou. Será um Natal mais triste passar uma ceia em família sem os latidos ou resmungos de Leopoldo, mas também será um Natal feliz, por comemorar um tempo tão bonito em que pudemos constatar o quanto que "o melhor amigo do homem" foi, para nós, realmente um amigo. Adeus (ou até breve) Léo!!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ESPORTE: Campeonato Brasileiro 2013-Avaliações

Ontem, dia 8 de dezembro de 2013, encerrou-se mais uma edição do Campeonato Brasileiro, com a relação dos times que, na tabela de resultados, alcançaram a glória de chegar ao patamar máximo dos times que irão disputar a Taça Libertadores da América de 2014, e aqueles que amargarão o rebaixamento, sendo transferidos da Série A para a Série B do campeonato nacional. Como amante do futebol, senti-me levado a comentar os resultados do Brasileirão 2013, tecendo algumas considerações sobre as equipes vencedoras e perdedoras, que no ano que vem, respectivamente, tentarão manter os seus acertos ou aprender com seus erros.


CRUZEIRO: campeão merecido, apesar do pouco futebol.
Se eu começar a falar do início da tabela do campeonato, eu poderia começar pelo campeão, o Cruzeiro, que com um time mediano, e sem nenhuma estrela nacional ou internacional, conseguiu ganhar o campeonato por antecipação, isolando-se dos demais times nas rodadas anteriores do campeonato, com uma pontuação respeitável, que o levou ao primeiro lugar, sem que o time fosse brilhante, mas sim disciplinado. O Cruzeiro simplesmente fez o dever de casa, atuou como deveria atuar, ganhando jogos importantes, sabendo se distanciar de seus rivais na disputa do título, aproveitando as irregularidades de equipes como Grêmio e Botafogo para chegar ao patamar final de Campeão Brasileiro de 2013. O time mineiro, já experiente em torneios internacionais com duas taças Libertadores em sua história, mereceu ser campeão, mas não conseguiu igualar o feito do São Paulo, até hoje a equipe nacional com o maior número de pontos conquistado na era dos torneios de pontos corridos. Resta saber se no torneio continental do próximo ano, o Cruzeiro mais uma vez amargará a condição de mero coadjuvante, ou se terá força suficiente para a disputa do título de campeão das Américas.

RENATO E SEUS PUPILOS: em 2014, vai ter que agradar o exigente clube.
Em relação ao segundo colocado, o vice-campeão Grêmio, algumas considerações críticas que levam em conta a entrevista dada por seu técnico, o eterno ídolo do clube, Renato "Gaúcho" Portaluppi. Segundo ele, sem esboçar sorriso algum para os jornalistas, o momento agora é de comemoração pela classificação para a Libertadores, apesar do time não conseguir alcançar o sonhado título de campeão nacional .É hora de férias, segundo ele, e, nos dizeres do próprio Renato: " a diretoria do clube tem meu telefone, se quiser  me ligar!". Esse foi um recado claro, exposto à mídia de todo o Brasil e, principalmente para a torcida gremista e a diretoria de seu clube, que não obstante o papel desempenhado por seu técnico, o Grêmio teve uma atuação irregular em todo o campeonato, perdendo jogos importantes, apesar de ter recuperado posições, muito mais por vacilos de seus principais concorrentes (leia-se, principalmente, o Botafogo e Atlético Paranaense), do que por méritos do clube portoalegrense. O Grêmio não chegou a ameaçar nem de longe o líder Cruzeiro, e contentou-se com uma segunda posição, sabendo que o time tem muito o que melhorar no seu plantel de jogadores, se quiser passar da primeira fase do importantíssimo e dificílimo torneio da Libertadores de 2014.

O Atlético Paranaense fez também seu dever de casa, mostrando que no G4 do torneio nacional, onde ficam as equipes mais qualificadas para disputar uma Libertadores, os times das regiões sul e sudeste foram onipresentes nessa edição do campeonato brasileiro; deixando, entretanto, os times paulistas de fora, como bem será comentado abaixo, em relação ao desempenho fraquíssimo este ano de fortes equipes tradicionais do torneio, como o campeão mundial Corintians, o São Paulo e o Santos. Por falar em Santos, este foi o time que, ironicamente, mais se destacou na fase final do campeonato, ganhando todos os últimos jogos, culminando com uma goleada no Goiás, na casa do adversário, no Serra Dourada, eliminando qualquer possibilidade da equipe do centro-oeste de conquistar uma sonhada vaga no torneio da Libertadores da América. O Santos terminou com um honroso  sétimo lugar, levando em conta o desempenho insignificante das demais equipes paulistas, sem contar com a ausência do Palmeiras, rebaixado no ano anterior, e que em 2014 retornará a Série A repaginado, renascido das cinzas, depois de ter conquistado o título nacional pela Série B este ano, e ter economizado energias e arrecadado dinheiro com patrocinadores na versão mais modesta do Brasileirão, disputando com equipes mais fracas, até retornar à elite do futebol nacional.

TRISTEZA TRICOLOR:não teve jeito, o Flu foi rebaixado!
Em relação às equipes cariocas que participaram do Brasileirão 2013, aqui vai o meu comentário: a cada ano percebe-se a decadência constante dos times do Rio de Janeiro e não obstante o Fluminense te sido campeão brasileiro no ano passado, o mesmo time conseguiu bater o recorde histórico de ser a primeira equipe de futebol a ser campeã em um ano e ser rebaixada no ano seguinte. Isso mesmo! O Fluminense foi rebaixado para a Segunda Divisão, assim como também o Vasco. Outrossim, pela primeira vez na história dois gigantes do futebol carioca descem junto para a Série B do Brasileirão. Tristeza de cruzmaltinos e tricolores, alegria dos adversários e daqueles torcedores locais em estados no norte, nordeste e centro-oeste, que agora vão ter a oportunidade de ver esses times e seus ídolos de perto, no modesto campeonato de times mais fracos como o ABC e o América RN, mas em estádios novos e bem equipados para a Copa do Mundo, como o Arena das Dunas em Natal. Ao menos os torcedores potiguares vão ter grandes atrações nos jogos da Segundona no ano que vem.


Apesar da ameaça de rebaixamento,o Flamengo riu por último.
Dos times cariocas, apenas Flamengo e Botafogo tiveram um sucesso relativo, cada um a seu modo e de formas não menos dramáticas. A equipe rubro-negra, apesar da campanha pífia no campeonato nacional e o risco de rebaixamento nas primeiras rodadas do certame, conseguiu se recuperar a ponto de evitar o vexame de cair na tabela, ficando em 11º lugar, sem chance de disputar uma Sul-Americana, mas com o sorriso maroto de ter feito quase o impossível: ter ganho paralelamente ao Campeonato Brasileiro a Copa do Brasil, conseguindo automaticamente a vaga na Libertadores da América. No final das contas, com um time fraco, sem nenhum jogador respeitável e nem com um técnico de destaque, o Flamengo terminou 2013 rindo dos demais, permanecendo na elite do futebol nacional e conquistando vaga no torneio mais desejado nos sonhos das torcidas dos maiores clubes do Brasil.

SEEDORF:demonstrou em campo porque é o atual herói do Botafogo.
Quanto ao Botafogo, mesmo com o lendário holandês Seedorf, a equipe de General Severiano e meu time do coração, campeão carioca de 2013, só conseguiu (provisoriamente) a vaga na Libertadores no último jogo do campeonato, fazendo uma campanha épica contra o Criciúma, numa vitória que convenceu a torcida, na goleada de 3 X 0 feita, em sequência, nos pés de Lodeiro, Elias e o próprio Seedorf. O final do jogo teve direito ao choro do craque ao sair de campo, abraçado pelo técnico Osvaldo de Oliveira, ambos  de saída do time da Estrela Solitária, caso o Botafogo não confirme sua vaga no torneio continental, uma vez que precisa "secar" o já rebaixado Ponte Preta, na final da Copa Sul Americana, contra o Lanús da Argentina, para não perder a vaga da cobiçada Libertadores. Assim como o Grêmio, o Botafogo veio numa campanha irregular, demonstrando o que eu sempre disse aqui no meu blog acerca do meu time: o Botafogo é o time mais bipolar do futebol nacional. É uma equipe que ganha onde tem que ganhar, mas perde onde não podia perder! Por conta disso, o Fogão passou quase que o campeonato inteiro perseguindo o Cruzeiro entre os primeiros colocados do campeonato, até ceder espaço nas rodadas finais para times como  o Grêmio, Atlético Paranaense e o espevitado Goiás. No final, apesar de ter feito o seu dever de casa, e ter tido a sorte de "Papai do Céu" lhe sorrir, na goleada sofrida pelo Goiás, o time de Seedorf, Lodeiro, Rafael Marques e companhia ainda terá que esperar sofregamente pela derrota da Ponte Preta, próxima quarta-feira, atestando o ditado que botafoguense é um torcedor fadado a sofrer.

QUE FEIO ISSO!No rebaixamento do Vasco, violência, muita violência!
Mas, se o sofrimento do Botafogo é a dúvida se vai ou não vai disputar a Libertadores do ano que vem, ao menos, dos times cariocas, sua situação é bem mais confortável do que a do Vasco, rebaixado fragorosamente após uma massacrante goleada do Atlético Paranaense no jogo final, por 5 X 1, com direito a queimas de bandeiras do clube pelos torcedores, ameaças a sua diretoria e as tristes cenas no estádio em Joinville, palco da disputa, quando enraivecidos torcedores vascaínos foram massacrados não apenas em campo, mas também nas arquibancadas, em cenas de violência que chocaram o Brasil e o mundo, levando ao menos quatro torcedores para o hospital em estado grave. O desespero cruzmaltino revela a agonia de um time outrora campeão, maior rival do Flamengo, que agora amarga tristemente o inferno do rebaixamento pela segunda vez em sua história recente. O final do Brasileirão de 2013 foi um verdadeiro requiém para um time que já se encontrava desenganado desde os torneios iniciais do campeonato.

INTERNACIONAL: outrora equipe forte, esse ano desapontou.
Outras equipes, outrora de peso no campeonato, como o Internacional, este ano não disseram a que vieram, numa campanha decepcionante para o time gaúcho, campeão mundial e bicampeão da Libertadores. Não obstante ser um dos times mais ricos do Brasil, ter sido regido durante a temporada pela batuta de técnicos talentosos, mas controversos, como Dunga, e ter um dos melhores plantéis de jogadores do país, o Inter não fez jus ao nome, e fez também uma campanha fraca, que deixou muito a desejar. Nesse ano vindouro, em que o estádio Beira-Rio será uma das sedes de jogos da Copa do Mundo, espera-se que o time se reorganize, com a esperada chegada do técnico Abel Braga, herói do time na sua conquista do Mundial de 2006 e quem tem a dura obrigação de, assim como Felipão na Seleção Brasileira, reeditar com o Internacional uma parceria vitoriosa, para alegria de milhares de colorados espelhados por todo o país.

E, por fim, o Atlético Mineiro, campeão da Libertadores da América deste ano e time que vai disputar o Mundial Interclubes enfrentando, possivelmente, o poderoso Bayern de Munique, atual campeão da Champions League da UEFA. Com uma atuação apenas regular, muito mais preocupado com o torneio internacional que poderá colocar seu nome na história, a equipe do técnico Cuca pouco jogou nesse Brasileirão, ganhando ou empatando apenas jogos chave, para não ter que, como o Fluminense, amargar num mesmo período a glória e a decadência sucessivas. O time passou o ano totalmente focado na Libertadores, foi campeão do torneio latino-americano mediante uma campanha épica, passando por equipes fortíssimas pênalti após pênalti, e no fim terminou o ano apenas querendo saber do Mundial Interclubles, a fim de fechar com chave de ouro uma escrita iniciada com o título do estadual no começo do ano, completada com a Libertadores, e que pode culminar com o ano de maior êxito da história do clube, a fim de satisfazer a torcida (e o ego de Ronaldinho Gaúcho!).

A torcida do Vasco encerra o ano de luto!
2014 será o ano da Copa e com o término do Brasileirão deste ano, os olhos do Brasil e do mundo voltam-se totalmente para esse megaevento mundial, realizado novamente no Brasil após mais de 60 anos. Até lá creio ser difícil estabelecer qualquer prognóstico para saber quem vai se dar bem e quem vai cair no Campeonato Brasileiro do ano que vem, mas o que posso dizer de 2013 é que nenhum time está livre do azar de cair, como também da glória de chegar ao título. De qualquer forma, que os resultados deste ano sirvam como lição e elemento de crítica para como os clubes brasileiros estão organizando o calendário das partidas de seus times, e de como isso deve ser reformulado, a fim de que grandes injustiças não sejam cometidas com treinadores e jogadores. Que o digam Vasco e Fluminense, que o diga o São Paulo e uma infinidade de times que poderiam estar erguendo a taça e não estão, como outros que só conseguiram isso por mera sorte, disciplina, mas sem muito talento. Que em 2014 o Brasil seja campeão da Copa, mas que também o Campeão saiba mudar o futebol que se desenvolve em sua própria terra. FORÇA, BRASIL!!!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DESCANSE EM PAZ: Manoca Barreto (1964-2013)

O luto é um sentimento sempre inesperado. Nunca sabemos quando ele vai surgir, e quando surge é sempre devastador. O luto consome a alma, mas é luto para ser vivido, e como todos nós podemos ter esse sentimento, o sentido do luto é sempre  passar por ele.

Mas o que é pior é o que antecede ao luto: a surpresa. E foi com extrema surpresa ( e sentido luto) que eu soube da morte do músico, artista e professor potiguar, Manoca Barreto. As notícias ainda são desencontradas. Fala-se mais do enterro, que aconteceu ontem, no Cemitério Morada da Paz, em Natal, do que das causas da morte. Muitas são as homenagens, dos amigos, artistas locais e pessoas que conheciam o mestre da guitarra e multi-instrumentista falecido. Ele  foi encontrado morto em seu apartamento, por volta das sete horas da manhã do dia 25 de novembro. Algumas notícias indicam que ele deixou uma carta, e a polícia descarta homicídio. Manoca morreu com apenas 49 anos. Muito pouco para uma vida dedicada à musica, arte de alguém que a carregou na alma, levando a guitarra no braço como sua segunda pele, ensinado gerações e mais gerações de novos instrumentistas.

João Barreto de Medeiros Filho nasceu em Natal, no ano de 1964. Filho de uma família tradicional de classe média, Manoca veio de uma família em que a maior parte de seus familiares tinha algum tipo de vinculação com a música. Ele deixou dois irmãos também músicos: o guitarrista Carlinhos e o baterista Fernando Suassuna. Manoca integrou o Fluidos, importante banda potiguar de rock progressivo dos anos oitenta, que gravou disco e chegou a fazer shows em cidades como o Rio de Janeiro. No final dos anos oitenta, após conhecer o Sudeste, Manoca decide sair da banda e se especializar no emprego da guitarra, matriculando-se na Escola de Musica e fazendo Mestrado pela Unicamp, onde pesquisou sobre o uso da guitarra no Brasil. Professor da Escola de Mùsica da Universidade Federal do Rio Grande  do Norte, Manoca era, sobretudo, um educador, mas também participou como guitarrista de tudo de bom na produção musical brasileira dos últimos vinte anos. Ele já tocou com artistas conhecidos nacionalmente, como Toninho Horta e Leila Pinheiro, e ganhou vários prêmios durante sua vida. O último deles foi o Prêmio Hangar da cultura potiguar, concedido a ele neste ano, além de uma série de vídeos e participações importantes na cena local. Para mim, Manoca não era apenas um dos maiores músicos do Rio Grande do Norte, Manoca era um dos maiores artistas do Brasil!

Da minha experiência pessoal com Manoca, lembro-me de tê-lo conhecido na década de noventa, quando eu era aluno iniciante de piano no Instituto de Música Waldemar de Almeida, no bairro de Petrópolis, em Natal. Na época, eu tinha uma banda de rock, o Jus Causae, e meu amigo Roger Rocha era o guitarrista da banda e aluno de Manoca. Eu me recordo da simpatia e humildade do cara. Do seu sorriso largo, perguntando a mim como é que estava a banda e dos paternais puxões de orelha que dava em Roger, toda vez que ele não se empenhava como devia nas lições de guitarra. Manoca era, sobretudo, um cara que transmitia uma paz enorme, seja ao conversar com seus amigos, seja ao tocar suavemente a sua guitarra. Era um egresso de bandas de rock que abraçou o jazz e toda a musicalidade oriunda desse riquíssimo estilo musical. Eu me recordo que ele gostava especialmente de grandes instrumentistas como Pat Metheny, e eu já escutei por mais de duas  vezes suas perfomances tocando em barzinhos de Petrópolis, tocando covers em sua guitarra de sucessos jazzísticos como Dave Brubeck e Stanley Jordan. A música de Manoca parecia espelhar o seu espírito sereno, viajante, de suaves cordas dedilhadas num instrumento que parecia ter uma sonoridade mais gostosa quando era tocada por um cara que era um autêntico artista de sua geração.

Mas, talvez, a maior participação que Manoca teve na minha vida (e que não irei esquecer), eu deixo registrado aqui no blog, quando, em 1996, eu participei do Festival de Música do SESC, com uma música que eu e Roger gravamos, baseada num poema de Giovana P. A música tinha sido selecionada entre as 15 melhores de mais de uma centena de gravações enviadas à organização do festival, e eu e meu amigo tivemos a oportunidade de cantá-la para uma multidão, no auditório do SESC de Ponta Negra, contando com uma banda de apoio que era liderada por Manoca nas guitarras. Foi ele o responsável pelo arranjo e pelos ajustes finais numa música que ficou monumental, maior do que eu havia concebido, com o som da guitarra dele, aliado ao timbre da minha voz. Eu não podia acreditar, eu, que era um moleque de vinte e poucos anos, recém saído da faculdade e integrando uma banda de garagem, sendo acompanhado num festival por um músico do calibre de Manoca. Pena que não havia vídeos da época para registrar esse momento; mas aconteceu. Com isso, Manoca Barreto deixou de vez, como legado, uma participação sua em minha (curta) vida de músico.


Fico realmente triste e muito desanimado por saber que Manoca partiu tão cedo. Fazia anos que eu não via o cara, desde que nossos caminhos desencontraram e eu fui fazer minha pós-graduação fora, afastando-me do RN e retornando após o meu doutorado. De qualquer forma, de pessoas como Manoca eu esperava uma vida mais longeva, no mínimo encontrando o cara bem velhinho, mas mantendo seu sorriso simpático, tocando sua guitarra debaixo do alpendre de alguma casa de praia, enquanto via as ondas, como o astro mexicano Carlos Santana, outro grande guitarrista a quem Manoca tinha sincera admiração. Quero crer que pessoas como Manoca são tão importantes que Deus decidiu chamá-lo mais cedo, encerrando o belíssimo trabalho que ele fez neste mundo. Quero pensar que agora Manoca está no céu entre os anjos, fazendo-os sorrir, tocando sua guitarra celestial. É por isso que nesse texto faço minha sincera homenagem a Manoca Barreto, a sua obra e que novas gerações, pessoas de fora do RN, e todos aqueles que não o conheceram, possam ter uma ideia de quem ele foi, pois se em vida ele não recebeu todo o reconhecimento que ele merecia, agora com sua partida, com certeza, Manoca jamais será esquecido. Adeus, meu bom e talentoso Manoca Barreto!!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

IN MEMORIAM: Lou Reed

Lou Reed morreu! Lou Reed tinha tudo para ter morrido bem antes. Poderia ter morrido de overdose de drogas, nos anos setenta; de AIDS, nos anos oitenta, quando a doença se disseminou relevando o perigo de práticas sexuais libertinas. Lou poderia mesmo ter morrido assassinado, vítima de algum traficante a quem não pagou a dívida ou de um fã ensandecido, dos muitos que ocupavam a cena artística daquela época, e que poderiam ter atirado em Lou, como Marc Chapman fez com John Lennon em 1980. Mas não, Lou Reed ainda viveu muito tempo: exatos 71 anos, e em sete décadas de existência tornou-se mito, uma lenda que permanece apesar da morte do ídolo. E a morte de Lou, apesar de anunciada com discrição, como foi quase toda a vida do músico, ainda chocou muita gente.



Nascido Lewis Allan Reed, em 2 de março de 1942, no bairro do Brooklyn, em Nova York, o cantor e guitarrista norte-americano viveu na cidade praticamente a vida inteira, salvo longos períodos sabáticos em sua juventude, quando o jovem músico excursionava pela Europa ou gravava álbuns com sua antiga banda dos anos sessenta, o The Velvet Underground, ou então em produções solo. Foi através do Velvet, inclusive, que Lou ganhou popularidade, numa banda formada nos Estados Unidos, mas que fracassou em vendas de discos na sua terra natal, ganhando, entretanto, aspectos cult ao ser celebrizada na Europa. O Velvet Underground foi, desta forma, uma das primeiras bandas de art rock da história, famosa por sua formação clássica contando com Reed no vocal e guitarra, o baixista galês John Cale ( parceiro musical e poético), o guitarrista Sterling Morrison, e a baterista Mauren Tucker. Além desses integrantes, o Velvet teve como segunda vocalista, a cantora e modelo alemã Nico (na verdade, Christa Pffägen), indicada pelo artista plástico Andy Warhol, um dos produtores e grande incentivador da banda, idealizador da Factory e responsável pela antológica capa da banana, do primeiro álbum do grupo.

Lou Reed e o Velvet Underground
Recordo-me de escutar Lou Reed pela primeira vez, vivendo em Natal, com vinte e poucos anos de idade. Fui introduzido ao som dele e do Velvet pelo extinto grupo de jovens artistas e intelectuais locais chamado Sótão 277. Foi no grupo integrado por amigos interessantes, como o hoje poeta, filósofo e escritor Pablo Capistrano e o cineasta Aristeu Araújo, que eu conheci, nas festinhas daquela rapaziada universitária, o som do Velvet Underground, nas vozes de Lou Reed e de Nico, como também toda a inspiração beat que fluía em sua música. Lembro-me de comprar na extinta Aky Discos o antológico disco de Reed, Transformer, até hoje um clássico, gravado por David Bowie. Lá, naquele que ainda considero o melhor (e também o mais pop) disco do músico, vê-se verdadeiras pérolas que são escutadas até hoje, como o hino underground Walk on The Wild Side, ou a subversiva e agitada Vicious, além da triste balada A Perfect Day, utilizada na trilha sonora do filme de Danny Boyle, Trainspotting, que fez a história da minha e de outras gerações. Recordo de me sentar sozinho no apartamento de uma amiga, que havia me cedido o espaço enquanto viajava de férias, e eu, ainda um moleque querendo sair da casa dos pais, ouvindo a voz de Reed tomando goles de whisky como supremo ato de transgressão juvenil, sentado numa cadeira de balanço,  na minha depressão romântica, típica desta canção.

Lou Reed não era bom cantor e nem fez muito sucesso a ponto de ser considerado pop. Muito pelo contrário. Avesso a jornalistas, no decorrer de sua vida o artista gravou raríssimas entrevistas, e nelas quase sempre se apresentava entediado com as perguntas, proferindo respostas monossilábicas. Parecia que o cara queria mostrar a si próprio através de sua arte, com sua música e poesia cantadas no palco, e não mediante microfones para prestar racionalizadas declarações. Quem queria conhecer Lou Reed deveria conhecê-lo pela música, que na verdade era muito mais uma prosa poética cantada do que propriamente canções. Com letras fáceis e cruas, diferente de outro grande poeta e cantor como Bob Dylan, Reed expunha a alma americana e o cotidiano de aflições e desventuras de um típico cidadão novaiorquino, através de suas canções. Creio que após Transformer e a ópera-rock  Berlin, um dos melhores álbuns do artista que traduzem isso é o ótimo New York, de 1989, com sua balada Dirty Boulevard e a imagem de um casal de amantes junkies, percorrendo a metrópole de motocicleta, surgindo na cabeça ao se ouvir Romeo & Juliet. Por falar em drogados, esse era o universo urbano das músicas de Lou Reed ao falar da cidade que tanto amou. A Nova York de Lou Reed era bem diferente da metrópole limpa e republicana de hoje, reconstruída após o ataque das Torres Gêmeas. A New York dos anos setenta, dos melhores álbuns de Reed era a urbe violenta dos subúrbios escurecidos, das ruas sujas e empoeiradas, lotadas de mendigos, vagabundos de toda estirpe, viciados, traficantes, prostitutas e travestis. Por falar em travestis, este é um capítulo aparte na vida de Lou Reed.

Conhecido não só pelo consumo abusivo de heroína, como também pela bissexualidade, Lou Reed simbolizava também a época do sexo louco, desvairado, sem limites e errante que caracterizou bem a ressaca da contracultura, numa década de crise, desemprego e Guerra Fria, como foi a década de setenta. Ele chegou a casar com um travesti, e a contracapa do disco Transformer apresenta duas versões de seu amante, numa versão masculinizada, e outra travestida. O próprio músico nessa época apresentava-se com visual andrógino, sendo também um dos paladinos do movimento glam, encabeçado na época por músicos consagrados como David Bowie e Marc Bolan, do T-Rex, além do pessoal do New York Dolls. Uma excelente biografia da época e da história da música no período é ler a obra Mate-me, por favor, escrito pelos jornalistass Larry Mcneil e Gilliam McCain, que saiu no Brasil em dois volumes pela LPM Pocket, contando a história dos precursores do punk. Lá, tem passagens curiosas e até engraçadas, lembrando de personagens como Lou Reed, e de como aqueles tempos loucos faziam que, para um músico intelectualizado e interessado em experimentos, não restasse outros caminhos a não ser o caminho das drogas e do sexo sem compromisso. Algo que também se tornou tema nas canções de Lou.

Ex-junkie,  depravado sexual, pai (ou avô) do rock alternativo, precursor do movimento punk. Na verdade, as diversas facetas e personas que Lou Reed assumiu são pequenas para o gigantismo de sua obra e as dimensões que ela tomou. Sóbrio desde os anos oitenta, o cara passou seus últimos anos tendo uma vida bem mais tranquila do que nos seus anos turbulentos, vivendo, segundo ele, como um "velhinho de supermercado". Casado com a também cantora e artista performática Laurie Anderson, Lou Reed parece ter vivido seus últimos anos de vida com certa paz. Praticante do tai-chi-chuan, o músico norte-americano só não conseguiu conter os problemas com o fígado, causa de sua morte, após ter passado meses sem se recuperar propriamente de um transplante, realizado no começo do ano.

Em 2010, Lou Reed fez sua última apresentação no Brasil. O que não foi grande coisa, segundo dizem, pois ele estava muito mais interessado em divulgar seu álbum de músicas experimentais, do que tocar antigos sucessos seus ou do Velvet Underground. Quem esperava, serelepe, que o músico fosse tocar uma alegre Sweet Jane, no Credicard Hall, decepcionou-se ao escutar um alarido de sons distorcidos produzidos por guitarra e microfonia, que revelavam os últimos (e bizarros) experimentalismos musicais do artista novaiorquino. Lou Reed sempre gostou de subverter, e como um homem formado em literatura e cinema pela universidade de Syracuse e que gostava de ler Goethe, Rilke e Bertold Brecht, cada uma de suas apresentações, nos últimos anos, assemelhava-se mais a um sarau literário ou a um experimento científico do que um show de música. O cara chegou a fazer em 2011, um disco junto com os integrantes do Metallica, na ópera-rock Lulu, que encontrou uma recepção fria da crítica e um quase esquecimento entre os fãs da famosa banda de heavy-metal. Mas,  quer saber?  Lars Ulrich e James Hetfield adoraram trabalhar com o cara, e isso é que importa!


Com Laurie Anderson, a viúva oficial de milhares de fãs enviuvados.
Eis que Lou Reed se foi. Para muitos, parece incrível, porque ídolos (ou, ao menos, um mestre), não deveriam morrer. Mas como todo ícone da música, Lou demonstrou ser apenas uma pessoa de carne e osso. Com ele vai-se embora mais um pedaço do século XX e da música popular produzida nos últimos cinquenta anos. Mas não se preocupem! Lou se foi, mas não desapareceu. Acredito que durante muitos anos sua obra será cultuada. Valendo-se do velho jargão tantas vezes batido: Lou Reed "saiu da vida para se eternizar na história". Goodbye, Lou! Welcome, Lou!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TELEVISÃO:O fim da MTV, o renascimento da MTV. Tudo mais do mesmo?

A MTV (Music Television) entrou no ar oficialmente em 1º de agosto de 1981, nos Estados Unidos, como um canal de TV a cabo que só passava músicas e videoclipes, e em plena década de oitenta marcou a história da cultura popular do século XX. Lançada em 1985, a canção Money for Nothing, da banda de rock Dire Straits, do célebre guitarrista Mark Knofler (juntamente com os backing vocals do cantor Sting), marcou época com o refrão que emulava a emissora, cantando "I want my, I want my, I want my MTV!". Para a minha geração de adolescentes naquele tempo, e para as demais gerações que viriam depois, podíamos não ter acompanhado a British Invasion na década de sessenta da geração de meus pais, que viu o surgimento de Beatles ou Stones, ou talvez fôssemos muito pequenos para digerir a musicalidade dos anos setenta, quando bandas como  Led Zeppelin e Pink Floyd, ou músicos como David Bowie e Raul Seixas, reinaram absolutos, junto  com a música alternativa  de Frank Zappa e dos Mutantes. Mas se os anos oitenta eram a época mágica do BRock no Brasil, da New Wave e de todas as bandas e músicas legais que surgiram no período, os anos oitenta e noventa foram a era de ouro da MTV.

No Brasil, a MTV surgiu em sua versão nacional em outubro de 1990. Portanto, até a morte definitiva de sua versão antiga, a MTV que deixou de transmitir o seu sinal na rede aberta de televisão no último dia 30, completaria exatos 23 anos de existência. Foram duas décadas de muita coisa (e também muita porcaria), que pude presenciar na emissora sediada no bairro do Sumaré, em São Paulo, que representava a TV caçula, ou ao menos a TV que efetivamente representava o público mais jovem da sociedade urbana brasileira, e que gostava de ritmos populares, como o rock, o hip-hop e a música pop em geral. No começo, era um canal de televisão mais voltado exclusivamente para o rock clássico e poucos, mas emblemáticos artistas pop, como Michael Jackson e Madonna; mas perto de seu fim, a MTV, principalmente em sua versão brasileira, passou a flertar com vários estilos musicais populares; dentre eles a Axé-Music, defendida por cantoras baianas de sucesso, como Ivete Sangalo e Claúdia Leite, ou grupos mais rock-pop-farofa, como o Jota Quest. Foi essa MTV aquela que, ao perceber descerem os níveis de sua audiência, apelou para todo tipo de fórmulas, algumas com sucesso, outras nem tanto, o que acabou por matar antecipadamente o canal, já alguns anos antes de sua extinção oficial, no mês passado. Mas, de qualquer forma,  a MTV fez história, e muito dela pode ser contada por mim neste momento. Afinal de contas, "se tudo passa, tudo passará".

Mas como tudo passa, acaba ou se transforma, o canal musical que eu vi pela primeira vez, em sinal UHF, apenas no longínquo ano de 1995,  encantou-me à primeira vista, ao ver em sua primeira imagem um documentário sobre Led Zeppelin, onde mais se escutava do que ouvia, devido a chiadeira e a imagem borrada do fraco sinal de minha antena de televisão, mas que não me demovia de ficar em frente a TV, curtindo aquilo que, para mim, era um grande barato. Entretanto, aquele canal de maravilhas musicais agora desapareceu, desconfigurou-se e se tornou com o passar dos anos algo totalmente diferente do que foi a MTV na sua origem. Ainda me lembro daquela tarde nos anos dourados de minha juventude, quando reunido com a minha galera da banda de garagem e algumas latinhas de cerveja, nos amontoávamos no chão de meu apertado quarto para ver, na cidade de Natal, pela primeira vez ser reproduzido naquela cidade do Nordeste o sinal da MTV. O canal ainda era bacana na programação, apesar do sinal ser péssimo e as imagens só pegarem bem para quem morasse no centro da cidade. De qualquer forma, o que valia a pena era escutar o som dos diversos clipes que fizeram história na emissora, antes da difusão da internet e do Youtube. Minha educação musical partiu de diversas fontes, mas, sem dúvida, parte dela veio daquele processo de alfabetização cultural que me passou a MTV, com seus diversos clipes e programas legais, voltados inteiramente para a música, e seus DJs carismáticos e afetados, que representavam parte da juventude de um Brasil urbano, recém globalizado, que após vinte anos de ditadura e um mal sucedido começo de democracia na era Collor, finalmente tocava o som de uma galera que cresceu vendo os clipes do Red Hot Chili Peppers ou do Metallica, após o antológico álbum preto, que presenciou o advento do Manguebeat com Chico Science e Mundo Livre, ou que viu bandas prodigiosas como Smashing Pumpkins e Stone Temple Pilots fazer sucesso através dos clipes produzidos no famoso canal de músicas. O problema (ou talvez a solução) é que a MTV mudou assim como mudou o perfil da juventude que veio depois, e que agora atravessa as ruas do país, participando de protestos estudantis pela redução do preço das passagens, com cartazes nas mãos competindo com seus smartphones nos bolsos. A MTV de hoje em dia não tem quase nada haver com a MTV de antigamente.

A começar pelos VJs, acredito que os apresentadores da MTV são um capítulo aparte na história da emissora. Antes do fim oficial da antiga MTV Brasil, agora no dia 30 de setembro, eu pude ver a apresentação de um programa de despedida com uma retrospectiva bem nostálgica de todos os artistas, jornalistas, músicos e comediantes que já passaram pelo extinto canal, a começar por um hoje respeitável apresentador da Rede Globo, Zeca Camargo, até um revolucionário e pós-punk Gastão, com seu elevado sotaque paulistano apresentando bandas promissoras, e a seriedade combinada com o despojamento e o jeito meio "papai e mamãe" garotões, de apresentadores como Edgar e a hoje militante política Soninha. Quem não se lembra da beleza juvenil daquela gata, mistura de modelo com apresentadora, meio menina e meia mulher que era Sabrina Parlatore, além do jeito desengonçado, mas também engraçadinho da simpática apresentadora Cuca. Até Astrid, vinte anos mais jovem fazia parte do time da MTV, e uma Penélope Nova ainda realmente nova, e nem tão marombada, já adornava com suas tatuagens o programa, apresentando de vez em quando os clipes da banda de seu pai, Marcelo Nova, da hoje lendária e oitentista Camisa de Vênus.

É! Passou gente muito boa pelo canal pertencente ao grupo Viacom e exibido aqui graças ao dinheiro do Grupo Abril. O que seria da MTV sem o Thunderbird? Alguém ainda se lembra dele? Quem diria que hoje, repórteres sérios como Casé Pescini e o cantor Lobão, que no passado eram a cara da geração esbórnia MTVniana, agora dão as caras na televisão fazendo jornalismo-verdade no denso "A Liga" da TV Bandeirantes; ou que anarcopunks juramentados, como João Gordo, do Ratos de Porão, fossem hoje tão "sistema", tendo passado por uma fase em que eram a cara da juventude que curtia rock e  assistia o canal na televisão brasileira, a partir dos programas que estes caras apresentavam, com toda fúria e todo gás. A MTV tornou-se onipresente na indústria da música, antes da pirataria e do surgimento do MP3, com o surgimento das premiações já conhecidas na MTV norte-americana: os chamados MTV Awards. Com o tempo, tais eventos anuais, cheios de pompa como uma festa de gala, acabaram por se tornar menos divertidos e mais chatos, no momento em que o "jabá" das rádios passou a proliferar, e só os mesmos queridinhos da mídia e das rádios passaram a faturar os mesmos prêmios todos os anos. De qualquer forma, pra quem é dessa época, quem não se lembra do célebre pito, que um irritado Caetano Veloso deu na plateia e nos apresentadores do evento, numa das versões da premiação, em que seu som falhou, ao cantar junto com o ex-Talking Heads, David Byrne, e ao ser objeto de vaias, expondo em bom baianês a sua indignação, metendo o pau na emissora, após proferir (ao vivo na TV) vários palavrões?!

Saiu também com o fim da MTV a época dos históricos shows acústicos, onde o selo "Acústico MTV" passou a ser sinônimo de sucesso para bandas e gravadoras, consagrando o talento e o legado musical histórico de bandas como Legião Urbana e Ira, ou reativando a carreira de bandas esquecidas, como o Capital Inicial, que deve toda a sua volta e vitalidade permanente no rock nacional, aquele programinha acústico que levou músicos como Dinho Ouro Preto a cantar para novas gerações. Nesse sentido, a MTV conseguiu fazer reparações históricas e reabilitar o talento e o sucesso de muita gente boa. Obrigado por isso, antiga MTV!

Hoje, acontece algo estranho na TV brasileira, assim como é estranho (mas previsível), o caminho que este tipo de mídia tomou no Brasil. Seguindo uma tendência global, é cada vez mais comum um nicho específico da sociedade chamado cruamente de "classe média", preferir assistir a programação de canais fechados, por meio do acesso a TV paga, pagando assinaturas de canais por via satélite ou mediante a compra da programação de canais a cabo. Assim, tardiamente o Brasil da globalização viu chegar aqui um tipo de mídia que já era onipresente, há muitos anos antes no hemisfério norte. Somado ao desenvolvimento da TV por assinatura, a MTV Brasil viu também se consolidar o uso da internet numa nova sociedade da informação, onde a busca e download de clipes e o emprego do Youtube, sepultou de vez a curiosidade de um fã, de ver a sua banda ou músico predileto através de um canal de televisão, se ele pode ver tudo isso na hora que quiser, num único clique do seu celular. Nesse sentido, o fim da antiga MTV e o surgimento de seu novo modelo, adequado segundo dizem alguns, a nova realidade, já era dado como favas contadas. Até mesmo programas humorísticos outrora promissores, como "Hermes & Renato", sofreram cortes e a intervenção desse novo modelo de TV, quem não poupou sequer antigos astros do humor da emissora, como Marcelo Adnet, finalmente comprado pelo esquema multimilionário das grandes emissoras de TV aberta do país, como a Rede Globo, adequando-se a um novo tipo de humor tão inteligente quanto suas piadas, mas menos jovem, menos rebelde e menos livre de amarras, como eram os esquetes humorísticos da antiga MTV.

Agora, ao menos o que vi na propaganda de lançamento da "Nova MTV", foi um canal totalmente diferente, muito mais uma simples franquia do atual canal original norte-americano, com programas chatinhos e a reprise de algumas séries antigas, como Dawson Creek e Beavis & Butthead (meu Deus, alguém ainda se lembra disso?), além de apresentadores questionáveis e que de VJs, não tem nada de original, como Fiuk e Supla (fala sério). Talvez eu esteja um quarentão velho e não entenda mais "p.nenhuma" de juventude ou adolescência (já que a minha já se foi há mais de vinte anos), mas ao menos o que eu posso relatar como parte da juventude que viu a MTV nascer, é que sua versão década de dez do século XXI é bem mais chata e mercadológica do que a inovadora TV que eu vi nascer, ao som de Money for Nothing. Se, no final, nessa economia capitalista que faz os meios de comunicação trabalharem mais com mercadorias do que com bens culturais,  onde "tudo é dinheiro", que ao menos o dinheiro seja empregado pelos anunciantes e investidores de forma mais inteligente, buscando atrações inovadoras e programas tão interessantes quanto, que despertem a audiência de uma juventude que, longe de ser tachada de alienada por conta das traquitanas tecnológicas, ainda consegue pensar tão bem, a ponto de ocupar as ruas e exigir a retirada de governantes do poder (como acontece hoje, nas sucessivas manifestações que ocorrem no Rio de Janeiro). Por que então não explorar uma nova MTV que reproduza o som dessa juventude em fúria que está nas ruas? A juventude é moderna e evolui com o passar dos anos, mas nossa elite dos meios de comunicação, ainda é muito conservadora.

Espero poder voltar a gostar da MTV, se é que ela ainda vai existir, ao menos utilizando o velho nome. Acho também, por outro lado, que aquela antiga MTV que eu conhecia simplesmente morreu, já faz alguns anos, assim como minha própria juventude; permanecendo apenas as lembranças e os videoclipes para baixar, com o logotipo da emissora, através de downloads e nos vídeos que passam no Youtube. De qualquer forma, espero que as novas gerações curtam a sua maneira uma boa música, boas imagens e uma boa programação, assim como eu curti, nos tempos em que ficava em casa curtindo os clipes da minha velha MTV. Para relembrar os velhos tempos ainda ouço ecoar nos meus ouvidos a musiquinha do Dire Straits: "I want my, I want my, I want my MTV!".


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

MÚSICA: Por que Bruce Springsteen fez o melhor show do Rock in Rio?

Foi preciso vir um músico norte-americano, sexagenário, conhecido por expor a alma e a cultura do povo de seu país, para que o povo brasileiro fizesse a justíssima homenagem a um de seus maiores expoentes do rock nacional, falecido há quase três décadas. Foi na abertura de seu show no último sábado, dia 22 de setembro, no Rock in Rio, que Bruce Springsteen comoveu o Brasil e os fãs de rock no mundo inteiro, homenageando Raul Seixas, cantando em alto e bom som, num simpático português cheio de sotaque, mas com muita boa vontade: Sociedade Alternativa, do saudoso maluco beleza. Coube a um músico egresso da era hippie fazer um bonito reconhecimento de outro músico, de um país diferente, mas oriundo da mesma época. Como que jogando pra galera, Bruce Springsteen soube, já no primeiro ato, conquistar a plateia, que hipnotizada e ganha pelo experiente músico, acompanhou o cantor norte-americano por mais de duas horas e meia de show, incluindo-se o bis, o que fez os organizadores do festival praticamente despejarem o cara do palco com sua banda ( a competente The E Street Banda, formada por 17 músicos), deixando uma multidão enlouquecida de mais de 100 mil pessoas, que praticamente madrugaram com o músico, cantando junto antigos sucessos, canções dos álbuns mais recentes ou mesmo raridades, desenterradas do baú dos anos setenta. Para os críticos, em sua imensa maioria, a apresentação de Springsteen e seu grupo foi, disparada, a melhor apresentação dessa quinta edição nacional do Rock in Rio.

Mas por que Bruce Springsteen foi tão bem? Afinal de contas, com o fim da era do CD, os jabás nas rádios locais  e a decadência da MTV, suas músicas não são mais tão conhecidas do grande público como eram anos atrás. Seus discos aqui pelo Brasil não alcançaram recordes de vendagem e nenhuma de suas canções virou tema de novela. Mesmo assim, uma plateia gigantesca foi reverenciar o cara no sábado à noite, como atração principal de um festival que tinha pesos pesados do rock e do pop, como a banda britânica Iron Maiden (que também arrasou, como de costume, no dia posterior), o eterno ídolo Bon Jovi, a esfuziante Beyoncé e os superstars das garotinhas, Justin Timberlake e John Mayer. Apesar das outras atrações concorrerem entre si, foi o show de Springsteen que reuniu o maior número de gente; ou seja, gregos e troianos, metaleiros e mauricinhos se juntaram para ouvir o velho músico norte-americano. Então, retomo a pergunta: o que faz de Bruce Springsteen ser tão bom? A resposta talvez esteja nos anos oitenta.


Em 1984, enquanto músicas como Jump do Van Halen estouravam nas rádios, ouvíamos bandas como Barão Vermelho, Paralamas, RPM e Legião Urbana no rock nacional, e Michael Jackson era, consagradamente, o rei do pop, apareceu um clipe muito bacana na MTV com um cantor boa pinta, com jeito de galã e mistura de caminhoneiro norte-americano com ator de filme de ação yankee, que no auge da virilidade e juventude cantava no palco Dancing in the Dark, chamando uma garota bonita da plateia, no final da canção, para dançar junto com ele, num dos primeiros clipes a ser difundidos mundialmente pelo canal de música norte-americano. Logo depois, estreava nacionalmente nas bancas de jornal a famosa Revista Bizz, da Editora Abril, que trazia na capa, em sua edição nº 1 ele de novo, o cara que se tornou mundialmente famoso através da canção Born in USA, no auge da Guerra Fria entre EUA e União Soviética e os filmes de Rambo, do ator Silvester Stallone.  Nascia assim, no meio dos anos oitenta, o mito Bruce Springsteen! Depois, para fechar com chave de ouro aquela época, viria a consagração também no cinema, no começo da década de 90, com a música Streets of Philadelphia, trilha sonora do filme Philadelphia que deu o primeiro Oscar de melhor ator a Tom Hanks, além de ganhar o prêmio de melhor canção original.

Mas, independente do cenário político e do panfletarismo do governo do presidente Reagan nos anos oitenta, espinafrando os soviéticos valendo-se da música do cantor, Bruce Springsteen não era um produto dos anos oitenta. Na verdade, ele tinha nascido bem antes, no elogiado disco Born to Run, de 1975. Lá é que surgia, no terceiro álbum do músico, o estilo que seria a marca da música de Springsteen: um rock saudosista com um rhitym blues bem marcado, uma leve pegada country, numa miscelânea das influências do soul na música negra e do rock branco calcado no rockabilly, de bandas que surgiam e se desfaziam em regiões do interior norte-americano, além de uma certa inspiração folk, principalmente nas letras, certamente com fundamento em outro grande músico e lenda da música não só americana como mundial, que, assim como Springsteen, cantava a realidade nua e crua do American Dream e de uma nação afundada em guerras e desigualdade social, principalmente depois do Vietnam: estamos falando de Bob Dylan. 

Por falar em raízes,uma das grandes características de Bruce Springsteen como artista e o que o fez ser tão especial é sua completa simplicidade, desinibição e empatia com o público. Como um showman feito para agradar, munido apenas de um violão e de uma gaita, o cara consegue encantar plateias gigantescas em estádios, sem banda de apoio, como se estivesse tocando dentro de um barzinho, ou na varanda da casa de algum conhecido. É folclórica a história que contam nos backstages que, quando os músicos nervosos de sua banda preparam-se para entrar no palco, é comum Bruce dizer a sua turma que as pessoas lá fora  são como o pessoal de New Jersey que os está esperando; ou seja, "estamos em casa". Isso identifica bem o caráter do músico que acha que, onde quer que se encontre, todos que vem para escutar suas canções são amigos de sua cidade natal, amigos da música, independente do idioma ou da posição geográfica, fazendo com que o rock seja o que seja: uma celebração multicultural, que, mesmo cantada em inglês, consegue animar as mais diferentes nações. É por isso que considero Bruce Springsteen um dos músicos mais globalizados do planeta.

Quando surgiu há quase  quarenta anos, as gravadoras procuravam um cantor que fosse uma alternativa a Bob Dylan. Na verdade, se Dylan incorporava um som mais intelectualizado, universitário e estandarte da geração hippie que viveu intensamente os anos sessenta, competia a Bruce Springsteen incorporar os valores dos anos setenta, sendo mais do que uma mistura de Dylan com Elvis. Seu talento como compositor já era mais do que comprovado, com pérolas, citadas pela crítica musical mundial até hoje, como Born to Run, Rosalita (Come out Tonight) ou Thunder Road e Jungleland que são considerados clássicos. Depois chegaram os anos oitenta, e a partir de canções como  Hungry Heart, do celebrado disco The River,  de 1980, o músico norte-americano chegou, enfim, ao estrelato.

Seguiu-se o antológico disco Born in Usa, de 1984, da música homônima já citada, que transformou o cantor em ícone, como representante máximo de uma geração. Apesar da propaganda do governo, Bruce sempre foi um democrata, avesso ao discurso belicista e neoliberal do Partido Republicano, e odiou a forma como sua música foi usada como propaganda anticomunista no governo de Reagan, apesar de seu sucesso estrondoso nas rádios e shows do mundo inteiro. Foi nessa época que Michael Jackson reconheceu Springsteen como celebridade, e o convidou para participar, juntamente com outros notáveis da música mundial, do célebre clipe da canção We are The World, cuja arrecadação da venda do disco compacto serviu como donativos para conter a fome das crianças na África. Identificado com causas sociais, esse é outro traço do caráter de Bruce Springsteen que o torna um artista tão atraente e tão simpático às massas. Filho de um motorista de ônibus e de uma secretária, o músico era um típico working class hero, egresso da comunidade proletária e operária do meio oeste americano, que, agora, em tempos de crise econômica, consome com voracidade as músicas e as letras dos últimos discos de Springsteen, que relatam exatamente o drama das famílias pobres norte-americanas  que perderam suas casas e empregos, na última crise imobiliária iniciada antes de 2008, ainda no governo de George W. Bush.
 
Desde antes da ditadura militar, para o bem e para o mal, o americanismo foi muito pronunciado na sociedade brasileira, principalmente através da música, pois fomos influenciados no século XX pelo jazz feito pelos norte-americanos, no surgimento da bossa nova por aqui, assim como a Jovem Guarda foi uma cópia quase que fiel na música do movimento mundial que tomava os jovens de assalto, na formação de uma nova musicalidade chamada Rock'n Roll. Era o tempo em que Beatles, e, principalmente Elvis Presley dominavam corações e mentes no mundo inteiro, e não poderia ser diferente no Brasil.  Entretanto, foi através de músicos como o baiano Raul Seixas, na década de setenta, que o rock ganhou ares cult, com músicas mais bem trabalhadas e letras mais viajantes, críticas e literariamente bem escritas. Foi nessa época que surgiu o rock de Bruce Springsteen, e não foi à toa que seu som casou tão bem com a homenagem feita a Seixas no Rock in Rio, já que ambos, em síntese, beberam da mesma matriz cultural. É dessa matriz que vieram bandas de rock nacional que tocam até hoje, como o Barão Vermelho, e é por isso que gerações e mais gerações, com um público cada vez mais novo, de maneira impressionante lotam shows, ocupando estádios, e participando com curiosidade e afeto de shows de veteranos como Springsteen.

Agora, com canções novas do último e excelente disco, Wreckin Ball, Bruce Springsteen brilhou onipresente no último sábado no Rio de Janeiro, tornando mais bonita a Cidade Maravilhosa com sua apresentação memorável no Rock in Rio. Lamentei não poder ter assistido pessoalmente ao seu show, mas fiquei gratificado ao ver uma bela apresentação ao vivo na TV, reproduzida exaustivamente no Youtube, e que mostra como, aos 63 anos, o músico norte-americano ainda está em plena forma, cantando seus hits com alegria, assim como fazia nos saudosos anos oitenta. É bonito de se ver quando antigos músicos não perdem a boa forma, e no caso de Springsteen, a forma ainda está bem presente na maratona de shows que começaram no início do ano, culminaram no Rock in Rio e não tem data pra acabar. Bruce Springsteen conseguiu extrair todo o lado bom do norte-americano, mostrando em suas letras o quanto esse povo pode ser tão parecido e cheio de problemas como é o povo de outras nações. Como cantor do povo o cara mostrou a que veio, e para o público encantado do Rio de Janeiro ele mostrou que, assim como sua música, ele "nasceu para correr". Congratulations, Mr. Bruce Springsteen! E viva a sociedade alternativa!!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

CINEMA:Mais do que um filme para amantes de velocidade, "Rush" é sobre superação.

O trágico acidente que quase matou Niki Lauda.
Eu tinha apenas 5 anos de idade. Muito pouco para lembrar, quando o piloto austríaco Niki Lauda espatifou sua Ferrari em chamas no autódromo de Nurburgring, na Alemanha, no campeonato da Fórmula 1 de 1976. Na verdade, eu só vim a saber o que era F1 e corridas de alta velocidade dez anos depois, quando Nelson Piquet tornou-se um dos poucos pilotos brasileiros campeões do mundo nessa modalidade esportiva, depois de Emerson Fittipaldi e antes de Ayrton Senna se consagrar nas pistas (considerado até hoje o maior e mais inigualável piloto brasileiro de todos os tempos).


O verdadeiro Lauda fala de seu rival, James Hunt.
Naquela época, Lauda era campeão mundial no ano anterior pela primeira vez, e encerrou sua carreira vencedora com 3 títulos mundiais, tornando-se uma figura histórica, no hall da fama dos maiores corredores de todos os tempos. Mas o que se tornou roteiro do filme do diretor norte-americano Ron Howard foi menos o terrível acidente que o desfigurou e quase tirou sua vida, e sim a sua emocionante disputa com seu maior rival naquela época: o piloto britânico James Hunt. Como um bom filme de sessão da tarde, Rush conta a história dessa disputa frenética, e traça um perfil de egos tão distintos quanto complementares.

Não poderiam existir pilotos tão diferentes, mas tão equivalentes em talento. Lauda representava a disciplina, o perfeccionismo e perseverança germânica, enquanto que Hunt combinava o temperamento explosivo com a fleuma britânica, fazendo manobras arriscadas nas curvas e quase suicidas. O austríaco era baixinho, mal humorado, narigudo e dentuço (apelidado de "rato" entre seus adversários), mas era um gênio na construção de carros e motores, e responsável pelo ressurgimento da Ferrari no cenário esportivo mundial; enquanto que seu colega inglês era loiro, alto, bonito e mulherengo como Jim Morrisson e galante num carro de corrida, como um Juan Fangio, incorporando os valores festeiros de uma Swingin London hippie, posterior aos Beatles e Stones, com sua pinta de galã e filas de garotas bonitas no seu cockpit. Independente das personalidades, quando ambos assumiam o volante de um carro, passavam a se compenetrar de tal forma que a única coisa que interessava era a vitória nas pistas, principalmente a vitória contra o adversário, perseguindo um ao outro nos autódromos do mundo.

Ron Howard é um diretor tradicional de hollywood, que se consagrou com o Oscar de melhor diretor pelo filme Uma Mente Brilhante, em 2001. Fora isso, ele se notabilizou por filmar blockbusters, como a série O Código da Vinci, adaptada para os cinemas com Tom Hanks no papel principal. Entretanto, uma das grandes características desse cineasta de Oklahoma é ressuscitar o mito do self made men da cultura liberal norte-americana; ou seja, a de que é possível, com muito esforço e dedicação, superar todas as adversidades em busca da vitória. Foi assim em Apollo 13, filmado em 1995, com o mesmo Hanks, e agora em 2013 com os atores Daniel Bruhl (Adeus Lênin e Bastardos Inglórios) e Chris Hemsworth. Nesse caso, as mulheres são coadjuvantes e figuras de apoio dos protagonistas, como foram as mulheres de Hunt e Lauda (interpretadas, respectivamente, por Olivia Wilde e pela atriz romena, naturalizada alemã, Alexandra Maria Lara). Mas são as mulheres que injetam um tom de humanidade nos dois rivais, obcecados em vencer um ao outro, nem que seja pelo sacrifício da própria vida.

Amigos?Inimigos?Ou será que um completava o outro nas pistas?
E foi vida  o que o piloto Niki Lauda quase sacrificou, no fatídico dia em que se acidentou, numa pista chuvosa e perigosa, onde não queria correr. Após passar mais de um minuto dentro de um carro em chamas, que quase se tornou sua pira funerária, Lauda foi conduzido às pressas para o hospital com poucas chances de vida (ele chegou a receber a extrema unção de um padre horas depois de ter entrado no hospital), mas milagrosamente se recuperou, retornando de volta as pistas poucos meses após seu trágico acidente, mesmo totalmente desfigurado por queimaduras que lhe tomaram parte do rosto. James Hunt também não deixa de ser um vencedor, por também ter superado a adversidade. Sem apoio e patrocinadores, ele quase viu desabar seu sonho de ganhar na Fórmula 1, quando se viu sem escuderia; até que uma apreensiva McLaren resolveu contratá-lo após a desistência da companhia de outro piloto campeão, um tal de Fittipaldi (quem?), que após ter se sagrado bicampeão em 1972 e 1974, largou a companhia inglesa para se aventurar numa malfadada experiência na recém-fundada Copersucar.

Mesmo para quem não goste (como eu) de
Hemsworth e Bruhl incorporam os lendários pilotos nas telas.
automobilismo, vale a pena ver o filme de Howard e as impressionantes imagens das corridas, capturadas em momentos históricos trazidos para a tela de cinema através de efeitos especiais digitais, que colocam os atores dentro de uma corrida de verdade. Também vale o filme como recorte histórico, numa época que a Fórmula 1 era um esporte muito mais perigoso (e, talvez por isso, fosse mais romântico),do que é a competição hoje, com suas regras bem definidas, os carros menos possantes por questões de segurança, e as pistas menos arriscadas, face todo um trabalho de prevenção de acidentes feito nos últimos vinte anos, após a morte de Ayrton Senna. Ficam devendo os cinemas ainda uma boa cinebiografia do próprio Senna, mas enquanto isso não chega, podemos nos contentar com a disputa automobilística desses dois grandes pilotos de corrida, que inscreveram seu nome na história.

terça-feira, 16 de julho de 2013

CINEMA:Em "O Homem de Aço", por que o filme merece ser visto, apesar de não termos Christopher Reeve, Marlon Brando, Margot Kidder, Gene Hackman, a música de John Williams e nem o diretor Richard Donner?

Nos anos setenta do século passado, diretores de cinema como Steven Spielberg, George Lucas, John Dante e Richard Donner criaram um novo estilo de filmes norte-americanos: os chamados blockbusters (ou filmes "arrasa-quarteirão"). São filmes de grande orçamento, grande elenco e grandes plateias, que inflavam o orçamento (e o lucro) dos grandes estúdios de cinema, lotando salas e teatros, fazendo a festa de todo um público infanto-juvenil e criando a geração nerd de hoje. Eram filmes como TubarãoStar  Wars  e Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro de Spielberg, o segundo de Lucas e o terceiro resultante de uma parceria entre ambos os diretores). Mas foi Donner quem introduziu o universo das histórias em quadrinhos de super-heróis para o cinema, com uma nova estética, através do seu Superman.

Sou hoje, com orgulho, um desses velhos nerds. Assim como também são diretores trintões e quarentões como J.J.Abrahams (criador da série de TV, Lost), Robert Rodriguez e Zack Snyder. A este último coube dirigir o remake do super-homem nos cinemas, contando com o ar galante e esbelto do ator inglês Henry Cavill (da série Tudors e do filme "Imortais") fazendo o protagonista de superpoderes. São inúmeras as comparações com o superman original, do filme de Donner, quando o finado  ator Christopher Reeve galgou o estrelato através de um filme que o marcou para sempre. Entretanto, além das diferenças serem grandes, a forma como os diretores de ambos os filmes (Donner e Snyder) abordaram a história do personagem mais famoso das HQs tem nuances que levam o fã a conhecer universos bem distintos de um mesmo personagem, talvez (ou não) mais adequado a seu tempo.

Em relação ao primeiro Superman, lembro-me claramente do primeiro filme, assistido no cinema em Belém do Pará, no antigo Cine Palácio, em 1979, quando fui com meus pais assistir ao antológico filme de Richard Donner, cuja estreia nos Estados Unidos se deu no ano anterior. Naquele tempo não existia internet e nem celulares, e a divulgação do filme se dava mais por comerciais na televisão. Naquela época eu já colecionava gibis, frequentando bancas de jornais e revistas, e já lia as histórias do Super-Homem. Ainda não existiam os cinemas kinoplex ou multiplex, com suas salas numerosas nos shopping-centers de hoje. Os cinemas eram de rua, em grandes prédios, construções suntuosas que abrigavam anfiteatros enormes, perante uma tela gigante, num auditório onde cabiam mil, duas mil, até três mil pessoas. Hoje em dia, recordo-me que cinemas desse tipo (como foram os extintos Cines Rio Grande, Nordeste e Rex, em Natal) só existem hoje no Brasil em Recife (Cine São Luiz) e no Rio de Janeiro (Cine Roxy); apesar de, na nossa vizinha Argentina, esses belos cinemas ainda fazerem parte do cotidiano cultural dos habitantes da capital, Buenos Aires.

Imagine-se então como um garoto de 8 anos, vendo pela primeira vez na vida, em uma tela, um cara alto, de roupa azul e capa  vermelha, subindo os céus de uma fictícia  cidade de Metrópolis,  salvando a vida de um operário que acabara de cair de um edifício, segurando-o no ar no instante em que caía, segundos antes dele se esborrachar no chão, produzindo não só na multidão presente na cena dentro do filme, mas também nos espectadores de fora, de dentro do cinema, um grito de euforia coletiva e uma salva estrondosa de palmas, tamanha a emoção da cena. Essa era a emoção do primeiro Superman! No tempo em que as cabines telefônicas de rua eram trambolhos gigantescos, e dentro daquela caixa fosca de vidro, um engravatado Clark Kent poderia se esconder, para trocar de roupa em milésimos de segundos, até aparecer como seu alterego, detentor de superpoderes, voando pelos céus da cidade, enquanto a população embasbacada perguntava: "é um pássaro, um avião...?". A magia do Super-Homem era a magia dos filmes que traduziam em realidade, cores e movimento de cenas que nós, leitores de gibis, apenas víamos paradas em pequenas tiras de jornal ou em revistinhas compradas a dez cruzeiros nas bancas. Superman trazia à tona os nosso sonhos de ter superpoderes para fazer coisas boas diante de tantas guerras e maldade. O Super-Homem era nossa vontade de potência!!

A graça do filme se completava com as origens do herói, num distante planeta Kripton, mostrado com economia de detalhes, mas com a firmeza da atuação de uma lenda do cinema, como Marlon Brando, interpretando Jor-El, pai biológico do herói. O filme ainda tinha uma vilão imperdível, um Lex Luthor que demonstrou bem porque era considerado o maior arqui-inimigo do Super-homem, numa perfomance que demonstrou porque o filme era tão bom, não só por ser bem dirigido e pelos efeitos especiais (considerados os melhores de sua época); mas também pela atuação de seus atores. Lois Lane que o diga, a namorada do herói, interpretada por uma elétrica Margot Kidder, atriz canadense que depois do papel que a celebrizou, despencou ladeira abaixo no anonimato, drogas pesadas e tratamento psiquiátrico, enquanto que Reeve, protagonista do longa-metragem e ator principal, amargou a maldição dos intérpretes do "homem de aço", vindo a ficar tetraplégico ao cair numa competição de hipismo, morrendo anos depois numa cadeira de rodas.

Apesar do sucesso e das maldições, o primeiro Superman ficou na história porque acertou no ator que o interpretaria. Chistopher Reeve era a transmutação ideal do Clark Kent criado nas histórias em quadrinhos para o cinema. Por falar em HQ, o filme foi absolutamente fiel aos personagens de papel, com um plus de ter entre eles um elenco estelar. Jor-El, que somente aparecia no começo do filme e em poucas cenas, era interpretado por Brando, uma lenda do cinema. O vilão Lex Luthor era feito por um Hackman recentemente vencedor do Oscar, por sua atuação em Operação França. E a direção de Donner era acertada como um relógio. Não é à toa que, até hoje, o filme é considerado uma das maiores bilheterias do cinema e um dos maiores filmes de super-herói já feito na história (junto com Batman, de Nolan). O Superman encarna o ideal altruísta norte-americano, mas também representa uma figura mítica. Como nosso totem moderno, o super-homem (homônimo daquele da filosofia, retratado por Zaratustra, nas reflexões de Nietszche) é a imagem da divindade, uma espécie de "Cristo alienígena", que vindo de outro planeta sem os pecados humanos, acabou por ensinar a humanidade a ser melhor, fazendo bem ao próximo, através do uso de seus superpoderes, combatendo o mal. Quem não gostaria de ter um anjo alado protegendo-o, livrando-o de perigos e acidentes, pelo simples uso de uma superforça ou mediante sua visão de calor? O Super-Homem representa até hoje o que queremos de melhor para nós, uma visão idealizada e pueril da humanidade ideal.

Como então traduzir tudo isso, reflexão filosófica,  ficção científica, sentimentalismo e puro entretenimento num filme novo, para as novas gerações? É aí que entra o "Homem de Aço" (Man of Steel). Depois do êxito de outras adaptações dos quadrinhos para o cinema, como 300 e Watchtmen, Zack Snyder chamou para si a responsabilidade de reviver o herói mais clássico do século XX para as novas gerações. Mas como tornar o super-homem novamente atraente, se os últimos filmes para o cinema foram um fracasso (vide Superman IV, em 1987 e Superman-o Retorno, de 2006)? Com o sucesso do Homem-Aranha, dos X-Men e do Homem de Ferro da Marvel, e a consagração do Batman, da DC, através da excelente refilmagem feita pelo diretor Chistopher Nolan, que recriou o personagem nos cinemas, faltava a outro herói icônico dos quadrinhos uma volta triunfal. O primeiro passo foi a obviedade, eliminando-se do título do filme e em todo o decorrer da história, o nome do personagem. Isso mesmo, pela primeira  vez na história do cinema um filme de super-homem não teria o nome de super-homem em seu título. Além disso, o roteiro do novo filme afastou-se da fidelidade às primeiras histórias do personagem nos quadrinhos (como ocorreu no filme do Superman original), preferindo se prender a uma nova cronologia, e uma nova forma mais moderna de abordar cada personagem da biografia do herói, dando-lhe uma nova roupagem. Foi isso que aconteceu, por exemplo, tanto com os pais biológicos de Kar-El (nome kriptoniano do "homem de aço"), Jor-El e Lara,  quanto com os pais adotivos terrestres de Clark, Jonathan e Martha Kent, interpretados no novo filme, respectivamente, por Russel Crowe (ótimo), Ayelet Zurer, Kevin Costner e Diane Lane (estes últimos, a grande ponta dramática do filme). 

O foco do novo filme é mais existencial (como se tornaram também as histórias em quadrinhos do herói na última década), permanecendo por meia hora de filme um Clark Kent barbudo, andando como um viajante, um sem-teto superpoderoso pelas entranhas da América nua e crua, procurando se encontrar e praticando grandes atos no meio do caminho, após saber de seus pais adotivos que não era desse planeta. A chance de se redimir com seu passado é quando Clark descobre no Ártico uma nave alienígena congelada há milhares de anos, onde, através de um holograma, ele recebe uma mensagem de seu pai verdadeiro, que esclarece seu passado e seu propósito no universo. Logo, Clark descobre que seu nome verdadeiro é Kal-El e o motivo para ter uma força sobre-humana, ter todos os sentidos superaguçados, poder voar a longas distâncias, além de poder prender a respiração por várias horas embaixo d'água e ser praticamente indestrutível, diz respeito à radiação do Sol da Terra, muito mais forte do que o seu planeta natal, Kripton, destruído por uma hecatombe, depois que sua população consumiu predatoriamente todos os recursos naturais do planeta. Clark então tem que decidir de que mundo ele será cidadão. Se de seu planeta de origem, ajudando a recriar o seu povo, ou se da Terra, protegendo aqueles do planeta que o acolheu; apesar da desconfiança do governo e do exército americano. É o velho mito do imigrante querendo se integrar, que deve ter  passado pela cabeça dos criadores do super-herói,os desenhistas Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938, numa América e numa Europa às vésperas da II Guerra Mundial, que ainda repudiava judeus e estrangeiros, por mais que eles fossem dedicados ao país para que vieram.

Destaque importantíssimo para o vilão, que na nova história não é mais o arqui-inimigo Lex Luthor, mas sim o general kriptoniano Zod, interpretado anteriormente  nos anos oitenta, em Superman II, pelo premiado ator britânico Terence Stamp, e no novo filme é representado pela atuação do esforçado Michael Shannon. O vilão é um militar alienígena que ao tentar dar um golpe de Estado em Kripton, antes de sua destruição, acabou sendo derrotado e enviado para o exílio num grotão da galáxia chamado de Zona Fantasma, jurando a si mesmo encontrar no futuro o filho de Jor-El, responsável indireto por seu infortúnio e última esperança de Kripton; por carregar consigo o segredo para recriar sua civilização. Zod não está sozinho, e encontra-se acompanhado de sua esposa, a violenta e mortal Faora (a bela atriz alemã Antje Traue), além de uma turba de mercenários kriptonianos que vieram a Terra com o único objetivo de destruir o planeta e, consequentemente, o Superman.

Do lado dos mocinhos, a bonita ruiva Amy Adams tenta ser o par ideal do protagonista, interpretando uma repórter Lois Lane destemida e sempre pronta a auxiliar o amado, mesmo que seja embarcando numa nave alienígena, ou num ataque militar, voando com uma bomba, a atingir os inimigos do herói. Sobrou até para os personagens do Planeta Diário, o jornal de Metrópolis onde trabalha o bonachão chefe de Lois, onde encontramos um Perry White que de "white" ficou "black", ao ser interpretado pela primeira vez no cinema, na nova versão, por um ator negro: o competente e consagrado astro, Lawrence Fishburne. Entretanto,  para os fãs mais radicais das histórias em quadrinhos, o roteiro de  David Goyer, que contou com a colaboração do próprio Nolan, responsável pelo sucesso de Batman, parece que em alguns momentos da trama, ficou meio que uma forçação de barra, desrespeitando, inclusive, um dos princípios básicos do herói: quanto ao não emprego de sua superforça para matar. Porém, penso que isso foi um detalhe, a meu ver, observado pelos idealizadores do filme, diante de um universo de heróis que são retratados para as novas gerações com novas nuances, nem sempre tão satisfatórias ou elogiáveis. Ao tentar mostrar um super-homem mais humano (como se isso fosse possível, já que ele não é deste planeta), Man of Steel correu o risco de manchar a biografia do personagem nos cinemas. Mas foi um risco calculado, pois levou em conta não apenas a revisão da mitologia do personagem, como também criou novos mitos, a começar pelo novo significado do "S" estampado no peito, como emblema do uniforme do herói. Por falar em uniforme, até este mudou, desaparecendo um super-herói de calção para surgir um de calças, deixando-se para sempre a imagem motivo de piadas na internet das novas gerações, pela cafonice de se usar uma cueca vermelha por cima da calça azul.

Bem! Se o que interessa é lucro, na sua estreia, na primeira semana de apresentação nos cinemas dos Estados Unidos e Europa, o filme se pagou, dando ao estúdio Warner, responsável pelo longa-metragem, um lucro inicial de 170 milhões de dólares e a garantia de uma continuação, criando-se uma nova franquia. No Brasil ainda é cedo para saber se o filme terá a mesma boa recepção que tiveram Os Vingadores e Homem de Ferro 3, da Marvel ( o que acho difícil). Mas, se não conseguir se tornar um sucesso retumbante, com direito a Oscar, como foi com  Batman-O Cavaleiro das Trevas, ao menos "O Homem de Aço" não vai passar a vergonha do fracasso total, como foi com  o equivocado filme do Lanterna Verde ou o último do Wolverine ( o próximo filme do personagem, a estrear este ano, por falar nisso, quer redimir isso). Man of Steel é um filme bom, mas um bom mediano. Faltou a ele a emoção grandiosa do primeiro Superman, com suas cenas genuinamente feitas para serem uma "história em quadrinhos relatada na tela grande", ou um romance dramático, com direito a lágrimas e choro incontido, quando no final do filme original um indignado Christopher Reeve percorre aos gritos os céus do planeta Terra, mudando a velocidade do globo terrestre para voltar no tempo, e assim salvar sua amada Lois Lane, que minutos antes jazia morta, enterrada no seu carro, após cair em uma cratera durante um terremoto no deserto.Tal cena impactante gerou a música "Super-Homem", composta por Gilberto Gil, ao lado de seu amigo Caetano, que assim como eu, emocionaram-se com um genuíno blockbuster de qualidade, no final dos remotos anos setenta.

E por fim, em relação à música. Se não temos mais o hino do Superman, feito por John Williams, que por décadas marcou o personagem, agora temos a tocante música ao piano de Hans Zimmer a percorrer toda a história. Pra quem viu o primeiro Superman no cinema, sabe-se que a trilha sonora teve um papel primordial, ao carregar no nível de emoção na exibição de cada cena. Já no filme de Snyder a música tem papel secundário. De qualquer forma, vale a pena escutar a música no finalzinho do filme, já com os créditos finais. E lembrar dela numa das cenas mais tocantes e nostálgicas do filme, onde, em flashback, o Super-Homem relembra como foi sua infância, a relação e as lições de vida que obteve com seu falecido pai adotivo, Jonathan Kent. É de dar lágrimas nos olhos! É por ainda sentir o peito batendo mais forte, ao lembrar do sentimento daquele garoto de 8 anos, vendo um ser com superpoderes cruzando os céus de Metrópolis, que eu recomendo assistir ao "Homem de Aço". Como diz o personagem principal, o que importa ao chegar na sala do cinema é se desprender de todo o peso da realidade e encarar a emoção da fantasia, subindo aos céus com sua capa vermelha e um ar triunfante, gritando bem alto: "PARA O ALTO, E AVANTE!!".
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