quarta-feira, 28 de setembro de 2011

TELEVISÃO: Quando o humor deixa de ser humor para virar mera grosseria.

O humor moderno, na língua portuguesa, é oriundo do trovadorismo. Tratava-se de um movimento literário baseado em cantigas, que podiam ter conteúdo lírico ou satírico. Nessas últimas, geralmente o trovador produzia um escárnio, uma gozação contra alguma personalidade pública da sociedade, usando e abusando de uma linguagem popular, chula, quando não obscena. Trava-se através da trova satírica de se efetuar uma crítica social, num momento em que era permitida a expressão do artista, dirigindo-se para o seu público de forma até rude ou grosseira, como forma de liberar uma expressão artística. Era o momento da arte, de uma manifestação estética, apreciada pelos fidalgos e pelas pessoas de fina educação das cortes portuguesas, pois era uma diversão dos nobres ouvir as piadas e os comentários jocosos de seus trovadores.

Em um filme francês que já não me recordo o nome (ajudem-me quem souber), e que assisti ainda no videocassete em VHS (imagina o quanto é antigo), o protagonista tenta sobreviver na França pré-revolucionária, valendo-se de um talento incomum para contar piadas. Ele passa a ser aceito na corte francesa, animando aristocratas em jantares e nos seus saraus ociosos, e enquanto lá fora a plebe morre de fome e urge por transformações sociais radicais, o herói de nosso filme começa a ascender socialmente, enquanto consegue arrancar riso da plateia, sofrendo a forte competição de outros piadistas como ele, até o derradeiro dia em que acabará por contar alguma piada que não tenha graça, culminando na sua expulsão sumária do palácio ou até mesmo em prisão.

Quando eu penso na frase infeliz (de muitas) do comediante gaúcho Rafinha  Bastos, no programa de televisão CQC da rede Band, na última segunda-feira, fico me perguntando se Bastos não se encontra na mesma situação do comediante do filme francês, expulso do salão por ordem do rei, quando, até então querido pela plateia, comete a infelicidade de contar uma piada sem graça, ofendendo alguém. No caso do brasileiro, a piada sem graça veio num comentário sarcástico, quando numa passagem do programa, Rafinha faz um comentário sobre a gravidez da cantora Wanessa Camargo, exprimindo a seguinte frase: "eu comeria ela e o bebê". Foi o suficiente para que um ar de constrangimento se abatesse na tela da TV, com um visível ar envergonhado do líder do CQC, o apresentador Marcelo Tas, que rapidamente tentou corrigir a gafe do comediante, como também a postura de seu colega de auditório, o também comediante Marco Luqui, que preferiu colocar as mãos nos olhos, constrangido, do que esboçar outra reação.

Rafael Bastos já responde a um inquérito policial  em São Paulo,  instaurado a pedido do Ministério Público para apurar se em uma de suas apresentações no teatro, onde o artista tem um show de comédia stand up, ele teria feito apologia ao crime, ao fazer uma piada com as mulheres feias, dizendo que "o homem que estupra mulher feia não merecia cadeia, mas sim um abraço". Dentro de determinado contexto machista, a piada arrancaria risos, mas numa realidade social de violência contra a mulher, a piada soou de muito mal gosto. Eu soube do caso, inclusive, de um comediante francês, que foi obrigado a pagar 10.000 euros de indenização, por conta de piadas antissemitas, em  um de seus shows. Comediante francês é obrigado a pagar 10.000 euros por insultos antissemitas em piada.

O caso de Bastos faz retomar a discussão sobre o tema da liberdade de expressão, que eu já havia desenvolvido aqui no blog. O problema no caso do comediante, é de que até que ponto a manifestação artística da comédia saí do engraçado e beira o grotesco. No caso de Bastos, o que mais ele está sendo acusado é de ter ofendido pessoas, ao invés de fazer rir, criando, inclusive, desafetos e inimizades, dentro do próprio meio artístico ou diante de pessoas públicas como o ex-jogador Ronaldo "Fenômeno", muito amigo de Tas e sua equipe, que já manifestou publicamente que estava se afastando dos integrantes do programa, uma vez que é sócio, em um empreendimento, do marido da cantora Wanessa Camargo, e que ficou profundamente constrangido com a piada desnecessariamente sem graça feita pelo comediante gaúcho.

Sobrou para a opinião pública a condenação sumária de Rafael Bastos através dos meios de comunicação e da internet, com a publicação de alguns posts de populares furiosos contra o apresentador do CQC, revelando o quanto, para alguns, Bastos representa um típo antipático, arrogante, prepotente, e que acha que na condição de artista pode esculachar e acabar com a reputação de quem ele bem entenda. Trata-se de uma questão eminentemente ética, antes de ser jurídica: a discussão sobre os limites da liberdade de expressão e a manifestação de uma arte, uma vez que a honra, a dignidade, e a credibilidade das pessoas passa a ser atingida por piadas maldosas. Ou será que toda piada é maldosa?

Se estivermos falando de uma democracia e de um Estado de Direito, que segue princípios constitucionais, entendo que, assim como diz a Constituição, todo mundo é livre para fazer ou deixar de fazer o que bem quiser, senão em virtude de lei. A lei deve servir para proteger as pessoas e não sumariamente puní-las, por isso considero precipitadas algumas acusações contra o comediante Rafael Bastos, dizendo que com suas piadas o rapaz faz alusão à criminalidade ou violência, pois muito do que se encontra hoje nos meios de comunicação, em novelas ou programas de televisão, é uma carga de violência, preconceito e apresentação de um grotesco estado de arte que, por si só, não correspondem a fatos criminosos.

Creio sim, que o referido comediante deve ser defenestrado ou advertido pelo seu próprio público, quando cair a audiência do CQC, quando alguns fãs do programa (assim como eu), em protesto, enviarem uma carta ou e-mails à direção do programa na rede Band, explicando que irão decidir por boicotar o programa, caso o artista não se retrate, ou ao menos seja transferido para outro programa da grade de programação da emissora. Sei que além de um talentoso comediante, nosso "Ricky Gervais" brazuca, Rafinha Bastos é também um ótimo jornalista, realizando o elogiadíssimo programa de reportagens A Liga, nas noites de terça-feira, no mesmo canal. Será que não seria o caso de transferi-lo do CQC, até mesmo para poupá-lo de um desgaste maior, por conta de seus comentários infelizes? Creio que, de qualquer forma, cabe ao próprio artista uma reflexão sobre sua forma de trabalhar, a ponderação racional sobre seus erros e acertos, até porque estamos falando de um ser humano talentoso, carismático e que tem uma das maiores quantidades de seguidores no Twitter; mas que também merece um puxão de orelhas ou calçar as já famosas "sandálias da humildade", quando comete suas besteiras em rede nacional. Rafinha Bastos não será o primeiro e nem o último comediante a cometer deslizes, a sair fora do tom em seus comentários e a falar bobagens, até porque faz parte de sua profissão de artista produzir gafes para arrebatar a audiência. Mas também é importante que esses artistas saibam que brincadeira tem hora, e a hora certa é a de fazer rir e não a de machucar os outros. Se liga, Rafael! Se for o caso, fica na Liga!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: Regular é preciso! Viver não é preciso!!

Fico me perguntando como o apelidado PIG (Partido da Imprensa Golpista) reage com a maior cara de pau, através dos meios de comunicação que compõem essa sigla imaginária, acerca das revelações bombásticas sobre as atividades criminosas, de tudo o que o centenário jornal britânico, News of The World, fazia para garantir manchetes em seus tablóides, mostrando toda a sujeira de que é capaz um órgão de comunicação. O velho magnata Rupert Murdoch, toda sua turma e até sua belíssima esposa chinesa (mistura de femme fatale e guarda-costas do marido) estão enrolados até o pescoço com denúncias que fizeram o chefe fechar um jornal com mais de 150 anos de existência. E no Brasil?

Quando alguns veículos de comunicação, não vinculados aos interesses do grande capital ou do Antigo Regime tucano, como a CAROS AMIGOS ou  CARTA CAPITAL,  denunciam os abusos de seus colegas de imprensa, parece que a casa caiu e corremos o risco de se ter uma fujimorização do país, como aconteceu há alguns anos atrás com o país vizinho, o Peru; ou melhor, uma allendecização, uma vez que os atuais governos de esquerda que governaram o país, estão muito mais identificados com Salvador Allende, o lendário presidente chileno, assassinado pelo ditador Pinochet,  do que com os representantes da Velha Direita que ainda assombram o país, disfarçados sob uma roupagem social-democrata ou neoliberazante. De acordo com o cerco produzido por algumas raposas da velha imprensa, que gostam mais é de ver o circo pegar fogo, pululam notícias em jornais e na imprensa tucana, querendo desestabilizar o governo petista de Dilma Roussef, enquanto que no espectro adversário, seu principal intelectual, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, preocupa-se mais em incrementar sua biografia, no final da vida, pregando a defesa da legalização da maconha, do que lançar petardos contra o petismo, enquanto que um José Serra furimbudo, amarga o ostracismo, ao menos até a próxima eleição para o governo paulista.

Veículos da grande imprensa, como a revista VEJA e a FOLHA DE SÃO PAULO, vira e mexe metem o pau no governo, nos seus editoriais, tecendo a teoria conspiratória da trama suprema, em que stalinistas enrustidos de dentro do governo tentariam a ferro e fogo destruir a liberdade de expressão, estabelecendo uma lei da mordaça para imprensa, que ressuscitaria a famigerada censura, do tempo da ditadura militar. Os expedientes demagógicos da grande mídia recalcada dizem respeito às tentativas de aprovação por setores do governo do controle social da mídia, ou, se preferirem (segundo seus detratores), da ameaça à democracia, como falam os representantes intelectuais da "nova direita", como o filósofo Denis Rosenfield ou o sociólogo Demétrio Magnoli.

Na verdade, falar de um controle da mídia através de uma regulação por expedientes democráticos e transparentes previstos em lei, com participação popular, coibindo os abusos, parece ser inconcebível para os que concebem como "clásula pétrea" o cânone liberal da ausência completa do Estado na fiscalização das atividades da mídia. Para os detentores dos meios de comunicação, a imprensa deve funcionar como o mercado, onde somente uma "mão invisível" deve atuar, num laissez faire em o que vale-tudo implica, inclusive, em praticar crimes através dos meios de comunicação, como Murdoch e sua turma parecem agora ter sido acusados.

Um caso recente de dúvida acerca dos limites do direito à informação e a ética jornalística se deu no caso da  tentativa de invasão do quarto de hotel, em Brasília, do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, por repórteres da VEJA, sob o pretexto do furo jornalístico; onde, numa manchete de qualidade duvidosa, a revista  publicou matéria sobre o suposto "governo paralelo" montado por Dirceu, sob as barbas do governo, como uma forma de desestabilizar o governo de Dilma Roussef. Dirceu é apresentado como " O poderoso Chefão", um don corleone da esquerda nacional que, apesar de ter seus direitos políticos cassados pelo processo do "mensalão", continua dando as cartas nos jogos de poder em Brasília, através de uma bem sucedida atividade de consultoria, onde todos os cardeais do governo, de diversos escalões, vem a ele se consultar; além do ex-ministro ter cadeira cativa na direção do PT, e ainda ser responsável pela articulação política dentro do partido. Resumindo:Dilma seria uma ingênua, colocada convenientemente por Lula em seu lugar, enquanto que seu principal braço direito continuaria governando de fato, à revelia da atual presidente. Enfim, uma baita teoria da conspiração!

Não questiono aqui se Dirceu é mensaleiro ou não (seu julgamento pelo STF é que definirá seu destino). Até considero o cara bem antipático. Mas independente da pessoa, fico me perguntando até onde vai a fome de Veja em querer vender tablóides, à custa de informações baseadas em vídeos capturados ilegalmente dos corredores de um hotel em Brasilia, mostrando diversas personalidades da República, entre ministros, deputados e representantes de estatais, vindo se consultar com o suposto "oráculo Dirceu", como uma espécie de pai de santo por onde os orixás conduziriam os caminhos do governo. Parece risível, se não fosse preocupante.

O golpismo de parte da imprensa, na manipulação de informações, querendo a fórceps forjar uma opinião pública contrária ao governo, ou, ao menos, contrária a determinadas personalidades da política, faz parte da ânsia dos meios de comunicação de lidar com a notícia como se fosse um espetáculo, e nesse sentido, o livro de Luhmann (  A realidade dos meios de comunicação. Editora Paulus) é emblemático a respeito. Não interessa à mídia informar, mas sim veicular notícias como se elas fossem informação, e assim, por ausência de um controle externo, todas as atividades dos órgãos de imprensa destinados a produzir notícia, violam quaisquer disposições legais, ultrapassam os limites ou barreiras da ética, prejudicam ou distorcem à realidade acerca dos noticiados, pois, diferente do que prega o jargão dos telejornais, o compromisso da mídia não é com a verdade, mas sim com a notícia.

Por isso que me pergunto:se para o petróleo, para as telecomunicações, para a energia, para a aviação e para diversos setores de atividade pública no Brasil, existem agências reguladoras dos serviços prestados por cada um dos órgãos ou empresas vinculados a cada área, por que é que a imprensa não pode ter uma agência reguladora? A vida de milhares de pessoas é exposta todos os dias à sanha de notícias dos paparazzi da imprensa de plantão, invadindo privacidades, violando imagens, cotidianos e vidas pessoais, tudo em busca da notícia. Não adianta de nada dizer que a imagem, assim como a honra, a intimidade e vida privada são invioláveis, porque se tratam de direitos fundamentais, consagrados no art. 5º, inciso X da Constituição Federal, uma vez que os repórteres da VEJA acham que isso de nada vale, quando se trata de, segundo eles, "prestar um serviço à sociedade, garantindo o direito à informação". Afinal, o leitor merece saber, mesmo que seja de forma enviesada, invadindo os corredores de um hotel, grampeando as câmeras do local, tão somente para captar (sem autorização) a imagem de políticos e pessoas públicas que se encontravam no local, sob o pretexto de se produzir notícia. O limite entre o bom jornalismo e a canalhice parece manter uma relação difícil na redação da revista.

Por isso, fico me perguntando se as estripulias dos jornalistas do News of The World é só punição para "inglês ver", apenas como coisa da imprensa estrangeira que saiu do tom, e se aqui no Brasil não temos também os nossos Murdochs, com seus impérios de comunicação, que não dão à mínima para a legalidade ou para o Estado de Direito, pois a única coisa que lhes interessa é o lucro. Hoje em dia, o pior capitalismo é aquele em que os meios de produção se encontram na acumulação de um capital de ideias, mais do que um capital de riquezas materiais, e nesse sentido, periódicos como a Veja só aumentam o jogo do disse me disse de informações desencontradas e fraudulentas, que não contribuem em nada para informar ou conscientizar a sociedade. Na busca de seus vilões, alguns órgãos de imprensa acabam por se confundir com seus principais inimigos, alvos de suas denúncias. Para mim, é tudo farinha do mesmo saco!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CINEMA: Em "Melancolia" de Von Trier, o mundo se acaba e pronto!!

O Dogma foi um movimento cinematográfico europeu, iniciado por diretores de cinema dinamarqueses na década de 90, através de um manifesto publicado em Copenhague, em 1995, tendo como um dos principais signatários, o então jovem cineasta Lars Von Trier. O movimento pregava uma ruptura com o cinema comercial, uma crítica ferrenha aos chamados blocksbusters e tudo o que vinha da indústria. Em sua estética, os adeptos do movimento pregavam um cinema que deveria ser feito muito mais de ideias, do que de parafernálias ou efeitos especiais. Voltava-se ao discurso de que, com uma câmera na mão, poderia se fazer uma revolução. Assim era o cinema para Von Trier.

Passados 16 anos, muito do que era o movimento original já se dissipou e, naturalmente, cineastas como Lars Von Trier não desperdiçam mais efeitos especiais ou uma mãozinha aqui ou acolá de computadores. Afinal, não é a tecnologia a grande inimiga da arte. "Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro"(já dizia finado Chico Science), mas o que mais se nota na genialidade, no estilo e na polêmica do diretor dinamarquês é que em sua profícua obra, geralmente alvo de prêmios (principalmente em Cannes) ou de insultos, fica demonstrado que Lars Von Trier é um depressivo profissional!

Von Trier se vale da depressão, da ironia e do ceticismo quanto à humanidade como artifício estético, como pano de fundo de seus filmes que brincam com diversos estilos cinematográficos. Se em "Dançando no Escuro", o diretor fazia uma paródia dos musicais, em "Godville" ele relembrava filmes de gângster, assim como  em "Anticristo" seu foco eram os filmes de terror. Agora em "Melancolia" (Melancholia, no original), parece que Lars Von Trier vale-se dos filmes apocalípticos de ficção científica, para esmiuçar sua depressão, exercer um de seus alteregos, através das atrizes de seus filmes, que são suas musas sofredoras. Von Trier adora torturar suas atrizes (fazendo com que muitas delas façam apenas um filme seu), fazendo com que elas explorem em suas interpretações o ápice do sofrimento (ponto pra Charlotte Gainsbourg, que conseguiu fazer seu segundo filme com o diretor). Não é diferente com Kirsten Dunst em Melancholia, assim como não é diferente nos outros filmes da obra do diretor o grande teor de ironia, mais do que de desilusão. Afinal, são filmes de Von Trier, e se não fossem assim, não seriam filmes dele, não é mesmo?!

Em Melancholia vemos que o filme se divide em duas partes, centrado em duas protagonistas: duas irmãs, sendo que uma, Justine, interpretada por Dunst, é a tristeza pura em estado bruto; enquanto que sua irmã, Claire, feita por Gainsbourg, é o estado puro da resignação, o pragmatismo diante do imediatismo de uma vida curvada às convenções. O filme inicia-se com o casamento de Justine, na tentativa de ser "normal", de se adequar às convenções sociais, casando com um homem que ela não ama, mas que pode significar a saída para sua tristeza. Ledo engano. Quando a festa de casamento se desenvolve, percebemos aos poucos os reais traços depressivos da personalidade de Justine, seus medos e angústias, e do quanto eram forçados seus olhares apaixonados e sorrisos para o noivo e convidados da festa, quando na verdade, por debaixo das aparências, estava alguém ali louco para gritar. Destaque para a atuação dos pais de Justine, interpretados pelos equilibrados e consagrados John Hurt e Charlote Rampling, além de Kiefer Sutherland (sim, ele mesmo, fazendo filme de arte! Na tentativa de se firmar como ator "sério" e retornar ao cinema depois de anos na série de TV, 24 Horas), interpretando o marido de Claire, cunhado de Justine, e responsável pela festa de casamento.

Justine, através da brilhante atuação de Kirsten Dunst (vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz), é a tristeza personificada, a verdadeira "melancholia" do filme, e não o planeta de mesmo nome, que descoberto pelos astrônomos, em breve, deverá colidir contra a Terra, provocando uma iminente e inevitável destruição. O suposto "filme de ficção científica", na verdade serve como metáfora dos nossos mundos: um, o imaginário, inatingível, imperecível, que acaba por se chocar com o mundo real, dos destinos, das regras, rituais e convenções sociais que, um belo dia, somos obrigados a seguir. O filme de Von Trier é um drama existencial ao extremo, assim como é a personalidade complexa do diretor, permeada por surtos maníaco-depressivos. A depressão é a tônica do filme, pois Justine logo será assombrada pela doença, prostrada a ponto de não conseguir sequer caminhar ou tomar banho sozinha, sendo auxiliada pela irmã, enquanto a Terra se aproxima de sua destruição. É no apocalíptico momento do final que Justine recupera o sentido da vida, ou, ao menos, o sentido do fim da vida, enquanto que a tristeza passa agora a tomar conta de sua irmã, inconformada com o fim iminente, já que acha injusto que toda a existência acabe assim, de uma hora para outra.  Ela tem uma família e sua única preocupação de mãe é salvar seu filho da destruição. É o que toda mãe faria, mas sente a impotência do destino final, por ter as mãos atadas é não poder remar contra o inevitável, o armagedon que está por vir. Não é à toa que o nome da protagonista é Justine, o mesmo nome, na literatura, da personagem do Marquês de Sade, que estava fadada a uma vida de dor, privações e sofrimentos. A Justine do filme também é uma figura sofrida, a partir de seus lindos, mas sorumbáticos olhos, mas é um sofrimento que surge bem antes do mundo se acabar, por uma total consciência do absurdo de se estar nesse mundo.

Se em Dogville, a personagem de Nikole Kidman era   a versão de um Cristo vingativo, que não redime mas pune a humanidade ingrata e pecadora, em Melancholia a humanidade é vítima do próprio universo, quando um planeta aparece por detrás do sol, numa trajetória mortal em direção à Terra. Tudo porque, segundo Justine: "a humanidade é ruim, e se estamos sozinhos no universo, pois só há vida aqui, logo  em breve nenhuma vida existirá". Triste? Sim, é triste sim, mas antes de mais nada a metáfora sobre o fim do mundo, ou sobre o juízo final onde não haverá final feliz, é o recado de Von Trier para uma Cannes que o expulsou com quatro pedras na mão, ao não entender suas piadas sem graça sobre o nazismo ou Hitler, e ter menosprezado a arte de um gênio que é ao mesmo tempo genial e estúpido, seja porque decide largar seus remédios de vez em quando, para liberar toda sua potencialidade criativa, outrora entorpecida pelos medicamentos, seja para meter o dedo na ferida, e falar com extrema ironia da natureza humana, que merece ser desvelada em seus aspectos mais sombrios. Talvez Lars Von Trier seja tão e simplesmente um puritano desencantado, daqueles que amaldiçoam uma humanidade que deveria ser tão boa, por viver num mundo tão bom, e não é. Talvez ele seja apenas um diretor de cinema arrogante, preocupado em fazer cinema de autor, com seus disparates e leviandades intimistas. Não sei! Só sei que ele faz bons filmes, e se bons filmes são aqueles que te apanham para pensar, creio que filmes como Melancholia fazem a gente pensar até demais!

Melancholia é um bom filme, que naturalmente deverá ser visto por muitos psicólogos e psicanalistas, que estudam o fenômeno da depressão. Porém, o filme também merece ser visto por todos aqueles que acreditam que existam pessoas que simplesmente não se preocupam com o fim do mundo, porque, no fundo, querem que isso aconteça. Vá entender certas pessoas! Vá entender cabeças como a de Lars Von Trier. Desta vez, o pessoal de Cannes não quis entender!
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