segunda-feira, 22 de novembro de 2010

MÚSICA: McCartinices-o "vovô de Liverpool" ainda agita bem a galera (beatlemaníaca ou não)!

Ontem foi o último show de Paul McCartney no Brasil, e, infelizmente, não estive presente pessoalmente para assistir. Eu já pensava em ter escrito sobre isso antes da realização dos seus shows (um, em Porto Alegre e dois em São Paulo), mas minha agenda atribulada, os afazeres profissionais, pessoais e acadêmicos acabaram me afastando por uns dias dessa blogosfera, e de um de meus mais diletantes e agradáveis momentos: o prazer de escrever. Passei o mês inteiro de outubro escrevendo sobre eleições, exercitando meu dever civico; mas, até que enfim, podemos escrever e debater sobre assuntos mais saudáveis e agradáveis. Afinal, música é tudo para mim!Música não é só arte ou cultura! Música é prazer!Música é saúde e vida!

E para mim algo tão saudável e prazeroso quanto o beijo da mulher amada ou a delícia do gosto saboroso da comida predileta, trata-se  de ouvir boa música, divina, de qualidade. Nesse sentido, Paul McCartney e o antológico grupo de que fez parte (nem precisa dizer qual) são a mais  completa expressão do prazer que é a música, tendo em vista que até hoje, artistas como sir McCartney fizeram da música a sua vida. Muitos críticos entendem que o ex-Beatle é um músico tão completo, que chego a compará-lo com uma espécie de "Tom Jobim britânico". A terra  que fundou o futebol, de clubes como o Chelsea, Manchester United e Arsenal; da língua mais falada no planeta; do clima chuvoso e cinzento; de seus reis, rainhas e princesas; da torre do relógio Big Ben; do chá das cinco; de Mary Poppins e Harry Potter, também é a terra do rock: dos Beatles, Rolling Stones, Zeppelin, The Who e tudo de bom que você possa encontrar na história da música popular. Mas também é o berço de gênios como James Paul McCartney.

Não gosto tanto dos Beatles quanto dos  Stones, confesso, mas como toda pessoa com um mínimo de neurônios na cabeça ou que sentiu o gosto (ruim e bom) da civilização, já escutou e curtiu alguma música do grupo; mesmo sem entender a letra. Digo isso porque já conheci cidades do interior, em regiões onde ninguém nunca tinha ouvido falar na  banda de Paul, John, George e Ringo, mas quando tocava alguma música dos Beatles, logo o povão associava aquele som à festa, curtição e rock and roll. É uma sonoridade que conseguiu se globalizar e passar de geração para geração. Em seu envelhecimento, Paul McCartney conseguiu acompanhar a evolução de seu público e se tornou também o músico virtuoso e excepcional que sempre foi, só que mais amadurecido com o decorrer do tempo. Paul não se tornou mais do que os Beatles, mas se tornou simplesmente Paul!

Compreendo piamente os devotados fãs dos Beatles, que se acotovelaram aos milhares dentro do estádio do Morumbi, vivendo o momento sabático de escutar seu grande ídolo cantando músicas de seu extinto grupo. Admiro isso. Entretanto, na trajetória de McCartney estimo muito mais seus bons trabalhos solo, especialmente da época de sua também antologica banda, Wings, para dizer que Paul conseguiu se virar muito bem, após sua saída dos Beatles, e assim como sua cara-metade John Lennon, Paul galgou o panteão dos melhores músicos da história, fazendo um som completo, de extrema sensibilidade e criatividade, sem se perder no ganho fácil de viver ganhando uns trocados, apenas fazendo shows, reciclando material antigo. Li em recente reportagem, na revista Rolling Stone, a afirmação de que se Paul cobrasse cada assinatura sua que dá a um fã, por até mil dólares, ele passaria o resto da vida vivendo só de autógrafos. Mas não foi isso que ele desejou. Paul McCartney ainda tinha muito a mostrar após os Beatles.

Paul conseguiu se reinventar após o fim dos Beatles e provou que Paul McCartney era e ao mesmo tempo não era os Beatles. Assim como seu parceiro John Lennon trilhou outros caminhos, e o mais reservado George Harrison também colheu seus êxitos de carreira solo, McCartney não se acomodou com a ressaca dos Beatles e foi explorar novas sonoridades, acompanhado de sua primeira (e falecida) mulher, Linda, montando os Wings. Através desse grupo, Paul marcou os anos setenta (pra mim, ainda hoje os melhores anos em termos de rock e música popular) com sua nova banda e através dela gravou um dos álbuns que ficou para a história da música: o famoso disco Band on the Run.



Nos anos oitenta, assim como muitos outros artistas, Paul McCartney se rendeu à música pop, gravando canções com Michael Jackson e lançando alguns discos com qualidade duvidosa. Porém, é inquestionável que nessa época o lendário ex-beatle lançou pérolas que até hoje ocupam as rádios, como Once Upon a Long Ago, No More Lonely NightsMy Brave Face e This One. Não obstante, foi nos anos 90 que Paul voltou à verve inspiradora que marcou sua carreira nos anos setenta, e fez discos mais conceituais e bem trabalhados; alguns rumando contra a maré do êxito comercial, em baladas mais complexas e intimistas, como nos discos Flaming Pie, Run Devil Run e Chaos and Criation in the Backyard. Talvez, naturalmente influenciado pela doença e posterior falecimento de câncer de sua primeira esposa, McCartney tornou-se um compositor mais intimista, apesar de nada amargo, que soube unir a experiência de tantos anos do carisma firmado em palcos, junto ao talento e genialidade em criar letras e canções inspiradas como Eleonor Rigby, Penny Lane e Fool on the Hill, de sua parceria com Lennon. É difícil imaginar o que teria acontecido se John ainda estivesse vivo, e como seria o mundo com esses dois músicos extraordinários esbanjando talento e vitalidade, como Paul ainda faz até hoje em seus shows.

Hoje em dia, em muitos segmentos alternativos de jovens músicos e na comunidade indie, interessada em música anticomercial  mas de qualidade, os primeiros álbuns de Paul McCartney, do começo da década de 70, são considerados obras indispensáveis. Por isso que boa parte do séquito de Paul, nos dias atuais, não pode ser atribuída somente a fãs beatlemaníacos, mas sim também a ouvintes que souberam respeitar e admirar a música do velho músico de Liverpool, sem se apegar apenas às pieguices das músicas "estilo bailinho", dos primeiros discos dos Beatles. O "velho MacCa" é considerado um dos músicos mais completos do planeta, porque soube abrir o ouvido a velhas e novas sonoridades, sem perder sua marca registrada (baladas bem tocadas ao violão ou ao piano, com uma certa pegada folk, e uma indisfarçável influência bluezeira e do rockabilly) e seu inconfundível apelo rock'n roll.

Apesar daqueles que outrora quiseram matar o Paul (quem nunca ouviu falar de certa teoria conspiratória, havida na capa do disco dos Beatles, Sargent Pepper's, de 1967,  que levante o dedo!) seja pessoalmente ou musicalmente, o cara soube manter o sucesso sem perder a humanidade. Deu-me uma indisfarçada admiração saber que, assim como outros personagens emblemáticos e que gravaram seu nome na história, apesar de ter sido conduzido à condição de nobre inglês, nomeado sir pela rainha da Inglaterra (um cavaleiro da Ordem Britânica), apesar dos títulos, Paul McCartney não esqueceu suas origens proletárias, de um working class hero, no estilo do nosso presidente Lula (aquele que vem de baixo, mas não se desliga do povão), e mesmo famoso não deixa de pegar sozinho seu metrô de vez em quando, nas ruas de Londres, ou mesmo de ser visto dentro de um ônibus, ganhando o espanto geral de gente que simplesmente não acredita que ele esteja nesses lugares, e que pensa se tratar apenas de uma brincadeira ou de um sósia. Afinal, seu parceiro John foi assassinado justamente por que costumava andar pelas ruas como um cidadão comum, dispensando guarda-costas ou limusines. Deve ser por isso, que mesmo com tanta fama, não se vê histórias de sir Paul ser incomodado por paparazzi. Paul McCartney é um dos artistas que prefere ser honrado e conhecido pelo seu trabalho, e não pelos escândalos  ou fatos inusitados em sua vida privada ( a única exceção, deu-se nos últimos anos, com seu explosivo segundo casamento e posterior divórcio com a ex-modelo britânica, Heather Mills).

Por essas e outras que saúdo a passagem de Paul McCartney pelo Brasil, na sua segunda vinda ao país (e talvez a última, segundo a mídia se apressa em dizer, face a idade avançada do músico), e que, de fato, essa não seja a derradeira vez que os brasileiros possam ver uma lenda viva tocar e agitar a galera. Além de bom músico, do alto de seus 68 anos de idade, McCartney conseguiu provar que é possível envelhecer com dignidade. Fico me lembrando de umas das canções do célebre Sargent Pepper's, dos Beatles, na deliciosa música: When I'm Sixty - Four; quando, nos anos sessenta, um jovem McCartney já previa o futuro em doces versos: "Will you still nedd me? Will you still feed me? When I'm sixty-four?". Yes, Paul! Yes! Com 64, 68, 70 ou 80, nos ainda te amamos!!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

FÉ & NEGÓCIOS: O MUNDO É GO$$PEL!!!!!!

Diz uma passagem da Bíblia, em Mateus 19: 16-24, que um jovem rico se aproximou de Cristo e lhe perguntou como obter a vida eterna. Jesus respondeu que além de seguir os mandamentos, ele teria que se desfazer de todos os seus bens e doá-los aos pobres. Como tinha muitas posses e não queria se desfazer delas, o jovem se retirou triste. Então Jesus afirmou: "é mais fácil  um camelo passar no fundo  de  uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus".

Fico pensando no versículo bíblico ao ser surpreendido com a notícia da quase falência do grupo Silvio Santos. O Banco Panamericano, de propriedade do grupo, entrou numa braba crise financeira e só não quebrou por que o famoso apresentador de TV deu em garantia sua imensa fortuna, constituída de diversas lojas de varejo, uma financeira, uma empresa de cosméticos e a própria rede de televisão, o SBT, para contrair um empréstimo e se livrar do vexame de falir, em mais de 40 anos de vida empresarial bem sucedida. O homem do Baú da Felicidade parece que agora encontrou a tristeza da iminência da ruína financeira.

Leio hoje nos jornais que diversas igrejas evangélicas pentecostais se ofereceram para comprar parte da programação do SBT, oferecendo milhões para ter todas as horas das madrugadas da programação da emissora. Sabe-se que em países como os Estados Unidos, são comuns canais de televisão gospel, pertencentes à igrejas ( a rede Record, pertencente a Igreja Universal do Reino de Deus, aqui no Brasil, é um franco exemplo), ou que possuem em sua programação horas onde se apresentam pregadores, com espaço garantido o ano inteiro para programação religiosa e cultos televisionados. No Brasil, aparecem cotidianamente na TV pastores como Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça. Em todos esses programas, geralmente a liturgia é a mesma: cultos ao vivo ou gravados, promessas de cura, entrevistas e enquetes com o público, através de programas como o "Fala, que Eu te Escuto", e diversos outros conteúdos que transformaram evangelização em nicho de mercado. Não sou contra a pregação religiosa na TV, mas não deixo de achar curioso (e, em alguns casos, até perigoso), como essas igrejas que se valem dos meios de comunicação (característica principal do chamado neopentecostalismo), muitas vezes vendem fé como se fosse um produto. Afinal, se tínhamos antes os empresários da comunicação, agora temos os empresários da fé!

A pós-modernidade e os avanços trazidos pela revolução nos meios de comunicação gerou novas formas de interatividade que passam,necessariamente, pela TV e pela internet. Antigamente, a Assembléia de Deus, a igreja pentecostal mais antiga do Brasil e uma das mais tradicionais no cenário religioso brasileiro, tinha simplesmente seus jornais ou panfletos distribuídos por seus fiéis pelas ruas, como forma de difusão da palavra de Deus. Hoje, vê-se na maior parte dos canais de televisão, ou ao menos em todas as casas do país, algum televisor ligado, alguma hora do dia ou da noite, nem que seja por alguns minutos, transmitindo esses programas. O lucro dessas instituições religiosas é absurdo. Visto que o que elas conseguem em espaço, a TV também consegue em anunciantes. A crise de valores e a busca de religiosidade nesse novo milênio levaram multidões desencantadas com a vida moderna a se debruçar sobre a TV e procurar respostas para suas angústias pessoais, através do discurso religioso. Que bom que as pessoas procurem curar seus males internos pela religião, por um lado; mas que pena que a fetichização capitalista transforme boa parte disso em mero mercado. Fico me recordando do escândalo envolvendo os bispos Estevão e Sônia Hernandez, da Igreja Renascer, e a prisão dos mesmos nos Estados Unidos, após o patético episódio de desembarcarem em solo americano com dólares escondidos dentro de uma Bíblia. Creio que alguns "jovens ricos" seguem os mandamentos, mas ainda não conseguiram obter a vida eterna, pois ainda estão muito presos a seus apegos materiais.

Participo de uma pequena igreja luterana, bem tradicional, histórica, e com um culto até mesmo chato pra alguns padrões pentecostais, mas dentro de uma perspectiva humilde, como sempre vi a igreja. Conheci e frequentei várias igrejas, de diversas denominações religiosas, e sempre vi o contraste entre a opulência e a humildade. Desde as suntuosas catedrais católicas até os rudimentares templos evangélicos de bairros de periferia, em minha fé, sempre pude notar a presença de Deus em minhas orações, mas não deixei de notar também a soberba e o falso profetismo de alguns homens. Sou um eterno crítico da organização eclesiástica no Brasil, mas nem por isso deixo de ser um homem de fé. Para mim, igreja enquanto um conceito bíblico-teológico é o encontro dos crentes, a comunidade dos que se sentem filhos de Deus; mas enquanto instituição social pode ser tão corrompida, recheada de conflitos e permeada por vícios, como qualquer outra instituição. Às vezes as igrejas assemelham-se à empresas, noutras, a partidos políticos, e nisso vem a velha crítica de muitos, de que Deus é um ente a se acreditar, já  igreja, não. Não culpo nem meus amigos ateus, e nem aqueles que em algo crêem, mas que discordam da igreja, pois, de fato; igreja é um assunto controverso demais, até mesmo para os mais estudiosos e astutos teólogos.  Por outro lado, não deixo de participar, não deixo de achar importante a existência da igreja na minha vida, na minha caminhada de fé.

Entretanto, vejo no desenvolvimento de certas igrejas (principalmente as evangélicas) no Brasil, um sério problema, que vem da forma midiática e um tanto quanto mercantilista que se aproxima, todas as vezes que vemos empresários em crise dissiparem sua fortuna e obrigando-se a vender antigos prédios de supermercado, salas de cinema, auditórios e espaços na programação de televisão, para sedentos pastores e líderes religiosos, que na ganância de arrecadarem milhares de dízimos, ofertas, contribuições ou lucros de anunciantes, transformam as igrejas em verdadeiros balcões de negócio. Em outro capítulo da Bíblia, observa-se em I Timóteo 6:10: "Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores." Ao ler isso me preocupo, porque vejo que alguns de nossos líderes religiosos correm o risco de se perder entre os cifrões da renda obtida com todo um mercado gospel que vem a surgir. E a figura de Cristo ou as mensagens do Evangelho passam a servir como propaganda em canecos, camisetas, chaveiros, adesivos para carro, CDs e DVDs, como numa imensa loja de departamentos pentecostal, um grande shopping da fé, uma verdadeira praça de alimentação de produtos religiosos. Fé Demais não Cheira Bem, é uma interessante comédia dos anos oitenta, com o ator Steve Martin, interpretando um pastor caça-níqueis, e é nisso que tenho medo que muitas de nossas igrejas se transformem; no momento em que assumirem a ponta da programação em nossos canais de televisão.

Sai de cena Silvio Santos, gritando no meio do auditório, num corredor repleto de moças e senhoras de idade, com braços levantados: "Quem quer dinheiroooo???"; e entra R. R. Soares, com sua pregação: "Quem quer uma benção? Quem quer salvação?". O modus operandi é diferente, mas o lucro é o mesmo, na conta dos anunciantes. Imagino o Bispo Edir Macedo, após sucessivas prisões e libertações pela Justiça brasileira sorrir triunfante, após os tribunais firmarem jurisprudência de que líderes religiosos não podem mais ser presos como estelionatários, levando-se em conta que além da liberdade de religião, ninguém pode argumentar que foi enganado ou ludibriado por um discurso de fé, se sabe que pode estar sendo iludido por um discurso que é religioso, e não racional. As promessas do mundo de Deus, vendidas como se fossem carnês da felicidade, diferem das promessas do mundo, palpáveis e passíveis de cobrança como uma promissória; mas mesmo assim continuam sendo promessas. Para mim, o problema do lucro ávido de certas igrejas não é caso de polícia, não é um problema criminal, mas sim uma questão de ética, de bom senso religioso e de respeito a valores tão difundidos por diversas religiões: como a solidariedade, a piedade, a luta pela justiça e a compaixão pelos mais fracos. Espero que muitos não se afastem da fé, incrédulos, revoltados, decepcionados, tão somente por achar que Deus vendeu um peixe caro demais para se conquistar. Fé não é contrato, e oro para que muitos dos que se dizem pastores de ovelhas desgarradas, não contribuam para que elas fiquem ainda mais perdidas, porque eles mesmo não reconhecem o quanto pecaram contra seu próprio compromisso religioso.


Paz aos homens de boa vontade, e se liguem senhores pastores, supostos donos da verdade e da sabedoria. Se acreditam mesmo em Deus, não estraguem tudo, como se fosse apenas um negócio a se realizar. Que Deus tenha piedade deles!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ELEIÇÕES/Resultado: Viva!! Porque Dilma ganhou!! Ufa! Porque Serra perdeu

Acabou!Finalmente acabou o processo eleitoral de 2010 e com ele uma das campanhas onde um dos candidatos a presidente se valeu dos expedientes mais vis, mesquinhos e de um arsenal quase sem fim de baixarias, contra um candidato (no caso, uma candidata) adversário. Não se via tantos golpes abaixo da linha da cintura, numa eleição, desde a histórica campanha de 1989, onde um combalido Lula, na reta final, abalou-se sensivelmente com a torpeza de Collor, ao anunciar nas vésperas do último debate eleitoral uma sacana Miriam Cordeiro, que denunciou o candidado do PT, naquela época, de ter tentado forçá-la a abortar Lurian, a filha mais velha que Lula teve num romance rápido com a ex-enfermeira que o denunciou. Jogo sujo que parece ter ressurgido, sobretudo,  fatidicamente no segundo turno da campanha eleitoral, mas que foi vencido limpamente pela candidata do governo federal.


Do alto de seus 56% de vantagem (exatos 55.723.465 de votos) Dilma Roussef tornou-se a primeira mulher a chegar à presidência da república e a quadragésima pessoa a ingressar no cargo. Além de mulher, é a primeira vez que um candidato de uma ampla frente de partidos de centro-esquerda conquista o poder de forma consecutiva, através de seu sucessor; num governo outrora dominado durante mais de um século por uma elite empresarial e latifundiária (fora os governos militares). Dilma é também a primeira ex-guerrilheira a se tornar presidente (na América Latina, José Mujica conseguiu esse feito no final do ano passado, no Uruguai) e também a primeira candidata vitoriosa de um presidente que conseguiu eleger seu sucessor (nem Vargas ou Juscelino conseguiram a façanha de Lula). Sobre a ascensão de Dilma e o fracasso de Serra, eu poderia citar alguns fatores:

Por que Dilma ganhou?
Dilma venceu, entre outros fatores, por ter sido apoiada por um governante com uma popularidade recorde, que conseguiu transferir boa parte de seu capital eleitoral para sua afilhada política. A oposição não foi páreo para um governo que se mitificou, do alto de seus 82% de aprovação popular. Lula é o presidente mais bem avaliado de toda a história da nação e seu legado tende a permanecer por muitos anos, assim como foi com Getúlio Vargas, desde a década de cinquenta do século passado. A votação maciça que a candidata Dilma recebeu de regiões pródigas no recebimento de bolsa-família, como o Norte, o Nordeste e estados do sudeste,como o Rio de Janeiro e Minas, apenas confirmou o favoritismo de uma candidata que começou a despontar ainda no início da campanha. Além do mais, até ao arrepio da legislação eleitoral e contando com uma certa condescendência do Judiciário, não obstante as multas, Lula foi um cabo eleitoral ativo, participando da campanha diuturnamente, seja na propaganda eleitoral na TV, seja participando de eventos e atos públicos a favor de sua candidata.

Mas Dilma não se elegeu apenas na carona de seu mentor político. Dilma revelou também ter brilho próprio, e, a despeito da decepção petista quanto a não obtenção da vitória no primeiro turno (face os 20% de votos conquistados pela candidata "verde" Marina Silva), na pesada campanha do segundo turno, Dilma conseguiu se impor em relação às críticas de seu adversário, adotando uma estratégia agressiva, porém propositiva. Diante das acusações caluniosas, empregadas com um certo fundamentalismo religioso, de que a candidata do PT era a favor do casamento gay e do aborto, porque "gostava de matar criancinhas", conforme argumento empregado pela esposa do candidato da oposição, Mônica Serra, Dilma respondeu à altura, conseguiu dissipar os boatos, confirmou o apoio a seu nome de artistas, intelectuais e lideranças religiosas na sua campanha, indo à luta. Nesse sentido, Dilma Roussef conseguiu provar que não era apenas um "poste", indicado por Lula para ganhar essa eleição, e que tinha sim habilidade e luz própria para uma estreante em campanhas eleitorais.

Outro fator preponderante que auxiliou na vitória da candidata da situação foi o sentimento de continuidade. Toda popularidade alcançada por Lula em sua gestão deu-se à estabilização econômica, à geração de emprego e renda, ao crescimento de uma nova classe média e ao desenvolvimento de um país que ganhou um novo protagonismo internacional nos últimos anos. Elegendo-se em 2002, sob a égide da mudança, nesta eleição o governo Lula conseguiu emplacar a pecha da continuidade. O eleitor brasileiro em geral aprecia o momento histórico porque passa o país e tendia a defender a manutenção do atual modelo que deu certo. Dilma surfou nessa onda de otimismo e prosperidade nacional, mantendo o lema de manter e aprimorar todas as conquistas já realizadas pelo governo que vai terminando.

Os apoios políticos dos candidatos vitoriosos aos governos dos estados, no primeiro turno, também foram importantes peças de xadrez no jogo eleitoral, uma vez que muitos desses candidatos valeram-se de sua popularidade e da transferência de votos de seu eleitorado para Dilma, como ocorreu na Bahia, de Jacques Wagner, onde a candidata do PT praticamente deu uma surra em Serra, alcançando mais de 70% dos votos válidos no último domingo, como também em Pernambuco, do votadíssimo e reeleito governador Eduardo Campos. Também no Rio de Janeiro, a força político-eleitoral do governador Sérgio Cabral se confirmou, atingindo Dilma importantes 60% dos votos. Nos demais estados favoráveis à petista o quadro se confirmou; com exceção do Rio Grande do Sul, onde, não obstante a vitória de Dilma no primeiro turno, no segundo turno tal fato não se repetiu, atestando-se a vitória de Serra no estado por uma estreita margem de vantagem que beirou o 1%. Apesar disso, Dilma Roussef soube administrar a vantagem da dianteira em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, e não chegou a perder feio em São Paulo, cenário naturalmente favorável ao candidato José Serra. Foi no Nordeste, entretanto, que a candidata Dilma obteve sua maior vitória, dominando praticamente a realidade de todas as urnas naquela região, em comparação com o restante do país.

Além do mais, Dilma conseguiu por mérito próprio (e não somente pelo apoio de Lula) enfrentar Serra nos debates do segundo turno, não perder a serenidade (apesar da inexperiência de neófita em campanhas eleitorais) e aproveitar as brechas deixadas pelas próprias falhas éticas tucanas, no momento em que rebateu os escândalos e as denúncias envolvendo desde a quebra do sigilo fiscal de eminências pardas tucanas e da própria filha do candidato Serra, como também das falcatruas e do tráfico de influência feito em prol de familiares por seu ex-braço direito, sua sucessora na Casa Civil e ex-assessora, Erenice Guerra. Em ambos os casos que pareciam explosivos (explorados à exaustão pela mídia oposicionista), tais fatos acabaram se perdendo no debate eleitoral, tendo em que vista que no primeiro caso, não interessava ao eleitor de baixa renda uma discussão complexa sobre quebra de sigilo de poderosos, que envolve muito mais uma " picuinha entre ricos" do que um problema genuinamente seu. Além do mais, a própria filha de Serra, Verônica, indicada como vítima, acabou revelando o telhado de vidro dos tucanos, quando se sabe que a empresa montada por ela, em parceria com a irmã do banqueiro-bandido Daniel Dantas, praticou os mesmos atos praticados contra ela, participando de lobbies com o governo anterior, de licitude questionáveis.

No caso de Erenice, a candidata Dilma conseguiu se mostrar mais como uma vítima incauta de uma ex-subordinada que abusou de sua confiança, que "cresceu o olho" quando assumiu um cargo de relevo, substituindo a chefe, e que acabou por colocar tudo a perder, em prol do auxílio a filhos e parentes empresários.Dilma conseguiu demonstrar que quando atos isolados de corrupção são praticados dentro da administração pública, mas prontamente esclarecidos, investigados e seus autores afastados e punidos, não há de se falar em ausência de ética num governo, pelo fato de que tais episódios acontecem nas melhores democracias. Afinal, foi no governo Lula que a Polícia Federal mais atuou e prendeu criminosos do colarinho-branco, dentre políticos, juízes, advogados e empresários e não mais fez por conta de um STF dividido ideologicamente e com um ex-presidente da corte, Gilmar Mendes, mais preocupado em esquivar empresários e notórios fraudadores do uso de algemas, do que defender os direitos humanos de pretos e favelados que são espancados pela polícia país afora, geralmente quando já detidos e algemados.

Por fim, como se verá abaixo nas razões para a derrota de Serra, foi através dos próprios erros cometidos pelo candidato do PSDB e sua coligação, na totalidade de "gols-fora" praticados pelos tucanos, que a vitória de Dilma acabou por ser consagradora. Infelizmente, pela dura campanha efetuada pela oposição, com pesadas acusações que permearam o segundo turno, esta eleição pode ter trazidos feridas políticas talvez difíceis de cicatrizar a curto prazo na cena política nacional.

Por que Serra perdeu?
Acredito que, ainda durante muito tempo, o staff do candidato José Serra e a cúpula do PSDB estarão recolhendo os cacos e estabelecendo a lavagem de roupa suja interna, culpando-se uns aos outros pela derrota considerável sofrida pelo candidato tucano nesta eleição, que pode ter lhe custado, senão a carreira política, a chance de disputar mais uma eleição presidencial. Sabe-se que a campanha de Serra no primeiro turno foi um desastre, e, por pouco, ele não perdeu a eleição no primeiro turno, amargando uma humilhante derrota, mantendo os eternos 35% de seu eleitorado cativo no sudeste, se não fosse o fator Marina Silva, decisivo nesta eleição. De fato, Serra herdou os votos do eleitorado conservador da candidada do PV, mas não conseguiu amealhar a vitória que tanto desejara, apesar disso. Vale salientar que no resultado final da eleição, Serra saiu dos 37% de resultado no primeiro turno para 44% no segundo turno, revelando que dos 20% do eleitorado de Marina, ele apenas conseguiu seduzir uma parte (7%), ficando a maioria dos votos restantes depositados em Marina, no primeiro turno, automaticamente transferidos no segundo turno para Dilma Roussef. Nesse sentido, não adiantou a adesão à candidatura tucana de "verdes" históricos, como o deputado carioca Fernando Gabeira, ou a apelação eleitoral mantida com o suposto apoio de Ilzamar Mendes, viúva do seringueiro e ex-líder ambientalista assassinado, Chico Mendes. Parece-me que a versão de um Serra "verde" e preocupado com as causas ambientais não vingou no segundo turno.

Em segundo lugar, revelou-se temerário o emprego de Serra de argumentos religiosos e fundamentalistas, associados ao preconceito, ignorância e intolerância religiosa quanto a temas polêmicos debatidos na pós-modernidade, como a inclusão social de homossexuais através do reconhecimento de uniões do mesmo sexo ou a delicada questão do aborto. No desespero de ativar sua campanha, e sob ordens, provavelmente dadas aos gritos a seus assessores, o centralizador e burocrático Serra acreditou que através do expediente do preconceito, conseguisse desestabilizar a candidata petista, valendo-se do conservadorismo inato a um eleitorado eminentemente católico e profundamente religioso. As discussões sobre importantes temas nacionais como saúde, educação, segurança e desenvolvimento ficaram pra trás, jogados à revelia diante de uma inútil discussão sobre quem era mais a favor das teses da igreja,ou quem era contra. Parecia que um Estado reconhecidamente laico tinha se rendido aos tempos medievais da Inquisição ou que o papa Bento XVI tivesse se tornado o "grande eleitor" no país. O que ocorreu é que logo após ser detectada a artimanha tucana de querer voltar os eleitores religiosos (principalmente evangélicos) contra a candidata da situação, rapidamente o staff de Dilma teve a agilidade de desmanchar as falsas acusações, montando uma central de boatos na internet, encarregada de rebater todas e quaisquer acusações desabonadoras quanto à candidata, presentes na web desde o primeiro turno. Se Barack Obama inaugurou nos Estados Unidos a campanha pela internet, valendo-se das comunidades virtuais como facebook, orkut e twitter; no Brasil Dilma Roussef notabilizou-se pela contraofensiva eleitoral através de uma rede virtual atuante e diuturnamente engajada.

Mas o que mais fez naufragar o Titanic tucano nessa eleição foi a tibieza com que o PSDB conduziu a eleição de seu candidato desde o primeiro turno, revelando os rachas e fraturas internas, de um partido que simboliza um grupo de interesses entre intelectuais neoliberais, representantes do empresariado desvinculados das benesses do governo, e uma classe média urbana e preconceituosa, que tomado de um individualismo exacerbado e briga de egos históricos, acabou por fazer desandar a carroça tucana. O abandono de FHC e a dificuldade que Serra teve no primeiro turno, de associar sua campanha ao legado do governo de Fernando Henrique, além da disputa interna entre o grupo de São Paulo liderado por Serra, e o de Minas, sob a batuta de Aécio Neves, revelou que, como uma "UDN pós-moderna", o PSDB reproduziu historicamente as rusgas antigas e seculares da disputa do poder político central entre paulistas e mineiros. É a "República do Café com Leite" rediviva. Detentores dos maiores colégios eleitorais do país (São Paulo e Minas Gerais, respectivamente), os tucanos não conseguiram se viabilizar como oposição (desde a primeira derrota eleitoral de Serra para Lula, em 2002), não puderam manter a coesão interna necessária a partidos de oposição que desejam ser poder novamente, e ainda tiveram que se engalfinhar em brigas homéricas, diante de um candidato chato e conhecidamente centralizador como Serra. Tinha tudo pra dar errado, assim como deu, tendo em vista que no segundo turno, apesar de ter aparecido como uma espécie de super-homem na capa da revista Veja, por sua adesão (sincera?) à campanha de Serra, parece que o tucano Aécio Neves não conseguiu render em votos o peso político que possuí em seu estado, ficando Minas como o fiel da balança que decidiu esta eleição. Lá, Dilma teve até mais votos que seu adversário no segundo turno, do que em relação ao primeiro. Provou-se que mineiro não vota em paulista, uai!!

Resta ainda uma pitada de incompetência política e falta de articulação partidária na indicação do candidato a vice na chapa tucana. Assim como nos EUA, na eleição perdida de John MCcain para Obama, a escolha da insossa (porém bem apessoada) Sara Palin revelou-se um tiro na pé nas pretensões do candidato republicano na terra do Tio Sam. No Brasil, parece que o deputado Indio da Costa, do DEM, tão somente representou o que sempre foi, como jovem representante da nova direita e ex-braço direito do derrotado César Maia, nas recentes eleições no Rio de Janeiro: bonitinho, mas ordinário. Não adiantou o sotaque carioca da zona sul e a aparência e o bronzeado de galã da novela das seis, do jovem candidato a vice na chapa de Serra. O despreparo e a desqualificação em quase todos os aspectos do candidato, com frases infelizes e tiradas sorrateiras associando o PT as FARC e o narcotráfico,  acabaram por impor a Indio da Costa  um silêncio nada obsequioso, no segundo turno, pelo manda-chuva tucano. Sabe-se que Indio foi a última das últimas opções quando as cartadas tucanas já estavam todas demolidas, diante da crise entre os partidos coligados, e a possibilidade do principal aliado dos tucanos, o DEM, retirar-se da coligação de Serra, caso não lhe fôsse cedido o cargo vice-presidencial. Na época, o candidato era tão desconhecido que o próprio Serra só veio a conhecê-lo pessoalmente dias após da campanha. Restou a um ex-dj e ex-secretário municipal, envolvido em denúncias de desvios de verbas de programas  de governo, na época da prefeitura de César Maia, ser galgado à condição de lugar-tenente do cargo mais importante da República, revelando desde o primeiro dia de campanha a pequenez de sua propostas e projeto político. Nessa do Indio, o tucanato só levou flechada!

Quanto ao eleitorado jovem, por mais que Serra propugnasse o apoio de certos setores da comunidade universitária (eminentemente paulista) e jovens de classe média alta, com seu discurso embalado no slogan batido da campanha anterior de que "Serra é do bem", o candidato tucano não conseguiu empolgar o eleitorado mais jovem e desencanado das grandes cidades, que encantado com o discurso do PV, encontrou na candidata Marina a terceira via ideal na eleição do primeiro turno. Na verdade, no momento em que mostrou sua face mais raivosa no segundo turno, e os expedientes típicos dos políticos profissionais, com baixarias e discursos de critica à adversária petista, como se estivesse num estádio de futebol, Serra acabou por passar a imagem de ser "apenas mais um deles", e de ser responsável por desqualificar o debate eleitoral, valendo-se das mais esdrúxulas baixarias. O que terminou por sepultar a candidatura tucana foi, sem dúvida, o episódio da "bolinha de papel", em que o candidato, atingido por duas vezes por objetos pequenos e insignificantes em uma caminhada de campanha no Rio, num conflito de sua claque eleitoral com mata-mosquitos revoltados (demitidos pelo próprio Serra, quando era ministro), este foi às pressas ao hospital, sob as câmeras de TV, tentando monopolizar os holofotes para um episódio totalmente inofensivo, querendo forçar um melodrama e capitalizar apoio político fazendo-se de "coitadinho", vítima de raivosos cães de guarda petistas. Sobrou para o candidato a desmoralização de ter figurado nessa campanha como autor de mais uma peça do anedotário popular: ao receber uma bolinha de papel na cabeça, dirija-se imediatamente ao hospital.

O futuro:
O futuro a Deus pertence, como diz o adágio popular, mas pode ser muito bem previsto politicamente, ao menos no que tange aos primeiros meses do ano vindouro, no mandato de Dilma Roussef.

Um dos desafios mais gritantes para a nova presidente será a continuidade e intensificação do combate à desigualdade social e redução da pobreza,  iniciado no mandato de Lula e que se tornou sua maior marca. Para se manter na crista da onda e não perder apoio político de seu eleitorado, Dilma terá que promover mais inclusão, fornecer e ampliar programas assistenciais, gerar e manter novos empregos, e estabelecer um rumo para a economia que garanta estabilidade fiscal, prosperidade empresarial e distribuição de renda. Um dos grandes achados do governo Lula, e que o tornou definitivamente superior a seu rival e antecessor, FHC, foi aliar assistencialismo com desenvolvimento social. Diferentemente dos tucanos, que estabeleceram o bolsa-escola como mera medida compensatória, Lula soube ampliar o programa, com rara intuição política, e talentosamente transformou o bolsa-família em seu carro-chefe, exatamente porque ele não se converteu tão e simplesmente num "bolsa-vagabundo", como o reaçonário discurso tucano quis apontar, outrora, em suas críticas, mas sim num bolsa-desenvolvimento. Ficou comprovado que a retirada da população de níveis extremos de miséria, através de seu compromisso social com a manutenção da educação dos mais jovens, e o ingresso deles no mercado de trabalho, através da qualificação com a criação de inúmeros institutos federais de educação (os antigos CEFETS), tornou-se um trunfo em qualquer administração, sendo impossível qualquer novo governante, que venha assumir no futuro a presidência, desmerecer esse importantíssimo programa de inclusão social.

Entretanto, o que eu entendo fundamental para o novo governo resolver são dois assuntos delicados, que no governo Lula foram merecedores de crítica: a saúde e a segurança. Foram exatamente esses dois temas que ocuparam boa parte da agenda do candidato tucano e que serviram de munição para suas críticas ao governo, apesar de eu já ter dito no blog "O mundo é bão, ser bastião", que Serra não conseguiu emplacar um discurso convincente com sua proposta de criar um Ministério da Segurança, e nem adiantou relatar exaustivamente sua larga experiência como Ministro da Saúde, no governo de FHC, tendo em vista que ainda está presente na cabeça do eleitor o surto de cólera e epidemais de dengue que assolaram o país na gestão anterior. É pela necessidade de criar um sistema unificado de segurança e um aparato de saúde digno de nações desenvolvidas que a presidente Dilma terá que se deparar, se quiser realizar um mandato presidencial a contento.

Do lado da oposição, fica o medo que o acirramento dos ânimos visto na campanha eleitoral permaneça no cenário político-social brasileiro, após Serra, em sua aparente despedida do palco  eleitoral, diante do resultado das urnas, ter dito que a luta não terminou, e que apenas por enquanto as urnas não tinham lhe dado a vitória. Pareceu no discurso recalcado e meio amargo de mau perdedor de Serra, que as agressões e críticas contundentes ao governo não vão tirar uma folga, assim como fez o candidato tucano com o fim da eleição, disparando com a família para a Europa. Ficou demonstrado que além dos "dois Brasis", percebidos na clara divisão dos votos no eleitorado nacional, nessa eleição para presidente, existe um claro fosso ideológico que agrega tanto ricos como pobres, homens e mulheres, jovens e velhos, norte e sul. Pela primeira vez em vinte anos, saíram das sombras para o debate político aberto toda uma gama de conservadores, reaçonários, neoliberais, direitistas e fundamentalistas religiosos, que não tiveram vergonha alguma de vestir a carapuça e manifestar os mais evidentes e tacanhos preconceitos. Essa campanha, sem dúvida, ficou marcada pela polarização numa suposta briga do "bem contra o mal", e não duvido nada que muitos parentes tenham se desentido, amizades foram rompidas, pessoas deixaram de se falar e uns até pediram demissão, por conta do bate-boca e da briga de torcidas que virou o segundo turno dessa campanha eleitoral.

Ficou comprovado, por exemplo, através das redes sociais na internet, por meio de e-mails de alguns eleitores tucanos e mesmo no papo de mesa de bar, ou na discussão familiar junto à mesa de jantar, que em cada família brasileira existe ao menos um eleitor que faz coro ao discurso elitista, privatista, neoliberal e neoconservador de partidos como o PSDB e Democratas. Por um lado, se isso é bom para a democracia, como asseverou a edição especial de Veja sobre o resultado dessas eleições; por outro, como alude revistas como Carta Capital, o discurso religioso homofóbico, a pregação reaconária e separatista contra os nordestinos, o preconceito contra pobres e mulheres, e a defesa do "bandido bom, bandido morto", parece ser muito perigoso para um Brasil que quer se afirmar como potência emergente e nação desenvolvida no século XXI.

No âmbito das relações com a mídIa, como já expressei aqui, no artigo anterior, a nova presidente terá que conviver com um ambiente jornalístico tanto hostil quanto aliado, no aspecto político da guerra de informação que se desenvolveu na imprensa livre, após o advento da redemocratização.Durante 8 anos Lula conviveu com publicações como a Veja e o Estado de São Paulo, francamente oposicionistas, que liberaram os mais diversos factóides, num expediente semigolpista de querer desestabilizar o governo do qual era desafeto. Para Dilma restará a sapiência e a habilidade de lidar com esses meios de comunicação, assegurando a harmonia democrática, mas ao mesmo tempo estabelecendo, através de resultados palpáveis, uma resposta devida aos seus detratores na mídia, governando com tolerância, mas também coibindo abusos praticados por quem se acha o dono da verdade, por possuir um jornal ou canal de televisão. Reitero o inteligente pronunciamento da presidente eleita, reiterando a histórica máxima: "prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras!". Bem dito, senhora presidente!

De qualquer forma, saúdo as mulheres do meu Brasil varonil pela vitória de uma companheira de gênero na primeira eleição em que uma mulher se torna presidente. Como disse a presidente eleita em seu primeiro discurso, após a vitória, hoje, um pai e uma mãe podem olhar nos olhos de sua filha e dizer: "SIM, A MULHER PODE!".Todo poder às mulheres, mas, ao mesmo tempo, todo poder aos brasileiros, realmente comprometidos com um projeto de país mais desenvolvido, mas também mais plural, democrático e justo socialmente. Por isso que votei em Dilma, por isso que comemoro e posso dizer a plenos pulmões: PARABÉNS, DILMA PRESIDENTE! UM BOM DILMA PARA TODOS NÓS! VIVA O BRASIL, ACIMA DE TUDO!!
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