quinta-feira, 27 de março de 2014

HISTÓRIA: 50 ANOS DO GOLPE DE 64.POR QUE NÃO DEVEMOS TER SAUDADES DESSA ÉPOCA?

Quando eu nasci, há cinco anos o Brasil era governado por militares. Em 31 de março de 1964 o presidente democraticamente eleito, João Goulart, havia sido deposto e em seu lugar assumiu uma junta militar composta pelos comandantes das 3 Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), colocando como primeiro presidente militar, imposto e não eleito pelo povo, o general Castelo Branco. De 1964 até 1985, ano em que o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves como novo presidente da república ( o primeiro civil presidente após vinte anos), o país, assim como quase toda a América Latina, viveu sob o regime dos quartéis.

Sou, portanto, um "filho da revolução"(como dizia na música Geração Coca Cola, da banda de rock Legião Urbana), pois assim foi chamado um ato político que, na verdade, não foi revolucionário, mas sim um golpe de Estado. Eu havia aprendido ainda bem cedo, nos livros de história, antes de entrar na universidade, que revoluções se faziam com amplo apoio popular e com o protagonismo de partidos políticos e sindicatos, não de exércitos. Entretanto, o golpe de 64 teve, sim, apoio popular, mas o apoio maciço das elites econômicas e de uma classe média conservadora, católica e histérica, com medo do "perigo vermelho" que representava a ameaça comunista. Para os mais jovens, que nasceram depois da redemocratização, pouco se sabe sobre a chamada "Guerra Fria", mas era nesse clima político internacional que viveram milhões de jovens como eu, naquela época, vendo o mundo dividido entre duas grandes (e armadas) potências ideológicas: os Estados Unidos da América, representando o mundo capitalista, de um lado; e a União Soviética, representando os países socialistas do outro lado.

Era um mundo bem diferente há 50, 40 ou 30 anos atrás. O Brasil vivenciado pelos meus pais, em 1964, era um país em alta crise econômica, com protestos e manifestações nas ruas, vindo de diversos segmentos da população, inclusive dos próprios militares. Foi um período de incertezas, e de luta ideológica no campo político entre dois extremismos: o de esquerda e o direita. No meio disso havia uma elite política e econômica conservadora, populista, e uma imprensa cada vez mais comprometida com os interesses do grande capital. Entretanto, o país vivia seu período mais longo de normalidade democrática, com uma sucessão de presidentes eleitos pelo voto popular desde o fim do Estado Novo, nos anos quarenta, ate os anos sessenta, com a eleição de Jânio Quadros, último presidente civil eleito no período, que logo renunciou após meses de um controvertido governo, e que culminou com a posse (nunca aceita pelos militares), de seu vice, o gaúcho João Goulart, um presidente que acabou sendo deposto por aquilo que veio a ser chamado de Revolução (mas que na verdade era golpe).

Meu pai era militar, um jovem marinheiro de 20 anos de idade, quando o golpe aconteceu. Se na caserna, jovens marinheiros se ouriçavam e sargentos do exército protestavam contra o tratamento dado pelos seus superiores,  na cúpula das Forças Armadas generais conspiravam contra o governo, esperando a hora certa de atacar e derrubar o presidente do poder. Enquanto isso, o presidente "Jango" (apelido que lhe tornou célebre) antipatizava-se ainda mais com a elite militar, ao dar apoio aos praças rebelados, e cultivava o ódio dos latifundiários, ao defender um radical projeto de reforma agrária. "Reforma agrária??" Pensavam os conservadores." Mas isso não é coisa de comunista??". Foi por ser considerado comunista (não obstante também ser latifundário e de origem elitista), que Goulart foi deposto, numa paranoia ideológica que identificava a todo momento um subversivo no lugar de um presidente. De um lado, Jango, um presidente que fez um governo fraco, titubeante, com uma base de apoio dúbia, dependendo (e muito) dos partidos de esquerda e sindicatos, de setores nem tão mobilizados assim da sociedade civil, e de um contingente pequeno, mas ativo, de militantes estudantis e intelectuais. Do outro, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar em Minas Gerais,  um militar impetuoso, arrogante, impulsivo e autoritário, que só pensava em si mesmo, um produto do radicalismo ideológico de sua época; mas com sua estabanada atitude de partir com suas tropas em 31 de março em direção ao Rio de Janeiro, com o propósito de terminar com a baderna e "acabar com a ameaça do comunismo", acabou ganhando a adesão de toda uma cúpula militar que já pensava a mesma coisa: derrubar o presidente do poder e assumir para si o comando da nação por mais de vinte anos. Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici e Ernesto Geisel foram os reais presidentes, os chefes de Estado, vitoriosos na "Revolução"; mas foi Mourão seu grande idealizador e também o mais injustiçado, deixado para trás na disputa de poder entre os colegas, que o deixaram de fora da divisão de poder. Estava montado o cenário do autoritarismo fardado no Brasil e o compromisso de subjugação do povo brasileiro aos interesses de um patronato, voltado para os seus próprios interesses, na base da tortura, da censura e da ausência de representação política.

Agora, eu interrompo um pouco meu relato dos anos sob o comando dos militares, para falar de um mito do folclore judaico: o Golem. Vocês sabem o que é um Golem? Um Golem é uma criatura feita de argila, à imagem do homem, que é animada por um rabino que lhe confere vida proferindo uma fórmula sagrada. Este ser ganha vida e aumenta de tamanho a cada dia, devendo servir unicamente ao seu senhor, o rabino que o criou. O problema é que na história do Golem, um ser solitário, carente de afeto, ocorre algo que o seu criador não imaginava. Ele se apaixona pela filha do rabino e sofre por isso. O rabino só criou o Golem para que este atacasse seus inimigos não judeus, mas o ser criado acaba se voltando contra o seu criador, e além de matar qualquer um, inclusive judeus, o Golem acaba matando também o rabino que lhe deu vida. Na literatura esta história acabou inspirando pessoas como Mary Shelley, escritora britânica que nos século XIX inventou o monstro de Frankestein, e que tem muitas relações com esse mito judaico. Na arrogância de querer assumir o lugar Deus como único criador, tornando-se também criadores, os homens acabam por criar seus próprios monstros, que se viram contra eles.

Na metáfora moderna do Golem, nós podemos dizer que todas aquelas pessoas conservadoras, carolas de classe média, que lotaram as ruas dos grandes centros urbanos em 1964, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, na "Marcha de Deus pela Família", acabaram criando seu próprio Golem: a ditadura militar. Sob o pretexto de proteger o país dos comunistas e manter a ordem e os bons costumes, os mesmos grupos que pregavam a solução autoritária da intervenção militar, também sentiram na pele a bota autoritária do Estado, com o surgimento de um regime de exceção. No clima de histeria da Guerra Fria, João Goulart foi confundido com um comunista, e o simples fato de querer conceder voto aos analfabetos foi o suficiente para que centenas de pessoas, com uma visão altamente elitista de sociedade, saíssem às ruas para reclamar contra alguém que queria apenas desestabilizar o tradicional quadro social da sociedade brasileira, de manutenção de privilégios de uma elite e da profunda desigualdade social que gerava multidões de excluídos. Jango representava uma ameaça não porque ele fosse a mudança, mas sim porque inspirava a mudança, e num contexto de ânimos e ideologias acirradas, de um lado ou de outro ele teria que pender, e foi o que aconteceu. Assim como anos depois, com Salvador Allende, no Chile, no Brasil um presidente democraticamente eleito foi deposto, por defender reformas de base que buscariam atingir as desigualdades, promovendo uma maior igualdade de classe, ideia totalmente refratada por quem não queria ver a ascensão social daqueles que um dia já foram seus empregados.

Com o golpe de 64 e a publicação do Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso Nacional e extinguiu por completo as liberdades políticas no Brasil, iniciou-se uma "era das trevas" na história nacional, onde opositores do regime eram sumariamente extintos, por meio da tortura ou mediante escaramuças policiais que terminavam em tiroteio e morte, como aconteceu nas mortes de líderes considerados subversivos e terroristas que aderiram à luta armada, como Carlos Lamarca e Mariguella nos anos sessenta, ou no extermínio completo de militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), na Guerrilha do Araguaia e no assassinato dos dirigentes de seu comitê central, na Chacina da Lapa, nos anos setenta. Milhares de estudantes, sindicalistas e militantes de movimentos sociais foram reprimidos nas ruas e dentro dos quartéis. Foram anos difíceis não apenas no aspecto dos direitos humanos e da liberdade de expressão, mas também no aspecto econômico, com um maior e crescente endividamento externo do país devido ao chamado "Milagre Econômico" do governo de Médici, ao pregar uma modernização que só acentuou a desigualdade social no país, e resultou num violentíssimo surto inflacionário e recessão. Na época dos militares, não existia, por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS), com saúde pública para todos os brasileiros na rede pública, prevalecendo em seu lugar apenas as distantes e limitadas filas do INAMPS, que não atendiam a todos os casos. A corrupção no serviço público era endêmica, principalmente porque não havia órgãos gestores responsáveis por fiscalização e controle, com gastos públicos elevados e uma total falta de transparência na divulgação do uso de recursos públicos. O Ministério Público, ainda vinculado ao Poder Executivo, era totalmente amordaçado, sem que promotores de justiça possuíssem qualquer garantia constitucional no exercício de suas funções, fazendo com que muitas vezes promotores, como Hélio Bicudo, não conseguissem levar adiante suas denúncias de tortura e crimes praticados por agentes de Estado, pela proteção legal dada pelo regime aos seus próprios torturadores. No âmbito das artes e da universidade, milhares de artistas, intelectuais e professores tiveram que sair do país, seja porque não conseguiam emprego, seja porque eram perseguidos por suas ideias e opiniões, proibidas de serem comentadas no ambiente universitário, sob pena de perda do emprego de professores e expulsão de alunos, além de uma posterior (e certa) prisão, num ambiente em que a democracia passava de longe. Vivíamos um simulacro de democracia, com presidentes militares vestidos de terno no lugar da farda, sob o discurso da revolução arrebatadora promovida pelos generais, que finalmente teria imposto a ordem, como se uma ordem constitucional não existisse antes no país.

Hoje, quando militares da reserva vão até a Comissão da Verdade, instalada pelo governo federal atual, para investigar denúncias de tortura, assassinatos e desrespeito aos direitos humanos no período da ditadura, vemos que, em alguns casos, alguns deles não titubeiam e não demonstram o menor remorso ou arrependimento ao relatar seus crimes cometidos no período, protegidos pela Lei de Anistia. Ao menos para os defensores dos chamados "anos de chumbo", as confissões desses senhores dão um soco no estômago dos seus ouvintes, face os detalhes sombrios e sanguinários de tortura e desaparecimento de cadáveres, que mais se assemelha ao roteiro de um filme de terror. Sobram dúvidas, também, se os principais líderes civis do período pré-64 (Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e o próprio João Goulart), não teriam sido assassinados e sua suposta morte natural seria falsa, tendo em vista que estes eram os principais líderes populares, com altos índices de aprovação popular entre os políticos civis durante o governo dos militares, e quem efetivamente ameaçava sua hegemonia, seja entre conservadores quanto no eleitorado progressista.


A ditadura não deixa saudade, apesar de ter muito a nos ensinar, pois com ela,  caso tenhamos aprendido algo, foi o de somente saber que nunca mais temos que passar novamente por uma peripécia do tipo autoritária, baseada no conservadorismo e na ignorância, ao considerar que os males da democracia (corrupção da classe política, protestos violentos, manifestações de insatisfação social diárias e uma mídia abusiva e apelativa) só são resolvidos por meio da força das baionetas. Em lugar algum do planeta uma solução do tipo militarizado foi a saída. Pululam a cada dia mais provas e demonstrações que, desde a ascensão do nazifascismo na Europa nas primeiras décadas do século XX, até o advento das ditaduras militares latino-americanas na segunda metade do século passado, os povos desses países só cultivaram ódio, decadência econômica e destruição. Por que voltar a tudo isso, retrocedendo relógio da história? Acredito que, assim como os alemães, que não esquecem seu passado nazista, apenas para lembrar que não querem vê-lo novamente nunca mais, acredito que também no Brasil temos que aprender com a história da ditadura, para que nesta data em que o golpe completa 50 anos, não tenhamos mais aventureiros em cima de tanques querendo impor suas opiniões com canhões, ao invés de eleições.  Este não é um legado que eu queira eventualmente passar para os meus filhos, se eu assim os tiver. Que fique no passado nossa experiência ditatorial, mas que fique na lembrança e jamais sejam esquecidos, aqueles que morreram contra ela, em busca da democracia.

terça-feira, 18 de março de 2014

MEIOS DE COMUNICAÇÃO: Na contramão da história está Raquel Sheherazade e uma multidão de conservadores brazucas

Nos primeiros meses deste ano comentou-se muito sobre as opiniões da jornalista, apresentadora âncora do noticiário do SBT, Raquel Sheherazade, emitidas nos meios de comunicação (televisão e jornais) sobre diversos temas que são caros aos movimentos sociais, setores progressistas da sociedade e defensores dos direitos humanos. No seu telejornal, a apresentadora já falou de tudo um pouco: criticou o extremismo reaçonário do deputado Jair Bolsonaro, mas também atacou o ativismo pró-movimento gay do deputado do PSOL, Jean Willys, ao criticar um beijo gay dado num protesto durante um culto realizado pelo polêmico deputado, Marco Feliciano. Raquel também condenou à legalização da maconha no Uruguai e manifestou ojeriza aos chamados "rolézinhos", chamando os jovens da periferia que frequentam shopping centers de "arruaceiros". Sobrou críticas da apresentadora e jornalista até mesmo ao Carnaval, considerado por ela uma festa elitista e pornográfica, o que lhe garantiu alguns segundos de fama nacional, quando saiu das câmeras do telejornalismo local da TV Tambaú, em João Pessoa, e passou a trabalhar no telejornal nacional do SBT, emissora do célebre apresentador Silvio Santos.

Mas o que chocou mesmo neste ano foram as opiniões da jornalista, manifestadas em rede nacional, acerca do problema social da criminalidade e a situação do sistema carcerário em nosso país. Nesses aspectos, a apresentadora do SBT manifestou boa parte de seu desconhecimento sobre o tema, uma ignorância raivosa e uma reprodução do senso comum, que apenas atiçam o discurso do ódio e a opção reaconária de se criminalizar os pobres, e até mesmo de exterminá-los. Num recente noticiário, e na publicação de um artigo seu na Folha de São Paulo, Sheherazade espinafrou as organizações defensoras dos direitos humanos, desmereceu a Constituição e o Judiciário brasileiro, valendo-se de um slogan de qualidade duvidosa, ao empregar o termo "adote um bandido", para desferir uma série de argumentos preconceituosos, racistas e conservadores sobre os autores de pequenos delitos nas ruas das grandes cidades. Além disso, o ápice dos comentários jocosos de Sheherazade culminaram com uma foto da jornalista numa capa sugestiva na revista Carta Capital; além do início de um duelo verbal com o deputado Jean Willys nos meios de comunicação, além de uma representação criminal promovida pelo deputado do PSOL de São Paulo, Ivan  Valente, alegando que a jornalista propagou o ódio e fez apologia ao crime, ao defender a iniciativa de jovens musculosos, de classe média, que saem às ruas do Rio de Janeiro atacando mendigos e potenciais infratores. Os últimos fatos repercutiram nacionalmente e mundialmente, quando Raquel tentou (sem sucesso) justificar a atitude de alguns desses jovens, ao espancar e humilhar um adolescente negro e pobre no Rio de Janeiro, acusado de ter praticado um furto, preso, nu, no meio da rua, acorrentado a um poste com um cadeado de bicicleta preso em seu pescoço.

A imagem de ver um garoto, preto e pobre acorrentado, recordando os tempos da escravatura, num pelourinho urbano, talvez não seja tão chocante quanto às afirmações da senhora Sheherazade, que em poucos segundos de sua fala na TV invocou o sentimento reaçonário de muita gente no país que pensa de forma semelhante a da jornalista. Para se ter uma ideia, no próximo dia 22 de março estão programadas grandes manifestações nos principais centros urbanos do país, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde seus organizadores pretendem reeditar a Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, realizada em 1964, nos dias que antecederam o golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder. Os conservadores participantes da marcha são exatamente os milhares de telespectadores e fãs da apresentadora do SBT, que se valendo de sua imagem, irão comemorar os 50 anos de um movimento de extrema-direita, de uma classe média elitizada, que impulsionou o advento de um regime autoritário no Brasil, sob o pretexto de combater o comunismo, pregar os bons costumes e, segundo eles, "salvar a família brasileira".

A polêmica apresentadora virou atração fácil em talk shows e programas jornalísticos, por conta de suas afirmações, revelando-se em toda momento uma pessoa sorridente, educada, que, na verdade, teria sido incompreendida num universo onde não se tolera a liberdade de expressão. Em si, em suas entrevistas, Raquel Sheherazade revela-se uma mulher jovem, nordestina (oriunda de uma TV da Paraíba, quando foi descoberta por Silvio Santos), de bons modos e voz adocicada, que não se acha nem um pouco atrasada politicamente, e tem uma queda musical por heavy metal (ela já demonstrou por diversas ocasiões gostar de bandas como  Iron Maiden e Metallica). Sob essa aparência, Raquel apresenta o figurino da mulher represante da Nova Direita: conservadora, bem sucedida e sem papas na língua. Acredito sinceramente que Raquel Sheherazade seja uma criação da TV. Uma espécie de Golem conservador, criado sob a forma de uma bela e educada mulher, que por detrás da aparência de boa moça destila ódio através das mais virulentas e politicamente incorretas afirmações. Se na democracia brasileira só faltava o surgimento de uma Direita que não tem medo de dizer o seu nome, ela finalmente apareceu sob o nome da apresentadora do SBT e de um séquito de neoidiotas que pretendem entulhar as ruas do país com sua ignorância e discursos racistas, homofóbicos e reaconários, em manifestações públicas que deverão reunir às claras milhares de apoiadores do deputado extremista Jair Bolsonaro, que finalmente vão sair das sombras e revelar a cara e o perfil social da Nova Direita no Brasil.

Celebridade instantânea: entrevistada no programa de Danilo Gentili.
Eu entendo que personalidades como Raquel Sheherazade tem uma missão. Sua missão é a mesma dos acólitos da grande mídia conservadora norte-americana, encastelada em grandes meios de comunicação como o canal Fox News: transmitir a mensagem ideológica de um pensamento conservador, de extrema direita e de linhas autoritárias, intolerante com as minorias, principalmente se elas são formadas por negros e homossexuais. Nada errado quanto a isso. Afinal, estamos numa democracia! Se eu quisesse uma sociedade somente composta de gente igual a mim eu viveria o paradoxo de defender a convivência democrática no discurso; mas em verdade ser totalmente antidemocrático. A democracia que estabelece o convívio entre os diferentes nas suas diferenças, também é a democracia em que eu tolero ou convivo no espaço público  com aqueles com quem eu não conseguiria conviver no mesmo teto ou que não me toleram, mas deviam tolerar. Quando Silvio Santos chamou a senhora Sheherazade para apresentar em cadeia nacional o telejornal de sua emissora, acredito que, de caso pensado, ele pensou em transmitir essa mensagem ideológica que lhe tanto caiu bem nos tempos em que apresentava a Semana do Presidente, nos intervalos de seu programa dominical, nos tempos da ditadura militar. Acredito que Silvio Santos usufrua de uma mensagem compartilhada por todos os grandes barões da mídia; uma vez que em tempos de black blocs e de  uma presidente ex-guerrilheira, ser conservador também aumenta o Ibope. Raquel apenas afirma verborragicamente seu pensamento atrasado, porque tem carta branca da emissora de seu chefe para fazer isso. Os conservadores precisam de eco nos meios de comunicação, e se os âncoras da Fox News fazem isso com tanto sucesso perante o eleitorado republicano na terra do Obama, porque não fariam isso aqui, na terra de Dilma, Jean Willys e Bolsonaro?

MARCHA PELA FAMÍLIA:Pessoas como Sheherazade querem de volta isso.
Raquel Sheherazade teria, portanto, uma função educativa. Através da divulgação de seus pontos de vista, que representam as idiossincrasias de um  segmento da população, a jornalista do SBT consegue expor à luz do dia milhares de vampiros ideológicos que se fingiam de mortos ou pareciam adormecidos durante anos, e que só surgiam de vez em quando, nas urnas em época de eleições, para eleger as mais estapafúrdias e anacrônicas personalidades políticas. Ao identificar um reaconário eu tenho como combatê-lo, a partir do direito ao debate, numa condição ideal de discurso que somente uma sociedade genuinamente democrática pode me conceder, como diria o filósofo alemão Jurgen Habermas. É através da transparência conferida apenas numa democracia, com liberdade de imprensa, que eu tenho como contra-atacar e denunciar o quanto é autoritário e antidemocrático o discurso daqueles que se acham acima do bem e do mal, na sua ilusão de classe, e que, assim como Sheherazadade, só trafegam na metrópole do trabalho para a casa e de casa para o shopping center, sem ter um pingo de conhecimento da realidade social. Pela democracia eu identifico os autoritários de plantão em seu discurso vazio do "adote um bandido" ou "bandido bom é bandido morto", com toda alienação inerente a esse tipo de discurso.

Por mim, que fiquem as "Sheherazades" com seus comentários idiotas nos meios de comunicação, justificando amarrar na rua adolescentes pretos e pobres com cadeados de bicicleta, como os brancos da Casa Grande justificavam os presos acorrentados no Pelourinho. Tais pessoas existem, nos dizeres do deputado Jean Willys, para serem combatidas, e é em nome desse bom combate que eu saúdo a todos os conservadores, direitistas e reaconários que agora corajosamente assumem sua posição política, e sem medo de bate-boca vão as ruas e fazem seus comentários nos meios de comunicação, deixando de lado o anonimato covarde da internet. Que venham Raquel Sheherazade e sua turma!! Como diziam os revolucionários na Guerra Civil Espanhola, que eles venham para o enfrentamento. No pasarán!!
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