quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CINEMA: INTERESTELAR é a homenagem da Christopher Nolan a 2001

Quando foi lançado, em abril de 1968, o filme 2001-Uma Odisseia no Espaço, o mundo vivia a corrida espacial entre os Estados Unidos da América e a antiga União Soviética. Os soviéticos tinham obtido êxito primeiro, lançando ao espaço o cosmonauta russo Iuri Gagarin, o primeiro homem a viajar pelo espaço há exatos oito anos antes, em abril de 1961. Mas, com o filme dirigido pelo cineasta norte-americano Stanley Kubrick, baseado na obra do escritor e cientista Arthur Clarke, estava lançado o presságio de que os yankees iriam mais longe, levando uma missão espacial à lua, no ano seguinte. 2001 marcou gerações não apenas pela atualidade do tema (as viagens espaciais), e nem só pela beleza de sua fotografia e trilha sonora movida a música tema de Wagner, com sua bela Assim Falava Zaratrusta, mas também pelo seu quê de filosófico, tratando da evolução da humanidade (a cena inicial do homem das cavernas que arremessa um osso para cima, e ao cair o objeto se transforma numa nave especial é inesquecível), e do questionamento acerca do poder da tecnologia criada pelo homem, e até que ponto essa tecnologia poderia se virar contra ele e destruí-lo. Além do mais,  o filme de Kubrick explorava temas até hoje irresistíveis para os amantes de astronomia, como a possibilidade de vida em outros planetas, a capacidade humana de explorar o desconhecido, a descoberta de galáxias e outros sistemas solares etc. O filme foi o precursor de muitos que exploraram as viagens espaciais, elevando o gênero cinematográfico da ficção científica ao status de arte.

Eis que, em 2014, após a geração de Star Wars no cinema e dos fãs de Star Trek na televisão, o aclamado diretor de Amnésia, A Origem e Batman-O Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan, lançou nos cinemas do mundo há poucas semanas o belo Interestelar, tendo como protagonistas astros, como o galã e ganhador do Oscar, Mathew McConaughey e a também oscarizável Anne Hathaway. A proposta do filme é transitar entre a obra de arte e o puro entretenimento, às vezes com maior ou menos chance de êxito; mas o mais importante que Nolan faz é prestar um verdadeiro tributo a 2001, em sua obra mais ambiciosa.

O roteiro do filme é simples: num futuro não muito distante as viagens espaciais não são mais um luxo que o contribuinte queira pagar e a espécie humana fica mais voltada para seus próprios interesses terrenos, virando as costas para o espaço, para tratar de questões como solucionar a fome diante do problema da superpopulação. Nesse sentido, a figura do protagonista, Cooper (interpretado por McConaughey) é um ex-piloto de espaçonaves e engenheiro espacial que agora vive seus dias, de forma um tanto quanto entediada, em uma fazenda, acompanhado do casal de filhos e do sogro idoso, após a morte da esposa. Sua rotina  de cuidar de uma plantação de milho e  viver do passado é interrompida quando ele percebe que, por conta do aquecimento global exacerbado, com aumento da temperatura e sucessivos incêndios florestais, a vida no planeta Terra está ameaçada. Ele então conhece um grupo clandestino de ex-operadores da Nasa, liderados pelo Professor Brand (interpretado pelo ator inglês Michael Caine, em outra parceria de filmes com o diretor  Nolan), e que conta com Amelia, pesquisadora e filha de Brand (o personagem de Anne Hathaway). Não demora para que Cooper se junte ao grupo, convencido da necessidade de que somente através de uma nova e longínqua viagem espacial, uma equipe de astronautas será capaz de salvar a humanidade, encontrando outro planeta habitável que possa ser colonizado pelos humanos. 

A partir daí, o filme desdobra-se nos seus aspectos iniciais entre o drama e o filme épico de aventura. Talvez Nolan erre a mão ao tentar comover demais o público, dando uma de Spielberg ao conferir traços de dramalhão à relação apegada, mas conturbada entre Cooper e sua filha mais nova Murphy (interpretada na idade adulta pela atriz Jessica Chastain), uma vez que ao partir da Terra, Cooper não pode dar garantia a filha que vai voltar, uma vez que se trata de uma viagem, probabilisticamente falando, somente de ida. O objetivo da missão é encontrar uma dobra espacial no espaço, detectada pelos cientistas da Nasa nas proximidades de Marte, onde se encontra um fenômeno conhecido como "Buraco de Minhoca", uma alteração de espaço-tempo explicada pelas leis da Física, onde nossos heróis poderão atravessar, viajando mais rápido  e encontrando ao final o planeta desejado, onde uma missão anterior já chegou e não retornou.

Seguem-se alguns conceitos da ciência e clichês cinematográficos que dão ao filme um ar de realidade ou mentira, como em toda obra de ficção científica. É interessante ver como algumas teorias científicas são testadas (e, em alguns casos, cientificamente já demonstradas), quando os astronautas experimentam a passagem mais lenta do tempo em um planeta cuja gravidade é muito superior a da Terra, e que as horas equivalem em nosso calendário há anos. O envelhecimento dos personagens que permanecem na Terra quando crianças em relação aos astronautas, que os encontrarão em vídeo tempos depois mais velhos do eles próprios, é um dos traços inconfundíveis da teoria da relatividade, já explorada na ciência por Isaac Newton e Albert Einstein. A cena de um planeta todo ocupado por oceanos, onde a força da gravidade faz com que as gigantescas ondas sejam tão lentas que parecem imóveis montanhas, já vale o ingresso de quem gosta de ver imagens espetaculares. Detalhe para o destino final da equipe de astronautas que é de salvar a Terra após mergulharem em um Buraco Negro. Inverossímil, mas no cinema, toda licença poética é permitida em prol da emoção.

Interestelar, obviamente, não chega aos pés de 2001 enquanto obra cinematográfica, mas vale enquanto homenagem a este último e tem uma inegável qualidade superior a muitos filmes do gênero, produzidos nos últimos anos, vendidos como blockbuster (é só lembrar do sofrível Armageddon, dirigido por Michael Bay). Entre filmão pipoca e filme que faz pensar, a película de Nolan fica no meio termo, mas cumpre seu papel de passar a mensagem de que o espaço infinito, para quem ama observar as estrelas, ainda é um fascinante cenário a se explorar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

POLÍTICA: Fátima Bezerra-A candidata que derrotou uma oligarquia!!

Imagine um candidato oriundo de um grupo político familiar que já governou sua região, a partir de seu patriarca, desde a década de 1960. Pense que na coligação que tenta elegê-lo existem 17 partidos, unindo, inclusive, o grupo político rival que disputa com ele o comando de um estado da federação há anos e é uma das maiores lideranças nacionais da oposição. Ainda mais do que isso, imagine que esse candidato é simplesmente Presidente da Câmara dos Deputados, e, por tabela, Presidente do Congresso Nacional; ou seja, o terceiro na linha de poder que governa na ausência da Presidente e do Vice-Presidente da República.

Henrique Alves não conseguiu se eleger.
Esse candidato era Henrique Eduardo Alves, do PMDB, que há dois meses atrás era praticamente imbatível na disputa pelo governo do estado do Rio Grande do Norte. Deputado federal há 44 anos, e atual Presidente da Câmara dos Deputados, Henrique, de 67 anos,é filho de Aluízio Alves, o grande chefe político potiguar dos anos sessenta que já foi governador do estado e ministro da República, no governo de José Sarney. Ele também é primo de Garibaldi Alves Filho, senador licenciado do PMDB e atual Ministro da Previdência do governo da presidente reeleita, Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores-PT, e maior liderança política da região, assim como é primo do atual prefeito da capital do RN, Natal, Carlos Eduardo Alves. A família é dona da Inter TV e da Rede Cabugi de Comunicação, um complexo que envolve rádios, televisão e o jornal local, a Tribuna do Norte, encarregado, entre outras, de reproduzir o sinal da TV Globo, o maior canal aberto de televisão da América Latina e um dos maiores do mundo em espectadores. Afinal, o que iria dar de errado para um candidato desses perder a eleição?

FÁTIMA BEZERRA:liderança política incontestável.
Eis que como um David, lutando contra um Golias, o candidato do PSD (Partido Social Democrático), o ex-deputado estadual e atual vice-governador do estado, Robinson Faria, ganhou a eleição, conquistando voto a voto o eleitorado potiguar, saindo de 10% das pesquisas de intenção de voto no começo do ano a uma acachapante vitória contra Henrique de 54%  a 45% no segundo turno da eleição para o governo do estado. Mas quem estaria por detrás de uma vitória tão retumbante e assombrosa?? Seu nome: a senadora eleita Fátima Bezerra, do Partido dos Trabalhadores.

Lembro-me de Fátima há exatos vinte e quatro anos atrás, quando eu, então estudante iniciante de Direito e militante do movimento estudantil, no início dos anos noventa, frequentava uma banquinha chamada no dialeto nativo de "cigarreira", transformada em bar, num lugar que vivia ocupado por funcionários públicos de origem proletária, que residiam no mesmo conjunto residencial onde eu morava. Fernando Collor tinha poucos meses de seu malfadado mandato presidencial e Lula e seu PT ainda eram uma mera (mas crescente) sombra da oposição no cenário político nacional. Recordo de Fátima ainda professora da rede pública, licenciada por que acabara de assumir a presidência do poderoso e combativo SINTE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação), buscando seus amigos do sindicato dos professores em um buggy de praia nos finais de semana, quando por vezes o pessoal se reunia por ali para tomar cerveja, escutar MPB no som do carro de alguém ou no próprio bar, através de um pequeno aparelho de som trazido por Dona Célia, a proprietária, ou por  Cristiano e Fabiano, os simpáticos filhos da dona do lugar. Naquele época, eu era apenas um garoto universitário disputando o Centro Acadêmico, neófito nos mares revoltos da política esquerdista. Eu apenas escutava os diálogos daqueles jovens professores sindicalizados, que falavam entre outras coisas de greves, mobilizações, combate ao governo, e luta pelo fim das oligarquias que dominavam o Estado. Recordo que se falava também das disputas internas, e da necessária união das diversas facções de esquerda que dominavam o PT e se digladiavam entre si pelo controle da legenda, ou brigavam com outros partidos chamados de "pelegos", como o PC do B, que por sua vez vivia às turras com os chamados "radicais" militantes petistas (na época chamados jocosamente de "xiitas"). Felizmente, se antes diziam os antagonistas desses partidos que a esquerda só se unia na cadeia, hoje, pode-se dizer que a esquerda se une em torno de ministérios ou secretariados.

Eis que, após vinte e poucos anos muita coisa evoluiu, e Fátima, assim como seu partido, apresentaram uma ascensão fulminante na política local e nacional. Em 1994, Fátima conseguiu se eleger para o seu primeiro mandato de deputada estadual, após uma união inédita da categoria de professores numa disputa eleitoral. Depois, em 1996, veio o desafio de concorrer à Prefeitura de Natal contra Wilma de Faria, a ex-prefeita e ex-oligarca, que após romper um casamento com o ex-governador e ex-senador, Lavosier Maia (primo de José Agripino, atual líder nacional do DEM), rompeu também politicamente com o grupo de seu ex-marido, concorrendo com a neófita deputada do PT e ex-sindicalista. Por uma diferença de menos 2% dos votos, numa eleição acirrada que fez história, Wilma venceu e Fátima não conseguiu se eleger prefeita da cidade. Iniciou-se uma trajetória política coroada de êxitos nas disputas ao Legislativo, e também de derrotas, seja nas reeleições vitoriosas de Fátima para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal, sendo a deputada federal eleita mais votada da história do Rio Grande do Norte, em 2002; seja na derrota seguinte para Micarla de Sousa, em mais uma tentativa de se eleger prefeita da capital potiguar. 

Fátima derrotou nas urnas a ex-governadora Wilma.
Neste ano, Fátima Bezerra concorreu ao Senado desafiando um Golias, representado pela candidatura ao governo de Henrique Alves, acompanhado de uma Wilma de Faria repaginada, após dois mandatos consecutivos como prefeita e depois governadora do estado, na qualidade de atual vice-prefeita de Natal, mostrando-se uma forte  adversária de Fátima no Senado. Enfrentando um páreo duro, onde as pesquisas de intenção de voto davam vantagem inicial para a dupla Henrique e Wilma, Fátima não apenas superou as expectativas obtendo uma vitória consagradora sobre Wilma de Faria com mais de 170 mil votos de vantagem e mais de 54% dos votos válidos, como também foi a responsável direta, junto com Fernando Mineiro, deputado  estadual reeleito de seu partido, pela eleição de Robinson no segundo turno, assumindo sua coordenação de campanha. Com a dupla vitória da coligação PSD, PT, PC do B, conquistando, respectivamente, o governo, o senado e a vice-governadoria, Fátima Bezerra tornou-se, juntamente com Garibaldi Filho, a maior liderança política do Rio Grande do Norte, ofuscando o derrotado senador José Agripino, de um Democratas que viu minguar sua bancada na Câmara e no Senado e viu o governo de sua partidária, Rosalba Ciarlini, naufragar no RN como um dos governos estaduais mais mal avaliados do país.

Na Câmara Federal Fátima destacou-se num mandato atuante.
O que pode ser atribuído ao êxito de Fátima e seus correligionários foi um trabalho de base desenvolvido cedo, antes do pleito eleitoral, com uma forte disciplina partidária e senso de planejamento e que envolveu diálogo e acenos de recursos com prefeitos e representantes de governos locais no interior do Estado, que contaram com a alocação de verbas do governo federal, comandado pelo partido da senadora eleita, principalmente na área de educação. Como deputada federal, Fátima viabilizou a instalação de nove Institutos Federais de Educação no Rio Grande do Norte, e investiu numa política de valorização do magistério que lhe garantiu a Presidência da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Além disso, Fátima e Robinson tiveram significativa votação em Mossoró, segundo maior colégio eleitoral do estado, outrora reduto da atual governadora, Rosalba, mas cuja Prefeitura foi conquistada por um partidário de Robinson Faria, após a cassação judicial do mandato da prefeita eleita, Cláudia Regina, do mesmo DEM de Agripino e Ciarlini. 

A senadora e o governador eleitos:nova fase na política do RN.
Fátima e Robinson também se beneficiaram, este ano, de um forte sentimento anti-oligárquico, no momento em que, nos redutos  tradicionais dos grupos políticos coronelistas integrados à coligação de Henrique, quase nenhum dos prefeitos ou parlamentares vinculados à coligação do PMDB e DEM conseguiu a vitória de seu candidato ao governo em seus currais eleitorais. Pela primeira vez a população de uma determinada região dizia "não" aos seus caciques locais. A federalização da política realizada pelo PT nos dois mandatos do presidente Lula e no atual de Dilma contribuíram para desmantelar as redes de assistencialismo local bancadas pelos prefeitos, que agora se rendiam à candidata do partido que tinha trazido o bolsa família para os municípios potiguares. O apoio do governo federal e o compromisso direto de Lula, que apareceu pessoalmente na propaganda eleitoral, pedindo votos para seus candidatos no RN, contribuiu para soterrar de vez os planos da coligação adversária.

A partir de agora, muito trabalho no Senado!
Fátima tem agora oito anos de mandato no Senado federal para reforçar a liderança conquistada e consolidada nos últimos vinte anos. Ela deixou de ser apenas uma parlamentar local para se tornar uma das referências nacionais do Partido dos Trabalhadores, sigla tão abalada por escândalos políticos recentes, como o julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal e as denúncias de desvio de dinheiro na Petrobrás, no ruidoso caso agora chamado de "Petrolão". Na renovação que necessita o partido, Fátima é um dos nomes que pode reerguer a credibilidade partidária. Para alguém que buscava os colegas de sindicato num buggy, e discutia a próxima greve entre um gole e outro de cerveja num boteco de condomínio, aquela professora chegou longe, muito longe.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

LIVROS: Entre Direita e Esquerda, nessas eleições duas obras que podem situar a cabeça no eleitor no horizonte político das ideias.

Quando eu saía da adolescência, no final dos anos oitenta, participei como militante político e eleitor da primeira eleição presidencial direta para Presidente da República no Brasil, após a redemocratização. Era 1989, e dos vários candidatos a participar da eleição restou a polarização que ficou entre Fernando Collor, do extinto e minúsculo PRN (Partido da Reconstrução Nacional) e Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Eu tinha apenas 18 anos, era estudante secundarista prestando o vestibular, na incerteza de ingressar na universidade e tinha a vontade de mudar o mundo como muitos jovens da minha época. Lembro que aquela polarização entre dois candidatos, no segundo turno da eleição presidencial, tornou-se algo passional, apaixonado, digno de adeptos de uma religião ou de integrantes de uma torcida de futebol. Como diria o filósofo Jean-Jacques Rousseau três séculos antes, o movimento cívico das eleições e o frenesi em torno da defesa dos candidatos tornou-se uma "religião civil".

Como eu era integrante da Juventude Socialista, vinculada ao recém legalizado PC do B (Partido Comunista do Brasil), era natural ter embates com aqueles que eu achava que representavam a Velha Direita no Brasil. Apesar de participar das reuniões da UMES (União Municipal dos Estudantes Secundaristas), diferentemente da maioria dos militantes estudantis da época, eu já não estudava em escola pública, não era aluno da antiga Escola Técnica (instituição de ensino de onde saíram muitos militantes estudantis do período), e sim estudava em um colégio de padres, frequentado por filhos da burguesia da cidade, reduto da classe média alta local. Apesar da origem proletária (o pai marinheiro e a mãe filha de agricultores pobres),  eu estudava com alunos pequeno-burgueses, que tinham um estilo e concepção de vida bem diferentes de mim. Naquela época, na paixonite entre Lula e Collor, não foi difícil perceber que, entre um e outro, diante daquele reduto de "mauricinhos" e "patricinhas", eu seria minoria.

Minha experiência com a dicotomia entre esquerda X direita, portanto, vem desde a juventude. Hoje, maduro, após mais de duas décadas, vejo na eleição que se avizinha, em 5 de outubro, uma realidade não muito diferente daquele Brasil da minha pós adolescência, que redescobria a democracia depois de vinte anos de ditadura militar. Os atores políticos e partidos podem ser outros (ou nem tanto), mas, para mim, a distinção ideológica persiste apesar do tempo. Afinal, para os que acreditam que somos todos de centro, estamos hoje no século XXI, e não mais no atrasado século XX, dirão alguns; e a sociedade de hoje com internet banda larga em todo canto, celulares, tablets, TVs digitais e smartphones, seria muito diferente daquela civilização analógica, perdida no tempo, que fazia campanhas eleitorais vendendo chaveiros, camisetas e buttons. Creio que não.

Se hoje vemos uma democracia brasileira mais amadurecida, após sucessivas eleições, com a passagem de três ex-presidentes com mandados longevos (Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Lula), até chegar a atual governante, Dilma Roussef, e o impeachment no segundo ano de mandato do primeiro presidente democraticamente eleito após a redemocratização (Collor apeado do poder em 1991, com o apoio da mídia e dos manifestantes "cara pintadas" e sua consequente sucessão pelo vice, Itamar Franco), acredito que ainda vivemos hoje uma disputa entre direita e esquerda, tão bem descrita historicamente e filosoficamente pelo pensador italiano Norberto Bobbio, em seu livro "Direita e Esquerda-razões e significados de uma distinção política" (Editora Unesp). Ainda temos, segundo Bobbio, uma direita conservadora e uma esquerda progressista, mesmo que, em termos de discurso, muitas vezes nos confundamos no Brasil quanto à pretensão política desse ou daquele candidato, seja pela vontade dele de aparecer mais conservador em matéria de costumes e moralidade, ou mais progressista em temas sociais e de inclusão econômica. Apesar de alguns criticarem essa dicotomia por considerá-la ultrapassada, face a diversidade de correntes de pensamento e opinião em sociedades complexas, pós-industriais e urbanizadas como as do século atual, eu entendo que ainda é possível ver, com clareza, quem é quem no processo ideológico nacional.

Para isso, recomendo aos incrédulos, duas obras interessantes, leves e fáceis de ler, tanto pela pequena quantidade de páginas, quanto pela capacidade de síntese de seus autores. O primeiro livro, "A esquerda que não teme dizer seu nome", é do filósofo, professor da USP e colunista do jornal Folha de São Paulo, Vladimir Saflate, que dá um diagnóstico do pensamento ideológico de esquerda brasileiro, diante da nova realidade e dos novos desafios da globalização e do liberalismo, principalmente após as crescentes manifestações populares e juvenis que ocorreram ao redor do mundo e no Brasil, desde o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, até as recentes "Jornadas de Junho",  capitaneadas nos grandes centros urbanos por movimentos como o "Passe Livre". Outra obra que serve de destaque para a polarização ideológica e política vista hoje no Brasil, pode ser a interessante compilação de artigos, "Por que virei à direita", escrita em seis mãos, pelo intelectual português João Pereira Coutinho, pelo filósofo e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Luiz Felipe Pondé e pelo cientista político e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Denis Rosenfield. Em ambas as obras é possível ver a preocupação dos autores de descortinar qual horizonte ideológico estamos falando, persistindo a ideia de que a velha dicotomia política entre esquerda e direita ainda existe, mantendo seus traços identificadores principais, apesar dos disfarces ou facetas que podem assumir essas concepções com o passar do tempo.

Quanto à confusão do eleitor nessa percepção de saber quem é quem no espectro político, a meu ver; na minha opinião, temos uma explicação histórica quanto a isso. No Brasil, sob o manto do nacionalismo, o refúgio da brasilidade, víamos inicialmente com certa desconfiança determinadas categorias políticas que definiam partidos e agremiações no mundo afora. A busca da construção de uma identidade nacional de povo outrora colonizado, mediante a proclamação da Independência por Dom Pedro I, em 1822, num período em que erigimos um sistema político totalmente diferenciado das repúblicas que se desenvolviam nos países latino-americanos vizinhos (no processo de independência permanecemos uma monarquia nacional, dependente de um imperador que, na verdade, também era monarca de Portugal), fez com que, num primeiro momento da história nacional, repudiássemos em parte  o ideal iluminista e rousseaniano de democracia popular, que se tornou a base de inspiração dos movimentos de esquerda no século XIX, antes do advento do marxismo. Vivíamos, posteriormente, sob a égide de Dom Pedro II, uma época dividida ideologicamente entre "amigos" e "inimigos do rei", onde os liberais eram monarquistas, enquanto que no hemisfério norte o liberalismo abraçou o princípio republicano. Dentre os movimentos progressistas (traço identificador da esquerda), tivemos abolicionistas, como José do Patrocínio, que eram monarquistas. Na distinção, portanto, entre monarquistas e republicanos, já era difícil definir quem era de esquerda e de direita.

No século XX, com o surgimento tardio da República, proclamada apenas uma década antes no século anterior, tivemos que recompor os cacos de nossa tradição monárquica, resgatando num primeiro momento os primeiros traços de um autêntico movimento de direita: o conservadorismo. A manutenção de práticas clientelistas e fisiológicas, semifeudais, nas relações políticas, principalmente no grotões de grandes regiões onde agentes do Estado eram nomeados conforme indicações de chefes oligárquicos, pode servir como pista de onde a direita brasileira se originou, nos primórdios do Brasil republicano. O respeito à tradição e a defesa da família, como traços característicos do movimento conservador, destacam que a direita brasileira sempre esteve aqui, e ainda está presente no atual processo eleitoral que se desenvolve em todo o país.

Mas e quanto aos liberais? Desde a monarquia, como eu disse há pouco, vemos que os liberais apareceram meio que timidamente no cenário político nacional, para depois, somente num Brasil da segunda metade do século XX, industrializado, destacaram-se com mais força. Recentemente, um dos grandes próceres do liberalismo brazuca faleceu, o empresário Antonio Ermírio de Morais, dono do grupo Votorantim. Juntamente com o também falecido economista Roberto Campos, Morais e o ex-ministro Delfim Netto representavam a fina flor da direita liberal no país. Se, nos anos cinquenta, o governo de Juscelino Kubstichek foi o grande representante das ideias liberais no país, com sua defesa da abertura econômica, desenvolvimento da indústria automobilística em detrimento do transporte público, anos depois, o Brasil do livre mercado e da tecnologia desenvolveu-se através das políticas adotadas por um homem com um rico passado de esquerda, e que passou para a história, na verdade como o grande representante do neoliberalismo no país: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e suas privatizações. Com o passar dos anos, portanto, os neoliberais se tornaram, ao menos na última década do século passado, os grandes representantes da direita no Brasil.

O traço semelhante entre liberais e conservadores é sua aversão ao intervencionismo estatal. Na verdade, conservadores gostam do Estado, desde que ele não interfira nas práticas tradicionais, e nem intervenha sobre a família. A recente aversão conservadora às políticas de reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo até propostas de regulamentação do chamado "casamento gay", para os conservadores são uma verdadeira declaração de guerra estatal ao movimento conservador, tendo como alguns de seus principais representantes os deputados Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, e o deputado e pastor Marco Feliciano, em São Paulo. Já entre os liberais, mais do que costumes e moralidade, o que é mais emblemático na sua crítica ao Estado se dá no âmbito da intervenção econômica. Liberais são defensores de um Estado mínimo, que interfira o mínimo possível no mercado, lembrando as lições do filósofo inglês Adam Smith, no século XVIII, na defesa de sua "mão invisível" na economia, da obra "A riqueza das nações". Na defesa do lucro e da acumulação capitalista, assim como os conservadores, liberais entendem a desigualdade social como algo natural numa sociedade, onde a existência de privilegiados é derivada das regras da livre concorrência, e daqueles que se adaptaram melhor às contingências do mercado. Numa frase, para os liberais: o mundo é dos mais competentes. A meritocracia aproxima liberais e conservadores dentro do universo político da direita.

Outro traço que agrega no mesmo campo conservadores e liberais como indivíduos de direita é no âmbito da defesa paradoxal do Estado máximo, no âmbito da segurança pública, enquanto que nos demais aspectos o Estado deveria ser mínimo. Se ao Estado compete principalmente o zelo pela coisa pública e a manutenção da propriedade, tanto para liberais quanto para conservadores compete ao Estado oferecer a garantia constitucional da segurança, utilizando fortemente de seu aparato repressivo contra eventuais infratores. No âmbito da criminologia, o pensamento liberal clássico defendia a ideia de que o crime era resultante do livre arbítrio do criminoso, que, literalmente, escolhia o caminho do crime, ao invés de se sujeitar às normas de uma sociedade. Portanto, nada melhor para o infrator do que a solução penal, defendendo liberais e conservadores através de candidatos e partidos identificados ou assumidamente de direita, a defesa das teses de introdução da pena de morte no Brasil, redução da maioridade penal, maior severidade das penas, e, consequentemente, um maior encarceramento.

Entretanto, recordo aqui da feliz observação do jornalista, assumidamente de direita, Reinaldo Azevedo, da revista Veja, em uma de suas entrevistas do ano passado,  quando comentava as recentes manifestações populares no Brasil. Segundo ele, "a diferença entre esquerda e direita é que, na direita há uma distinção de natureza, enquanto que na esquerda a distinção é somente de grau". O jornalista e intelectual brasileiro quis defender a tese de que, enquanto que no espectro da direita liberais e conservadores seriam altamente diferentes, apesar de ser aproximarem em temas comuns, no universo da esquerda, marxistas, anarquistas e sociais-democratas seriam, na verdade, a mesma coisa, uma farinha do mesmo saco defendendo um Estado máximo e menor liberdade individual. Os direitistas seriam, na verdade, libertários na defesa da livre escolha individual diante do coletivismo autoritário dos esquerdistas. Assim como no âmbito na esquerda, apegada à utopia da igualdade social (ou de classes), existe certo grau de romantismo,  a meu ver, os defensores das teses da direita também teriam uma visão romântica da sociedade, acreditando simplesmente que a sociedade seria formada por homens livres, produtivos, independente de sua condição econômica, e que por conta dessa liberdade não poderiam eles (ou suas famílias) serem importunados por outros grupos sociais ou por um ente estatal.

Enquanto isso, conforme minha impressão e estudos, esquerdistas defenderiam transformações profundas na sociedade, que podem, num jargão marxista, ser tanto infraestruturais quanto estruturais. Quero dizer que pode ser definido de esquerda tanto alguém que se limita, no âmbito dos costumes, a defender a redefinição de unidade familiar, como os defensores das uniões homoafetivas, como alguém que redefine o conceito de vida humana, a ponto de não considerar crime quem, por vontade própria, interrompe a concepção de uma vida intrauterina, como se dá no caso dos defensores do aborto. Por outro lado, posso ter um militante antiabortista que defenda a legalização de substâncias consideradas ilícitas e rejeitadas pelos conservadores, como a maconha, ou ser abstêmio no consumo de substâncias psicotrópicas e defender uma alteração real dos rumos da sociedade a partir de sua estrutura econômica, propondo uma revolução armada, com a deposição de uma classe social e a ascensão de outra, como discursam os defensores da luta de classes, vinculados ao pensamento marxista. 

De qualquer forma, se, na direita, temos liberais e conservadores; na esquerda podemos situar um ambiente onde convivem reformistas e progressistas. Os primeiros defendem uma transformação social ao menos cosmética, com a adesão progressiva e paulatina de programas sociais que se não eliminam, ao menos reduzem a desigualdade e promovem uma maior redistribuição de renda, com a adoção de políticas assistencialistas, muito associadas com a oferta de benefícios estatais, como o bolsa-família. Já uma esquerda mais revolucionária, capitaneada por partidos com ideologia mais extremista, de linha trotskista, como o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), defende ainda uma revolta ou revolução proletária, com a destruição dos pilares da ordem burguesa, conferindo à via eleitoral um mero expediente para uma grande luta revolucionária futura. Já os anarquistas, muito mais avessos a ideia de Estado, diferente dos liberais pregam uma sociedade autossuficiente, onde prevaleça uma autogestão dos serviços públicos a partir do controle direto da própria sociedade civil. Tachados muitas vezes de utópicos, militantes socialistas e anarquistas podem ser encontrados em quase todos os levantes populares, sendo muitas vezes responsabilizados por atos violentos, tais como os militantes black blocs, última novidade de tática política empregada nas recentes manifestações de junho, caracterizada pela presença de militante mascarados, vestidos de preto, que reagem à intervenção policial em grandes protestos, acusados em sua maioria da prática de atos de vandalismo.

Se, de um lado, no âmbito da direita, temos um universo entre liberais e conservadores, e no território da esquerda, temos entre os socialistas, de sociais-democratas a bolcheviques, até chegar nos anarquistas, como, então, definir as três principais candidaturas que se apresentam ao eleitorado, nas eleições presidenciais do dia 5 de outubro próximo? Se temos a candidatura à reeleição da presidente Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores, histórico representante da esquerda política na redemocratização, temos também Marina Silva, egressa do PT com mais de vinte anos de militância, que após um tempo entre os ecologistas tornou-se estrela do PSB, partido que no nome carrega o epíteto de socialista. Da mesma forma, no PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), temos o mineiro Aécio Neves pilotando o carro da oposição, afirmando em termos de sigla que seu partido tem um programa social-democrata. Ora, entre trabalhistas, verdes, socialistas e sociais-democratas, não tem ninguém de direita??

Acredito, piamente, que tão somente por estratégia eleitoral os atuais candidatos não se identificam de pronto, para o eleitor, como sendo de direita ou de esquerda. O partido político ou candidato pode não se identificar, mas os eleitores certamente apresentam sua identidade ideológica quando se manifestam em pesquisas de opinião, ou proferem suas ideias ou comentários em redes sociais. Hoje em dia basta dar uma pequena navegada na internet, para ver comentários dos mais díspares, mas todos unidos entre si pelos mesmos compromissos políticos alinhados ora com as teses do conservadorismo e do liberalismo, ora com posicionamentos mais socialistas, esquerdizantes. 

Entendo que, num regime democrático, o debate entre direita e esquerda, apesar de às vezes efervescente ou nem tão educado, seja salutar. Como homem assumidamente de esquerda, tenho amigos nos mais diversos horizontes políticos, e mesmo aqueles que preferem ser tachados tão somente de alienados, sem querer professar opinião política alguma, são muito bem vindos! Prefiro um direitista sincero e um esquerdista apaixonado do que um falso democrata! Acredito que, ao conhecer melhor os principais pensadores, teóricos e filósofos de ambos os espectros políticos, e a história dessas duas tendências de pensamento sobre os rumos da sociedade, consigamos obter uma síntese que seja válida para ambos os lados. Acredito na importância dos conservadores para impedir que as mudanças sejam irresponsáveis ou precipitadas, assim como reconheço o mérito dos liberais em defender a capacidade de arbítrio e a criatividade da livre iniciativa; mas entendo que os socialistas são fundamentais, para que nossa sociedade não se torne tão egoísta a ponto de achar normal a desigualdade, e até mesmo contribuir para sua manutenção ou acentuação. 

Enfim, creio que o melhor para aqueles que se interessam pelo debate seria ter a franqueza de defender Aécio pelo seu liberalismo, ou preferir Marina pelo seu conservadorismo, ou não votar em Dilma por acreditar que ela não seja progressista, ou votar por entender que seu assistencialismo e intervencionismo é bom para reduzir a desigualdade, mesmo que não transforme a sociedade, como acreditam os que votam em Luciana Genro ou Eduardo Jorge. Quanto a mim, peço apenas aos amigos que pensam diferente, que se manifestem da forma democrática e amistosa assim como estou me manifestando, às vésperas de um fato histórico tão importante como nossa eleição presidencial. Se são de direita ou de esquerda, ao menos vistam a carapuça sem medo de assumir uma posição política definida. Afinal, isso faz parte da democracia, e que seja ela sempre muito bem vinda!!!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

IN MEMORIAM: Murió Gustavo Cerati (Morreu Gustavo Cerati, o "Cazuza Argentino")

Yo, caminaré entre las piedras
hasta sentir el temblor, en mis piernas
a veces tengo temor, lo sé
a veces vergüenza Oh Oh Oh


É com os primeiros versos de Cuando Pase El Temblor que lamento a morte de Gustavo Cerati, cantor e ex-vocalista da banda argentina Sodastereo. Para quem não conhece ou não curte rock cantado em espanhol, o Sodastereo foi uma das grandes bandas latino-americanas dos anos oitenta, e a canção mais conhecida deles aqui foi a regravação de Musica Ligera, grande sucesso do grupo, de 1990, regravada em português com letras diferentes por Paralamas do Sucesso e pelo Capital Inicial.

Assim como Renato Russo e Cássia Eller foram nossos heróis no rock nacional, Gustavo Cerati funcionava na cena musical e artística portenha como uma espécie de "Cazuza argentino". Carismático, do alto dos seus um metro e oitenta e três (aumentados pelas botas que usava), faiscantes olhos verdes e voz de barítono, para mim Cerati não foi apenas um Cazuza, mas também um "Gardel do Rock'n Roll", cantando canções de amor, sensualidade ou revolta com originalidade e classe que o fizeram um hitmaker. A primeira vez que escutei a voz do cara, cantando no Sodastereo,  foi ainda no final dos anos noventa, quando no Brasil a TV paga Direct TV repassava o sinal da MTV latina. Conheci não apenas o Sodastereo, mas também outras bandas bacanas argentinas, como o Babasonicos e  Bersuit Vergarabat, todos de altíssima qualidade e que tocam até hoje, mas; sem dúvida, o Sodastereo era o melhor. Os anos noventa eram a época em que o grupo vislumbrou a consagração, com o célebre disco Canción Animal e muitos outros sucessos, como Ciudad en La Furia ou Primavero Cero, rock pesado e de primeiríssima qualidade que eu escutava à exaustão num antigo boteco de um amigo norueguês, que também gostava do som dos caras.

Entretanto, só fui me tornar mesmo fã da banda e de seu cantor quando viajei pela primeira vez a Argentina, em 2005. Lá, percorrendo lojas de discos tive acesso a toda a discografia do grupo, descobri que Cerati tinha saído da banda e seguido carreira solo, carreguei minha mochila de pilhas de CDs (no tempo que ainda não era tão popularizado o Mp3), e durante toda a viagem e meu retorno ao Brasil escutei muito, muito Sodastereo. Recordo que ao chegar em Natal encontrei um amigo argentino de longa data, que já vivia há anos por aqui e tinha escutado o rock de seu país somente até os anos setenta, e vi como ele ficou deslumbrado quando escutou pela primeira vez uma coletânea do Sodastereo. Na banda liderada por Gustavo Cerati estava todo o apelo pop de um rockstar, com shows pirotécnicos, letras bem elaboradas, riffs de guitarra que se transformaram em hinos, lotando estádios pela América Sul em apresentações belíssimas e ruidosas. O Sodastereo abria seus shows como se fossem monstros sagrados do rock como Queen ou Rolling Stones, fazendo perfomances memoráveis, vistas à exaustão até hoje na versão latina do VH1 ou no Youtube, energizando um estádio do River Plate enlouquecidamente repleto de fãs devotos. Para mim, os caras do Sodastereo foram os Beatles da Argentina e a primeira banda de um país latino-americano a sair dos limites de sua fronteira nacional e percorrer todo o continente em turnê, até chegar aos Estados Unidos e Europa. Nesse sentido, acerca do rock cantado em espanhol, o Sodastereo foi um marco histórico.

Encerradas as atividades da banda oficialmente em 1997, com o lançamento da turnê, disco e DVD de despedida chamada El Último Concierto, os fãs de Gustavo Cerati e seu grupo tiveram que esperar dez anos para ver de novo seus ídolos juntos, na turnê de retorno Me Verás Volver, de 2007,  quando saiu o disco e DVD homônimo, que não demorei a ter em minha coleção. Só lamentei que no período eu não tive a oportunidade de ir a Argentina e ver o show dos caras. Eu não sabia e nem podia imaginar que esta seria a última apresentação da história da banda.

Eis que em maio de 2010, o mundo recebe a triste notícia de que, em um show da turnê de seu disco solo,  em  Caracas,  na Venezuela, Gustavo Cerati passa mal nos bastidores da apresentação e é levado às pressas para o hospital, pois tinha acabado de ter um AVC. O que parecia ser apenas um susto decorrente do stress de uma cansativa turnê latino-americana acabou se revelando uma tragédia, um drama que iria durar mais de quatro anos. Gustavo Cerati entrou em coma, para nunca mais voltar. Durante esses anos ficou entre seus familiares e fãs a esperança de que ele, respirando com a ajuda de aparelhos, pudesse um dia acordar. Não aconteceu.

Com sua morte na data de hoje, aos 55 anos,  onde, por coincidência, recebi a notícia em um hotel na Colômbia, terra que tanto recebeu os shows e tanto amou o Sodastereo, sei que fica mais triste a cena do rock mundial. Eu não poderia deixar aqui de render a minha homenagem, a um dos músicos mais fascinantes que já conheci ao ouvir rock cantado em espanhol. A família do músico e aos seus fãs em todo o mundo eu desejo todo o carinho do mundo, e que vocês possam expressar esse carinho pelas bonitas músicas que esse cantor fascinante cantava, empunhando sua guitarra.

GRACIAS TOTALES, GUSTAVO!!!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

MÚSICA: Far From Alaska é uma das melhores novidades do rock nacional. E veio, quem diria, do Nordeste, da cidade de Natal!

Não um grupo de jovens nerds, e sim uma potente banda de rock.
Caras como eu, que já passaram dos 40 anos, gostam de rock e ouviram um pouco de tudo da infância até a vida adulta, em ao menos quatro gerações, ficam meio ranzinzas ou rabugentos diante de novidades. Eu canso de escutar amigos da mesma idade, meio saudosistas, dizendo que nunca se fará música igual ou melhor  a que foi feita nos anos oitenta ou noventa do século passado, ou que o rock'n roll já morreu; ao menos o rock brasileiro. Afinal, já faz quase 30 trinta anos do primeiro Rock in Rio, em que o Brasil revelou ao mundo bandas antológicas que fizeram a cena musical (e as FMs) do país inteiro anos antes, no final da ditadura,  apresentando roqueiros que hoje já morreram ou encontram-se cinquentões, como Barão Vermelho, Legião Urbana, Ira, Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso. Com a chegada dos anos 2000, com a cantora Pitty, os moleques do Restart e bandas mais adolescentes e inexpressivas, como NX Zero e Fresno, além do fim da MTV Brasil no começo da segunda década desse século, parecia que nada de novo e realmente interessante parecia restar no front do rock nacional. Parecia, apenas parecia!

Confesso que eu havia me juntado há alguns anos ao coro dos descontentes dos jovens rockers e groupies das antigas, que agora viraram senhores ou senhoras pais ou mães de família, não muito atentos aos músicos mais jovens que despontavam no cenário musical nacional nos últimos dez anos. Porém, nunca é tarde para acreditar que enquanto há vida há esperança, e enquanto existir rock and roll haverá vida inteligente na terra. Das bandas estrangeiras, eu já tinha escutado excelentes grupos de artistas recentes da última era, com cantores e instrumentistas que ainda estão na faixa dos 20 ou 30 anos, como Interpol ou Muse. Porém, no Brasil, depois do manguebeat dos pernambucanos do Nação Zumbi na década de noventa, o rock setentista e meio Ramones dos gaúchos do Cachorro Grande, e a pegada meio rock, reggae e hip-hop dos cariocas do Rappa, tocados nos últimos anos, eu ainda não tinha visto uma banda de rock tão boa, quanto os potiguares do Far from Alaska, a grande sensação das bandas lançadas no último ano.

É certo que, para os que conhecem, o Rio Grande do Norte não é apenas a terra de belas paisagens paradisíacas de praias tropicais, dunas e Mata Atlântica, com imagens capturadas à exaustão em portfólios de agências de turismo ou novelas da Rede Globo, ou lugar onde se escuta somente forró, pagode ou grupos de axé-music, como os que lotam a cidade no mês de dezembro, por conta do Carnatal, uma das maiores micaretas (carnavais fora de época) do país. A terra do escritor Luís da Câmara Cascudo, do cantor brega Carlos Alexandre,  da modelo internacional  Fernanda Tavares e da atriz global Titina Medeiros, também é berço seminal de grandes bandas de rock, pop e blues que marcaram a cena cultural da cidade nos últimos trinta anos. Desde a época de bandas como Fluidos, Modus Vivendi e Canto Calismo, nos anos oitenta, até Alfândega, General Junkie, Flor Bela Espanca, Zaratustra, Cantus do Mangue, Deadly Fate, Jus Causae, Jane Fonda e tantos outros bons grupos na década seguinte, Natal viu bares, festivais e campus de universidades repletos de bandas novas, dos mais diferentes estilos, que já tocaram em rádios, apareceram em matérias de jornais, deram entrevistas em programas de televisão e até tiveram clipes reproduzidos pela MTV. É de Natal o Du Souto, uma das mais competentes e criativas bandas surgidas no Brasil na cena musical dos últimos anos, formada por músicos experientes como Paulo Souto e Gustavo Lamartine, egressos do antigo General Junkie, que já se apresentaram no programa do Jô Soares na Rede Globo e estão prestes a viajar em turnê internacional. Entretanto, pouca atenção eu dava para as novas bandas, de músicos com idade para serem meus filhos, até ter escutado o Far From Alaska.

O Far From Alaska em plena atividade.
Formado por Emmily Barreto nos vocais, Chris Botarelli nos teclados, Edu Filgueira no baixo, Rafael Brasil na guitarra e Lauro Kirsch na bateria, o grupo formado em Natal/RN foi fundado em 2012, lançando um EP chamado Stereochrome, que já deu boa repercussão para quem o escutou. Eles foram vencedores no mesmo ano de um festival, que lhes garantiu participar nacionalmente do Planeta Terra, grande evento televisionado, com bandas nacionais e internacionais, patrocinado entre outros por grandes companhias de telefonia como a Claro e a Vivo, realizado em São Paulo, e que contou, entre outras, com atrações como a famosa banda britânica dos anos noventa, Garbage. Conhecendo no backstage a carismática e simpática vocalista do grupo, Shirley Manson, os músicos potiguares conquistaram uma influente garota propaganda, pois ao escutar o som da banda, Manson divulgou o Far From Alaska nas redes sociais, catapultando a garotada a um automático estrelato pela internet. Do esforço de seus integrantes, surgiu dois anos depois seu primeiro álbum, disponibilizado para venda no Youtube, e com uma excelente resenha crítica na conceituada revista de música, Rolling Stone. Na Copa do Mundo deste ano, realizada no Brasil, e durante os jogos que ocorreram em Natal, os músicos também foram convidados para tocar na Fan Fest, e deram seu  recado como uma das mais promissoras novas bandas a surgir no horizonte do rock brasileiro nos últimos anos.

Shirley Manson: a musa do Garbage gostou do som da banda natalense.
É dum reducionismo extremo definir a banda de Natal como indie, apesar de ser esse o epíteto usado em muitos meios de comunicação para definir a sonoridade do grupo. No wikipédia é possível ver que o grupo é definido como uma banda meio stoner, meio hard rock. Eu diria que, antes de tudo, o Far from Alaska é uma excelente banda de rock, com todos os componentes que caracterizam o gênero. Está lá os vocais femininos bem definidos de Barreto, que às vezes faz recordar uma Joan Jett de um Runaways revivido, assim como as guitarras a la Black Sabbath de Rafael Brasil, a cozinha operada pela bateria competente de Kirch e o baixo encorpado e bem marcado de Filgueira. Valendo-se do uso de sintetizadores operados por Chris Botarelli, o grupo consegue fazer um som original, valendo-se de suas raízes rockeiras, mantendo uma alternância entre músicas ligeiras e outras mais viajantes, que combinam referências que vão do progressivo até o pós-punk. Optando por compor e cantar todas as suas músicas em inglês, o Far from Alaska não fez mais do que adotar a posição globalizada de fazer rock'n roll no idioma universal da terra de Shakespeare, que legou a humanidade outras feras da arte, como os Beatles, os Stones, The Who e Led Zeppellin, para ficar só por aí entre os clássicos do gênero. 

Lançado em julho de 2014, Modehuman é o primeiro álbum oficial da banda natalense,  combinando faixas já tocadas em Stereochrome com novas aquisições. Escutar esses garotos é uma experiência saborosa de ouvir, como se ainda fosse novidade, um bom e velho disco de rock. Impossível não balançar a cabeça ao som de Greyhound, um dos singles do disco, aliando a potência vocal de Miss Barreto com o peso dos instrumentos de seus companheiros de banda, que faria um vovô Tonny Iommi sorrir de gratidão, ouvindo o som de sua cadeira. Outra canção superlegal é Dino Vs Dino, uma divertida mistura de blues rasgado com hard rock, lembrando um pouco Queens of Stone Age, ótima para se tocar ao vivo. Só falta o Dave Grohl do Foo Fighters  aparecer para dar uma canja com a molecada! Mama segue a mesma pegada (o que talvez faça com que alguns críticos definam a banda como stoner). Agora talvez uma das grandes (e arriscadas)  experiências estéticas do grupo seja a canção-título de seu primeiro EP, Monochrome, um verdadeiro hino psicodélico, com direito a vários efeitos durante uma viagem sonora que ultrapassa os sete minutos de canção, combinando  em seu som a singeleza de grupos mais antigos como Yes, ao peso de nomes fortes do heavy metal recente, como Mastodon. Óbvio que, comercialmente falando, para se aventurar numa proposta de, já no primeiro disco, fazer uma música com mais de quatro minutos, os músicos tiveram que ter colhões (e saias) para isso. O que demonstra que, apesar de pouca idade, os jovens componentes do Far From Alaska revelaram ter sido bem produzidos, e confiaram na aposta de fazer um som que é, ao mesmo tempo, simples e adoravelmente complexo.

Aguardo ansiosamente os próximos capítulos da saga dos músicos natalenses do Far From Alaska. Creio que eles tem tudo para brilhar em outras paragens, valendo-se do inglês bem cantado que utilizam e da universalidade da linguagem do rock. Se, há mais de vinte anos antes, os mineiros do Sepultura conseguiram fazer quase o impossível, brilhando internacionalmente como banda de heavy metal, a ponto de ficarem situados no panteão das históricas bandas do gênero, na mesma posição de bandas como o Iron Maiden e Metallica, por que não investir no Far From Alaska como uma das futuras grandes bandas do novo milênio? Ora, para mim eles já conseguiram surpreender o Brasil, saindo da pitoresca Natal para ou ouvidos de gente como o pessoal do Garbage. Para conquistar o mundo agora, basta só mais um pouquinho de sorte e umas gotas de ambição, pois talento, eles já tem de sobra. Boa sorte, garotos!!



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RELIGIÃO E POLÍTICA: Os evangélicos e Israel (ou COMO A TRAGÉDIA PALESTINA SERVIU PARA DIVIDIR POLITICAMENTE ESQUERDA E DIREITA NO BRASIL)

A tragédia do povo palestino na Faixa de Gaza, refém da força bruta do Estado de Israel, infelizmente, não é novidade. Ao menos de cinco em cinco anos ou até menos vemos na TV a dura realidade do povo palestino, principalmente de suas crianças, dizimadas pela força militar israelense, a pretexto de combater militantes muçulmanos extremistas, que querem a todo custo a destruição de Israel.

Dessa vez, o pretexto do governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para invadir Gaza e dar um verdadeiro banho de sangue na região, foi o de combater os terroristas palestinos do Hamas, responsáveis pela morte de três adolescentes israelenses, sequestrados, assassinados e enterrados no deserto, após terem saído de uma aula de ensino religioso durante a noite. O crime em si foi bárbaro e brutal, mas a reação desproporcional de Israel encheu os olhos de quem viu incessantes bombardeios de mísseis oriundos de Israel, que destruíram bairros inteiros, hospitais, escolas, deixando um rastro de terror que pode ser visto à exaustão no Youtube, para quem tem estômago suficiente para ver isso. São corpos carbonizados, enterrados ou mutilados de crianças, velhos, mulheres, enfermos, numa contabilidade macabra da morte de mais de mil pessoas da população civil de Gaza, a pretexto de vingar a morte de três adolescentes. Será que matar mais de mil palestinos justifica a morte de três israelenses?

É claro que quem lê este blog e tem um posicionamento mais favorável a Israel vai achar que eu estou sendo parcial demais, e injusto em demasia com os israelenses, vendo apenas um lado da moeda. Soldados israelenses também foram mortos (muitos deles alvo de "fogo amigo", atingidos por balas ou morteiros do próprio exército israelense), e o Hamas também tem seu grau de responsabilidade nas mortes, pois, segundo o governo de Israel, a segurança e a vida de milhares de cidadãos israelenses encontra-se comprometida pelas bombas e mísseis lançados pelo grupo islâmico, através de esconderijos subterrâneos. Israel alega que está em guerra, e na guerra o objetivo é derrotar, aniquilando o inimigo. O problema é que desde a Convenção de Genebra, após a II Guerra Mundial, convencionou-se entre os povos que os ataques a população civil, além de intoleráveis, são verdadeiros crimes, cabendo a responsabilização dos governantes por crimes de guerra. Quem vai responsabilizar Netanyahou por esse massacre? Israel alega que o Hamas utiliza pessoas inocentes como escudos humanos, manipulando suas mentes a ponto de fazer com que elas sejam atingidas de propósito pelas armas de Israel, sob a alegação de que morrerão como mártires. De um lado e de outro judeus e muçulmanos procuram explicar o massacre, enquanto que na comunidade cristã também é possível ver quem adota uma posição mais favorável e outra mais contrária a Israel. Até que ponto pessoas com alguma fé religiosa ou posicionamento político irão compreender uma realidade tão caótica?

No Brasil, depois que começou a ação militar israelense e cenas horríveis de crianças mortas ou mutiladas apareceram na internet, as redes sociais, além dos meios de comunicação tradicionais como televisão, jornais e revistas mostraram o holocausto palestino, e a reprovação da comunidade internacional, inclusive dos Estados Unidos, aliado há décadas do governo de Israel. Entretanto, tanto no jornalismo da Nova Direita brasileira, bem como em segmentos religiosos conservadores, muitos identificados com o pentecostalismo, há uma defesa às vezes velada e muitas vezes aberta de Israel e seu povo. O debate, em pleno ano eleitoral, acabou dividindo esses segmentos num eleitorado de um lado mais à esquerda e governista (por conta da candidatura à reeleição da presidente Dilma Roussef, do Partido dos Trabalhadores), e do outro lado um eleitorado de oposição mais vinculado às teses da direita (o neoliberalismo e o neoconservadorismo que estampa o candidato do PSDB, Aécio Neves, ou entre os candidatos nanicos, como o pastor Everaldo, do Partido Social Cristão: o mesmo do polêmico deputado evangélico Marco Feliciano). Crentes da Assembleia de Deus, bem como representantes da Igreja Universal, do bispo Edir Macedo, também fazem uma defesa entusiasmada de Israel, condenando não apenas as ações do Hamas, mas também toda a crítica midiática que é feita ao governo israelense, por conta da ação atroz do exército israelense. Por que essa diferença política e religiosa?

O pentecostalismo, e, principalmente, o neopentecostalismo no Brasil, tem adotado uma posição teológica cada vez mais judaicizante, e a construção recente do Templo de Salomão, em São Paulo, pela Igreja Universal, e o novo visual adotado nas liturgias do culto e na aparência de seu principal líder, Edir Macedo, tem revelado que, por serem mais simpáticos ao Antigo Testamento do que outras denominações religiosas, os evangélicos pentecostais tem sido, naturalmente, mais favoráveis a Israel. O Antigo Testamento, seguido pelos judeus na forma da Torá, seu livro sagrado, ou Pentateuco, prega uma linha de conduta pessoal e coletiva mais moralmente conservadora e extremamente legalista. Como adeptos dessa religiosidade cristã tendem a ser mais fundamentalistas, os textos do Antigo Testamento que se referem a comportamento e costumes tendem a ser interpretados e cumpridos literalmente, ensejando em termos políticos um discurso mais ortodoxo e mais fechado às inovações progressistas pregadas pela esquerda, como, por exemplo, a legalização do aborto ou do casamento de pessoas do mesmo sexto, até a descriminalização do uso de determinadas substâncias, como a maconha. Além disso, diferentemente dos esquerdistas presentes no governo Dilma ou incrustados em legendas menores como o PSOL, muitos dos eleitores evangélicos pentecostais defendem um Estado mínimo, com severas críticas ao modelo econômico adotado pelo governo do PT, exigindo uma alternância de poder. Isso, somado à manifestação do governo brasileiro, que por meio de sua diplomacia, rechaçou a conduta do governo de Israel, não registrando em nenhuma vírgula as ações do Hamas, acabou por gerar a antipatia israelense, cujo porta-voz chegou a se reportar ao Brasil como um "anão diplomático".

Para o eleitorado evangélico e conservador que adota as teses da direita brasileira, como são avessos ao governo Dilma, é natural que endossem o entendimento de Israel, também estabelecendo críticas ao governo petista, bem como endossando todo o apoio a seu povo e as ações militares praticadas pelo governo israelense. Afinal, trata-se de proteger o povo escolhido por Deus, segundo a leitura do Antigo Testamento, e, afinal de contas, Jesus Cristo não tinha nascido judeu? Por essas e outras entende-se como muitos cristãos evangélicos avessos ao governo do PT defendem entusiasmadamente Israel, seu modelo de governo e seu modelo econômico neoliberal, enquanto os militantes das organizações de esquerda e o governo de Dilma repudiam a todo custo as ações de Israel. Como diria o finado pensador italiano, Norberto Bobbio, o horizonte da esquerda e da direita voltam a ser redefinidos em cada ciclo da histórica política dos povos.

Como democrata, respeito o posicionamento pró-Israel de boa parte da comunidade dos evangélicos, especialmente dos pentecostais que demonstram sua simpatia para com o povo judeu. Por outro lado, em nome da racionalidade e defendendo o fim da
barbárie, entendo também que tanto a extrema-direita israelense, encastelada no gabinete do primeiro-ministro Netanyahou, como os sanguinários e fanáticos militantes extremistas do Hamas devem ser severamente criticados e combatidos. A Autoridade Nacional Palestina, representada por seu chefe político, Mahomoud Abbas, bem como milhões de judeus e muçulmanos de bom senso de todo o planeta, são contrários à ação genocida do exército israelense na Faixa de Gaza, e pedem paz urgentemente, a fim de que mais crianças e inocentes não sejam mortos de maneira totalmente desnecessária. Creio que os cidadãos cristãos brasileiros devem voltar um pouco seus olhos para o Novo Testamento, onde Cristo prega o perdão, o amor ao próximo e a tolerância, e não o contrário, no que uma visão deturpada e fundamentalista do Velho Testamento possa levar a pensar diferente. Os palestinos que estão na Faixa de Gaza não são os cananeus que os israelitas, liderados por Josué dizimaram, na passagem bíblica que narra a Batalha de Jericó, e que é usada como referência pelos judeus fundamentalistas e pela extrema-direita israelense para justificar as atrocidades do exército de Israel, na chacina de mulheres e crianças palestinas. Se Deus tinha ordenado que seu povo destruísse os inimigos de Israel no Antigo Testamento, por que não agora também aqueles que querem atacar o Estado judaico não possam ser destruídos? É, definitivamente, uma forma muito tenebrosa de pensamento.

Todo o fundamentalismo religioso e radicalismo político é anticristão. Cuidado ao defender um governo que gosta de lançar bombas contra crianças, meus amigos pentecostais!!

terça-feira, 15 de julho de 2014

ESPORTE: A VIDA APÓS UM 7 x 1 E A CONSEQUENTE GERMANOMANIA NO POVO BRASILEIRO

Tenho 42 anos de existência, prestes a completar 43, e meu pai tem 70, prestes a completar seu septuagésimo primeiro ano de vida. Acredito que tanto as minhas ainda jovens quatro décadas, assim como o mais de meio século do meu pai, não viram algo tão aterrador no futebol brasileiro, tão inusitado, humilhante e vexatório do que ver a seleção brasileira perder em um Mundial pela goleada de sete gols a um. Foi exatamente isso que aconteceu, e vingou a humilhação dos anciãos ainda vivos, que presenciaram o Brasil ser humilhado pelo Uruguai na Copa de 1950, quando num Maracanã lotado perdemos em casa a final da Copa por 2 X 1. Ora, 2 X 1? Quem dera fosse um 2 X 1! Em menos de vinte minutos de jogo, vimos este ano o Brasil sofrer 5 gols da Alemanha (além dos dois gols a mais que viriam no segundo tempo) de Müller, Schewensteiger, Klose, Boateng  e mais uma dúzia de craques germânicos que representaram brilhantemente nesta Copa a vitoriosa nova geração do futebol alemão, que levou a taça de campeão do torneio, no último domingo, dia 13 de julho. Eles mereceram, numa data histórica em que derrotaram aos vinte e cinco minutos da prorrogação a Argentina, do craque Lionel Messi, com o gol salvador de Göetze. A Alemanha festeja agora não apenas o título mundial, mas também a consagração de ser o país  que possui,  hoje, o melhor futebol do mundo. Alguém se lembra que até poucos anos atrás esse título era do Brasil? Pois é, meus caros leitores! Não é mais!!

O dia 8 de julho de 2014 figurará na história nacional como o dia da infâmia. A goleada nas semifinais contra a Alemanha foi o nosso Pearl Harbor do futebol brasileiro, quando alemães, e não japoneses, invadiram os gramados brasileiros, como um panzer de chuteiras, uma blitzkrieg futebolística, montada pelo eficiente técnico, Joachim Löw, que estruturando uma equipe organizada, conseguiu fazer com que a terra de Wagner, Göethe, Heidegger, a banda de rock Scorpions e os neonazistas, conseguisse enfim o sonhado tetracampeonato que não vinha desde a Copa de 1990, e foi surrupiado dos germânicos em 2002, quando os alemães (lembram-se?) perderam de 2 X 0 para o Brasil de um redimido Ronaldo Nazário. Quem, maior de dezesseis anos, não se lembra do animado atleta dentuço, com penteado do personagem Cascão, da Turma da Mônica, que tirou o título dos alemães, evitando que eles se igualassem ao Brasil, levando a seleção canarinho a conquistar o pentacampeonato mundial no Japão?! Que bons tempos eram aqueles! Que saudade dos "4R" (Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho), o dream team que venceu todos os jogos de forma invicta, em campo nos 90 minutos de jogo, sem depender de disputa de pênaltis ou prorrogações. Infelizmente, o Brasil que encantou o mundo em 2002 foi o mesmo que o assustou, exatos 12 anos depois. O que aconteceu com a seleção brasileira? O que houve com o futebol ( e o orgulho) nacional?

Os meios de comunicação já exploraram à exaustão, na última semana, os motivos da derrocada no estádio Mineirão, em Belo Horizonte, local da tragédia. Programas de TV fomentaram debates com jornalistas e ex-jogadores ou técnicos e especialistas sérios, no ESPN, FOX SPORTS, BAND SPORTS e SPORT TV, assim como em jornais impressos ou virtuais, colunistas de grosso calibre como Juca Kfouri comentaram a triste goleada brasileira e os motivos da seleção ter saído totalmente do prumo. O técnico Luiz Felipe Scolari e seus jogadores falaram inicialmente num apagão, num transe coletivo. Mas será que foi somente isso que justificou a seleção brasileira sofrer a mais grotesca e gigantesca goleada de seus 100 anos de história? É algo que ficará para sempre na memória visual e afetiva brasileira, quando pais e filhos choraram no estádio, enquanto outros riam ironicamente, vendo a desgraça da equipe de Neymar, David Luiz, o goleiro Júlio César e os demais. Ver tal jogo como eu vi (e gostaria de não ter visto) foi tão ruim, mas tão ruim, que imaginávamos, por um momento, que se tratava apenas de um pesadelo, uma alucinação decorrente do excesso de cerveja (servida à exaustão nessa Copa), ou simplesmente uma singela brincadeira. Não era, era realidade, e a seleção não apenas perdeu o título, como também perdeu toda sua credibilidade internacional.

Os erros que agora vem à tona apenas revelam a Matrix midiática que vivíamos nas vésperas do torneio em solo nacional. Escravos subjugados ideologicamente pela propaganda, tentávamos em nosso orgulho nacional achar que éramos invencíveis; pois, dizia a lógica fria das estatísticas, o retrospecto brasileiro era muito bom. Afinal, jogávamos em casa, tínhamos ganho anteriormente cinco torneios mundiais, tínhamos alguns dos melhores jogadores do mundo, muitos neófitos em Copas, mas jogando nos melhores clubes do mundo. Tínhamos Neymar, o novo gênio atacante, daqueles que surge de tempos em tempos na safra ininterrupta de craques nacionais. Ganhamos a Copa das Confederações no ano anterior, vencendo de goleada a favorita Espanha. O técnico escolhido para liderar o escrete canarinho era o mesmo da conquista do pentacampeonato, contando com grande apoio popular, escudado na comissão técnica por Carlos Alberto Parreira, técnico do tetracampeonato de 1994. Pelé ( e Deus ) era brasileiro. Então por que perdemos? Como tivemos um resultado negativo tão acachapante?

Posso listar um livro (dos muitos que ainda serão escritos pelos apaixonados por futebol) contendo a série de deficiências, falhas e incorreções da seleção brasileira neste Mundial, dedicando um capítulo inteiro a cada um desses temas. Deixo isso para os especialistas. Porém, dando minha contribuição para o debate nacional, manifestando aqui neste blog a minha opinião, creio que as mancadas apontadas acima podem ser definidas nos seguintes tópicos:

a) AUSÊNCIA DE ORGANIZAÇÃO TÁTICA: qualquer torcedor de futebol minimamente atento percebeu que, nesta Copa, a seleção brasileira demonstrou uma disciplina tática medonha, quase inexistente. O técnico Scolari montou uma equipe praticamente sem meio campo, apostando em volantes que levassem a bola diretamente da defesa para o ataque, em lançamentos longos, que quase nunca davam certo. A desorganização defensiva também era imensa, como se percebeu logo no primeiro jogo, contra a Croácia, estatisticamente um dos jogos mais fáceis para a seleção, que apesar de ter ganho de virada o jogo, demonstrou a inaptidão de alguns jogadores, perdidos numa formação em campo que deixava imensos furos e permitia até absurdos, como o gol contra do zagueiro Marcelo, logo no começo da partida, o primeiro do Brasil na história das Copas, e primeiro de muitos erros e mancadas que levariam à goleada final. No jogo da semifinal a goleada de sete gols germânicos foi possível, principalmente porque, além de não conseguir acompanhar os atacantes alemães, os jogadores brasileiros jogavam sem posição definida em campo, permitindo que o adversário avançasse continuamente e sem resistências. Um exemplo disso é que, mesmo com a presença de Neymar nas quartas de final, os dois gols decisivos brasileiros foram feitos contra a equipe da Colômbia por zagueiros, como Tiago Silva e David Luiz. Sem marcar devidamente por área ou pressão e sem armadores criativos no meio campo, não adiantava nada optar apenas pela força de jogadores como Hulk ou a velocidade de Jô ou Fernandinho. Deu no que deu!

b) POUCOS BONS E EXPERIENTES JOGADORES: a seleção de 2014 foi uma das que mais teve poucos jogadores experientes ou devidamente destacados em suas equipes de origem. Com exceção de Neymar (descoberto nas categorias de base do Santos e consagrado no time paulista, antes de ir para o Barcelona de Messi), nenhum dos outros jogadores tinha tanto brilho ou tanta experiência para ser escalado como membro da seleção brasileira. A aposta reiterada no goleiro Júlio César, que já atuou sem sucesso em duas Copas, quase em fim de carreira e jogando num inexpressivo time canadense, também demonstrou ser uma opção errada ou ao menos questionável. A comissão técnica brasileira nem quis apostar suas fichas em jogadores mais velhos e anteriormente consagrados, que atuaram em outras Copas como Kaká ou Ronaldinho Gaúcho, tidos como obsoletos, mas que ainda dominavam com brilho os fundamentos de meio campo. Na história da seleção brasileira, era comum o escrete canarinho ter ao menos dois atacantes de peso, harmonizados, que autocompletavam a jogada um do outro, como foi Pelé com Amarildo na Copa de 1958 ou Garrincha e Nilton Santos, na Copa do Chile de 1962, Pelé e Jairzinho na Copa de 1970, Zico e Sócrates na de 1982, Romário e Bebeto no tetracampeonato de 1994 ou Ronaldo e Rivaldo em 2002. Em 2014, isso não aconteceu, e  a aposta num contundido Fred, para dar apoio a Neymar no ataque, demonstrou ser mais bisonha do que errada. Fred teve uma atuação pouco menos que pífia e sua participação nos jogos da seleção durante a Copa chegou próxima do zero. Sem Neymar, o time praticamente desmantelou.

c) DEFICIÊNCIA  TÉCNICA DO TREINADOR: Luiz Felipe Scolari foi o responsável por uma das maiores glórias do futebol brasileiro quando em 2002 conquistou o quinto título mundial do Brasil, mas também será tristemente conhecido por eras como o técnico do fiasco de 2014. Logo após treinar a seleção de Portugal, na década passada, quando conquistou o vice-campeonato da Eurocopa, Felipão praticamente não teve mais relevância alguma como treinador nas equipes que treinou, e não conquistou mais nenhum título internacional. Seu retrospecto recente podia ser lembrado por ganhar a Copa do Brasil com o Palmeiras, levando o time paulista a Libertadores do ano seguinte, mas também sendo o responsável na mesma temporada pelo rebaixamento do time para segunda divisão. Antes de assumir a seleção brasileira como um presente da CBF, após  a péssima experiência da seleção com Mano Menezes (um novato em torneios internacionais), Felipão só tinha treinado a equipe do Uzbequistão. Como é? Onde? Isso mesmo, no Uzbequistão! Quem não sabe onde é o país que procure no google ou visite um mapa-mundi! Scolari revelou-se um técnico ultrapassado, com uma visão limitada (e até ignorante) sobre o futebol mundial, organizando uma equipe de maneira preguiçosa, desperdiçando treinos (diz-se maldosamente nas redes sociais que os jogadores e o treinador da seleção fizeram mais comerciais do que treinamentos), permitindo uma ingerência até mais do que indevida da imprensa (e dos olheiros adversários), sem se preocupar, efetivamente, em estudar a tática dos demais times. Felipão chegou a revelar em entrevista que desconhecia mesmo a organização dos times europeus, não obstante ter treinado (por um curtíssimo período) a equipe britânica do Chelsea, antes de ser demitido, sabe-se lá pelas dificuldades de se manifestar em inglês, seja porque a direção do clube não gostou do seu jeito turrão mesmo. Felipão é um treinador à moda antiga, que gosta de falar grosso em momentos de dificuldade, mas que procura agir como paizão durante as crises. Infelizmente, os jogadores da seleção brasileira precisavam menos de um pai e mais de um treinador durante os jogos da seleção, o que não aconteceu. Ele mesmo reconheceu ser o maior responsável pelo fracasso do seu time, mesmo que muitos se indaguem se seria diferente, caso o Brasil tivesse ganho o jogo com os alemães, ou tivesse perdido ao menos por uma margem pequena de gols. Acho difícil! O descontentamento com Felipão e sua equipe veio desde o primeiro jogo. A pior impressão é a primeira, que geralmente fica.

d) IMATURIDADE EMOCIONAL DA EQUIPE: Durante todo o torneio, a seleção canarinho demonstrou a fragilidade e carência emocional de seus jogadores. No jogo contra o Chile, nas oitavas de final, (o mais difícil da seleção antes do massacre alemão), o empate de um a um da partida inicial e o resultado que se manteve na prorrogação, obrigando a decisão por pênaltis, fez muitos jogadores chorarem. Dentre eles o goleiro Júlio César, que pôde ter se redimido do fracasso contra Holanda na derrota na África do Sul, quatro anos atrás, mas não sabia o que estava lhe esperando no jogo subsequente com os alemães. Além disso, outros jogadores como Tiago Silva, capitão do time (mas muito jovem para função), também demonstraram desequilíbrio emocional, quando se recusou a bater os pênaltis e ficou sentado em lágrimas, aguardando o final da disputa.  A imagem que ficou na imprensa internacional e nos times adversários, é que a seleção canarinho não passava de um bando de garotos assustados, que diante das adversidades comportavam-se como bebês chorões. Ora, jogadores são emotivos e choram quando ganham ou perdem uma partida difícil, mas chorar antes de dar um chute? Faça-me o favor!! Quando perdeu Neymar, seu melhor jogador, no jogo contra a Colômbia, na ocasião em que o zagueiro colombiano Zuñiga, acabou com as costas do atacante brasileiro, fraturando uma vértebra de sua coluna, parecia que um edifício tinha desabado sobre a seleção que perdeu seu astro, o principal referencial, a quem caberia carregar o time nas costas e efetuar os tão necessários gols que levariam o Brasil a final. No final do jogo anterior, pegando uma psicóloga de sopetão, chamada às pressas para trabalhar o emocional da equipe após o jogo com o Chile, revelou-se que a comissão técnica brasileira não procurou auxílio profissional adequado antes do início do torneio, e o que é pior: tudo indica que lidou com péssimos profissionais do ramo.

e) ARROGÂNCIA: pesou na seleção brasileira também a arrogância típica de uma comissão técnica e mesmo de parte da mídia que achava que, na condição de pentacampeões mundiais, não tínhamos que dar ouvidos a ninguém e tão somente confiar na força da esmagadora torcida nacional, que levaria naturalmente e com facilidade a seleção canarinho ao hexacampeonato. Ledo engano! A desgraça do Mineirão fez com que muitos não apenas acordassem, como outros passassem a cultivar o contrário: um sentimento de inferioridade que levou muitos, inclusive, a torcer pela seleção rival, autora da goleada, como muitos brasileiros que viraram, do dia para a noite, torcedores alemães. Não bastasse a memória de passarinho do torcedor brasileiro, ou mesmo sua alienação diante de uma realidade que lhe bate a porta (vide a edição deste ano da Taça Libertadores, sem nenhuma equipe brasileira disputando as semifinais do torneio continental), a arrogância brazuca foi seriamente fustigada pelos gols do artilheiro Müller e companhia. Nem o locutor Galvão Bueno, conhecidíssimo pelo bordão da torcida "Cala a boca, Galvão!", e pela sua predisposição de transformar uma narração de jogo numa peça de propaganda, não resistiu a débaclê da seleção brasileira, e anunciou, antes do sexto gol dos alemães no jogo das semifinais, que o futebol brasileiro estava acabado. Quem te viu, quem te vê! Há pelo menos um jogo antes, contra a Colômbia, Galvão falava, com o peito de pombo empolado, que a seleção brasileira era a melhor do mundo. Quanta hipocrisia! Quanta arrogância! Ao esquecer de mencionar o jogador Rivaldo dentre os grandes que outrora compuseram o histórico de glórias da seleção, Galvão acabou comprando com o ex-jogador uma briga nas redes sociais. Briga de cachorro grande, poderão alguns dizer. Briga de Vira-latas, se pensarmos que o brasileiro, com a derrota do dia 8, perdeu toda sua arrogância.

f) MÁ GESTÃO DO FUTEBOL NACIONAL PELOS SEUS DIRIGENTES: não é de hoje que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), dirigida outrora pelos controversos Ricardo Teixeira e José Maria Marin, é alvo de críticas da imprensa esportiva especializada, de jogadores e técnicos de futebol avessos ao aparelhismo e negociatas da entidade, bem como é objeto de desafeto do próprio governo federal. A CBF hoje é uma instituição vetusta, anacrônica, com dirigentes conservadores, portadores de uma visão ultrapassada sobre o futebol e gerenciamento de clubes. Fruto de uma gestão tosca, o futebol brasileiro não consegue se atualizar, atuando os clubes mais como máquinas de ganhar dinheiro, com a venda de jogadores para o exterior. A desumana rotina dos jogadores dos clubes brasileiros, obrigados a cumprir rotinas fisicamente extenuantes, como a participação em jogos no meio e no final de toda a semana, e o despropósito dos treinamentos entre competições nacionais e internacionais, apenas expõe a fase de uma corporação que funciona mais como empresa, do que como entidade representativa do futebol nacional. A ausência de compromisso e fiscalização da realização de campeonatos, além da falta de fiscalização no endividamento de clubes também demonstra o ambiente fisiológico e clientelista do órgão gestor máximo do esporte. Ao vir à tona as mazelas da entidade, não é de se espantar que muitos pensem que não seria diferente o destino da seleção brasileira e do futebol do Brasil, no vexame que se apresentou nesta Copa.

g) AUSÊNCIA DE RENOVAÇÃO: Além de não renovar a geração de jogadores, o futebol brasileiro não renova suas técnicas (consideradas por muitos como ultrapassadas). Não se joga mais o futebol bonito do tricampeonato e nem o futebol força ou pragmático, das Copas de 1994 e 2002. Perdido em sua deficiência técnica, o futebol brasileiro ainda não passou por uma revolução tática, principalmente pela resistência de técnicos e dirigentes, em aceitar treinadores de fora, como aconteceu com seleções de outros países, ou mesmo em modalidades esportivas diferentes, que encontraram seu eixo após anos de crise, como o voleibol. Pouquíssimos são os técnicos que vão se especializar fora, em estudos sobre o esporte na Europa, bem como não há no país investimento nas categorias de base, com exceção de poucos times, como o Santos. Além disso, o endividamento dos clubes não permite que jovens jogadores talentosos sejam mantidos no país, pois devem ser vendidos pelos seus clubes, a fim de pagar dívidas em salários atrasados de outros jogadores ou mesmo de um time inteiro, ou sirvam simplesmente para quitar débitos trabalhistas na Justiça. O fosso é imenso quando se pensa a realidade do futebol brasileiro e se vê a realidade de países de futebol forte e rico economicamente e taticamente, como Alemanha e Espanha. Se não quiser desaparecer, o futebol brasileiro necessitará se renovar.

h) UMA LEGISLAÇÃO QUE NÃO AJUDA: pra completar, a goleada do dia 8 de abril fez também se repensar a necessidade de uma reforma da legislação em vigor, em especial da Lei nº 9.615, de 1998,  conhecida como " Lei Pelé". Publicada na época com a intenção de democratizar o esporte brasileiro, com a inspiração fortemente neoliberal da época do governo do então presidente, Fernando Henrique Cardoso, a Lei Pelé transformou entidades esportivas e ligas em empresas, passando não mais as federações, mas sim empresários individuais, agenciadores de jogadores, a negociar contratos e a entrada e saída destes de clubes, transformando o futebol num grande negócio, praticamente sem intervenção estatal alguma, como bem defendiam os acólitos da ideologia liberal-capitalista. O prejuízo disso para o esporte é que, sem controle estatal, a vida de centenas de jovens e promissores novos jogadores passa a ser ditada pelas exigências do mercado, e não pelo que ele pode dar em prol de sua equipe ou seleção nacional. Ao transformar o futebol em moeda de troca, a legislação atual ignora o seu papel social, e de como a formação de equipes nacionais coesas depende em certo grau, pequeno mas ativo, de intervenção estatal.

Conseguimos demonstrar diante da derrota para os alemães que, inversamente a eles, não tínhamos nada que eles desenvolveram. A seleção alemã também passou por maus bocados na história do seu futebol, no fiasco da Eurocopa de 2000, e o fracasso do goleiro Oliver Khan nos pés do atacante Ronaldo na Copa de 2002. Algo precisava mudar por lá e efetivamente mudou. Com o protagonismo assumido por suas equipes nacionais nos mundiais interclubes, como os títulos do Bayern de Munique, por exemplo, na última década, o futebol alemão mostrou não apenas força, como também expressividade. Os caras simplesmente passaram a investir mais em suas categorias de base, inibiram a influência deletéria da cartolagem nas decisões sobre gestão do futebol, o Estado teve um papel interveniente, cobrando dos clubes incentivos à educação e formação de jovens atletas nas escolas, e uma legislação austera proibiu que times endividados participassem dos campeonatos, honrando os direitos trabalhistas dos jogadores. O futebol alemão, com seu choque de gestão e responsabilidade passou a ser adotado como modelo ideal. A tática de sua seleção, organizada muito mais em prol de um time e não de individualidades destacadas, também foi o diferencial, que superou, sobretudo, o esgotado modelo de futebol "tiki-taká", adotada pela derrotada seleção espanhola, campeã mundial de 2010, na África do Sul. Os alemães, definitivamente, tornarem-se os caras.

Esse padrão de excelência, como uma Mercedes ou um Wolkswagen de primeira qualidade, talvez justifique a atual germanomania que tomou conta de boa parte dos torcedores brasileiros. Para se ter uma ideia, no dia da final contra a Argentina, eu, torcedor dos argentinos (esquecendo a rivalidade com os portenhos, simplesmente pela paixão e homenagem ao futebol latino-americano), fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que, seja pela rivalidade com nossos hermanos vizinhos, seja pelo encantamento com a força e virilidade da equipe alemã, decidiu torcer pelos germânicos, assim como outrora torcia pela seleção brasileira. Tomou-me de espanto ver um pai de família, todo serelepe e pimpão ao lado do filho, ambos  vestidos com a camiseta da seleção alemã, torcendo pelos chucrutes como se ele mesmo estivesse na Bavária ou numa taberna de Munique, com direito a chope e salsichão. A imprensa argentina não perdoou essa inusitada adesão germânica do povo brasileiro, e no editorial do Olé, famosa revista esportiva do país, chegou-se a comentar que os torcedores brasileiros sofreriam de algum tipo de Síndrome de Estocolmo (aquela em que os aprisionados acabam se afeiçoando aos seus captores). Afinal de contas, como torcer por um time que na semana anterior lhe humilhou, impondo-lhe uma derrota de sete gols? Será que os torcedores brasileiros não saberiam o que significavam as palavras "orgulho" ou "dignidade"?

A verdade é que, com a derrota para os alemães nos apequenamos. Colocamos o rabo entre as pernas e vivemos a Síndrome do Vira-lata, que tão bem definiu no século passado o dramaturgo carioca Nelson Rodrigues. Em termos de futebol deixamos de ser reis, largamos o cetro da monarquia futebolística, e voltamos para a taba de nossos ancestrais, para nossa aldeia no meio da floresta, antes da chegada dos colonizadores. Outrora os ingleses, que no início do século passado inventaram o futebol e o trouxeram para essas paragens, agora foi a vez de nossos índios receberem os alemães, que ao invés de espelhos, trouxeram uma bola de futebol como objeto de troca. A alusão indigenista é tão forte e cabível que, no começo desta Copa, foi possível ver na imprensa imagens de alegres e sorridentes jogadores alemães, visitando uma aldeia indígena na Bahia, pintando-se e vestindo-se como índios numa cerimônia com direito a pajé; além de afagarem e brincarem com crianças carentes baianas, nas proximidades da hospedagem da seleção germânica, em território baiano. Parecia que os jogadores alemães vieram para cá apenas para fazer um passeio tropical, como efetivamente fizeram, ganhando uma Copa do mundo.  Dá até pra imaginar um deles sorrindo e dizendo: Alles Gutt, brasilianer!! Danke!! Obrigado pela hospitalidade. Foi muito bom golear vocês!!!

Agora, só nos resta lamber as feridas e seguir a vida que segue. Felipão não é mais o técnico da seleção brasileira. Muitos jogadores considerados vilões por sua pífia participação no torneio e péssimo estado físico, como Fred, não deverão mais estar na equipe nacional nos próximos meses e a CBF deverá ter um novo presidente em pouco tempo. São várias as especulações sobre o novo técnico, que pode até mesmo ser um estrangeiro (para arrepio dos futebolistas tradicionalistas e xenófobos), e que terá a incumbência não de vingar um vexame histórico, mas ao menos deixar uma equipe minimamente competitiva para a Copa América do ano que vem, no Chile, e as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Seria uma boa oportunidade para o Brasil curar o remorso e a ressaca de 2014, ganhando uma medalha de ouro olímpica para o futebol brasileiro, nunca antes conquistado, e que competiria finalmente com os dois títulos consecutivos da Argentina; agora, merecidamente, vice-campeã mundial. Só o tempo dirá qual será o futuro da seleção brasileira. O futuro a Deus pertence, mas compete ao povo brasileiro prepará-lo da melhor forma possível, cobrando responsabilidade de jogadores, treinadores, gestores e mesmo do Estado, na reformulação do futebol nacional. Temos que reaprender a jogar futebol. Caso contrário, veremos novas (e tristes) goleadas. PRA FRENTE, BRASIL!!


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