quarta-feira, 18 de junho de 2014

ENSINO: Notas sobre a mendicância estudantil

Quando o célebre pensador suíço, Jean Piaget, desenvolveu na década de 40 do século passado sua teoria dos estágios, ele defendeu que, no processo de aprendizagem de crianças, os professores deveriam estar preparados para os quatro estágios de desenvolvimento cognitivo humano: do sensorial, passando pelo pré-operatório até o operatório concreto e por fim o operatório formal. Isso significava, em síntese, que as crianças só estariam preparadas para aprender o que elas teriam condições de assimilar, conforme o estágio de evolução de sua aprendizagem. Acredito que isso esteja mais aplicado ao processo de educação de crianças e jovens, e menos em adultos; mas não descarto que, no que tange ao ensino superior, ainda existe todo um processo de descoberta cognitiva que pode ser impulsionado pelos professores, para que os alunos universitários (agora chamados de acadêmicos) possam também ter uma experiência educacional rica e que dê frutos positivos.

Em mais de dez anos de experiência docente no ensino superior, eu já vi diversas situações, mas, recorrentemente, sempre ao final de cada semestre, eu percebo tanto em instituições públicas quanto privadas a reiteração de um fenômeno que eu agora denomino figurativamente como "esmola acadêmica" ou "mendicância estudantil". Trata-se do expediente comum a alguns alunos (com a conivência de alguns professores), de se atribuir aleatoriamente notas, com aumento ou distorção das pontuações originais obtidas pelos alunos, para que os mesmos possam passar em determinada disciplina ou matéria. Eu chamo de esmola porque esses aumentos de nota sempre dizem respeito a décimos ou a um máximo de um ou dois pontos que são atribuídos a mais a determinados alunos, que geralmente chegam aos seus professores com alguma história triste, para justificar um desempenho acadêmico ruim. São desculpas e justificativas variadas, que vão desde motivos de doença pessoal ou em pessoa da família, viagens em serviço e atribulações de trabalho ou   até a perda de um emprego, o insucesso financeiro, o fim de um casamento, problemas com os filhos, a morte de um familiar ou até mesmo a perda de uma namorada.

Alguns professores, compadecidos com os problemas pessoais desses alunos, transigem e alteram suas notas. Alguns devem pensar: "Afinal de contas, isso não é nada demais, o que custa auxiliar o próximo num momento difícil!" (nesse momento, colegas professores optam pela saída cristã do problema); ou então se saem com a alternativa pragmática: "Tanto faz se eu aprovo ou reprovo ele por aqui, pois, no final das contas, quem vai reprovar a atuação dele é o mercado quando ele sair daqui, e não eu!". De qualquer forma, o efeito que isso produz no aluno que consegue escapar por pouco da arapuca do sistema educacional é geralmente sempre o mesmo: a sensação de que passou na matéria apenas por uma ajuda, uma "mãozinha" do professor. No sistema interno e semestral de avaliação de professores por alunos, principalmente nas instituições privadas, a impressão que fica é que os professores mais bem avaliados sempre são os mais "caridosos"; ou seja, aqueles que passam de qualquer jeito todos os seus alunos.

Ora, o sistema de avaliação brasileiro ainda segue, na maciça maioria de suas instituições de ensino, o anacrônico sistema de notas por pontos e não por conceitos. Geralmente os alunos são avaliados de 0 (zero) a 10 (dez) pontos, totalizando em testes escritos uma média suficiente para que sejam considerados aprovados. Numa sociedade capitalista onde prevalece o ideal liberal-individualista de sucesso por méritos próprios, o sistema de pontos reproduz a lógica individualista do Do it yourself, materializando-se na escola o que acontece nas relações econômicas, no tocante a livre iniciativa e livre concorrência. Na seleção natural das escolas somente os mais bem pontuados (os mais fortes) são aprovados, ocorrendo o mesmo fenômeno nos concursos para a obtenção de cargos públicos.

O método de ensino pregado por teóricos e professores como Piaget ou Paulo Freire levava em conta a participação do professor na vida do aluno, durante o processo de aprendizagem. Nada mais justo e interessante. O problema é que no modelo do ensino superior brasileiro, principalmente no que tange ao ensino noturno (por si só uma verdadeira aberração pedagógica, porque ninguém deveria ser obrigado a vir estudar de noite), essa participação docente é quase impossível, uma vez que as cargas horárias das disciplinas são limitadas, o tempo que o aluno tem com o professor é exíguo fora de sala de aula, e por mais que o professor faça atividades que despertem o aluno cognitivamente, ainda existe a barreira biológica do stress e do cansaço a que estão submetidos milhares de estudantes de faculdades e universidades com cursos noturnos no Brasil; pois são eles majoritariamente trabalhadores subalternos do setor privado ou funcionários públicos de cargos modestos ou de baixo escalão. São homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras que chegam muitas vezes cansados em sala de aula, e se não dormem durante a aula não conseguem de outra forma interagir com seus professores. Como resolver isso?

Em seu livro "Pensando o ensino do direito no século XXI", o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Horácio Wanderley Rodrigues, propõe um método de avaliação que leve em conta o discernimento e a capacidade do aluno de solucionar problemas e tomar decisões, assim como fazem os membros da comunidade jurídica, nos estudos de casos levados ao conhecimento de juízes, promotores e advogados. O problema é que, muitas vezes, os alunos nas instituições de ensino não conseguem se comportar como juristas, e muitas vezes, não tem sequer o que Piaget define como uma aptidão cognitiva para desenvolver uma experiência sensorial que lhe dê a ideia de algo. Traduzindo em simples palavras eu diria que o estudante de Direito não sabe que é estudante de Direito. O Zé, a Maria, a Raimunda ou o Joaquim que trabalha durante o dia na loja, na repartição, no banco ou no supermercado, não consegue à noite, na sala de aula, transformar-se no acadêmico que tem diante de si casos e soluções jurídicas que precisam ser adotadas por um futuro protagonista do Direito. Na verdade, na sala de aula, no lugar de estudantes de Direito, o professor tem diante de si o mesmo Zé da loja, a Maria da repartição, a Raimunda do banco ou o Joaquim do supermercado, e com eles, todos os problemas que eles trazem consigo como repertório pessoal e que levam para a aula, atrapalhando o seu processo de aprendizagem.

Sou totalmente favorável a um sistema de avaliação que não se limite a apreciação do rendimento acadêmico do aluno baseado tão somente em pontos atribuídos a um teste escrito, como um exame simulado da Ordem dos Advogados ou uma cópia de prova em concurso público. Acredito que a participação em seminários, o debate em sala de estudo de casos, a redação de peças escritas em exercícios práticos, a resenha de livros e a feitura de artigos ou projetos supre bem as deficiências cognitivas de quem quer realmente se dedicar ao estudo de temas jurídicos e ser um futuro profissional do Direito ou das Ciências Humanas com uma boa e sólida formação intelectual. Porém, eu alerto para os obstáculos traçados acima, principalmente no que diz respeito ao perfil social e cultural dos estudantes que chegam aos milhares, todos os semestres, nas portas das faculdades pelo Brasil afora.

Temos o desafio como educadores de transformarmos milhares de Josés e Raimundas em verdadeiros "Doutores Josés ou Doutoras Raimundas". Para isso, é necessário que uma barreira cultural aparentemente intransponível seja superada pelos professores universitários diante de seus alunos nas faculdades de Direito. A superação de papeis sociais estigmatizados e interiorizados por alunos no momento em que entram no ensino superior, que os leva a uma conduta de submissão não apenas econômica, mas também existencial (alguns na sociologia chamam isso de biopoder), limitando seus processos de aprendizagem, a ponto dos alunos ingressarem num curso tão importante como um curso jurídico com o comportamento de quem está ali fazendo apenas um passeio, ou lidando com tipos exóticos de paletó e gravata, tão diferente dos tipos que eles encontram na realidade do seu dia a dia.

Tal dilema, a meu ver, só poderá ser inicialmente concretizado se conseguirmos, como educadores, formular através dos textos de estudo não apenas um aprendizado, mas também um convite. Alunos devem ser convidados a serem acadêmicos, a fazerem parte do riquíssimo universo cognitivo das ciências humanas, dentre elas o Direito, seja mediante atividades de pesquisa e de campo, estudo de casos, e, principalmente, o desenvolvimento de uma relação afetiva com a biblioteca. Os livros devem ser vistos não como obstáculos, mas sim como artefatos sedutores de uma gama de conhecimentos que podem ser descobertos, numa experiência prazerosa em que a sala da biblioteca deixa de ser um ambiente frio e anódino, por conta do ar condicionado ou o mofo de papeis e jornais, e passe a ser um ambiente onde a responsabilidade da aprendizagem a ser cobrada através da avaliação não seja vista como um fardo, mas uma conquista. Obviamente que, nesse sentido, só será possível operar com tais transformações se as instituições dispuseram de uma estrutura física e material mínima, além de um pessoal devidamente habilitado, que tenha condições de conduzir o aluno convidado ao conhecimento, durante sua caminhada de descoberta.

Acredito que somente através da aprendizagem alunos se tornem autossuficientes a ponto de preservarem a autoestima e superarem os problemas pessoais, não deixando que eles atrapalhem ou confundam sua vida acadêmica. Como um Demiurgo, no processo de aprendizagem o professor atua numa construção de mundos, onde o mundo do Zé ou da Maria não é mais o mundo da família ou do ambiente de trabalho, mas sim o mundo acadêmico. Eles tem que saber que esse mundo existe e qual é o seu papel nele. Somente assim, creio, poderemos superar o triste e constrangedor fenômeno da "mendicância estudantil" que aparece em todo final de semestre, após o processo de avaliação, quando estudantes chorosos, com um olhar pedinte, que lembra o personagem do Gato de Botas dos filmes do Shrek, aparecem implorando para ser passados em uma disciplina. Enfim, o estudante deveria se lembrar sempre do adágio popular ao assumir uma posição de pedinte diante de seus professores: "esmola demais o cego desconfia". Ao invés de esmolas de pontos, vamos dar conhecimento aos nossos alunos!!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

ESPORTE: VAI TER COPA....SERÁ QUE DO JEITO QUE IMAGINAMOS?

Após vinte e quatro horas chegamos a mais uma data histórica para o esporte mundial: dia 12 de junho 2014, o dia dos Namorados, mas também o dia onde, após 64 anos, temos novamente uma Copa do Mundo no Brasil e em 24 anos um novo evento desse tipo na América Latina (o último Mundial num país latino-americano foi no México, em 1986). De lá pra cá muita coisa mudou, obviamente. Se há 60 anos atrás tínhamos no pós-guerra uma geopolítica dividida entre dois grandes blocos econômicos e políticos (o capitalista, liderado pelos Estados Unidos e o socialista, sob o comando da hoje extinta União Soviética), o que temos hoje é um mercado capitalista global que passa pela terra dos yankees de Obama, atravessa a União Europeia, formada pela maioria dos países que participam do torneio mundial, até a Rússia de Putin, não obstante a crise na Ucrânia e a ocupação da Crimeia pelos russos lembrar um pouco o clima de "Guerra Fria" de décadas atrás. Na verdade, em termos econômicos o futebol mudou muito, tornando-se de esporte uma empresa. Se, na Copa de 1950, quando os jovens brasileiros da época do meu pai, choraram o "Maracanazzo" na final conquistada pelo Uruguai, os jogadores pobres e semiprofissionais das equipes de várzea ou clubes pequenos daquela época, que amargaram a perda do título, hoje foram substituídos pelos milionários jogadores de times galácticos e europeus como Neymar e Messi, pertencentes a clubes europeus bilionários e estrondosamente bem sucedidos no futebol mundial.

Independente da época,seleção é sempre seleção!
A Copa do Mundo hoje é, acima de tudo, um grande negócio. E como negócio que mexe com milhões de dólares e patrocinadores, sua instituição-mor, a FIFA, avança em cada país sede de um evento tão importante, voraz como um enxame de gafanhotos. Assim foi na África do Sul, há quatro anos atrás, e está sendo no Brasil de agora. O traço em comum ao se tratar de eventos mundiais comuns, nestas duas nações emergentes (outrora denominadas de subdesenvolvidas), é que, tanto em cidades como Brasília, São Paulo e Curitiba, quanto em Pretória, Johanesburgo ou Cidade do Cabo, os jogos se iniciaram com obras inacabadas, uma crítica pesada por parte da população aos gastos do evento e movimentos sociais de protesto que geraram nas redes sociais o famoso hashtag: #nãovaitercopa. 

Marcelo foi o responsável pelo primeiro gol contra do Brasil da história
Na verdade terá Copa, e para a presidente brasileira, Dilma Roussef, essa será a "Copa das Copas". Afinal de contas, nunca antes na história dos países que participaram desses torneios mundiais, a equipe anfitriã do evento foi tão favorita e com um retrospecto tão bom de títulos e partidas. A "seleção canarinho", como é conhecida a equipe brasileira liderada pelo técnico, Luiz Felipe Scollari, conta com a responsabilidade de ganhar o torneio não apenas por ter em seu plantel alguns dos melhores jogadores do mundo, mas também por ser a única das equipes de todos os 32 países que disputam o torneio a ter participado de todas as Copas, ter ganho cinco títulos, e ser a única que ergueu o troféu de campeão nos quatro continentes: 1958 na Europa com a Copa da Suécia; 1962 na América do Sul ao vencer o torneio no Chile; em 1970 e 1994 na América do Norte, ao ganhar, respectivamente, o tri e o tetracampeonato nas Copas do México e dos Estados Unidos; e em 2002, no Japão, quando o país foi novamente campeão na final disputada contra a Alemanha, graças aos chutes potentes de um recuperado e renovado "Ronaldo Fenômeno" no auge da forma, e os vacilos no gol do até então imbatível goleiro alemão, Oliver Khan. Todos os brasileiros sabem disso, o técnico e toda a equipe da seleção sabem disso, e os adversários também!

Nas ruas,apesar da Copa,os protestos continuam!!
Entretanto, esta também será a Copa dos protestos e das críticas aos desmandos da FIFA, a desorganização dos governos estaduais e municipais ao realizar obras de mobilidade urbana inacabadas e malfeitas e os gastos exacerbados para se realizar um Mundial no Brasil, num país com tantas dificuldades de infraestrutura em áreas chave, como nos serviços públicos de saúde, segurança, transporte e bem-estar social. A Copa no Brasil serve para mostrar o país ao mundo, não apenas nos festejos de seus sorridentes torcedores, em paisagens de praias paradisíacas, vestidos de verde e amarelo, mas também na revolta violenta dos ativistas a fomentar o caos urbano, nas suas versões mais comportadas de militantes sindicalistas ou estudantis, protestando como nunca pelas ruas, ou na sua versão mais hardcore, através dos mascarados vestidos de preto, a jogar coquetéis Molotov na polícia, no estilo black bloc. É uma Copa do Mundo que antecede o período eleitoral, e que pode significar o fim do predomínio petista de poder após 12 anos, desde a eleição de Lula em 2002, e uma volta ao neoliberalismo tucano do PSDB de Aécio Neves,  ou pode implicar na opção por uma terceira via, liderada pelo ex-governador pernambucano Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro, ladeado pela ex-senadora e líder ambientalista, Marina Silva.

Se em 94 tínhamos Romário e 2002 Ronaldo, 2014 agora é Neymar!!
O Brasil já entrou em campo neste dia 12 com uma vitória consistente sobre o time da Croácia., num destacado 3 X 1 para os brasileiros. Algo tão esperado que se tornou até enfadonho. A novidade mesmo foi o gol contra, no início do jogo, cometido pelo lateral-esquerdo Marcelo (o primeiro gol contra do Brasil em 84 anos de história das Copas), que por alguns instantes ameaçava estragar a festa brasileira, que finalmente explodiu em grito e coro nas arquibancadas do Itaquerão e no país inteiro, quando Neymar marcou o primeiro de uma série de futuros gols que poderá dar nesta Copa, mostrando porque ele é um jogador tão fundamental para que o Brasil ganhe o torneio. Afinal, foi através do protagonismo de Neymar no restante da partida, fazendo os dois gols que selaram a história do jogo, é que ficou marcada  qual  será a realidade da seleção brasileira nos próximos desafios do torneio (além de severas críticas à leniência da arbitragem). Muitos esperam que essa Copa não seja a Copa do "arrumadinho", como muitos caracterizam a Copa de 1978, na Argentina, quando em plena ditadura de Videla, os argentinos foram campeões contra a Holanda, sob a acusação da seleção peruana ter facilitado a vida dos argentinos, ao ser eliminada por goleada nas semifinais. Espera-se que, para evitar um novo Maracanazzo, a seleção brasileira conquiste a taça com seu esforço próprio e não com o apelo dos governantes. É isso que não só os torcedores brasileiros, mas os amantes do futebol querem para essa Copa.

Estamos contigo, Felipão!!
Não sou daqueles de torcer pelo fracasso brasileiro no torneio, e nem também sou um dos torcedores mais entusiasmados. Na verdade, como amante de futebol, alegra-me ver belas partidas, com jogadores tão famosos e habilidosos, de diversas partes do mundo, dando um verdadeiro show nos gramados, numa apoteose catártica da multidão que lembra os anfiteatros romanos. Entretanto, ser entusiasta da seleção brasileira não significa estar cego aos problemas nacionais ou ser conivente com a roubalheira, desvios e equívocos dos governos, a nível federal, estadual e municipal. Fazendo um jogo duplo, mas eticamente aceito, eu fico dos dois lados da cancela: seja apoiando os torcedores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, que de forma verdadeiramente apaixonada estão defendendo seu time e pátria de coração aberto; assim como estou junto e solidário aos manifestantes que estão fora dos estádios, protestando contra as injustiças sociais, dotados de plena razão.  Nesta Copa não me vestirei de verde e amarelo, pois meu coração já é assim; mas com certeza estarei torcendo não somente pela seleção canarinho, mas também estarei torcendo por um Brasil melhor. Pra frente, Brasil!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

HOMENAGEM: Marinho Chagas-O craque que preferia andar descalço pela Praia do Meio

Na madrugada do domingo, dia 1º de junho de 2014, há exatos doze dias do início da Copa do Mundo no Brasil, após mais de sessenta anos, não só o país, mas também o mundo perdeu mais um de seus eternos craques: morreu Marinho Chagas!

Na seleção, ele foi o cara.
Para os mais jovens que sequer o conheceram, Marinho para muitos se tornou uma lenda. Ele era o maior lateral esquerdo que a história do futebol brasileiro já conheceu, nos anos setenta do século passado, e jogou como titular da seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974, quando se destacou no torneio, marcando quatro gols. Entretanto,  o Brasil acabou vencido nas semifinais pela Holanda  e acabou ganhando apenas o 4º lugar. O popular camisa 6 ainda marcou sua participação histórica no torneio por um lance polêmico, quando então brigou nos vestiários com o furibundo goleiro, Emerson Leão, após a derrota para os poloneses, do craque da época, o jogador Lato. Nessa época, a fama de jogador indisciplinado, mas talentoso, já corria solto nas jornais da crônica esportiva da época. Mas se não fosse louco, meio indisciplinado, não seria Marinho. Assim como Romário foi nosso bad boy dos anos noventa, Marinho era o encrenqueiro sedutor e goleador ágil das décadas anteriores. Para muitos um ídolo, mas para outros, nunca foi reconhecido devidamente.

Com a camisa do Botafogo, ele foi ídolo.
Francisco das Chagas Marinho nasceu em Natal, no bairro do Alecrim, em 8 de fevereiro de 1952. Tinha nascido pouco tempo depois do Maracanazzo, a histórica derrota da seleção canarinho no final do torneio, tombando diante do Uruguai, do artilheiro Obdúlio Varela, naquele que seria o segundo e último título mundial da Celeste. Iniciando sua carreira no minúsculo ABC, time local de sua região, tradicional campeão potiguar, que cresceu e hoje duela com outros times nacionais o G4 da Série B do Campeonato Brasileiro, Marinho jogou também no Náutico de Pernambuco, mas sua estrela foi brilhar mesmo junto a estrela solitária do meu Glorioso Botafogo, do Rio de Janeiro, onde ele se tornou um dos grandes craques. Intuitivo, Marinho era o tipo do lateral muito comum hoje em dia, mas raro em sua época, que não se limitava à defesa de sua posição, partindo para o ataque, assim como fez seu antecessor, Nilton Santos, outro ídolo botafoguense e da seleção brasileira, campeão em 1958. Apelidado de "Bruxa" pela torcida, por conta do longo cabelo loiro, despenteado, ou de "Canhão Nordestino" pela potência de seu chute, Marinho ficou no time alvinegro carioca por cerca de quatro temporadas. Não demorou para que o estilo de Marinho chamasse a atenção do técnico Zagallo, outro botafoguense fanático, que sabendo da fama do lateral no time carioca, decidiu convocá-lo para a seleção brasileira.

Em plena Copa do Mundo, contra a Polônia.
Mas foi a Copa de 1974 que deu fama e celebridade eterna a Marinho. Eleito um dos melhores jogadores do torneio, apesar do Brasil não ter conquistado o esperado tetracampeonato, Marinho cultivou a fama como todo jogador deslumbrado, nordestino e de origem pobre, que quando ganhou se torna um astro, passa a conviver com o melhor e o pior do sucesso, vivendo um ciclo inevitável de apogeu e decadência. Marinho ficou milionário com os contratos que passou a firmar com clubes famosos, disputou inúmeros torneios nacionais e internacionais, viajou muito, adquiriu bens, comprou carros e imóveis, e saiu com algumas das mulheres mais bonitas do mundo. Nos anos setenta, onde a moda pós-hippie era usar cabelo grande, calça boca de sino, fumar cigarro Continental e andar de Maverick, ao som de Rolling Stones (no auge naquela época) e Roberto Carlos, Marinho Chagas foi o estereótipo do bon vivant. Antes de Romário ou Adriano, ou das farras dos jogadores pagodeiros de hoje em dia, Marinho já tinha seu histórico de drogas, (muito) sexo e rock'n roll. Junto com a fama e os chutes vieram carreiras e carreiras de cocaína, nos embalos de sábado à noite que pareciam não ter fim, e nas baladas veio o álcool, muito álcool.

Marinho envelhecido, mas em uma de suas fases mais saudáveis.
Talvez o álcool tenha sido o grande vilão na história da "Bruxa" potiguar; ou, ao menos, o fator crucial para que sua vida se abreviasse no último final de semana, aos 62 anos, completados em fevereiro deste ano. Marinho não escondia de ninguém o seu vício, e mesmo sua família já estava acostumada aquele tipo  atlético que foi ficando esquálido com o passar do tempo, devido a doses cavalares diárias de bebida alcoólica. Assim como Garrincha, Marinho encontrou seu fim na garrafa, e se as complicações de tantos anos de alcoolismo não comprometessem seu organismo, a ponto de ele morrer por hemorragia intestinal, após passar mal em um evento de figurinhas da Copa, com certeza a cachaça o teria destruído de outra forma, fisicamente e moralmente. O Marinho, que turistas ou moradores da cidade de Natal viam nos últimos anos, era um Marinho bem diferente do sedutor lateral loiro da década de setenta. Mas com seu alcoolismo, Marinho era feliz do seu jeito. Recordo-me de uma das últimas imagens que tenho dele é ao passar pela Praia da Redinha, e vê-lo caminhando calmamente, passo trôpego e sem camisa pelo calçadão da praia, a pele branca e enrrugada avermelhada pela ação inclemente do sol e a aparência de quem era a sombra do que já foi. Marinho não queria mansões, mulheres ou carrões no seu fim de vida como jogador. Para ele bastava a areia quente e fofa da Redinha ou da Praia do Meio, seus lugares prediletos. Para ele bastava ser aquele garoto do bairro do Alecrim que gostava de ir a praia, e um dia descobria que podia rodar o mundo com seu talento.

Na época do Cosmos, em que ele estava no auge.
Marinho Chagas ainda jogou nos Estados Unidos, no Cosmos, junto com Pelé, além do Augsburg da Alemanha, o Fluminense e o São Paulo, quando encerrou a carreira, em 1988. Em todos os seus times ele deixou sua marca de gols, o carisma e uma profunda irreverência. Ficou para a história o lance em treinamento em que Marinho deu um "chapéu" no próprio Rei Pelé, com um sorriso maroto, como que dizendo: "no campo todo mundo é igual". Sem fazer a menor questão de aparecer, Marinho apareceu muito, e se tornou a idílica cara do futebolista de sua época. Porém, engana-se quem pensa
que Marinho tornou-se mais um daqueles jogadores ricaços, empreendedores, que a exemplo de Pelé construíram toda uma imagem e um patrimônio empresarial com base na carreira bem sucedida que tiveram como jogadores. Marinho está mais para outro gênio que sucumbiu a ignorância quase inocente sobre seus próprios vícios: Garrincha. Assim como Mané, o gênio das pernas tortas, terminou a carreira na decadência do alcoolismo, ou acabou sofrendo com os efeitos deletérios da bebida, como Sócrates, Marinho também perdeu a vida pelo resultado de anos e mais anos de birita. Mas seu alcoolismo tem algo de romântico, se é que alguém consegue conceber um vício dessa forma, sem apresentar asco, ojeriza ou ferir algum imperativo moral. Digo isso porque, apesar da bebida, Marinho simplesmente morreu fazendo as coisas que gostava, na cidade que nasceu e amava e foi reverenciado como o ídolo que sempre foi, ao ser descoberto nos gramados.


A capa do Novo Jornal, no dia  de sua morte.


Irrita-me, portanto, ouvir alguns dizerem que Marinho não passava de um bêbado, e seu nome só voltou a ser lembrado depois que morreu, como acontece com qualquer celebridade. Apesar do fantasma do alcoolismo a sempre espreitá-lo como a sombra fantasmagórica da morte, nos últimos anos, com a proximidade da Copa do Mundo no Brasil, Marinho Chagas passou a ser redescoberto e seu trabalho relido. Ele viu a construção de uma estátua em sua homenagem, virou comentarista da versão local do canal Band Sports, era chamado para eventos, onde se falava de futebol e da contribuição histórica que deram ele e outros craques. Afinal, foi num evento de figurinhas da Copa do Mundo que Marinho assumiu sua última função prazerosa em torno do esporte, antes de passar mal e vir a morrer no hospital. Acima de tudo, Marinho percebia que era querido, e morreu sendo querido.

Lembro-me da última recordação vívida que tenho de Marinho, das diversas vezes que eu saía para trabalhar e passava em meu trajeto pela Avenida Café Filho, na Praia do Meio. Numa dessas andanças avistei Marinho Chagas caminhando, de óculos escuros, com a camisa retirada e guardada acima do ombro, apenas de bermuda e de pés descalços na calçada quente, da orla da praia ao meio dia. Sua pele, pálida mas avermelhada e enrugada, surrada pelo sol, combinava com os velhos cabelos loiros desgrenhados, demonstrando um senhor de meia idade em fim de festa, aposentado, mas vivendo dos feitos do passado. Sei do relato de outro amigo que me disse que uma das diversões de Marinho era pescar peixinhos na praia para seu aquário, caminhando pelo calçadão com um saco plástico cheio de água, repleto de pequenos e coloridos peixes. Não era de carros, iates, mulheres bonitas ou mansões de que gostava Marinho Chagas. Marinho gostava mesmo era de perambular, tomando sua cachaça e pescando seus peixes, nas praias do Meio ou da Redinha.

Tchauuuu, Marinho!!
Que me fique na memória, portanto, não aquele jogador pujante, cuja imagem já está marcada no imaginário de milhares de amantes do futebol, e registrada como uma das mais belas páginas da história do esporte. Por conta disso Marinho já está consagrado. Para mim, ao menos nesse texto, que fique na minha lembrança aquele senhor de meia idade loiro, de pele avermelhada de sol e enrugado, que gostava mesmo era de caminhar pela praia, tomando sua caninha. Que pena que ele não viveu suficiente para ver a Copa do Mundo ser realizada em sua própria terra natal. Descanse em paz, Marinho Chagas!
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