segunda-feira, 30 de agosto de 2010

TRAGÉDIA DOS 33 MINEIROS NO CHILE: A vida no buraco ou a vida é um buraco??

Podem me chamar de maricas, mas meu coração de fato dá um aperto e as lágrimas descem quando vejo na TV as imagens de 33 mineiros chilenos de San José, soterrados em mais de 700 metros de profundidade no fundo da terra, em pleno deserto de Atacama, totalmente desorientados, esquálidos, barbudos, suados e com seus olhos esbugalhados, enquanto esperam um socorro que pode durar até cinco meses. A tragédia que se iniciou (pasmem!) no dia de meu aniversário (foi em 5 de agosto que a entrada da mina desabou começando o calvário dos trabalhadores soterrados), parece que fez a mim e a uma boa parte do mundo o momento de despertar  para um sentimento humano, tão genuinamente humano: a compaixão!

Foi com o coração repleto de compaixão, mas também por um digno sentimento de justiça e revolta, que Neftali Ricardo Reys Basoalto, mais conhecido como Pablo Neruda (1904-1973) escreveu em 1939 e publicou em 1950, o poema épico Canto Geral, em homenagem aos mineradores de carvão da região andina, que Neruda conheceu quando atuou como senador e ativista do partido socialista.  Diplomata, militante político, senador da república, jornalista e poeta, Neruda foi um dos mais importantes poetas do século XX, e suas poesias que combinavam tanto um amor intenso quanto um sentimento de justiça, encantaram o mundo, fazendo com que ele ganhasse, enfim, o prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter quase concorrido à presidência do Chile, em 1969, ano em que declinou do convite em prol daquele que viria, assim como Che Guevara, a se tornar um mito: Salvador Allende. Canto Geral é considerado um das obras de Neruda onde se encontra mais presente sua consciência política e ideal de transformação de uma sociedade gritantemente desigual, além de seu clamor por justiça social, denunciando o abuso e a exploração do homem, em versos como Minerais, que retrata bem a situação dos 33 mineradores enclausurados numa caverna, no Chile de hoje:

"Mãe dos metais, te queimaram,



te morderam, martirizaram,


te corroeram, te apodreceram


mais tarde, quando os ídolos


já não podiam defender-te."
 
A mineração é uma das atividades principais da economia capitalista no Chile e todos os anos, centenas e mais centenas de trabalhadores são vítimas de acidentes nas minas de carvão, zinco e cobre da região. A mina de Chuquicamata, ou simplesmente chamada Chuqui, há 1.240 km de Santiago, por exemplo, é considerada a maior mina a céu aberto do mundo e até hoje, mesmo com as sucessivas crises econômicas e os refluxos da economia capitalista, milhares de pessoas são empregadas por mineradoras para realizar atividades extremamente difíceis, insalubres e muitíssimo perigosas.
 
Aqui se revela a ganância do capital, e assim como no poema de Neruda, minha indignação quanto às reais condições das minas chilenas, e de como o trágico acidente envolvendo os 33 mineiros que padecem de angústia e desolação debaixo da terra, poderia ter sido evitado. Durante muitos anos organizações internacionais do trabalho criticam as condições de trabalho dos mineradores chilenos, mas nenhuma intervenção severa é feita pelo Estado, no sentido de coibir abusos. Os anseios da economia capitalista e a ambição da acumulação de capital prevalecem sobre o bom senso, fazendo com que homens e mulheres se subordinem à condições desumanas, a fim de conseguir um emprego e sustentar suas famílias. Essas mesmas famílias que choram o sofrimento de seus entes queridos presos no subsolo, agora são distraídas pela política de pão e circo do governo chileno, que montou um acampamento para os familiares dos mineiros em pleno deserto, com direito à praça de alimentação, telão para assistir novelas e até música ao vivo. Com tantos curiosos ao redor da mina onde ocorreu o acidente, só falta surgir pacotes turísticos além daqueles destinados a Bariloche, onde endinheirados turistas europeus podem tirar fotos da mina soterrada, e quem sabe, até bater um papo com um dos mineiros através de uma sonda cravada no solo, perguntando como é viver como ratos, embaixo de toneladas e toneladas de areia e granito. A cena lembra o filme A Montanha dos Sete Abutres, de 1951, quando um jovem ator Kirk Douglas interpretava um repórter sensacionalista, colhendo os dividendos com a notícia de um minerador soterrado, após um desabamento. É o circo midiático voltado em torno do sofrimento alheio. Enquanto isso, as mineradoras lucram.
 
É justamente a busca incessante do lucro o que mais me aterroriza, pois se transformou num episódio do descaso com a vida e a dignidade humana, no caso dos mineradores chilenos. Desabamentos em minas são comuns desde que o homem começou a desenvolver essa atividade econômica, mas nos países de Primeiro Mundo tais acidentes são prevenidos através de sistemas de segurança altamente eficientes. Um dos princípios básicos na construção de uma mina, com a perfuração da rocha e criação de canais para escoamento de pessoas e objetos, é o de se construir uma rota alternativa, uma trilha de segurança no caso de soterramento, com elevadores, estrutura revestida e tamanho adequado para locomoção, que não foi prevista no projeto de elaboração da mina de San José. O local só possuí(pasmem) uma única entrada e saída para os mineradores, e somando-se a isso o fato de que a região é propícia a abalos sísmicos, o que se tem como resultado é a crônica de um desastre anunciado.
 
Agora só resta aos mineiros esperar e esperar, enquanto fragmentos se sua sanidade vão indo embora a cada passar dos minutos angustiantes e claustrofóbicos de quem está lutando pela vida, mas não sabe se vai ver a luz do dia novamente. O caso dos mineiros chilenos é quase como o de uma condenação, pois o castigo que lhes foi afligido pela incompetência e avareza humana não é previsto nem para o pior dos criminosos. A situação é tão desumana, que nem adianta o sorriso fraterno do atual presidente chileno, Sebastian Piñera, no sentido de transmitir otimismo e esperança para uma nação abismada com o absurdo, do alto de sua cabeleira grisalha de empresário riquissimo e porte jovial de cantor de churrascaria. A imprensa noticia que caso aqueles pobres coitados soterrados sobrevivam a essa apocalíptica intempérie, seu caso servirá ao menos de fonte de estudos para a psicologia e a psiquiatria, já que todos garantem que, se algum deles sair de lá onde se encontram, provavelmente saíram todos com algum distúrbio psíquico severo. Ah, tá!! Fico me colocando na posição de alguém que se encontra soterrado porque estava tentando simplesmente sustentar sua família, e me pergunto: "quer dizer que esse perrengue todo que estou vivendo é pra virar um rato de laboratório?? ". Eu poderia dizer: "Quero é que me tirem daqui!!!".
 
Imagino quantos dos mineiros minimamente saudáveis que ainda existem no local (cinco deles já estão prostrados, catatônicos, com graves sinais de depressão) vão ter forças para tentar se distrair enquanto o socorro não vem. Uns vão praticar algum exercício físico, outros vão se debruçar sobre  a leitura ou a escrita, enquanto outros vão passar o tempo jogando dominó. Fico pensando: quanto absurdo, quanta tristeza!! Parafraseando Neruda, termino com mais de um seus versos, traduzindo a tristeza daqueles que não podem mais ver a luz do sol, e que nesse exato momento, seu contato com o mundo e com seus entes queridos se dá tão somente através de uma sonda, da espessura de uma lata de refrigerante: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo!" Boa noite, mineradores chilenos!

domingo, 22 de agosto de 2010

SORTEIO:Uma dica para ganhar na Mega Sena acumulada a partir de uma novela da Globo

De Otavio Brum:

Não são meus parcos conhecimentos matemáticos que poderão levá-los ao prêmio de R$ 31 milhões da Mega Sena, ou a outras premiações milionárias futuras. Nada disso. Minha habilidade com os números se resumem nas 4 operações básicas, pelo amor à música e ao jogo de xadrez.


Tampouco irei oferecer algum esquema mirabolante, pois foi com Bukowski que aprendi o quanto isto não funciona. Inclusive, isso me levou ao meu primeiro divórcio – mesmo que não tenha levado adiante a minha ideia de virar um apostador costumaz em cavalos.

Desculpem o interlóquio. Mas sou virginiano, preso aos detalhes, e preciso me apresentar minimamente para tentar convencê-los da seriedade de minhas ponderações. Nunca fui um grande vitorioso em nada na vida. Portanto, também não é nenhuma história autobiográfica que lhes sirvam de exemplo que lhes ofereço.

O que vou lhes apresentar é algo da Toscana. Mais precisamente da Toscana de Sílvio de Abreu, por mais tosco que lhes pareçam. Mergulhando no universo da fantasia e aprendendo a ler nas entrelinhas da Arte, absorvendo o fulgor criativo das mentes brilhantes que produzem o que há de melhor na teledramaturgia brasileira, verão o quanto poderão aprender sobre o domínio da estatística. E é isto o que nos interessa: a passione pelos números!

E é esta a minha grande pretensão: conduzi-los e ajudá-los a desbravar este mundo da criação. Pois não é o domínio da estética mas o da estatística que eleva Sílvio de Abreu a condição de gênio. Verificaremos que não são só histórias magistrais que podemos esperar do autor. Não só queremos como esperamos muito mais: as 6 dezenas da Mega Sena, por exemplo.

Vamos aos fatos. O primeiro acerto é o de não precisar onde fica o sítio de Totó. Aqui já temos a primeira lição de freio à impulsividade imaginativa. Totó não é o cachorro, mas o personagem de Toni Ramos, como poderiam pensar àqueles acostumados ao era uma vez... Bom, o sítio fica em Toscana e cada um pode imaginar por si só qual o lugar mais adequado para situá-lo na região. Isto é uma delícia e faz com que cada um tenha seu sítio próprio, único, idiossincrático diria, como se estivéssemos lendo um livro ao invés de estar assistindo a novela das oito.

Sobre isso que disse agora, não estou muito certo. Alguém que assista diariamente a novela pode me alertar de que o sítio fica no lugar tal e tudo se ir por água abaixo. Mas isto também pode acontecer ao marcarmos o bilhete, tomem cuidado! Porém, ainda assim nada está completamente perdido. Afinal se errarmos em um ponto, ainda nos resta sonhar com a quina...

Pelo que entendi, Totó é filho de Bete Gouveia. Foi criado longe da mãe porque era um bastardo. A mãe não sabia que o filho estava vivo e que morava na Itália. Bete mora em São Paulo, aqui no Brasil. Ah, sim! Não podemos esquecer dos números. Afinal, nosso real interesse é o de ganhar na loteria. Portanto fiquem atentos: na região da Toscana vivem 3 milhões 619 mil e 872 habitantes, já na Itália há 60 milhões 303 mil e 800 pessoas. Mas acho que isso não importa muito. Nosso interesse é por apenas 4 italianos neste universo todo: Totó, Agnello, Agostina e Berilo.

Agnello e Agostina Mattoli são filhos de Totó. Berilo Rondelli casou-se com Agostina na Itália. Porém migrou para o Brasil. Para São Paulo, cidade de 11 milhões 37 mil e 593 habitantes. Maior cidade do hemisfério sul, sexta maior do mundo. Para não perder o embalo dos números, em nosso País vivem 191 milhões 480 mil e 630 indivíduos.

Toni Negri, também italiano, nos interessa muito. Mas não se trata de um quinto italiano em nossa lista. Deixamos de fora. É só por que lembrei de que era ele que falava o quanto fica impressionado com a criatividade das pessoas que lutam pela sobrevivência em países ainda em desenvolvimento. Mas nossa criatividade para descolar algum não nos interessa. Porque só nos resolve o aqui e agora e permanecemos sempre duros! Estamos mesmo de olho é no quinhão milionário das loterias acumuladas. Isto sim resolve definitivamente o problema de qualquer um!

Berilo, ao contrário de Negri, é um italianinho safado. Quando chegou à Terra da Garoa tratou de juntar seus trapinhos com Jéssica da Silva Rondelli. Jéssica é filha de Olavo da Silva. Olavo também é o pai de Totó, portanto avô de Agostina. Fiquem atentos pois são nestas entrelinhas todas que estão os segredos que devem ser desvendados para se tornar o maior vencedor de loterias que se possa ter notícia! Vencer quantas vezes quiser, ou melhor, apostar. É algo para deixar o falecido João Alves com suas duzentas e vinte e uma premiações no chinelo!...

Agnello quando chegou ao Brasil teve um affaire com Stela Gouveia. Estela é esposa de Saulo Gouveia. Saulo é irmão de Totó e tio de Agnello. Foi um romance rápido. Agnello tratou de sair por aí, pelas ruas de Sampa e procurar carne nova. Quem encontra? Lorena Gouveia! Lorena, filha de Stela e Saulo. Não é fantástico? Agora sim estamos quase no final. Algo sem muita relevância neste mundo de probabilidades, mas é mais um dado que temos que acrescentar. Afinal, não podemos deixar nenhum detalhe de lado se quisermos apreender bem as técnicas que irão nos transformar em grandes ganhadores! Olavo está de casa nova. Comprou um bela mansão. Se ganharmos o prêmio, poderemos fazer o mesmo. Agora Bete Gouveia tem vizinho novo: o pai de Totó mora na casa ao lado.

Agora me digam: alguém que escreve com tamanha propriedade este mundo de encontros possíveis, alguém que domina de tal forma o magnetismo dos afetos e os aproxima de forma tão nobre como o horário da novela das oito, enfim, alguém que desconhece o improvável e daí faz sua arte, alguém que manipula sonhos de maneira tão sutil, alguém que nos faz crer que tudo realmente é possível, não é mole para este alguém nos dizer quais as seis dezenas que serão sorteadas?

Sim, se querem ganhar o grande prêmio da loteria, escrevam para o Sílvio de Abreu e digam: ó grande Mago das Probabilidades em quais números devo apostar? Ou vocês acham que quem domina a probabilidade desta forma não vai saber quais os 6 números de um universo de 60 que serão sorteados?!? Mãos no telefone, dedos no teclado. Arranquem esta informação do autor e não esqueçam de meu quinhão – já que fui eu quem lhes deu a dica!

Não os deixem convencer de que o universo dos encontros possíveis dos personagens da Globo se dão por relações incestuosas onde todos – ricos e pobres – vivem uma relação por demais estreita só por causa do fato da Cidade Cinematográfica ser muito pequena. Não engulam esta desculpa! Sabemos o quanto o Projac é grande e a empresa rica e poderosa! Não é pelo tamanho da Cidade Cinematográfica que faz com que todos os personagens se encontrem e convivam novela após novela, seja na povoada Índia ou metrópoles como São Paulo, mas por que os autores são verdadeiros Magos da Probabilidade!

E não é só o Sílvio não. Todos eles sabem quais os números serão sorteados! Podem notar que isto se repete em todas as novelas, em todos os horários, em todos os autores! Escrevam e tirem deles esta informação! Se não disserem, twittem por aí: só não ganhei na loto porque a Globo não quis.

Ah, sim! Também não os deixem convencer de que tudo é licença poética. Por mais platônicos que sejam, por mais que expulsem a poesia e os poetas de suas repúblicas. Não é verdade! Sempre se utilizam desta desculpa para suas cagadas! Vão tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas que se utilizaram de licença poética... Isto é balela e a desculpa não cola mais! Digam: licença poética o caralho! Pode ir desembuchando os números logo, ó Mago da Probabilidade!

Mas cuidado, muito cuidado! Eles são seres muito imaginativos, apesar de não parecer tanto. Mas se assistirem ao Vídeo Show saberão o quanto são grandes, todos eles! Previnam-se! Poderão tentar inventar uma nova versão do “licença poética” quando perceberem que a casa caiu e que agora todos sabem que são Magos da Probabilidade!

Podem, por exemplo, tentar convencê-los de que não são Magos da Probabilidade, mas apenas autores. Meros operários das letras. Mas que no mundo da Literatura os personagens têm vida própria. Que os personagens da Globo, como qualquer ser, estão sob a Lei Divina. Que os personagens sofrem de um Karma coletivo muito grave e que são ignorantes, tendo que reencarnar já na próxima novela que segue para tentarem consertar seus erros. Mas são mesmo muito estúpidos e repetem os mesmos erros e assim nunca equilibram suas balanças e tornam a pecar nas mesmas coisas e, mais uma vez, reencarnam na outra novela e não há final feliz que amenize seus karmas. Que eles, os autores, há muito deixaram de representar a realidade social brasileira. Agora retratam a miséria espiritual de toda a humanidade... Eles falam isso só porque são magos e como todo mago que se preze têm seus conhecimentos cósmicos, oras! Não os deixem seduzi-los pelas palavras amenas, e insistam: tá, agora me inicie nos segredos da estatística, ó grande Mago da Probabilidade!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CINEMA: Em "À Prova de Morte", Tarantino é freudianamente pela vingança feminina.

Carros são objetos fálicos. No frenesi do automóvel já sabemos, nos melhores compêndios de psicologia, que veículos são transformados em extensão do falo masculino, como um exercício tosco de virilidade. Quantas e mais quantas propagandas e comerciais de televisão passam todos os dias, em que nós vemos que um carro novo, bonito e possante é visto como símbolo de prazer, exercício de autoestima e satisfação sexual? Lembro-me dos versos da música da banda Mundo Livre S/A, na voz de Fred Zero Quatro, quando ele canta: "todo mundo deveria ter um carro. Senão nem precisava ter testículo. De que serve um testículo, sem carro? Sem o carro, o testículo é um saco!".

Sobre testículos e carros é que me refiro ao filme "À prova de Morte" (Death Proof, no original), de 2007, tardiamente lançado nos cinemas brasileiros, do cineasta renomado e arrebatador Quentin Tarantino. O filme, tendo o ator Kurt Russel como protagonista e vilão, é a mais sublime homenagem aos filmes cult de perseguição de carros dos anos 70, e tem mostrado o inabalável talento de Tarantino nas releituras cinematográficas e na linguagem pop que o consagrou.

Tarantino de fato é o John Ford da pop art cinematográfica. O rei das colagens e metáforas subliminares revelando seus dez anos como balconista de videolocadora. O cara é um esteta, sem dúvida nenhuma. Mas é em prol de sua estética no ritmo de história em quadrinhos  que conhecemos a cada flme personagens interessantes, e estórias tão inverossímeis quanto fascinantes. Tudo nos filmes desse diretor norte-americano é feito para chocar, para estimular nossos sentimentos mais juvenis e pueris num êxtase de video game, de ver vilões caricatos, sangue exageradamente espirrado, malabarismos excêntricos de tiros, lutas e danças; mas o que mais me chama a atenção na obra de Tarantino é o maior expediente que traduz o talento deste cineasta: os diálogos.

É nos diálogos que Tarantino demostra sua fama de ótimo roteirista e cinéfilo, além do existencialismo encontrado na sua forma de fazer cinema, que elevam seus filmes à obra de arte. Quem é que não viu certo lirismo e homenagem tanto a filmes japoneses de ação como aos de faroeste americano, ao ver Kill Bill, volume 1 e 2? Assim como Woody Allen, Tarantino tem as suas musas, quase sempre beldades loiras ou negras, como Uma Thurman na citada saga de violência e espadas de samurai, ou com Pam Grier no elogiadíssimo e cult Jackie Brown. A Shoshana judia,  vingativa e sedenta de sangue nazista de Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios, ou a mesma sexy e totalmente underground Thuram em Pulp Fiction, demonstram isso. Agora temos Rosario Dawson, outra sereia de ébano, no sensual e carniceiro Á Prova de Morte, É Tarantino puro. É cinema de qualidade.

Death Proof é um projeto original montado por Quentin Tarantino, justamente com o diretor Robert Rodriguez, no projeto que não deu certo chamado Grindhouse. Este, tratava-se de uma homenagem aqueles velhas sessões duplas de fim de noite, dos cinemas de bairro, nos anos setenta, em que a plateia comprava um ingresso para ver dois filmes, um seguido do outro. Era uma verdadeira maratona só pra quem é aficcionado por filmes, não namora, e ficava lá sentado por horas a fio, sem um mísero trocado nos bolsos, além daquele usado pra pagar o ingresso, só pra ver os filmes de ação de que gostava. É claro que as novas gerações, embaladas na internet, jamais ouviram falar disso; mas é justamente dessas velhas referências históricas ao nascedouro da cultura pop que se debruça Tarantino, e com essas referências, juntamente com Rodriguez, ambos lançaram simultaneamente nos cinemas yankess: Death Proof e Planeta Terror (esse já lançado no Brasil e muito subestimado). Por conta exatamente da baixa aceitação de público acerca do velho formato apresentado pelos diretores, ao serem lançados no mercado internacional os dois filmes foram distribuídos separadamente, demorando À Prova de Morte, quase três anos pra chegar no circuito comercial brasileiro. Até que enfim!!

O filme, apesar de supostamente se passar nos dias de hoje, é todo montado na estética dos anos setenta (do figurino aos carros) e trata da estoria de Dublê Mike (interpretado por Kurt Russel), um ex-dublê de filmes de ação que se tornou um andarilho psicopata que passa os dias com seu carro, um Chevy Nova todo preto, estilizado com uma caveira no capô; circulando pelos bares das highways norte-americanas, procurando suas vítimas.Estas, são sempre mulheres jovens, bonitas e farristas, que em grupos de amigas saem pra festejar, beber, ouvir música, namorar e fumar maconha, enquanto seu algoz fica à espreita, aguardando a oportunidade de seduzi-las para um passeio de carro. É nessa hora que Stuntman Mike exerce sua fome assassina de terror e velocidade. Mike possuí um carro de testes,reforçado na lataria, totalmente à prova de acidentes, literalmente à prova de morte, e nele o assassino leva suas vítimas, satisfazendo-se em vê-las morrer estraçalhadas com o impacto da colisão. É nessa combinação de carne, ossos, sangue, óleo e metal, que Dublê Mike tem sua satisfação. É nela que o serial killer  tem, verdadeiramente, o seu orgasmo.

É aqui que reside toda a reflexão freudiana no comportamento do personagem de Tarantino, e que revela também as próprias taras desse diretor de cinema; como, por exemplo, a obsessão pelos pés femininos (a cena da perna de uma das garotas sendo decepada, no momento da colisão dos automóveis é incrível). Tarantino faz uma elegia à sensualidade e o erotismo da mulher, com a cena da dança da personagem Butterfly (mais uma alusão à danças eróticas, como a de Uma Thurman em Pulp Fiction ou Salma Hayek, em Um drink no inferno (de Rodriguez, mas com colaboração de Tarantino). As mocinhas do filme são autênticas pin-ups da autoestrada, "anjos lindos" como diz o personagem do filme, que podem conhecer a morte por debaixo das rodas de Dublê Mike, ou se tornarem os anjos vingadores. "Há poucas coisas tão lindas quanto um anjo ferido em seu orgulho!", diz Stuntman Mike. É! Dublê Mike! Com mulher não se brinca!!

É aí que reside a outra face das heróinas de Tarantino. Apesar de estar por cima o tempo todo e castigar suas vítimas, valendo-se do carro como um falo para estuprar e massacrar suas vítimas, Dublê Mike não contava com a mesma fúria pela velocidade de outro grupo de garotas perseguidas pelo assassino, também como ele fanáticas por automóveis e com pé pesado no acelerador. Nessa hora, o filme até então voltado aos diálogos vira um autêntico cult movie de perseguição automobilística, bem ao gosto do cineasta, fã de clássicos dos anos setenta como Bullit, Perseguidor Implacável ou Encurralado de Steven Spielberg. Se Freud estava certo em 1922, quando disse que algumas mulheres tinham inveja do pênis, ao tratar do chamado "complexo de castração"; no filme, as mulheres de Tarantino tornam-se autênticas "pintudas" do volante, quando em sua sede de vingança invertem o jogo de gato e rato, quando transformam o caçador em caça. Em alguns sites de cinema, alguns críticos dizem que, na verdade, Death Proof trata da solidão feminina. Bom, vai entender a cabeça de mulher! Talvez tenha sentido, e todas aquelas mulheres perseguidas e dilaceradas, sob as rodas de Dublê Mike, sejam apenas mulheres jovens, bonitas e solitárias, que largadas pelo namorado, perambulam perdidas pela noite, como românticas almas sofridas, a bordo de seus carros e de sua tristeza, impediosamente esmagadas pelos pedais do acelerador de seu algoz. Sempre há filosofia nos filmes de Tarantino, por debaixo dos diálogos escrotos, sangue e pancadaria. Sempre dá o que se pensar ao ver esses filmes. Mas, de qualquer forma, cuidado ao sair pela estrada à noite, garotas! Principalmente se derem de cara com algum "barza azul ao volante". Aceleeeraaa, Airton!!!!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

EDUCAÇÃO: Um tapinha não dói. Sobre a Lei da Palmada.

Dentre alguns dias será votada a Lei da Palmada. A mensagem enviada pelo governo, baseada na iniciativa de projeto inicial da deputada Maria do Rosário (PT/RS), visa extinguir em definitivo uma instituição milenar: o castigo físico imposto pelos pais a seus filhos menores por conta de malcriação. Será que a lei pega??

O projeto visa alterar a Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e dentre outras medidas, prevê a proibição de castigos físicos tais como: palmadas, beliscões ou qualquer outro meio ou castigo físico que implique em dor na criança ou adolescente. As sanções vão desde acompanhamento psicológico ou psiquiátrico obrigatório até destituição da guarda ou do poder parental, impondo-se ao pai ou mãe severos o artigo 129 do Estatuto, que prevê quais são as medidas legais adotadas contra pais ou responsável. Fico me perguntando qual será a postura daqueles pais estressados que vão ao supermercado com as crianças após um dia estafante de trabalho, no momento em que os meninos começarem a pedir as coisas, o pai ou a mãe nega, e a criança começa a fazer um pleno escarcéu dentro do estabelecimento, sem que ninguém possa lhe dar um pito, ou mesmo um beliscão ou uma chinelada. É, tá faltando palmada, mas pode sobrar permissividade.

No seu livro clássico, A Cidade Antiga, publicado no século XIX, Fustel de Coulanges trata de diversas instituições sociais dos povos antigos, em especial a família. Na família romana, por exemplo, o pater familias, senhor de sua casa, autoridade patriarcal e chefe do lar, tinha poder absoluto sobre seus filhos. Ele poderia, inclusive, matar um filho se o desejasse, em caso de desonra ou desobediência. Dependendo do caso, os filhos poderiam até ser vendidos como escravos, para fins de cumprimento de uma dívida. É claro que o expediente desumano de se humilhar ou torturar filhos foi desaparecendo na era moderna, principalmente quando, após a Revolução Industrial e o advento do século XX, passaram a ser reconhecidos os direitos da criança e do adolescente, mediante tratados e convenções internacionais. As crianças não poderiam mais ser maltratadas e sua mão de obra não poderia mais ser utilizada na fábrica. É claro que o modelo de sociedade anglo-saxônica, simbolizada pelo padrão wasp da família norte-americana, era simbolizado nos anos 50 pelo seriado de televisão Papai sabe Tudo, em que no modelo conservador os pais combinavam severidade, respeito, mas obediência incondicionadas dos filhos, sob pena de levar umas boas palmadas.

Ocorre que o projeto de lei encaminhado pelo governo e que conta com uma boa alta de rejeição popular (ao menos entre os internautas, na última pesquisa, cerca de 70% dos ouvidos são contra a aprovação da lei) mexe com uma questão antiga, revisitada pela ideologia liberal: até que ponto pode o Estado se intrometer em assuntos privados, relacionados à educação dos filhos por seus pais, ingressando nas querelas típicas do ambiente familiar? Muitos pais se perguntam se não tem mais o direito de educar seus filhos como lhes convém, e alguns, baseados até em preceitos religiosos, justificam sua rigidez na educação de filhos, impondo-lhes, inclusive, maus tratos, como uma forma legítima de orientação de seus pimpolhos, baseada no poder parental tradicional.

Sobre autoridade e legitimidade do poder parental, é interessante fazer menção ao livro do educador Içami Tiba, intitulado Quem ama, educa. No livro, Tiba nos informa que na educação dos fihos não basta apenas o amor, pois o amor por si só não educa, mas sim a consciência que os pais incutem nos filhos de responder por suas próprias responsabilidades. "Com grandes poderes vem grandes responsabilidades", como diria o personagem do Tio Ben a seu sobrinho Peter Parker (alterego do Homem Aranha, nos quadrinhos); e desta forma vemos que pais tem que se equilibrar na função de genitores, na corda bamba de nem ser autoritário demais, e nem permissivo demais. Onde está a justa medida? Talvez a resposta seja dada pela própria experiência de vida e de como nos sentimos enquanto crianças no tratamento que recebemos de nossos pais, e o que de positivo e negativo podemos extrair disso, para assim  pensar uma forma de educar os nossos filhos, de modo que eles não se transformem em monstros carentes ou pedras de insensibilidade.

Penso que a dedicação do governo em ver aprovada a Lei da Palmada, deve-se muito ao próprio histórico do presidente, narrado de forma interessante e transformado em filme na elogiada biografia de Lula, escrita por Denise Paraná (Lula, o filho do Brasil). Hoje sabemos e é público e notório que nosso presidente não teve uma das infâncias mais felizes. Ao contrário, diante de um pai severo, alcoólatra e que lhe dava sucessivas surras, é natural que hoje Lula defenda a extinção dos castigos físicos em crianças e adolescentes até porque sentiu isso na pele, mas resta saber até que ponto os pais podem efetivamente castigar os seus filhos ou não.

Lembro-me de uma conversa interessante que tive com meu querido amigo Roger Rocha, hoje músico talentoso em Curitiba e pai de família, que me disse que em sua infância passada em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, ele fez amizade com crianças pertencentes a uma família de chilenos que morava no mesmo condomínio em que residia. Ele me disse que numa das travessuras comuns praticadas no universo infantil, onde crianças promovem algazarras para querer chamar atenção, ele foi repreendido por um dos pais dos meninos, chegando a ser, inclusive, puxado pela orelha pelos corredores do prédio. Ele me falou que era comum no Chile os adultos repreenderem as crianças, mesmo que não sejam seus filhos. Fico imaginando essa cena nos corredores do Congresso Nacional, diante dos pasmos legisladores defensores do projeto da Lei da Palmada. Imagino a mesma cena em uma das diversas escolas católicas, de padres e freiras onde já estudei, onde a palmatória, as palmadas, os puxões de orelha e os beliscões são naturais dentro de um ambiente conservador e imensamente tradicional.Será que vamos reprimir também a educação severa nas escolas?

Pode-se dizer que tive uma educação rígida, pelo fato de ser filho de militar, mas quem na verdade me impôs mais castigos através de surras de cinturão, na minha infãncia, foi minha amada mãezinha. Hoje, compreendo enormemente as palmadas sofridas, até porque fico imaginando minha mãe, coitada, sozinha com um marido embarcado cheia de afazeres, tendo que administrar um lar com dois filhos pequenos e uma criança altamente hiperativa como  eu fui. Daquele menino irascível que gostava de jogar pedras em ônibus e tacar fogo em casas e animais eu necessitava realmente de um corretivo, e a forma que minha mãe utilizou após muita conversa sem resultado foi realmente apelar para o cinturão. Não a recrimino, creio que hoje, depois de algumas chineladas, pude refletir o quanto ter passado ou não por castigos físicos fez o homem que agora sou. É claro que aqueles que lêem estas linhas deste blog devem ter histórias diferentes para contar, e muitos aqui sequer levaram um beliscão de seus pais ou tiveraam um modelo de educação bem diferente. Que bom que seja assim! Agora revelo que o fato de ter levado umas palmadas na infãncia não me tornou, por conta disso, um indivíduo traumatizado, doente ou que necessitasse de cuidados especiais por conta disso. Pelo contrário, até certo ponto, o castigo físico imposto se não foi desnecessário, ao menos contribuiu de certa forma para a minha formação de caráter. Posso ter agido sem limites, mas os castigos afligidos por meus pais me deram consciência desses limites.

O problema de estabelecer uma política punitiva de coibição de abusos, sem levar em conta uma legislação que promova um giro educacional, é o grande problema da produção de leis no Brasil. Tentou-se coibir o consumo desenfreado de álcool e os acidentes de trânsito com a Lei Seca, assim como foram atacados os casos de violência doméstica, com a Lei Maria da Penha, ou o fumo dentro de estabelecimentos fechados, com a Lei Antitabagismo, agora me pergunto até que ponto pode ser eficaz uma lei que lida com aspectos eminentemente privados e de foro íntimo das famílias brasileiras e até certo ponto insignificante do ponto de vista legal, como se trata do caso de meros puxões de orelha, palmadas ou beliscões. O que irá acontecer com os pais que resolvem dar umas palmadinhas nos filhos desobedientes, que se comportam mal? Teremos uma pilha de processos de destituição de guarda nas Varas da Infância e Juventude? Haverá um batalhão de psicólogos à disposição nos postos de saúde, para atender pais perturbados que decidiram dar um puxão de orelhas nos seus filhos? Na hora em que alguém se estressar com seu filho malcriado, será que vai ter olhar para os lados, para ver se não tem na espreita algum conselheiro tutelar? Ou será que birra de criança malcriada vai virar caso de polícia?

Conheci mães que de tão enérgicas com seus filhos chegavam a resolver a parada na base do tapa no pé do ouvido, como outras que de tão permissivas, chegavam a amolar a vizinhança inteira com a falta de autoridade perante seus filhos peraltas, que azucrinavam pessoas como eu que tentavam estudar em casa, com gritos e choros convulsivos de malcriação. Acredito que o ECA já esteja aí para impedir graves violações aos direitos das crianças e adolescentes, e tem feito bem seu o seu papel, agora não posso comparar à tortura ou violência física o simples fato de dar uns tapas no traseiro de uma criança desobediente, mimada e malcriada. Acredito que pais que agridem seus filhos geram adultos inseguros, medrosos ou revoltados, assim como pais permissivos contribuem no desenvolvimento de filhos que se tornam adultos inconsequentes, irresponsáveis, imaturos e insensatos. Não sou adepto da pedagogia da palmatória e longe de mim oferecer qualquer mal físico a quem quer seja, mas não tiro a razão dos pais que para manter sua autoridade, se valem da força física como meio de exercício da autoridade. Mesmo aqueles que não tem religião não conhecem o mandamento bíblico: "respeitarás teu pai e tua mãe"? Basta de agressões, basta de maus tratos, mas também não vamos incentivar a impunidade infantil!

Em tempo: não tenho filhos. Deve ser por isso que estou escrevendo este artigo!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

COMPORTAMENTO: Quanto vale ou é por quilo?? Sobre a maldade dos jogos.

Semana passada, andando pela cidade de Natal, vi uma cena curiosa: um carro zero quilômetro empacotado pra presente na frente de uma famosa churrascaria da cidade. Perguntei para o colega ao meu lado se ele sabia do que se tratava, e ele me disse que aquela churrascaria tinha uma promoção inusitada: quem comesse até 8 kg de carne no almoço ganharia o carro. Soube de um turista gaúcho, um senhor de acentuado corpanzil que se sentou no lugar para comer e soube da promoção. Como sabemos, gaúcho é um povo acostumado a comer muita carne, e o serelepe gaudério inventou de topar o desafio das carnes, chegando a ingerir 6 quilos e meio de carne, até ser levado ao hospital, direto para uma lavagem estomacal. No que tange à carne vermelha, o organismo humano leva horas para digerir tanto alimento, podendo variar de um período de 24 horas numa boa churrascada até 3 dias. Isso acontece porque o alimento leva de seis a oito horas para sair do estômago e ir para o intestino delgado. Imagine então um estômago entalado, tal qual areia colocada no cano de escapamento de um carro. O estrago é grande, você não acha?

Fico imaginando pessoas que ameaçam morrer de tanto comer só pra conseguir um veículo novo, ou que fazem qualquer tipo de esforço físico sobre-humano tão somente para conquistar um prato de comida ou ganhar alguns trocados. Fico pensando naquelas provas imbecis do programa Big Brother, em que nove idiotas se submetem a testes vexatórios, como ficar acordado em pé uma noite inteira dentro de uma caixa de vidro ou de permanecer horas segurando a chave na porta de um carro, só para levar como prêmio o veículo ou dez, vinte ou trinta mil reais antes de ser eliminado no paredão, com um indefectível Pedro Bial ao fundo da tela. A cena ainda faz me lembrar outra, de um clássico filme do diretor Sidney Polack, de 1969, chamado A Noite dos Desesperados, que retrata a Grande Depressão americana, em que casais de jovens trabalhadores desempregados passavam horas dançando até caírem exaustos em concursos de dança, para ganhar algum dinheiro do prêmio. Quanto vale a dignidade humana por um prato de comida? Quando vale o orgulho, a autoestima, a autopreservação, a valorização da vida, quando se é permitido fazer tudo para conquistar um prêmio:um carro, uma casa, um cheque polpudo ou uma loteria? Quando é que separamos o verdadeiramente humano do inumano?

A lógica liberal-capitalista é a do laissez faire, ou seja, para o homem livre tudo é possível na busca do êxito pessoal, até mesmo machucar a si próprio. A lógica da automutiliação de alguns perfomers de piercing é de se pendurar com ganchos pelos mamilos, como fez o ator Vincent Harris, no filme Um homem chamado cavalo, simulando um ritual indígena.Às vezes penso que a lógica sadomasô explicitada na obra de terror Hellraiser, do cineasta britânico Clive Barker, aplica-se a alguns competidores dos bizarros torneios televisos, com Lucianos Huck, Bials ou Faustões no lugar de Pinhead e seus cenobitas. É necessário realmente sentir (muita) dor para se obter o prazer da satisfação pessoal de ganhar o prêmio? Pergunte isso para o glutão cliente da churrascaria que vomitou muitos dos quilos de carne que ingeriu, antes de descobrir que até seu estômago volumoso tem limites, e que mesmo os obesos hábeis na arte de comer não conseguem ganhar sempre, mesmo que isso signifique a perda de um carro.

Não sou contra os jogos, e, ao contrário, até os aprecio pois servem para muitas das reflexões filosóficas. Os poetas lidam com jogos afetivos ao tratar da paixão, da sedução, dos afetos,  das emoções, assim como os filósofos da linguagem, como Wittgenstein, analisavam o jogo das palavras. O problema não está no jogo, na competição em si, mas sim no que se busca ao final de cada jogo. Se o velho lema que eu escutava da professora primária no colégio não serve mais, pois o importante é mesmo ganhar e não competir, lamento por outro lado que o sabor passional da competição e substituído pelo vício, pela ilusão tétrica da vitória a qualquer custo, mesmo que pagando o preço da própria vida. Sobre isso, recordo de outro filme, esse uma película espanhola, chamado Intacto, de 2001, do diretor Juan Carlos Fresnadillo; em que Tomás,  (personagem do ator argentino Leonardo Sbaraglia), é um sujeito de extrema sorte, que ao conseguir ser o único sobrevivente de um desastre de avião, é chamado a participar de vários jogos e desafios no sentido de obter o prêmio máximo e derrotar o sagaz e experiente Samuel (Max Von Sidow, impecável), um velho judeu sobrevivente de um campo de concentração que é considerado "o senhor da sorte" e que costuma sair vitorioso em todos os jogos.

E porque não lembrar também do sanguinolento Jogos Mortais, que já virou uma repetitiva franquia com seis filmes, em que entre tripas, corpos despedaçados e sangue aos borbotões, podemos identificar com clareza o empobrecimento do espírito humano quando, ao invés de trabalhar o jogo como uma lógica natural das relações humanas, transforma a competição num combate infernal pela sobrevivência, cujas armadilhas inexoráveis não dão qualquer alternativa a não ser continuar jogando, para jogar e jogar cada vez mais.

Talvez na literatura eu ainda encontre Dostoievski, e sua formidável obra O jogador, onde seu personagem, Alexis Ivanochi, perde sua própria humanidade na jogatina, na busca de seu eterno amor por Paulina Alexandrovna. Em todos esses personagens, do comedor de churrascos do restaurante a Ivanovichi de Dostoievski, todos nós nos deparamos com dramas humanos, tão demasiadamente humanos, e vemos que o espectro de nossa fraqueza está revelada não no começar a jogar, mas no desaprender de jogar. Desaprendemos do jogo no momento em que nós deixamos tomar por ele e nos tormanos o próprio dado lançado na roleta, e não as mãos e dedos lançadores. Ser bom jogador depende de uma psicologia do sujeito, de um controle concreto de seu livre-arbítrio,e da disposição de jogar apenas se realmente o jogo valer realmente a pena. Eu digo isso porque continuo me perguntando pensando a cena inicial da churrascaria: pra que realmente jogar ameaçando ter um infarto por comer tanta carne, se o que me vale mais é o prazer de comer, e não o prazer de ter um carro ao me matar de comer? Talvez essa pergunta possa ser respondida pelo comilão que acabou no hospital, ou ele não tenha mais condições físicas de responder. E você? Encararia 8 kg de carne pra ter um carro novo? Se a resposta for afirmativa, só posso te dizer uma coisa: bom apetite!!!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

REFLEXÃO: Natal, Walter Benjamin e eu.

Walter Benjamin é um dos últimos grandes pensadores da filosofia alemã no século XX, sem falar da contribuição de Heidegger e das teorias de Habermas, este último, com mérito, considerado um colossal gigante filosófico ainda vivo. Entretanto, voltando a Benjamin, este fazia junto com Adorno, Horkheimer e Marcuse um grupo intitulado Escola de Frankfurt, que bem poderiam ser os Três Mosqueteiros do pensamento filosófico com sua teoria crítica, acompanhados de seu D'artagnan judeu.

Sim, Walter Benjamin era judeu, e numa Alemanha atingida pelas sombras do totalitarismo e a ascensão dos movimentos nazifascitas, Benjamin tinha tudo pra se dar mal, por combinar em sua biografia tudo o que os carrascos nazistas mais desprezavam: ele era judeu, intelectual, e socialista. Ocorre que, como marxista, Benjamin reformulou alguns aspectos da teoria política de Karl Marx, adaptando-a à cultura.É digna de nota sua compreensão do fenômeno artístico como um instrumento de conscientização das massas, ao tratar do papel do cinema e do significado de "aura" na obra de arte, em seu livro mais famoso “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica". Para Benjamin, à medida que arte tem dissolvida sua aura, seu manto de sacralidade, religiosidade ou dimensão aristocrática, ela se populariza, conferindo acesso às massas, e tende a se revestir de uma dimensão social, ou seja, pode mudar cabeças. Isso implica em dizer que no teatro a peça teatral revela-se na própria pessoa, na aura do ator, enquanto que no cinema e na televisão os atores se tornam secundários, acessórios, quando não dispensáveis, pois a relação do público não é mais com os atores, mas sim com o aparelho, com a máquina, com o aparato tecnológico que dissolve a aura da arte. Não é  à toa que nos dias de hoje, com a chegada da tecnologia 3D e o sucesso comercial do filme Avatar nos cinemas, o estudo de Benjamin ganhe uma atualidade impressionante. Mas, voltemos à condição de Benjamim enquanto pessoa, e porque eu estou falando dele.

Como eu havia dito antes, apesar de toda sua sensibilidade, bagagem teórica e cultural, Walter Benjamin acabou por ser considerado um pária em seu próprio país, incapacitado de lecionar assim que os nazistas chegaram ao poder e se tornou  mais uma vítima de um sistema opressor, assim como milhões daqueles que perderam a vida inutilmente no holocausto judeu. As circunstâncias que cercaram a morte do pensador berlinense ainda permanecem obscuras, mas tudo indica que ele se suicidou, ao tentar escapar do cerco nazista numa fuga desesperada  pelos Pirineus tentando chegar na  Espanha, vindo da França, país que o filósofo havia imigrado em 1933 após a chegada dos nazistas ao poder, mas que acabou sendo tomada pela avidez sanguinária de Hitler. Detido na fronteira franco-espanhola, ao saber que seguia entregue a Gestapo, Benjamin se suicidou.

Já falei aqui neste blog como as ditaduras podem seduzir os intelectuais, assim como estruturas de poder totalitárias podem, ao contrário, destruir qualquer tipo de oposição intelectual. Padecem sobretudo os sensíveis, aqueles realmente interessados na transformação e na revitalização de uma cultura considerada ultrapassada, e, por isso, são jogados no limbo do esquecimento ou nas galés dos maus tratos emocionais. Sei disso porque, assim como Benjamin, sinto agora isso na pele, ao me deparar com uma estrutura de Estado que não mais corresponde aos meus ideais e a um serviço que em muito me onera psica e intelectualmente, pois não é onde eu gostaria de estar. E sobre estar vivo, no paradoxo de viver agora em uma bela cidade, mas, ao mesmo tempo, não querer mais viver nela por sentir que a "aura" de que tratava Benjamin não existir mais pois que agora se despedaçou,  vejo que isso me traz uma consciência dolorida de classe e que me torna, necessariamente, um rebelde, um pária em minha própria cidade e no meu próprio emprego.

Explicando, sinto a aflição de Benjamin, um estudioso da aura da arte e alguém que via de fato racionalidade na beleza, pois ao ver  uma cidade tão bonita como Natal, eu pude descobrir o quão perversamente, nas mãos de seus governantes, de uma elite política e de uma camada burguesa provinciana, a cidade de minha juventude foi estragada por processos nefastos de urbanização, por uma multidão de carros novos, velhos ou importados que empesteiam e poluem a cidade de bela paisagem. Isso estraga qualquer cartão-postal, dissipando a aura de linda "cidade do sol", outrora imaculada na obra de arte, em verso, prosa, fotos e cantos.Num serviço público por vezes inoperante, e, sobretudo, ineficaz, vejo o quanto as trocas fisiológicas colocaram uma vez mais parvos ignorantes na chefia de órgãos públicos (de forma semelhante à ocupação de espaços no poder político pelos nazistas na época de Benjamin), de mentalidade ultraconservadora, extremamente burocrática, tecnicista, fordista, e que não aceitam contestação, transformação e, pelo contrário, lançam ao exílio de velhas e carcomidas repartições os interessados, todos aqueles que de alguma forma se tornaram diferentes, os exóticos, os esquisitos, os nerds. Natal é uma cidade de funcionários públicos, uma minimetrópole de interesses burocráticos e turísticos, onde se esconde por debaixo do tapete das belas dunas toda a perversidade oficial. Para todos os efeitos, quem sofre no serviço público são os intelectuais.

Algumas estruturas não são para intelectuais, e, dentre elas, considero para mim a segurança pública. Na qualidade de um servidor público que já sinto que não sou, sinto-me um judeu intelectualizado vítima de uma estrutura antissemita, de um fascismo dissimulado que se revela numa sicofântica "batidinha nas costas", de um bisonho método de extermínio de mentes através das câmaras de gás da indiferença. Sinto que minha fronteira através dos Pirineus da vida leva-me ao Rio de Janeiro, mas temo, mediante a perseguição que sinto que está sendo movida contra mim, se conseguirei alcançar a fronteira, antes de ser capturado, e ser entregue a Gestapo dos burocratas de plantão.

Assim como Walter Benjamin mantinha por influência familiar sua fé judaica, eu restabeleço minha fé cristã a cada derrapada do destino. Peço a Deus a libertação dos grilhões, a liberdade de consciência que me possa fazer tomar as decisões mais discernidas e acertadas possíves, mas, sobretudo, de ao mostrar meu peito aberto, não ser atingido pelas balas perdidas da intolerância, que os algozes de tocaia sempre se dispõem a disparar ao mover os dedos no gatilho, toda vez que sentem que algo diferente está por vir. Peço, apenas, aos meus queridos leitores do blog, sensíveis amigos e alguns conhecedores de meu problema que orem, ou torçam comigo, para que eu não seja mais uma cifra do holocausto de servidores públicos, jogados na humilhação do esquecimento ou banidos para sempre da existência, através de uma mera canetada dos agentes da opressão. Até breve e boa sorte para nós todos!
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