sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

MÚSICA: Eternamente Metallica (ou algumas razões para gostar de Metal-anotações sobre um show).

Ontem fui assistir o show da banda californiana de heavy-metal Metallica. Já fui em vários, mas vários shows mesmo, contando desde a primeira (e inesquecível) vinda dos Stones ao Brasil, até shows do U2, Coldplay, New Order, ou quem você possa imaginar, constando no currículo um Rock'n Rio; mas eu nunca tinha ido num show do Metallica. Pra ser sincero, nunca tinha ido a um show de metal,entendendo-se por esse gênero musical bandas como Iron Maiden, AC/DC ou Black Sabbath, e gostei muito, mas muito mesmo!

Heavy-metal! Um estilo de música que já se consagrou dentre as mais tradicionais variantes do rock, e que tem milhões de seguidores em todo o mundo. É como uma religião ver aquele exército de garotos e garotas vestidos de preto, tatuados, cabelos grandes ou não, com correntes, braceletes, pulseiras, e sobretudo o logotipo de sua banda predileta estampada no corpo ou na camisa. Sobre esse gênero musical eu teria duas indicações: uma em livro, a excelente obra do historiador Paul Friedlander, intitulada Rock and Roll-uma história social; outra, no formato de DVD, no ótimo documentário do antropólogo Sam Dunn, chamado tão e simplesmente de Metal-uma jornada pelo mundo do heavy-metal. No livro de Friedlander ele aponta o discurso dos críticos do heavy-metal, que consideram esse estilo de  música muito unidimensional, artisticamente pobre, vazio e anormal. Dá até pra se aplicar Foucault na discussão sobre o heavy-metal, no momento em que a suposta "anormalidade" detectada nas músicas e na postura dos headbangers (literalmente os "bate-cabeça", aqueles que ficam batendo a cabeça pra frente nos shows, enquanto rola o som) ou metaleiros corresponde, na verdade, a mais um dos discursos de poder e tentativa de disciplinamento dos jovens. O metal começou como uma identidade de força, pois o som estava associado a vigor físico,a masculinidade e ao poder através do barulho, mas com o tempo foi revelando uma técnica própria, músicos virtuosos e um talento que chegou a ser reconhecido até por quem não curte esse tipo de música. É o caso do Metallica.

O Metallica foi a primeira banda de heavy-metal que no começo dos anos 90 ampliou seu público, massificando o estilo e conquistando um novo leque de fãs. Tudo começou com o antológico Black Album de 1991, que continha pérolas cantadas à exaustão e que até hoje são consideradas as músicas mais tocadas nas rádios do mundo, como Enter Sandman, Nothing Else Matters e Unforgiven. Pois é, com o Metallica o metal ganhou as rádios, deixou de ser a música de um gueto específico de aficcionados e ganhou o mundo, arrebatando uma legião de fãs e gerações. O Metallica tornou o heavy-metal pop! A história do Metallica está associada um pouco com a minha própria história de vida, e é por isso que reverencio a banda, reconheço o talento de seus componentes, curto o som e coleciono seus discos. Assim como todos os outros grupos que admiro(The Who, Led Zeppelin, Queen, todas as bandas dos anos 80, Nirvana, Smashing Pumpkins e por aí vai!), creio que um dos encantos do Metallica é ser uma banda que faz um metal cru, mas muitíssimo bem executado, sem firulas, mas com virtuosismo e precisão milimétricos. Os caras inventaram um estilo próprio, original, a partir da fusão de outros estilos de música até então estanques e isolados, sem contato entre si, pegando a fúria do punk de um Sex Pistols, a velocidade hardcore de um Motorhead, até uma levada de rock progressivo com solos de guitarra demorados, linhas rítmicas bem cadenciadas, além de letras vivamente  engajadas, quando não existenciais.

A história do grupo também é singular, a começar por sua formação, tendo como cabeça e cérebro da banda, o baixinho e irrequieto baterista Lars Ulich, um dinamarquês que imigrou para os Estados Unidos, e lá, com muitas ideias e cervejas na cabeça procurou, no começo dos anos 80, guris da mesma idade que quisessem fazer um som novo, sujo, mais pesado, diferente das bandas sofríveis de "metal-farofa" que pululavam naquele período (alguma menção crítica ao Bon Jovi daqueles tempos, nãoooooo, imagina, somente mera coincidência). Foi assim que Lars uniu-se a James Hetfield, seu alter-ego e coração da banda, que assumiu os vocais e a guitarra (numa espécie de parceria "Lennon & Mackartney do Metal"), completando a formação com o guitarrista virtuose Kirk Hammet e o baixista Cliff Burton. Este último merece um comentário especial, pois após o terceiro disco da banda, que os levou ao estrelato, Burton teve um fim trágico, quando o ônibus da banda durante uma turnê na Europa virou e o infeliz foi arremessado pela janela, caindo o ônibus por cima dele, matando-o instantaneamente, aos 24 anos de idade.

A trajetória do Metallica em seus 27 anos de existência foi pontuada por tragédias como essa, a saída de componentes com problemas com drogas e álcool, até uma "roubada histórica", quando o grupo se meteu a processar o Napster, o primeiro dos diversos sites de dowload de músicas em MP3, que pirateava gratuitamente pela internet as músicas da banda. Foi a maior mancada do grupo, tendo em vista que o Napster acabou, mas centenas, milhares de outros sites especializados em baixar gratuitamente música na rede pulularam na internet e preenchem o cyberespaço até hoje, graças à liberdade digital. Por causa desse episódio e pela mudança de sonoridade da banda na segunda metade dos anos noventa, o grupo foi acusado de traidor de seus fãs, de renegar suas raízes, e mesmo de ter se vendido ao sistema, como acontece com  milhares de outros artistas e músicos inebriados pela fama  Num roteiro típico de novela, o Metallica passou por altos e baixos, teve seu apogeu e decadência, e até o risco da banda terminar. A redenção veio só há pouco tempo, com o lançamento do último álbum Death Magnetic, quando o grupo retoma a sonoridade das antigas, os solos de guitarra longos, a velocidade incrível da bateria e do restante dos instrumentos, aliando peso e rapidez com carisma e técnica apurada. O clipe da canção The Day that Never Comes, que trata da Guerra no Iraque, e que deixo o vídeo à disposição aqui no blog demonstra isso.O Metallica campeão estava de volta, conquistando o topo das paradas e figurando por semanas como primeiro disco na listagem da respeitada revista Bilboard.

Pois é, aqueles guris  cabeludos, barulhentos e beberrões, que adoravam fazer algazarras em bares e hotéis, agora são austeros senhores calvos com seus quarenta e poucos anos, digníssimos pais de família, contentes por ainda estarem vivos e terem superado suas lutas internas, fazendo o que sabem melhor: música de qualidade. Vale a pena pra quem gosta assistir o documentário premiado Some Kind of Monster, que trata dos bastidores da gravação do penúltimo (e péssimo) álbum da banda, chamado Saint Anger. No filme é possível ver que o grupo escancara sua própria vida, falando de seus altos e baixos, lutando contra seus bichos internos, com direito a brigas, choros, abraços, reconciliações,  psícólogo e sessão de terapia de grupo e tudo. O documentário é bom para se entrar no universo pessoal de cada componente da banda, vivenciar suas angústias e processos internos. É comovente ver um Lars no seu cotidiano familiar, cuidando dos filhos com a preocupação de que eles nunca se sintam distantes dele, em virtude de ter convivido com o trauma de um pai ausente. James Hetfield é mostrado como um cara também em busca de sua redenção pessoal, na sua luta para se livrar do alcoolismo, a possibilidade de recomeçar a vida com a nova esposa, e a necessidade de resolver suas diferenças com o amigo de longa data, Lars. Kirk Hammet é o mais desencanado e nerd do grupo, como sua obsessão por filmes de faroeste e histórias em quadrinhos (inclusive, a abertura do show é pontuada pela trilha sonora do famoso western spaghetti de Sérgio Leone, com direito a um jovem Clint Eastwood no telão, ao som do belo clássico de Enio Morricone, The Ecstasy of Gold, do filme The Bad, the Evil and the Ugly). Por último, o novo baixista, Robert Trujillo, mais jovem que os demais, com seu corpanzil chicano de lutador de luta livre, que parece no palco do show um índio insano segurando um machado, ao dedilhar seu contrabaixo.

Gosto do metal porque é um tipo de som que não deixa meias-palavras: ou é oito ou oitenta. Heavy-metal não fica em cima do muro, não é som para "tucanos". Assim como minha personalidade, o metal pode explodir com toda sua força, potência, vibração, velocidade, peso, como também pode se modificar por inteiro, tornando-se um som pueril, meigo, melódico, plácido, como ao se escutar as duas partes da canção Master of Puppets da cultuada banda californiana a que me refiro. Sou um sujeito que não faz parte de tribos,eu transito entre tribos, e nesse sentido tive a oportunidade de conhecer e gostar de diversos estilos musicais e sonoridades diferentes (se não fosse essa minha "mobilidade", provavelmente não seria professor). É por isso que não sou metaleiro, nem indie, nem rocker, nem punk, nem clássico, nem new-wave, nem curtidor de pagode, mas posso ir de um The Smiths até Iron Maiden, escutar um Debussy, apaixonar-me ouvindo Chico Buarque ou me deleitar com um Chet Baker ou John Coltrane, mas quando quero escutar rock pesado, boto pra tocar o Metallica. I know, it's only rock'n roll, but I like it!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

CINEMA: Algumas razões para amar George Clooney, a partir de "Amor sem Escalas".


George Clooney é o cara! Desde que o vi no cult movie de Tarantino, "Um Drink no Inferno", na década de 90, gostei do estilo do cara, e, sobretudo, da tentativa de sair da pele de galã de seriado de televisão (através da série ER-Plantão Médico) e tentar embalar no cinema. Não é que deu certo? Após anos de labuta e com mais de 40 anos nas costas é que o cara conseguiu arrumar papéis legais e mostrar que não é só um tipo bonitão, mas muito talentoso.  Na verdade, Clooney incorpora hoje aquele amigo coroa, boa-praça, bonitão e espirituoso, que tem sempre uma pitada de sabedoria pra ditar, ao longo de sua experiência de vida. É assim que Clooney incorpora alguns de seus protagonistas no cinema, e não foi diferente no último ( e bom) filme de Jason Reitman, chamado Up in the Air, aqui mais uma vez porcamente mal traduzido para o adocicado título: "Amor sem Escalas".

O filme parece, à primeira vista, uma comédia romântica (Pô! Já perceberam que ando vendo muitas comédias românticas? Que será que tá acontecendo comigo?). Mas não, na verdade, trata-se, no jargão cinematográfico, de uma "comédia de costumes"; ou seja, pega-se uma situação corriqueiramente banal do cotidiano e a se transforma numa boa e divertida estória. Não foi à toa que o filme ganhou o Globo de Ouro de melhor roteiro, e deve repetir o feito na entrega do Oscar.

Por falar em Oscar, não duvido nada e me junto ao quociente de apostadores, acreditando que é bem possível que Clooney leve para a casa a estatueta dessa vez. Nos últimos anos o ator tem tido desempenhos notáveis, especialmente acompanhado de bons diretores, como as duas parcerias com os irmãos Cohen, ambas em comédias, como "E aí, meu irmão, cadê você?" e "Queime depois de ler", além do papel espetacular do protagonista em "Siryana", quando engordou mais de dez quilos para viver um agente decadente da CIA. Tá certo que em sua carreira, George Clooney não escapou de uns fiascos, como a horrorosa ( e esquecível) versão de Batman para o cinema, de Joel Schumacher (que quase acabou com a franquia), e uns ou outros filmes medianos, que não correspondem ao seu talento, mas a verdade é que Clooney se superou, e além de ator, também como diretor mereceu destaque na crítica, no pouco visto mas também cult "Bom dia, boa sorte", que trata da perseguição macartista na década de 50 do século passado. Não posso esquecer de "Conduta de Risco" (Michel Clayton), que lhe valeu a primeira indicação para o oscar de melhor ator, em 2007. Claro que não vou esquecer da ótima trilogia de Steven Sodbergh, na série Ocean's Eleven, Twelve e Thirteen (aquela dos "Onze homens e não sei lá quantos segredos").

Mas nesse último filme dirigido por Jason Reitman (filho de outro grande diretor de comédias dos anos 80, Ivan Reitman), percebe-se também o talento do diretor nas chamadas comédias de costume, após seus dois êxitos anteriores: "Obrigado por Fumar" e "Juno". O personagem de Clooney em "Amor sem Escalas" assemelha-se em parte ao de Aron Eckhart no primeiro filme de Reitman, quando o personagem dele fazia um cara-de-pau lobista da indústria do tabaco, fazendo o impossível e a politicamente incorreta função de convencer as pessoas a fumarem mais. Em Up in the Air, George Clooney interpreta o papel de Ryan Bingham, um executivo de uma empresa terceirizada que tem a função mais f.d.p. do mundo: ele é encarregado da tarefa espinhosa de comunicar a funcionários de empresas nos Estados Unidos que eles estão demitidos. Tudo isso com profissionalismo, frieza, muita cara-de-pau e até um sorrisinho no rosto.

Aí é que nós deparamos com a parte mais interessante do filme, que o tira da chatice, e transforma uma função tão anódina como a desempenhada pelo personagem, no ponto de partida para se entender a personalidade de Bingham. Assim como o personagem de Eckhart no filme anterior citado, neste, o personagem de George Clooney adora seu trabalho, por mais escabroso que seja, e desempenha com talento sua função tão somente pelo prazer de estar sempre voando, a serviço da empresa, ficando mais tempo dentro de aviões e aeroportos do que em casa, ou fazendo "bicos", em palestras de autoajuda, afirmando as vantagens de se carregar "uma vida na mochila". O personagem se vangloria de passar 320 dias do ano viajando, passando as noites em hotéis refinados, usando carros de luxo alugados pela empresa, e tendo relacionamentos casuais, sem nunca estabelecer vínculos com alguém. Em seu estilo de vida, ele chega a ter dificuldades de se relacionar com os parentes, e até de ir ao casamento de uma de suas irmãs, já que isso implicaria num retorno à chata vida familiar. A maior meta de Bingham não é casar e constituir uma família, mas sim a prosaica proeza de atingir a meta insuperável de ter o maior número possível de milhagens de voo que se possa imaginar, chegando a 10 milhões de milhas voadas, a fim de bater um recorde próprio. Na verdade, aqui, o diretor Jason Reitman satiriza o capitalismo e o mito da "livre iniciativa", no momento em que mostra os efeitos de um sistema econômico que prega o individualismo e a obsessão pelo sucesso, quando na verdade isso se repercute na solidão do personagem, que começa a sentir o peso de suas escolhas, assim como o choque em perceber o rosto desesperado e amargurado de cada pai e mãe de família contactado por Bingham, que descobre que agora está desempregado.


É nesse cenário que a vida de Bingham passa pelas reviravoltas típicas de um bom roteiro de cinema, sem necessariamente chegar aos clichês, quando aparecem na vida dele duas mulheres com dimensões afetivas distintas: primeiro, Alex (a atriz Vera Farmiga), uma encantadora funcionária de uma empresa em Chicago, que Bingham conhece por acaso em suas viagens, correspondendo a dimensão amorosa; enquanto que a dimensão profissional é manifestada através de Natalie  ( interpretada pela "revelação" Anna Kendrick), uma funcionária novata e promissora, representando a nova geração,que quer revolucionar a empresa em que Bingham trabalha revendo os métodos de seus predecessores, introduzindo um novo sistema de demissões on line, que implicaria no afastamento de Bingham, pela ausência de necessidade de se fazer novas viagens, e consequentemente com a produção de seu maior medo: ficar em terra e ter que encarar uma vida normal, sedentária, de relacionamentos fixos e uma vida estável, de compromisso familiar. Transformado, a contragosto, em mestre de sua nova pupila Natalie, Bingham é obrigado a viajar junto com ela pelo país, demonstrando os métodos de demissão da "velha escola", e a experiência além de nova, não deixa de ser transformadora para o executivo veterano, acompanhado de sua nova discípula, visto que ele se vê na condição de continuar com a velha vida, ou procurar outra, e, quem sabe, incluir Alex em seu projeto futuro. Vale salientar que Anna Kendrick também está cotada a uma indicação pelo oscar de melhor atriz coadjuvante, pelo desempenho no filme.

Percebe-se que o filme de Reitman parte de dois pressupostos básicos: o primeiro é o da crítica social, pois faz uma aguda crítica do capitalismo através da comédia, demonstrando o absurdo e a selvageria da política de corte de gastos e recessão produzida pela última crise econômica da era Bush, que agora é o abacaxi segurado por Obama; um segundo aspecto diz respeito à intimidade dos personagens, suas buscas e angústias interiores, como na desadequação de Bingham a uma vida familiar, o que é interpretado, como eu disse, com talento, por George Clooney, como também pelo destaque dado a jovem atriz Anna Kendrick, quando revela que sua personagem, ao tentar aparentar segurança e eficiência na empresa, na verdade trata-se de uma menina ainda frágil, mal saída da faculdade, com toda ingenuidade pueril do amor da juventude, e extremamente ambiciosa em querer vencer na carreira, mas  que mesmo assim, permanece no âmbito das afetividades apenas como uma menina. Resta a personagem Alex, que faz o par romântico de Bingham no filme e que guarda um segredo que sela a trama dramática, mas este, eu não vou contar aqui pra não estragar quem quer assistir o filme.

Em síntese, sei que "Avatar" deve conquistar a maior parte das estatuetas na próxima entrega do oscar, além de saber de muitos outros bons filmes e artistas excepcionais que vão concorrer ao prêmio. Porém, fica aqui minha torcida por George Clooney, o reconhecimento de sua trajetória e talento. Além de eu ceder um pouco à tietagem e afirmar em alto e bom som que gostaria de chegar aos 50 anos como ele. Seria tudo de bom! Afinal, o Antonio Fagundes com 60 tá bem pra caramba e  namorando a maior gata, por que eu não posso também conseguir?? Uma boa sessão de cinema pra quem for assistir "Amor sem Escalas"!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

LITERATURA: Acerca da solidão, Rilke e um jovem poeta.


Sou um livólatra assumido (gostaram do neologismo?)! Ou seria melhor dizer bibliófilo?De qualquer forma vocês entenderam. Dos meus vários vícios (comer demais e fumar uma carteira de Marlboro deixaram de ser alguns deles) está o de comprar e ler livros. Digo vício porque diante de uma livraria sou como uma mulher ao ver sapatos! Enlouqueço! E apesar de já ter adotado outros ares consumistas além da leitura, sou tão viciado em livros que chego a comprá-los até em fila de supermercado, tão e simplesmente pra passar o tempo enquanto a fila anda. Sabe aquelas gôndolas giratórias que ficam aqueles livros de bolso da LPM que quase ninguém compra? Pois é, aderi também à febre dos pockets books e tenho aqui no acervo a minha coleção. Dessa vez o mais novo livro a compor minha estante (e o armário do banheiro, de vez em quando) foi Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke.


Rilke(1875-1926) é considerado até hoje o maior poeta da lingua alemã. Seria como Camões na língua portuguesa. Imagino meus amigos que torcem o nariz pro complicado e gutural idioma das terras germânicas. Tem gente que acha que a pronúncia do alemão parece latido! Já pensou milhares de lulus da pomerânia latindo e rosnando ao mesmo tempo? Perdoe-me Rosa, minha querida professora de alemão! Minha rosenrot! E todos os meus amigos germano-descendentes de São Leopoldo e Santa Cruz do Sul, mas a verdade é que alemão é complicado pra burro de se falar. Imagine então declamar poemas em alemão! Pois é, os poemas de Rilke são assim e até não traduzidos, conseguem o impossível, são lindos!

Se na prosa, Goethe foi o melhor e maior símbolo da Alemanha após a cerveja, na poesia, o cetro ainda permanece com Rilke. Que o diga Augusto de Campos, célebre poeta brasileiro e tradutor oficial da obra do poeta que nasceu em Praga, apesar de na época  ser considerado alemão (o antigo império austro-húngaro). É um dos poucos caras que, diferente de hoje,viveu de poesia. É, o rapaz nunca trabalhou, dependendo sempre de mulheres nobres que financiavam seus projetos literários. Ahh!Fala sério, seria bom demais pra mim! Ter uma mulher rica me bancando e eu poder exercitar algumas das poucas coisas que me dá prazer: escrever. Garanto que iria para a ABL!Bom, pensando bem não, né; já basta o Paulo Coelho e o Fernando Collor lá!

Mas apesar de, aparentemente, ser um "vida mansa", Rilke produziu bastante e em sua poesia pode-se perceber altos contornos existencialistas, que fizeram época e influenciaram gerações, além de ser matéria-prima para reflexões de autores já citados nesse blog, seja no pessimismo de Schopenhauer ou na revolta perante o absurdo, detectada na obra de Camus. Não sei se alguns já perceberam, mas compartilho de um certo estilo lírico de escrita, herdado por esses caras. Não sou poeta, apenas tenho alma de poeta!

Pois foi a um jovem poeta que Rilke escreveu em 1903, na aurora de um século que sequer começava, durante sua passagem em Roma. O poeta em questão tratava-se de Franz Kappus, um aspirante a poeta, sem muitas pretensões, que resolve cometer a audácia de escrever cartas para o escritor mais conhecido e respeitado da Europa, naquela época. E não é que Rilke respondeu? Nas um pouco mais de dez páginas de uma simples carta surgiu uma belíssima obra de prosa poética, com significativos contornos filosóficos, tratando de temas tão profundos da existência humana, como o amor, a solidão e a morte. Rilke não dá apenas breves conselhos ao jovem rapaz que prestava serviço militar em uma Academia em Wiener-Neurstadt, mas dá um verdadeiro testemunho de vida, testemunho de um poeta, testemunho de alguém que via o mundo e os homens não apenas como fatos, mas sim como verdadeiras entidades sagradas. Entre elegias, sonetos e oferendas, Rilke conseguia transmutar em versos os mais inexpugnáveis e notáveis sentimentos humanos. É uma verdadeira terapia ler os versos de Rilke, pois através dele é possível constatar todo um mosaico de emoções que vão do tédio ao medo.

Sobre o tédio, a solidão, a ansiedade, a impaciência com o tempo, temos por exemplo O Poeta:"Jà te despedes de mim. Hora. Teu golpe de asa é meu açoite. Só: que fazer da boca, agora? Que fazer do dia, da noite?" O lado engajado do poeta, na manifestação de revolta contra o poder, no poema O Rei: "O rei tem só dezesseis anos e já é o Estado. A sentença de morte à sua frente há longo tempo aguarda sem seu nome. Pensam: "como se tortura?" Mal sabem que ele simplesmente conta, devagar, até cem, antes de apor a assinatura". Além dos ecos de pura sensualidade e seu tributo ao encanto da beleza feminina, nos versos de A dançarina espanhola: " Como um fósforo a arder antes que cresça a flama, assim começa e se alastra ao redor, ágil e ardente, a dança em arco aos trêmulos arrancos. E logo ela, é so flama, inteiramente. Com um olhar põe fogo nos cabelos e com arte sutil dos tornozelos, incendia também os seus vestidos, de onde, serpentes doidas, a rompê-los, saltam os braços nus com estalidos". Ahhhhh! Podem não gostar! Pra mim, um verdadeiro gozo!!!

Pois foi respondendo a Kappus, com tintas sinceras, que Rilke também revelou seu lado filósofo. Sobre a solidão ele diz ao jovem poeta que desista de resistir à solidão, pois as pessoas, através de suas convenções, tendem a procurar o caminho mais fácil, quando, na verdade, temos que nos aferrar às coisas mais difíceis, pois tudo que vive se prende ao mais difícil. Viver é difícil, pois tudo que vive tem que existir a qualquer preço, vencendo os obstáculos, oferencendo resistência a tudo que queira exterminar com essa existência.Rilke escreve a Kappus dizendo que é bom ser solitário, pois a solidão é difícil! Ora, se uma coisa é difícil, aí que deve haver mais disposição para fazê-la, não nos contentamos com soluções fáceis.

Digo isso e concordo plenamente com a ideia de Rilke pois, realmente, vivi e vivo sempre com sombra da dificuldade. Seja para mudar de emprego, para conseguir me pós-graduar, para pagar minhas contas, para fazer as coisas que gosto, para amar a quem não me ama ou desejar quem não me deseja. O terreno da dificuldade nunca me pareceu arenoso demais para que ao menos eu não tentasse enfrentá-la; e, muito ao contrário, não estou aqui sendo um otimista ingênuo ou esperançoso demais, mas o que alimenta a convivência com a dificuldade é justamente o desafio. E o que seria da vida sem desafios?? Se a solidão é um desafio, que venha então, conviva comigo, torne-se difícil para mim, para que então com mais energia e disposição ainda,eu possa contemplá-la, conviver com ela, e quem sabe até vencê-la.

Sobre o amor Rilke fala o quanto o amor é bom, mas amar é difícil. Por isso que seja, então, tão bom.Rilke diz a Kappus que as pessoas jovens não podem amar, porque elas precisam ainda aprender com o amor. O coração do jovem é receoso e acelerado, tem pressa de amar, pressa de vencer a dificuldade, é justamente por isso que é necessário tempo para o aprendizado. O  tempo de aprendizado a que se refere Rilke é realmente um longo período de exclusão, pois o amor é para aquele que ama, ao longo de sua vida, um longo sentimento de solidão, isolamento profundo e intenso. O amor é uma oportunidade ímpar para o indivíduo amadurecer, porque torna-se algo, torna-se um mundo, que caberá ao mesmo tempo o ser que ama e a outra pessoa amada. Ora, isso requer um sacrifício imenso, uma exigência profunda e irrestrita para o indívíduo, e nesse sentido, concordo em gênero, número e grau com o poeta alemão.Absorção e comunhão no amor não é para os jovens, é preciso crescer, amadurecer, conviver consigo próprio e com sua solidão para conhecer o amor, ao menos o verdadeiro amor. Acho que esse é o caminho que agora estou trilhando. Espero ser um fruto que já esteja amadurecendo, antes que caia de podre e não seja mais aproveitado.

Assim como a morte, o amor é difícil, mas compartilha com ela outra característica irrefutável: é imprevisível. Rilke diz que amor e morte não funcionam como regras, não são suscetíveis de um acordo. Assim como não posso estabelecer tratativas com a morte, combinando a data e a hora exata em que tenho que partir, o amor não avisa, dizendo que a tal dia e a tal hora irás conhecer o ser amado. Isso não é conversa de cartomante. Entretanto, o amor é válido e naturalmente vem, se perseveramos e na nossa solidão estabelecemos com paciência e sabedoria o nosso aprendizado, em vez de nos perdemos no jogo frívolo das facilidades. Acerca do amor feminino, Rilke chega a ser um dos precursores do feminismo, ao afirmar que as mulheres, muitas vezes mais adaptadas às convenções sociais, também precisavam amadurecer, tornando-se seres mais humanos que os homens. A mulher que não casa, ou que na juventude não casou com o primeiro namorado não é uma perdedora como poderiam lhe imputar as vis convenções, mas sim uma mulher corajosa, humana,que à custa da dor e do sofrimento amadureceu, tornando-se melhor do que o homem, sendo capaz de amar mais do que ele. Rilke pressagia que um dia os homens serão derrotados por essa humanidade da mulher. Haverá um dia que se encontrarão a menina e a mulher e estas serão vistas não mais como uma mera oposição a um menino e a um homem, mas sim como algo independente, algo que não é complemento do homem, mas algo novo: o ser humano feminino. Quer algo mais profético do que isso?


Em sua lápide, pode-se ver no epitáfio do túmulo de Rilke, a seguinte frase que ele mesmo escreveu antes de morrer: Rose, oh reiner Widerspruch, Lust,/ Niemandes Schalaf zu zein unter soviel/Lidern" ("Rosa, ó pura contradição, alegria/De ser o sono de ninguém sob tantas/Pálpebras"). Ein prosit!!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

FILOSOFIA E LITERATURA: Pessoa, Schopenhauer, o amor e outras besteiras que se falam sobre o assunto!


Quando tive minha primeira paixão, ainda adolescente, senti-me na leveza platônica de um poema de Fernando Pessoa: o objeto do desejo era etéreo, idealizado, distante, inacessível, e eu ali com minha imaginária Carolina, catando flores no regato. Era um tempo de poesias, de sentimentos profundos da lancinante repressão interna que vivem os amantes. O apaixonado quer gritar, mas de seu grito só se escuta um sussuro oco no barulho de seus soluços. O apaixonado difere do enamorado pois este chega a desposar do objeto de sua paixão. O enamoramento implica em cumplicidade, numa dupla parceria na reciprocidade do afeto que só se diluí quando uma das partes já não professa mais aquele doce sentimento. Para o apaixonado que não se enamorou, não estabeleceu o sustentável vínculo que o une a sua outra parte, só resta escrever, só lhe restam as cartas. É, só me restavam as cartas, as cartas de amor. Sobre elas perguntará Pessoa:  Será que as cartas de amor são ridículas?

"A verdade é que hoje, as minhas memórias dessas cartas de amor é que são ridículas", disse Pessoa, escrevendo como um de seus heterônomos, Álvaro de Campos.Concordo, só mesmo as memórias das coisas passadas que não são mais vividas, mas se tornam presentes porque querem ser vividas expõe o ridículo de nossas lembranças. Uns, ao invés de andar para a frente, pensam e agem como caranguejos, como diz o adágio popular (mas será que esses crustáceos não andam de lado?), e já há um certo tempo deixei a carpideira que havia dentro de mim e cedi lugar a um chato pragmático. Chato por talvez não ser tão aberto quanto outrora eu fui (já que confundi abertura com ingenuidade), mas pragmático por adotar uma certa objetividade nas minhas relações, que por vezes fazem confundir amor com sexo. E sobre esse assunto, contrariando Pessoa, Schopenhauer vai ser bem mais "carne", bem mais biológico, bem mais simplista em relação ao tumultuado tema da sexualidade associada ao amor; ou tão e simplesmente, dos filósofos, vai ser um cara que não complica tanto as coisas, ora bolas!!


Eis que aparece Artur Schopenhauer do alto de seu niilismo e vem chutar o pau da barraca dos apaixonados. O negócio é a perpetuação da espécie! Schopenhauer não acredita no amor, ao menos no amor que acreditamos, amor cristão segundo ele, um amor romântico de sacrificio, renúncia ou perda. Amor para Schopenhauer era relação de posse, a posse necessária para se garantir a "vontade de vida", pois ninguém consegue viver só consigo próprio e sempre deseja (inconscientemente) perpetuar-se através do outro. Agora, para se amar precisa-se do sexo, e para Schopenhauer era o amor que conduzia ao sexo, e o sexo à preservação da natureza. O amor é apenas uma artimanha, um instrumento, uma armadilha para se pegar o ser desejado e com isso consumi-lo pelo sexo, pela extração do desejo. Por isso que tantos homens, movidos à inconstância, ao levar para a cama as mulheres, após possuí-las, procuram outras mulheres, pois seu desejo com uma delas já se consumou. Bastante sexista a filosofia de Schopenhauer, mas não poderia ser diferente no século XIX.

Enquanto os dândis românticos exortavam o amor, como Milton, Byron, Shelley, elencando as virtudes de se desejar e amar o que não se pode ser alcançado, o que não pode ser vivido, Schopenhauer se ria deles e professava o caminho contrário. Ele extraiu da metafísica uma realidade que não era apreendida nem pelos sentidos e nem pelo intelecto, que é essa tal "vontade de viver". A vontade de viver estaria relacionada ao sexo. Seria o sexo que moveria os homens a viver numa fome irracional de vida, que se realizaria com a perpetuação da espécie. As pessoas são manipuladas pela sua própria natureza, desejam, cedem aos seus impulsos, buscam, procuram, angustiam-se até que seu desejo sexual se realize, o ápice do orgasmo exiba o triunfo sexual do amante, que diz: agora está feito, agora estou vivo, vivo novamente!! Podem baixar as cortinas até o próximo ato!!

Os críticos de Schopenhauer dizem que sua perspectiva filosófica do amor é altamente reducionista. Pô, bota reducionista nisso! Mas desse reducionismo não está livre a sociedade moderna, na cultura das "ficações" ou nos chamados "relacionamentos de bolso", a que se referiu Zigmunt Baumman, no livro Amor Líquido(também pra esse teórico tudo é "líquido", haja liquidez!). Mas não deixa de ter sentido a ética (?) sexual schopenhauriana quando trata do amor. É isso que vivem milhões, e quiçá zilhões de seres sexuados, homens e mulheres que perambulam por aí nas nights excitantes da Cidade Baixa em Porto Alegre, na rotina dos barzinhos da Vila Madalena em São Paulo, nas ruas molhadas de cerveja do Recife Antigo ou pelas choperias e botecos da Lapa, no Rio de Janeiro. Pessoas que procuram o óbvio na sua sua vontade de viver, bem ao gosto do filósofo alemão: uma noite e nada mais, pode até ser!

Confesso que como ser que faz parte desta modernidade já me vi compelido (quando não convocado) pela minha própria estrutura social a corresponder bem aos estereótipos traçados para o homem e para a mulher sexuados, segundo a obra de Schopenhauer. Todos aqueles em idade adulta, e minimamente saudáveis, física e psiquicamente, já experimentaram isso: a ilusão do amor no beijo dado em qualquer um (ou uma) no meio da noite e depois os "finalmentes" em algum leito de motel ( no carro, ou num poste mesmo). Lembro Schopenhauer, na Metafísica do Amor:“ O propósito último do amor não é experienciar o êxtase de possuir o amado e entrar numa espécie de estado romântico de bem-aventurança. Os amantes, a nível da consciência, podem pensar que estão a ser altruístas, devotando-se reciprocamente, mas o que está realmente a dirigi-los para os braços um do outro é a Vontade de Viver cujo intento é preservar a espécie através da procriação.”

Ou seja, segundo esse rapaz da antiga Pomerânia, a finalidade última de nossas empreitadas amorosas é SEXO, meus amigos! S-E-X-O!! Ok! Se eu fosse Schopenhauer (ainda bem que não sou) eu poderia dizer: não me vem com esse papinho de amor eterno, de cara-metade, do eu te amo, quando na verdade o que eu pude obter de ti eu já tive: o teu corpo, a tua expressão máxima de vida, a canalização de toda a tua energia, através do teu órgão sexual. O problema da filosofia de Schopenhauer em seu reducionismo sexista é o alto grau de biologismo, já que, voltando-se contra o romantismo e as metafísicas concepções sobre o amor herdadas da religiosidade escolástica, Schopenhauer irá se valer de um pragmatismo que beira o estupro.

Diferente de Nietzche, que, dizem, não entendia muito do assunto, em vida, Schopenhauer foi um mulherengo contumaz. Teve várias mulheres, mas não casou com nenhuma delas.O problema dele com o amor é detectado em sua biografia, pois das mulheres que teve, houve uma em especial, Caroline Medon, por quem ele se apaixonou. O relacionamento não durou muito e o filósofo carregou para a vida (e para a cama) outras amantes, não tendo destino diferente: o final dos relacionamentos. Fico me perguntando se esse não é o mal dos filósofos, o mal dos pensadores, mas quando me lembro de um Machado de Assis, velho, sem filhos, que construiu toda sua vida e morreu dignamente após as saudades de sua amada Carolina, fico me perguntando se, na verdade, alguns nunca aprenderam a amar como Schopenhauer, para poder escrever da melhor forma sobre o amor. Diferentemente do que se pensa inicialmente nessas linhas, Schopenhauer não irá considerar o amor um assunto banal, tanto que escreveu várias obras a respeito, sendo considerado, a meu ver, depois de Platão, um dos "filósofos do amor".

O problema não está no caráter ácido e pessimista da filosofia de Schopenhauer quanto ao amor, mas sim como algumas de suas teses tem validade, como já disse, num mundo desenfreado de corpos sexuados, que procuram, na verdade, a ilusão do amor em cada beijo em estranhos, em cada saída furtiva (e falo disso colocando-me no mesmo lugar como uma dessas pessoas). Já passei por dois relacionamentos amorosos significativos, e, em ambos, vivi a dimensão do amor (ou da tentativa dele) associado a uma questão fundamental a toda relação: a sexualidade. Não irei aqui dar nome aos bois nem dizer com quem eu me senti melhor, mas o que pude experimentar foi válido, naturalmente, como todo ritual de passagem onde um homem torna-se, efetivamente, "homem", dentro da construção social do macho viril e reprodutor. O que me irrita é que em algumas situações que nos deparamos nos sentimos resumidos à condição de escravo sexual, de ser apenas um brinquedo, ou o integrante de uma "brincadeira", como se também não pudesse eu brincar com o ser amado tão e simplesmente colhendo flores no regato.

Para a visão sexista de Schopenhauer, escritores como Pessoa seriam o que simplesmente são: poetas, cantadores de ilusões sobre a ilusão maior do amor pregada por deuses anônimos. A paixão ou o afeto não tem a menor validade se não foram vistas sob a ótica do desejo da carne, tão óbvio na filosofia nihilista de Schopenhauer, sobretudo onde, dizer algo ao contrário pode ser taxado de moralismo, recalque sexual, coisa de mal resolvido, ou, simplesmente, boiolagem! Schopenhauer talvez tenha carregado a frustração até o final da vida de não ter mais possuido e permanecido com a mulher por quem se apaixonou, e daí, ele sim, virou um recalcado. Carregou consigo para a tumba o ressentimento, a inveja corroída pela mágoa de desejar algo ou alguém que talvez já estivesse nos braços de outro. Ora, isso já aconteceu comigo, amigo(a), acontece com todo mundo, mas o verdadeiro apaixonado é o que não coloca a máscara da negação de seu próprio estado, não justifica ou reduz a atração de dois corpos a uma mera cópula, como se ali houvesse apenas dois animais irracionais, ao puro sabor de seus instintos. Sexo é bom pra caramba, certamente, e disso não tive do que reclamar. Posso garantir que, felizmente, tive experiências boas nessa área, com direito a banda de música no final. Exercitei bem minha "vontade de vida", como diria Schopenhauer, mas nem por isso saio por aí resumindo as uniões entre pessoas como mera "rapidinha", como uma trepada de uma ou duas horas e depois: "tchau, me telefona!". Pô, as coisas não são bem assim companheiro(a). Menos!

O que acontece na verdade é que, talvez, depois de muito mal e porcamente ter tentado assumir um papel social destinado pela cultura patriarcal ao meu gênero, de ter brincado de ser o "pegador" ou o lobo da estepe, percebi que existe algo mais de ser buscado do que tão somente encontrar alguém por aí para trepar, e talvez, para alguns, eu esteja realmente surtando, dizendo que prefiro meu celibato autoinfligido, do que sair por aí bancando o Don Juan (que não sou!),aderindo às cafajestagens tipicas de nossa sensualidade latina. Repito: não estou aqui bancando o moralista e nem tentando me apresentar como bom moço. Não sou santo! Não sou um poço de bondade! Não sou uma pura Justine de um conto do Marquês de Sade!Não sou um "ursinho carinhoso"!Não sou o Papai Smurf! Tenho meus defeitos como tudo mundo e quando quero, posso ser bem escroto!!Perdoem o linguajar, é pela emoção da escrita!Apenas o que reivindico é uma nova condição que agora me acomete nos meus quase quarenta anos de vida, que é ter um pouco de qualidade nas minhas relações, novas possibilidades de exercitar (e por que não, idealizar o meu amor).

Creio que, contrariamente ao que defende Schopenhauer, eu esteja me aproximando dos dândis que ele tanto criticava! É, talvez eu esteja ficando dândi, preferindo maldizer do amor, como quem sofre a perda de algo que lhe é fundamental como um braço ou uma perna, preferindo a poesia de Baudelaire, do que bancar o Romário e ir num baile funk cheio de popozudas, como um açougueiro que vai até o abatedouro. Tá certo, para os engraçadinhos podem me chamar de viado ou de que estou ficando emo. Mas, de fato, meu saco encheu!! Na falta de alguém interessante(mas, realmente, muiiitooo interessante), que mexa não apenas com meus testículos, mas também com meus sentimentos, que eu fique em casa mesmo e vá para o banheiro com uma revista Playboy!

"A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais". Tá certo, Schopenhauer!. É, talvez eu prefira mesmo a solidão do que me ver perdido em roubadas sentimentais, onde posso sair chamuscado por magoar algúem ou ser magoado. "Então tá combinado, é tudo somente brincadeira, sexo e amizade!". Ah, tá! Diga isso pro nosso coração, que nem sempre bate de acordo com o que nosso cérebro pensa. O grande problema é que nós, homens sensíveis, somos umas "bestas éticas"! Enquanto isso, o som corre solto na boate e mais e mais pessoas se pegam, tirando uma casquinha aqui, uma casquinha acolá, e bummm, cama! Que bom, divirtam-se!!Quanto a mim, após o boteco tem o banheiro, e a minha revista Playboy!

Enquanto não aparece a minha Carolina, colhendo flores no regato....

domingo, 17 de janeiro de 2010

FILOSOFIA: "O Homem Revoltado" de Camus serve para justificar nossas angústias e fissuras internas.

Recentemente voltei a reler Albert Camus. Na verdade a própria história desse pensador por si só já me despertava encanto, seja pela ausência de uma paradoxal e onipresente presença paterna (perdeu o pai na I Guerra), até os ataques de tuberculose que o impossibilitaram de fazer as coisas que mais gostava e ceifariam sua vida (fora os cigarros que insistia em fumar), se as rodas do destino não tivessem entrado em seu caminho, desviando seu carro para um trágico acidente automobilístico, encerrando seus 46 anos de uma vida singular. Tudo na carreira de Camus me fez pensar que ele "era o cara": desde a carreira como jornalista, romancista, militante político e polemista, até a incerteza, nihilismo, a indiferença perante a iminência da morte, e até mesmo o apreço pelo futebol. Sim, na juventude Camus foi goleiro e era clássico seu ensaio filosófico sobre " a solidão do goleiro na marca do gol". Para ele, futebol era a "inteligência em movimento", e por ser a pessoa que sou: quase sempre intranquilo, movimentado, agitado, hiperativo, rebelde, é que compartilho das máximas filosóficas desse pensador argelino. E, afinal de contas, quer relação mais simbiótica em plena véspera de Copa do Mundo, entre futebol e filosofia?

Às vezes sinto-me aquele goleiro solitário de que trata Camus, esperando mais uma das bolas do destino: um novo emprego, uma nova mulher, novos estudos, um outro país a conhecer, novas dores para chorar, novos amores a compartilhar, novos amigos para jogar sinuca, mais solidão, morte?? Ou será que da vida posso esperar apenas que me surja a eterna e intensa capacidade de me revoltar? Por isso, creio que a obra de Camus chamada O Homem Revoltado (L'homme revolté) é fundamental.

Para Albert Camus o homem é revoltado quando descobre o absurdo de sua própria existência. É o que Camus chama de revolta metafísica, ou seja uma revolta da criatura contra seu criador, uma revolta do homem contra a natureza, ou até mesmo, uma revolta contra Deus. O revoltado não é um ateu, pois se um escravo se revolta contra seu senhor, é porque tem que reconhecer a existência do senhor para contrariá-lo. Portanto, o revoltado não é um descrente, o revoltado é um blasfemo.

Homens revoltados tivemos diversos no decorrer da história. Lutero era um deles, assim como toda uma geração de hereges, escandalizadores, subversivos, revolucionários ou contrarrevolucionários, que se não foram fuzilados, pararam na fogueira. Um revoltado não se torna mártir, porque a chaga da polêmica, a "marca de Caim" da controvérsia sempre está estampada na sua testa, e o revoltado adora revolucionar, não apenas os outros, mas sobretudo a si próprio. Talvez a revolta nos tire da posição de goleiros inertes, e evitando uma óbvia relação de causa e efeio (a bola que é chutada deve seguir sua trajetória até os fundos da rede), o revoltado mobiliza o jogo, evita finais fáceis de partida ou "marmeladas", impede que o jogo final da vida se torne um tédio absoluto, faz defesas milagrosas, apanha as bolas impossíveis. Por isso, creio que é salutar se revoltar.


"A bola nunca vem para a gente donde se espera que venha". Parece tão simples, não?! Até piegas, não sei! Mas da simplicidade da frase de Camus pode-se extrair as mais profundas reflexões filosóficas sobre essa arte que é existir.Não pedimos para existir, apenas a existência nos é dada. Por Deus, pra quem é religioso, pelas forças ocultas da natureza, por um poder maior,ou, para um ateu, pelo acaso; mas de qualquer forma não cansamos de questionar nossa existência enquanto humanos, pois é de nossa natureza sermos questionadores. Podemos ser tão conservadores e inertes, como (re) criadores e revolucionários quando queremos, pois é nisso que se embala a vida; pois, senão, teríamos apenas a morte ao final como desfecho inexorável. Chato, não?!

"A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe". É justamente por amar o imponderável, o imprevisível, o irrealizável, que acredito encontrar a verdadeira lógica do amor, na perspectiva existencialista de Camus. Por isso, sou forçado a entender que o revoltado não é um ser furioso ou alguém que odeia, quando, ao contrário, muitíssimo ao contrário, entendo ser o revoltado um ser extremamente amoroso. A pulsação da revolta identifica-se com a alegria dos enamorados, de mãos dadas na partida de futebol, atentos ao jogo, numa posição de sempre aguardar a próxima bola, junto à  torcida extasiada em campo, alegre não por seu time ter feito tão e simplesmente o gol na defesa adversária, mas sim surpresos pela agilidade do goleiro, em fazer o impossível, em comprometer o imponderável, quando consegue defender sua rede e proteger-se da investida furiosa do atacante, segurando mais uma bola. Não seria assim a vida? Cheia de ataques e defesas, mas sempre com seus goleiros à espera da próxima bola?

"O revoltado não exige a vida, mas as razões da vida". Razões essa que nunca são fáceis de achar, às vezes é até melhor que as coisas não tenham razão. Seria racional que eu ficasse com uma mulher que me ama, que aceita os meus defeitos e me trata com respeito, além de querer se entregar de corpo e alma a mim, mas não é desta forma que se sucedem as coisas, necessariamente. Pois, assim como o personagem do conto "O Estrangeiro", de Camus, quando a namorada pergunta a ele se ele gostaria de se casar com ela, e ela pergunta: "você me ama?" e ele diz: "não", ao que ela se choca e ele simplesmente justifica: "mas eu caso com você, qual é o problema nisso?", eu também sou chamado à sabedoria da revolta ao saber que muitas coisas acontecem por não ter razão. Amar alguém por exemplo transcende essa razão, pois o amor filial ou o amor fraterno são diferentes do amor-Eros, do amor passional, do amor-entrega. O que justifica a vida é ter a capacidade de se revoltar contra os esquemas simples e planejados da vida a dois(por exemplo), mesmo que isso custe o sacrificio de uma esposa, de uma família, de filhos (ahhh, e como eu gostaria de ter isso, mas ao mesmo tempo, não). Soei confuso, neurótico, contraditório, dialético?? Não meus amigos, não se trata de confusão, mas sim de constatação. Não sou um irresponsável solitário ou um aventureiro sempre em busca de novas emoções, como se não me fossem marcantes os lugares e as pessoas. Da minha curta experiência de vida já tive a oportunidade de conhecer mulheres fascinantes (continuo conhecendo, que sorte, por falar nisso) que poderiam muito bem estar comigo até hoje, com outras eu poderia ter me casado ou ter sido mais que um bom amigo, mas preferi em minha revolta estabelecer as razões da vida, que continuam para mim misteriosas, encobertas, dispersas e subliminarmente dispostas em pequenos sinais pelas ruas e avenidas, onde gasto a sola dos meus sapatos. Que bom que sou eu assim! A vida fez-me assim e a filosofia traz em seus singelos textos as respostas que não encontro nos manuais da psicologia ou em livros de autoajuda.


"A filosofia pode servir para tudo, até transformar assassinos em juízes". É, Camus! A coisa anda braba mesmo! De reflexões filosóficas podemos extrair tudo, ou simplesmente nada, no sutil paradoxo de vivenciarmos nossa realidade ao sabor de nossas ilusões por um futuro tão incerto. Podemos matar nosso futuro, dependendo de nossas escolhas, e isso, para mim, foi bem real, no tocante às decisões que tive e ainda terei que tomar na vida; mas ao mesmo tempo podemos ser sábios quanto ao futuro, através de nossas posturas de revolta. É para aprimorar nossa capacidade de julgar que vem o passado, como uma espécie de código, uma legislação anterior que outrora nos governava, e que pode servir de fonte, de referencial ou não para as nossas sentenças.Fazemos isso em relação às pessoas, sobretudo àquelas que podem entrar ou não em nossa vida afetiva, tendo em vista nossos experimentos já realizados, nossas dores ou frustrações já sentidas, que sempre nos levam a colocar um freio no pé, a ficar com uma "pulga atrás da orelha", cada vez que aparece alguém em nossa vida, e isso pode nos leva a arriscar tudo: ou matar nosso futuro, ou com a experiência da morte anterior, nos servir de guia, de orientação para os julgamentos que iremos estabelecer. Já assassinei muitas de minhas relações, agora só me resta querer julgar(sobretudo a mim mesmo), indagando até onde poderei chegar nessa minha cruzada existencial de simplesmente viver.


"A revolta é uma ascese, embora cega". É por isso que creio ser salutar se revoltar. A revolta é criadora, nos tira da letargia, do estado de suspensão em que ficamos ao afundar no desgosto de nossas depressões.
Prestes a ocorrer o Fórum Social Mundial, que terei o prazer de participar, mesmo sobre o coro dos reaçonários que acham que o evento se trata apenas de um "Disneylândia das Esquerdas", creio que o tema da revolta ainda encontra toda sua razão de ser. Porém, a revolta de Camus, como já foi dito,  não é apenas uma revolta social, mas sim uma revolta existencial. É a revolta do homem acerca da condição de sua própria existência. Nos revoltamos acerca de como podemos ser tão irresponsáveis conosco mesmo e com nosso planeta, quando as ações humanas convergem para a total destruição, com o aniquilamento da natureza, o descalabro com o meio-ambiente, a poluição, o aquecimento, tudo. Eis que um novo homem deve existir, uma nova pessoa, um novo ser, e esse não é um dos trabalhos mais fáceis. Ser revoltado não é fácil!

Sou um ser revoltado por excelência! Graças a Deus que seja assim!Quando decidi me revoltar acerca de minhas escolhas anteriores de profissão, a encerrar um relacionamento amoroso que não teria mais futuro e a sair de Natal e imigrar para o Sul, adotei uma postura de revolta ( ou de louco, para alguns) largando a estabilidade de um emprego público bem posicionado, numa privilegiada função e status social, saindo de um cenário paradisíaco que nos guias turísticos embeleza nossos cartões-postais. Por que tudo isso? Por que tanta revolta, Fernando Antonio?? Eu poderia me perguntar olhando-me no espelho, talvez escutando I still haven't found what I'm looking for do U2, enquanto percebia o quão grande está ficando minha barba e quantos fios grisalhos dela saem, atestando a passagem do tempo e as evidências de minhas escolhas. Rebelei-me porque a rebelião foi a minha escolha. Optei pela solidão por debaixo das traves, justamente por ter percebido que entre os ataques e as defesas em campo, as respostas para as questões de minha vida que me atormentam só seriam dadas como as bolas a que se referiu Camus, que podem vir de qualquer lugar. Larguei a posição de atacante para a de goleiro, e se não mais permaneço no ataque, é porque entendo que um futuro pré-planejado pode não ser assim tão interessante, visto que fazer gols é meu objetivo, mas nem tanto, hoje, a essência de minha vida. Também não permaneço só na defesa, por entender que não é só me protegendo que conseguirei me salvar das decepções, da dor, da frustração e da tristeza que ainda podem estar reservadas para mim. Prefiro ficar entre as traves, na marca do gol, exercitando a minha revolta, teimando com as bolas que insistem em entrar, tramando contra meu êxito, ao atravessarem a rede; ou, ao contrário, devidamente rebatidas ou agarradas, como as oportunidades que ainda posso ter, em algum lugar e com alguém, que posso simplesmente rebater de minha vida ou agarrar.É minha revolta que diz isso, pois a revolta, ao menos no meu caso, me traz esperança. Não é só eu, mas muita gente pensa assim (ainda bem!).


Portanto, parodiando Marx e Engels, em seu Manifesto Comunista lanço o Manifesto dos Revoltados, em homenagem a Camus: "Revoltados de todo o mundo, uni-vos!!!" Grato pela lição, meu caro Camus!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

TRAGÉDIA(Parte II): "Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui!"

O Haiti não existe. O Haiti é um pesadelo estabelecido de um algum conto de ficção científica de H. G. Wells ou a la Terminator, onde encontramos uma civilização arrasada, animalizada, diante de tanta miséria e destruição. Talvez muitos gostariam de dizer isso, como um anestésico para a consciência, um Tylenol para aliviar a enxaqueca de pensar numa coisa tão tétrica quanto um país arrasado,  mas não é assim!

Ilhas deveriam ser paradisíacas, com direito a belas praias, belas garotas (uh-la-la), um mojito tomado debaixo de um guarda-sol e com sorridentes garçons servindo todo tipo de iguaria do mar que você imagina, como ocorre em muitos locais do litoral nordestino. Até Cuba, apesar do regime fechado de Fidel e a crise de praticamente tudo por lá, ainda mantém seu charme. Mas quem olha pelo Haiti?


Quem é que vai dar crédito a um país que se tornou independente ainda no começo do século XIX, num caso único na história de uma rebelião bem-sucedida de escravos rebeldes, que fundaram (ou tentaram fundar) uma república de negros, em plena América branca, colonizada pelo conquistador europeu e com seus padrões de uma típica sociedade "civilizada"? Quem é que vai dar crédito a um país em que dos 20 governantes que teve, 16 foram depostos ou assassinados? Que tem um PIB miserável e um dos piores IDHs do planeta?  Quem é que vai se incomodar com um país em que a população se acotovela, quando não se espanca, em tumultos produzidos em filas de comida, pela mais absoluta falta de remédios e alimentos? O Haiti é um país de negros, pobres e miseráveis que mais parece um país africano incrustrado no oceano, no meio da América Central, um acidente de natureza, um equívoco histórico, uma Bahia,  sem  trio elétrico, Caetano e Antonio Carlos Magalhães!!

Agora as atenções do mundo se voltam para esse pequeno e miserável país, agora vitimado por um intenso terremoto. Como miséria pouca é bobagem, além de todos os problemas de infraestrutura que assolam a ilha, com simplesmente a falta de tudo, e a completa desorganização social com gangues de mortos de fome, agora o país foi sacudido com um terremoto de mais de 7 graus da Escala Richter(ou seja, um tremor dos diabos, literalmente o fim do mundo). Nem precisa dizer da contagem de milhares de corpos que amanheceram no dia seguinte em Porto Princípe, e a morte de ao menos 17 soldados brasileiros, além da perda da ativista social Zilda Arns, da Pastoral da Criança, uma doce velhinha, irmã do arcebispo de São Paulo, que chegou a concorrer ao prémio Nobel da Paz.

É, é uma merda mesmo o que aconteceu!!!! Fico imaginando além da perda de dona Zilda (que Deus a tenha), as centenas de missionários e profissionais de diversas nacionalidades, que, de boa vontade e espírito humanista ou por motivos religiosos, foram até essa pequena ilha das Caraíbas socorrer um povo tão sofrido, e que agora intensificou nos altos-falantes seu choro e seu lamento, em mais uma das desastrosas experiências pelas quais passou o povo haitiano. É de trincar o coração do mais duro dos caminhoneiros ver aqueles milhares de corpos serem carregados pra dentro de escavadeiras, como se fossem carcaças de animais atropelados em função da total falta de tempo de enterrar entes queridos. O Haiti agora é a cena do inferno, é a cena do colapso, e para um cético ou nihillista é tão somente a dura realidade do óbvio do absurdo humano. O Haiti parece uma experiência humana que não deu certo, que até Deus (para alguns, como um castigo) quer confirmar e riscar do mapa. Pra quem duvida disso é só ver a desastrosa declaração do cônsul brasileiro no Haiti, flagrado pelas câmeras quando achava que seu microfone estava desligado, após uma entrevista, chocando (ou não) o país inteiro ao dizer que a desgraça haitiana era fruto de tantos anos de macumba. É, pra aqueles pretos macumbeiros e preguiçosos (como pensam alguns) agora veio o castigo do Além. Só mesmo a teologia ou versões apocalíptico-bíblicas para explicar o desastre haitiano. A bola da vez é com vocês, meus amigos crentes pentecostais!!!!

Quando eu era criança já ouvia, na crença popular, falar do Haiti como uma coisa barra-pesada. Era a terra dos temidos tonton macoutes, a sanguinária guarda pessoal do ditador Jean-Claude (baby doc) Duvallier, um negão adepto da magia negra, que recebia o apoio implícito dos Estados Unidos. Sabia que os caras por exemplo, costumavam eliminar os opositores do regime a golpes de machete, o que por si só me dava arrepios.O Haiti só respirou uma pequena brisa de normalidade institucional quando um ex-padre, militante de esquerda, chamado Jean Bertrand Aristide, com apoio internacional tornou-se presidente, e tentou reconstruir um país destruído pela miséria, pela corrupção e pelo totalitarismo de governos anteriores. Parecia uma era promissora, mas que logo caiu como todo fruto podre, que para um país de adeptos do vodu foi mais resultado de alguma forte mandinga.

O terremoto dessa semana que arrasou com o país, e com a consciência de milhares de pessoas, como eu, é uma prova irrefutável desse descrédito, pois até a natureza, segundo alguns, está castigando aquela pobre terra de miseráveis. Para as pessoas que pensam assim, sobrou até para os brasileiros, principalmente nossos militares, a serviço da ONU, já que o Brasil foi a nação que levou o maior contingente de seus soldados até a ilha haitiana, tentando o (im) possível de reorganizar o caos, o "samba de crioulo doido" que virou a nação haitiana. Imagine as famílias desses militares lamentando copiosamente o fato de seus familiares terem entrado nessa "roubada" institucional. Eu mesmo tenho aluno do exército, que já foi a serviço ao Haiti e contou-me da inutilidade de um exército conter o que não pode ser contido, já que a população esfomeada se animalizou tanto, que já está perdendo qualquer referencial social de normalidade.

Parece que também somo ao coro dos céticos ao retratar neste blog esta tragédia. Talvez eu esteja até mesmo sendo muito trágico ao carregar nas tintas a minha desilusão. Mas ao mesmo tempo em que me desiludo, também tenho esperança, pois é a esperança daqueles que sobreviveram, que passaram dias por debaixo de escombros, suspirando por vida debaixo de uma laje, bebendo água da chuva ou respirando por frestas de parede, enquanto esperavam a ajuda que por pouco nunca veio. É em nome dessas pessoas que conseguem sobreviver a intempéries, que conseguem voltar pra contar a estória, é que sigo ainda com esperanças (apesar de tudo) no gênero humano. É nesse ponto que o Haiti deixa de ser para mim um pontinho a ser riscado no mapa, e começa a me parecer um enigma, um assombro, um mistério a ser resolvido, pois, ao invés de simplesmente afundar a ilha, o terremoto que houve apenas sacudiu as estruturas de uma sociedade que já se encontrava demolida. Será que não foi um recado divino? Será que apesar de toda a tragédia, não era hora de reconstruir, de operar a verdadeira reconstrução? Não sei! O que sei é que agora, pela primeira vez na história, diversos países poderosos ou emergentes se uniram (ao menos no papel e nos carregamentos iniciais de grana e comida) para reconstruir um país arrasado.

O ser humano é capaz de realizar milagres. Ele mesmo é um milagre, e nesse sentido, oro e peço muito para que seja verdade e realmente Deus exista, e mobilize os homens a fim de que se abracem em benção para o povo haitiano. Minha vontade sincera era de estar lá, e não estou aqui sendo demagógico, para quem me conhece, mas sinto que talvez minhas palavras, se forem lidas ou escutadas por alguém de lá, sirvam ao menos de estímulo para continuar. SOBREVIVER APESAR DE TUDO, LUTAR ATÉ PERECER, VIVER, MESMO QUE CONTRA TODAS AS EXPECTATIVAS! É minha mensagem para o povo haitiano e para todas aquelas pessoas de coragem que partiram para lá para ajudar a quem precisa ( e lá, tenha certeza, todos precisam).Que façam uma boa viagem e que Deus os abençoe!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

REFLEXÃO: Quando a própria vida se torna uma tese.

Sou um estudante de doutorado, e nessa condição me permiti e tive a oportunidade de evoluir como pessoa, não tão e simplesmente por exercitar meu intelecto, como quem fortalece os neurônios como se estivesse tonificando os músculos, mas sim pela experiência de vida, pelas pessoas que pude conhecer, pelos ambientes que pude frequentar e sobretudo os diversos pontos de vista que pude ler ou escutar, vindo desde os mais renomados autores, até os seus mais obscuros seguidores. Vi também a empáfia do meio acadêmico, a arrogância de alguns senhores da verdade, a altivez corriqueira de quem se gaba de seus vários conhecimentos e publicações, mas isso não me assusta.

O que me assusta, ou, o que, ao menos, parece-me como o medo natural de quem se atreve a desbravar grandes aventuras, é a proximidade de minha defesa de tese, a necessidade de firmar os pés em solo sólido, no âmbito da movediça angústia situada em minha subjetividade, e que, se não me impede de produzir, ao menos dá aquele peculiar "friozinho na barriga", daquele que está prestes a dar um grande salto. Não se trata apenas de um salto acadêmico, com mais um título debaixo do braço, e o afago produzido no Ego com a expressão:"agora você é um doutor", mas também as implicações que se tem disso, sobretudo, implicações profissionais e financeiras, tendo em vista que ao ser doutor, você redefine sua profissão, assim como o estudante ao sair da graduação e receber seu diploma sabe o grande mundo de obstáculos e situações que terá que enfrentar até obter a devida adequação profissional. Nem todos conseguem. No meio do caminho, caem durante seu próprio salto. Uns se levantam e tentam de novo, outros, amedontrados, nunca mais vão querer pular.

Viver para Heidegger deveria ser visto como um salto, sempre um eterno acontecimento, uma "vivência primordial", um "acontecimento-apropriação". Traímos a nós próprios quando relativizamos a grandiosidade do ineditismo das experiências humanas, e queremos a tudo conduzir, positivisticamente influenciar, como se o mundo fosse uma mera relação de causa e efeito. Conheço muita gente que pensa assim! Quando estreamos nossa liberdade, ou a possibilidade de vivermos sob a responsabilidade de nossas escolhas, mesmo que a escolha seja pelo imprevisível, somos taxados de loucos, bipolares, irresponsáveis, imprudentes ou até egoístas. Nosso mundinho formalizado e funcionalista (sobretudo o mundo dos juristas) nos obriga a um cotidiano em que a comunidade jurídica ideal é aquela formada por burocratas e detentores de autoridade. A senha para a cidadania em países de modernidade tardia como o Brasil, ainda é um bom emprego público. No artigo que escrevi há um ano sobre o frenesi pelos concursos, estabeleci essa relação que se vive hoje nos cursinhos preparatórios lotados de candidatos, que se esbarram e se acotovelam nos banquinhos da escola, para conseguir a tão sonhada estabilidade, proporcionada por um cargo público. No direito, esta cultura é disseminada.

Estabilidade. Sim. Penso na estabilidade certamente, e não sou tão pirado a ponto de não saber a falta que faz um dinheirinho contado, pingando na conta bancária todo final de mês, capaz de dar vazão a nosso luxo, nosso consumismo e nossos prazeres mundanos. Sim, claro! Gosto de viver bem, comer bem, e, sobretudo, ler bem! Para isso necessito de grana, é claro! Mas me pergunto se a estabilidade que procuramos ao nos adequar no modelo societário da vida de um funcionário público, segundo o paradigma legal do direito administrativo, ao menos eticamente nos leva de verdade a uma estabilidade psíquica, uma estabilidade espiritual, uma tranquilidade de alma, como pensaria Aristóteles na Ética a Nicômaco, ao falar da virtude da temperança. No caminho inverso traçado pelos meus pais para minha vida, não obstante ter abocanhado o troféu dos privilegiados com um cargo público, ao mesmo tempo sempre procurei singrar horizontes diferentes, os horizontes da academia, os horizontes da tese.

"O homem é produto de sua liberdade" diria Sartre, e dessa liberdade podemos colher frutos tão acolhedores, quanto desalentadores, isso é verdade. Não há garantia de nada na insegurança de nossas escolhas. O futuro é incerto, assim como nossas decisões futuras também. Isso me faz lembrar uma passagem bíblica em Eclesiastes, que diz: "prepara-te para os dias ruins e aproveita os dias bons, pois somente a Deus cabe saber de teu futuro". O futuro a Deus pertence, para quem acredita, e é por isso que o futuro é tão magnético, tão misterioso, tão atraente, tão hipnotizante. Por não sabermos de nosso futuro, para uns, isso é motivo de cautela, de preparação, de vigilância redobrada, e assim, qualquer caminho que opte pelo mero sinal de instabilidade, pode ser visto como um gesto de loucura, uma porralouquice, ou como diz meu velho pai: "formiga que quer se perder, cria asas". Não estamos preparados para a insegurança do futuro e uma certa ética protestante calvinista nos chama a ser diligentes, a sempre não esquecer do passado para projetar o futuro, a poupar, a guardar víveres para a incerta jornada dos tempos vindouros. Tudo isso é válido, eu não recrimino, mas não deixo de observar que, em certas opções de vida, muitas vezes pessoas como eu deixam de abraçar alternativas de projetos que realmente sonham (pois me permito sonhar), tão e simplesmente por vivermos uma realidade social de fome e desemprego tão medonha, que o instinto de sobrevivência pesa mais que os ideais. E nessa hora, de estômago vazio deixamos as ideias de lado, ou a menos os postergamos por um bom período de tempo. Até quando??

Entendo ser o meu projeto de vida uma verdadeira tese, onde eu mesmo acabei por fincar as hipóteses, colocando-a agora à prova, diante da banca examinadora do destino. Não tenho a menor ideia para onde irei e do que farei no futuro, e nem até quando estarei vivo, e por isso que essa incerteza me deixa mais confiante quanto ao meu agora. Sei do que vivo, sinto e cheiro, e do que já vivi; mas como diria Rubem Alves, encontro-me ainda aberto a novos odores, novos sabores, novos jeitos de amar, sofrer e observar a vida. Talvez seja por isso que minha trajetória de nômade tenha sido tão oscilante, mas ao mesmo tempo fascinante, entre períodos de maior estabilidade num local, e de menor, dependendo das opções que fiz em minha trajetória. Nesse sentido amores vieram e partiram, novos amigos chegaram, outros antigos desapareceram e outros mais antigos ainda foram reencontrados. Apesar de não ser, cronologicamente, um homem velho, já aprendi a contagem e as respostas do tempo, transformando-o também num veho amigo. Por termos essa característica de sermos temporais, é que nós humanos paramos às vezes, como faço agora, para estabelecer minha humilde reflexão com todos aqueles que queiram compartilhar. O tempo ajuda a maturar as teses, o tempo oferece os subsídios para que possamos remontar nossa própria história. Que venham os desafios! Que venham as indefinições!Mas que, a partir delas, venham as escolhas! Um grande abraço a todos!

domingo, 10 de janeiro de 2010

DIREITO: INSEGURANÇA JURÍDICA PARA QUEM, CARA PÁLIDA?? (Sobre o artigo de Rosenfield)

No dia 4 de janeiro deste ano, na edição do jornal O Globo, o filósofo e professor da UFRGS, Denis Lerrer Rosenfield, escreveu na página 7 o artigo intitulado: "(In)segurança jurídica". Bancando o jusfilósofo ( o que ele não é ) Rosenfield escreveu uma das mais rasas, rasteiras e reaçonárias peças de propaganda neoliberal, ao revelar suas impressões sobre o direito brasileiro, as ações do governo federal na área social, e sobrou até para os movimentos sociais.


Nosso astuto intelectual, ávido para demonstrar sua pelagem neoliberal, inicia uma defesa abstrata do direito de propriedade, quando todo constitucionalista sério nesse país (não de agora, mas de longa data) sabe o quanto foi relativizado esse direito, desde o surgimento do Estado Democrático de Direito.


Rosenfield acredita que "um morto vivo totalitário" e socialista do século passado estaria sendo reanimado sob o novo nome de "sociedade justa e solidária" (que empáfia!). É esse mesmo regime totalitário que Rosenfield critica, que permite que suas besteiras sejam veiculadas nos meios de comunicação, graças à liberdade de expressão. Que totalitarismo é esse???


Sobrou até para os membros do Ministério Público, pois, segundo Rosenfield, alguns promotores que compõem uma minoria, alegam que não precisam obedecer a "letra fria" da lei. Para ele, a lei ainda tem que ser entendida em seus termos abstratos, como sendo uma fiel representação do interesse geral. Ha,ha,ha,ha,ha,ha,ha,ha!! A lei serve para todos? E Papai Noel ainda existe?!Chega a ser engraçado. Quer dizer que quando promotores, argumentando princípios constitucionais, questionam a eficácia e a legitimidade de dispositivos legais absurdos, eles estão cometendo algum desvio?? Palmas para eles, que já não se prendem ao estúpido rigor positivista. Nota zero para Denis Rosenfield, em matéria de filosofia do direito, pois seu pensamento sequer chegou à crítica positivista. O homem parou no tempo! Como se estivesse defendendo ideias do tempo em que o imperador ainda era vivo. Pega a máquina do tempo, Rosenfield!!!


O filósofo gaúcho continua com seus risíveis argumentos ( que são, na verdade, trágicos, quando deveriam ser cômicos), soltando sua metralhadora contra tudo aquilo que ele identifica estar por trás do termo "sociedade justa e solidária": partidos de esquerda, governos democráticos, movimentos sociais. Merece especial atenção do articulista o MST (olha ele de novo, o bom e velho MST) e a Igreja Católica, através de suas pastorais. Parecendo um agente da ditadura, ou falando como filósofo como um bom general falaria, o senhor Rosenfield crítica a política do governo de revisar os índices de produtividade, a fim de relativizar o direito de propriedade no campo, afirmando que boa parte dos integrantes da direção do INCRA e do Ministério do Desenvolvimento Agrário é egressa dos movimentos do campo. Sim, mas, qual é o problema disso? Já que são os agentes da burguesia, por exemplo (usando o mesmo argumento de classes de Rosenfield), que ocupam a direção dos maiores meios de comunicação do país. Cada macaco no seu galho!! A luta de classes ainda existe!


Desconhecendo ( ou fingindo desconhecer) a "guerra de posição" gramsciniana que ocorre na sociedade brasileira, o professor Rosenfield solta suas farpas contra os movimentos sociais e os governos democráticos de esquerda, metendo o pau nos direitos dos trabalhadores no campo em prol do interesse dos latifundiários, e ainda por cima sendo "ecologicamente incorreto" ao criticar também a aplicação do Código Florestal, que alterou as relações de propriedade no campo. Segundo ele, pelo Código, uma área que era de cultivo, passa agora a ser de reserva legal, obrigando o proprietário a reflorestá-la. Rosenfield é contra isso, assim como Bush foi contra o protocolo de Kyoto. O negócio pra ele é promover os lucros do agronegócio, a produção a todo vapor, e não essa estória de preservar o meio ambiente, segundo o papo esquerdista de ambientalistas que Rosenfield tanto critica.


Agora em relação aos quilombolas e indígenas, aí ele pegou pesado! Denis Rosenfield chega a afirmar (pasmem!) que as reivindicações de terras por indígenas compromete a soberania nacional, estraga o agronegócio, e impede a exploração de jazidas e hidrelétricas, causando transtornos fronteiriços. Taí um grande expert em história e direito internacional que eu não conhecia( ou eu poderia dizer "antropólogo de botequim"?). O professor Rosenfield está se dando bem como apologista do Democratas, partido da deputada ruralista Kátia Abreu. Por vezes pensei que fosse ela escrevendo, e não um professor da UFRGS.


Revelando claras tintas reaçonárias, voltando a escrever como um general (de pijama), o professor Denis Rosenfield ataca os movimentos sociais (nacionais ou internacionais), dizendo que são todos, na verdade, um braço do MST. Ahh, o MST, de novo o MST! Ai, que meda! Mais uma vez a satanização de movimentos como o dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra serve como argumento fajuto para todo discurso reaçonário. Eu fico me perguntando como é que a luta desses trabalhadores pode ser anticapitalista e contrária à economia de mercado (como apregoa nosso bom filósofo) se o que os caras defendem é justamente o status de produtores rurais, com a inclusão no mercado de milhares de agricultores assentados, que querem muito mais do que um pé de coentro pra plantar! O que Denis Rosenfield faz é nada mais do que requentar o velho discurso ideologizado neoliberal, na sua defesa incondicional do direito de propriedade e sua repulsa aos movimentos sociais.



Prova disso é que, além de já ter bancado o jurista, historiador, antropólogo e cientista político, o filósofo Rosenfield ainda se meteu a dar uma de linguista, quando questiona o uso da palavra "progressista", dizendo que por debaixo dela há muita "embromação ideológica"(palavras dele). Ele diz que essa expressão empregada para partidos políticos e movimentos, acabou por servir de salvo-conduto para todo tipo de arbitrariedade, toda vez que militantes do MST invadem propriedades, sequestram funcionários, destroem máquinas, depredam alojamentos e sedes , e ameaçam pessoas com foices e facões. Do jeito que ele escreveu, somente uma solução policial abrupta e arrasadora terminaria com isso, transformando o MST em grupo terrorista e confinando-os, junto com os integrantes da Al Quaeda em algum quartel. Aliado ao MST, Rosenfield destila ainda sua ira contra os clérigos defensores da Teologia da Libertação, dizendo que a mistura de cristianismo com marxismo dessa teoria apenas serve para defender uma sociedade socialista/comunista (ainda bem!!).


Por último, a título de provocação, em seu artigo, Rosenfield ataca o governo brasileiro, por ter recepcionado há pouco tempo atrás o controvertido presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, falando do quanto a esquerda brasileira, ao empregar sistematicamente o termo "progressista", acabou por se perder na podridão ideológica.


Podridão ideológica, essa foi boa! Ao menos acredito que esse é um dos únicos termos empregados pelo professor da UFRGS que eu concordo e utilizo contra ele próprio; pois podre é a ideologia neoliberal que surgiu desde os anos oitenta do século passado e tenta se passar por teoria moderna, acaletando, como diria outrora um Francis Fukuyama, o "fim da história". Sabemos que o neoliberalismo (assim como o neoconservadorismo) é tão e simplesmente uma releitura da velha e tradicional ideologia liberal do final do século XVIII, que de nova não tem nada. A defesa abrupta do direito de propriedade como valor absoluto, que Rosenfield tenta nos passar, é apenas o velho discurso liberal burguês-individualista, de manutenção de privilégios e benesses de uma classe que sempre viveu da exploração econômica do mais próximo. Ser contra a reforma agrária, contra o MST e os movimentos sociais em geral, é defender uma agenda conservadora contrária às mudanças que chega às beiras do fascismo. O "pinochetismo" do texto de Rosenfield encontra-se no totalitarismo de demonizar os movimentos sociais e considerar que arbitrários são eles, quando na verdade arbitrário é o capital, que filósofos neoliberais defendem tanto, como é o caso do professor Rosenfield.


Agora, ao dizer que vivemos um período de insegurança jurídica por conta das lutas dos movimentos sociais e a revisão do direito de propriedade, aí Denis Lerrer Rosenfield derrapou feio. Na verdade, ao contrário, "nunca antes na história desse país" (como diz o nosso presidente) vivemos um período de tamanha estabilidade das organizações democráticas, pleno funcionamento das instituições e liberdade de expressão, associação e eclosão de movimentos. O que Rosenfield defende é antidemocrático no momento em que, ao defender a propriedade como valor absoluto, ele não cede espaço à solidariedade social e nem ao ambientalismo. Para pensadores conservadores como ele, na verdade a sociedade não precisa de muitos ajustes, e o mais correto é deixar que " a mão invisível" do mercado faça sua parte, disciplinando as relações sociais, sem que um grupo de baderneiros no campo, acompanhados de padres, venha meter a mão na cumbuca da propriedade alheia. Nada mais conservador, nada mais tolo, nada mais reaçonário. É, como jurista creio que Denis Rosenfield dá um bom filósofo, e como filósofo um bom assessor de deputado do Democratas!!! Que bom se ele lesse meu artigo assim como eu li o dele. Será que se habilita??

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

CINEMA: Por que "500 DIAS COM ELA" é uma comédia romântica super original?!

Se eu fosse utilizar um argumento bem machista, poderia dizer: Comédias românticas são para meninas! Pois é!Quantos de vocês, meus leitores do sexo masculino, ou 99,9% dos meus amigos foi ao cinema assistir de livre vontade uma comédia romântica, se não fosse acompanhado da esposa ou da namorada? Corrijo: a não ser que sejam aqueles com dor de cotovelo, e no exercício de autocomiseração queiram assistir a um belo filme de casais se beijando apenas pra, masoquisticamente, alimentar ainda mais seu sofrimento. Felizmente, quando saí no Rio de Janeiro pra assistir um filme (pô, pasmem, com tanta praia, no período de férias, em plena cidade maravilhosa, esse louco aqui foi ver filme), ao chegar na Estação Botafogo deparei-me com poucas opções antes que tivesse que encarar meu voo de volta a Porto Alegre. Foi aí que me apareceu uma pérola cinematográfica, que me fez abandonar meus velhos conceitos machistas sobre comédias românticas, ao menos temporariamente.

Pois é, corrijo tudo o que disse antes após assistir ao filme "500 dia com ela", do diretor estreante Marc Webb. Webb revitaliza o gênero do tìpico filme romântico ": rapaz encontra garota", para estrear uma original fábula sobre o desencontro, tratando de finais infelizes, que, na verdade, podem não ser bem infelizes assim.


Tratando-se do final, no início do filme o narrador já nos alerta: "esse não é um velho filme romântico com final feliz", ou seja, já sabemos desde o começo que a relação entre os personagens Tom (interpretado por Joseph Gordon Levitt) e Summer (a cada vez mais maravilhosa Zooey Deschanel) não vai dar certo. A relação tem começo, meio e fim, justamente nos 500 dias apontados no filme, onde dia após a dia (acreditem, o diretor conseguiu narrar os 500 dias de uma relação amorosa, sem ser chato em uma hora e meia de filme), vivemos as agruras do personagem Tom, atormentado pelos altos e baixos de sua relação com a namorada (será?) Summer.
Tom é exatamente idêntico, de forma inteiramente realista, a todos nós, homens, que já fomos ou ainda somos rapazes apaixonados, frágeis (acreditem, por detrás desse corpanzil, também sou), e que ainda acreditam no amor. Tom incorpora aquela nossa faceta de rapaz de vinte e poucos anos, ainda buscando experiências na vida pra se firmar profissionalmente e afetivamente, fã de músicas dos anos oitenta e que num casual encontro de elevador, ao escutar uma música de The Smiths, acaba se encontrando com seu objeto de desejo: a bela companheira de trabalho Summer.
Sobre Summer, para alguns aqui soará familiar, pois não posso escrever sobre a personagem sem me referir a atriz que a interpreta, já que sou fã confesso de Zooey Deschanel. Escrevi um artigo extenso sobre ela no ano passado, revelando minha tietagem, não apenas por ela ser linda, mas por ter um talento que transcende as telas de cinema e se traduz na bela voz, compondo e cantando na ótima banda indie She & Him(se ainda não baixou na internet ou não comprou o disco, não sabe o que está perdendo). É exatamente por ser essa garota indie, linda e descolada que é, que Deschanel consegue imprimir com leveza e naturalidade a sua Summer, que, de fato, se assemelha a toda garota linda que uma vez na vida conhecemos, e nos apaixonamos, mas sabíamos no fundo do coração, por mais que sofressemos, que não ia dar em nada. Summer não é uma vilã, uma sacana, ou uma "vadia" que quer roubar nossos corações, machucando-os com sua indiferença ou falta de amor. Na verdade, Summer é apenas uma garota que não acredita ( ou pensa que não acredita) no amor.
Por ser realista, é que o filme parece ter a pretensão de ser sério demais e talvez ganhar os ares de um drama. Ledo engano, "500 dias" consegue mesmo assim ser leve, engraçado e delicioso, porque com um sorriso no rosto, nós (principalmente os homens) irresistivelmente somos compelidos a nos identificar com Tom, e até torcer por ele (como fazem seus amigos no filme, que vira e mexe lhe dão conselhos), mas sabemos que, no fundo no fundo, aquilo não vai dar certo. Não dará certo porque somos vítimas de nossas paixões ( e sobre paixões já falei bastante aqui neste blog) e é justamente por isso que as paixões merecem ser vividas. Acompanhamos as desventuras de Tom não como se ele fosse um coitadinho, traído pelo amor; mas, ao contrário,vemos como ele se torna uma criatura que cresce, alguém que se agiganta na pequenez de seus sofrimentos miúdos, e que apesar de deixar a emoção levar o cérebro a cometer desastres, nos deixa a grande lição que o amor (inclusive o amor por nós mesmos) só se completa numa relação de aprendizado. E é isso que Tom acaba obtendo com Summer e vice-versa.
A trilha sonora então contribui mais ainda para açucarar os dias apaixonados de nosso herói da desventura amorosa, Tom. Só mesmo o melhor do rock britânico dos anos 80, com suas letras igualmente açucaradas e byronianas pra acompanhar o enredo das emoções tão típicas para quem está apaixonado. Nos 500 dias de que trata o filme em toda a sua extensão, Marc Webb, ele mesmo diretor de videoclipes, assim como seu colega Anton Corbjin (diretor do ótimo "Control", sobre a vida de Ian Curtis, do Joy Division), conjuga música e imagem numa estética de videoclipe já vista em filmes antes como "Corra Lola", mas com alguns toques de esperteza e originalidade. Basta ver a cena (opsss, não vou contar tudo) de um Tom já desiludido, abandonado, sozinho numa sala de cinema, e o que acontece quando ele vê os personagens na tela (nada haver com "A Rosa Púrpura do Cairo", mas quem for bom cinéfilo, ao ver, vai entender o que estou falando). É simplesmente hilariante e criativo. Outra cena impagável, é quando Tom, tentando recuperar seu relacionamento com a amada, vai até uma festa no apartamento dela, e podemos acompanhar em duas telas sincrônicas as duas perspectivas daquele dia: expectativa e realidade. É simplesmente o maior barato!!!!
Tenho um fraco por garotas indie, é verdade, não só eu, mas noventa por cento dos caras sensíveis que conheço, e por isso já quebrei a cara (assim como o personagem Tom). Porém, a graça está exatamente nisso, por termos a oportunidade de nos apaixonar pela garota errada; pois o erro faz parte do acerto de ter vivido uma experiência tão arrebatadora e ao mesmo edificante. Se podemos tirar mais lições do ótimo filme de Webb é de que a partir da paixão é que realmente vivemos, sobretudo quando passamos por ela e sabemos saborear o delicioso gosto do que ficou, que é o amor pela vida e a sensação de mudança, de transformação, que a paixão vivida nos trouxe. Na verdade, "500 dias com ela" não fala só de paixão, mas principalmente de transformação, e este é, a meu ver, o grande legado do filme. E como dizem na popular e velha frase que todo apaixonado que ainda tá se remoendo não quer escutar, mas quando passar a fase, vai concordar com certeza: a fila anda! O amor é lindo, com (ou sem) ela.
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