sexta-feira, 27 de setembro de 2013

MÚSICA: Por que Bruce Springsteen fez o melhor show do Rock in Rio?

Foi preciso vir um músico norte-americano, sexagenário, conhecido por expor a alma e a cultura do povo de seu país, para que o povo brasileiro fizesse a justíssima homenagem a um de seus maiores expoentes do rock nacional, falecido há quase três décadas. Foi na abertura de seu show no último sábado, dia 22 de setembro, no Rock in Rio, que Bruce Springsteen comoveu o Brasil e os fãs de rock no mundo inteiro, homenageando Raul Seixas, cantando em alto e bom som, num simpático português cheio de sotaque, mas com muita boa vontade: Sociedade Alternativa, do saudoso maluco beleza. Coube a um músico egresso da era hippie fazer um bonito reconhecimento de outro músico, de um país diferente, mas oriundo da mesma época. Como que jogando pra galera, Bruce Springsteen soube, já no primeiro ato, conquistar a plateia, que hipnotizada e ganha pelo experiente músico, acompanhou o cantor norte-americano por mais de duas horas e meia de show, incluindo-se o bis, o que fez os organizadores do festival praticamente despejarem o cara do palco com sua banda ( a competente The E Street Banda, formada por 17 músicos), deixando uma multidão enlouquecida de mais de 100 mil pessoas, que praticamente madrugaram com o músico, cantando junto antigos sucessos, canções dos álbuns mais recentes ou mesmo raridades, desenterradas do baú dos anos setenta. Para os críticos, em sua imensa maioria, a apresentação de Springsteen e seu grupo foi, disparada, a melhor apresentação dessa quinta edição nacional do Rock in Rio.

Mas por que Bruce Springsteen foi tão bem? Afinal de contas, com o fim da era do CD, os jabás nas rádios locais  e a decadência da MTV, suas músicas não são mais tão conhecidas do grande público como eram anos atrás. Seus discos aqui pelo Brasil não alcançaram recordes de vendagem e nenhuma de suas canções virou tema de novela. Mesmo assim, uma plateia gigantesca foi reverenciar o cara no sábado à noite, como atração principal de um festival que tinha pesos pesados do rock e do pop, como a banda britânica Iron Maiden (que também arrasou, como de costume, no dia posterior), o eterno ídolo Bon Jovi, a esfuziante Beyoncé e os superstars das garotinhas, Justin Timberlake e John Mayer. Apesar das outras atrações concorrerem entre si, foi o show de Springsteen que reuniu o maior número de gente; ou seja, gregos e troianos, metaleiros e mauricinhos se juntaram para ouvir o velho músico norte-americano. Então, retomo a pergunta: o que faz de Bruce Springsteen ser tão bom? A resposta talvez esteja nos anos oitenta.


Em 1984, enquanto músicas como Jump do Van Halen estouravam nas rádios, ouvíamos bandas como Barão Vermelho, Paralamas, RPM e Legião Urbana no rock nacional, e Michael Jackson era, consagradamente, o rei do pop, apareceu um clipe muito bacana na MTV com um cantor boa pinta, com jeito de galã e mistura de caminhoneiro norte-americano com ator de filme de ação yankee, que no auge da virilidade e juventude cantava no palco Dancing in the Dark, chamando uma garota bonita da plateia, no final da canção, para dançar junto com ele, num dos primeiros clipes a ser difundidos mundialmente pelo canal de música norte-americano. Logo depois, estreava nacionalmente nas bancas de jornal a famosa Revista Bizz, da Editora Abril, que trazia na capa, em sua edição nº 1 ele de novo, o cara que se tornou mundialmente famoso através da canção Born in USA, no auge da Guerra Fria entre EUA e União Soviética e os filmes de Rambo, do ator Silvester Stallone.  Nascia assim, no meio dos anos oitenta, o mito Bruce Springsteen! Depois, para fechar com chave de ouro aquela época, viria a consagração também no cinema, no começo da década de 90, com a música Streets of Philadelphia, trilha sonora do filme Philadelphia que deu o primeiro Oscar de melhor ator a Tom Hanks, além de ganhar o prêmio de melhor canção original.

Mas, independente do cenário político e do panfletarismo do governo do presidente Reagan nos anos oitenta, espinafrando os soviéticos valendo-se da música do cantor, Bruce Springsteen não era um produto dos anos oitenta. Na verdade, ele tinha nascido bem antes, no elogiado disco Born to Run, de 1975. Lá é que surgia, no terceiro álbum do músico, o estilo que seria a marca da música de Springsteen: um rock saudosista com um rhitym blues bem marcado, uma leve pegada country, numa miscelânea das influências do soul na música negra e do rock branco calcado no rockabilly, de bandas que surgiam e se desfaziam em regiões do interior norte-americano, além de uma certa inspiração folk, principalmente nas letras, certamente com fundamento em outro grande músico e lenda da música não só americana como mundial, que, assim como Springsteen, cantava a realidade nua e crua do American Dream e de uma nação afundada em guerras e desigualdade social, principalmente depois do Vietnam: estamos falando de Bob Dylan. 

Por falar em raízes,uma das grandes características de Bruce Springsteen como artista e o que o fez ser tão especial é sua completa simplicidade, desinibição e empatia com o público. Como um showman feito para agradar, munido apenas de um violão e de uma gaita, o cara consegue encantar plateias gigantescas em estádios, sem banda de apoio, como se estivesse tocando dentro de um barzinho, ou na varanda da casa de algum conhecido. É folclórica a história que contam nos backstages que, quando os músicos nervosos de sua banda preparam-se para entrar no palco, é comum Bruce dizer a sua turma que as pessoas lá fora  são como o pessoal de New Jersey que os está esperando; ou seja, "estamos em casa". Isso identifica bem o caráter do músico que acha que, onde quer que se encontre, todos que vem para escutar suas canções são amigos de sua cidade natal, amigos da música, independente do idioma ou da posição geográfica, fazendo com que o rock seja o que seja: uma celebração multicultural, que, mesmo cantada em inglês, consegue animar as mais diferentes nações. É por isso que considero Bruce Springsteen um dos músicos mais globalizados do planeta.

Quando surgiu há quase  quarenta anos, as gravadoras procuravam um cantor que fosse uma alternativa a Bob Dylan. Na verdade, se Dylan incorporava um som mais intelectualizado, universitário e estandarte da geração hippie que viveu intensamente os anos sessenta, competia a Bruce Springsteen incorporar os valores dos anos setenta, sendo mais do que uma mistura de Dylan com Elvis. Seu talento como compositor já era mais do que comprovado, com pérolas, citadas pela crítica musical mundial até hoje, como Born to Run, Rosalita (Come out Tonight) ou Thunder Road e Jungleland que são considerados clássicos. Depois chegaram os anos oitenta, e a partir de canções como  Hungry Heart, do celebrado disco The River,  de 1980, o músico norte-americano chegou, enfim, ao estrelato.

Seguiu-se o antológico disco Born in Usa, de 1984, da música homônima já citada, que transformou o cantor em ícone, como representante máximo de uma geração. Apesar da propaganda do governo, Bruce sempre foi um democrata, avesso ao discurso belicista e neoliberal do Partido Republicano, e odiou a forma como sua música foi usada como propaganda anticomunista no governo de Reagan, apesar de seu sucesso estrondoso nas rádios e shows do mundo inteiro. Foi nessa época que Michael Jackson reconheceu Springsteen como celebridade, e o convidou para participar, juntamente com outros notáveis da música mundial, do célebre clipe da canção We are The World, cuja arrecadação da venda do disco compacto serviu como donativos para conter a fome das crianças na África. Identificado com causas sociais, esse é outro traço do caráter de Bruce Springsteen que o torna um artista tão atraente e tão simpático às massas. Filho de um motorista de ônibus e de uma secretária, o músico era um típico working class hero, egresso da comunidade proletária e operária do meio oeste americano, que, agora, em tempos de crise econômica, consome com voracidade as músicas e as letras dos últimos discos de Springsteen, que relatam exatamente o drama das famílias pobres norte-americanas  que perderam suas casas e empregos, na última crise imobiliária iniciada antes de 2008, ainda no governo de George W. Bush.
 
Desde antes da ditadura militar, para o bem e para o mal, o americanismo foi muito pronunciado na sociedade brasileira, principalmente através da música, pois fomos influenciados no século XX pelo jazz feito pelos norte-americanos, no surgimento da bossa nova por aqui, assim como a Jovem Guarda foi uma cópia quase que fiel na música do movimento mundial que tomava os jovens de assalto, na formação de uma nova musicalidade chamada Rock'n Roll. Era o tempo em que Beatles, e, principalmente Elvis Presley dominavam corações e mentes no mundo inteiro, e não poderia ser diferente no Brasil.  Entretanto, foi através de músicos como o baiano Raul Seixas, na década de setenta, que o rock ganhou ares cult, com músicas mais bem trabalhadas e letras mais viajantes, críticas e literariamente bem escritas. Foi nessa época que surgiu o rock de Bruce Springsteen, e não foi à toa que seu som casou tão bem com a homenagem feita a Seixas no Rock in Rio, já que ambos, em síntese, beberam da mesma matriz cultural. É dessa matriz que vieram bandas de rock nacional que tocam até hoje, como o Barão Vermelho, e é por isso que gerações e mais gerações, com um público cada vez mais novo, de maneira impressionante lotam shows, ocupando estádios, e participando com curiosidade e afeto de shows de veteranos como Springsteen.

Agora, com canções novas do último e excelente disco, Wreckin Ball, Bruce Springsteen brilhou onipresente no último sábado no Rio de Janeiro, tornando mais bonita a Cidade Maravilhosa com sua apresentação memorável no Rock in Rio. Lamentei não poder ter assistido pessoalmente ao seu show, mas fiquei gratificado ao ver uma bela apresentação ao vivo na TV, reproduzida exaustivamente no Youtube, e que mostra como, aos 63 anos, o músico norte-americano ainda está em plena forma, cantando seus hits com alegria, assim como fazia nos saudosos anos oitenta. É bonito de se ver quando antigos músicos não perdem a boa forma, e no caso de Springsteen, a forma ainda está bem presente na maratona de shows que começaram no início do ano, culminaram no Rock in Rio e não tem data pra acabar. Bruce Springsteen conseguiu extrair todo o lado bom do norte-americano, mostrando em suas letras o quanto esse povo pode ser tão parecido e cheio de problemas como é o povo de outras nações. Como cantor do povo o cara mostrou a que veio, e para o público encantado do Rio de Janeiro ele mostrou que, assim como sua música, ele "nasceu para correr". Congratulations, Mr. Bruce Springsteen! E viva a sociedade alternativa!!

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

CINEMA:Mais do que um filme para amantes de velocidade, "Rush" é sobre superação.

O trágico acidente que quase matou Niki Lauda.
Eu tinha apenas 5 anos de idade. Muito pouco para lembrar, quando o piloto austríaco Niki Lauda espatifou sua Ferrari em chamas no autódromo de Nurburgring, na Alemanha, no campeonato da Fórmula 1 de 1976. Na verdade, eu só vim a saber o que era F1 e corridas de alta velocidade dez anos depois, quando Nelson Piquet tornou-se um dos poucos pilotos brasileiros campeões do mundo nessa modalidade esportiva, depois de Emerson Fittipaldi e antes de Ayrton Senna se consagrar nas pistas (considerado até hoje o maior e mais inigualável piloto brasileiro de todos os tempos).


O verdadeiro Lauda fala de seu rival, James Hunt.
Naquela época, Lauda era campeão mundial no ano anterior pela primeira vez, e encerrou sua carreira vencedora com 3 títulos mundiais, tornando-se uma figura histórica, no hall da fama dos maiores corredores de todos os tempos. Mas o que se tornou roteiro do filme do diretor norte-americano Ron Howard foi menos o terrível acidente que o desfigurou e quase tirou sua vida, e sim a sua emocionante disputa com seu maior rival naquela época: o piloto britânico James Hunt. Como um bom filme de sessão da tarde, Rush conta a história dessa disputa frenética, e traça um perfil de egos tão distintos quanto complementares.

Não poderiam existir pilotos tão diferentes, mas tão equivalentes em talento. Lauda representava a disciplina, o perfeccionismo e perseverança germânica, enquanto que Hunt combinava o temperamento explosivo com a fleuma britânica, fazendo manobras arriscadas nas curvas e quase suicidas. O austríaco era baixinho, mal humorado, narigudo e dentuço (apelidado de "rato" entre seus adversários), mas era um gênio na construção de carros e motores, e responsável pelo ressurgimento da Ferrari no cenário esportivo mundial; enquanto que seu colega inglês era loiro, alto, bonito e mulherengo como Jim Morrisson e galante num carro de corrida, como um Juan Fangio, incorporando os valores festeiros de uma Swingin London hippie, posterior aos Beatles e Stones, com sua pinta de galã e filas de garotas bonitas no seu cockpit. Independente das personalidades, quando ambos assumiam o volante de um carro, passavam a se compenetrar de tal forma que a única coisa que interessava era a vitória nas pistas, principalmente a vitória contra o adversário, perseguindo um ao outro nos autódromos do mundo.

Ron Howard é um diretor tradicional de hollywood, que se consagrou com o Oscar de melhor diretor pelo filme Uma Mente Brilhante, em 2001. Fora isso, ele se notabilizou por filmar blockbusters, como a série O Código da Vinci, adaptada para os cinemas com Tom Hanks no papel principal. Entretanto, uma das grandes características desse cineasta de Oklahoma é ressuscitar o mito do self made men da cultura liberal norte-americana; ou seja, a de que é possível, com muito esforço e dedicação, superar todas as adversidades em busca da vitória. Foi assim em Apollo 13, filmado em 1995, com o mesmo Hanks, e agora em 2013 com os atores Daniel Bruhl (Adeus Lênin e Bastardos Inglórios) e Chris Hemsworth. Nesse caso, as mulheres são coadjuvantes e figuras de apoio dos protagonistas, como foram as mulheres de Hunt e Lauda (interpretadas, respectivamente, por Olivia Wilde e pela atriz romena, naturalizada alemã, Alexandra Maria Lara). Mas são as mulheres que injetam um tom de humanidade nos dois rivais, obcecados em vencer um ao outro, nem que seja pelo sacrifício da própria vida.

Amigos?Inimigos?Ou será que um completava o outro nas pistas?
E foi vida  o que o piloto Niki Lauda quase sacrificou, no fatídico dia em que se acidentou, numa pista chuvosa e perigosa, onde não queria correr. Após passar mais de um minuto dentro de um carro em chamas, que quase se tornou sua pira funerária, Lauda foi conduzido às pressas para o hospital com poucas chances de vida (ele chegou a receber a extrema unção de um padre horas depois de ter entrado no hospital), mas milagrosamente se recuperou, retornando de volta as pistas poucos meses após seu trágico acidente, mesmo totalmente desfigurado por queimaduras que lhe tomaram parte do rosto. James Hunt também não deixa de ser um vencedor, por também ter superado a adversidade. Sem apoio e patrocinadores, ele quase viu desabar seu sonho de ganhar na Fórmula 1, quando se viu sem escuderia; até que uma apreensiva McLaren resolveu contratá-lo após a desistência da companhia de outro piloto campeão, um tal de Fittipaldi (quem?), que após ter se sagrado bicampeão em 1972 e 1974, largou a companhia inglesa para se aventurar numa malfadada experiência na recém-fundada Copersucar.

Mesmo para quem não goste (como eu) de
Hemsworth e Bruhl incorporam os lendários pilotos nas telas.
automobilismo, vale a pena ver o filme de Howard e as impressionantes imagens das corridas, capturadas em momentos históricos trazidos para a tela de cinema através de efeitos especiais digitais, que colocam os atores dentro de uma corrida de verdade. Também vale o filme como recorte histórico, numa época que a Fórmula 1 era um esporte muito mais perigoso (e, talvez por isso, fosse mais romântico),do que é a competição hoje, com suas regras bem definidas, os carros menos possantes por questões de segurança, e as pistas menos arriscadas, face todo um trabalho de prevenção de acidentes feito nos últimos vinte anos, após a morte de Ayrton Senna. Ficam devendo os cinemas ainda uma boa cinebiografia do próprio Senna, mas enquanto isso não chega, podemos nos contentar com a disputa automobilística desses dois grandes pilotos de corrida, que inscreveram seu nome na história.
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Gates e Jobs

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