sexta-feira, 28 de maio de 2010

ELEIÇÕES: Segurança Pública-Serra e sua metranca podem gerar bala perdida!

Pra quem me conhece e sabe de minhas predileções político-partidárias, não há duvida nenhuma de que votarei em Dilma Roussef para presidente. Não apenas porque "o cara" quer, mas sim por acreditar que o projeto político representado pela escolhida de Lula segue em confronto com o projeto oposicionista de Serra. Não que as propostas de Dilma sejam revolucionárias, mas ao menos são as propostas de um governo que teve o mérito de sair da mesmice na discussão sobre a área de segurança (razões que explico no decorrer deste texto). Bueno! O que temos agora, em termos de candidaturas?! De um lado, pela candidata governista, temos a presença do ideário socialista, com um Estado forte, com tudo de bom e ruim decorrente disso, inclusive com uma burocracia exagerada, um populismo de esquerda que acomoda sindicalistas em cargos públicos, clientelismo, troca de favores e um certo fisiologismo típico de quem barganha apoio do PMDB, e um assistencialismo bem no estilo social-democrata, além de uma política externa que tenta colocar o país no protagonismo internacional, mesmo que esse implique numa briga com os Estados Unidos. Já, de outro lado, pelo candidato oposicionista, temos a marca do projeto neoliberal iniciado com Fernando Henrique Cardoso, capitaneado pela aliança tucano-democratas, do Estado mínimo, privatista, interessado em fomentar o grande capital através do discurso da reforma tributária, num tom economicista, privilegiador do interesse privado e porta-voz da classe média urbana e consumista, que no âmbito externo tem um projeto mais modesto: de subserviência ao capital especulativo internacional, mais acomodado aos interesses norte-americanos, até o ponto de crucificar figuras como Chavez, Raul Castro, Evo Morales e Ahmadinejad, como verdadeiras "forças do mal".

Mas o que me preocupa mais no discurso de Serra não é tanto a coloração político-ideológica que ele tanto ostenta  com sua plumagem tucana, já há muito tempo, mas sim seu discurso voltado para á area da segurança pública. Serra me parece mais um devoto dos discursos da lei e da ordem, bem ao gosto da tirânica classe média paulista e de sua elite econômica, que acha que questão social é caso de polícia, defendendo um populismo punitivo ao gosto das massas que assistem na TV o Datena, com o recrusdecimento das penas de prisão, a ausência de trégua para os criminosos, na ideologia preventiva do "combate ao crime", uma visão totalmente panóptica do aparato carcerário, além de uma defesa (pasmem!) apaixonada da Lei dos Crimes Hediondos. É, se já era perigoso pensar no retorno dos neoliberais ao poder (não obstante o lulismo hoje ser considerado uma espécie de social-liberalismo), agora, o mais preocupante é ver como esses neoliberais irão lidar com assuntos vinculados à segurança do Estado.

O antrópologo Loic Wacquant, conhecidíssimo por duas grandes obras suas: As prisões da miséria e Punir os Pobres, denuncia a estratégia neoconservadora e da nova-direita de tratar as questões sociais como questões que só se solucionam com o emprego do aparato punitivo do Estado. Para Wacquant, seria a "passagem do Estado-providência para o Estado-penitência", no momento em que o Estado, ao não conseguir suprir os excluídos de política sociais, "joga a toalha" e resolve a questão da pobreza da forma mais rápida e eficaz, tirando os pobres das ruas, higienizando o espaço público, levando-os para o cárcere. É desse discurso que se alimentam candidatos como Serra, juntando-se ao coro dos demagogos de plantão, ao criticar os movimentos de direitos humanos, por serem, segundo eles, tolerantes demais com a bandidagem. Povo quer ver ação!Povo quer ver o fim da impunidade! Povo quer sangue! E assim como Foucault, no capítulo inicial de Vigiar e Punir,onde ele narra uma execução em praça pública, com o martírio de um condenado, políticos como Serra querem ver supostos criminosos massacrados pela mídia e pela opinião pública, mofando ou apodrecendo na cadeia; como bem pôde ser observado quando o folclórico político tucano e ex-governador de São Paulo, hábil no uso das expressões "trololós" da vida, ampliou seu voculário, dizendo num popular português que os criminosos, na sua presidência, deveriam ser todos "engailoados" (como se já não fossem, tendo em vista os dramas da superlotação de nosso sistema prisional).

Ao escutar a entrevista ao vivo de Serra na Rádio Gaúcha, no começo deste mês de maio, por exemplo, em duas horas de conversa do candidato tucano com os radialistas, pude escutar além de sóbrias exposições sobre futebol e sobre as chances do Santos e do Palmeiras, verdadeiras pérolas do discurso punitivo, quando Serra se referiu saudosamente à eficácia da Lei 8.072 (dos Crimes Hediondos), para ele, sabiamente aprovada pelo Legislativo após a morte da atriz Daniela Perez (como se ninguém não estivesse cansado de saber disso), bem como defendeu o uso de pulseiras e tornozeleiras eletrônicas para monitorar presos do semiaberto ou em liberdade condicional. Sobre o sistema prisional é que Serra foi mais efusivo, dizendo que se tratava sim de responsabilidade dos estados da federação lidar com a questão carcerária, não devendo a União meter o bedelho nisso, defendendo tão somente um aumento de verba, destinada em forma de repasse aos estados, para que eles solucionassem o dilema carcerário, para a construção de mais presídios; ou seja, nenhuma solução a longo prazo envolvendo expedientes não punitivos: para os pobres mais cadeia; para os ricos, garantia de verbas para que se construam mais cadeias a fim de afastar os indesejáveis do convívio com a distinta comunidade do Alto de Pinheiros.

Serra defende a criação de um Ministério da Segurança Pública, reeditando o bom e velho papo furado da Força Nacional. Agora pergunto: Força Nacional pra que? Pra atender os interesses de quem, cara-pálida? Se for para essa tal nova força fazer o papelaço que fez o Exército, ao invadir os morros cariocas, digo que isso será motivo de festa para os traficantes e para o crime organizado em geral. Ora, mais militares ou gente fardada armada até os dentes, pra invadir localidades dominadas por criminosos, significa em termos matemáticos, mais chances de se conseguir subornar ou cooptar agentes públicos, e estimular o tráfico de armas que se dá entre habitantes dos morros e integrantes dos quartéis. Na sua inteligência de cidadão urbanóide criado na Móoca, Serra deve pensar tais expedientes de força em momentos de suposta "instabilidade institucional" (leia-se, arruaças do movimento sem-terra), para colocar seus leões emplumados para sufocar manifestações populares. Foi o que fez sua colega de legenda, Yeda Cruzius, no Rio Grande do Sul, no tocante ao levante dos professores grevistas da rede pública, foi o que fez a Brigada Militar gaúcha, liderada por um então "Rambo" coronel Mendes, que culminou com a desastrada ação que envolveu a morte de um sem-terra, morto com um tiro nas costas, disparado pela própria polícia. O aparato de segurança, segundo a lógica tucana de candidatos como Serra, deve ser montado em torno daquela mesma polícia que atua em São Paulo do "atire primeiro, pergunte depois", no velho estilo "Rota na rua". É! O xerife Serra está se notabilizando com esse seu discurso de programa do Ratinho. Pode ser até que consiga alguns votos no Ceará, terra de seu colega de legenda, Jereissatti, e dos pistoleiros que vivem lá.

Não basta o discurso de força empregado por Serra se voltar, no âmbito da segurança interna, para os tradicionais "clientes" do sistema criminal (pretos, pobres, favelados e excluídos), mas, também no âmbito externo, Serra quer se firmar como uma espécie de "Álvaro Uribe brasileiro", denunciando a criminalidade nas fronteiras, e se valendo de expedientes denuncistas, mesmo sem ter provas cabais nas mãos, detratando seus vizinhos, como na recente entrevista numa rádio paulista, em que meteu o pau em Evo Morales e no governo boliviano, dizendo que eles fazem vista grossa quanto à entrada e saída de cocaína que passa pelo seu território, estimulando o tráfico de drogas que assola o Brasil. Serra deixou bem claro que seus parceiros prefenciais no Cone Sul estão longe de ser tipinhos esquerdistas, incendiados pela mídia neoliberal e neoconservadora de periódicos como a Veja ou o Estadão, e que seu discurso está muito mais próximo daquele adotado pela nova direita americana, que pregam doutrinas de segurança hoje muito questionadas, como a da "janela quebrada" ou tolerância zero e que defendem, por exemplo, a presença de tropas americanas no território próprio, comprometendo a soberania, a pretexto de combater o narcotráfico. Numa urbe gigantesca como São Paulo, Serra pode até bancar o Rudolph Giulani bandeirante, mas numa realidade mais complexa de um país de dimensões continentais como o Brasil, aí o papo é outro.

Somam-se intelectuais que debatem o problema da segurança como Luiz Eduardo Soares, Nilo Batista, Marcos Rolim, Guaraci Mingardi, Maria Lucia Karam, Miriam Guindani, Vera Malagutti, Alba Zaluar e o coronel José Vicente, que há muito questionam o receituário adotado por políticos como Serra ou pela seara tucano-democrata. Na verdade, o bom e velho papo do "bandido bom, bandido morto", ressuscita apenas políticas criminais ineficazes, com danos colaterais imensos na manutenção de direitos fundamentais como a vida e liberdade, do que se propor a resolver realmente o problema da crise de segurança do Estado. É uma velha lógica reativa e imediatista, a defendida por candidatos como o tucano oposicionista, e de nada resolvem a dinâmica da criminalidade, desenvolvida no país após o processo de redemocratização.

O problema do discurso de Serra nessa área espinhosa como a segurança, é o mesmo problema da direita enquanto espectro político de lidar com o tema; pois, na verdade, segurança só passou a ser preocupação dos mais ricos quando os portões de suas mansões passaram a ser ameaçados por sequestradores. Durante séculos são os mais pobres que sofrem com a falta de segurança, pois é o trabalhador subalterno, assalariado, que corre o risco diário de ser assaltado numa parada de ônibus, de madrugada, ao sair do trabalho, e não o banqueiro com seu helicóptero ou carro blindado. Para o segmento mais pobre e assalariado da população, nunca foram pensadas políticas de segurança, até porque assaltos, estupros e violência doméstica sempre fizeram parte da crônica suburbana. O que incomoda as elites é agora ter que tratar com uma nova forma de criminalidade desenvolvida na globalização, chamada comumente de crime organizado, que aí sim afeta o capital e atinge o patrimônio dos mais endinheirados. Nesse momento, ao menos na seara tucana, desde o governo de Covas em São Paulo ou de Marcelo Alencar no Rio de Janeiro, não se pensam em políticas de planejamento da segurança que levem em conta formas de participação democrática da sociedade na gestão da segurança, numa lógica substitutiva na aplicação de penas, levando mais em conta aspectos reeducativos do sistema criminal, do que meramente punitivos. No discurso de Serra vejo muito da velha ideologia liberal, de inspiração católica, de ver o criminoso como um pecador, aquele que, pelo livre-arbítrio, tornou-se um safado que escolheu livremente o caminho do crime, e por isso deve ser punido. É bem a lógica da classe média paulista, branca, católica, e de origem italiana, de onde veio o candidato oposicionista, do PSDB, e não das comunidades negras, pobres, e de origem nordestina, como as que viveu o rapper Mano Brown, do Racionais MC. Sobre isso, é interessante ver a entrevista que Brown dá e que se tornou célebre no You Tube, sobretudo na parte em que fala de Serra, e que tive oportunidade de deixar aqui à disposição dos leitores do blog.

Em contrapartida ao discurso de Serra, parece que nesse sentido, se o governo Lula fez pouco, ao menos algo fez no imobilizado campo da segurança pública, quando isso envolve a União. O surgimento e evolução do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança e Cidadania) do Ministério da Justiça, na gestão de Tarso Genro, parece realmente ter saído do papel e tido algumas tímidas (porém louváveis) iniciativas, no sentido de mobilizar amplos e efetivos segmentos da sociedade civil e da própria polícia, para pensar e redefinir o papel da segurança. A esquerda é pródiga em produzir pensadores nessa área, não porque seja uma debilidade da direita em manter cérebros que pensam uma reforma do aparato punitivo, mas sim pelo fato de que candidatos como Serra, ao menos até agora em seus discursos, não demonstraram possuir por trás deles, em sua assessoria, alguns think tanks do pensamento conservador ou neoliberal (como nos EUA), que pensem cientificamente a segurança do Estado, mesmo que para defender posições ideológicas reaconárias. Serra permanece preso ao velho discurso liberal-positivista do direito penal, ao defender mais normas criminalizantes, mais penas e mais punições. Em nada acrescenta sua proposta de segurança, porque se encontra míope, limitada a ver o problema da criminalidade numa perspectiva meramente microssocial, vendo a pena como um problema do bandido, e não como um problema da sociedade. Por outro lado, através do PRONASCI, o governo federal conseguiu, aos poucos, romper com o invólucro limitador da velha visão tradicional sobre o crime, pensando mais a segurança como um problema não só de Estado, mas de sociedade, chamando essa mesma sociedade a discutir o delito, numa proposta mais macrossocial. O que quero dizer com isso é que se levou em conta no gerenciamento da segurança, não mais o simples emprego do efetivo estatal armado para debelar o delito, mas sim de uma evidente participação popular nas políticas de segurança, em iniciativas transformadoras, como o policiamento comunitário, os territórios da paz, o trabalho com jovens e as unidades de polícia pacificadora.

Estou certo de que como criminólogo, Serra dá um bom economista, e nessa condição ele possa acreditar, até ingenuamente, que o problema da criminalidade no Brasil resolva-se tão somente através de um cálculo punitivo. Entretanto, bem mais complexas são as relações e reações humanas, e creio ser muito difícil ele convencer alguém de que seu discurso na área de segurança não passa da mera casca, ao propor a criação do tal Ministério da Segurança, de discos voadores pra perseguir criminosos, ou seja lá o que se passe na sua lustrosa careca. Só sei que do jeito que vai, esse discurso não cola! E como diria Mano Brown, ao ser perguntado de um José Serra na presidência, ele resumiu: catástrofe. Vote certo, vote consciente em 2010! Não vote no Serra!Agora se você for tucano, reaçonário e só gostar de filmes com explosões e tiros!Aí, bom!Não dê me ouvidos!Bala neles!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

MÚSICA/HOMENAGEM: Morre Dio, vira-se uma página do Heavy Metal.

O heavy-metal está de luto!! Morreu o "baixinho invocado" do rock pesado. Sou um cara com gosto eclético pra música. Vou desde um Chico Buarque, Noel, Cartola e Jorge Ben Jor, passando por um tropicalismo de Caetano, Gal e Gil, uma bossa-nova de Jobim e Nara Leão, um rock'n roll a la Chuck Berry, Elvis, além dos clássicos Beatles e Rolling Stones, Led Zepellin ou The Who, até chegar a um blues e um jazz de Miles Davis ou Charles Mingus, sem esquecer música clássica de Brahms ou Bach,  e música eletrônica. Só não aguento axé, pagode e nem os discos de Frank Aguiar, Calcinha Preta ou Osvaldo Montenegro e nem o Bonde do Tigrão. Entretanto, sou de origem eminentemente rocker, como maciçamente foi minha geração, mas sou assumidamente fã de metal. Não obstante não me considerar parte de uma tribo urbana, confesso que minha formação musical na adolescência passou muito por escutar discos do Judas Priest, do Manowar, do Iron Maiden, AC/DC, Saxon, Metallica e, principalmente, da banda ícone de toda uma época: o Black Sabbath.

Foi no Sabbath que despontou para o sucesso Ronnie James Dio (1942-2010), na formação vice-campeã do grupo, após Ozzy Osbourne ter saído da banda, no final dos anos 70. Na década de 80, Dio figurou no Sabbath por apenas três discos(Mob Rules, Heaven and Hell e Live Evil), mas deixou na história do rock sua marca inconfundível: timbres agudos e viscerais, perfomances vigorosas, uma teatralidade mórbida e um domínio de palco raro, para muitos frontmen. Dio era sobretudo um cantor carismático, e devido a esse carisma atribuí-se a ele um dos gestos mais conhecidos entre os fãs de heavy-metal e que se notabilizou como o sinal dos metaleiros de todo o mundo: as mãos erguidas com o dedo minimo e o indicador levantados, formando com o polegar uma forma que simboliza chifres, como que representando um animal satânico. No documentário Metal, dirigido pelo antropólogo norte-americano Sam Dunn, ao ser entrevistado, Dio, de origem católica, atribuíu o gesto a uma avó que ele tinha, imigrante italiana, que a tudo que via fazia o gesto característico do chifrinho, como que para espantar mau olhado; ou seja, Dio refutou as acusações prosaicas de que estivesse incentivando o satanismo para jovens e incautas multidões de adolescentes que escutavam sua música, pois acabou demonstrando que estava fazendo apenas uma brincadeira que se tornou uma referência pop. Foi num show do Sabbath que Dio repetiu o gesto, e assim, até hoje, milhões de metaleiros em todo o mundo reproduzem o sinal dos chifres, como que num ritual em homenagem a um dos sons mais controvertidos e tocados no planeta.

Eis que na manhã do último dia 16 de maio, a comunidade headbanger amanheceu num triste domingo de luto, ao saber que o ex-vocalista de bandas como Rainbow e Sabbath havia sucumbido, não resistindo a sua luta de mais de dois anos contra um câncer de estômago. Dio talvez tenha sido uma das primeiras celebridades do rock pesado a não morrer de overdose de drogas, AIDS ou tiros, e sim falecer da forma como padecem a maior parte dos outros mortais: Dio morreu de velhice! Foi de uma doença associada à velhice que o velho vocalista satânico bateu as botas, e não queimado em chamas por um raio divino, como muitos apressados religiosos fundamentalistas norte-americanos quiseram que ele morresse, nas campanhas moralistas da década de 80 contra o rock'n roll.

Ronald James Padavona (nome de batismo) nasceu em 10 de julho de 1942, em Portsmouth, estado da Virginia, nos Estados Unidos, filho de imigrantes de origem italiana. Na juventude, segundo seus biógrafos, o jovem Ronnie participava de bandas adolescentes de folk e rock no colégio, na década de sessenta, adotando o sobrenome Dio em homenagem a um famoso mafioso italiano preso na época, até se unir a colegas de sala de aula formando a banda Vegas King, que depois se chamaria Elf (primeira incursão comercial do músico com uma banda de rock), cantando por três discos nesta banda, até conhecer, na década de 70, o guitarrista Ritchie Blackmore, já famoso por sua participação na antológica banda Deep Purple, que havia saído do grupo e formado uma banda própria, chamada Rainbow. Blackmore chamou Dio para assumir os vocais do Rainbow, e assim ele ingressou no mundo do rock pesado, com seu timbre de voz característico de tenor, chamando a atenção pelos vocais inflamados e cheios de emoção, trabalhando em quatro álbuns do grupo de Blackmore. Em 1979, quando Ozzy Osbourne saía de um consagrado Black Sabbath, após as gravações do álbum Never Say Die, deixando um vácuo difícil de ser transposto, Dio foi convidado pelo líder da banda e guitarrista Tony Iommi, a assumir o lugar de Ozzy. Ciente da responsabilidade de substituir um cantor já consagrado pela fama, Dio não fez feio, e, ao contrário, desde os primeiros acordes em que começou a cantar com o pessoal do Sabbath, disse a que veio.

No Black Sabbath, Dio inaugurou uma nova fase do grupo nos primeiros anos da década de 80. Foi nessa época, na minha adolescência, morando em Brasília, que comecei a colecionar discos de rock e ouvir bandas de rock pesado. Foi nesse período que conheci o som do Black Sabbath (na formação com Dio), já que Ozzy Osbourne eu conhecia pelos álbuns solo, antes de escutá-lo nos discos da década anterior, cantando no Sabbath. Os três álbuns antológicos do Black Sabbath que Dio participou ficaram permanentemente na história do rock, nos meus ouvidos e na minha memória. Até hoje, a canção-título do primeiro álbum com Dio, Heaven and Hell, é um verdadeiro hino, com a voz lírica de Dio, acompanhando o dedilhado feroz da guitarria de Iommi. Os primeiros versos são de uma grandeza apocalíptica:

"Sing me a song, you're a singer



Do me a wrong, you're a bringer of evil


The devil is never a maker


The less that you give, you're a taker


So it's on and on and on, it's heaven and hell."

E assim Dio cravou sua passagem na história do rock. Parecia que o Black Sabbath tinha reencontrado seu rumo, com um vocalista tão ou mais carismático que o próprio Osbourne. Ocorre que no meio da década, por brigas de egos, disputas nas vendagens dos discos ou mesmo por pura babaquice, Dio e Iommi brigaram, sendo o cúmulo da separação do grupo, o prosaico episódio em que um enfurecido Dio saiu do estúdio, no meio das gravações da banda, quando, segundo ele, propositadamente diminuíram o volume de seu microfone, enquanto as guitarras bombavam no estúdio, sufocando sua voz. Dio passou a ser conhecido como um músico perfeccionista, exibido, arrogante, vaidoso e até mesmo chato, mas o que se sabe a partir de então é que ele resolveu fazer carreira própria, passando a lançar discos solo numa banda com o seu próprio nome. Nascia a marca Dio.

E como marca, pelos anos seguintes, parece que Ronnie James Dio soube conduzir bem sua carreira solo, empresariado pela esposa Wendy, e contando com bons músicos na formação das bandas de apoio que o acompanharam. Para mim, seu disco mais clássico e mais conhecido pelos fãs é o ótimo Holy diver, o disco cuja capa marcou então o símbolo da logomarca do nome da banda, além do desenho de um diabo fashion, totalmente estilizado, com sua música mais famosa, que tocava nas FMs da época, a marcante Rainbow in the Dark. A partir de então Dio fez carreira com seus discos, shows animadíssimos, uma legião crescente de fãs adolescentes e antigos devotos do Sabbath e apreciadores de heavy-metal, participando de trilha sonora de filmes, vendendo camisetas, posters e um todo um merchandising associado a sua música e sua imagem. Dio cantou com outros músicos de metal no célebre disco Hear'n aid, na canção Stars, em 1986, como parte de uma contribuição da comunidade heavy metal nas campanhas de combate à fome na África, reproduzindo iniciativas como o Live Aid, na Europa, ou o We are the one, nos EUA, patrocinado por Michael Jackson e outros músicos pop.

Uma das últimas vezes em que vi Dio com vida, além de sua participação no documentário sobre metal de Sam Dunn, foi na comédia de Jack Black, com seu grupo musical Tenacious D, em que ele interpreta a si mesmo como uma espécie de "conselheiro espiritual" do personagem de Black. Mas o canto do cisne do ex-vocalista do Sabbath se deu mesmo na turnê da banda Heaven and Hell, em 2007, uma homenagem dos ex-integrantes do Sabbath, com os velhos Tony Iommi na guitarra, Geezer Butler no baixo e Vinnie Apice na bateria, tocando sucessos dos discos da banda cantados por Dio. A turnê veio ao Brasil em 2008, e o público brasileiro teve o gostinho de ver Dio cantar pela última vez, além do registro dos shows em CD e DVD. A banda ainda lançaria em 2009 o álbum The Devil you know, com músicas inéditas. Foi o canto do cisne de um cantor que anunciou no final deste mesmo ano que estava com câncer, anunciando aos seus fãs sua retirada dos palcos para a retirada do tumor. Dio esperava voltar a cantar em breve, assim que passasse, no começo deste ano, por uma quimioterapia e radioterapia severas. Infelizmente, não foi assim que, para quem acredita, Deus quis. Dio faleceu agora, em maio.

Resta agora o legado do velho músico aos seus fãs, além de uma fundação, criada por iniciativa dele, com investimentos de sua fortuna pessoal, para estabelecer um instituto de pesquisa e combate ao câncer.Dio se foi, mas suas canções permanecem vivas, suas perfomances de palco ficarão para sempre na memória e serão reproduzidas exaustivamente no youtube, e, sobretudo, as novas gerações ainda terão muito a escutar e aprender, ouvindo as músicas do Black Sabbath, ou os álbuns solo de um músico que viveu intensamente sua época, e que cantou o espírito do heavy metal, através de seu talento e rebeldia: AND IT'S ON AND ON AND ON. IT'S HEAVEN AND HELL. Goodbye, Dio!!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Reflexão: Sobre o papel transformador da mentira!

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer", disse Mário Quintana. A filosofia da mentira é mais cara do que pensamos, pois todos mentem, cotidianamente, às vezes apenas suaves e até infantis "mentirinhas", como aquelas que dizíamos a nossas mães quando elas perguntavam se tínhamos escovado os dentes antes de ir pra escola, até chegarmos às "mentironas", aquelas que se diz ao Fisco na hora de omitir os ganhos no Imposto de Renda, ou as que são prometidas nas campanhas eleitorais; ou a pior de todas: quando o companheiro ou a companheira pergunta: "tu estás me traindo?", e você responde com a cafajeste cara mais mentirosa do mundo:" não!".

Entendo que o 1.o. de Abril deveria ser o dia dedicado não apenas à mentira, como sublime antônimo da verdade, mas sim aos mentirosos; principalmente aqueles que tem a habilidade de mentir para si mesmos. Todos nós somos os piores mentirosos do mundo quando mentimos para nós mesmos! Mentimos que queremos realmente permanecer num determinado emprego ou cargo, mentimos quando dizemos que queremos ficar com determinada pessoa, mentimos que queremos ficar numa mesma cidade, mentimos que estamos com dinheiro e pagamos todas as dívidas, mentimos que não estamos envelhecendo ou engordando, mentimos até que queremos ser felizes da forma como nossos familares desejariam que estivéssemos; mas, o pior: uns mentem até que querem viver! A pior mentira é mentir pra si próprio de que não tem problemas ou de que não precisa de ajuda. E esse tipo de mentira, pode sim, custar muito caro.

Já estive muito doente, mas doente não daquelas doenças que nos deixam gripados, febris, com a garganta inflamada, ou cheio de manchas no corpo. Minha doença não foi daquelas que quebra o corpo, mas sim a doença que quebra a alma. Vivi a doença da mentira! Na obra intitulada O Suicídio, há mais de um século, o pensador Emile Durkheim procurava estabelecer causas sociais para uma doença a que os psiquiatras atribuíam causas individuais. O suicídio não era causado somente por uma enfermidade física, por uma deterioração cerebral na parte da cachola que lida com as emoções, pois o suicídio era uma enfermidade social. Talvez cansados das mentiras tão volumosas e tão gritantes de uma sociedade (a mentira social da igualdade entre os homens é uma delas), alguns preferiram se matar; enquanto que outros, ao contrário, tão crédulos de que a sociedade representava a verdade, consideravam que suas vidas simbolizavam uma mentira, que deveria ser extirpada com o fim de suas próprias vidas (o chamado suicídio altruísta).

Não quero parecer depressivo nem tétrico em meus escritos, mas apenas veemente, talvez um pouco austero, ao confessar que, ao já ter padecido da doença, dizer agora que; como indivíduo minimamente são ou sadio, não digo que não suporto a mentira que alguns dizem, mas a mentira que alguns vivem, mentindo a si próprios que não estão doentes. A mentira do depressivo ao mentir que está alegre, a mentira do orgasmo daquele que nada sente, a mentira do psicopata ao saber que está mentindo, mas está pouco se importando com isso.

Uma coisa é certa e sabemos disso: a mentira faz mal! Não gostamos da mentira porque somos programados ontologicamente para a verdade. Sobre isso debruçavam-se os filósofos desde Platão e Aristóteles, passando por Kant com suas máximas morais (será que é racional acreditar numa verdade universal?), e assim a descobrimos na religião, como no cristianismo, onde a palavra bíblica afirmava que somente Deus era a verdade, o caminho e a vida. A verdade da vida parece não ser tão fácil para muita gente, ou talvez não seja suportável para todos. A verdade, por mais virtuosa que seja, dói! Foi dolorosa a verdade histórica dos povos que descobriram seu caminho somente através de guerras,crueldades e dor, assim como foi a verdade universal da necessidade de reconhecer o humano, descoberta apenas ao final de um holocausto,  das atrocidades de um conflito com milhões de mortos, de um conflito mundial que quase destruiu o mundo. A verdade apareceu nua e crua em Nuremberg, depois de tantos anos de mentira totalitária nazi-fascista. No Brasil, vivemos um período de mentira deslavada debaixo das baionetas, durante vinte anos de ditadura militar, e a mentira continuou sua permanência em nosso âmago quando o Supremo Tribunal Federal a chancelou, ao manter como está a Lei da Anistia, sem punir torturadores do período ditatorial. A mentira tem pernas curtas, mas é longeva!

A mentira pode servir para favorecer interesses oportunistas, como sabemos, e auxiliar os expedientes mais mesquinhos. Maquiavel ficou conhecido como um artífice da mentira no pensamento político, mas foi apenas mais um dos pensadores que descobriu que a mentira é somente uma das artimanhas de um saber instrumental vinculado ao pragmatismo das ações humanas, na busca de resultados, do que um saber veiculado a um senso moral. O eleitor gosta das mentiras de seu candidato e futuro governante, se ao menos o resultado de atender a ânsia por pão e circo for atingido. A amante gosta das mentiras de amor do Don Juan mentirosamente apaixonado, tão somente porque ele a levou ao gozo. Lembro-me do filme Underground, do diretor bósnio Emir Kusturica, onde numa passagem ,a personagem Natalya dizia ao seu amante, o inescrupuloso e ardiloso traficante de armas Marko, após uma noite de prazer: "ahh, Marko, você me diz mentiras tão lindas!". A mentira tanto pode servir como arma para os cafajestes como instrumento de defesa para os mais frágeis. Pela mentira, George W. Bush incitou o mundo a uma Guerra contra o Iraque, sob o pretexto (mentiroso) de encontrar armas de destruição em massa e assim conduziu a águia americana a mais uma horrorosa guerra, enquanto que a mentira se confirmava, com a ausência das tais armas de destruição, e a revelação da verdade, nos campos de petróleo ocupados por tanques e soldados americanos. A mentira é útil em alguns casos, porque dá muito lucro!

Mas me volto ainda à mentira daqueles que mentem seus próprios sentimentos, e por isso sofrem, assim como fazem sofrer um monte de gente ao seu redor. A mentira confere sobrevida a casamentos há muito desfeitos, assim como atrapalha muitos namoros, naufragando relações que sequer começaram a acontecer. Lembra daquelas situações em que você ou alguém próximo encontra uma pessoa recém-separada, e essa, de sopetão, ao te dar o primeiro beijo, diz que você é o amor da vida dela? Mentir para o outro, no momento em que se diz amar alguém, quando ainda não se está pronto para amar, é uma das mentiras que cobre um alto custo emocional. Mentimos para nós mesmos quando não queremos encarar a verdade da solidão. Quem já viveu e se relacionou afetivamente sabe o que é isso, sabe da dureza da verdade da solidão, e, recordando-me de Baumman, em sua interessante obra Amor Líquido, a modernidade que nos obriga a sempre ter companhia traz consigo a mentira revelada pela solidão. Não estamos com alguém, verdadeiramente, enquanto não aceitarmos a solidão como verdade inconteste, enquanto não encararmos nossas próprias verdades que a solidão nos traz. Só assim poderemos começar a deixar de mentir! Não acredito em sofredores de amor apaixonados pelo outro enquanto não encararem a verdade de um sofrimento que só pode ser vivido pelo luto. Não gosto de namorar "viúvas", enquanto o luto não foi vivido, a verdade do sofrimento não foi encarada, e, após encarar a dureza da verdade, alguém seja capaz de deixar de mentir.

Como eu havia dito, é muito fácil transformar a mentira numa filosofia de vida. Entretanto, ela pode ter um poder transformador sobre o outro quando é descoberta. Aprendemos no decorrer da vida a decodificar a mentira, a saber quando alguém está mentindo e se portar (até se proteger) disso. Assim como podemos ser mentirosos, podemos nos esquivar dos que mentem, o que, por si só, também pode ser uma atividade dolorosa ou complicada, no momento em que a mentira tece uma rede que, facilmente, pode nos enredar. Não é à toa que encontramos títulos tão manjados nas locadoras de filmes chamados "Rede de Mentiras" ou "Jogo de Mentiras". A mentira em sua metástase pode provocar verdadeiras convulsões sociais, e seu papel maléfico é relatado até nas obras de Shakespeare, tanto em comédias, como em "Muito Barulho por Nada", ou em tragédias, como em "Otelo".

Já menti muito e não digo que nunca deixarei de ser totalmente um mentiroso, mas sou verdadeiro em dizer que o aprendizado que obtive com a mentira foi o de não mentir novamente, sob pena de eu sentir o peso das amargas consequências. Como dizem as frases mais manjadas, mas também as mais certas: por detrás de uma mentira sempre existe uma grande verdade. Creio que eu não sou igual ao personagem de Jim Carrey, na comédia "O mentiroso", mas aprendi também a lição de moral do filme, que a melhor forma de escapar a mentira e falar a verdade é quando deixamos a verdade vir, exatamente de onde ela nunca fugiu: do coração. Um abraço a todos, de verdade!!!

terça-feira, 11 de maio de 2010

FUTEBOL: Seleção Brasileira-Saiu a listaaaa!!!

Tam,tam,tam,tam,tam! Eis que saiu a lista dos convocados na seleção brasileira de Dunga. Às 13 horas do dia 11 de maio de 2010, o técnico Dunga revelou ao mundo a relação dos 23 indicados, para representar a nação na mais relevante competição esportiva do planeta. Sabemos hoje que a Copa do Mundo, enquanto evento midiático, conseguiu suplantar o glamour dos Jogos Olímpicos na forma de um acontecimento que toma a atenção do mundo de quatro em quatro anos, sempre no mês de junho. O mundo pára em período de copa! O mundo respira futebol!!

E é tomando fôlego antes do anúncio da festa,  que o técnico brasileiro revelou seus eleitos, dentro de nomes que já eram esperados, e talvez não fossem surpresa pra ninguém. Enquanto que outros balbuciaram boquiabertos a ausência de craques certos, outros nem tanto, e aqueles que nunca se esperava que iriam representar o Brasil no mundial. Podemos citar as ausências dos célebres Adriano, Ronaldinho Gaúcho e o goleiro Vítor, do Grêmio, ou confirmar a convocação de titulares absolutos, como Luiz Fabiano, Kaká, Robinho e Nilmar, assim como atestar a surpresa da substituição do flamenguista Adriano (na estima futebolística de Dunga) por Grafite, atualmente jogando no Wolfsburg, da Alemanha. É! Parece que Dunga ao menos se mostrou coerente com a linha que vinha adotando durante todo o período em que assumiu o cetro de treinador.

Infelizmente, para boa parte da mídia esportiva, não foi dessa vez que foi concedida a oportunidade para o craque revelação, sensação desse ano, o jovem jogador santista Neymar. O menino de apenas 18 anos, filho de jogador e natural de Moji das Cruzes, tem deslumbrado os olhos de milhares de telespectadores do futebol nacional, com seus dribles e gols inesquecíveis, elevando o campeão paulista Santos ao título de favoritíssimo a Copa do Brasil e ao título certo do Campeonato Brasileiro, junto do consagrado Robinho, também convocado. Por falar em Robinho, o gênio das pedaladas, junto com o atual Real Madrid, Kaká, tem a sólida responsabilidade de fazer valer a fama, os milhões de investimento dos clubes e a cobrança da torcida, não fazendo feio no mundial. Diferentemente, diga-se de passagem, do fiasco da  Copa passada, onde um apático Ronaldinho, chegou a confraternizar de forma esdrúxula com os franceses, após a humilhante derrota do time nacional, pela segunda vez consecutiva na história, em uma competição de Copa do Mundo, pedindo autógrafo para um triunfante Zidane.

É! "Nunca antes na história desse país", como poderia dizer um exultante presidente Lula, fomos brindados com uma demonstração de tamanha coerência futebolística como a que foi apresentada pelo técnico Dunga. Diferente de Zagallo, que melancolicamente encerrou a sua participação em copas, numa seleção do Parreira que não convenceu, justamente pelas evidências de pressões internas que afetaram em muito a escalação do time, o planejamento do jogo e a aproveitamento de jogadores (leia-se pressão da CBF, dos cartolas, dos anunciantes de marcas esportivas e até mesmo da grande mídia, com seu enorme aparato de comerciais, propagandas e lucros divididos pela exposição de craques em má fase como jogadores); ao contrário, Dunga não se deixou levar pelas pressões e manteve seu comprometimento tão somente com sua equipe, irmanada num projeto básico, objetivo e sério de conquistar títulos. Foi assim na Copa América, foi assim na Copa das Confederações e não poderia deixar de ser diferente na Copa do Mundo. Joga na equipe de Dunga quem mostrar comprometimento e verdadeiro futebol!

Não foi o caso, infelizmente, de Adriano. Até o começo do ano, graças ao êxito da vitória flamenguista na conquista do campeonato brasileiro do ano passado, era quase certa a convocação do craque rubro-negro, ex-jogador do Internazionale. Entretanto, uma série de mancadas praticadas pelo próprio jogador, como noitadas e faltas a treinos, amizade com traficantes, e uma vida pessoa atribulada, com idas e voltas no seu relacionamento tumultado com a personal trainer Joana Machado, serviram apenas para iluminar a crônica das fofocas de revistas e jornais, mas em nada abonaram o talento do jogador carioca para representar o Brasil numa competição do tamanho da importância do mundial da África do Sul. Adriano vacilou feio, é verdade, muito em parte por conta de seus erros e faltas, apesar de ainda exibir um vistoso futebol; mas o que vem se percebendo nos últimos anos, ao menos na lógica de técnicos anteriores, como Luiz Felipe Scolari, é que o jogador pode até ser bom, ou, mais ainda, bom até demais; mas se não for comprometido e disciplinado, não embarca no voo da seleção.

Pra quem se recorda de episódios das antigas, foi isso que aconteceu com o jogador Renato Gaúcho (hoje Portaluppi, conhecido agora como treinador), na Copa de 1986, do México, quando às vésperas do embarque para Guadalajara, foi cortado do escrete canarinho, justamente pela falta de responsabilidade, ao ter furado a vigilância da concentração do time, e ter saído para uma noitada regada a muita bebida, mulheres e sexo, chegando atrasado aos treinos no dia seguinte. Na ocasião, o jogador Leandro, fundamental peça no tabuleiro defensivo do então técnico Telê Santana, aos prantos, em solidariedade ao amigo de noitada, Renato, recusou-se a embarcar junto com os demais, iniciando um melancólico périplo da seleção que iria se encerrar nos pés de Michel Platini, no fracasso brasileiro de um cambaleante Zico e de um transtornado Sócrates, na perda para a seleção francesa, na disputa de pênaltis, desclassificando o país, nas quartas-de-final do mundial (parece ser karma brasileiro perder pra França em mundiais. Mon Dieu! Increible!!).

Depois disso foi o episódio envolvendo um já consagrado campeão mundial Romário na Copa de 2002. Romário!Nosso gênio das pernas curtas! Um "macunaíma futebolístico", assim como foram outros caras-de-pau do esporte como Garrincha, Casagrande e Edmundo.Diante de um iracundo técnico Scolari, não adiantaram as lágrimas copiosas do ex-craque vascaíno diante das câmeras de televisão, quando deu coletiva à imprensa, ao saber que tinha sido cortado da seleção que embarcaria para a futura vitória do Penta no Japão. Não adiantou a catimba malandragem carioca do nosso "el pibe de oro" brasileiro, responsável junto com Bebeto e o próprio Dunga, enquanto capitão do time, pela vitória do tetra brasileiro na Copa dos EUA. Sabidamente boêmio, mulherengo e malandro, mas detentor de uma lesão muscular séria, Romário foi cortado da seleção mesmo quando o ofegante médico da seleção, Lìdio Toledo, atestou as boas condições do craque para jogar mais um mundial. Dizem que Zico, na época assistente técnico de Scolari, foi fundamental para a defenestração de Romário ( e posteriormente parte autora num processo judicial, tendo em vista os descalabros que o baixinho falou de seu ex-ídolo na imprensa, após o episódio). De qualquer forma, cumpriu-se um expediente já comum na convocação de jogadores para a seleção: se o sujeito não abraçar a causa, não tem vez!! Restou a Romário, naquela época, acompanhar a Copa do Japão, num estúdio, atrás de câmeras de televisão, como comentarista esportivo.

Exibir um bom futebol, estar vivendo uma boa fase de gols nos clubes em que participa, uma boa conduta disciplinar e entrosamento com os demais jogadores. Geralmente é isso que é cobrado de um jogador do porte de um integrante da seleção brasileira; além da pressão (como eu disse) dos clubes, dos empresários dos jogadores, dos anunciantes, da confederação de futebol, e de tantos outros interessados apenas na lógica mercadológica do esquema esportivo. Creio, perdoem-me os fãs do cara, que seja esse o caso de Ronaldinho Gaúcho, que, a meu ver, há tempos já não apresenta mais um futebol digno de nota, dos tempos em que encantava a torcida nacional e internacional com suas jogadas geniais. Ronaldinho foi mais uma vítima do sucesso (assim como foi seu correlato Ronaldo Nazário, e agora Adriano) e, de uns anos pra cá, imaturo, hesitante, ou irresponsável mesmo, viveu fases pouco dignas em sua biografia de jogador, levando o suspiro da dúvida a muitos torcedores de sua real dedicação à seleção. Será que o dentuço está nessa só pelo dinheiro? Ou, será que ele capaz realmente de vestir, com orgulho, a camisa verde-amarela? Na dúvida, Dunga preferiu deixá-lo apenas na lista de espera, daqueles jogadores suplentes que só serão convocados se der zebra no embarque de algum dos titulares para Johanesburgo.Acho que Dunga foi até generoso com o Ronaldinho, pois nem o Adriano sequer figurou na lista de possíveis convocáveis.

É isso aí, meu Brasil varonil! Como estamos já em época de Copa, resta deixar a cerveja resfriando na geladeira, tirar o uniforme canarinho do armário, ligar a TV e ficar na expectativa de mais um evento esportivo avassalador, que acompanho desde os meus 11 anos de idade. Serei mais um dos 190 milhões, que, segundo a canção, grita:"salve a seleção"! Talvez nem tanto pelo país, que tanto amo em meu patriotismo, mas pelo futebol, que amo de paixão. Pois então, que vengan! Que vença o melhor; mas, é claro, que VENÇA O BRASIL!!!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MÚSICA: Meu tributo a Jeff Buckley.

Sabe aquelas horas em que a deprê bate, você se recorda de amores passados e perdidos, a nostalgia te acomete, ou você simplesmente quer arrancar lirismo da tristeza, transformando as lágrimas num ato extremamente romântico? Bueno! Pra quem sabe o que é isso, digo que, de minha parte, arranco essas sensações ouvindo as canções de Jeff Buckley. Para mim, uma das mais belas vozes e um dos mais belos intérpretes em língua inglesa, que já surgiram na música contemporânea, tão precocemente retirado de um mundo que ele ajudou a embelezar com suas canções.

Jeffrey Scott Buckley nasceu na Califórnia, em 17 de novembro de 1966, filho do também músico Tim Buckley, e morreu jovem em Memphis, numa fria noite de 29 de maio de 1997, afogado, após nadar no rio Wolf, uma afluente do rio Mississipi, com apenas 30 anos de idade. Segundo relato de Keith Foti, um dos amigos do músico e o último a vê-lo com vida, Jeff tinha saído para nadar, cantarolando alegremente Whotta lot a love, clássico da banda Led Zeppelin, quando desapareceu nas águas frias do rio, sendo seu corpo descoberto pela polícia apenas uma semana depois.

A morte prematura do músico abalou o mundo do rock, levando-se em conta o sucesso de seu primeiro e único disco, chamado Grace,  de 1994, que até hoje possui as mais belas músicas repetidas à exaustão nas rádios alternativas e I-pods de muita gente pelo mundo afora. O single Last Goodbye, música tocada na MTV naquela época, até hoje tem diversas versões cover, cantadas por diversos músicos (famosos ou não) e serviu de trilha sonora para o filme Vanilla Sky, com Tom Cruise. A perfomance única e exuberante de Jeff, meio que intimista, lírica, vigorosa, mas romântica ao extremo, fizeram que até hoje esta música sirva como inspiração para muitas pessoas, inclusive eu, que das diversas canções prediletas que escutei e ainda escuto na vida, adoro escutar os acordes iniciais e a voz de lìmpida de Buckley, iniciando seus versos, cantando: "This is our last goodbye. Afraid to feel the love between us die....". Simplesmente lindo!

Ao ouvir Buckley e o disco Grace, rememoro os amores e desamores, passados e recentes. As alegrias, as lembranças, as descobertas afetivas, as decepções. Na música acima citada, quando Jeff Buckley canta com sua voz macia e em semifalsete o verso "Kiss me, please, kiss me! But kiss me , babe, out for desire, no consolation", simplesmente desabo. "It makes me so angry", diz ele,  "cause I know that in time.....I'll only make you cry, this is our last goodbye!". Bravoooo!!!

Em outra canção de amor desse disco, Love should come over, a versatilidade de poeta romântico, do cantor e guitarrista norte-americano, é bem observada por quem escuta essa canção, que ensina como fazer uma bela balada "dor de cotovelo", falando de solidão, sem ser piegas, ingênuo ou adocicado demais. O sentimentalismo de Buckley é a conta-gotas e na dose certa, quando, por exemplo, escuta-se a estrofe: "Sometimes a man gets carried away. When he feels like he should be having his fun. And much too blind to see the damage he'sdone. Sometimes a man must awake to find that, really,He has no one...". Ai, ai, ai. É de partir os ossos, vocês não acham?

Existem outros e maravilhosos belos exemplos de jóias musicais nas antológicas canções desse saudoso cantor californiano, como Lilac Wine, a belíssima Hallelluia, cover da clássica canção de Leonard Cohen, e muitas outras. Tem também o álbum póstumo de Jeff, Sketches from the Sweetheart for the dumb, numa compilação de inéditas reunidas por sua mãe, dois anos após sua trágica morte, com a música principal, Everybody here wants you; mas prefiro que os leitores do blog, que se interessam por música e nunca ouviram essa bela voz, desfrutem da experiência de ouvi-la e depois emitam sua opinião.

Jeff Buckley viveu e morreu prematuramente numa época em que o século passado, saturado por hipocrisia, desconfiança, guerras e falta de amor, estava prestes a acabar. Ainda não tínhamos celulares em profusão, Mp3s, i-pods, internet banda larga, e nem todo o aparato que caracterizou nossa sociedade de fim de século, com toda sua velocidade, tecnologia e incertezas. Vivi numa época em que escutar Jeff Buckley era quase como um ritual xamânico, com meus amigos fãs reunidos no apartamento de um deles, com o som ligado tocando as músicas do cara, muitas caipirinhas na cabeça, alguns com seu baseado, metidos em papos-cabeça como na música de Nei Lisboa, entre solidariedades a cada copo e a certeza única de que a música de Buckley tinha vindo pra ficar, apesar de sua precoce perda. Ouvir Jeff Buckley era um ritual universitário, assim como é para qualquer fã de Los Hermanos, Chico Buarque, Mutantes e Pato Fu. Digo apenas que a música de Jeff Buckley, apesar de ser adequada a esses momentos históricos pelos quais vivemos, pode servir ainda hoje como arma de protesto; mas um protesto suave, sútil, harmônico, em que a força das palavras, da musicalidade e da poesia, já consegue por si só transmitir mensagens que desarmam os olhares inquisidores do desamor.

Na geração atual de Lady Gagas e similares, é bom saber que ainda existem talentos genuínos, com o mesmo grau de sentimentalismo, talento real e veracidade como músicos que foram Jeff Buckley, e que hoje podemos atestar ao ouvir cantores como Rufus Wainwright, um envelhecido Morrysey, que após ter saído do The Smiths não deixou cair a peteca, e continua a fazer discos profundos e matadores, ou ainda novos talentos, como  Antony and The Johnsons. De qualquer forma, pra quem gosta, é sempre bom reescutar Jeff Buckley, formando a tribo confessa de seus ardorosos fãs, que se satisfazem com tão pouco, com apenas um belo disco, daquele que partiu tão cedo, mas que conseguiu deixar sua marca, como um anjo belo que veio ao mundo como um pássaro fugidio, para uma única revoada, com sua voz de rouxinol: que Deus te abençoe, Jeff Buckley!!!
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