segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

TRAGÉDIA: O mundo chora com Santa Maria, no Rio Grande do Sul; assim como chorou na Argentina, em Buenos Aires, oito anos atrás.

Santa Maria/RS:uma trágedia difícil de esquecer (foto:Deivid Dutra)
Nas redes sociais, em especial no Facebook, é possível localizar uma comovente frase num poema do famoso escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, divulgado ontem,  que diz o seguinte: "Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.".

O poema de Carpinejar traduz o sentimento de milhões de brasileiros que viram, ontem, estarrecidos, as cenas de agonia e horror na frente de uma casa noturna, a Kiss, situada no município de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Um incêndio causou a destruição do lugar e a morte de centenas de jovens estudantes universitários.

Em Buenos Aires, já faz 8 anos que um protesto surdo comove a cidade.
Em 30 dezembro de 2004, no bairro de Once, em Buenos Aires, Argentina, um incêndio na casa noturna Republica Cromagnon, durante um show da banda de rock, Callejeros, deixou 194 mortos e mais de uma centena de pessoas feridas. Por uma triste coincidência eu estava lá, não no dia do incêndio, mas na metrópole portenha, na primeira viagem de turismo que fiz a Argentina, chegando apenas cinco dias depois do trágico acidente. Naquela época, o tradicional reveillon em Buenos Aires, com a animada queima de fogos em torno do Obelisco, na Avenida Nueve de Julio, foi cancelado. Conheci uma Buenos Aires, já conhecida por sua melancolia romântica do tango e dos prédios históricos, mais triste e melancólica ainda. Por todos os lados, em todos os lugares, nas conversas nas ruas, nos jornais impressos, nos canais de televisão, nos bares e restaurantes, só se  falava na tragédia de Once que matou tantos jovens, inclusive crianças e adolescentes, tendo em vista que na Argentina existe um esquema de se montar creches dentro das casas noturnas, pois os argentinos tem a tradição de levar seus filhos pequenos junto, na balada. Tive a oportunidade, inclusive, de conhecer algumas pessoas, diretamente ou indiretamente vinculadas a trágedia, e soube do drama de um barman, em um boteco que frequentei no bairro de San Telmo, que me disse que seu irmão ainda estava hospitalizado, em estado vegetativo, contaminado pela tóxica fumaça inalada durante o incêndio, e que foi responsável pela morte da maioria dos jovens que se encontravam encurralados no local; desesperados e sem ter como sair, pois das quatro saídas existentes na boate, apenas uma estava aberta, enquanto as outras foram fechadas com correntes e cadeados. Uma cena de horror, infernal, típica dos mais trashs filmes de terror ou de cinema catástrofe.

Inferno em Santa Maria.(foto:Deivid Dutra)
Revivi a tragédia argentina ontem pela manhã, exatamente às nove horas, acordado por um amigo que me ligou ao celular, recordando-me do episódio ocorrido em Buenos Aires, que presenciei, e que agora estava incrivelmente acontecendo de novo no Brasil, no Rio Grande do Sul, em Santa Maria, uma bonita cidade do interior do estado que conheci no período de estudos de pós-graduação em que vivi na capital gaúcha, chegando a prestar um concurso para professor naquele lugar. As palavras são poucas para definir o pasmo, a indignação, seguidos da profunda tristeza por ver um lugar tão bonito, e de pessoas jovens tão cheias de vida, ser consumido pelas chamas, vítimas talvez do descaso do poder público, na fiscalização e na cobrança por segurança de estabelecimentos e casas noturnas. Fiquei muito triste, chocado e transtornado com o que vi, pois, pelo perfil das vítimas, conheci muitos jovens parecidos, quando fui professor do Curso de Direito, em uma faculdade há alguns quilômetros de Santa Maria, em Santa Cruz do Sul. Desta forma, entristeço ainda mais ao ver que aqueles rapazes e garotas que morreram, poderiam ter sido meus alunos, assim como podem ser alunos de colegas meus do doutorado, que agora lecionam na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a instituição da qual fazia parte a maioria dos jovens que acabaram morrendo dentro da incendiada boate Kiss, durante o show da banda Gurizada Fandangueira. O que aconteceu foi praticamente uma cópia, com poucos retoques diferenciados, do que aconteceu em Buenos Aires anos atrás. Simplesmente triste, muito triste!

(foto:Germano Rorato.Agência RBS)
A tragédia de Santa Maria já conseguiu superar em número de mortos o que aconteceu no bairro de Once, em Buenos Aires, em 2004. Já são mais de 230 as pessoas mortas, podendo aumentar esse número, além dos feridos (muitos em estado grave), que podem vir a perder a vida nos próximos dias, devido à profunda inalação da fumaça tóxica, que se seguiu logo com o incêndio. É motivo também para sentir muito pesar, verificar que os dois trágicos acontecimentos surgidos de maneira quase igual, em países diferentes da América Latina, também ocorreram no mesmo período: na época de recesso acadêmico, no final de um ano e começo do outro, quando milhares de estudantes estão de férias, muitos ingressaram recentemente na universidade, e são comuns as festas de calouros ou concluintes, lotando bares e casas de espetáculos, especialmente numa cidade universitária como Santa Maria, que possui uma imensa comunidade de estudantes que vem de diversas partes do país, para estudar em instituições de nível superior qualificadas e famosas por sua tradição acadêmica como a UFSM. 

A enorme tristeza num velório coletivo (uol.notícias).
Das vítimas encontradas mortas, espalhadas por diversas partes, caídas no interior da boate Kiss, cerca de 70% delas nasceram de famílias que viviam em outras cidades do Rio Grande do Sul, ou de outros estados da federação, alguns até mesmo vindos do Uruguai. Sabe-se que em Santa Maria vem para estudar em suas universidades estudantes que vem de longe, até mesmo de regiões do Norte e Nordeste do Brasil. Daí se calcular que a dimensão da tragédia na cidade gaúcha é tão grande, que abalou não apenas o Rio Grande do Sul, mas o país inteiro. Enquanto isso, em Santa Maria, nesse exato momento, aposto como em cada família dos cerca de 300 mil habitantes da cidade, há pelo menos uma pessoa direta ou indiretamente vinculada a alguém que morreu no trágico incêndio do dia 27 de janeiro. Se foram filhos, irmãos, namorados, maridos, esposas, sobrinhos, alunos, professores ou simplesmente um amigo. Ontem, durante o culto noturno, da igreja luterana a qual pertenço, fui saber que, infelizmente, um jovem da igreja, residente no município gaúcho de Uruguaiana, estava entre os mortos na boate que se incendiou, levando a vida de mais duas centenas de jovens, adolescentes ou pós-adolescentes, que mal estavam chegando na vida adulta e tinham uma vida inteira pela frente. É o choque de muitas famílias, de se deparar com o absurdo de ver um filho seu ou filha, em casa à noite, alegre como deve ser toda juventude, acompanhado dos amigos ou da namorada, saindo para se divertir, e horas depois, no meio da madrugada, descobre-se que aquela jovem vida terminou, por conta de uma "fatalidade", como alegaram hoje na imprensa os advogados dos proprietários da casa noturna, ou vítimas da negligência, tanto das  autoridades, quanto dos donos de estabelecimentos, no tocante aos padrões de segurança que devem ser exigidos mundicalmente, em lugares como a boate Kiss em Santa Maria, e a boite República Cromagnon, em Buenos Aires.

A presidenta Dilma solidarizou-se com as famílias dos mortos (blogplanalto.gov.br)
O que se cobra agora é a responsabilização dos possíveis autores de uma tragédia tão imensa. Sabe-se que, assim no show do Callejeros, em Buenos Aires, na apresentação do Gurizada Fandangueira utilizou-se de um aparato sinalizador que, como um foguete, produziu faíscas que incendiaram o teto da casa noturna, feito de material altamente inflamável, e, em poucos minutos, a boate inteira se incendiou, gerando um cenário de caos e desespero que pôde ser visto à exaustão pela TV, na cobertura que a mídia nacional e internacional fez do episódio. Na Argentina, quando ocorreu o incêndio em Once, no dia seguinte foi preso o proprietário do República Cromagnon, o empresário e produtor Omar Chabán. A tragédia argentina custou a cabeça do prefeito de Buenos Aires, Antonio Ibarra, cassado por impeachment, por conta de suspeitas de inércia e falta de diligência do poder público municipal na fiscalização desses estabelecimentos. No Brasil, tudo indica que a polícia e as demais autoridades adotarão procedimento semelhante. Eu já soube que um dos sócios da boate Kiss, assim como três integrantes da Gurizada Fandangueira já foram presos provisoriamente, por determinação da Justiça, a fim de assegurar que a tragédia de Santa Maria não passe impune. De qualquer forma, independente da responsabilização ou não de uma pessoa ou de várias, pelas mortes produzidas no incêndio do último final de semana, o que fica para o Brasil, e para o restante da América Latina é que tragédias como a de Santa Maria não mais ocorram, ao menos da forma anunciada como surgiram, face a completa falta de prevenção das autoridades brasileiras, que não aprenderam em nada com o triste incêndio da casa noturna argentina, há poucos anos atrás. Em memória daqueles jovens que se foram, não deixemos que Santa Maria seja esquecida, e que no futuro outros jovens não percam suas vidas de forma estúpida, por uma total ausência de fiscalização, ou pelo seguimento rigoroso das regras que proibem a utilização de quaisquer objetos inflamáveis em estabelecimentos fechados, como casas noturnas. Aos familiares das vítimas, as minhas sinceras condolências. Que eles descansem em paz, sabendo que seus algozes não ficarão impunes, assim como outros não virão a sofrer do mesmo descaso, que estas pessoas, infelizmente, tiveram ao ver ceifadas suas vidas. Para o bem desse país, TRAGÉDIAS COMO ESSA TEM QUE ACABAR!!!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

POLÍTICA: A Cegueira Ideológica no caso do Mensalão

Hoje, ao abrir o jornal, deparei-me com a foto de uma jovem estudante de Direito em Brasília, segurando um cartaz em frente a um restaurante, criticando o jantar oferecido ontem, pela Juventude do PT do Distrito Federal, em apoio aos condenados do "Mensalão". O jantar tinha o objetivo de arrecadar recursos para o pagamento da multa estipulada aos réus, condenados pelo Supremo Tribunal Federal, em valores que chegam a quase dois mihões de reais. Para isso, foram vendidas senhas que variavam de 100 até 1.000 reais, e no jantar pôde se ver discursos acalorados de quem se aventurava ao microfone, defendendo a inocência de réus como José Dirceu (um dos principais acusados e considerado chefe da organização criminosa, que gerou o "Mensalão"), além de palavras de ordem, exortando o Partido dos Trabalhadores, e enaltecendo o passado dos réus, de combate à ditadura e busca da democracia no Brasil. 

(retirado de oglobo.com)
Indiferente a isso tudo, aos gestos inflamados de (parte) da militância partidária que ali se encontrava (cerca de 100 pessoas), a estudante Marília Gabriela de Farias colocou na parede do restaurante um singelo cartaz, em que dizia que se os presentes quisessem ajudar seus amigos condenados, que dividissem com eles a pena restritiva de liberdade. Felizmente, a jovem não foi acossada e nem agredida por nenhum dos militantes que se encontraram no local, que agiram educadamente. Mas, quando a moça se retirou, foi rápida a ação de um deles em retirar o cartaz recém-fixado, não antes que uma câmera dos avisados repórteres que presenciaram o jantar, pudesse marcar esse momento único de indignação e de manifestação legítima de uma cidadã, diante de um dos mais recentes escândalos que afetaram a história política nacional.

Na década de noventa do século passado, iniciou-se na Itália a chamada Operação Mãos Limpas, liderada pelo diligente juiz Antonio Di Pietro, visando combater a corrupção no meio político e empresarial italiano. Foram tantas as denúncias, processos, julgamentos, prisões de empresários e políticos e a renúncia de muitos deles, que alguns senadores do Partido Socialista, acusados de crimes, suicidaram-se ou ameaçaram se suicidar. A esquerda e a social-democracia italiana ficaram comprometidas para sempre com aquele episódio, mas nem por isso partidos históricos, como o Partido Comunista ou o Partido Democrático de Esquerda, deixaram de ter credibilidade e força eleitoral. A Itália já vivia uma democracia, e foi por meio do voto e do ambiente democrático que políticos corruptos e demagogos como Berlusconi chegaram ao poder, para depois serem derrubados; pois isso faz parte da democracia. Na esquerda, no cenário partidário, ninguém viu morrer o ideário socialista e nem as boas propostas e os bons projetos dos políticos e parlamentares que integravam os seus quadros. Soube-se separar o joio do trigo, e descobriu-se que em qualquer espectro político, seja de direita, esquerda ou de centro, havia bons e maus políticos. Por que é não poderia ser assim no Brasil?


O ministro Joaquim Barbosa: algoz dos reús do Mensalão.
Temos uma tradição que já remonta anos de exploração capitalista e o predomínio de regimes autoritários em nossa história política republicana, em que ser militante de esquerda e ingressar num partido político de origem operária e francamente socialista (como foram o PCB, o PC do B e o Partido dos Trabalhadores), parecia funcionar como um salvo-conduto de ética, honestidade, coragem e compromisso cívico com as causas da justiça social  no combate à desigualdade e distribuição de renda; como também era um convite para a perseguição politica e para uma injusta cadeia. Quem iria de encontro a essas bandeiras, que hoje já se encontram plenamente integradas na linha do politicamente correto, e iria questionar as injustiças que sofreram os militantes de esquerda na ditadura, em prol da volta à democracia no Brasil? Os militantes do passado, dentre eles Dirceu e José Genoíno, condenados no julgamento do STF, são protagonistas históricos de um passado situado no século XX, envolto na Guerra Fria, nas disputas ideológicas entre esquerda e direita, e vítimas de uma sangrenta ditadura militar. Ninguém questiona o passado desses homens e nem as privações que eles passaram, mas o que se questiona hoje, é se mesmo essas pessoas estariam imunes a uma legalidade do presente, num regime democrático atual, num Estado Democrático de Direito que esses senhores sempre lutaram e que agora conseguiram ver instaurado no Brasil. Lembremo-nos de que o relator do processo do Mensalão, o ministro Joaquim Barbosa,  primeiro afrodescendente a assumir a cadeira de chefe do Poder Judiciário brasileiro, foi indicado para o Supremo graças a uma recomendação de Dirceu, na época em que era o todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, no Governo Lula. Na ocasião, Dirceu levou em conta a seriedade e o currículo de probidade do hoje célebre magistrado, permitindo-lhe ser o primeiro negro a ocupar a cúpula do Judiciário, como também o homem responsável por sua condenação. Quer paradoxo mais irônico do que esse, fruto de uma democracia conquistada por aqueles mesmos militantes de esquerda que combatiam a ditadura, que agora foram condenados pela Justiça de um Brasil democrático?

Dirceu e Genoíno:figuras históricas, mas não imunes.
Porém, parece-me que ao menos no PT, ou, leia-se, em parte do partido, não se compartilha do mesmo pensamento e nem se chega pela via da interpretação democrática da Constituição a essa mesma linha de convencimento. Pude ver há meses atrás, como pode ser grande a ignorância e paranoia de alguns militantes, acerca do antepetismo da imprensa nacional, tendo chegado às raias da loucura e da violência, quando um repórter do CQC foi agredido e xingado por bravateiros militantes do PT paulista, simpatizantes ou integrantes do grupo do deputado José Genoíno, que no segundo turno de votação das eleições para prefeito de São Paulo, no mês de novembro passado, quase atropelaram a equipe de reportagem da TV Bandeirantes, destruindo equipamentos, xingando os repórteres de torturadores, enquanto um enrrolado Genoíno só se fazia proteger por uma tropa de marmanjos e seguranças, sem encarar com hombridade os jornalistas, como outrora encarou os militares, ao ser preso no meio da mata, nos anos setenta, durante a Guerrilha do Araguaia. Cadê aquele Genoíno que me inspirava respeito nos anos de chumbo? Parece que as coisas mudam quando se trata de uma democracia, mesmo que construída imperfeitamente entre suas desigualdades, e que muitos, ainda acreditam, numa interpretação marxista, que se trata apenas de uma democracia de classe.

Sem querer entrar no debate ideológico tradicional da esquerda de ser ou não ser marxista, entendo que, independentemente de se defender ou não as ideias do genial filósofo e revolucionário alemão Karl Marx, creio que muitos irão concordar que vivemos tempos bem distintos daqueles enfrentados por antigos próceres da esquerda brasileira, como José Dirceu e José Genoíno, há quarenta anos atrás, quando enfretaram uma ditadura militar no Brasil. Aos réus do Mensalão foi assegurada a ampla defesa, prevista constitucionalmente, permitiu-se o contraditório, o processo durou quase dez longos anos até ser concluído, e todos os acusados se valeram dos melhores e mais bem pagos advogados do país, que até o ínicio do julgamento acreditavam na vitória e na inocência dos seus clientes. Alega-se que o julgamento foi comprometido pela intervenção da imprensa, mas quem, figura pública presente na política nacional de hoje em dia, está imune à publicidade e a notoriedade através da mídia, independente de seu partido ou filiação ideológica? Poderiam me dizem que se trata de perseguição, se ao menos o governo ou a estrutura do Estado não estivesse, atualmente, nas mãos do partido político e dos aliados da mesma legenda dos acusados no processo do Mensalão, mas não é o que acontece. Na verdade, enquanto militantes do PT, na crítica ao Mensalão, retomamos os nossos cacoetes de esquerda, voltamos ao esquerdismo infantilizado e doentio que criticava Lênin, nos idos da revolução bolchevique de 1917, e não conseguimos ver que males tão comuns à política burguesa, como o favorecimento ilegal ou atos de corrupção generalizada, podem também atingir políticos e representantes de esquerda. Para políticos como Dirceu, se não houve Mensalão algum, ao menos houve um erro de cálculo político, que nos dizeres do ex-presidente tucano, Fernando Henrique Cardoso, custou tristemente a reputação e a biografia de um homem, até então admirado até pelos seus adversários políticos. Os réus petistas do Mensalão acabaram por se render ao realpolitik, à tese do governismo a qualquer preço, e por isso, pagaram um preço muito alto, que custou mais do que os mandatos, os cargos públicos e uma temporada na prisão, custou toda uma credibilidade e respeito no âmbito da política brasileira.

 Não se pode dizer nem que os réus do processo do Mensalão não tivessem sido ouvidos pelos meios de comunicação, sem a oportunidade de expor sua versão. Em alguns periódicos alinhados com o governo, como a revista Carta Capital, ou com um pensamento critico e de esquerda, que destoa muito da imprensa reaçonária, como a Caros Amigos, pode-se ver que os petistas defensores de Dirceu e Genoíno não poderiam reclamar da falta de tratamento igualitário pela mídia. Até a revista Piauí, vendida pelo Grupo Abril, mas bem distinta da panfletária e antigovenista Veja, deu um espaço imenso em uma de suas edições, com mais de seis páginas, numa extensa reportagem sobre Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, e um dos primeiros envolvidos nas denúncias do Mensalão, expondo toda a sua tese de defesa, e a afirmação de que o Mensalão nunca existiu.

Apenas sei que no jantar em Brasília, de arrecadação de fundos para pagamento da multa imposta aos mensaleiros, não compareceu nenhum representante do diretório nacional do PT e nenhuma das estrelas do partido, ou políticos e parlamentares de grande representatividade na legenda. Parece-me que o partido está fragmentado, com diversas opiniões sobre o caso; mas a certeza que se firma é de que ninguém da bancada do PT no Congresso ou membros do governo da presidente Dilma Roussef, quer se meter no destino dos condenados no processo do Mensalão, deixando que os réus sejam entregues às feras da opinião pública nacional. Até o momento, não se viu qualquer manifestação ostensiva do governo ou qualquer intenção do Executivo de interferir numa decisão soberana da Justiça. Apenas, em nível interno, publicou-se documentos dentro do PT, questionando a decisão do STF (entendida como uma decisão política e não jurídica), assim como, no Congresso, através do Presidente da Câmara, deputado Marco Maia ( da mesma legenda de alguns dos réus condenados), o Parlamento manifestou-se pelo não cumprimento da decisão do Supremo, sem que o Poder Legislativo seja consultado, uma vez que, constitucionalmente, trata-se de uma questão de separação de poderes, e disso eu não questiono.

O que questiono é o fervor cego, quase religioso ou meio stalinista de alguns militantes componentes da claque de Genoíno ou do ex-ministro José Dirceu, na defesa desses réus condenados, e em sua fúria ensandecida de achar que ambos foram vitimas de um complô, efetuado pela mídia burguesa e pelas "forças ocultas" da direita do Brasil, encastelada no Judiciário brasileiro. Conheci pessoalmente essas pessoas, quando militei ativamente no PT em tempos passados, na juventude, mas nem por isso endeusei ninguém e nem achei que a figura desses combatentes da ditadura fosse isenta de erros e imune à críticas, pelo fato desses senhores já se tornarem personagens históricos. Acho, de fato, um exagero reunir militantes num jantar de apoio, para arrecadar fundos para pagamento de multas de réus condenados no processo do Mensalão, mas isso é direito de qualquer um, e cada um sabe o que fazer com seu dinheiro e suas doações. De mim, entretanto, eles não terão um centavo sequer, por uma questão de respeito à legalidade e de princípios. Porém, o que considero um problema é o culto à personalidade. Esse tipo de fenômeno na política, baseado num personalismo de esquerda, geralmente leva à viradas autoritárias, e isso me assusta muito! Se a nossa democracia é imperfeita, que não sejamos levados à imperfeição do fracasso autoritário ou populista por meio de stalinismos, maoísmos, castrimos, chavismos, lulismos ou outros "ismos", que podem levar a mais uma derrocada de um projeto de esquerda revolucionária no Brasil e na América Latina. Espero que, com seus militantes endiabrados, querendo desafiar a lei e o Judiciário fundados num Estado Democrático conquistado com tanta luta, não estejamos gerando um "Dirceusismo" ou um "Genuínismo", em prol da impunidade e da corrupção. Vade retro, isso!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

POLÍTICA: Lixo Extraordinário na cidade do sol (ou, como a ex-prefeita de Natal, Micarla de Sousa, contribuiu para destruir uma cidade e a si própria)

Na avenida Bernardo Vieira, lixo. (retirado de jornaldefato.net)
Quem vive ou visitou a cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte,  na última semana de 2012 anterior ao reveillon, deparou-se, no mínimo, com uma cena inusitada: na Avenida Bernardo Vieira, uma das maiores da cidade que une a zona norte a zona sul, viu-se durante boa parte do trajeto milhares de sacos de lixo pendurados em muros e grades, numa cena apocalíptica, que bem poderia ter aparecido no seriado de TV, The Walking Dead, que trata de um futuro devastado, infestado de lixo, podridão e zumbis. Só que o problema é que, em Natal, não foram os zumbis os maiores prejudicados, mas sim os vivos, que viram seus impostos escoarem pelo ralo, na última administração municipal. Ao problema do lixo, e a dificuldade da Prefeitura de arcar com os gastos da coleta e pagamento dos contratos referentes à limpeza urbana, somaram-se uam série de outros transtornos que podem ser creditados à péssima gestão da ex-prefeita da cidade, Micarla de Sousa, jornalista e comunicadora, dona de uma emissora de televisão (a TV Ponta Negra) que reproduz o sinal da emissora SBT, do grupo Silvio Santos, em terras potiguares.

Micarla nos tempos de campanha. O rostinho bonito  não foi suficiente para debelar a rejeição.
Durante seus (quase) quatro anos de gestão, interrompida nos últimos meses por decisão judicial, a ex-prefeita Micarla de Sousa conseguiu bater um recorde nacional: ela foi a mais mal avaliada prefeita de toda a história republicana, em uma capital do Brasil, em termos proporcionais (cerca de 91% de rejeição popular). O repúdio da população natalense a sua administração foi tão grande, que ela sequer saiu candidata a sua própria reeleição, fazendo com que seu antigo partido, o PV (Partido Verde), não lançasse candidato, produzindo um vácuo político nunca dantes visto na história da administração pública municipal. Acusada de corrupção em contratos superfaturados na Secretaria Municipal de Saúde, e afastada do cargo cerca de três meses antes da posse do novo prefeito eleito, Carlos Eduardo, Micarla produziu uma reação em cadeia ao final de sua atrapalhada gestão, que culminou com a cidade de Natal passando dias sem ter um prefeito, uma vez que um imblógrio jurídico fez com que seu vice também fosse afastado, por denúncias de improbidade, e o Presidente da Câmara dos Vereadores, aliado da ex-prefeita (e não reeleito para o cargo de vereador), rejeitasse o cargo e não assumisse a Prefeitura, sendo que o único responsável pela assinatura das obras de mobilidade urbana da cidade para a Copa de 2014, e governante apto a autorizar o pagamento do funcionalismo, fosse o segundo-presidente da Câmara, o ex-vereador Ney Lopes Jr, que também não foi reeleito. Enfim, uma bagunça política sem precedentes na terra de Câmara Cascudo.

Talvez demore décadas na crônica política e nas teses acadêmicas para que se defina o que foi o "fenômeno Micarla"; ou, ao contrário, por ter sido uma gestão tão mal avaliada, tão negativa e tão medíocre, talvez daqui há poucos meses o governo de Micarla de Sousa não mereça sequer uma nota de rodapé na imprensa, ou num livro de história. De qualquer forma, o que se torna interessante de analisar é de, até que ponto uma das cidades mais promissoras do Nordeste brasileiro, com um alto grau de visitação externa face a seus badalados pontos turísticos, posição geográfica, ar puro, clima ensolarado e belas paisagens, caiu numa arapuca política sem precedentes, ao fazer com que um eleitorado de mais ou menos 526 mil eleitores (segundo dados recentes do TSE), escolhesse para governar a cidade há quatro anos atrás, numa vitória garantida no primeiro turno, uma mulher que se revelou uma das mais despreparadas e desprestigiadas governantes de uma metrópole regional.

Essa história começa em parte com forma tradicional de se fazer política no país, sobretudo nos rincões de regiões do Nordeste do Brasil, após o fim da ditadura militar. No período autoritário de nossa história, após o Golpe de 1964, consolidou-se nessa região uma politica oligárquica, herdeira do velho "coronelismo" que vigorava nessas regiões desde os primeiros anos do Brasil República. O coronelismo oligárquico, onde o poder político encontrava-se concentrado nas mãos de poucas famílias latifundiárias abastadas e articuladas politicamente, preponderou (e ainda prepondera) em muitas áreas rurais do país, sendo que nas capitais, mais urbanizadas, adotou-se um estilo de fazer política cada vez mais parecido com aquele desenvolvido nos grandes centros urbanos: por meio do populismo midiático. Nesse sentido, Micarla seguiu uma escola iniciada por seu pai, o falecido ex-senador (e ex-deputado federal) Carlos Alberto de Sousa.

A família reunida,o finado senador Carlos Alberto,pai de Micarla e sua inspiração política.
Carlos Alberto foi um dos mais célebres políticos populistas do Rio Grande do Norte, da década de oitenta do século passado. Exímio comunicador e radialista eloquente na década de setenta, não demorou para que o pai de Micarla galgasse espaços na política, primeiro elegendo-se vereador, depois deputado estadual, tornando-se deputado federal, até conseguir alcançar o cargo de senador da República, donde expandiu todo o seu capital político nos meios de comunicação, duelando com seu antigo benfeitor e empregador, o líder político Aluizio Alves, do PMDB. Migrando para o extinto PDS, partido dos militares, como forma de se desvencilhar de seu antigo líder, Carlos Alberto assumiu-se definitivamente como um político de direita, ingressando em partidos neoconservadores, como o PFL, até encerrar sua carreira política pelo PSDB, quando morreu no exercício do mandato, vítima de leucemia, em 1998.

A exemplo de outros ex-comunicadores que migraram para a política, como Antony Garotinho, no Rio de Janeiro, e Afanásio Jazadji, em São Paulo, Carlos Alberto de Sousa abusava dos cliquês radialísticos em seus discursos, distribuindo todo tipo de promessas e agrados para seus eleitores, como dentaduras, cadeiras de rodas, bujões de gás,  e tijolos. Quando inaugurou seu canal de televisão, ele podia ser visto em seu programa semanal, intercalando gestos de filantropia com críticas ao seu principal inimigo político, do PMDB. Foi com essa imagem de político demagogo, mas afável, com fala articulada e predileção pelos mais pobres, que Carlos Alberto fez escola, tendo como principal aluna sua própria filha, a primogênita de três mulheres que o velho pai havia preparado para seguirem seu legado. Se Carlos Alberto conseguia atrair seus eleitores pela espetacularização da política, tentando eleger a esposa prefeita, numa malfadada campanha teatralizada, que tinha até episódios de abertura de uma caixa embrulhada num palanque, durante os comícios, em que aparecia sua mulher de dentro do pacote, a campanha de Micarla caracterizou-se pela imagem da borboleta, um inseto singelo, que de sua fragilidade conseguia obter a simpatia de milhares de eleitores que, na crença por renovação, acreditavam piamente que a herdeira do velho senador carismático, seria como prefeita o que ela aparentava ser na televisão: uma mulher jovem, mas decidida, com fama de boa administradora e sensível aos reclamos populares, que iria promover em Natal a inclusão dos mais humildes. Ledo engano, pois, como política, Micarla revelou-se uma boa atriz.

Foi como atriz que Micarla de Sousa ensejou uma campanha eleitoral que iludiu um eleitorado inteiro, com suas promessas de renovação e mudança. Discordo daqueles que afirmam que o natalense não sabe votar. Na verdade, a população da cidade vota pela renovação, seja ela numa perspectiva revolucionária, seja na mais conservadora das escolhas. Vide a composição recente da Câmara Municipal, com a eleição de parlamentares tão díspares entre si, como díspar é a votação em Natal: a vereadora Amanda Gurgel, do PSTU, e o vereador, Dagô, do DEM. Ambos representam as antípodas de uma extrema-esquerda e uma extrema-direita no Brasil, e ambos foram empossados pelo voto, em votações consagradoras. Enquanto que a Amanda representa a renovação pelo inconformismo, na campanha vitoriosa e midiática de uma professora, que conseguiu calar os deputados e se tornar famosa nacionalmente, graças a um vídeo do Youtube, onde denunciava as já conhecidíssimas condições salariais dos professores e a precária situação da educação brasileira; Dagô firmou sua campanha num jingle único, mas divertido, como uma espécie de Tiririca local, carregando num carro velho um boneco gigante de si próprio, suplicando aos eleitores através de um megafone que o ajudasse. Esses dois vereadores personificam, de formas totalmente diferentes, os anseios de mudança de uma população que pode ser tão revolucionária quanto conservadora. Foi justamente através dessa característica peculiar do eleitorado local, que Micarla vendeu o seu peixe, cobrado de forma extremamente cara pela população de Natal.

Protesto popular na Câmara dos Vereadores. A gestão de Micarla não agradou.
No governo de Micarla foram  tantos os atropelos, desacertos, desgovernos, incoerências, rupturas, entradas e saidas de secretários, passeatas e denúncias, que fica difícil enunciar apenas um, dos vários aspectos negativos de seu governo. Para listar apenas alguns (fora o lixo, que serviu para coroar quatro anos de total descaso administrativo), a Previdência dos servidores municipais (chamada de NATALPREVI) foi estranhamente esvaziada. Segundo secretários do atual prefeito, que assumiu recentemente, pode ter havido crime de apropriação indébita, uma vez que cerca de 5 milhões de reais já haviam sido recolhidos dos servidores e tais valores não foram repassados para a  entidade previdenciária. Houve também pendências  nas prestações de contas e nos convênios, numa administração que torrou dinheiro (sem dizer para onde) do Município, esvaziando as contas do poder público até chegar a uma dívida atual de 500 milhões de dívida que a Prefeitura tem  com seus atuais devedores. Isso se materializa em escolas com mal funcionamento, postos de saúde fechados ou sem medicamentos, prédios de secretarias funcionando à luz de velas e funcionários sem saber se irão receber seus salários. A folha de pagamento está tão comprometida, e ultrapassados todos os limites possíveis definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que o atual gestor, recém empossado, não sabe ainda se com o enxugamento da máquina pública e a extinção ou diminuição de cargos comissionados será suficiente para estancar um problema financeiro tão sério. Soma-se a isso os problemas ambientais e de estrutura urbana, que exploram a contradição de uma prefeita que se elegeu por uma legenda ambientalista e com a bandeira do meio ambiente. O viaduto do Baldo, um dos mais antigos da cidade, localizado no centro, corre o sério risco de desabar  por falta de manutenção e está interditado. Este ano, após mais de 30 anos de comemoração, as festas de Reveillon não aconteceram pela primeira vez na orla do bairro de Ponta Negra, zona sul de Natal, considerado um dos pontos mais badalados e de maior atração turística da cidade, por conta de seu calçadão, que por ausência de manutenção da Prefeitura, também desabou. Natal se tornou uma cidade em frangalhos, após a administração de Micarla de Sousa.

Das redes sociais, o  "Fora Micarla" acabou se transformando em fenômeno cívico.
Entretanto, se algo de bom pode ser atribuído à gestão de Micarla na Prefeitura de Natal, pode-se citar a capacidade que ela teve de reunir uma oposição popular tão organizada. Micarla foi responsável, indiretamente, pela ressureição dos movimentos sociais.Nos dois últimos anos de seu governo, foram tantas as manifestações de rua, e os movimentos organizados a partir das redes sociais, através do Twitter, com campanhas como o #foraMicarla, que tais movimentos acabaram sendo manchete nacional. As mobilizações culminaram com uma inédita ocupação da Câmara dos Vereadores, por mais de doze dias, com direito à vitória na Justiça, impedindo a Polícia Militar de fazer os manifestantes se retirarem; além de protestos contra o aumento abusivo de passagens de ônibus, que gerou cenas de confronto de populares com a Polícia, que nada tem a perder em relação aos protestos contra a crise na Europa. Com esses movimentos surgiram novos líderes, novas propostas e revelou-se a toda a população de Natal o descalabro administrativo que a cidade estava passando, e um novo marco do exercício de cidadania passou a ser desenvolvido por meio das críticas à administração da prefeita-borboleta que se tornou mariposa.

O calçadão da praia de Ponta Negra, totalmente destruído pelo descaso.
Enquanto isso, ainda respondendo a processo na Justiça instaurado pelo Ministério Público por suspeita de enriquecimento ilícito (o mote da ação judicial diz respeito aos gastos da ex-prefeita e seu modo de vida, totalmente incompatíveis com o salário que recebeu na Prefeitura), abandonada por seus antigos aliados e destituída da direção de seu partido político (o PV) no  RN, a ex-prefeita de Natal, Micarla de Sousa, permanece reclusa em sua residência, dando apenas breves comunicados na imprensa, quando consente em dar entrevistas, posando eternamente como vítima, ou como se os problemas não a atingissem. Fingindo ser, talvez, uma sociopata, ou se comportando como uma ótima atriz, a ex-prefeita, agora convertida ao Evangelho, estabelece um discurso religioso e messiânico, preocupada apenas com a salvação das almas, e não com a salvação dos cofres públicos que sua gestão ajudou a dilapidar.

Viaduto do Baldo:este, ameaça desabar.
Agora, resta ao atual prefeito, recém empossado, Carlos Eduardo Alves, que assume pela terceira vez o governo municipal, dar conta do abacaxi monstruoso que se tornou administrar uma cidade com tantos problemas como Natal, tirar a capital potiguar do atoleiro e deixar a cidade, ao menos dignamente em condições de receber um evento esportivo internacional, da magnitude de uma Copa do Mundo, em 2014. Restam-lhe pouco mais de um ano para conseguir o milagre de reabilitar a cidade, devastada por uma prefeita que não assumiu efetivamente o cargo, mas brincou de administrar, revelando que, na verdade, como jornalista e comunicadora, Micarla não fez o dever de casa, e nem conseguiu honrar o legado populista de seu pai, contribuindo não apenas para o descrédito de sua administração, mas para o descrédito de si própria, transformando-se numa paródia, num cadáver político, que sequer consegue andar nas ruas de Natal sem receber uma vaia. É o triste fim da borboleta que queria ser algo mais na vida dos natalenses. Eu não lamento por isso! Já vai tarde, Micarla!!
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